AlineValek

Minha ex

10 de December 2014 por Valek
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Poucos assuntos são mais desagradáveis do que falar de ex. No entanto, algumas circunstâncias colocam a gente de fuça para o passado, seja para nos envolver numa vibe “ai, como era bom” ou nos jogar no sentido oposto, com aquele maravilhoso sentimento de “ainda bem que tudo acabou”. O pior de tudo é transitar na área cinzenta; saber que hoje você está melhor e ainda assim sentir falta de várias coisas.

Foi o que aconteceu essa semana, quando reencontrei com a minha ex. Não sou de ficar falando dos meus relacionamentos pra geral, mas às vezes a gente precisa falar para superar, certo? E afinal foi quase uma vida (a minha pelo menos) juntas.

Eu era apaixonada por Brasília. A gente se dava super bem, a gente combinava. Era do tamanho certo pra mim, sabe? Acontece que faz uns dois anos que terminamos, algo meio abrupto e, pra falar a verdade, nenhuma das duas queria. Mas assim foi.

Fui visitá-la esses dias e folguei em saber que ela ficou bem depois do término. É engraçado a gente rever alguém com quem a gente deixou de se relacionar, sempre rola uma vontade de mostrar, na superfície, o quanto sua vida vai bem, obrigada. Vira uma competição velada de “The Quem Se Deu Melhor Show” – enquanto as verdades inconvenientes aparecem só para quem frequenta os bastidores.

Ia dizendo que ela parecia bem: a cara renovada, as obras que na minha época a deixavam mal-arrumada já finalizadas e funcionando direitinho, até os ônibus que ela usava tinham mudado, estava mais moderna, verdinha, até úmida!

Ela me sorria, a aparência saudável e satisfeita em me rever, mas algo nela me incomodava. Algo que ela sempre foi, mas que eu não fui capaz de reparar ou sentir quando estávamos juntas. E como eu podia achar aquilo normal?

Agora era tão evidente: o quanto ela é distante, até superficial. Com ela, são longos minutos dentro do carro em um silêncio constrangedor, uma falta de assunto, olhar pra fora e só um grande vazio preenchido de verde, distâncias gigantes, mesmo em percursos banais. Tantos hiatos silenciosos e eu achava que era a personalidade dela, normal, as coisas são assim; mas o tempo todo era uma demonstração de quão pouca consideração ela tem por mim (e talvez ela seja assim com todos!). Porque manter seu estilo é mais importante que se aproximar das pessoas.

A superficialidade também me saltou aos olhos. Não tem um quê de psicopatia alguém que não tem altos e baixos? Brasília é a timeline daquela pessoa que só posta o quanto está feliz, fotos no clube, champanhe, céu azul, só momentos bons – e eu hein, tenho medo disso. Uma timeline plana, uma vida de uma nota só. Ela é igual todos os dias, igual para onde quer que se olhe. Não importa o ângulo: igual.

Brasília é essa moça que posa de moderna mas é tão asséptica quanto aquela sua tia com mania de limpeza. Obcecada demais com a perfeição, em se manter sempre na mesma forma para a qual foi planejada desde que nasceu. Mas fia, as coisas mudam, as coisas envelhecem. Deixa estar. Mas não: ela continua nesse esforço de manter-se sempre a mesma porque sabe que é isso que a deixa tão bonita, tão atraente. E realmente, tem quem goste, cada um com seu charme. Mas, na real, acho que ela superestima demais suas curvas.

Eu meio que já sabia disso, mas talvez eu só venha confirmar isso hoje porque não estou mais com ela: o negócio é que Brasília vive de aparências. Por isso não consegui sustentar por muito tempo a crença de que, por trás daquele sorriso de boas vindas que ela me estendeu para dizer que estava tudo bem, estava alguém que não tinha mudado, alguém que continuava cheia de neuras e de problemas.

Essa personalidade distante fez dela alguém solitária, no final das contas. Estranhei andar pelos seus pontos mais movimentados e quase não ver gente (também porque fiquei mal acostumada esse tempo que ficamos separadas). Calçadas tão largas e tão vazias – nem feriado era. A W3-Sul, um detalhe do seu corpo que me fazia sentir tão em casa, comparecia sempre, me pareceu decadente, até triste. Abandonada. Não quis sentir pena dela, acho que Brasília é altiva demais para merecer pena; quis acreditar que minha tristeza era nostalgia.

Porque ela é complicada sim, como dizem quem vem de fora e reclama das dificuldades de lidar com ela; mas indo mais fundo com a convivência, sei que há muita coisa boa a respeito dela. É que de ex, você sabe, geralmente só fica rancor, implicâncias e a vontade de sentir pena – apenas para se sentir um cadim superior. É preciso um pouco mais de esforço para lembrar do que nos mantinha apaixonadas.

Se por um lado ela é distante, por outro se abre para quem se decifra seus códigos; me sentia íntima, tão dela, quando ela não precisava dizer muito – mais do que siglas – para que eu a entendesse. Piadas internas. Um vocabulário todo próprio, que parece ser uma coisa, mas significa outra: pardal, camelo, zebrinha, buraco do tatu, tesourinha, bloco, baú, balão.

E tão bonitinho ela se achar grande, urbaníssima, e ter aquele jeitinho de menina de interior. Poder andar no centro e me sentir num parque. Poder sentar no pilotis de um prédio – qualquer prédio – e curtir o pós-almoço preguiçosamente ao som da sinfonia de cigarras e o vento batendo nas árvores. O andar lento de seus habitantes, até o metrô vai sem pressa sobre os trilhos. Passeios.

Ah, e a pamonha que ela faz. Sinto tanta saudade. Não é a melhor do mundo, mas ela faz muito bem; aprendeu com a tia goiana. Quando fui visitá-la, ela fez questão de me servir uma, e capaz de ter sentido prazer ao ver, pelos meus olhos brilhantes e boca cheia de saliva, que a outra não me faz pamonhas tão boas.

A outra. Ela tinha que tocar no assunto. Quis saber como eu estava arranjada com São Paulo – e eu tentando não comparar, porque esse é um caminho perigoso para seguir. Pra quê ficar comparando o que é notoriamente diferente, como se fosse possível – ou justo – eleger melhores e piores. Contei como estavam as coisas com a atual, falei um pouco de como ela era (complicada, à sua própria maneira) e das coisas boas que eu estava vivendo com ela.

Deve ter batido um recalque, porque ela comparou São Paulo a uma mulher com maquiagem borrada. Seca, suja, barraqueira, agressiva. Tão sem tempo que sempre desarrumada. Às vezes com um cheiro desagradável e nossa, ela é velha demais para você, ela me disse. Não existe amor em SP, ela cantarolou fazendo a sarcástica, como se existisse amor nela também. Gata, não: esse papel de ciumenta não lhe cai bem.

Volta pra mim. Custava a ela dizer isso, mas em todos os seus gestos a presença sutil desse apelo. Não porque sentisse minha falta, já que mostrou com clareza que estava vivendo muito bem sem mim; mas porque queria se sentir amada, desejada (e quem nunca, né?). Queria com isso ter a satisfação de saber que ainda exercia algum domínio sobre mim.

