AlineValek

A história apócrifa do e-book

18 de April 2014 por Valek

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No início havia o verbo; e logo apareceu quem o conjugasse para escrever histórias. Metidos no meio do deserto, onde escrever era menos cansativo do que ficar debaixo de um sol desgraçado de 50ºC cuidando de rebanho, fizeram proliferar seus contos e fábulas para entreter a população. Entre poesias, contos eróticos, fofocas e sagas épicas, escreveram 46 livros. Um dos autores então pensou: “isso dá uma antologia!”

Logo os outros autores e autoras se empolgaram com a ideia. Sempre quiseram ser escritores profissionais e sair do submundo de fanfics e da blogosfera hebraica. Aquela parecia ser uma excelente oportunidade. Juntaram seus livros e mandaram o manuscrito para uma editora na cidade grande. A editora, no entanto, estava mais interessada no mercado literário egípcio e publicava apenas histórias escritas para o público que lesse hieróglifos. O editor mandou uma carta de recusa ao material, argumentando que a coletânea não tinha potencial, que a mitologia era fraca, que as histórias não eram muito coesas entre si e que “Conjunto de Livros” não era um nome com apelo comercial.

Chateadíssimos com a recusa, mas jamais dispostos a desistir, os autores e autoras logo chegaram à conclusão: editora pra quê?

“Lancemos independente”, disse um. Mas como arcar com o papel, com a impressão, com a distribuição? “Lancemos em e-book”, respondeu outro, lembrando do melhor amigo dos autores independentes. A resposta soou agradável especialmente porque poderiam, desta forma, tornar seu trabalho mais acessível. A antologia, que logo passou a ser chamada de “Bíblia” (tiveram que admitir que o editor tinha razão quanto ao título) poderia ser lida por todo o povo: pelos assírios em seus celulares; pelos hebreus em suas tablets; pelos caldeus em seus kobos; pelos cananeus em seus kindles; e por todo filho de Deus sob o sol em seus computadores.

Além disso, o e-book já fazia parte da tradição de seu povo há anos. Hoje dizem que Deus entregou suas leis a Moisés em tábuas contendo os 10 mandamentos; mas é claro que não passou de um erro de tradução cometido séculos mais tarde. Não foi numa “tábua”, e sim numa “tablet”. Afinal, Deus é digital (já que está nas nuvens) e fazia muito mais sentido transmitir os mandamentos em pdf. Ou você acha mesmo que um idoso ia conseguir carregar um monte de tábuas montanha abaixo? Uma tablet é muito mais leve.

Pelo volume da obra que aquele grupo de autores independentes ajuntou, também fazia muito mais sentido publicar em e-book. A quantidade absurda de páginas contidas nos 46 livros juntos nem eram sentidos quando seus leitores abriam a Bíblia em seus dispositivos de leitura. Se fosse impressa, teriam que dividir o texto em colunas e imprimir com letras bem pequeninas, num papel fininho de dar dó, fazendo da leitura um verdadeiro sacrifício (dsclp Abrãao). Mas no e-book os leitores podiam aumentar o tamanho da letra e o espaçamento entre as linhas para ler da forma mais confortável possível.

Encontrar os livros naquela imensidão de conteúdo também era mais fácil. Bastava ir ao índice e, em um clique, selecionar o livro e o capítulo que gostaria de ler. Não tinha nada que ficar dedilhando a lateral das páginas para achar as marcações de cada livro. A um toque de distância também estava o acesso ao dicionário e às notas dos autores, para facilitar o entendimento das histórias ali contadas.

Muito tempo depois desse lançamento bem-sucedido, e antes das polêmicas sobre biografias não-autorizadas, quatro escritores resolveram lançar, cada um, uma biografia de um figurão da época. Como os quatro eram bróders, inclusive tendo conhecido pessoalmente o biografado, resolveram publicar juntos as suas versões de “Vida e Obra do Barbudo Mais Polêmico de Nazaré” – que depois rebatizaram de “Evangelho”.

Como a esta altura a Bíblia anteriormente lançada já tinha entrado em domínio público, reeditaram a coletânea de forma que os 4 volumes biográficos fizessem parte dela, como uma versão estendida. Entenderam que aqueles livros serviriam de “prequel” para a obra que queriam lançar. Outros autores sugeriram um material complementar, incluindo uma distopia apocalíptica que iria super atrair o público adolescente, e assim fizeram o lançamento, também em e-book.

