Dá um play e vem comigo.
É um pouco chateada que escrevo este texto. Desde o início do ano parti numa trip literária, louca para colocar em dia minha leitura, ler os livros que nunca tive tempo para ler, conhecer novas histórias, buscar referências. Daí que todo mundo me falava do Kerouac, que eu precisava ler, que eu ia gostar, que era essencial, que On The Road era o tipo de livro que mudou a vida de muita gente e essa coisa toda – tive que considerar o livro para a minha lista, e olha, eu estava ansiosa para ler. Tão ansiosa que, quando não encontrei o On The Road na livraria, considerei levar Os Vagabundos Iluminados. Mas lembrei do que o Marcos sempre diz quando vamos pela primeira vez a alguma hamburgueria: não inventa moda na hora de fazer o pedido, pede o hambúrguer básico que geralmente é a especialidade da casa. Resolvi não arriscar com Kerouac, e como todo mundo só falava de On The Road, tinha que começar por ele.
O negócio é que eu não gostei. Foi um caminho de 461 páginas difícil de percorrer – e é tão difícil para mim admitir isso. Tudo bem, a gente acaba encontrando autores que não gosta, histórias com as quais não se identifica, isso acontece, a vida segue. Mas eu fiquei me perguntando: o que aconteceu entre nós, Jack? O que faltou para as coisas darem certo, para rolar aquela química? Foi algo que eu não entendi, Jack? Talvez seja só que, não me leve a mal, você não faz o meu tipo.
Não estou dizendo que foi uma merda. Foi muito inspirador conhecer o livro que, reza a lenda, foi datilografado furiosamente em vinte dias, em um único rolo de papel. Invejo você, Jack. E foi esse manuscrito em rolo que foi recusado por vários editores antes de finalmente ser publicado, com diversas alterações, em 1957. A versão que eu li, a original, é descrita pela editora como “mais selvagem” e também mais crua. O livro inteiro é um único parágrafo, como uma pista em linha reta, sem curvas, que você precisa seguir com atenção porque se você desviar o olhar por um segundo você se perde ou bate de frente com o caminhão que vem do outro lado.
O livro, dividido em cinco partes, conta a história de Jack atravessando o país (o dele, claro) e vivendo ao deus dará. Só nessa brincadeira, ele foi da costa leste a costa oeste, e de volta para a costa leste umas três vezes – e, depois, da costa leste ao México. Apesar da exaustiva descrição dos percursos das viagens (fiquei tão cansada como se estivesse, de fato, viajando com eles em um carro velho), há momentos interessantes e personagens que valem a pena. Jack mandou muito bem nos trechos em que narrava shows de jazz – tinha ritmo, energia, e a música é algo muito difícil de transmitir só com a escrita. Coisa que ele conseguiu. Mas quem segura a história mesmo é Neal Cassady (ou Dean Moriarty, dependendo da versão que você leia). O cara é um porra louca, imprevisível, parece um cão abobalhado: tudo o excita e sua energia parece não acabar “sim, sim, simmm!”. Pegar no volante o deixa tão feliz quanto um cão agarrar um belo osso. Neal foi o que pulsou e brilhou em meio a uma história que, pelo menos ao meu ver, foi sobre o mapa dos Estados Unidos da América.
On The Road tem sim seus pontos positivos – não nego. Mas não consegui me encantar por ele. Talvez seja por uma questão de contexto (e eu estaria fora dele). A liberdade e o desapego podem ser um tema muito mais interessante para quem está justamente do outro lado da coisa, buscando esse escape em um livro porque é o que não tem na vida real. Ou, por outro lado, um livro sobre pegar a estrada pode gerar grande identificação com quem gosta de fazer isso e o faz com frequência. É claro que existem vários fatores para alguém gostar ou desgostar, mas o que quero dizer é que um livro não é “gostável” por si só. O mérito de um bom livro é metade do escritor – e a outra metade, do leitor. Você pode até ter uma visão diferente da minha e gostar, quem sabe. Estou com o livro aqui à disposição.
Jack, não foi dessa vez. Fica para a próxima, ok? Agora você me dá licença: vou ali voltar para o Bukowski – o único vagabundo do qual consigo gostar.
9
o livro das coisas interessantes sobre personagens vulgares – pt. 2
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Foi no protesto pelo assassinato do jovem Rubens que Débora conheceu Karine. As duas almoçaram juntas na feira, onde Karine tinha uma banca de cosméticos. Karine já se chamou João Pedro; é uma daquelas pessoas que deram o azar de nascer no corpo errado. Se tivesse apenas passado por ela na rua, ou visto a morena da janela do seu escritório, Débora jamais imaginaria sua história. Para a sorte de Karine, a maioria das pessoas que passavam por ela também não seriam capazes de imaginar sua história ou quem ela era – de outra forma, provavelmente ela estaria tão morta quanto Rubens. Nunca se sabe.
Débora despediu-se da nova amiga, que deixou com ela o cartão da loja. Todo rosa e cheio de firulas que deixaria qualquer designer minimamente profissional com vontade de morrer. Também era assim a maioria dos panfletos que Débora recebia na rua, por mais que tentasse se desvencilhar dos panfleteiros. Se já estava ficando louca de todos os dias fazer o mesmo trabalho no escritório, imaginava o quão próximos de surtar estavam aquelas pessoas, trabalhando na rua, no sol, esticando o braço para entregar um panfleto que ninguém ia ler, isso quando os transeuntes não evitavam seu alcance, como se eles tivessem lepra, e não apenas alguns quilos de propaganda inútil para se livrar.
Chegou na parada de ônibus cheia de papeis nas mãos, que jogou na lixeira mais próxima. Apanhou o primeiro ônibus que passou, imaginando para onde iria agora. Débora já estava sentada quando o ônibus deu um solavanco assim que alguns passageiros embarcaram. Algo de desespero do motorista, que tinha um pé pesado demais, que não queria atrasar, que não queria perder tempo, que queria ir logo pra casa. Um homem que acabava de passar pela roleta não conseguiu se equilibrar nem se segurar. Foi arremessado pelo corredor e quase caiu no colo de uma senhora sentada à frente de Débora.
“Ô motorista! Você me derrubou, filho da puta!” esbravejou o homem.
“Segura aí, velhote. Não sabe andar de ônibus não?”, o motorista respondeu, sem olhar para trás.
“Você é que não sabe dirigir essa merda! Você está transportando pessoas aqui, e não sacos de batata! Presta atenção!”
“Presta atenção você! É proibido falar com o motorista. Senta seu traseiro aí e cala a sua boca.”
Como o passageiro não se calou, o motorista deu mais uma freada brusca. O homem caiu de novo, ficou puto. Avançou pela roleta, foi segurado pelo cobrador, coitado, que nem queria se meter na confusão. Mais dois passageiros tentaram conter o homem enfurecido, mesmo sabendo que o motorista merecia mesmo uma porrada. Enquanto isso, uma mocinha que tinha se levantado para descer na próxima parada estava recolhendo seus cadernos, que caíram e se esparramaram na hora da freada.
Ela deixou um folheto para trás, que Débora recolheu do chão tarde demais para devolvê-lo para a garota. Ela já tinha descido. A confusão não tinha acabado lá na frente. Na capa do folheto, uma chamada para uma exposição de fotos em cartaz na galeria de arte da Romaneia. A imagem que ilustrava era a fotografia de um senhor sério, barbudo e de terno, com bobs nos cabelos. Parecia um flagra, no meio da rua. Abaixo, o nome da expo: “tudo menos o óbvio”.
***
Finalmente chegou à porta da casa de Débora. Morava na última casa do condomínio, a desgraçada. Rocha jurava que ela estaria em casa – onde mais gostaria de estar alguém que faltou o dia de trabalho, não para fazer exames e resolver problemas pessoais como havia dito?
Desceu do carro e olhou por cima do portão. Tocou a campanhia, esperou e esperou e nada. Talvez ela tivesse visto que era ele, o chefe. Talvez estivesse fingindo que não estava em casa. Tentou mais uma vez e nada. Resolveu que ia entrar. Procurou o fecho do portão e viu se dava para abrir ou teria que pular.
“A Débora não está em casa, moço”, disse uma velhinha sorridente que cuidava do seu jardim, na casa ao lado.
“A senhora viu se ela… entrou ou saiu faz muito tempo?”
“Ela saiu pela manhã, como todos os dias” colocou o regador no chão e se aproximou do senhor engravatado a passos lentos “Se quiser, posso dizer a ela que o senhor esteve aqui”.
“Na verdade, prefiro encontrá-la pessoalmente”, olhou no relógio de pulso e nem viu que horas eram, tamanha sua irritação.
“Ah, que ótimo. Já que vai esperar, poderia me dar uma mãozinha com um armário aqui em casa? É muito pesado e minha coluna está acabada.”
“Minha senhora, eu tenho mais o que fazer. Nem estaria aqui se Débora Lígia não tivesse me forçado a isso.”
“Não vai levar dez minutos. Isso se o senhor for tão forte quanto parece.”
Rocha foi ajudar a velhinha, contrariado. Entraram na casa, que cheirava a naftalina e lavanda, e a senhora pediu para que ele tirasse o sapato na entrada. Subiram as escadas e chegaram a uma espécie de sala de costuras.
“Aqui. É esse. Eu afasto ele facilmente sempre que preciso, mas dessa vez ele emperrou.”
“Você só precisa que eu afaste o armário?” Rocha achou que seria tarefa fácil, mas era pesado e parecia preso ao chão. Tirou o paletó e começou a fazer força, suando a testa.
A senhora, que se apresentou como Dona Alice, voltou com seus pequenos passos trazendo uma bandeja com uma xícara de café e biscoitos caseiros. Rocha não olhou para eles até que tivesse terminado. Finalmente conseguiu arrastar o móvel para o lado, e percebeu que o armário estava atrelado a uma espécie de mecanismo. Percebeu também que atrás dele havia uma entrada – da qual o próprio armário era a porta.
“Mas o que é isso, minha senhora?” Rocha estava espantado.
O cômodo escondido era uma sala cheia de telas que mostravam imagens de várias partes da cidades. Uma espécie de Big Brother particular.
“A senhora tem escondida na sua casa uma sala que monitora toda a cidade?”
“Tenho sim.”
“Qual o sentido disso?”
“Bem, meu marido era militar. Aqui era a base de operações dele, onde ele procurava por atividades suspeitas, comunas, essas coisas. Ele morreu, a revolução acabou, e, bem, esqueceram das câmeras e do sistema todo.”
“E a senhora espiona as pessoas da cidade?”
“É melhor que ver novela”, a velhinha admitiu, beliscando um biscoito. Rocha não parava de olhar de uma tela para outra. Por um lado, achava uma absurdo tamanha invasão de privacidade. Por outro, queria providenciar uma dessas para ter no seu escritório. Então ele teve uma ideia.
“Quer ver algo mais interessante que novela? Ajude-me a achar a Débora.”
Débora nunca foi de frequentar galerias de arte, então não sabia se devia fazer cara de intelectual diante das peças. As fotografias expostas eram tão óbvias que não via como podia ficar procurando significado em tudo aquilo se já tinha entendido: não existiam pessoas comuns porque pessoas eram histórias.
E isso estava bem claro nas fotos. Talvez não estivesse claro antes, quando Débora só olhava as pessoas da janela de seu escritório ou de seu carro. Elas precisaram ser impressas estáticas, congeladas no tempo, para que Débora tivesse tempo de perceber. Cada personagem inusitado da exposição eram pessoas que podiam ter cruzado o caminho de Débora e ela nem ligou. Lembra da Silvinha? O que será que ela acharia da exposição depois de dizer que não tinha interesse em gente comum?
Foi andando pelos corredores da galeria até encontrar uma sala vazia, cheia de cavaletes com blocos para desenho. Nunca desenhou na vida, mas atreveu-se a experimentar a textura do carvão no papel. O carvão quase se quebrou quando ela o soltou, assim que foi surpreendida por um homem que entrou na sala.
“Pelo visto você foi a primeira a chegar. Mas não se preocupe, já vamos começar”
“Ah, me desculpe, eu não…” ela tentou balbuciar uma desculpa por estar aparentemente onde não devia. Mas logo chegaram outras pessoas, que sentaram-se diante dos cavaletes, e o homem deixou de lhe dar atenção.
“Para quem ainda não me conhece, eu sou Nero e vou orientá-los na aula de desenho com modelo. Hoje vamos trabalhar poses de vinte minutos, certo? Luca, pode vir”.
Entrou uma mulher vestindo um roupão. Chegando ao centro da sala, Nero despiu-a e colocou-a em uma pose para começarem os trabalhos. Débora não estava acreditando: ela conhecia Luca. Era gerente do restaurante onde almoçava todos os dias. Uma moça simpática e sempre atenciosa com quem sempre conversava quando arranjava um tempinho entre atender uma mesa e outra. Débora escondeu-se atrás do cavalete com vergonha de ser reconhecida, embora não fosse ela que estivesse pelada.
