
Às vezes nem os mais sangrentos jogos de aventura ou os mais explosivos filmes de ação conseguem satisfazer a sua busca por adrenalina. Se você já não vê mais graça em explodir miolos de zumbis ou resolver os mais perversos enigmas para salvar o mundo ou a própria pele de um vilão demoníaco, tenho uma experiência cheia de desafios para te apresentar.
Neste jogo, sair à noite desacompanhado em uma simples caminhada se torna uma experiência mais assustadora do que clipe de terror do Michael Jackson. O medo de ser assaltado, sequestrado ou levar um tiro fica pequeno perto da ameaça de estupro que ronda cada esquina. E nem precisa ser noite para uma simples caminhada se transformar em uma aventura digna de Indiana Jones: a qualquer hora do dia, andar na rua significa desviar de obstáculos, como cantadas perversas, abordagens invasivas e avaliações cretinas sobre o seu corpo, feitas em alto e bom som para todo mundo ouvir e acabar com o seu dia, detonando a sua barra de energia a cada “quero te chupar todinha”.
Experimente o desafio de sair com vida de um relacionamento abusivo, em um sistema programado para você ser considerado posse de outro personagem. Em vez de ser premiado por tomar a iniciativa e fazer as próprias escolhas, você corre o risco de perder a vida se essa iniciativa for romper com um namorado ou um marido possessivo. Para deixar tudo mais emocionante, nem quando você consegue se livrar desse desafio sua vida está a salvo, pois seu algoz vai estar à solta, só esperando o momento certo de esfaquear você. Nada mais eletrizante do que não saber quando seu marido vai te descer a porrada de novo ou quando seu ex vai te encontrar e atirar em você. Isso, é claro, se você conseguir passar da fase “medo de denunciar o agressor porque a casa é dele e não consigo me sustentar sozinha já que precisei abrir mão de tudo para cuidar dos filhos que tive com ele”.
No final de cada escolha que você fizer, desde o tamanho da roupa que você escolhe para sair, até a profissão ou se vai ter filhos ou não, prepare-se para enfrentar o chefão do julgamento da sociedade. Seus golpes tem o poder de deixar você atordoado e sem saber como prosseguir no jogo, já que você terá a sensação de que, não importa o que faça, estará sempre errado: se você envelhece, é trocado por uma mulher mais nova e fica com a reputação manchada; se você casa com um homem mais velho, fica com a reputação manchada porque só pode ser uma vadia interesseira; se você é feia, vai precisar fazer de tudo para ficar bonita; se é bonita, só pode ser uma mulher superficial, burra e interesseira. Não basta esse quebra-cabeças ser impossível de ser resolvido, ele ainda vai devorar você no final.
Você vai precisar do dobro do esforço para provar que você é habilidoso ou competente em alguma área e que não chegou até ali porque conseguiu algum “cheat” transando com o chefe. Você vai ter que levar uma vida com as mesmas dificuldades e angústias de um personagem normal, mas com o “plus” de tentar lidar com o bombardeio de mensagens e imagens dizendo o quanto o seu corpo é inadequado, como um Tetris de propagandas de “emagreça mais rápido”, “alise o seu cabelo crespo” e “clareie suas axilas” que se acumulam na sua frente até obstruir completamente sua visão. Você vai ter que enfrentar o desafio de uma gravidez, mesmo que isso custe a sua vida, só porque você nasceu e cresceu ouvindo que ser mãe é o propósito da vida de toda mulher, além de ter que ouvir todo tipo de pitaco sobre a sua gestação, como se o seu corpo fosse de domínio público.
E, enquanto você tenta se concentrar em superar todos esses desafios e sobreviver a tantos inimigos, como se já não fosse o suficiente, você ainda terá que ouvir, como trilha sonora ininterrupta, piadinhas sobre como mulheres só deveriam pilotar fogão, sobre como uma mulher feia deveria agradecer por ser estuprada, sobre falta de louça para lavar, ou sobre como uma mulher “vadia” pode ser comparada a uma fechadura que abre com qualquer chave. Tudo isso em looping. Uma centena de milhões de vezes. Até você ter quase certeza que já decorou todo o repertório (então aparece um novo absurdo para acabar com a sua concentração e suas forças). Este é um jogo apenas para quem tem nervos de aço.
A única coisa fácil desse jogo é chegar ao Game Over: seu jogo pode acabar com você morrendo pelas mãos do seu parceiro ou de seu ex; na tentativa de aborto clandestino; porque alguém simplesmente não aceitou que você pudesse ser mulher mesmo tendo nascido do sexo masculino; porque você não sobreviveu ao distúrbio alimentar que desenvolveu por não aceitar o próprio corpo; por você ser da cor errada e estar mais vulnerável à violência, abuso e descaso; tudo isso sem poder contar com vidas extras. É só uma e boa sorte.
