AlineValek

Falar mal é o que nos conecta

28 de July 2014 por Valek

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Horrível esse tempo, né?

O trânsito está uma bosta.

Você viu o que aquele cara falou? Meu deus, como ele é babaca.

Esse foi o pior livro que eu li na vida. Vou te contar detalhadamente cada passagem que achei bizarra. É tão ruim que chega a ser engraçado!

E o Brasil, hein?

Olha só esse texto que merda.

Achei tão tosco que vou tirar print para zoar na internet. Galera vai compartilhar a beça!

Ainda bem que posso desabafar com você sobre o quanto essa pessoa me irrita.

Nossa, olha aquela fia. Não ficou legal essa calça estampada com aquele corpo que ela tem não.

Odeio segunda-feira.

***

É sempre difícil encontrar algo em comum com outra pessoa. Puxar assunto com pessoas não tão conhecidas, então, é melhor quando se apela para algo universal. E o que pode ser mais universal do que falar mal de alguém ou de alguma coisa? Basta achar um “inimigo” em comum e você já tem uma conversa garantida.

Já reparei que um assunto rende mais quando é sobre falar mal de algo. A gente se empolga. Sempre há o que criticar. E há aquele sentimento de cumplicidade, não é mesmo? Afinal, ali as pessoas estão se abrindo, desabafando, expondo algo negativo sobre alguém ou algo sobre o qual geralmente ela não fala abertamente.

Ah, fora o sentimento libertador da sinceridade.

Falar mal nos conecta. Gera assunto. Cria até novas amizades – ou aprofunda as já existentes.

Confesso: falar mal dá até um prazer.

O corpo deve liberar substâncias como quando você pratica algum esporte. Dá vontade de fazer mais, de fazer sempre. Vicia.

Logo estamos procurando grupos ou causas onde podemos nos dedicar a falar mal de outras pessoas ou de outros grupos. Começamos a nos identificar com aquilo que somos contra. Assim sempre teremos assunto!

Falar mal, reclamar, criticar, cornetar, esculachar. Eis o combustível da nossa sociedade. Eis a força motora que faz essa grande roda chamada VIDA girar.

***

Sou alguém que fala da posição de quem está dentro desse esquema.

Algumas das falas que coloquei no início desse texto são minhas. Outras tantas que não coloquei ali também são – mas achei que aquelas eram o suficiente para ilustrar um comportamento que você deve identificar (ou se identificar) no cotidiano.

Falo como alguém que recorre ao “falar mal” quando não sei sobre o que falar. Como alguém que o faz, às vezes, por diversão. Como alguém que mesmo quando não está criticando algo ou alguém, geralmente se interessa e gosta de ouvir outros praticando o “falar mal”.

Mas também falo da posição de alguém que vê isso como um círculo vicioso meio nocivo.

Se eu só sei falar mal, o que isso diz sobre a pessoa que eu sou? Se eu uso o “falar mal” como a forma fácil e mais confortável para buscar algo em comum com outra pessoa, mesmo que tenhamos em comum só o fato de odiar algo ou alguém, o que isso diz sobre mim?

As palavras que usamos dizem muito sobre nós. A negatividade dos assuntos que trazemos para as conversas, também.

Eu posso não saber exatamente que pessoa eu quero ser, mas sei que não quero ser a pessoa que só detona os outros. Eventualmente, eu serei – mas só porque estarei fracassando nessa batalha diária em ser uma pessoa menos babaca.

Além disso, o que eu ganho me cercando de pessoas que não se importam em detonar os outros? Por que me cercar de pessoas que podem a qualquer momento fazer comigo o que fazem com os outros?

Não é melhor eu me cercar de pessoas que se esforçam um cadim mais para valorizar o que as pessoas fazem de bom, ou falar sobre coisas bacanas, ou compartilhar coisas que me enriqueçam – e não só me preencham com aquele prazerzinho delícia-porém-absolutamente-efêmero do “falar mal”?

Se alguém vem me esculachar o trabalho de outra pessoa, fico pensando: o que impede que ela faça piada do meu próprio trabalho?

Se alguém me fala mal de um amigo ou de uma pessoa de internet que ache babaca, o que impede que essa mesma pessoa faça esses comentários maldosos sobre mim?

Dessas pessoas, eu prefiro me afastar. Assim como tento me afastar da pessoa babaca que eu não quero ser.

***

Buscar outros assuntos mais positivos é saudável. Abolir o “falar mal” tornaria a nossa sociedade inviável.

Imagine como seria conversar com alguém buscando com essa pessoa uma coisa em comum que não fosse algo que ambas desprezassem, odiassem ou se irritassem? Talvez conversássemos bem menos.

Imagine evitar falar de uma terceira pessoa, não presente na conversa. Ou, se falar de alguém que não estivesse presente, que fosse apenas para valorizá-la. Talvez teríamos que olhar para nós mesmos e falar de coisas mais íntimas que não nos permitimos abrir para as outras pessoas. Talvez teríamos que fazer um grande esforço para começar a perceber o que as outras pessoas fazem de bom e que normalmente nem prestamos atenção.

Imagine endereçar as críticas a alguém diretamente para a pessoa criticada. Falar diretamente para ela aquilo que ela faz que incomoda você. Talvez não suportaríamos a sinceridade. Talvez não tivéssemos coragem. Talvez não soubéssemos criticar com empatia, imaginando como aquela pessoa vai receber o que falamos. Talvez não soubéssemos conversar sem magoar uns aos outros.

A sociedade não iria funcionar.

Mas talvez ela já NÃO esteja funcionando.

***

No momento em que escrevo este texto, a tag #euodeio é a mais compartilhada no Twitter.

***

Ilustração do artista Alex Grigg. Daqui.

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Leitura do desconforto

10 de July 2014 por Valek

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Poucas leituras me satisfazem tanto quanto aquelas que me incomodam.

Pude perceber isso com mais clareza em uma de minhas últimas leituras, o romance policial & aventureiro “A Última Expedição”, de Olivia Maia.

Policial, só no gênero. Não é daquelas histórias sobre detetives ou policiais salvando o mundo, mas tem mistério, suspense, perseguição e investigação. Troque os detetives de sobretudo e chapéu por um grupo de aventureiros falidos, o crime a ser resolvido pelo sumiço de um médico e o cenário urbano pelos mais rústicos e ermos cenários na Bolívia.

Como a própria Olivia resumiu: “Um médico gringo que desapareceu em algum país vizinho, enquanto pesquisava alguma planta estranha. Um grupo de degenerados brasileiros contratados para encontrar o pesquisador e um empresário cheio de segundas intenções”.

Aliás, nesse texto ela também conta como foi o processo de escrita desse livro e a viagem para a Bolívia, onde ela foi perseguir cenários e personagens para a história e (quem sabe) encontrar o médico irlandês desaparecido.

O que importa, no entanto, mais do que a história que não vou contar muito para não estragar as surpresas do livro, são as sensações que ele me causou.