“Débora?” não adiantou nada. Luca estava parada como uma estátua, mas conseguiu vê-la. A única coisa que Débora conseguiu fazer foi mover o rosto para o lado e sorrir para a modelo. “Não sabia que você desenhava!”, ela continuou. Débora pensou em responder que também não imaginava que ela posava nua para desenhistas, mas achou melhor não.
“Pois é, resolvi aprender algo novo” felizmente ninguém conseguia ver seus rabiscos pavorosos.
“Que coisa boa, menina! Isso de fazer sempre a mesma coisa enlouquece a gente, né. Por isso resolvi fazer algo diferente nas minhas horas livres.”
“Entendo.”
“Sou desses. Trabalho como contador, na verdade” disse o desenhista ao seu lado, que conseguia desenhar tão mal quanto ela.
“Acho que a gente existe para fazer algo que faça sentido pra gente, sabe?” continou Luca. “A gente não foi feita para trabalhar oito horas ou mais em um escritório, ou para ficar presa no trânsito. A gente existe para passear ao ar livre, fazer arte, criar, descobrir.”
Luca estava sem roupa, mas coberta de razão. Débora parou de rabiscar e ficou olhando para ela enquanto falava, estática como se tivesse sido desligada da tomada. De repente, largou o carvão e saiu correndo da sala. O que Luca falou fazia todo o sentido: ela precisava fazer o que foi feita para fazer. E no seu caso, fazer aquilo em que sempre pensava enquanto estava presa no escritório só seria possível antes de anoitecer. O dia já estava quase acabando. Correu.
Quando Rocha chegou na galeria de arte, só havia sobrado de Débora os rabiscos da aula de desenho. Luca já estava vestida quando o executivo todo engravatado perguntou se vira alguém com as descrições ou com o nome de Débora Lígia.
“Sim, ela esteve aqui”, disse Luca “mas saiu correndo, eu não tinha nem terminado a minha primeira pose. Do jeito que ela saiu, eu arriscaria que ela foi atrás de algo muito importante, hein.”
Rocha esperava que essa “coisa importante” fosse o emprego. Já achava surreal ter atravessado a cidade atrás de uma funcionária, que, a esta altura da história, é que deveria estar correndo atrás dele, pedindo perdão e se humilhando para não ser demitida. Mas que diabos. Rocha se sentou diante de um dos cavaletes e começou a pensar. Onde ela estaria agora?
Rocha só se interessava pelos seus funcionários antes de contratá-los. Recebia os currículos, olhava com cuidado, ligava para referências, fazia uma busca completa na internet. Gostava de saber quem era aquela pessoa, suas habilidades, talentos, o que gostava de fazer. É claro que depois de contratada, ele não se interessava mais pela pessoa – sabia que ao entrar ali ela teria algo pouco parecido com uma vida, e portanto, nada interessante.
Débora Lígia foi uma contratação difícil. Seu currículo era impecável, embora ainda faltasse um MBA ou curso no exterior que fosse. O problema foi que ele acabou fuçando a vida da pobre na internet. Era uma mulher esportista, gostava de fazer trilha e parecia que seu forte era nadar. Esse negócio de contato com a natureza deixou Rocha com um pé atrás, mas acabou cedendo. E deu no que deu. Ele sabia que aquele jeito bicho-grilo de Débora não ia se adaptar à pressão do escritório. Ar puro é um veneno para quem precisa respirar ar condicionado todos os dias.
Vai ver ela teve uma recaída. E foi aí que Rocha teve um estalo. Lembrou de uma das fotos da Débora-saúde e então teve uma ideia de onde encontrar a Débora-funcionária.
Demorou quase uma hora para chegar lá. O trânsito no centro estava dureza, mas paciência. Sem os carros, o mundo não girava. Rocha já estava longe da cidade, em uma parte mais afastada, onde havia um grande lago e muitos condomínios perto do verde. Rocha não entendia como alguém pudesse morar tão longe, tão afastado da civilização, dos prédios, do trânsito, dos shoppings.
Parou o carro na ponte e, assim que desceu, o vento jogou a gravata na sua cara. Depois de segurar o tecido rebelde, Rocha viu Débora em pé sobre a mureta da ponte, agarrada a um dos cabos de sustentação.
“Débora, pare exatamente onde você está!”
“Desculpe, senhor! Não consigo te ouvir!”
“Eu disse para você parar aí mesmo! Você já foi longe demais! Largue isso, desça agora e venha ter uma conversa séria comigo.”
Correu e tentou alcançá-la, mas não adiantou. Ela pulou. Rocha correu para a beirada da ponte, pálido de susto. Olhou para baixo e viu Débora emergindo da água, viva, talvez mais viva que nunca.
“Débora Lígia, você está demitida!”
“O quê? Não dá para ouvir daqui. Acho que entrou água no meu ouvido.”
“Eu disse que você está demitida!”
“Pois é! Eu estou toda molhada. Acho melhor a gente conversar amanhã no escritório!”
Débora deu mais um mergulho demorado, e, nadando como uma sereia e feliz como um golfinho, avançou pela água e acenou, pedindo carona, para um jovem que passava de jet-ski. Rocha só olhava do alto da ponte como se aquele dia inteiro tivesse sido um sonho, e ele, prestes a acordar, começava a perceber o quanto algumas coisas não faziam sentido.
“Ei, Débora!”, ele gritou. “Você sabia que a sua vizinha idosa tem uma sala secreta cheia de monitores que ela usa para espionar as pessoas da cidade?”
Débora, subindo no jet-ski que parou para pegá-la, só conseguiu rir. Ou seu chefe tinha ficado doido de vez ou ela tinha, bem ao lado da sua casa, mais uma pessoa aparentemente comum mas com alguns segredinhos interessantes para contar. E seu dia estava cheio dessas pessoas. Aparentemente elas estavam em todos os lugares, exceto nos escritórios, ou em lugares em que fosse preciso cumprir horários e dar bom dia para as pessoas por mera educação – ou hábito automático.
Foi enquanto comia um taco, ainda de cabelo molhado, ouvindo um casal na mesa ao lado que parecia ter comprado seu primeiro carro, é que Débora pensou no dia de folga maluco que ela acabava de ter. Imaginou o que poderia fazer em uma semana. Quantas coisas curiosas ela descobriria sobre pessoas que pareciam não ser nada de mais?
Na hora de pagar, escorregou da sua bolsa um pequeno cartão. Débora o pegou do chão e lembrou-se de Santiago, o músico que conheceu pela manhã. Ele iria tocar e ela tinha que estar lá. Pagou logo e correu para pegar um táxi.
O lugar estava cheio: de fumaça de cigarro, de luzes, de sons, de risadas, de copos batendo, de copos se enchendo. E de pessoas. Débora não estava sequer vestida para uma baladinha, e sua roupa ainda estava um pouco molhada. Mas ela não ligava: ter se jogado no lago foi uma das melhores coisas que ela fez na semana. Talvez porque na semana anterior ela tenha transado.
Já dava pra ver Santiago no palco, tocando teclado. Estava rolando um jazz, que depois Débora descobriu ser Ray Charles. Se eles tivessem tocado Hit the Road Jack, ela teria reconhecido. Sentou no balcão e pediu uma cerveja. Estalou os dedos, balançou o corpo tímida e não parou de olhar para as pessoas do bar.
Débora começou a conversar com uma garota no balcão que tinha tido um dia tão marcante quanto o dela. Tinha largado a faculdade de Direito para fazer Artes Cênicas. Queria ser atriz de novela, não tinha vergonha de admitir que queria mesmo era trabalhar na TV. Nem precisava ser novela, podia ser um seriado ou um programa de comédia. Mas o negócio dela era TV. Quando ela falava sobre o teste de elenco em que viu que tinha talento para a coisa e que, consequentemente, a fez sair do curso de Direito, a banda desceu para um intervalo. Santiago acenou para Débora. Ela pediu licença e foi ao encontro do músico.
“Que bom vê-la aqui, escritora. Gostando do show?”, pediu um drinque para o balconista.
“Muito. Vocês tocam muito. Eu estou… admirada. É tão contagiante”, ela precisava falar alto para ser ouvida em meio ao som mecânico que o dj colocou para preencher a falta da banda.
“Conseguiu achar inspiração para seus personagens?”
Débora lembrou-se de tudo o que viu no dia, e nisso não precisava mentir. O manifestante gay que demorou anos para dizer para fora que ele amava quem quisesse, a trans feirante, o motorista apressado, o panfleteiro entediado, a gerente do restaurante que nas horas vagas posava nua para desenhistas, a vizinha que monitorava as pessoas da cidade de uma sala secreta em sua casa, o chefe que não dava um bom dia, mas era capaz de atravessar a cidade só para demitir alguém… Eram tantos. E tantas as histórias e coisas que Débora ainda podia imaginar de cada personagem, que dava mesmo um livro.
“Pode ter certeza que sim”.
“E o livro, já tem nome?”
Ela pensou, bebeu da cerveja, apenas como se estivesse se preparando para dizer o nome que criou com cuidado e depois de pensar bastante – quando, na verdade, estava apenas dando um tempo para inventar algo na hora.
“Vai ser… o livro das coisas interessantes sobre pessoas vulgares”.
Santiago tragou longamente o seu cigarro e soltou uma baforada, sem tirar o olho do rosto de Débora.
“É um nome idiota”, concluiu. “Prometa que vai pensar em algo melhor”.
Débora concordou e disse que pensaria melhor. E pensou mesmo. Tanto que levou a sério essa coisa de descobrir pessoas interessantes, e nas próximas semanas não parou de fazer isso. Para não perder as pessoas que conhecia e as histórias que imaginava sobre elas, passou a registrar. Para virar um livro, foi um pulo.
“Seu Rocha, a candidata à vaga já chegou e está esperando na recepção”, avisou a secretária, depois de duas batidinhas educadas na porta da sala do diretor.
Era a terceira vez em um ano que Rocha precisava contratar uma nova gerente administrativa. Desde que Débora surtou e foi demitida, ninguém mais ficou no cargo por muito tempo. As outras duas tiveram um fim parecido: sem mais nem menos, não foram mais trabalhar e se dedicaram a carreiras esdrúxulas. Uma delas, a Laís, largou o MBA e entrou em uma banda de rock indie. Guitarrista.
O que estava dando nelas? É claro que não podia ser a pressão do trabalho – isso nem passava pela cabeça de Rocha. Só podia ser a janela. A mesa da gerente administrativa ficava perto da janela, e o que se passava do lado de fora estava fazendo a cabeça das pessoas que ocupavam aquele cargo. Rocha ia dar um jeito nisso. Nada de contato com o mundo exterior. Foco no trabalho, era a única coisa que importava.
A moça entrou na sala e Rocha a recebeu com um cumprimento cordial, mas sério. Ele fechou rapidamente o livro que estava lendo sobre a mesa e o guardou na gaveta antes que a entrevistada conseguisse ler na capa: “o livro das coisas interessantes sobre personagens vulgares, por Débora Lígia”.
FIM
Tenho uma novidade muito legal para vocês. Fui convidada para ser colunista do blog de quadrinhos do Update or Die, o Danger! Fico muito feliz, pois adoro ler e escrever sobre quadrinhos e a proposta do blog é muito interessante – os temas abordados vão de quadrinhos a cultura pop, cinema e comportamento.
Como eu sei que vocês adoram (a tag mais visitada aqui no blog é a de quadrinhos, mesmo com tão poucos posts!), fica a indicação para conhecer o blog e a galera antenadíssima que escreve por lá.
Visitem o Danger! e acompanhem: vocês vão ver muitos textos meus por lá. E no meu post de estreia, eu falo sobre zumbis. Isso mesmo: corram por suas vidas e vão lá ler.
Ah, e amanhã voltamos com a programação normal por aqui: a continuação do livro das coisas interessantes sobre personagens vulgares, com ilustras e tudo mais.
2
o livro das coisas interessantes sobre personagens vulgares – pt. 1
7 comentários | Postado por Valek em Contos, Ficção
Uma vez conheci uma pessoa que não tinha interesse por gente comum. Não se envolvia, não se misturava, não queria nem saber. Achava que gente comum era só isso: comum. Como se houvesse uma medida que determinasse a partir de quantos pontos na escala do incomum você se tornava alguém interessante. E como se houvesse pessoas comuns.
A Débora, por exemplo. Quem via ela dedilhar as teclas com tanto empenho podia até achar que ela era pianista. Mas era o teclado do computador que tocava. Terminou o relatório, atendeu o telefone, mandou um e-mail. Na assinatura, Débora Lígia, gerente administrativa. Era uma pessoa comum, daquelas que não chamavam a atenção, não viviam aventuras malucas, não tinham tatuagem ou uma grande história. Sabe, nada especial.
Não sei se conta, mas o máximo que Débora tinha era um smartphone, dividido em doze vezes sem juros. De resto, tomava café, assistia novela, trabalhava para ser promovida e conseguir pagar seu tão sonhado MBA.