Este é aquele momento crítico em que a gente se sente tentada a ter uma recaída e o arrependimento que vem depois (quase sempre) é batata. As malditas lembranças de uma vida juntas sempre nos puxam para querer sentir aquele gostinho de novo – e mesmo a gente sabendo que é arsênico, vem a vontade de provar. Burrice, puta burrice. Quando a gente vê, está enroscada no mesmo tipo de cilada, nos mesmos problemas de sempre e só aí a gente se dá conta “ah, foi por isso que a gente não deu certo”.

Bem, não vou dizer que fui forte. Dormi com ela algumas noites, mas não passou disso. Sequer passamos por algum tipo de revival romântico, porque as diferenças e conflitos entre nós não deixaram. Foi um encontro de desencontro: ali soube que a gente não se encaixava mesmo, que eu não tinha mais lugar junto a ela.

Já diria um filósofo contemporâneo: “não precisa sofrer para saber o que é melhor pra você”.

Não rola, Brasília, não rola. Dei adeus para uma cara emburrada, ela muito frustrada porque as memórias que eu tinha com ela não eram o suficiente para me fazer ficar. “O que ela tem que eu não tenho?” De novo as comparações, ela não superaria tão fácil o fato de alguém largá-la para ficar com São Paulo (“logo SP! Absurdo! Se fosse pra ficar com o Rio, eu entenderia! Mas SP, sabe”).

E eu, que não estava nem um pouco a fim de seguir pelo caminho das comparações e nutrir qualquer tipo de competitividade entre as duas, resolvi ser bastante franca com Brasília – e colocá-la definitivamente na posição de ex: porque São Paulo, gata, pode não ser perfeita; mas pelo menos ela sabe que não será a única nem a última.

A vida é deixar um rastro de ex por onde se passa.

***

Foto daqui.

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Apoie a escritora

18 de September 2014 por Valek

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A maioria das escritoras que eu gostaria de ter lido, eu nunca li. Nunca chegaram a ser publicadas. Algumas delas nunca chegaram a escrever. Eram criativas, imaginativas, tinham boas histórias para contar. Mas eram analfabetas. Ou tão pobres que não tinham tempo para isso, porque precisavam, em primeiro lugar, sobreviver. Outras tantas morreram jovens, antes de colocar ao menos uma palavra no papel.

As minhas escritoras favoritas que nunca conheci, se escreveram, não chegaram à minha época. Seus nomes foram apagados e seus trabalhos jogados no anonimato. Tiveram suas vidas empurradas para a miséria e para longe da ficção.

Mas quem liga para as escritoras que nunca puderam ser escritoras? Tantos trabalhos fantásticos, tantos grandes escritores! Que importa se a maioria esmagadora era homem? Foram geniais. E como eu posso reclamar se houveram escritoras mulheres também brilhantes? Poderia ter havido mais, mas eu que me contentasse com as que conseguiram.

Virginia Woolf, essa pelo menos tive a chance de conhecer. Não pessoalmente, porque viveu no século passado. Ainda assim, ela veio até mim e me contou algumas verdades. Não sentada ao meu lado, no sofá, mas através do ensaio “Um Teto Todo Seu”, de 1928, e já é o melhor que eu poderia desejar.

Já que estamos falando de escritoras que não existiram, Virginia me propôs: imagine que Shakespeare teve uma irmã tão inclinada à criação quanto ele, conseguiria ela alcançar o mesmo reconhecimento e fama que teve o irmão?

Judith, essa irmã hipotética, conforme Virginia ia me contando, “era tão audaciosa, tão imaginativa, tão ansiosa por ver o mundo quanto ele. Mas não foi mandada à escola.” Nunca foi incentivada a estudar, a ler, a escrever, a desbravar o mundo. Deveria se ocupar de afazeres domésticos e logo deveria se casar, com quem o pai desejasse. Mas ela fugiria e tentaria a sorte no teatro, que amava tanto quanto o irmão. Ela, no entanto, seria rejeitada. Jamais conseguiria escrever e se mataria em uma noite de inverno para ninguém nunca mais ouvir falar nela.

É preciso condições mínimas para se dedicar à escrita. “A mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela se pretende mesmo escrever ficção.” Significa autonomia, segurança financeira, tempo para escrever. Era tudo o que as mulheres não tiveram em boa parte da história da humanidade. Que muitas não têm ainda hoje.

Virginia Woolf expôs em seu ensaio o cenário que impediu tantas mulheres de terem sido escritoras:

“A liberdade intelectual depende de coisas materiais. A poesia depende da liberdade intelectual. E as mulheres sempre foram pobres, não apenas nos últimos duzentos anos, mas desde o começo dos tempos. As mulheres têm tido menos liberdade intelectual do que os filhos dos escravos atenienses. As mulheres, portanto, não têm tido a menor oportunidade de escrever poesia. Foi por isso que coloquei tanta ênfase no dinheiro e num quarto próprio.”

Escrever é difícil, ponto. Mas se torna algo impossível se a pessoa que escreve não tem autonomia, não tem segurança financeira, não tem escolhas, tem que enfrentar tantas barreiras e tanto preconceito.

72% dos escritores publicados atualmente são homens. Onde estão as escritoras? Pelo que estão passando que não estão preenchendo mais essas porcentagens?

Enquanto isso, muitas das que são publicadas às vezes têm seu primeiro nome suprimido, escondido em uma abreviatura, para que não vejam que o livro foi escrito por uma mulher e assim possa ser vendido. Outras tantas têm seu trabalho diminuído, rotulado como subliteratura, como algo menor. Ou, quando são elogiadas, ouvem que “escrevem como homem”, ou ainda precisam ouvir de editores comentários sobre sua aparência, e não sobre seu trabalho.

É todo um mundo lutando contra mulheres que escrevem, empurrando um gigantesco não contra elas, colocando barreiras em seu caminho, até que desistam, enlouqueçam e suas histórias sejam esquecidas.

E aqui estou eu, fazendo parte dessa luta para não ser esmagada por ter resolvido escrever. Enfrentando várias dificuldades, ainda que com a consciência de que tenho a chance que tantas mulheres não tiveram.

Foi quando me sentei ontem para continuar a escrever meu livro que lembrei das minhas escritoras favoritas que nunca foram escritoras. Imaginar que eu não poderia escrever se eu tivesse nascido em outro lugar e outra época, é louco demais para eu não fazer um bom uso dessa oportunidade que eu tenho.

***

Se o mundo faz força para fazer as mulheres escritoras encolherem até sumirem, o mínimo que a gente pode fazer é dar a elas uma forcinha para que possam crescer.

Divulgar o trabalho delas. Comprar seus livros. Escrever sobre eles. Valorizar o trabalho delas. Incentiva-las a continuar.

Apoie a escritora. Não deixe ela enfrentar essa barra sozinha.

É o que tento fazer sempre que possível; como autora independente, sei bem como isso faz a diferença.

Agradeço por toda a visibilidade que você pode me ajudar a conseguir, compartilhando meus textos, assinando minha newsletter semanal gratuita, indicando meu trabalho para outras pessoas, comprando meu e-book e meus próximos livros.

Se o meu trabalho é, de alguma forma, importante para você; se você gosta de receber a newsletter todo final de semana; se você gosta dos meus textos, se eles já significaram algo para você; ou se você apoia o meu trabalho e acha que fiz muito bem em largar a carreira na propaganda e me dedicar a isso: considere pagar pelo meu trabalho.

A escritora precisa de dinheiro para continuar a escrever.

***

Ilustração por Ping Zhu. Daqui.