Para passar por essas e outras experiências arriscadíssimas, nem é preciso dispor de um console, controles, cd’s ou cartuchos: basta ser mulher. É aí que se descobre porque as coisas são tão absurdamente difíceis, porque não há vidas extras e porque não é possível desligar o console ou trocar o jogo para algo mais recreativo e menos apavorante, como um PacMan. Para você, um privilegiado que pertence ao gênero “certo”, talvez a ideia de passar pelos desafios aqui descritos possa mesmo não passar de um jogo; se não um com interface em 3D, ao menos um jogo de imaginação. Mas, para mais da metade da população mundial, essas dificuldades são reais.
Porque, pelo menos enquanto as coisas continuarem como estão, estaremos condenadas a viver perigosamente, em um mundo que, além de não ser seguro, como o calabouço cheio de armadilhas das fases mais cascudas do Super Mario, não foi feito para a gente ganhar. Nunca.
Porque ser mulher é jogar a vida no hard.
***
Aproveitem e leiam esse texto (em inglês): Straight, White, Male: the lowest difficult setting there is, de John Scalzi.

Não sei se são os longos períodos de seca que nos fazem esquecer, mas cada vez que chove parece que é a primeira vez. As pessoas reclamam das ruas alagadas, lamentam não poderem sair ao ar livre, ficam abismadas com os desastres e acidentes causados pela chuva, ficam apreensivas com a previsão do tempo para o fim de semana e veem com alívio os vendedores de guarda-chuva nas calçadas.
Cada chuva ganha a importância de um evento único, vira assunto com desconhecidos, vira pauta no noticiário da tevê, vira motivo de preocupação para os governantes.
Quando para de chover e as ruas secam, é como se nunca tivesse chovido. É vida que segue.
Não estava chovendo quando cheguei à conclusão de que, no grande esquema das coisas, a nossa própria existência é essa chuva passageira, com a (óbvia) diferença de que, depois que para, ela não volta a chover. Enquanto existimos, damos grande importância a cada pequeneza que envolve a nossa existência, seguimos as regras como se o mundo dependesse disso e brigamos por coisas que nem vão mais existir daqui a dez anos. Estamos aqui criando, falando coisas, fazendo filhos, fazendo guerras, provocando desastres e mudando a geografia do planeta como uma tormenta que em breve vai passar. Para o universo, vai ser como um chuvisco de verão, um pingo inconveniente. Mas vai passar.
***

por falar em chuva: nuvem de vapor no espaço com 140 trilhões vezes mais água que a Terra.
Quando eu era nova demais para saber das coisas e ainda não tinha aprendido que temos coração, intestino, cérebro e veias, eu jurava que, por dentro, o corpo humano era cheio de planetas. Que se alguém me abrisse, veria constelações e planetas boiando em um infinito negro. Eu sei, uma bobinha. Mas eu não deixava de ter razão: somos feitos da mesma matéria que se espalhou pelo universo formando planetas, estrelas, vida, tudo o que conhecemos e outras coisas que ainda nem chegamos perto de imaginar. Então sim, o universo está dentro de nós.
Sabendo disso, é impossível ignorar as dimensões cósmicas do negócio em que a gente se meteu. Que o que parece grande e importante para a gente não é nada perto das grandezas com as quais o universo está acostumado a lidar. Que a Terra é um troço insignificante na escala do tempo e do espaço e que não pode nem se considerar especial por abrigar uma forma de vida senciente que inventou a internet (especialmente por ter inventado a internet), porque só a gente acha a humanidade digna de nota, até onde se tem notícia.
Sabendo que somos feitos da mesma matéria do universo e sabendo que até o sol vai se apagar um dia, é impossível ignorar que também deixaremos de existir, não apenas individualmente, mas como espécie ou como marco do que quer que seja. E que o nosso fim, assim como o fato de estarmos fincados nesse planeta, respirando e usando a internet, não é nem minimamente relevante.
Aí nos apegamos a tudo isso aqui com uma imensa vontade, só porque é difícil aceitar o quanto somos desimportantes. Mas a ideia de sermos efêmeros não deveria ser tão desesperadora quanto saber que estamos lançados numa imensidão insondável e não temos nem onde nos segurar. A boa notícia é justamente que isso vai passar.
“Considerando o tempo que passamos existindo e o tempo que passamos não-existindo, nosso estado natural é a não existência. Existir seria apenas um breve soluço, um glitch, um bug, dentro de uma perfeita, plena e eterna condição de não-existir.”
***
Nesse momento, eu estava tentando prestar atenção em qualquer coisa que não fosse a minha imensa azia. Na mesa do bar, uns amigos jogavam conversa fora – já que eu sou sempre a pessoa menos falante da mesa – e eu só pensando na grandiosidade do universo, em como aquele momento era insignificante e que, em breve, nem eles, nem o garçom nem o pedaço de chão onde estava a minha cadeira iriam existir mais.
Mas, para uma existência assustadoramente curta e passageira, a minha azia até que estava demorando a passar.
Quanto mais eu tentava pensar em outra coisa, maior ficava a minha azia. De repente, ela era a maior coisa no bar, na cidade, no planeta. A azia ficou maior que o mundo, maior do que eu. Ficou do tamanho do universo.
Mas o final da história você já sabe. A azia passou, fui para casa, dormi, acordei para um novo dia. Porque tudo passa: a chuva, a dor, o cosmos. Inclusive – e principalmente – nós.