Ganhava pouco mais de 15 reais a hora. Já tinha feito as contas. Sua rotina, então, ficava dividida entre o tempo em que estava no escritório e o tempo em que não estava. Em um, ganhava dinheiro. No outro, gastava.
Seu expediente estava no fim. Terminou suas tarefas do dia, limpou a caixa de e-mails, entregou uma porção de relatórios impressos na sala do chefe. O sujeito só olhava para ela quando precisava de algo. Aparentemente, um bom dia, boa noite e obrigado estavam fora da sua lista de coisas necessárias.
Seu percurso era simples e igual todos os dias. Casa, carro, estacionamento, elevador, corredor, mesa. E de volta para o elevador, estacionamento, carro, casa. A Silvinha, a pessoa de quem falei agora a pouco, morreria de tédio.

Qualquer um, a este ponto, poderia concordar com a Silvinha e passar para um personagem mais interessante. Mas Débora descobriu o que eu disse a você: pessoas comuns não existem. Algo aconteceu no elevador, e Débora, como um peixe que começou a ver a água, passou a perceber as pessoas ao seu redor.
Um grupo de homens conversava sobre alguma reunião. Parecia importante. Débora começou a prestar atenção e tentou imaginar sobre o quê falavam. Em que tipo de empresa trabalhavam? O que aqueles homens tão sérios faziam quando não estavam trabalhando? Eram casados? Se eram, gostavam de transar com suas mulheres? Algum deles já teria feito MBA? Eles eram realmente bons no que faziam? Ou seguiam os dias fazendo seus trabalhos do jeito que dava, disfarçando da melhor forma que, na verdade, não passavam de uma fraude? Chegou ao térreo.
Cada carro que passava, cada pessoa na fila, cada balconista, cada pessoa que passava ao seu lado para nunca mais ser vista de novo: Débora não deixava de imaginar o que faziam, do que gostavam, por que estavam ali.
Enquanto sentava todos os dias no mesmo lugar, na mesma posição, fazendo o mesmo trabalho e vendo os mesmos rostos no escritório, imaginava quantas pessoas comuns, todas intrigantes para ela, deixavam de cruzar o seu caminho todos os dias.