Com esta versão vitaminada do e-book que já tinha sido um sucesso de público na Terra Santa, os evangelistas pretendiam expandir o alcance de sua obra. Tanto é que começou a viralizar lá em Roma, povo muito mais chegado num reality show de gladiadores do que em livros. Mas a nova Bíblia agradou a elite romana e foi um sucesso de vendas. Por essa razão, editoras começaram a crescer o olho para cima desse livro e fizeram várias propostas para os detentores dos direitos autorais. Conseguiram comprar os direitos, reeditaram toda a obra e lançaram impresso, na versão que foi sendo reeditada e retraduzida até a versão que conhecemos hoje.

Nessa compra de direitos, a versão em e-book lançada de forma independente se perdeu. Alguns dizem que nunca existiu, ignorando o evidente e inquestionável início de carreira independente dos autores dos 46 livros originais. Muito embora os nomes dos autores bíblicos tenham sido apagados da história, sendo a autoria da maioria dos livros considerada anônima e a autoria de outros sendo questionada, o e-book permaneceu firme e forte levando a palavra (de todo tipo de literatura) aos leitores de boa vontade.

Mas a origem do e-book é ainda anterior aos primeiros escritos bíblicos e, depois disso, ainda serviu a muitos outros propósitos importantes na história da humanidade. Pena que isso vai ter que ficar pra próxima.

***

Esta é uma obra de ficção. “A história apócrifa do e-book” não tem nenhum compromisso com fatos reais, assim como a Bíblia.

Não sabe o que é um e-book? Conhece, mas só de vista? Tem dúvidas? Nojinho? Curiosidade? Leia este texto: “Muito prazer, eu sou o e-book”.

Se gostou de imaginar uma história diferente para a Bíblia, dá uma lidinha neste outro conto que escrevi: “A reinvenção da Bíblia”.

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Dentucismo

09 de April 2014 por Valek

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É triste ver como vivemos num mundo normatizador. Tem que andar na linha, ter a cor certa, o peso ideal, o corpo em forma. Se tá errado, conserta. Corta a barriga, estica a cara, desenha um rosto novo, tapa todos os poros, clareia esse suvaco, faz uma lipo. Tem pelo? Tira. Tá faltando cabelo? Coloca mais. Liso, de preferência.

aprendemos isso na escola. Torturamos nosso traço para se adequar às linhas do caderno de caligrafia, para fazer uma letra redondinha conforme o exemplo, perfeita, inalcançável para nossas mãozinhas pequenas e cheias de vontade de criar, extrapolar, se soltar. A lição mais importante: se adequar.

O que desvia do padrão não raras vezes é rotulado como doença. Defeito. Não deve fazer bem.

Os dentes? Não escapam. Os cuidados com eles vão muito além da limpeza, do zelo para que nossos mastigadores durem o máximo possível: a simetria e o alinhamento são importantes. Ninguém quer ter um sorriso dentuço quando nos dizem que belo é o sorriso da moça da revista e do galã da TV. Brancos, alinhados, do tamanho certo. Aos que desviam do padrão, há conserto. A solução proposta é prender os coitados num aparato de metal e apertar como se fosse a inquisição tentando obter dos dentes uma confissão de bruxaria. Até que fiquem perfeitos.

Há quem prefira assim, assim como há quem prefira o cabelo vermelho ou a pele rabiscada ou o peito maior e é capaz de submeter o corpo a essas interferências para ficar a seu gosto. Se é neste corpo que nossa existência está confinada, então que ele seja nosso para fazermos dele o que acharmos melhor. Uma tela em branco para pintarmos com as cores da nossa identidade.

Mas e aí se a minha identidade é ser dentuça? E aí se resolvi que meus dentões, além de inofensivos pra minha saúde, dizem também quem eu sou? E aí se eu me recusar a consertar os meus dentes separados, ou pequenos, ou tortinhos, ou avantajados ou pra frente, por deixar de vê-los como um defeito?

Pois bem, chega dessa odontonormatividade.