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O que chamou a atenção de cara foi a escrita de Olivia: frases que terminavam pela metade, palavras que ficavam gritando justamente pela sua ausência, no que pode parecer a alguns um descuido na revisão, mas que, na verdade, constituem um trabalho cuidadoso da autora em construir uma narrativa baseada em lacunas. É uma história cheia de mistérios, ué! Logo, é sobre algo que não está presente, sobre o não-contado, o não-dito.

O raciocínio constantemente interrompido na narrativa serve para lembrar o tempo todo que há algo faltando; algo que ninguém considerou, que ninguém pensou ainda. Mais do que isso, é um convite.  É como quando alguém está falando e faz um suspense para falar a palavra seguinte. Dá vontade de? Isso, de completar.

Comecei a perceber que eu estava me esforçando para completar essas lacunas. De tentar raciocinar junto com o Estevão, o protagonista, ou então tentar pensar além dele, mesmo não dispondo de mais informações do que ele mesmo tinha.

Era isso: eu estava, de fato, participando da expedição. Eu era um dos membros do grupo de Estevão. Também era meu trabalho descobrir onde estava o médico desaparecido, saber por que ele desapareceu e por que queriam encontrá-lo.

O livro não me deu nenhuma resposta fácil. Eu tive que suar para buscá-las. É como se a autora tivesse colocado o jogo no hard – e me colocado não como espectadora da aventura, mas dentro dela.

Não poucas vezes, durante a leitura, percebi que estava sem fôlego. O ritmo da narrativa é acelerado, o raciocínio vai se atropelando, cortando palavras, deixando buracos. Nunca estive em um lugar de altitude, mas posso dizer que foi em “A Última Expedição” que mais perto cheguei dessa sensação. É aflitivo, cansa. E a poeira, o frio, as lonjuras, é tudo muito palpável na história. Em cada detalhe do livro havia o esforço de me convencer que eu estava nos altiplanos bolivianos. E funcionou.

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Isso me fez pensar em tantas outras narrativas que me conquistaram porque deixaram comigo parte do esforço de construir a história. Leituras que me deram trabalho, que me incomodaram, que me deixaram desconfortável em algum nível.

Lembro também de George R. R. Martin e sua forma de conduzir a história sem a preocupação de agradar o leitor ou de tornar as coisas fáceis para quem lê. Mas o grande incômodo de saber que ninguém está a salvo naquele mundo, nem seus personagens favoritos, é justamente o que parece ter tornado “As Crônicas de Gelo e Fogo” um sucesso.

Lembro ainda de uma fala de Alan Moore, a respeito de satisfazer as vontades do público: “não é o trabalho do artista dar ao público o que ele quer. Se o público soubesse do que ele precisa, ele não seria o público, seria o artista”.

Aliás como posso esperar ser surpreendida por uma história que seja exatamente o que eu quero?

Ler não é só juntar letrinhas, mas participar de algo – e se for de algo que me sacuda e balance minhas seguranças e certezas, melhor ainda.

Além disso, ler não precisa ser sempre um passeio em um campo florido. Às vezes é bom – e necessário – ser jogada no meio do nada, com a cara na poeira, em um lugar onde as pessoas mal falam português, à procura de um gringo desaparecido.

***

Achou interessante? Quer ler “A Última Expedição”? Você pode comprar o e-book (que foi como eu li, no meu Kobo) ou, se preferir, o impresso.

As fotos que ilustram esse post foram tiradas pela própria Olivia, em sua viagem para a Bolívia. É incrível poder ver nessas imagens o cenário pitoresco que eu construí na minha imaginação :)

Na ordem: caminho para Coqueza e a vista do vulcão de Tunupa; salar de Uyuni, o maior deserto de sal do mundo; e a cidade de Sucre vista do mirante.

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Violência e consentimento

03 de July 2014 por Valek

Primeiro, assista ao vídeo acima.

Provavelmente você já deve ter visto, já que ele parte da ideia daquele outro vídeo que viralizou há algum tempo, com dois desconhecidos sendo colocados na frente da câmera para se beijarem – um vídeo que depois descobriram se tratar de uma propaganda disfarçada para uma marca de roupas. E tudo que transformam em propaganda perde a graça. Bem, mas não é o caso desse vídeo, embora seja muito parecido com o do beijo, até no visual.

Neste vídeo os desconhecidos não são instruídos a se beijarem, mas sim a dar um tapa na cara daquele completo estranho ou estranha diante de si. Um tapa. Na cara. De alguém que você nunca viu na vida.

É muito interessante observar a reação das pessoas. Como se comportam antes de dar um tapa. As coisas que falam, como decidem quem vai bater primeiro. Até estabelecem limites (“espere eu tirar o óculos” ou “calma, vou tirar os anéis” ou “pode me bater, eu só não quero sangrar” “haha, eu nunca faria isso!” ou “obrigada por tirar o anel, muito gentil da sua parte!” “viu, eu me importo com você!”). Como são gentis umas com as outras, apesar de não se conhecerem e, bem, terem que estapear a outra mesmo assim.

E aí rola o tapa, um em cada rosto. Elas riem. Perguntam se podem bater mais. Começam a curtir a brincadeira. Dão tapas mais elaborados, com as duas mãos. Outras dão chutes. Fazem uma corrente de tapas. Dão tapas na bunda. Pedem pra outra bater mais forte.

Fica divertido! Elas riem, se divertem, extravasam. E é tão íntimo. Eu diria que isso exigiu bem mais intimidade e confiança do que beijar um desconhecido (coisa que já é tão natural em festas e carnavais). Depois de tanto se baterem, eles se abraçam, se beijam, parecem ter feito um novo amigo.

Como pode rolar tanta intimidade, gentileza e amizade em um tapa?

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O objetivo do diretor deste vídeo era justamente explorar a natureza da violência: “um tapa, subtraído de seu contexto violento, é mais íntimo do que um beijo. Um tapa atenuado pela permissão do outro se torna um abraço. Elas constroem um relacionamento nesse momento.”

Achei esse experimento incrível. Porque consegue expor (de uma forma fofa e divertida) algo que temos tanta dificuldade para elaborar: que, basicamente, a violência se define pela falta de consentimento.

Um exemplo no esporte: MMA. Muitos acham o esporte muito violento, porque tem porrada, sangue, o objetivo é subjugar o adversário. Mas quem acompanha e vê com atenção, percebe que não é bem assim. Existem muitas regras que servem para proteger os lutadores. Não existe isso de espancamento até a morte, porque o juiz interrompe a luta com o mínimo sinal de perda de consciência de algum dos lutadores, mesmo que o cara apague apenas por uma fração de segundos. Se o cara é pego numa chave de braço, por exemplo, ele dá um tapinha no braço ou na perna do outro lutador, ou ainda no chão, para sinalizar que “chega, não quero mais, me rendo, você ganhou”. É tipo uma safe-word. O limite do consentimento: o outro tem que parar, a luta é interrompida.

O cara entra no octógono consentindo com o fato de que poderá bater e apanhar, com a consciência dos limites daquele jogo, do que ele pode ou não fazer, e tentar vencer o outro dentro dessas regras.