“Débora, pare exatamente onde você está!”, gritou uma voz atrás dela. Ela virou o rosto, fazendo o vento bater forte na sua orelha.
“Desculpe, senhor! Não consigo te ouvir!”
“Eu disse para você parar aí mesmo! Você já foi longe demais! Largue isso, desça agora e venha ter uma conversa séria comigo.”
O chão balançava muitos metros abaixo de seus pés, e, apesar do medo, Débora estava decidida. O sol estava para se pôr, o vento ajudava e o céu estava colorido atrás dela. Tinha que ser agora.
“Olha, acho que não vai dar!”
O homem engravatado correu, e Débora correu também. Ele tentou impedir, mas não adiantou. Débora pegou impulso e pulou.
***
Tudo começou quando Débora resolveu faltar um dia no trabalho. Um rapaz servia seu suco numa hora em que ela normalmente não estaria sentada no balcão de uma lanchonete esperando um rapaz trazer seu suco.
Ao seu lado, um homem pediu um pingado e abriu seu jornal. Eram dez da manhã e ele se vestia despojado demais para quem fosse trabalhar tão cedo. Usava bermuda e tênis. Tinha uns aneis grossos nos dedos. Débora deu um bom gole no seu suco e não hesitou.
“Com licença, o senhor pode me dar uma informação?”
“Claro” ele se virou e Débora viu que ele era levemente grisalho e tinha um nariz largo por cima da barba.
“Você trabalha com o quê?”
“Como?” pareceu surpreso, mas quem não ficaria?
“Ah, me desculpa. É que não consegui pensar em forma melhor de perguntar isso. É porque muito provavelmente vou ser demitida hoje. Pensei que talvez o senhor tivesse uma empresa, ou fosse gerente de uma loja. Só para saber para onde devo enviar meu currículo.”
“Sério?” agora ele ria.
“Não. Sou escritora. Estou sem inspiração para meus personagens”, mentiu. Ela ofereceu a mão para um aperto. “Débora”.
“Santiago. Já conheci alguns escritores antes, mas não de forma tão estranha. Paulo Cavalcante, conhece?”
“Claro”, mentira.
“Estava lendo a coluna dele no jornal. Mas os livros dele são melhores”. Sem cerimônias, continuou: “Sou músico”.
“Que legal!” abriu um sorriso fascinada. Seu dia de pesquisa começava bem. “Mas você trabalha com o quê?”
Santiago gargalhou. Estava acostumado a não acreditarem que dava para ganhar dinheiro sendo músico, ou até mesmo considerarem que isso fosse um trabalho; mas essa pergunta vinda de uma escritora era a melhor piada que poderia ouvir no dia. Débora só se deu conta depois, e manteve um sorriso amarelo. Pelo menos conseguiu se sair como uma mulher espirituosa.
“E sobre o quê você está escrevendo?”
“Ah, sobre histórias da cidade. Personagens urbanos. Rotinas, cotidianos. Coisas assim.” surpreendeu-se com sua criatividade de inventar aquela conversa toda. “Mas o livro ainda não tem nome.” Que livro, Débora? Que livro?
“Não tem lugar melhor para captar personagens interessantes do que o centro. Experimenta sentar ali perto da Praça Versuviano Lopes, entre o ponto de ônibus e o edifício Claraboia. Toco ali de vez em quando e vejo cada tipo de gente.” Engraçado, era justamente em frente ao prédio em que ela trabalhava e Débora nunca tinha percebido. Nem Santiago, nem o tipo de gente de que ele falava.
Papearam um pouco mais e ele teve que ir. Disse a ela para aparecer num barzinho, onde tocaria à noite com sua banda. Débora ficou animada para continuar seu dia incomum. Decidiu seguir a pé e conhecer algumas ruas pelas quais não passava. Obviamente, porque estaria no escritório àquela hora.