Carta que recebi do leitor Pato Donald:
onde estão as mensagens pessoais no mundo das indiretas?
por que todo mundo manda bilhetinhos, torpedos e sms, mas muito raramente recebemos uma carta, uma folha inteira, um parágrafo que a gente tem vontade de tatuar, um poema que a gente decora e guarda pra sempre, uma canção?
a nossa geração é a que mais escreve, e a que menos toca o outro?
Querido leitor,
Seu questionamento me lembrou de um estudo que li recentemente. Pesquisadores da Universidade de Munnford descobriram que há uma relação direta entre o impulso de se comunicar e a qualidade dessa comunicação.
Talvez eles tenham feito o estudo movidos por essa sua angústia. Mas é só um palpite.
A pesquisa foi feita aproveitando uma daquelas cabines de programa de auditório, em que a pessoa é isolada acusticamente e precisa responder, sem ouvir, se trocaria o prêmio de um milhão de reais por uma chupeta usada, sabe? Mas, na pesquisa, essa cabine foi colocada em meio a um debate e apresentava um isolamento acústico ao contrário, em que a pessoa lá dentro podia ouvir tudo que era dito durante o debate, mas ninguém no ambiente conseguia ouvir o que ela dizia, a não ser quando a luz da sirene era acesa. Só nesse momento essa pessoa podia dizer a sua opinião e ser ouvida pelos demais.
Bem, os pesquisadores acreditavam que, exposta a longas horas de opiniões contrárias ou a favor de determinado assunto, a pessoa dentro da cabine teria tempo para ponderar melhor e, quando fosse a sua vez de ser ouvida, ela tivesse uma opinião bem articulada. Que nada. Estavam enganados: assim que a luz acendia, indicando que era sua vez de falar, a pessoa ficava tão excitada de expor sua opinião para toda aquela gente que dizia qualquer bobagem.
Fizeram o teste com cinquenta e três pessoas e um chimpanzé e o resultado foi sempre o mesmo. Na segunda fase do teste, os pesquisadores aumentaram as vezes em que a luz da sirene acendia durante o debate, ou seja, aumentaram as chances daquela cobaia se expressar, mas a qualidade de sua opinião só fazia piorar. Alguns chegavam até a babar e grunhir enquanto expressavam sua posição sobre determinado tema em meio ao calor da discussão. O poder de ser ouvido parece mínimo, mas foi o suficiente para deixar essas pessoas ensandecidas.
A conclusão a que chegaram é que quanto mais oportunidade é dada para dar uma opinião, menos elaborada será essa opinião.
Agora imagine que a internet é um lugar cheio dessas luzinhas de sirene acesas. Tem tanto espaço para falar alguma coisa, que pouco importa o que seja essa coisa a ser dita. Mensagens curtas, superficiais e pouco articuladas acabam sendo a saída para atender a uma demanda ampla e inesgotável por opinião nesse ambiente controlado, onde quem quer que esteja dentro da cabine tem a possibilidade de ser ouvido por um número considerável de pessoas — que pode não ser grande, mas já é maior do que se estivesse escrevendo uma carta que apenas uma pessoa leria.
Esse é o contexto em que surge o mal do século: os comentaristas de portal. Eles procuram desesperadamente por uma sirene acesa em meio à vastidão da internet, onde possam despejar seus comentários e exercer o seu poder de serem ouvidos, por mínimo que seja. Não que eles sempre tenham algo a acrescentar, mas veja como é brilhante a luz da sirene acesa! Eu tenho que falar alguma coisa!
Não que eu ache que a internet acabou com as cartas (ou e-mails, comentários, mensagens, tanto faz) bem escritas, dessas que dão vontade de guardar e fazem pensar por um bom tempo. É improvável que os comentaristas de portais fossem o tipo de pessoa que escrevesse canções ou cartas antes de descobrirem as irresistíveis caixas de comentários. Eu, pelo menos, não faria questão de receber uma carta de um desses (por mais que eu goste de receber cartas).
As pessoas que escrevem coisas que realmente tocam os outros continuam por aí, embora soterradas por uma avalanche de pessoas ensandecidas que escrevem qualquer coisa como se o direito de falar fosse ser arrancada delas a qualquer momento (o que, pensando bem, não é de todo impossível). Essas pessoas talvez não sejam vistas com tanta frequência porque demora e dá trabalho escrever um parágrafo inteiro, uma página ou duas, bem articuladas, que dê vontade de tatuar. Mas eu quero acreditar que existe, querido leitor. Se não, não teria tatuado a sua cartinha. Na coxa direita. Em letra de forma.
***
Esse texto faz parte da Seção de Cartas do blog, em que um leitor me manda uma opinião e eu respondo com ficção. Participe também, mandando a sua cartinha que terei o maior prazer de publicar com uma resposta completamente inventada. É de graça e o anonimato será preservado. Escreva sua carta aqui.