O futebol, por outro lado, é mais violento. Porque as agressões não fazem parte das regras do jogo, sendo inclusive punidas. Mesmo assim as agressões acontecem, e o pior é que são inesperadas, pegam o jogador desprevenido. Qualquer rasteira por trás, empurrão ou até mordida. Sem falar que a violência do futebol também é praticada pela própria torcida, sendo que ninguém entrou no estádio consentindo em apanhar – embora alguns queiram bater.

Parafraseando o Alessandro Martins, o MMA é mais civilizado porque consiste em dois cavalheiros ou duas damas que concordaram expressamente em se espancar até um dos dois não aguentar mais. Eles não se batem porque se odeiam ou porque querem prejudicar o outro. Por mais que exista rivalidade entre alguns lutadores, é comum no final de uma luta os caras se abraçarem, parabenizarem o outro e ainda pedirem palmas da torcida para o adversário que tenha dado trabalho.

O consentimento sendo a linha que separa a violência da não-violência pode ser observada em outros aspectos da vida.

O assédio na rua é uma violência porque a mulher que é submetida a essa situação não concordou com isso. Não há como ela sequer expressar seu consentimento para um desconhecido que passa de carro gritando baixaria ou para um estranho que passa por ela praticamente cheirando seu cangote. E lembrando que 1) usar uma saia curta ou decote não significa consentimento 2) os caras que fazem isso não estão nem um pouco interessados no consentimento da moça, portanto, a “graça” que eles veem nisso é justamente em cometer um abuso.

Se duas pessoas adultas e conscientes concordam em fazer sexo, bem, aí é sexo. Uma relação, uma troca. Se uma pessoa decide fazer sexo com alguém sem o consentimento dessa pessoa, deixa de ser sexo e se transforma numa violência. É estupro. E lembrando que uma pessoa ter permitido fazer algo sexual uma vez não significa que ela está concedendo permissão automática para tudo, todas as vezes.

Tem casais que curtem se bater, fazem disso um fetiche. Então eles concordam em se amarrar, em infligir dor no outro ou se submeter à dor, impondo suas próprias regras, com limites e consentimento. Sem consentimento, é violência.

Até um beijo ou um abraço dado sem o consentimento do outro torna-se uma violência.

E acho que estamos falhando em ensinar o que é consentimento e saber o que isso significa. Muita gente não entende sequer o básico: que se uma pessoa está inconsciente ou bêbada ela não é capaz de dar consentimento. Que não dizer um “não” não quer dizer que a pessoa consentiu. Que um “não” significa sempre e indubitavelmente um “não” e que a pessoa não está dando o seu consentimento para algo. Que não respeitar esses limites é cometer uma violência.

Chega a ser irônico pensar que um vídeo de tapa na cara possa nos ensinar tanto sobre civilidade e gentileza – algo que só podemos experimentar, como sociedade, por meio do respeito ao consentimento.

***

Este texto foi publicado originalmente na edição 20 de Bobagens Imperdíveis, newsletter que envio semanalmente com textos exclusivos, conversas, atualizações sobre o meu trabalho, curiosidades, tretas, indicações de leitura e muitas bobagens. Assinar é fácil, rápido e grátis, é só clicar aqui.

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Troca de mensagens

01 de July 2014 por Valek

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Oi :)

Oi… Quenhe?

Não tenho seu número

Meu nome é Sal!

Ué, não conheço ninguém com esse nome. É da faculdade?

Provavelmente não, risos

Agora tô curioso

Opa, agora sei que estou falando com um cara!

Você não me conhece?

Como conseguiu meu número então?

De um aplicativo

Que aplicativo? Tinder?

Eu tinha saído do Tinder

Não…

Você não deve ter esse aplicativo.

Não foi lançado ainda na sua época.

Han?

Como assim?

Rs

Então

É um aplicativo que permite trocar mensagens em tempo real com pessoas do passado.

Você tá me zoando. É o Leonardo, né

Leonardo? Não, é a Sal

Tá bom. E você está no futuro

Sim!

Em que ano você está, amigo do Leonardo?

É Raul

E estamos em 2014.

Uou!

Esse aplicativo é bom mesmo.

Aqui o ano é 2208.

Hahahaha ok.

Você não está acreditando, né.

Se você está no futuro, me diz aí quem vai ganhar a Copa.

Nossa

Que incrível

Na sua época ainda existia Copa?

Vai me dizer que na sua época não?

Há muito tempo que não

Acho que deixou de existir depois que os países acabaram. Aí não fazia mais sentido ter seleções de futebol pra cada país se esse negócio de nação não existia mais.

Mas futebol ainda existe, pode ficar tranquilo

Se não existe país, onde você mora?

Num apartamento com varanda

Hehe

Brincadeira

Em Oester Grande. É uma das grandes metrópoles mundiais. Surgiu da ligação dos centros urbanos que ficavam entre Belorizonte e Londrina de antigamente. Agora é tudo uma coisa só.

Nossa, deve ser grande

Aham

Mas me fala mais de você, Raul.

Onde você mora?

Em São Paulo. Na minha época é a maior cidade, mas não chega nem perto da sua, né.

Agora tô aqui imaginando como deve ser pegar o metrô no horário de pico em Oester Grande

Dsclp, é que nunca falei com alguém do futuro antes

Hahahaha

Também é a primeira vez que eu falo com alguém do passado :)

Muito legal esse aplicativo

Né? E ainda baixei de graça

Mas me diz

O que você faz da vida?

Sou community manager

O q é isso?

Então

Eu sou responsável pela comunicação das marcas nas redes sociais, tipo criar conteúdo pra facebook, sabe?

Não sei o que é facebook

É uma rede social da minha época. As pessoas criam páginas pra elas falarem da própria vida, colocarem fotos, adicionarem amigos e compartilharem links que achem legais, mas geralmente é só merda

Nunca ouvi falar

E no meio disso tudo, as empresas postam suas campanhas, falam sobre seus produtos, promoções ou criam conteúdo engraçadinho pras pessoas compartilharem

E é isso que eu faço!

Nossa, que específico

Nunca iria imaginar que já tenha existido uma profissão assim.

Mas é sua única profissão?

Ué, sim

Qual é a sua?

Eu tenho três, na verdade.

Dou aulas particulares de português, mandarim e idioma global

Cuido da programação das máquinas de um restaurante de comida indiana

E sou patinadora de Kufpsbal

Tudo isso? Como você consegue conciliar?

Tendo um horário pra cada coisa, oras

Mas deve ser uma merda se deslocar em 3 empregos numa metrópole como deve ser onde você vive

Nada, faço tudo de casa. As aulas particulares e a programação.

Tudo remoto

Só saio mesmo para os treinos e partidas

Como é isso de ser patinadora profissional?

E o que é Kuspbal?

Haha

É Kufpsbal. Um jogo muito popular aqui “no futuro”.

Mas não entendi sua pergunta quanto a ser patinadora profissional. Qual é a dúvida?

Tipo, você ganha pra ser patinadora? É um emprego mesmo?