O trânsito estava parado. Dava para ver que os motoristas estavam irritados com a manifestação que tomava a rua. Nada podia ser mais importante que o direito dos carros de deslizarem seus pneus para lá e para cá, como as máquinas supremas e dominantes da cidade que eram.
O negócio é que um cara tinha morrido. Foi assassinado, na verdade. Chamava-se Rubens e era gay. A brutalidade contra os homossexuais se repetia tanto que já era um clichê. Tinha se tornado invisível, como boa parte das pessoas que Débora começava a perceber agora. E tinha centenas delas naquela manifestação.
Observou por um tempo a marcha passar. Um senhor segurava um cartaz “amo quem eu quiser” e Débora imaginou quanto tempo ele não ficou dentro do armário, com medo de dizer aquilo. Ou o que teve que passar quando precisou se ausentar do trabalho quando seu parceiro morreu de AIDS, há dez anos atrás. O que teria dito ao seu chefe? Débora divagava. Resolveu se misturar. Conversou com alguns manifestantes. Pegou seu próprio cartaz.
“Julgar uma pessoa não define quem ela é. Define quem você é.”
Débora já era parte do arco-íris. Duas mulheres pintaram seu rosto e ela seguiu gritando palavras de ordem. Quando a imprensa chegou, a repórter conversou com o líder do movimento. Começaram a filmar e a jornalista entrevistava Alfe enquanto caminhava ao seu lado, seguindo os manifestantes. A transmissão era ao vivo. Quando Alfe terminou de falar, a réporter dirigiu o microfone e perguntou para a pessoa mais próxima o que significava o combate à homofobia. A pessoa mais próxima era Débora.
***
Rocha era um cara cheio de manias. Uma delas era tomar café no escritório pouco antes de almoçar. Ele dizia que abria a apetite. Estava adoçando o café e aproveitou para dar uma olhada nas notícias do dia pela TV da copa. Trânsito parado, grande novidade. Estava rolando um protesto, até então, nada interessante. Mais um gay morto, algo assim. E então ela apareceu.
“É um absurdo que uma pessoa seja morta ou agredida só porque resolveu amar alguém. Esse ódio não faz sentido. Você não vai ficar brocha só porque dois caras que você nunca viu estão namorando. Seu casamento não vai acabar se duas mulheres resolverem se casar. Você pode estar matando alguém que, em outra ocasião, se sentaria com você para tomar uma cerveja.”
Débora não falaria com tanta propriedade e desenvoltura se soubesse que seu chefe estaria assistindo do outro lado. Ele não acreditou. Como sua funcionária pode ter dito que não ia trabalhar porque precisava fazer uns exames e aparecia na TV em uma marcha gay?
Ele ligou para o celular dela, mas estava desligado. Irritado, pensou em demiti-la assim que voltasse. Mas não queria esperar. Iria atrás dela imediatamente.
Continua.

Amanhã, como todos sabem, é a estreia do filme Avengers, mais uma produção milionária que leva o universo dos quadrinhos da Marvel para os cinemas. Eu não estava tão empolgada, e, para falar a verdade, eu estava com um medinho de assistir o filme. Motivo? A minha personagem favorita de todos os tempos estaria nele, e as superproduções para o cinema costumam decepcionar os fãs mais fervorosos.
O negócio é que eu vi o filme (em uma espécie de pré-pré-estreia) e me surpreendi. O filme envolve, as cenas de luta são incríveis, a construção dos personagens ficou excelente (Mark Ruffalo destruiu como Hulk e sambou na minha cara por eu ter achado que ele não ia conseguir) e não me decepcionei com a participação da Viúva Negra na história, que acabou sendo mais importante do que eu imaginava. É claro que não fiquei 100% satisfeita: os primeiros segundos de Natasha Romanoff na tela me irritaram profundamente (quem assistir vai descobrir o porquê).
Mas o filme foi só um pretexto para eu escrever sobre a personagem que Scarlet Johansson interpretou tão brilhantemente (embora eu tenha demorado a me acostumar com a ideia; achava que Scarlet tinha muito mais a ver com Yelena Belova do que com a Romanoff, e, bem, eu nutro uma certa antipatia pela substituta da Viúva Negra).

Yelena Belova, a nova Viúva Negra
A ruiva Natasha Romanoff (ou Romanova) surgiu nos quadrinhos em 1964 e chuta traseiros desde então. Nasceu em Stalingrado e foi onde quase morreu, ainda bebê: nazistas atearam fogo à sua casa, e sua mãe, para salvá-la, arremessou-a pela janela. Assim parou nas mãos do soldado russo Ivan Petrovitch, que passou a protegê-la e treiná-la. Ela cresceu, desenvolveu suas habilidades e logo foi convocada para a KGB – pouco depois de receber a notícia que seu primeiro marido, o piloto de testes Alexi Shostakov, teria morrido em missão.

Treinada para ser letal, teve sua performance física aperfeiçoada quimicamente pelos russos e foi condicionada psicologicamente para ser essa espiã durona que conhecemos. Perita em artes marciais, atiradora de elite, hacker, estrategista, expert em espionagem, disfarce, infiltração, não há nada em que Romanoff não seja boa. Praticamente uma lenda na academia de espionagem Red Room. Isso até descobrir que era só uma das 27 agentes Viúvas Negras infiltradas durante a Guerra Fria – e a única que sobreviveu.

Demolidor: só um dos vários heróis que caíram na teia - e na cama da espiã.
Sua entrada no Avengers aconteceu só em 1967, e foi a 16ª a integrar o grupo. Mas essa vida heróica não faz muito seu estilo, e, na maior parte do tempo, é uma agente freelancer da S.H.I.E.L.D.
Por que a Viúva Negra é tão foda?
Ela é uma versão femme fatale do Batman. Não tem super poderes e sua maior arma é sua inteligência. Pode não ter a fortuna de Bruce Wayne, mas é uma lutadora tão escrota quanto ele, além do jeitão de poucos amigos, a atuação geralmente solitária e o gosto por roupas pretas.

"Apenas pense em mim como mais um dos caras maus. Porque, basicamente, é o que eu sou."
Mas, diferente do Homem Morcego, ela é coadjuvante na maioria das histórias. A Viúva Negra só ganhou sua própria série de quadrinhos em 1999, com Web of Intrigue. Em 2001, Romanova e a jovem espiã Yelena Belova protagonizaram o arco de histórias Black Widow: Breakdown. Em 2005, foi a vez de Black Widow: The Things They Say About Her (a que estou lendo atualmente).

Cena da melhor história da Viúva Negra
Mas sem dúvidas a melhor série da Viúva Negra foi Itsy-Bitsy Spider, de 1999. Escrita pela roteirista Devin K. Grayson e com o traço incrível do artista J.G. Jones, a história traz uma Natasha Romanoff em fim de carreira, escalada para uma missão no Oriente Médio, onde precisa descobrir sobre uma nova biotoxina que transforma soldados em exterminadores enfurecidos, que matam tudo e todos ao redor até definharem, consumidos pela droga, poucos minutos depois. O negócio é que os militares russos parecem interessados na droga, e enviam a espiã Yelena Belova para interceptá-la. É então que a velha Viúva Negra encontra-se com a nova Viúva Negra, e Natasha Romanoff confronta mais do que uma rival, mas uma crise de identidade. Recomendo altamente.
O que me entristece é que não basta a personagem ser tudo isso que a Viúva Negra é e ter um background riquíssimo, ela ainda estará em segundo plano no mundo dos quadrinhos, onde quase sempre é reconhecida como apenas mais uma gostosa.