Privilégio é um assunto espinhoso — especialmente para quem os tem. Ter que ouvir as dificuldades dos que são diariamente oprimidos é incômodo não porque escancara os privilégios que os privilegiados sequer percebem que têm, mas porque é uma puta injustiça não reconhecerem que a vida do privilegiado não é esse mar de rosas, não! A vida do privilegiado é bastante difícil sim, de forma que precisamos falar sobre suas penúrias e sofrimentos, sobre seus dramas, sobre suas dificuldades nesse mundo tão injusto.
A vida do privilegiado é difícil, acima de tudo, porque ele é incapaz de se perceber como tal. Sozinho ele não consegue ver que ele é rodeado de privilégios, de facilidades que os outros não têm, mas que para ele não passam de coisas banais, absolutamente normais. E como ele sofre por causa disso! Ter gente dizendo o quanto ele é privilegiado enquanto ele só está andando tranquilamente de mãos dadas com a pessoa que ama: “nada de mais! eu não sou privilegiado, imagina!”. Ele sofre por nunca entender porque estão reclamando que os filmes e comerciais quase não mostram negros, afinal, ele nem tinha percebido que eles não apareciam!
A vida do privilegiado é difícil porque ele tem imensa dificuldade de se colocar no lugar do outro. Não daquele que tem mais, do ricaço que tem lancha, mansão e conseguiu estudar no exterior, mas daquele que tem menos. Para o privilegiado, é impossível imaginar alguém que não tenha feito faculdade não por escolha, coisa que ele está acostumado a ter, mas por falta de. É sofrível para o privilegiado tentar entender que aos outros é negada a autonomia ao próprio corpo que ele mesmo tem e sempre teve. E como é difícil viver com o privilégio de sequer conseguir imaginar por que tipo de coisa tem que passar uma pessoa que tem menos que ele.
A vida do privilegiado é difícil porque nem se esforçando muito ele consegue fracassar. Ele se ressente por ninguém falar da imensa pressão que ele sofre por poder fazer o que quiser e ser o que quiser na vida. Não é uma dureza viver em um mundo que funciona para não te deixar na pior nem se você quiser?
A vida do privilegiado é difícil porque ele não pode sequer expôr seus sofrimentos sem ser olhado como alguém mesquinho, que reclama de barriga cheia. Quando o assunto é violência contra negros, contra gays, contra transexuais, contra mulheres, contra pobres, contra índios, o privilegiado sente-se excluído, até revoltado. Ele não consegue aceitar não ser o centro de um assunto e, em sua angústia, entra na discussão para lembrar os oprimidos: “mas e eu? vocês não ligam para o meu sofrimento?”
A vida do privilegiado é difícil porque ninguém leva a sério o seu sofrimento. Seus reclames são transformados em piada e eles não podem nem contar com o politicamente correto (que tanto desprezam) para defendê-los dessas brincadeiras de mau gosto. O privilegiado fica, então, acuado pela insensibilidade daqueles que insistem em apontar seus privilégios e ofendê-los usando essa palavra feia.
Ter gente lutando por coisas que para ele sempre foram tão acessíveis e bobas, isso sim, é querer ter privilégios. Ele, que mora no bairro certo, tem a cor de pele certa, tem o gênero certo e nasceu no corpo certo, é apenas alguém normal que conseguiu superar os obstáculos da vida, sem choramingar para ter privilégios. Mas ninguém reconhece isso.
Uma lágrima desliza sobre o rosto do privilegiado quando alguém fere seus sentimentos ao lembrá-lo de seus privilégios. E então ele enfrenta mais um calvário, que é a terrível sensação de culpa que o corrói por dentro quando ele finalmente percebe que pode ser um privilegiado. Atordoado, ele grita “eu não tenho culpa! Eu não tenho culpa!”, mas, na verdade, está apenas tentando fugir de algo mais doloroso que a culpa, que é a reflexão sobre uma estrutura que sistematicamente beneficia alguns enquanto oprime outros.
O privilegiado sofre porque ele não quer falar sobre isso. Ele não quer ouvir sobre isso. Ele quer poder continuar falando sobre seu sofrimento e dificuldades, sobre ter que pagar mais na balada, sobre ter que pagar impostos enquanto tem vagabundo (sic) recebendo ajuda do governo, sobre não saber como explicar para o filho porque dois homens estão se beijando, sobre o horror de não poder fazer piadas sobre estupro, sobre estar sofrendo censura porque fez um comentário racista que não foi aprovado num blog, sobre a empregada cheia de direitos trabalhistas que não se presta nem a fazer um mingau depois do horário de expediente, sobre ter que se apresentar ao exército enquanto as mulheres ficam na maior vida boa (embora ele, branco, de classe média e com um sargento ou coronel amigo do pai não tenha precisado servir de verdade, ao contrário daquele outro rapaz da periferia, que, mais que querer, precisava servir para conseguir sustento).
É duro ser um privilegiado, eu sei. Por isso o privilegiado precisa de ajuda, especialmente para enfrentar a parte mais difícil: enxergar seus privilégios.
***
“As crianças, por não conhecer nada de diferente, aceitam a realidade como ela é. Para a criança privilegiada, seus privilégios são tão naturais que ela pensa que todo mundo os têm.
Então, um dia, por qualquer motivo (talvez lendo um blog), baixa aquela consciência da enormidade dos seus privilégios. De quanta coisa você tem ou teve que outros nunca tiveram.