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Roquia e o poder transformador da imaginação

26 de August 2014 por Valek

roquia

Roquia Sakhawat Hussain. Faz tempo que essa escritora viveu neste planeta; nasceu em 1880, morreu em 1932. Também viveu num lugar – uma cultura e realidade – muito distante da nossa. Índia, mais precisamente na região hoje conhecida como Bangladesh.

Distante no tempo e no espaço. O que então temos a ver com ela? Por que falar dela e evocar seu nome se praticamente não pertencemos ao mesmo mundo?

O negócio é que Roquia escrevia. E escreveu uma obra de ficção científica que atravessou décadas e meio mundo para chegar até nós, pessoas ocidentais do século XXI. Ela praticamente entrou numa máquina do tempo e veio até aqui para falar com a gente. Veio do passado nos trazer uma mensagem sobre o futuro – quer algo mais ficção científica do que isso?

Em 1905, ela escreveu um conto chamado “Sultana’s Dream”. O sonho da Sultana. Uma história sobre mulheres, como não devia ser muito comum em sua época. Uma história protagonizada por uma mulher islâmica, indiana. Muito parecida com ela mesma e com tantas outras mulheres que vivem hoje.

Em sua utopia futurista, as mulheres tiveram acesso a educação e se viram livres das restrições da purdah, a prática que isola as mulheres em casa para que os homens não as vejam, impedindo que elas participem da sociedade. A partir disso, ela imaginou mulheres empoderadas o suficiente para criar uma nova sociedade com fantásticos avanços científicos e tecnológicos.

É surpreendente descobrir como seus questionamentos ainda são válidos! A questão do direito das mulheres islâmicas à educação recentemente encontrou uma nova voz com Malala Yousafzai. A jovem paquistanesa chegou a ser baleada na cabeça por homens armados, simplesmente por lutar e acreditar que meninas pudessem frequentar a escola.

Roquia também foi uma ativista pela educação de mulheres. Fundou uma das primeiras escolas voltadas para a educação formal de garotas muçulmanas. Acreditava que impedir o acesso das mulheres ao ensino era uma distorção dos valores do Islã.

Essa parece uma realidade distante da nossa, em que meninos e meninas podem frequentar a mesma escola. Mas a desigualdade de gêneros é perversa de uma maneira diferente por aqui, no nosso mundo ocidental.

Ao mesmo tempo em que existe o acesso ao ensino, há também um desestímulo para que garotas sigam determinadas carreiras. Nada explícito. É algo que afasta as mulheres das áreas de tecnologia e ciências nas pequenas coisas: em cada pequena insinuação de preconceito, que mulheres são burras, ou a imposição de que seu principal objetivo na vida deve ser o de enfeite, ou no assédio que sofrem em áreas dominadas por homens, ou ainda por não serem levadas a sério.

Essa hostilidade disfarçada funciona muito bem para afastar as mulheres, fazer com que elas se sintam desinteressadas. O resultado? Apenas 18% dos profissionais de áreas tecnológicas serem mulheres. Nas faculdades de carreiras de TI, cerca de 15% dos alunos são mulheres. Mulheres em altas posições executivas são ainda mais raras.

A realidade de violência contra as mulheres mais pobres, negras, indígenas e transexuais as mantém ainda mais afastadas da dedicação aos estudos. É difícil persistir no sistema de ensino se elas precisam se preocupar, antes de tudo, com a sobrevivência. Essa realidade empurra tantas mulheres para a miséria e para longe da participação da sociedade que nem é preciso estabelecer uma purdah por aqui.

É aí que Roquia vem falar conosco: “imaginem como seria fantástico o nosso mundo simplesmente se nós tivéssemos as mesmas chances.”

Enquanto metade da humanidade for massacrada e diminuída pela outra metade, não iremos a lugar nenhum. Eis aí a importância da luta pela igualdade racial e de gênero.

Em sua obra, ela ainda traz uma mensagem mais marcante: se é possível acreditar num futuro com carros voadores, tecnologias avançadas de coleta de água e energia solar, também é possível – e necessário – que a gente acredite, acima de tudo, em nós mesmas.

Com imaginação e vontade, somos capazes de transformar nosso mundo.

***

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“O Sonho da Sultana” foi traduzido para o português e disponibilizado em um e-book gratuito como parte do projeto Universo Desconstruído.

Tive o prazer de trabalhar com a Sybylla, do site Momentum Saga, para resgatar essa obra pioneira da ficção científica feminista. O mundo precisa conhecer Roquia.

Você pode baixar o e-book no formato de sua preferência (epub, mobi e pdf), basta publicar uma mensagem em seu Twitter ou Facebook e nos ajudar a divulgar esse trabalho. Espero que goste :)

universodesconstruido.com

 

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A Ficção Científica Perfeita

20 de August 2014 por Valek

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por Zetta Omens

DA REDAÇÃO – A promessa de que a Ficção Científica mudaria para sempre depois de “Reboot do Espaço-Tempo Que Todos Queriam Ver”, de Alpha Bolt, talvez tenha ficado para depois. Obra cercada de controvérsias desde a sua concepção, figura entre os mais vendidos há cinco semanas consecutivas, ainda que o fato não torne a obra blindada contra críticas, da mesma forma que o aparente sucesso deste lançamento esteja longe de lançar Alpha Bolt como um grande autor do gênero.

Mais do que dissertar sobre a obra, talvez caiba aqui falar sobre seu autor. Alpha Bolt é o robô mais avançado já construído na área de robótica literária. Criado com o propósito de calcular e escrever a obra de Ficção Científica perfeita, Bolt passou mais tempo sendo desenvolvido e programado do que, de fato, escrevendo o “Reboot do Espaço-Tempo Que Todos Queriam Ver”. Em dois meses, o livro já estava pronto, fato alardeado por seus criadores-editores como prova da eficiência do robô.

“Acreditamos que o único indivíduo realmente qualificado para escrever Ficção Científica de qualidade seja justamente um robô. Alpha Bolt irá revolucionar a literatura do gênero e deixar para trás os já caducos autores consagrados de Ficção Científica”, foi a declaração dada por Jamel Ruscoe, chefe de desenvolvimento da equipe que realizou esta ousada empreitada literária.

Alpha Bolt é um computador de potência e capacidade indiscutíveis. Seria capaz de construir máquinas, revolucionar indústrias, explorar planetas e descobrir novas leis da Física se não fosse especificamente programado para direcionar toda a sua inteligência de dimensões incalculáveis para a escrita. Um computador que fosse capaz de ir além de qualquer noção que a mente humana jamais conseguiria chegar certamente seria capaz de produzir a obra de Ficção Científica perfeita – era o que defendiam, pelo menos.

Os critérios para definir o que seria a obra perfeita foram estabelecidas, obviamente, durante a programação. A obra deveria ser atemporal e cientificamente correta. O que significava que, não importasse quantas descobertas fossem feitas no futuro, a obra continuaria não só atual como ainda poderia antecipar novas descobertas. Além disso, absolutamente nada que contrariasse a lógica e as leis do Universo poderia entrar na história. Dessa forma, uma nave seria descrita com absoluta correção e só poderia ser usada na história se seu funcionamento fosse possível, ainda que ela não existisse.