Avengers: todos fazendo poses heróicas, enquanto a Viúva Negra mostra... a bunda. E se fosse o contrário?
E a vida para as super heroínas não está nada fácil. Quantos filmes, das atuais adaptações dos quadrinhos para o cinema, foram protagonizados por mulheres? Da Marvel, temos a Elektra – que, cá pra nós, não chegou nem aos pés das histórias em quadrinhos. Sem falar que o filme faz parte daquela safra de produções que cagaram todos os super heróis. Da DC, temos a Mulher Gato – outra personagem sensacional completamente desperdiçada. O filme é tão pífio que nem vale a pena comentar. Por outro lado, filmes com heróis (homens, claro) não param de ser lançados – e ganham até sequência (Homem de Ferro, só pra citar um exemplo).
Dos Avengers, todos os integrantes tiveram seu próprio filme, menos um. Adivinha qual? Sim, a Viúva Negra. E olha que eu tinha grande esperança da personagem ter um filme só dela (a própria Scarlet ainda espera isso). Mas quem sabe não role? A Scarlet Johansson fez um trabalho tão bem feito que voltou a alimentar minhas esperanças de ver a Viúva Negra estampando um cartaz de cinema – dessa vez sozinha e, espero, com uma pose menos sexualizada.
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Aurélio: Meaw can do it
Tenho preconceito com quem tem gatos. Posso não conhecer bem a pessoa, não saber o que ela faz da vida, ou até mesmo sua opinião sobre os mais importantes tópicos políticos e ideológicos; mas se, antes de tudo isso, descubro que ela tem gatos, pressuponho que ela só pode ser uma boa pessoa.
Gatos moldam o cárater.
É preciso ter muita paciência ou desapego para viver com um gato. Você compra uma caminha acolchoada e põe em um cantinho, mas ele vai escolher dormir em cima da geladeira. Você vai estar trabalhando quando ele decide que o teclado do computador é o lugar mais confortável para uma soneca. Mas experimenta arrumar a casa: ele resolve que não quer mais dormir e prefere correr em cima do lixo que você acabou de varrer.

Olha, uma caixa!!!
Não que eles sejam insensíveis, nós é que estamos acostumados demais com coisas que podemos controlar. É claro que eles entendem quando dizemos “saia já daí” ou “não faça isso”, o negócio é que eles preferem ignorar.
Minha capacidade de gostar quase automaticamente de alguém que vive com gatos também tem a ver com solidariedade. Não sou a única que sofre com pelos espalhados pela casa. Esses bichos trocam de pelo como quem troca de roupa – coisa que até faz algum sentido.
Além disso, quando você mora com um gato, não há mais lugar seguro para guardar coisas que você quer longe do alcance dele. Se colocar em prateleiras altas, ele alcança. Se guardar dentro de gavetas, ele abre. Se colocar em caixas de papelão, é pedir para que ele mexa. Felizmente, eles não se interessam por muita coisa, exceto por dormir, caixas de papelão e erva de gato.

Os egípcios é que sabiam das coisas.
É perfeitamente compreensível uma religião ou até uma civilização que adore os gatos. Olhe só para eles. Foram feitos para serem adorados – porque para o trabalho duro é que eles não servem.
Já quem diz que gatos são traiçoeiros é porque não sabe absolutamente nada sobre gatos. Sai da minha casa, você não merece falar nem comigo nem com meus anjinhos. Gatos são excelentes companheiros e ótimos massagistas, devo acrescentar. Gostam de um chamego e de lamber você até esfolar sua pele (é sério). São capazes de aturar as suas manias irritantes tanto quanto você é capaz de suportar as deles.

Vai um beijo de língua super suave?
Pessoas que têm gatos também são aquelas que podem conversar com você durante horas sobre isso e não vão ligar de ouvir cada nova estripulia que seu gato aprontou em casa (e muito provavelmente são elas que vão comentar esse post, contando alguma história engraçada que também vou adorar ouvir).
Pessoas com gatos são aquelas com as quais eu gostaria de me relacionar. Elas sabem que tão inútil quanto controlar um gato é tentar controlar uma pessoa. Sabem, por convívio com esses bichos tão complicados, que pessoas, assim como gatos, precisam de espaço. Além do mais, são essas pessoas que, geralmente, tiram as melhores fotos no Instagram.

VEM GENTE

Sempre falo da importância de ser crítico e de não acreditar em qualquer bobagem que se vê por aí, mas como leitora faço questão de ser crédula. Gosto de acreditar nas histórias bem contadas e já cheguei a dizer que alguém não pode ser um escritor se não consegue convencer seus leitores.
Quando me deparei com a história do Livro Infinito, escrita por Alex Luna, acreditei de tal forma que quase não acreditei que aquele texto seria o prólogo de uma coletânea de contos chamada Mentirinhas (à época). Tive o privilegiado acesso aos textos antes de serem publicados como Inverdades (com um subtítulo que considero perfeito: “pequenas manifestações divinas em folhas de chá, marcas de sangue e manchas de batom”).
De cara, você vai se deparar com algo curioso: todos os contos têm nomes de personagens mitológicos, deuses esquecidos, santos ou personagens bíblicos. Isso tem tudo a ver com o prólogo, em que somos apresentados a manuscritos que supostamente contêm a fórmula das histórias universais da humanidade.
A maior descoberta literária de todos os tempos aconteceu há mais de sete séculos, num mosteiro da velha Castilha. Depois de duas décadas copiando e traduzindo textos em latim, árabe e grego, o frei Giorgio Romano encontrou o esboço da Teoria do Todo Literário num manuscrito árabe. No texto, atribuído a um pensador da corte do grande sultão Harum al-Rachid, é levantada a hipótese de que todas as histórias são repetições de padrões, assim como as palavras são apenas repetições de letras. Para o autor do manuscrito, cuja identidade não foi identificada pelo monge, novos autores podem tentar recriar as histórias com novas roupagens, mas nunca conseguirão criar um texto original.

Judas
É sabido que as histórias se repetem, e não é de hoje, como mostram as infindáveis adaptações e remakes vistas no cinema: até a história de Jesus tem incríveis semelhanças com outros mitos ainda mais antigos. Em Inverdades, essas semelhanças são muito bem-vindas, mas nem sempre tão óbvias. Os títulos de cada história dão uma pista, mas às vezes é preciso pesquisar para entender qual é a relação dos personagens do livro com seus respectivos mitos.
Isso faz de Inverdades um livro cheio de easter eggs para serem desvendados. E essa experiência (altamente recomendável), de buscar o significado dos mitos em cada conto, faz com que as histórias não se encerrem ali. Não foram poucas as vezes em que recorri ao Google para pesquisar mais sobre os mitos e sempre me surpreendi: tanto por ter descoberto uma história que ainda não conhecia, quanto por ter encontrado uma engenhosa associação com as histórias escritas por Alex Luna. Você nunca ia imaginar, por exemplo, que a história bíblica de Jonas e a baleia pudesse ganhar contornos eróticos em um conto perturbador sobre bondage, dominação e sadomasoquismo.

Não se engane: não é história para crianças
É até difícil eleger uma inverdade favorita, mas gostei particularmente de São Jerônimo Penitente, a história de um velho ateu e moralista que morre e tem seus segredos mais pervertidos descobertos pelo seu neto. É aquela história gostosa de ler, especialmente pelo peculiar tom de humor que ela carrega, aquele típico de velhos ranzinzas que não veem graça em nada.
O velho, estirado no caixão, dormia o sono dos que já vão tarde. Pelo menos, era o consenso familiar. (…) Nunca estava bem-humorado e dizia sempre que o segredo de uma vida longa era querer que ela não durasse muito, porque se dizia pelos cantos, principalmente pela parte da família materna de Robson, que já era hora de o velho esticar as canelas. Claro está, odiar o sogro é um esporte nacional. Mais que isso, quase um imperativo categórico obedecido até pelos alienígenas, se acaso tivessem o infortúnio do casamento na sua civilização, teoricamente avançada.
Aliás, outro mérito do livro é ser um desfile de personagens com voz própria, que marcam cada conto com uma linguagem única. Você viaja com rebeldes pelo ambiente agreste do sertão em Judas, passa pelas desventuras da imigrante Núbia nas ruas de Lisboa em Chih Nu, e chega até Roma, falando italiano com o cientista Daniele, em Galatéia. Personagens com tanta profundidade que têm até textura.