Em um segundo momento, consciente de todos seus privilégios, você pára de reclamar dos privilégios que não possui e, mais importante, pára de lutar por mais privilégios.
Por fim, percebendo que somente isso não basta, mesmo que a custa de alguns sacrifícios pessoais, você começa a repassar alguns desses privilégios para quem nunca teve nenhum.
E assim o mundo começa a mudar.”
Da série de textos sobre Privilégios do Alex Castro. Leiam todos, de um por um. Uma, duas, doze vezes, sempre que você puder, sempre que você sentir aquela vontade incontrolável de dizer que uma minoria está “pedindo direitos demais”, sempre que surgir aquela coceirinha para dizer que os seus problemas sim, são mais graves do que os daquele grupo historicamente oprimido, sempre que você se sentir tentado a desviar o rumo de uma discussão sobre uma sociedade estruturalmente desigual para a culpa que fazem você, coitado, sentir por carregar o peso desses privilégios — até porque, como Alex Castro ainda fez questão de explicar, “ser responsável por solucionar um problema é muito distante de ser culpado por ele.”
***
Você conseguiu contar quantas vezes repeti as palavras “privilégio” e “privilegiado” no texto? Para alguns, vai parecer um descuido grosseiro, “não se repete tantas vezes umas palavra assim, essa autora não sabe escrever, vou lá nos comentários corrigi-la etc”. Por incrível que pareça, isso foi cuidadosamente pensado para ter um efeito. Você sabe dizer por que fiz isso? Sim. Para que o privilégio deixe de ser uma coisa invisível. Quem sabe assim, repetindo a palavra incansavelmente, ela consiga se materializar diante dos seus olhos, ganhar textura, cor, formato, volume e que você consiga perceber os privilégios que te cercam. Que eles são palpáveis, que eles têm peso. Que eles são isso: privilégios.

A vida do escritor freelancer é duríssima. Suas contas vencem no mesmo dia de todo mês e o valor nunca faz o favor de diminuir, embora seus trabalhos escasseiem com facilidade. É em situações desesperadoras desse quilate que a criatividade se desenvolve, de forma que o escritor tem uma ideia que, além da óbvia e gritante questão da sobrevivência, pode lhe render uma boa fortuna.
Então peço que o leitor e a leitora desde já perdoem este escritor que prepara com tanto fervor uma ideia, para dizer o mínimo, calhorda. Algumas vezes, a moral pode ser um empecilho para a sobrevivência ou para o lucro em um mundo como esse, como vocês bem poderão ver a seguir.
O escritor desenvolve a sua ideia e até monta tudo bonitinho em PPT, para apresentar a sua proposta a clientes em potencial. Ele faz várias ligações para os seus contatos e consegue o interesse das pessoas para quem imaginou vender sua ideia, marcando uma reunião com todos no mesmo dia, horário e local — o que não é nada fácil, já que são todos figurões, gente da mais alta casta e influência. Mas faz parte do plano: sua ideia só vale os milhões que deseja se ele tratar com tão insignes clientes.
O dia chega e o escritor tem, reunidos em uma sala de reuniões, os representantes das igrejas cristãs. Entre eles, o papa, bispos católicos, pastores líderes das maiores igrejas e os bispos evangélicos mais famosos da TV.
– Vou ser bem direto com os senhores, já que sou escritor e não publicitário – começa o escritor – A minha proposta é um grande projeto que pode ser do interesse do cristianismo. O que quero propor é reescrever a Bíblia.
– Cê tá de brincadeira? – um dos bispos diz surpreso, enquanto a sala é tomada por cochichos.
– De jeito nenhum, Sua Santidade. Alteza. Excelência. Eminência. Falo sério e vou explicar porque minha proposta é ousada, mas extremamente necessária ao cristianismo!
Ele avança os slides e para numa tela com os dizeres “Deus é amor”.
– Vocês trabalham todos os dias tentando convencer a humanidade de que Deus é amor, certo? – alguns presentes na sala balançam a cabeça afirmativamente – Mas fica difícil fazer isso quando você tem um livro contando como Deus destruiu cidades, promoveu genocídios, enganou pessoas, criou pragas e outras coisinhas que nem os ditadores mais insanos sonhariam em fazer. Se você espremer o Velho Testamento sai mais sangue do que jornal policial sensacionalista. Vocês podem até dizer que contornaram a situação pregando que o Novo Testamento rompia com essas atrocidades por mostrar uma nova aliança de Deus com o povo, mas, cá entre nós? O Novo Testamento também está cheio de trechos problemáticos. Paulo mesmo falou cada bobagem que só Jesus na causa. Sem falar nas contradições mais loucas, como por exemplo, uma hora a Bíblia diz que as leis do Velho Testamento para sempre serão válidas (inclusive em livros do Novo Testamento) e depois diz que não. Tem horas que diz que tudo bem amaldiçoar alguém, tem horas que diz que não pode. Tem horas que diz que Deus aprova a escravidão, tem horas que diz que não, de jeito nenhum. – o escritor faz uma lista interminável de contradições correr na tela – Isso é o que acontece quando um livro é escrito por centenas de pessoas, em que cada um escreve o que quer. O que não vai acontecer se eu reescrever a Bíblia, é claro.