Todas as variáveis possíveis foram calculadas por Bolt, desde probabilidade de tecnologias a serem desenvolvidas até composição química de combustíveis que possibilitassem viagens mais rápidas que a luz. A análise minuciosa de dados sobre comportamento humano, estilos literários e estruturas narrativas de todos os romances e contos que a humanidade já produziu daria conta da construção de personagens e de um enredo com profundidade e conflitos. A super máquina da escrita ainda combinou, organizou e selecionou, dentro de uma vasta gama de possibilidades, os elementos mais adequados para criar a história perfeita. Sem artifícios baratos ou truques de escritores.

O público nutriu generosas expectativas do momento em que Alpha Bolt foi ligado até o momento em que as primeiras páginas começaram a ser impressas – já devidamente editadas e revisadas! Os exemplares do “Reboot do Espaço-Tempo Que Todos Queriam Ver” mal chegavam nas livrarias e já não davam conta de atender a demanda de vendas. Um estrondoso sucesso se delineava.

A crítica, no entanto, não foi tão entusiasmada. Ou pelo menos parte dela. Um exemplo da falta de consistência da obra está neste mesmo artigo: a escolha de ter despendido parágrafos para contar a história por trás de Alpha Bolt em vez de focar na obra já demonstra como esta é tão menos interessante que a história que tornou possível sua existência.

Dito isto, talvez não seja necessário se aprofundar nos detalhes que a tornam insossa, até desagradável: sua narrativa cansativa, sua falta de imaginação, sua pobreza e sua carência de falhas (até ser certinha demais tomou-lhe o brilho); afinal, críticas como estas abundam em outros veículos e já não preciso repeti-las se elas fazem esse trabalho de análise tão bem. A questão aqui é outra: como um computador tão avançado como Alpha Bolt não foi capaz de calcular que sua obra, em vez de ser considerada perfeita, acabasse se tornando um total fiasco?

A resposta, em parte, é que ele não errou o cálculo. Alpha Bolt de fato criou a obra perfeita. Que, claro, para começar é o crème de la crème do Hard Sci-Fi, porque sua programação não poderia conceber outra Ficção Científica que conseguisse se aproximar tanto da perfeição. Mas, prestando atenção ao público que melhor recebeu “Reboot do Espaço-Tempo e meu deus não dava pra ter pensando em um título menos longo” foi, curiosamente, aquele formado por robôs. Máquinas, computadores, andróides e congêneres leram e aclamaram a obra. Tinham capacidade de processamento de dados avançada o suficiente para julgar a qualidade do material. Já o público humano, no geral, facilmente se entediou.

Certamente Alpha Bolt produziu uma história carregada de uma visão afiada de futuro que se manteria atual por séculos. A tecnologia descrita em sua narrativa é fascinante por ser ousada e, ao mesmo tempo, possível. No entanto, para muita gente, “Reboot do Espaço-Tempo” sequer pode ser considerada literatura. Seria no máximo uma coleção de previsões de futuro e um manual de funcionamento de tecnologias que ainda seriam inventadas. Jamel Ruscoe limitou-se a comentar que essas críticas baseavam-se em recalque.

Impossível não lembrar dos autores clássicos – e humanos – que trouxeram a Ficção Científica até aqui, entre obras boas e ruins. Embora não seja possível afirmar com certeza, há indícios de que não era a perfeição que buscavam em seu trabalhos; buscavam, sim, universos e conflitos que refletissem verdades humanas. Fizeram deste gênero literário uma fonte rica e imaginativa de questionamentos sobre a sociedade, o futuro, a humanidade e o Universo. Conseguiram construir uma Ficção Científica que foi muito além de uma pura dissertação sobre tecnologia e ciência. Mesmo munidos apenas de imaginação, levaram as histórias mais longe do que qualquer cálculo cartesiano e as mantiveram vivas e atuais ainda que a tecnologia e os universos nelas imaginados tenham ficado atrás dos avanços da realidade. O que os tornou grandes autores foi justamente saber o que importava.

Seja como for, a obra encontrou seu público e isso parece satisfatório – mas longe de perfeito. Além disso, Alpha Bolt não considerou calcular que, se estamos falando de humanidade, nem a mais perfeita das obras está livre de ser desprezada. Ao autor com carreira mais curta e bem-sucedida da história, só posso dizer: continue tentando.

Zetta Omens é robô, crítica literária e escreve todas as quartas na coluna de Literatura Para Humanos da Revista Orgânicos & Metálicos.

***

Ilustração por Eric Joyner. Daqui.

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Corpo que

14 de August 2014 por Valek

corpoque

Este corpo tem água e osso. Tem carnes moles. E dedos finos. Tem dois braços, com ombros, cotovelos e mãos. Tem duas pernas, com nádegas, joelhos e pés. No meio, um recheio de vísceras quentes que se movem o tempo inteiro, mesmo quando o corpo descansa. Em cima disso tudo, uma cabeça que às vezes esquece que o resto existe.

É um corpo que deita, fica sentado e anda, mas não muito, ou o joelho reclama. O esquerdo. É um corpo que não aprendeu direito a manter os ombros para trás, a coluna reta. Quando senta, às vezes fica torto. É um corpo que consegue cruzar as pernas ao extremo, até que elas fiquem totalmente entrelaçadas, como uma trança. É um corpo que encolhe, estica e flexiona mais que verbo.

Corpo esse que tem um peso, altura e idade. Que ficou maior ao decorrer dos anos. Corpo de formas mutantes, onde nada é fixo. Tem unhas que crescem, cabelos que caem, pelos que brotam. A pele desbota.

Corpo que tem siso nascendo e empurrando os outros dentes, que vão ficando apertadinhos, amontoados, em uma boca onde a língua é a consciência. A vida inteligente que habita um planeta úmido, cheio de detritos e cercado de paredes feitas de osso e esmalte.

Corpo que cheira e tem cheiro. Corpo que faz barulhos por dentro e por fora, quando falo ou canto ou respiro ou tenho fome. Corpo que enxerga com olhos meio defeituosos e com cada pedaço de pele que o cobre. Corpo que ouve o mundo e a si mesmo, quando o coração bate tão forte que emudece o resto.

Corpo que caga, mija, sua, peida, vomita, escarra. Corpo que se desfaz em sólidos, líquidos e gasosos. Corpo que devora e joga fora o que não presta, todo santo dia. Corpo que digere, processa e anda por aí carregando cocô até chegar a hora de jogá-lo fora. Corpo que filtra o sangue, a água e o que mais eu beber, até expelir em forma de urina que às vezes tem um leve aroma de café misturado ao ácido. Corpo que se deteriora aos poucos até o dia em que vai apodrecer de vez.

Corpo que chora e fica com a cara inchada. Treme no frio até as costas doerem. Serve pra dançar e descansar. Fica na horizontal e na vertical. Obedece à gravidade. Alonga e estrala. Sangra quando se fere. Tem dores estranhas que, em vez de calar, preciso ouvir para entender o que elas querem dizer. Expressa uma identidade. Tem um RG e CPF.

Corpo com sensações que nunca experimentei, possibilidades que nunca usei. Com um tempo de vida útil que eu nunca vou saber até quando vai. Um corpo que não está na garantia. Um corpo que não pode ser outro. Não é perfeito, nem atleta, nem capa de revista. Não tem rabo, nem asas, nem barbatanas.

Corpo que tem marcas de sol, pintas, tatuagens, espinhas, cicatrizes de acidentes, de arranhões de gato e de mordida de cachorro. Cabelo que não é mais virgem, com tinta no cabelo tesourado bem curto. Corpo com marcas que indicam que esse aparelho não é novo em folha. É – e está sendo – usado.