Nem Colombina ficou de fora
Tão admirável quanto a habilidade narrativa de Alex Luna é o seu empenho, cara e coragem de publicar seu livro de forma independente. Se você é dos que escrevem, fica a inspiração: fazer literatura não depende de nada, a não ser de você mesmo. Se você também é dos que leem, fica a dica: Inverdades é uma ótima leitura.
Como comprar
Basta clicar aqui e comprar o livro na Amazon, em edição para Kindle.
“Ah, mas eu não tenho Kindle, mimimi”
Você sabia que dá pra baixar o Kindle pro seu pc ou mac? Eu também não sabia. Pois é, dá para fazer o download gratuito aqui. Depois, é só aproveitar a leitura. :)
Seja lá de onde surgem as ideias, elas parecem cair em várias cabeças ao mesmo tempo. E é claro que se a ideia é boa, não gostamos de desperdiçá-la. Vamos carregando ela no colo, como se fosse um tesouro, esperando o momento certo e as condições ideais de colocá-la em prática. Precisamos trabalhar nela indefinidamente até que ela fique perfeita, até que nós mesmos estejamos perfeitos para poder executar essa preciosidade. Temos todo o tempo do mundo. Afinal, a ideia é boa demais para ser feita logo, certo?
Lembre-se do início do texto: a ideia pode ser boa, mas, com certeza, outra pessoa também já pensou na mesma coisa. Pode ser que essa outra pessoa seja mais prática que você e pule essa etapa de punheta eterna que é lapidar uma ideia. Imagine que ela faça primeiro o que você acreditava que precisava de tempo e cuidado para começar a ser feito. E aí? Vai reclamar para o papa?
Isso acontece sempre. E o perfeccionista sempre fica chupando dedo.
Conversando com um amigo publicitário, ele me contou que tinha tido uma ideia genial para um de seus jobs. A ideia era simples, mas era realmente boa. O problema é que não foi aprovada, disseram que precisava ser melhor trabalhada. Ainda não era “do caralho”. Daí que, semanas depois, o cliente concorrente foi lá e fez a mesma ideia. Ganhou prêmio e tudo.

E você achando que era original.
Ontem mesmo conversei com um amigo que está sempre cheio de ideias para escrever, mas ele nunca acha que as ideias estão boas o suficiente. Ou ele pensa em como aquilo pode ser escrito de forma genial, ou desiste, achando que é besteira escrever aquilo. Resultado: não coloca as ideias no papel. Se colocasse, já tinha dado um livro.
O que fez primeiro, fez mal feito. Mas e agora? Está feito do mesmo jeito.
Outro amigo teve uma ideia para um livro de fantasia, mas descobriu que fizeram um filme com a mesma história. E o pior: o filme era horrível. Não duvido que ele ainda possa escrever algo genial, mas já pensou? Criar uma história brilhante e no fim alguém dizer “nossa, não é que parece aquele filme que eu vi na Sessão da Tarde dia desses?”
A nossa capacidade para achar que uma ideia não é boa o suficiente é praticamente infinita. Alguns acham bonito esse processo eterno de lapidar uma ideia, de preferência protegendo-a a sete chaves, como se aquela pessoa que teve a ideia fosse a primeira e única no mundo a ter pensado naquilo.

Bonito mesmo é quem encara o desafio de fazer. Vai dar certo? Só fazendo pra saber. Se der errado, deu. A vida continua, você supera, aposto que consegue ter ideias tão boas ou ainda melhores. Mas pelo menos foi feito – e existe um mérito enorme em fazer algo virar realidade.