Sim!

Precisam de patinadoras para fazer uma partida, certo? Então me pagam para jogar, ué

Que legal!

Deve ser muito massa, mas ao mesmo tempo você deve ser bastante ocupada, não?

Sim, mas estar ocupada é bom

E você está ocupada agora?

Mais ou menos. Estou supervisionando as máquinas do restaurante, mas no geral elas já fazem tudo sozinhas. É mais ficar atenta pra ver se não dá algum problema.

E não tem problema ficar trocando mensagens comigo?

Nada

É sussa.

Pelo menos nos próximos 5 minutos, que é quando tenho um aluno me esperando na tela para uma aula de português.

Entendi

Ei, Sal

Você podia me adicionar nos seus contatos

Acabei de fazer isso

:)

Também te adicionei por aqui

Não é todo dia que converso com alguém do futuro

Queria poder fazer isso mais vezes!

Sim, eu também!

Espero que quando eu voltar você ainda esteja aí em 2014.

É só não demorar a aparecer, rs.

Mas antes de ir

Queria te perguntar mais uma coisa

Diga

Posso ver uma foto sua?

***

Continua.

Ilustração: Julia Yellow. Daqui.

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Cegueira branca

19 de June 2014 por Valek

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Quando Saramago escreveu Ensaio sobre a Cegueira talvez não imaginasse o quão perto do real estivesse a epidemia por ele imaginada. Hoje a cegueira branca se espalha com uma assustadora rapidez, atingindo até pessoas do nosso convívio.

Claro que ela não funciona como na ficção do escritor português; mas eu diria que a versão da vida real é ainda mais perigosa, justamente por não ser percebida como uma epidemia. Está naturalizada. E é preocupada com o avanço desta doença que escrevo este alerta.

Como o nome sugere, este tipo de cegueira atinge principalmente pessoas brancas e as mais privilegiadas entre elas. Ninguém sabe exatamente como se dá o contágio, mas acredita-se que o surto da doença tenha tido início com os primeiros avanços no combate à desigualdade social e racial. Não é mera coincidência que os primeiros registros da cegueira branca tenham se dado na mesma época da adoção de cotas para negros nas universidades.

O principal sintoma que indica que uma pessoa foi afetada pela cegueira é acreditar que, por ser da elite branca, faz parte de uma minoria explorada, discriminada e perseguida.

Cercada de privilégios, a pessoa desenvolve uma grave miopia social. E privilégios cegam. Em casos mais extremos, podem fazer a pessoa perder, além da empatia, a noção e até o senso de ridículo. Mas, sobretudo, tantos privilégios impedem que a pessoa veja a realidade.

Acreditar que a elite branca é uma minoria discriminada é não ver que a maior parte das riquezas e propriedades do país estão na mão dessa mesma elite branca. É não ver que essas pessoas ocupam mais posições de chefia e estão nas profissões que pagam melhor.

Acreditar que existe uma “minoria branca” que sofre preconceito é não ver que a TV, as revistas, as propagandas e os filmes celebram o protagonismo e a beleza branca. É não ver que a cor de sua pele é enxergada por toda a sociedade como o padrão. É não enxergar que pele clara e cabelo liso são as características desejáveis e até impostas como a norma do que é considerado belo.

Acreditar que a elite branca é perseguida por pagar impostos, mais do que cegueira, é desonestidade. É não ver que, bem, não se está fazendo mais do que a obrigação, principalmente se a pessoa em questão tiver uma empresa. É não ver que pagar impostos não é exclusividade das pessoas brancas.

Acreditar que a minoria branca é oprimida no Brasil é não ver que até começarem a criar cotas para o ingresso de negros e bolsas para os mais pobres, as universidades eram um espaço dominado pelos brancos e pelos filhos de uma elite que acumulou historicamente todos os privilégios possíveis, inclusive o acesso à educação de qualidade.

Acreditar que oprimidos são os brancos é não ver a opressão sistemática e histórica que vitimou e ainda vitima as pessoas negras. É não ver que os trabalhos mais mal remunerados ainda são destinados às pessoas negras, que ainda estão entre as mais pobres do país. É não ver que os tiros da polícia são endereçados a corpos negros. É não ver o massacre da juventude negra no Brasil.

É não ver como as religiões de origem africana são marginalizadas e perseguidas ou ainda não conseguir enxergar que a cultura produzida pelas pessoas negras é sempre diminuída e menosprezada. É não ver a quem são jogadas as bananas em estádios de futebol, é não ver a quem são destinadas as piadas e caricaturas que diminuem e desumanizam todo um grupo de pessoas. É não ver a ausência gritante de pessoas negras nas propagandas, na TV, apresentando jornal, protagonizando novelas, filmes, na capa de revistas e achar isso normal.

Fazer parte de uma elite branca e tentar se colocar no lugar do oprimido é não ver o quanto isso é cruel, desrespeitoso e de uma ignorância gigantesca. É não ver que se está pisando na história de luta do povo negro. É não ver o quanto as pessoas negras ainda têm que lutar para conquistar o mínimo de direitos que desde sempre são usufruídos pela elite branca.

O antídoto para a cegueira branca são doses generosas de empatia. Já que estão impedidos de ver, os infectados por essa epidemia podem pelo menos abrir bem os ouvidos e ouvir a voz das pessoas negras. Ouvir o que elas têm a dizer. Escutar a realidade do ponto de vista delas, sair um pouco da zona de conforto e comodidade que são os privilégios.

Não vai ser fácil, principalmente para quem se acostumou a vida inteira com tantas facilidades concedidas às pessoas brancas. Mas até então, é a única cura conhecida.

E, depois que se abre os olhos para essa realidade, é impossível voltar atrás. É quando finalmente vemos que é preciso fazer algo a respeito – e reconhecer, em que nível, somos parte do problema.

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Uma vergonha para chamar de sua

14 de June 2014 por Valek

vergonha

Sabe aquele momento de constrangimento tão devastador que você sente vontade de arrancar o próprio braço com uma mordida ou de bater a cabeça na parede até se esquecer daquela coisa vergonhosa que você fez ou falou? Pois é. Não faça isso.

Bati o crânio na parede com tanta força numa dessas ocasiões de constrangimento que, da fenda que se abriu na minha cabeça, saiu uma vergonha tão grande que tem até RG e CPF. Uma vergonha muito grande, sem dúvidas, mais alta do que muita gente que conheço. Por isso mesmo é tão difícil ignorar sua presença quando ela dá as caras em algum evento social.

E ela sempre chega por trás, com aquela voz de repreensão: “não acredito que você falou isso”. Na hora eu tento ignorá-la. Mas a safada fica me seguindo, reparando em todas as minhas falas e gestos pra jogar na minha cara depois. E só de saber que ela está ali, sentada na mesa de bar ou atrás de mim em um encontro ou numa festa, já fico toda atrapalhada, de tão nervosa que fico.