Corpo com buracos, de saída ou entrada. Tem cu e tem narina. Tem ouvido e tem umbigo. Tem vagina e tem boca – e, nos dois, lábios. Corpo que menstrua. Que goza. Às vezes os dois ao mesmo tempo. Corpo com um útero, ovários e uma porção de ovos.

Corpo com uma bunda riscada por estrias e polvilhada de celulites, que se estendem até as coxas. Corpo que tem barriga fofa e canela fina. Corpo que tem mamilos pequenos e escuros. Corpo com seios moles que esticam se levanto os braços, esparramam se deito de barriga para cima, esmagam se deito em cima deles, sacodem se o carro passa por um quebra-molas.

Corpo com veias e nervos formando as linhas de metrô que passam pelo corpo todo, linhas azuis e vermelhas. Corpo com um cérebro gelatinoso dentro de uma carapaça dura, que quase já se abriu uma vez. Corpo com músculos pouco usados e com um esqueleto inteiro por dentro que não deixa essa coisa mole se desmanchar. Corpo com consciência, palpitação, respiração e movimento.

Corpo que me carrega pra lá e pra cá, o único que tenho.

Meu. Corpo. O corpo que eu sou.

***

Leia também:

Meu corpo mutante

Esteticamente incorreta

Dentucismo

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Os demônios da minha escrita

30 de July 2014 por Valek

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Olívia Maia, em seu blog, fez a seguinte proposta para os amigos escritores:

“Como afirma Vargas Llosa: “El por qué escribe un novelista está visceralmente mezclado com el sobre qué escribe: los demonios de su vida son los temas de su obra.” Hay un poema hindú, el Vijñana Bhairava, que le gustava mucho a Cortázar, y que en cierta forma le explica: “En el momento en que se perciben dos cosas, tomando conciencia del intervalo entre ellas, hay que hincarse en ese intervalo. Si se eliminan simultáneamente las dos cosas, entonces, en ese intervalo, resplandece la realidad.”

Ignacio Solares, Imagen de Julio Cortázar

pergunta aos amigos escritores: quais são os demônios de sua vida? como esses demônios se infiltram na sua obra?”

***

O que me faz escrever?

É uma pergunta que se acendeu em mim mais claramente desde que tive uma aula com o editor Alexandre Barbosa de Souza: ao analisar se uma obra deve ser publicada, ele procura a obsessão profunda do autor dessa obra. Qual o projeto intelectual desse cara? Qual é a missão desse cara? O escritor, segundo ele, é alguém obcecado; explicou que a literatura tem um componente de doença, porque mostra uma incompatibilidade do autor pelo que é estabelecido em nosso mundo.

É possível ver pinceladas dessa obsessão nas obras dos autores que admiro. Em um livro que estou lendo, “Como funciona a ficção”, de James Wood, ele dá um exemplo:

“A pergunta desse romance [O ano da morte de Ricardo Reis] e de grande parte da obra de Saramago não é o já batido jogo ‘metaficcional’ de ‘Ricardo Reis existe?’. É a pergunta muito mais lancinante: ‘Existimos se nos recusamos a nos relacionar com as pessoas?’.”

Tive que pensar muito a respeito disso: qual é a minha obsessão? Eu tenho uma? Por que escrevo se eu poderia não escrever? Se não-escrever é mais fácil, o que diabos me faz escrever?

***

Sobre os textos que escrevo no blog, um leitor já comentou: “percebi que todos os seus textos se completam, de alguma forma. Eles giram em torno de um mesmo tema.” Eu fiquei impressionada com essa observação, porque foi certeira.

Por algum motivo, nunca precisei refletir sobre isso; sempre tive consciência do tema dos textos que publico no blog. Escrevo aqui um texto único, dividido em vários, colocados em uma ordem aleatória, mas com pontos que sempre se conectam. Como a Teoria Pixar: são personagens de mundos muito distantes entre si, cada um com uma mensagem, mas todos fazem parte de uma mensagem maior.

Mas nos meus trabalhos de ficção, eu nunca tinha parado para perceber um ponto de conexão. A pergunta de Olivia me atingiu na cara sem que eu estivesse preparada para me defender ou revidar.

Agora eu estava com aquela pergunta incômoda no colo e tinha que fazer algo a respeito. Tive que me esforçar e olhar para os meus demônios. Então o demônio me olhou de volta e começou a falar.

***

Limitação. Da forma que a nossa realidade foi construída, estamos cercadas de limitações: as nossas e a do nosso mundo.

Enquanto vivo, vou esbarrando em tudo que não posso fazer e em tudo que não consigo fazer. Sou consciente demais das minhas limitações, o que faz com que as pessoas à minha volta reclamem e tentem me dizer do que eu sou capaz. Mas eu só consigo ver as barreiras; não porque eu seja obcecada com elas, mas porque é algo que me aflige. É, talvez, minha aflição mais profunda.

As barreiras, é claro, existem para todas as pessoas. Somos incapazes em tantos sentidos. Estamos presos às regras, convenções e possibilidades do mundo em que vivemos.

Mas e se as coisas fossem diferentes? As pessoas funcionariam? Como funcionariam?

A ficção é feita de uma substância que lhe permite ser manipulada, esticada, comprimida, combinada com outros elementos e deformada infinitamente.

É possível mexer nas alavancas e ver o que acontece: suspender a gravidade? Dá. Avançar no tempo? Dá. Criar outras espécies? Dá. Fazer um cara acordar como uma barata? Dá. Fazer todas as pessoas perderem subitamente a visão? Também dá. As possibilidades são ilimitadas.

Diante disso, posso criar as mais absurdas situações e jogar os personagens ali. Testar, ver como eles se saem. Talvez porque eu mesma queira aprender com eles como lidar com o absurdo.

Porque a nossa realidade já é um tanto absurda: é justamente isso que põe à prova nossas limitações, seja para delimita-las ou expandi-las. Mas poderia ser absurda de outras formas. E eu simplesmente preciso ver o que acontece.

Então eu sempre tendo a colocar uma maluquice no meio da história, o que eu até então via como uma limitação minha (mais uma), algo que eu só sabia fazer dessa forma porque talvez não tivesse me desenvolvido, porque escrevia de forma vulgar, juvenil. Mas e se esse fosse justamente o meu tema?

Foi quando percebi que meu demônio reside numa simples pergunta que me assombra: Como lidar com o absurdo?

E, de repente, as histórias que eu escrevo pareceram se conectar.

***

Refleti tanto sobre isso que comecei a pensar em uma hipótese absurda.

Certo, minhas histórias orbitavam em torno de um tema. As da Olivia, em torno de outro tema. As de Saramago, Bukowski, Tchekov, Lovecraft e tantos outros, idem.

E se, olhando de perto, pudéssemos ver que todos esses temas são, na verdade, os mesmos? Micro-universos que fizessem parte de um universo maior? Histórias que atravessam os limites do tempo e de quem as escreveu e completassem umas às outras?

Qual seria a mensagem maior, então? E, o mais intrigante: quantos demônios eram necessários para suportar o peso dessa mensagem e mantê-la erguida por tanto tempo?

***

Ilustração por Valentin Leonida. Daqui.

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Falar mal é o que nos conecta

28 de July 2014 por Valek

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Horrível esse tempo, né?