– Esses errinhos dão uma dor de cabeça, você não imagina – diz um pastor, fazendo outros líderes cristãos concordarem com ele – A maioria dos nossos fieis nem percebe, porque só leem os trechos que a gente manda ler… Mas os ateus, ah, os ateus… Esses adoram encher o saco e nos desmoralizar apontando as contradições da Bíblia.
– Malditos ateus – alguém gritou lá do fundo.
– Você pode resolver esse problema dos ateus? – diz o papa, como que subitamente acordando de uma soneca.
– Claro! – diz o escritor, satisfeito por estarem entrando no jogo dele – Vou escrever uma Bíblia à prova de ateus! Uma Bíblia que mostre apenas um deus amoroso, carismático, que não faça birra de criança, quem sabe até com um bom gosto musical, um corte de cabelo mais atual, mas enfim, um deus que seja misericordioso nas escrituras, não só nas palavras de vocês. E o melhor de tudo é que vocês poderão apresentar essa maravilha reeditada, com uma linguagem que não dá sono se você ler mais de três versículos, sem contradições grotescas e com diálogos inteligentes pela quantia módica de 300 milhões de obamas. Antes que vocês achem que é um valor absurdo, deixem que eu explique que esse foi o faturamento dos livros do Harry Potter, o que é um valor justo quando estamos falando da maior e mais importante obra escrita da humanidade!
– Muito legal e tal, mas a gente não pode simplesmente mudar algo que está aí há séculos – observa um dos bispos – Tudo bem que a Bíblia já foi editada algumas vezes, mas estamos falando de reescrevê-la…
– Não vejo problemas – disse um pastor-celebridade – Se eu consigo vender até DVD de sertanejo gospel, vender uma segunda edição da Bíblia vai ser moleza.
– É uma boa ideia, mas precisamos conversar melhor sobre isso – disse o papa – Marcamos uma reunião para o próximo mês. No mesmo dia, mesma hora e mesmo local. E então daremos a resposta final.
Para quem não tinha nada, isso já é alguma coisa. O escritor aceita e fica combinado que se encontrariam dali a um mês. Vamos acelerar um pouco o tempo e ir direto para o dia da reunião, em que os mesmos representantes das igrejas cristãs encontram-se na mesma sala de um mês atrás. O escritor está ansioso.
– Já temos uma resposta – começa um pastor – Decidimos que iremos contratar os seus serviços para reescrever a Bíblia.
– Mas com alguns ajustes, claro – diz um dos bispos.
– Sem problemas, já imaginei que vocês gostariam de dar uns toques para o Deus da Bíblia ficar ainda mais misericordioso – o escritor diz empolgado, já se armando de papel e caneta para fazer as anotações.
– Na verdade, é justamente esse o ajuste que a gente quer fazer – diz o papa – Sabe essa história de reescrever a Bíblia tirando as partes violentas? Pois é, na verdade a gente quer manter essas partes.
– Manter? – o escritor fica com cada músculo do rosto paralisado de confusão – Se é para ficar do mesmo jeito, por que eu iria reescrevê-la?
– Sabe como é, seu escritor, é que tirar essas partes meio que zoa o nosso esquema – diz um dos pastores – A gente usa a Bíblia justamente como apoio para argumentos mais difíceis da pessoa engolir. Não precisa ter uma Bíblia mostrando um Deus 100% amor, é só a gente falar umas duas ou três vezes no culto que os fieis entendem isso. Mas tem que estar escrito no papel que, se não pagar o dízimo ou praticar o adultério, algo horrível vai acontecer com a pessoa. Se não, com que moral a gente pode falar isso?
– Mas a gente amou a sua ideia, sério – um bispo faz questão de dizer, com um sorriso bem simpático – Queremos que você reescreva corrigindo todas essas pequenas contradições que racham a nossa cara de vergonha e arrume essas historinhas mal explicadas. Deixar a coisa toda mais amarradinha.
– Aí aproveita e deixa mais claro algumas coisas – interrompe outro pastor – A gente sente falta de Jesus falando umas poucas e boas contra os gays, sabe? Coloca uns versículos a mais no Velho Testamento contra essa prática nefasta do homossexualismo. Aliás, pode colocar uns capítulos inteiros. Ah, sabe a parte em que Jesus fica furioso quando tem um pessoal lucrando com atividades dentro do templo? Pode cortar. A gente também não gosta daquela parte “dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus” porque Deus não tem que ter limites, não é mesmo? Ainda mais agora com a gente investindo pesado na política, tô lançando mais uns três candidatos na próxima eleição.
– Se puder deixar Jesus menos revolucionário também seria bom – diz um bispo lá no fundo – Não acho bom dar ideia para as pessoas acharem que podem questionar e enfrentar os poderosos. Chega me coço todo de pensar nisso.
– Mas é bom manter a parte do “vinde a mim as criancinhas”, – outro bispo faz questão de ressaltar – quem sabe até dizer que tudo bem fazer algumas carícias, que Deus não vê problema nisso, algo do tipo.