Vergonha tem uma mania irritante que é de chupar os dentes quando de repente fico calada, fazendo um estalo que me faz lembrar que ela está ali. Aí vou fazer o quê? Invento de falar qualquer coisa só pra não ter que ouvir o silêncio dela, o que não raras vezes acaba sendo minha perdição. “Nossa, era melhor ter ficado calada, miga”. E então abre um sorrisinho maligno que nenhum vilão de novela até hoje conseguiu esboçar.

E o olhar dela? Nossa. Vergonha tem as pálpebras meio pesadas e cílios tão longos que, quando ela pisca, soa como se estivesse batendo palmas. O assustador é que ela consegue ficar um tempão sem piscar, com aquele olhar de “estou te julgando”.

Mas nada é pior do que depois que vamos embora – e ela sempre me acompanha até em casa. Quando ficamos a sós, ela faz questão de me recordar, com detalhes, das bobagens que falei, do papel de ridícula que eu fiz e da reação dos outros aos meus momentos constrangedores. E eu tenho que ficar ouvindo tudo, querendo derreter de tanto arrependimento de existir.

Vergonha não me deixa esquecer de nadinha. Estou lavando louça e PÁ, ela vem: “foi legal aquela hora que você confundiu o nome da Sílvia, hein?” ou estou escrevendo e ela fica olhando pra minha tela como se fosse ficar caladinha, até que PAM, chego a levar um susto: “e aquela hora em que você foi dar um beijinho, achou que a outra fosse daquelas que dão dois, foi dar o segundo pra pessoa não ficar no vácuo mas quem acabou ficando no vácuo foi você? Haha”. Nem quando estou cagando ela me dá uma folga.

Mas depois de um dia ou dois, fico realmente sozinha. Vergonha some. Procuro ela em todos os cômodos e até chego a me lembrar de algum evento constrangedor em voz alta só pra ver se ela aparece, mas nada. Alívio.

Às vezes passo dias sem vê-la. Chego até a esquecer de seu rosto, da sua risada ou da dor de barriga de nervoso que me dá quando ela começa a me julgar. Mas sei que quando ela aparece é horrível e tudo que vou desejar é que ela vá embora, em um ciclo sem fim de encontros e desencontros.

Mas um dia pensei: não precisa ser assim.

E se, ao invés de me incomodar com sua presença, eu receber Vergonha com carinho? E se quando ela estiver me atormentando em casa, eu fizer um café pra ela, para tomarmos juntas enquanto ela me conta as vergonhas que passei no dia?

Resolvi então me reconciliar com Vergonha.

Marquei um encontro com amigos, mas era Vergonha que eu queria que aparecesse. Funcionou. Ela deu as caras assim que tentei soltar a primeira piada da noite, usando uma referência que ninguém conhecia.

Assim que ela apareceu, pedi licença e puxei ela pra um canto; o que a surpreendeu, já que era a primeira vez que eu não a ignorava.

“Que bom que você veio. Só queria que você soubesse que quero ficar de boa com você. Eu estava pensando e acho que não tenho motivos para te achar irritante e sofrer tanto com a sua presença. Não vou conseguir me livrar de você, pelo jeito. Então, se vou ter que conviver com você pelo resto da minha vida, que pelo menos essa convivência seja agradável. O que acha?”

Aqueles olhos que sempre carregavam julgamento agora estavam cheios de lágrimas. Peguei Vergonha mesmo de surpresa.

Então a abracei, e ela correspondeu ao abraço me apertando com força.

O abraço foi tão forte que comecei a sentir algo estranho. Abri os olhos e me surpreendi: eu a estava absorvendo durante aquele abraço. Vergonha estava voltando pra dentro de mim.

Espero que lá dentro seja confortável pra ela, porque, pelo menos pra mim, assim está bem melhor. Carregar Vergonha não precisa ser um peso.

***

Ilustração: Laura Callaghan. Daqui.

Mais textos sobre vergonha:

Das vergonhas que passo na vida.

Discovery Tímidos.

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Papa, cubo mágico e agradabilidade

10 de June 2014 por Valek

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Viu o que o papa falou esses dias?

“Estes casais que não querem ter filhos (…) esta cultura do bem-estar econômico que, há dez anos, os convenceu de que ‘é melhor não ter filhos’. Como é melhor! Ah, claro, desta forma você pode ver o mundo, sair de férias, ter uma casa no campo, ficar tranquilo… Isso é, sem dúvida, melhor, mais conveniente, de ter um pequeno cão, dois gatos…”, ironizou. “Não é verdade?”, perguntou à multidão. “Mas, no final, esses casais chegam à velhice, na amargura da iníqua solidão”.

Bem, primeiro vejamos quantos filhos tem o Papa Francisco: 0.

Então talvez ele esteja falando dele mesmo quando diz que pessoas sem filhos, quando envelhecem, amargam na solidão? Hm, deve ser. Porque pra mim uma boa definição de velhice amarga é essa obsessão em cagar regra na vida dos outros. Mas quem é Papa Chico no jogo do bicho pra dizer que casais sem filhos são infelizes? Ou que é um problema preferir viajar pelo mundo & cuidar de bichos do que colocar mais um ser humano no mundo pra pagar dízimo? Ou pior: ao sugerir que ter uma vida tranquila e cachorros é incompatível com ter filhos? Sem falar na crueldade de falar isso para casais que não podem ter filhos.

Ah papa, me poupe desse papo.

Outra: tá faltando argumento pra convencer as pessoas a terem filhos, né. Mas ele bem que podia ter usado a criatividade ao invés de ter jogado no discurso dele justamente os argumentos mais atraentes para NÃO ter filhos. Desse jeito o pessoal vai sair da missa convencido a adotar um cachorríneo e curtir as férias na praia. Aí você também não tá ajudando, ô santidade.

Nada contra filhos, tenho até amigos que são. Mas convenhamos que filhos não são lá garantia de velhice feliz. Aliás, não há sequer garantia de que chegaremos à velhice, pra começar. E imagino que ter filhos com o propósito de melhorar a sua vida, além de egoísta, é a maior roubada. Igual aquele papo de encontrar a alma gêmea que vai nos fazer sentir “completos”. Corra disso sem olhar pra trás! E que puta responsabilidade você vai estar jogando em outro ser humano. Ninguém deveria deixar sua própria felicidade nas mãos de ninguém, nem de filho, nem de cônjuge, nem de operadora de telefonia.

E já que o Papa falou em “conveniência”, que tal falarmos de como é conveniente encher o saco das pessoas para terem filhos se não é ele quem vai carregar na barriga, ou amamentar, ou explicar o dever de matemática, ou dar remédio quando estiver com febre, ou ainda tentar convencer a pessoinha a tirar as músicas do One Direction do repeat porque você não aguenta mais ouvir aqueles meninos xexelentos e começa a sentir saudade de quando era só Galinha Pintadinha no repeat o dia inteiro. Ter uma criança puxando a barra da sua batina você não quer, né?

Se nem os pais podem se considerar donos de uma criança, o que dirá então de terceiros, que cobram filhos das pessoas como se elas lhe devessem algo? Que coisa mais desagradável. Eu inclusive já criei algumas desculpas que respondem à inconveniente pergunta “quando você vai ter filhos?”, mas acho que só um “não é da sua conta” já bastava.