O trânsito está uma bosta.

Você viu o que aquele cara falou? Meu deus, como ele é babaca.

Esse foi o pior livro que eu li na vida. Vou te contar detalhadamente cada passagem que achei bizarra. É tão ruim que chega a ser engraçado!

E o Brasil, hein?

Olha só esse texto que merda.

Achei tão tosco que vou tirar print para zoar na internet. Galera vai compartilhar a beça!

Ainda bem que posso desabafar com você sobre o quanto essa pessoa me irrita.

Nossa, olha aquela fia. Não ficou legal essa calça estampada com aquele corpo que ela tem não.

Odeio segunda-feira.

***

É sempre difícil encontrar algo em comum com outra pessoa. Puxar assunto com pessoas não tão conhecidas, então, é melhor quando se apela para algo universal. E o que pode ser mais universal do que falar mal de alguém ou de alguma coisa? Basta achar um “inimigo” em comum e você já tem uma conversa garantida.

Já reparei que um assunto rende mais quando é sobre falar mal de algo. A gente se empolga. Sempre há o que criticar. E há aquele sentimento de cumplicidade, não é mesmo? Afinal, ali as pessoas estão se abrindo, desabafando, expondo algo negativo sobre alguém ou algo sobre o qual geralmente ela não fala abertamente.

Ah, fora o sentimento libertador da sinceridade.

Falar mal nos conecta. Gera assunto. Cria até novas amizades – ou aprofunda as já existentes.

Confesso: falar mal dá até um prazer.

O corpo deve liberar substâncias como quando você pratica algum esporte. Dá vontade de fazer mais, de fazer sempre. Vicia.

Logo estamos procurando grupos ou causas onde podemos nos dedicar a falar mal de outras pessoas ou de outros grupos. Começamos a nos identificar com aquilo que somos contra. Assim sempre teremos assunto!

Falar mal, reclamar, criticar, cornetar, esculachar. Eis o combustível da nossa sociedade. Eis a força motora que faz essa grande roda chamada VIDA girar.

***

Sou alguém que fala da posição de quem está dentro desse esquema.

Algumas das falas que coloquei no início desse texto são minhas. Outras tantas que não coloquei ali também são – mas achei que aquelas eram o suficiente para ilustrar um comportamento que você deve identificar (ou se identificar) no cotidiano.

Falo como alguém que recorre ao “falar mal” quando não sei sobre o que falar. Como alguém que o faz, às vezes, por diversão. Como alguém que mesmo quando não está criticando algo ou alguém, geralmente se interessa e gosta de ouvir outros praticando o “falar mal”.

Mas também falo da posição de alguém que vê isso como um círculo vicioso meio nocivo.

Se eu só sei falar mal, o que isso diz sobre a pessoa que eu sou? Se eu uso o “falar mal” como a forma fácil e mais confortável para buscar algo em comum com outra pessoa, mesmo que tenhamos em comum só o fato de odiar algo ou alguém, o que isso diz sobre mim?

As palavras que usamos dizem muito sobre nós. A negatividade dos assuntos que trazemos para as conversas, também.

Eu posso não saber exatamente que pessoa eu quero ser, mas sei que não quero ser a pessoa que só detona os outros. Eventualmente, eu serei – mas só porque estarei fracassando nessa batalha diária em ser uma pessoa menos babaca.

Além disso, o que eu ganho me cercando de pessoas que não se importam em detonar os outros? Por que me cercar de pessoas que podem a qualquer momento fazer comigo o que fazem com os outros?

Não é melhor eu me cercar de pessoas que se esforçam um cadim mais para valorizar o que as pessoas fazem de bom, ou falar sobre coisas bacanas, ou compartilhar coisas que me enriqueçam – e não só me preencham com aquele prazerzinho delícia-porém-absolutamente-efêmero do “falar mal”?

Se alguém vem me esculachar o trabalho de outra pessoa, fico pensando: o que impede que ela faça piada do meu próprio trabalho?

Se alguém me fala mal de um amigo ou de uma pessoa de internet que ache babaca, o que impede que essa mesma pessoa faça esses comentários maldosos sobre mim?

Dessas pessoas, eu prefiro me afastar. Assim como tento me afastar da pessoa babaca que eu não quero ser.

***

Buscar outros assuntos mais positivos é saudável. Abolir o “falar mal” tornaria a nossa sociedade inviável.

Imagine como seria conversar com alguém buscando com essa pessoa uma coisa em comum que não fosse algo que ambas desprezassem, odiassem ou se irritassem? Talvez conversássemos bem menos.

Imagine evitar falar de uma terceira pessoa, não presente na conversa. Ou, se falar de alguém que não estivesse presente, que fosse apenas para valorizá-la. Talvez teríamos que olhar para nós mesmos e falar de coisas mais íntimas que não nos permitimos abrir para as outras pessoas. Talvez teríamos que fazer um grande esforço para começar a perceber o que as outras pessoas fazem de bom e que normalmente nem prestamos atenção.

Imagine endereçar as críticas a alguém diretamente para a pessoa criticada. Falar diretamente para ela aquilo que ela faz que incomoda você. Talvez não suportaríamos a sinceridade. Talvez não tivéssemos coragem. Talvez não soubéssemos criticar com empatia, imaginando como aquela pessoa vai receber o que falamos. Talvez não soubéssemos conversar sem magoar uns aos outros.

A sociedade não iria funcionar.

Mas talvez ela já NÃO esteja funcionando.

***

No momento em que escrevo este texto, a tag #euodeio é a mais compartilhada no Twitter.

***

Ilustração do artista Alex Grigg. Daqui.

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Leitura do desconforto

10 de July 2014 por Valek

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Poucas leituras me satisfazem tanto quanto aquelas que me incomodam.

Pude perceber isso com mais clareza em uma de minhas últimas leituras, o romance policial & aventureiro “A Última Expedição”, de Olivia Maia.

Policial, só no gênero. Não é daquelas histórias sobre detetives ou policiais salvando o mundo, mas tem mistério, suspense, perseguição e investigação. Troque os detetives de sobretudo e chapéu por um grupo de aventureiros falidos, o crime a ser resolvido pelo sumiço de um médico e o cenário urbano pelos mais rústicos e ermos cenários na Bolívia.

Como a própria Olivia resumiu: “Um médico gringo que desapareceu em algum país vizinho, enquanto pesquisava alguma planta estranha. Um grupo de degenerados brasileiros contratados para encontrar o pesquisador e um empresário cheio de segundas intenções”.

Aliás, nesse texto ela também conta como foi o processo de escrita desse livro e a viagem para a Bolívia, onde ela foi perseguir cenários e personagens para a história e (quem sabe) encontrar o médico irlandês desaparecido.

O que importa, no entanto, mais do que a história que não vou contar muito para não estragar as surpresas do livro, são as sensações que ele me causou.

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O que chamou a atenção de cara foi a escrita de Olivia: frases que terminavam pela metade, palavras que ficavam gritando justamente pela sua ausência, no que pode parecer a alguns um descuido na revisão, mas que, na verdade, constituem um trabalho cuidadoso da autora em construir uma narrativa baseada em lacunas. É uma história cheia de mistérios, ué! Logo, é sobre algo que não está presente, sobre o não-contado, o não-dito.