– E é claro, serão duas versões: a protestante e a católica – diz um pastor-celebridade – Me dá nos nervos quando misturam evangélicos e católicos. Parece que não respeitam o nosso direito de nos odiarmos mutuamente e de não querer que nos confundam com eles!
– Em uma coisa concordamos! – diz o papa amigavelmente.
– Pois bem, então vou ter que fazer alguns ajustes no orçamento, já que seriam duas versões… – começa o escritor, até que é interrompido por outro pastor:
– Já íamos chegar nesse ponto! Não acho justo cobrar um valor tão extorsivo de homens de Deus. Como recebemos apenas 10% dos fieis, acreditamos que devemos pagar apenas 10% do valor proposto. Assim fica combinado em 30 milhões para você reescrever duas versões da nova obra mais importante da humanidade. Fechado?
Não é exatamente o que o escritor esperava, mas ainda assim é dinheiro para chuchu. Podia custar uma eternidade no inferno, se isso existisse, mas o que importa? A fatura do cartão de crédito e o aluguel já estavam atrasados. O escritor aperta a mão do pastor, recolhe suas anotações e vai para casa tendo certeza que todos que escreveram a Bíblia, inclusive ele, eram grandes filhos da puta.
Moral da história: quer um livro sobre amor? Vá ler Nicholas Spark.

Recebo mensagens e comentários tão interessantes de leitores que acho uma pena que a vida útil deles acabe na caixa de comentários ou no meu e-mail. Acho que alguns merecem ser publicados e respondidos, em forma de post.
Por isso, penso que está na hora deste humilde blog ganhar uma seção de cartas.
Meu blog, como alguns já devem ter observado, é dividido em duas vertentes: opinião e ficção. Essa seção de cartas seguiria essa base e funcionaria da seguinte forma (mais fácil que receita de omelete, gente):
1. Os leitores me enviam e-mails com sua opinião sobre determinado assunto (e pode ser sobre qualquer coisa, desde preço do tomate, homofobia até os furos no roteiro da Glória Perez — sério, qualquer coisa, podem se soltar).
2. Eu respondo / comento usando ficção.
Quero participar!
Envie um e-mail pela página de contato do blog, com o assunto “Cartinha” (não me olhe assim, estou guardando minha criatividade para responder os e-mails), com sua opinião sobre um tema da sua escolha. Pode escrever sem preocupação: os textos serão publicados no blog como anônimos, a não ser que você faça questão de se identificar.
Em vez de misturar a sua opinião com o chorume das caixas de comentário em grandes portais, mande para mim: prometo cuidar dela com carinho.

Áries: o dia pode reservar algumas surpresas, então cuidado ao sair de casa. Olhe sempre para os dois lados antes de atravessar a rua.
Touro: você sentirá que é tempo de deixar para trás coisas que estão há muito tempo guardadas dentro de você. Não esqueça de dar descarga e lavar bem as mãos depois de usar o banheiro.
Gêmeos: você pode ter um dia de trabalho bastante produtivo e satisfatório. Ou não. Em qualquer caso, você se sentirá atraído a procrastinar na internet.
Câncer: aborrecimentos esperam por você na seção de comentários dos sites de notícia. Preserve sua sanidade e seu bom astral ficando longe deles no dia de hoje. Ou para sempre.
Leão: o seu telefone poderá tocar no dia de hoje, podendo trazer uma boa notícia, ou uma cobrança, ou alguém querendo jogar conversa fora. Ou poderá ser simplesmente engano.
Virgem: você terá uma grande decepção hoje com algum conhecido, familiar ou colega. Ao entrar na página Orgulho de Ser Hétero, você irá descobrir quais dos seus amigos curtiram essa vergonha.
Libra: evite frituras, comidas gordurosas e industrializadas, coma legumes e verduras. Beba bastante água.
Escorpião: a sensação de que o tempo está passando mais rápido ou mais devagar é só coisa da sua cabeça. O dia continua com as mesmas 24 horas de sempre.
Sagitário: você pode até conhecer pessoas novas no dia de hoje, mas sua existência continuará sendo solenemente ignorada pelo resto da humanidade.
Capricórnio: o impulso de comentar sobre um assunto que você não domina virá com força. Se você tiver a escolha entre dizer algo sem pensar e ficar calado, ao escolher a primeira, as chances de se arrepender são altíssimas.
Aquário: entre as diversas sensações que o aquariano poderá experimentar no dia de hoje, o sono é definitivamente uma delas.
Peixes: você não conseguirá cumprir as suas tarefas do dia se continuar perdendo tempo lendo o seu horóscopo na internet.
Ilustrações: Donya Todd

Acho muito difícil seguir modelos. ”Quando crescer, quero ser igual (insira pessoa de sua admiração aqui)”. Além de alguns modelos serem simplesmente inalcançáveis, eu não sei dizer que tipo de pessoa eu gostaria de ser. Prefiro seguir por eliminação. Porque sei bem que tipo de pessoa eu NÃO quero ser.