Enfim, papa: as pessoas vão ter filhos se quiserem. Não vão ter filhos se quiserem. Você não tem nada a ver com isso, aceita que dói menos. Talvez assim sua velhice se torne um pouquinho menos amarga. E não é legal um senhor da sua idade ter tanto recalque assim.

Estou sendo injusta com o papa? Provavelmente sim. Afinal, é parte do emprego dele dar esse tipo de declaração. Se ele não for falar de como as pessoas devem levar a vida delas, ele vai fazer o quê? Pois é. Além disso, vai que ele é dono de uma marca de fraldas e ninguém sabe? Eu apostaria na MamyPoko. Aquele bonequinho me dá medo.

Mas confesso que a minha primeira reação ao ler o comentário do Papa foi rir alto por ele ter acertado exatamente quantos gatos eu tenho.

***

Nunca resolvi um cubo mágico na vida, mas tenho 11 bons motivos pra isso:

1. Porque as cores embaralhadas não estão atrapalhando ninguém.

2. Porque acho que a magia do cubo está justamente na forma fantástica que as cores ficam misturadas.

3. Porque sou contra formar grupos separados em função de cor.

4. Porque o cubo serve para apreciar a beleza que há na desordem.

5. Porque uma vez que você o resolve, não há como deixa-lo “mais resolvido”, mas sempre é possível deixa-lo mais embaralhado.

6. Porque o cubo não me deu seu consentimento para que eu o resolvesse.

7. Porque se o cubo é mágico, ele poderia muito bem se resolver sozinho.

8. Porque ele não vai se abrir e revelar um show de prêmios quando eu o resolver.

9. Porque, depois de resolvido, o cubo não representa mais um desafio.

10. Porque o cubo pode ter outras utilidades e eu estaria limitando seus potenciais ao usá-lo apenas para resolvê-lo.

11. Porque prefiro evitar a fadiga.

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Juro que essa história é real. Estava eu numa loja de xerox para tirar cópias de uns documentos (na época eu ainda morava em Brasília). Eu estava esperando a minha vez, enquanto uma mulher era atendida no balcão. Ela falava com alguém ao celular:

– Se ele ligar, é o italiano. Não deixa mais ele entrar no shopping! – Han? Eu pensei. Então a mulher espera a outra pessoa do outro lado da linha falar alguma coisa, e continua:

– Agora ele não vai mais entrar em nenhum shopping de Brasília. – Gente, o que esse cara fez? Pensei, tentando disfarçar que estava escutando a conversa dos outros.

Tinha um cara acompanhando a moça do balcão. Ele pergunta para a mulher, enquanto ela paga o moço da copiadora:

– O que o cara fez?

– O que ele fez? Já te digo o que ele fez. Vamos sair daqui.

E saíram da lojinha, me deixando na maior curiosidade. O moço da copiadora deve ter pensado a mesma coisa, porque comentou comigo:

– Acho que foi sério, hein – concordei, e ele continuou: – Seja o que for, acho que agora ele só vai poder comprar roupa na feira!

Ah, a vida. Esse desfile que a gente vai assistir na primeira fileira mas não entende nada.

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***

Por vir de uma linhagem de marmiteiros que vem transmitindo suas tradições de geração em geração, elaborei um pequeno teste para saber se você é um heavy user de marmita. Se você marcar 10 ou mais questões, parabéns: você é profissional no quesito marmita.

1. Compra vasilhas de plástico que vai usar exclusivamente para servir marmita.

2. Possui uma sacola, bolsa ou mochila que usa apenas para levar a marmita.

3. Serve a marmita do dia seguinte imediatamente após a janta.

4. Já prepara as refeições pensando na quantidade que vai levar na marmita.

5. Já prepara de uma vez só toda a comida que irá levar na marmita durante a semana, servindo em suas vasilhas específicas e guardando no congelador.

6. Possui marmita com divisórias para cada tipo de comida.

7. Serve a marmita em pote de sorvete.

8. Marmita de metal.

9. Se vai comer num restaurante, sempre pede para embalar as sobras.

10. Se vai comer na casa dos parentes, não se acanha em levar uma vasilha para servir a marmita após a refeição.

11. Serve a marmita ANTES de ser servida a refeição para as pessoas, pra garantir a quentinha do dia seguinte.

12. Despeja a comida da marmita em um prato para comer na firma, que permite melhor manobrar o alimento.

13. Porém, não se intimida em comer direto da vasilha, inclusive até prefere.

14. Sempre pensa em um arranjo de comida dentro da vasilha de um jeito que o feijão não derrame.

15. Nunca se engana de marmita na geladeira da firma.

16. Nunca esquece a vasilha de marmita na firma.

17. Na firma, acaba criando uma amizade maior com quem também é da gangue da marmita.

18. Se sente enganado quando compra marmitex na rua, abre e vê aquele tanto de arroz.

19. Não dá nem meio-dia e já está colocando a marmita no microondas, antes que alguém coloque antes de você. Ou pior: antes que alguém com lasanha congelada coloque no microondas antes de você.

20. Tem sua própria marmita elétrica.

***

Eu não escrevo pra agradar você. Nem ninguém.

Escrevo porque preciso e escrevo sobre o que me incomoda.

Por essa razão já recebi vários comentários e e-mails de pessoas bravas comigo por algo que escrevi. Por essa razão levei muito unfollow e unfriend de gente que eu conhecia. Afastei pessoas que se incomodaram com o meu posicionamento sobre alguma coisa. Devo ter perdido oportunidades de trabalho por conta disso. Devo até ter criado inimizades.

Assim como não vou ficar tentando convencer ninguém de algo em que acredito, não vou ficar maneirando o que penso para puxar o saco de alguém. Nem leitor, nem crítico, nem militância, nem amigo. Já passei toda minha vida sendo a esquisita, a chata, a que as pessoas não fazem muita questão de chamar para os rolês, então acho que aguento passar mais um tempo sem ser a popular.

Talvez aí esteja o meu erro. Se eu escrevesse pensando em agradar, meu blog poderia ter mais acessos, eu teria mais leitores, ganharia mais dinheiro, seria mais famosa, mais querida. Seria sim mais fácil, como vejo um monte de gente fazendo. Me traria menos dor de cabeça, menos problema, menos gente me xingando e rezando pra deus me castigar.

Mas por que fazer tanta questão de manter por perto pessoas que não iam gostar do que eu penso de verdade?

Ao me posicionar com clareza sobre a forma que enxergo as coisas, faço um favor às pessoas e a mim mesma. Sinalizo minha posição, mesmo que contrária à sua, para que você tenha a opção de continuar me acompanhando ou não (sei lá, tem gente que odeia uns colunistazinhos reaças e machistas por aí, mas tá lá lendo toda semana só pra passar raiva). Com isso eu também ganho, ao repelir pessoas que não compartilham dos meus valores e para quem eu precisaria mudar completamente quem eu sou e as coisas que penso para poder agradar.