Fim da linha.
“A voz do povo é a voz de deus”, dizem por aí. Não é por acaso que atribuem ao público um poder divino. É por vocês que os anunciantes se esgoelam em busca de alguns segundos de atenção. É pensando em vocês que criamos programas fáceis de serem digeridos, cheios de atrações bizarras, degradantes e superficiais para combinar com o pensamento de vocês. Como crianças mimadas e exigentes que precisam ser agradadas o tempo todo, vocês, o público, abdicam da responsabilidade de dizer não a essa merda toda só para conseguir algum doce em troca – no caso, entretenimento efêmero e barato. Mas vamos falar de coisa boa? Vamos falar da decisão de vocês sobre o destino dos confinados.
Entra a vinheta do Gogó dos Afortunados sob aplausos do público. Em seguida, as câmeras mostram as expressões apreensivas dos confinados, que aguardam no palco a sentença de liberdade ou de desgraça que irei proferir.
- Parece que temos nossos vencedores. Quem ganhará a liberdade, o prêmio mais desejado desse jogo? Quem será devorado pela nossa linda plateia? É o que vamos descobrir agora.
Então, quando vou abrir o envelope, as coisas que se seguem começam a acontecer em câmera lenta. Dina se atenta à rachadura no vidro à prova de balas deixada por Liz quando esta deu uma de Whitney Houston no palco. Como uma pistoleira do velho oeste, Dina saca rapidamente suas duas Glocks e descarrega o pente na área rachada. O vidro cede e se estilhaça inteiro. Os outros confinados, percebendo a deixa, correm em direção ao vidro e o derrubam, abrindo uma passagem.
Eu ainda estou meio agachado e meio sem entender a porra toda quando os seis confinados avançam para cima de mim, ao mesmo tempo em que vocês invadem o palco em direção aos confinados. Alguém atira. Sinto algo quente e pegajoso bem abaixo do pescoço. Tudo começa a girar, e, enquanto caio, a última coisa que vejo é Arnoldo apontando um cano fumegante em minha direção. Muito obrigado. Pela sua. Audiência.
***
- Esperem, esperem! Acho que já podemos parar de correr! – grito sem fôlego, balançando a câmera sem me preocupar com o enquadramento.
- Tem certeza, Sérgio? Já estamos longe o suficiente? – Liz pergunta, ofegante.
- Não dá mais pra ver o estúdio daqui. Acho que podemos parar. – sugere Arnoldo.
- Eu já não aguento mais correr! – Sheristone se senta sobre uma pedra, segurando seu barrigão.
Engraçado como a barriga de Sheristone está grande. Parece grávida de nove meses, e não de quatro semanas, como deveria ser. Todos estavam ocupados demais em sobreviver até agora para reparar na gravidez da garota, inclusive eu. Devo admitir que isso é bizarro.
- Por que merdas você trouxe essa câmera, hein? – Dina me surpreende enquanto filmo Sheristone e ajusto o foco da câmera que peguei do estúdio, na fuga.
- Podemos precisar de um registro que mostre o que nos aconteceu depois de sairmos daquele jogo insano. Não sabemos se já estamos seguros.
- Interessante. Teve tempo de surrupiar uma das câmeras do estúdio, mas não conseguiu salvar o namoradinho.
- Dina, não seja cruel com o professor! – grita Liz – Quando nos demos conta, Evangevaldo já estava soterrado de gente, não tínhamos o que fazer!
- Chega. – interrompe Arnoldo – Já não basta a imagem horrível de ver Evangevaldo praticamente sendo comido vivo pelo público?
- Obrigado por lembrar. – respondo.
- E agora, o que fazemos?
- Acho que agora é cada um por si. Estamos livres. – Dina costumava ter algum espírito de equipe antes. Ou será que sempre foi o instinto de salvar a própria pele?
- Antes de vocês decidirem o que fazer, venham ver uma coisa. – Arnoldo diz, depois de subir em uma colina de pedras.
Bem que eu estava estranhando aquele cheiro de maresia. Quando subimos e alcançamos Arnoldo, nos deparamos com o mar batendo contra as rochas lá embaixo.
- Maravilha. Viemos para o lado errado. A civilização deve estar do outro lado do estúdio. – diz Dina.
- Não tinha “outro lado”, Dina. – rebate Liz – a única direção que tínhamos para seguir era essa.
- Ela tem razão. Você pode ser boa no gatilho, mas é péssima em senso de direção. – é o que digo, virando a câmera para as duas. – Para lá do estúdio, foi de onde viemos, pelo metrô. E depois do metrô, a casa onde ficamos confinados.
- Então a saída estava para lá da casa. Aqui, estamos em um beco sem saída. – Dina conclui.
- Você não está sugerindo que a gente volte por todo aquele caminho, né? Levamos semanas para chegar até aqui. E nem sabemos o que tem do outro lado da casa.
- Pode ser que o outro lado também seja um beco de saída. – diz Arnoldo, e no momento parece ser atingido por um estalo mental. – É isso! Onde está o mapa, Sérgio?
- Que mapa? O mapa do metrô está com a Dina.
- Não, não! Não esse mapa! – Arnoldo está agitado. – O mapa que você encontrou no fundo da piscina!
- O mapa do dia da festa. – lembra Sheristone, sentada na pedra lá embaixo.
- O mapa! Sim, o mapa com o prêmio do reality Show, a Ilha dos Porcos! – eu já tinha até me esquecido que aquele reality show tinha um prêmio.
- Isso, esse mesmo! Onde está?
- Ficou na casa. – respondo.
- Puta que o pariu. Perdão, Sérgio, é que…
- Espera, Arnoldo! Respira! Por que você quer esse mapa? – pergunta Liz.
- É porque acredito que a gente esteja na tal ilha.
***
Quando ligo a câmera novamente, estamos no acampamento improvisado que montamos para passar a noite. Em volta de uma pequena fogueira, dividimos uns pacotes de salgadinho que sobraram dos suprimentos que trouxemos. O clima está pesado. Quer dizer, a noite está até agradável. É a primeira vez em semanas que estamos ao ar livre. O problema é a tensão invisível entre nós. Liz rompe o silêncio.
- Arnoldo, acho que está na hora de você falar.
- Como assim? Falar o quê? – pergunto.
- Ele sabe de alguma coisa. Ele sabe o porquê das coisas que acontecem aqui.
- Isso é verdade? – Dina pergunta e todos esperam alguma resposta de Arnoldo.
- Eu tenho uma suspeita. Já vi ela se confirmando várias vezes, mas não posso garantir nada. – dou um close dramático no rosto de Arnoldo, enquanto ele se prepara para falar. – Tudo o que aconteceu na casa não foi só pela vontade do público. Foi principalmente, pela nossa vontade. Digo, LITERALMENTE pela nossa vontade.
- Tipo? – Dina não consegue se aguentar sentada.
- O sumiço de Clarissa pode ter algo a ver com um desejo muito forte de Ravena de se ver livre dela. Seu retorno como zumbi também. Enquanto alguns desejavam que ela voltasse, Ravena verbalizou sua vontade de que estivesse morta. E o resto vocês já sabem.
- Isso não prova nada. – Dina se adianta em dizer, mas Liz interrompe.
- Então deixe eu te dizer algo sobre a gravidez da Sheristone. Ela nunca transou com o Samuel Braun. Mas Lisandra já revelou que queria que a menina engravidasse para aprender uma lição.
- Na estação abandonada, por duas vezes algo que desejei aconteceu. – continua Arnoldo – Encontrar uma forma de ligar a energia da estação e passar um metrô de verdade pelo túnel.
- Céus.
- O que foi, professor?
- Então eu matei o Seu Patrício! Eu desejei que ele morresse, aquele velho escroto resmungão… Eu desejei isso, mas não sabia que podia causar mal a ele! Eu juro! Eu juro! – começo a chorar, mas felizmente a câmera não mostra.
- Não me façam rir. Vocês estão querendo dizer que as coisas que acontecem nesse lugar, nessa ilha, sei lá, acontecem porque alguém desejou?
- Eu disse que era uma suspeita. – lembra Arnoldo para a colega pistoleira.
- Então vamos fazer acontecer AGORA algo que a gente deseje. – desafia Dina.
- A gente deseja sair desse buraco, certo? – diz Liz.
- Eu só quero voltar para perto do meu filho. – suspira Arnoldo.
No instante seguinte, Sheristone dá um grito de dor. Todos vamos socorrê-la e ela parece entrar em trabalho de parto. Ou algo pior. Não largo a câmera por um minuto, mas a situação dura horas. Ela grita, esperneia, desmaia, acorda de novo e grita mais. Enquanto isso, tentamos fazer o parto da garota.
O bebê que sai de dentro dela parece grande demais. Ou talvez Sheristone que ainda seja pequena. Deus, ela não passa de uma adolescente. Mas finalmente conseguimos: o bebê sai por completo da barriga gigante de Sheristone. E então percebemos que ele é realmente grande: parece uma criança de pouco mais de um ano. Não é um recém-nascido. Envolto em sangue e restos de placenta, o bebê chora nos braços de Liz. Arnoldo se aproxima e grita, para nossa surpresa:
- Arnoldinho! Meu filho! Ele é o meu filho!
A semelhança da criança com ele é realmente impressionante. Nada conseguimos dizer. Sequer ouvimos os gritos ou choro de Sheristone. Continuamos estupefatos olhando essa cena até que Liz se vira para a garota, toma seu pulso e constata: ela está morta.
***
Já faz duas semanas que estamos andando, perdidos, pela costa. Pela extensão do que já percorremos, é provável que estejamos mesmo na Ilha dos Porcos. Cercados de nada por todos os lados. Mas não há como ter certeza, assim como não podemos ter certeza do porquê dos acontecimentos pelos quais passamos.
Depois do nascimento do Arnoldinho diante de nossos olhos incrédulos, não conseguimos mais duvidar de que coisas que desejamos realmente aconteçam ali. Mas nem desejando com todas as forças um helicóptero, ou algo do tipo, surgiu algum tipo de resgate. Talvez as coisas aconteçam, mas não do jeito que a gente espera. Da mesma forma, suspeito que as decisões dos espectadores não tenham acontecido da maneira que eles imaginavam. Por quê? Qual o sentido disso? Não faço ideia.
O fato é: agora nada acontece. Pelo menos encontramos comida e conseguimos nos abrigar razoavelmente bem durante a noite. Esse era o prêmio, Jacuzzi? Ganhar a ilha significava, esse tempo todo, ficar preso nela? Porque, ainda que estejamos ao ar livre, indo de um lugar ao outro, continuamos confinados. E mais fodidos do que nunca.
- Ei, Sérgio! Vem aqui, rápido! – sussurra Liz.
- Ouvimos sons, parecem passos. Tem alguém vindo. – Dina já saca as armas.
- Filma, filma! Vê se consegue ver algo! – Arnoldo fica atrás de mim, com o filho preso às costas por um trapo.
Dou zoom na câmera e logo vejo um grupo se aproximando. Alerto meus colegas, que ficam de prontidão. Eles atravessam o matagal e também nos percebem. Eu trato de tentar uma aproximação pacífica.
- Olá! Não somos inimigos! Estamos perdidos, vocês podem nos ajudar?
O maior deles, um cara troncudo, com os braços musculosos de fora e um rosto quadrado e bonito, apesar da sujeira e suor, vem ao meu encontro. Ele olha desconfiado para Dina, que está apontando a arma para ele. Peço a ela para baixar a guarda e ele continua.
- Vocês são da Equipe Maresia?
- Do que você está falando? – pergunto.
- Somos da Equipe Pedregulho, viemos lá de cima. Só falta cumprirmos uma prova, mas precisamos da chave que está com a Equipe Maresia. Se vocês não forem dessa equipe, então são nossos concorrentes.
- Repito: do que você está falando? Não somos de equipe nenhuma, fugimos de um show de horrores e agora estamos procurando uma forma de sair desse lugar.
- Como assim? – ele se espanta – Vocês não são participantes do Sobrevivência Selvagem?
- Que diabos é Sobrevivência Selvagem? – grita Arnoldo, já nervoso.
- Isso aqui é um reality show, cara. Olha ali as câmeras. – o brutamontes aponta para o alto de uma das árvores, onde vemos uma câmera se virar para nós com seus barulhinhos mecânicos.
- Oh, merda.
Desligo a minha câmera. Não era mais necessária.
FIM

Estudos apontam que aplicadores de pesquisas são o segundo grupo mais odiado da sociedade, depois dos ateus.
Pode ter certeza que eu não faria uma pesquisa e importunaria você pedindo para respondê-la se não fosse por uma boa causa. Quero conhecer melhor o leitor que me mantém escrevendo por aqui: você. Então, não me odeie.
É rapidinho, é jovem, é on-line. Clique aqui para responder.