A pessoa que não quero ser se preocupa demais em criticar a vida dos outros e escolhas alheias que nada interferem em sua própria vida.
A pessoa que não quero ser é aquela que faz comentários rudes e constrangedores porque acredita que está sendo “sincera”.
A pessoa que não quero ser é um monolito que acredita que tudo o que sempre foi deve continuar a ser, que não questiona as tradições, que tem pavor de mudanças.
Essa pessoa, a que não quero ser, vai fazer as coisas do jeito mais fácil, vai seguir a cartilha, vai fazer o que é esperado que ela faça.
A pessoa que não quero ser é aquela que não assume responsabilidade pelas coisas que diz ou faz.
Não quero ser a tia resmungona. Não quero ser a pessoa que chuta a poltrona da frente no cinema. Não quero ser a pessoa que coloca o som alto demais sem se importar com os vizinhos. Não quero ser a pessoa que corrige o português dos outros em público. Não quero ser a pessoa que faz montagens toscas para postar no Facebook.
Não quero ser a pessoa que comenta sem ler. Que chama a outra de vadia. Que agride desconhecidos pela internet. Que comenta “como fulana está gorda”. Que faz perguntas indelicadas. Que impede o companheiro de ter vida própria, como outro ser humano independente. Que se define pelas coisas que tem. Que vai limitar alguém por conta de seu gênero. Que se deixa limitar pelo que disseram que é mais adequado ao seu gênero. Que afirma coisas sem saber sobre o que está falando. Que não sabe dizer “não sei”. Que quer ter opinião sobre tudo.
Não ser essa pessoa é o trabalho mais difícil a qual me dedico. É um esforço diário. Então repito para mim mesma, o dia todo “não quero ser essa pessoa, não quero ser essa pessoa”, esperando que, no final das contas, tudo o que me resta ser que não seja essa pessoa me torne uma pessoa um pouco melhor.

Procuram-se entendedores de textos com urgência. Que leiam textos na internet, de todos os tamanhos e sobre todos os temas. Não há restrição de gênero, faixa etária, cor ou endereço.
Não é exigida nenhuma qualificação acadêmica além da alfabetização. O nível de experiência exigido é o básico: que saibam, mais do que juntar letrinhas, entender o que elas juntas significam.
É preciso ter disponibilidade de tempo para ler o texto inteiro pelo menos uma vez, e, caso necessário, duas vezes ou mais. A disponibilidade também deve incluir o tempo para pensar sobre o que o texto diz e o tempo para formular conclusões.
O entendimento de textos pode ser feito de casa ou em qualquer outro lugar onde o entendendor ou entendedora esteja disponível para leitura, como no metrô ou no local de trabalho remunerado, desde que observado o tempo necessário para ler e entender o texto em questão.
Os principais atributos procurados para a função são boa vontade e disposição. Imaginação é recomendada, mas não é obrigatória. Já a capacidade para identificar ironias tem caráter eliminatório. Sem ela, fica vedado ao candidato ou candidata assumir a função de entendedor ou entendedora.
A função abrange apenas o entendimento de textos. Porém, entendedores podem se inscrever para vagas de comentaristas, embora não seja obrigatório. Os interessados nessa modalidade também precisam dominar, além do entendimento do texto, o entendimento de boas maneiras. Discordar do texto entendido não implica em comentar de forma agressiva ou mal educada.
O entendimento de textos não é remunerado, mas oferece os seguintes benefícios: vale aprendizado, passe livre para conclusões mais bem embasadas (contra ou a favor), bônus em sagacidade e impedimento de passar vergonha. Vagas ilimitadas.
Tratar aqui.
Eu não tenho opinião sobre o Lollapalooza nem sobre as bandas que vão tocar no festival. Eu não tenho opinião sobre o Expressionismo Abstrato nem sobre o Romantismo Alemão do século XIX. Eu não tenho opinião sobre o último ganhador de um leão de Cannes na categoria Filme. Ou na maioria delas. Eu não tenho opinião sobre o SBT. Eu não tenho opinião sobre o folder que recebi hoje de manhã.
Eu não me meto a dar opinião sobre tudo que me aparece porque eu não tenho opinião sobre um monte de coisa.
E nem preciso.
Porque a maravilha da opinião, amigos, é que ela é um direito, mas nunca uma obrigação.
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Existem as pessoas com as quais eu concordo, as pessoas das quais eu discordo, as pessoas que me fazem mudar de ideia e as pessoas que ignoro.
As pessoas com as quais eu concordo me fazem lembrar, eventualmente, que é impossível concordar integralmente com alguém o tempo todo.
Algumas pessoas das quais eu discordo me fazem perceber que nem sempre eu preciso ser inimiga de alguém por discordar de suas ideias.
As pessoas que me fazem mudar de ideia me fazem perceber que eu não preciso ficar de um “lado” para sempre.
As pessoas que eu ignoro, bem, essas me fazem lembrar que eu não preciso ter opinião sobre tudo e sobre todos, todo o tempo.
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Estes dois pequenos textos foram publicados na minha página do Facebook, onde escrevo uma porção de coisas além dos textos que vocês acompanham pelo blog. Vai lá curtir.