Então eu posso estar errada, e eventualmente vou estar, o que pode me levar a rever alguns posicionamentos, assim como eu posso mudar de opinião porque sim; mas não vou fazer nada disso para me adequar à opinião de outra pessoa só para fazê-la se sentir bem e gostar de mim. Se isso incomoda, eu só posso lamentar, sorrir e imaginar o tamanho (em metros) do ego dessa pessoa que acha que ela importa tanto assim para eu ter que agradá-la.

Sua aprovação não vai ser a causa do que eu escrevo, mas se vier por CONSEQUÊNCIA do que escrevo, aí sim, estarei no lucro.

***

Estes são alguns dos melhores textos que escrevo semanalmente para os assinantes da newsletter Bobagens Imperdíveis. Além de textos exclusivos, historinhas e desenhos, compartilho vários links legais, curiosidades, conto as tretas da semana e falo um tantão de besteira.

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Nos vemos no próximo final de semana?

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SDD

05 de June 2014 por Valek

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Quando conheci Vic, não imaginava que ela pudesse ser assim incomum. Quer dizer, ela tem lá suas esquisitices, como ver graça em Friends ou guardar a faca junto com a margarina na geladeira, mas até aí tudo bem. Quase não acreditei quando descobri que o curioso a respeito dela era que Vic não sentia saudades.

Nem a saudade boa do desejo de rever alguém, nem a saudade que dói, com aquele sentimento de angústia e de perda que preenche a ausência de alguém. Nadinha. Nunca aprendeu, ela disse, com uma naturalidade de quem revela não saber ver as horas em relógio de ponteiro.

Impossível, foi o que eu disse. Vai ver ela só não tivesse tido oportunidade de sentir saudade de alguém. Não há um parente que more longe? Nenhuma pessoa amada morreu ainda? Nenhum amigo próximo que tenha seguido um caminho diferente? Seus pais, ela disse, são de outro país. Uma de suas melhores amigas morreu há poucos anos. Tantos outros amigos e amores já tinham entrado e saído da sua vida. Então?

Não sinto nada, ela confirmou, embora não tentasse me convencer de alguma coisa. Talvez estivesse acostumada à incredulidade dos outros quanto a isso. Continuou a tomar o seu café e de repente lembrou-se de comentar comigo o último episódio de Game of Thrones. E eu ali, me sentindo em um episódio de The Twilight Zone, subitamente em uma realidade paralela onde a saudade não existe.

Imagine só. No mundo de Vic, não há a necessidade de renovar, com mensagens ou ligações, um relacionamento que se distanciou, só pelo motivo de estar distante. Em sua realidade, também não faz sentido cobrar isso de ninguém.

Vic é indiferente ao tempo e à distância entre ela e outras pessoas. Não a faz amar alguém mais ou menos. Não a faz sentir dor, tristeza ou vontade de colocar Someone Like You no último volume e deslizar pela parede enquanto chora.

Aliás, músicas que falam “vai, minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser” ou “não sei porque você se foi, quantas saudades eu senti” não fazem efeito em Vic. Ela não se comove com “aonde está você agora além de aqui, dentro de mim?” ou não entende o sentido de músicas que dizem “a solidão deixa o coração neste leva e traz”.

Também não lhe faz falta sentir falta das coisas. Nem isso. Até porque, como sentir saudade de algo que nunca sentiu?

E ainda assim, Vic funciona. Faz amigos, apaixona-se, fica triste ou sofre, ainda que por outros motivos.

Talvez não lhe falte nada, mesmo quando alguém se afasta. Talvez Vic não veja as lacunas vazias, como alguém que não percebe o silêncio, apenas o barulho. Preocupa-se em sentir a presença, em vez da ausência. Talvez tenha a memória tão boa que está segura de seus sentimentos mesmo se aquela pessoa não estiver por perto para alimentá-los; ou talvez simplesmente porque não se importe em se esquecer. Parece encarar com naturalidade o vai e vem de pessoas em sua vida, como quem sabe que mesmo longe elas estão em algum lugar.

As pessoas estão por aí, ela disse ao pagar a conta, percebendo que eu não tinha tirado o assunto da cabeça. As pessoas estão por aí e um dia não vão estar mais. Posso não saber o que é saudade, mas disso eu sei.

Então tudo fez sentido.

A saudade e a falta dela.

Até tinha esquecido disso até Vic me mandar, dia desses, fotos de sua nova casa. Ela se mudou para outra cidade e desde então não tomamos café juntas outra vez. Uma pena.

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Histórias reais de um mundo fantástico

16 de May 2014 por Valek

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Seu Luiz era o zelador da escola. Antes dos primeiros alunos chegarem, ainda com o portão fechado, ele já estava lá. Sua casa ficava nos fundos da escola, atrás das quadras de futebol. Alguns alunos brincavam que Seu Luiz estava há tanto tempo ali que, quando construíram o colégio, há oitenta anos atrás, acharam ele bebezinho no mato que viria a ser o pátio da escola. Na verdade, Seu Luiz ajudou a capinar o lote.

Em Campamona, perto da praia, construíram uma igrejinha no lugar onde encontraram uma fonte de água cristalina que, diziam, era milagrosa. Curava qualquer doença. Gente de toda parte, sabendo da fama da água, iam visitar a vila na esperança de curar suas enfermidades. As pousadas, que até então recebiam um ou outro turista por conta da praia, tiveram que se adaptar para acomodar os hóspedes doentes. A igreja e a fonte eram visitadas todos os dias, por um monte de gente buscando um milagre. Meses depois, tiveram que construir um cemitério. Era ao lado da igrejinha.

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Elas eram gigantes e rastejavam nas florestas mais impenetráveis, na beira de rios tão largos que nenhum ser vivente sequer considerava haver um “outro lado”. Essas cobras eram tão grandes que devoravam até os mais duros dos crocodilos, com casca e tudo, sem sequer mastigar para sentir a crocância. Nenhum outro animal era grande o suficiente para conseguir devora-las. Elas eram tão grossas e pesadas que quando moviam seus corpos o faziam com a força e lentidão de um continente mudando de lugar. E quando o continente sob elas começou a se mover, carregando a vida para lugares mais frios, elas foram junto. Quanto mais frio, menos comida. As criaturas do seu cardápio ou não sobreviviam às novas condições ou fugiam, buscando lugares mais quentes. Sua monstruosidade de nada adiantou se não conseguiam se mover tão rápido quanto as cobras menores. Desde então, as gigantes rastejantes nunca mais foram vistas por nenhum ser vivo sobre esta terra.

Shin Min Rin é uma adulta, embora pela sua cara não aparente. Há pouco de humano em seu rosto, que talvez se pareça mais com um de filhote de esquilo, se esses bichos tivessem pele em vez de pelo e narinas em vez de focinho. Seu olho brilha com uma inocência genuína e sua voz de desenho animado tem o poder de transformar qualquer coisa que ela fale em algo fofo. Ela percebeu o fascínio estranho que causava nas pessoas com esse seu jeito tão peculiar e resolveu fazer algo com isso. Fechada em seu quarto e com a câmera do computador ligada, passava a tarde toda se exibindo para quem estivesse do outro lado. Virou cam girl. Mas seus espectadores pagavam para ela falar coisas meigas e sem sentido, imitar emoticons, vestir roupas engraçadas e comer alcaçuz.