O raciocínio constantemente interrompido na narrativa serve para lembrar o tempo todo que há algo faltando; algo que ninguém considerou, que ninguém pensou ainda. Mais do que isso, é um convite.  É como quando alguém está falando e faz um suspense para falar a palavra seguinte. Dá vontade de? Isso, de completar.

Comecei a perceber que eu estava me esforçando para completar essas lacunas. De tentar raciocinar junto com o Estevão, o protagonista, ou então tentar pensar além dele, mesmo não dispondo de mais informações do que ele mesmo tinha.

Era isso: eu estava, de fato, participando da expedição. Eu era um dos membros do grupo de Estevão. Também era meu trabalho descobrir onde estava o médico desaparecido, saber por que ele desapareceu e por que queriam encontrá-lo.

O livro não me deu nenhuma resposta fácil. Eu tive que suar para buscá-las. É como se a autora tivesse colocado o jogo no hard – e me colocado não como espectadora da aventura, mas dentro dela.

Não poucas vezes, durante a leitura, percebi que estava sem fôlego. O ritmo da narrativa é acelerado, o raciocínio vai se atropelando, cortando palavras, deixando buracos. Nunca estive em um lugar de altitude, mas posso dizer que foi em “A Última Expedição” que mais perto cheguei dessa sensação. É aflitivo, cansa. E a poeira, o frio, as lonjuras, é tudo muito palpável na história. Em cada detalhe do livro havia o esforço de me convencer que eu estava nos altiplanos bolivianos. E funcionou.

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Isso me fez pensar em tantas outras narrativas que me conquistaram porque deixaram comigo parte do esforço de construir a história. Leituras que me deram trabalho, que me incomodaram, que me deixaram desconfortável em algum nível.

Lembro também de George R. R. Martin e sua forma de conduzir a história sem a preocupação de agradar o leitor ou de tornar as coisas fáceis para quem lê. Mas o grande incômodo de saber que ninguém está a salvo naquele mundo, nem seus personagens favoritos, é justamente o que parece ter tornado “As Crônicas de Gelo e Fogo” um sucesso.

Lembro ainda de uma fala de Alan Moore, a respeito de satisfazer as vontades do público: “não é o trabalho do artista dar ao público o que ele quer. Se o público soubesse do que ele precisa, ele não seria o público, seria o artista”.

Aliás como posso esperar ser surpreendida por uma história que seja exatamente o que eu quero?

Ler não é só juntar letrinhas, mas participar de algo – e se for de algo que me sacuda e balance minhas seguranças e certezas, melhor ainda.

Além disso, ler não precisa ser sempre um passeio em um campo florido. Às vezes é bom – e necessário – ser jogada no meio do nada, com a cara na poeira, em um lugar onde as pessoas mal falam português, à procura de um gringo desaparecido.

***

Achou interessante? Quer ler “A Última Expedição”? Você pode comprar o e-book (que foi como eu li, no meu Kobo) ou, se preferir, o impresso.

As fotos que ilustram esse post foram tiradas pela própria Olivia, em sua viagem para a Bolívia. É incrível poder ver nessas imagens o cenário pitoresco que eu construí na minha imaginação :)

Na ordem: caminho para Coqueza e a vista do vulcão de Tunupa; salar de Uyuni, o maior deserto de sal do mundo; e a cidade de Sucre vista do mirante.

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Violência e consentimento

03 de July 2014 por Valek

Primeiro, assista ao vídeo acima.

Provavelmente você já deve ter visto, já que ele parte da ideia daquele outro vídeo que viralizou há algum tempo, com dois desconhecidos sendo colocados na frente da câmera para se beijarem – um vídeo que depois descobriram se tratar de uma propaganda disfarçada para uma marca de roupas. E tudo que transformam em propaganda perde a graça. Bem, mas não é o caso desse vídeo, embora seja muito parecido com o do beijo, até no visual.

Neste vídeo os desconhecidos não são instruídos a se beijarem, mas sim a dar um tapa na cara daquele completo estranho ou estranha diante de si. Um tapa. Na cara. De alguém que você nunca viu na vida.

É muito interessante observar a reação das pessoas. Como se comportam antes de dar um tapa. As coisas que falam, como decidem quem vai bater primeiro. Até estabelecem limites (“espere eu tirar o óculos” ou “calma, vou tirar os anéis” ou “pode me bater, eu só não quero sangrar” “haha, eu nunca faria isso!” ou “obrigada por tirar o anel, muito gentil da sua parte!” “viu, eu me importo com você!”). Como são gentis umas com as outras, apesar de não se conhecerem e, bem, terem que estapear a outra mesmo assim.

E aí rola o tapa, um em cada rosto. Elas riem. Perguntam se podem bater mais. Começam a curtir a brincadeira. Dão tapas mais elaborados, com as duas mãos. Outras dão chutes. Fazem uma corrente de tapas. Dão tapas na bunda. Pedem pra outra bater mais forte.

Fica divertido! Elas riem, se divertem, extravasam. E é tão íntimo. Eu diria que isso exigiu bem mais intimidade e confiança do que beijar um desconhecido (coisa que já é tão natural em festas e carnavais). Depois de tanto se baterem, eles se abraçam, se beijam, parecem ter feito um novo amigo.

Como pode rolar tanta intimidade, gentileza e amizade em um tapa?

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O objetivo do diretor deste vídeo era justamente explorar a natureza da violência: “um tapa, subtraído de seu contexto violento, é mais íntimo do que um beijo. Um tapa atenuado pela permissão do outro se torna um abraço. Elas constroem um relacionamento nesse momento.”

Achei esse experimento incrível. Porque consegue expor (de uma forma fofa e divertida) algo que temos tanta dificuldade para elaborar: que, basicamente, a violência se define pela falta de consentimento.

Um exemplo no esporte: MMA. Muitos acham o esporte muito violento, porque tem porrada, sangue, o objetivo é subjugar o adversário. Mas quem acompanha e vê com atenção, percebe que não é bem assim. Existem muitas regras que servem para proteger os lutadores. Não existe isso de espancamento até a morte, porque o juiz interrompe a luta com o mínimo sinal de perda de consciência de algum dos lutadores, mesmo que o cara apague apenas por uma fração de segundos. Se o cara é pego numa chave de braço, por exemplo, ele dá um tapinha no braço ou na perna do outro lutador, ou ainda no chão, para sinalizar que “chega, não quero mais, me rendo, você ganhou”. É tipo uma safe-word. O limite do consentimento: o outro tem que parar, a luta é interrompida.

O cara entra no octógono consentindo com o fato de que poderá bater e apanhar, com a consciência dos limites daquele jogo, do que ele pode ou não fazer, e tentar vencer o outro dentro dessas regras.

O futebol, por outro lado, é mais violento. Porque as agressões não fazem parte das regras do jogo, sendo inclusive punidas. Mesmo assim as agressões acontecem, e o pior é que são inesperadas, pegam o jogador desprevenido. Qualquer rasteira por trás, empurrão ou até mordida. Sem falar que a violência do futebol também é praticada pela própria torcida, sendo que ninguém entrou no estádio consentindo em apanhar – embora alguns queiram bater.

Parafraseando o Alessandro Martins, o MMA é mais civilizado porque consiste em dois cavalheiros ou duas damas que concordaram expressamente em se espancar até um dos dois não aguentar mais. Eles não se batem porque se odeiam ou porque querem prejudicar o outro. Por mais que exista rivalidade entre alguns lutadores, é comum no final de uma luta os caras se abraçarem, parabenizarem o outro e ainda pedirem palmas da torcida para o adversário que tenha dado trabalho.

O consentimento sendo a linha que separa a violência da não-violência pode ser observada em outros aspectos da vida.

O assédio na rua é uma violência porque a mulher que é submetida a essa situação não concordou com isso. Não há como ela sequer expressar seu consentimento para um desconhecido que passa de carro gritando baixaria ou para um estranho que passa por ela praticamente cheirando seu cangote. E lembrando que 1) usar uma saia curta ou decote não significa consentimento 2) os caras que fazem isso não estão nem um pouco interessados no consentimento da moça, portanto, a “graça” que eles veem nisso é justamente em cometer um abuso.

Se duas pessoas adultas e conscientes concordam em fazer sexo, bem, aí é sexo. Uma relação, uma troca. Se uma pessoa decide fazer sexo com alguém sem o consentimento dessa pessoa, deixa de ser sexo e se transforma numa violência. É estupro. E lembrando que uma pessoa ter permitido fazer algo sexual uma vez não significa que ela está concedendo permissão automática para tudo, todas as vezes.

Tem casais que curtem se bater, fazem disso um fetiche. Então eles concordam em se amarrar, em infligir dor no outro ou se submeter à dor, impondo suas próprias regras, com limites e consentimento. Sem consentimento, é violência.

Até um beijo ou um abraço dado sem o consentimento do outro torna-se uma violência.

E acho que estamos falhando em ensinar o que é consentimento e saber o que isso significa. Muita gente não entende sequer o básico: que se uma pessoa está inconsciente ou bêbada ela não é capaz de dar consentimento. Que não dizer um “não” não quer dizer que a pessoa consentiu. Que um “não” significa sempre e indubitavelmente um “não” e que a pessoa não está dando o seu consentimento para algo. Que não respeitar esses limites é cometer uma violência.

Chega a ser irônico pensar que um vídeo de tapa na cara possa nos ensinar tanto sobre civilidade e gentileza – algo que só podemos experimentar, como sociedade, por meio do respeito ao consentimento.

***

Este texto foi publicado originalmente na edição 20 de Bobagens Imperdíveis, newsletter que envio semanalmente com textos exclusivos, conversas, atualizações sobre o meu trabalho, curiosidades, tretas, indicações de leitura e muitas bobagens. Assinar é fácil, rápido e grátis, é só clicar aqui.

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Troca de mensagens

01 de July 2014 por Valek

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Oi :)

Oi… Quenhe?

Não tenho seu número

Meu nome é Sal!

Ué, não conheço ninguém com esse nome. É da faculdade?

Provavelmente não, risos

Agora tô curioso

Opa, agora sei que estou falando com um cara!

Você não me conhece?

Como conseguiu meu número então?

De um aplicativo

Que aplicativo? Tinder?

Eu tinha saído do Tinder

Não…

Você não deve ter esse aplicativo.

Não foi lançado ainda na sua época.

Han?

Como assim?

Rs

Então

É um aplicativo que permite trocar mensagens em tempo real com pessoas do passado.

Você tá me zoando. É o Leonardo, né

Leonardo? Não, é a Sal

Tá bom. E você está no futuro

Sim!

Em que ano você está, amigo do Leonardo?

É Raul

E estamos em 2014.

Uou!

Esse aplicativo é bom mesmo.

Aqui o ano é 2208.

Hahahaha ok.

Você não está acreditando, né.

Se você está no futuro, me diz aí quem vai ganhar a Copa.

Nossa

Que incrível

Na sua época ainda existia Copa?

Vai me dizer que na sua época não?

Há muito tempo que não

Acho que deixou de existir depois que os países acabaram. Aí não fazia mais sentido ter seleções de futebol pra cada país se esse negócio de nação não existia mais.

Mas futebol ainda existe, pode ficar tranquilo

Se não existe país, onde você mora?

Num apartamento com varanda

Hehe

Brincadeira

Em Oester Grande. É uma das grandes metrópoles mundiais. Surgiu da ligação dos centros urbanos que ficavam entre Belorizonte e Londrina de antigamente. Agora é tudo uma coisa só.

Nossa, deve ser grande

Aham

Mas me fala mais de você, Raul.

Onde você mora?

Em São Paulo. Na minha época é a maior cidade, mas não chega nem perto da sua, né.

Agora tô aqui imaginando como deve ser pegar o metrô no horário de pico em Oester Grande

Dsclp, é que nunca falei com alguém do futuro antes

Hahahaha

Também é a primeira vez que eu falo com alguém do passado :)

Muito legal esse aplicativo

Né? E ainda baixei de graça

Mas me diz

O que você faz da vida?

Sou community manager

O q é isso?

Então

Eu sou responsável pela comunicação das marcas nas redes sociais, tipo criar conteúdo pra facebook, sabe?

Não sei o que é facebook

É uma rede social da minha época. As pessoas criam páginas pra elas falarem da própria vida, colocarem fotos, adicionarem amigos e compartilharem links que achem legais, mas geralmente é só merda

Nunca ouvi falar

E no meio disso tudo, as empresas postam suas campanhas, falam sobre seus produtos, promoções ou criam conteúdo engraçadinho pras pessoas compartilharem

E é isso que eu faço!

Nossa, que específico

Nunca iria imaginar que já tenha existido uma profissão assim.

Mas é sua única profissão?

Ué, sim

Qual é a sua?

Eu tenho três, na verdade.

Dou aulas particulares de português, mandarim e idioma global

Cuido da programação das máquinas de um restaurante de comida indiana

E sou patinadora de Kufpsbal

Tudo isso? Como você consegue conciliar?

Tendo um horário pra cada coisa, oras

Mas deve ser uma merda se deslocar em 3 empregos numa metrópole como deve ser onde você vive

Nada, faço tudo de casa. As aulas particulares e a programação.

Tudo remoto

Só saio mesmo para os treinos e partidas

Como é isso de ser patinadora profissional?

E o que é Kuspbal?

Haha

É Kufpsbal. Um jogo muito popular aqui “no futuro”.

Mas não entendi sua pergunta quanto a ser patinadora profissional. Qual é a dúvida?

Tipo, você ganha pra ser patinadora? É um emprego mesmo?

Sim!

Precisam de patinadoras para fazer uma partida, certo? Então me pagam para jogar, ué

Que legal!

Deve ser muito massa, mas ao mesmo tempo você deve ser bastante ocupada, não?

Sim, mas estar ocupada é bom

E você está ocupada agora?

Mais ou menos. Estou supervisionando as máquinas do restaurante, mas no geral elas já fazem tudo sozinhas. É mais ficar atenta pra ver se não dá algum problema.

E não tem problema ficar trocando mensagens comigo?

Nada

É sussa.

Pelo menos nos próximos 5 minutos, que é quando tenho um aluno me esperando na tela para uma aula de português.

Entendi

Ei, Sal

Você podia me adicionar nos seus contatos

Acabei de fazer isso

:)

Também te adicionei por aqui

Não é todo dia que converso com alguém do futuro

Queria poder fazer isso mais vezes!

Sim, eu também!

Espero que quando eu voltar você ainda esteja aí em 2014.

É só não demorar a aparecer, rs.

Mas antes de ir

Queria te perguntar mais uma coisa

Diga

Posso ver uma foto sua?

***

Continua.

Ilustração: Julia Yellow. Daqui.

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