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Era uma cidade pequena, com casas tão simples quanto seus moradores, a maioria trabalhadores que iam para a capital todos os dias. Subindo uma das ruas mais compridas, quase no final da ladeira, havia uma casa branca. Os primeiros moradores eram um casal que esperava sua primeira criança. O homem trabalhava fora, a mulher ficava em casa sempre. Depois que a bebê nasceu, não passou muito tempo e a mulher descobriu que o marido tinha uma amante. Pôs ele pra fora. Ela, que nunca saía, pediu para a vizinha adolescente vigiar a bebê um dia, para fazer uma entrevista de emprego. Uma semana depois, ela se mudaria da casa que tinha sido um começo frustrado para a família que ela achou que teria. O próximo morador nunca ficava em casa. Nos fundos, seus dois cachorros ficavam amarrados, dormindo entediados o dia inteiro. A corrente era curta. Vez ou outra, o dono deixava eles ficarem no quintal da frente. Um dia, depois de alguns meses, jogaram carne com veneno no quintal da casa. O dono encontrou os cães mortos assim que chegou em casa. Achando que mataram os cachorros para roubar sua casa, o dono logo tratou de se mudar dali. A casa passou alguns meses vazia até ser alugada por um casal mais jovem. Eram simpáticos, animados, adoravam trazer os amigos para festinhas ou churrascos. No segundo mês na casa, começaram as brigas. Eram barulhentas, violentas, duravam a noite toda. Portas batendo, coisas sendo atiradas para fora, vidros quebrando. Os vizinhos esticavam os ouvidos para tentar captar qualquer frase que desse a entender os motivos da briga. Em um sábado de churrasco, já tarde da noite, os convidados já tinham ido embora quando outra briga começou. As mesas de metal que tinham alugado faziam um estardalhaço ensurdecedor quando eram arremessadas contra a parede ou usadas para quebrar janelas. Tudo se quebrava em meio aos gritos carregados de ódio. Os vizinhos que ficaram acordados até tarde, depois que a gritaria acabou, ouviram sons de saco plástico recolhendo destroços da briga. O homem não foi mais visto. A mulher só foi vista no dia seguinte, carregando caixas para o carro de um amigo. Depois disso, correram boatos dizendo que a casa era amaldiçoada. Por anos, não teve novos moradores. O mato tomou conta do quintal e as janelas quebradas pelos últimos moradores ainda podiam ser vistas naquele cenário de puro abandono. A casa branca ficou marrom. Os gatos de rua passaram a ser os donos da casa por longos anos. Nada trágico aconteceu a eles.

***

Ilustração fabulosa da artista Chelsea Greene Lewyta, daqui.

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Recado para os hominhos: cresçam

09 de May 2014 por Valek

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Ponham reparo em um negócio: sempre que uma mulher resolve escrever sobre um assunto relacionado às mulheres, especialmente com uma abordagem feminista, vai aparecer algum homem invalidando tudo o que ela disse… porque ela não considerou o sofrimento dos homens!

Buá.

Além de ousarem falar de um assunto em que eles não são os protagonistas, essas feministas ainda oprimem os pobres homens com seus blogs fechados para comentários – o que alguns acham uma covardia sem tamanho. Afinal, como vão poder choramingar e cagar regra e tentar silenciar essas mulheres se não puderem comentar em seus blogs? (Só não contem pra eles que muitas feministas nem leem comentários, não importa o quanto eles falem até babar, risos).

“Como pode existir alguém que não valorize a minha opinião de homem? Como pode existir algum assunto do qual eu não possa participar? Como assim eu não posso colocar minha voz acima da de uma mulher?”

Meu recadinho pra esses caras: olha, eu sei que essa nossa sociedade acostumou você a estar no centro de tudo, a ser a medida das coisas, a ter mulheres em busca de sua aprovação. É duro ter suas certezas abaladas e se confrontar com a realidade, mas vamos lá. Preparado? O mundo não gira ao redor do seu pau.

Muitos homens parecem não ter superado aquela fase em que a criança bate o pé pra mãe dar o video-game que ele tanto quer – daí já grandes e desmamados continuam a fazer isso na internet. Vão lá puxar a barra da saia das feministas e choramingar: e eu? E eu? E euuuu? Ou então não superaram a quarta-série e aquela pilha de ser o melhor da turma, já que fazem questão de aparecer de trás da moita gritando “mas nem todos os homens são assim! Eu sou diferente!” Quer uma estrelinha dourada na testa, meu filho? Senta ali no cantinho, senta.

Minha santa periquita, EU SEI que há homens firmeza, apesar dos pesares. Mas estes homens também vão entender que em qualquer crítica que aponte o machismo, estamos falando de uma sociedade, de uma cultura, de algo ESTRUTURAL. E uma estrutura homem-centrada, diga-se de passagem. Então o cara que aparece pra dizer “mas EU não sou assim” está fazendo o quê? Isso mesmo, fazendo com que ELE seja o centro do assunto.

Mas dá até gosto de ver o piti desses caras. Alguma coisa estamos fazendo certo, já que o feminismo é MESMO pra incomodar, especialmente esses filhotinhos-de-machismo. Eles queriam o quê? Um feminismo pra passar a mão na cabeça deles, lavar a louça suja deles e ainda ajuda-los a pegar mulher? Vão peidar na água e fazer bolhas, vão.

O mais engraçado é que esses caras não devem nem fazer ideia da vergonha que estão passando. Ô seu moço, tá todo mundo vendo essa sua insegurança transbordando em forma de críticas às feministas. Tá feio, cara.

Deve ser maneiro ficar aí na Terra do Nunca esperando que os adultos façam as suas vontades porque você é o hominho da casa. Mas vamos crescer, queridinho? Entender que nós mulheres podemos falar do que bem entendermos, inclusive de assuntos dos quais vocês não têm nada a ver?Que caguei mole para o que você gosta ou deixa de gostar ou sobre o quê e como você acha que eu deveria escrever? Que não temos que te agradar? Que você, como homem, tem mais privilégios para pensar do que sofrimentos para reclamar?

Ou vocês podem ficar aí choramingando até definhar, junto com esse senhor patriarcado que vamos derrubar até o último tijolo.

***

O site Lugar de Mulher (que inclusive recebeu reclamações de omis perguntando “cadê os textos para os homens?”, ai ai) está com uma campanha ótema: Diga Não ao Homenzinho de Merda. Babacas e machistas que se cuidem, o mundo logo logo vai deixar de ser um lugar amigável e seguro pra eles.

Eu escrevi este texto, mas podia simplesmente resumir tudo isso a este vídeo:

But I’m A Nice Guy from Scott Benson on Vimeo.

 

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