Por mais que muitas pessoas precisem ajeitar o interior da boca  para falar, respirar e mastigar bem (coisas tão importantes na vida), dentes fora do padrão não necessariamente vão afetar a saúde e essa é a questão: pressuporem imediatamente que dentucismo é um defeito, um problema de saúde. Mas quando os dentes “errados” não interferem no bom funcionamento da pessoa, essa nossa sociedade normativa acaba tornando isso um problema para a autoestima dela. E aceitação também é uma questão de saúde e bem-estar.

Cansei de ver em todos os lugares só sorrisos perfeitos. Todos iguais. Aliás, perfeito pra quem? Quem definiu o que é certo? Dentões não podem ser perfeitos justamente por sua espontaneidade, por sua brancura escancarada, por ser uma surpresa por trás dos lábios de alguém?

Dentuça, cresci com a ideia de que precisava ser consertada, de que precisava pôr um aparelho. Por rirem de mim, passei a ter vergonha de rir. A só tirar fotos séria e a odiar a cara esquisita e desconfortável que ficava registrada depois. Fugia das câmeras, odiava quando me mandavam sorrir. Meus dentões foram moldando não só o formato do meu rosto, mas a minha timidez, minha personalidade. Acabou a adolescência e nunca cheguei a ter condições de colocar um aparelho, não sei se felizmente ou infelizmente. Tivesse eu colocado, teria hoje um rosto diferente e seria uma pessoa diferente. Talvez com mais selfies. Credo.

Mas em um momento da minha vida adulta decidi que não colocaria aparelho. Que aqueles dentes só me incomodavam porque eu via em todos os lugares que eles eram inadequados – mas não precisavam ser. Que eles talvez fossem uma parte da minha personalidade que eu precisava abraçar (assim como a minha voz que sempre achei irritante, mas olha eu hoje gravando podcast, para o terror da sociedade). Afinal, só eu os tinha. São distintos, peculiares, expressivos – e, diferente da dona, nada tímidos.

Isso não significa que eu tenha, instantaneamente, ficado bem resolvida com meu dentucismo assumido. Ainda me incomodo ou me embaraço se eles escapam numa fotografia; acho eles muito exibidos! Mas a normatividade me incomoda mil vezes mais que ter dentes de esquilo. Porque a normatização, amigos, acaba levando à estigmatização daqueles que fogem ao padrão.

Por isso quero ver mais sorrisos irregulares e dentuços nos heróis e heroínas dos filmes; não apontados como um defeito, mas celebrados como qualquer outra característica que só a fantástica diversidade dos nossos corpos apresentam. Quero ver mais Mônicas, mais Titis, mais Chicos Bentos; e ainda que nós dentuços não sejamos representados só como aquele personagem que vai ser esculhambado justamente pelos dentões.

Não quero, por ser dentuça, ter que me esconder à luz do dia e carregar os dentões como uma espécie de maldição, assim como meus colegas vampiros, que vivem na ficção e nos filmes de terror, também discriminados por serem um desvio da norma!

Não é porque não nos adequamos aos padrões nos quais querem nos aprisionar – sejam eles quais forem – que irão nos impedir de sorrir. De sorrir bem grande.

“Sempre me acharam muito parecido com minha mãe. Só o nariz diferíamos. A semelhança estava sobretudo nos olhos e na boca. Sai míope como ela, dentuço como ela. Há dentuços simpáticos e dentuços antipáticos. Muito tenho meditado sobre esse problema da antipatia de certos dentuços. Creio ter aprendido com minha mãe que o dentuço deve ser rasgado para se tornar antipático. O dentuço que não ri para que não se perceba que ele é dentuço, está perdido. Aliás, de um modo geral, a boca amável é a boca em que se vê claro. Era o caso de minha mãe: tinha o coração, já não digo na boca mas nos dentes, e estes eram fortes e brancos, alegres, sem recalque: anunciavam-na.” 

Manuel Bandeira, escritor e dentuço.

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Foto: Marcos Felipe

PS: Quando eu estava procurando referências para fazer a ilustração desse texto, eu simplesmente não consegui achar imagens de dentuços sendo representados de forma positiva, o que por si só já é emblemático. Aí me mostraram essas ilustras. Fiquei apaixonada.

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Um bocado de perguntas inconvenientes

01 de April 2014 por Valek

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“Podemos julgar nosso progresso pela coragem dos nossos questionamentos e pela profundidade de nossas respostas, nossa vontade de abraçar o que é verdadeiro ao invés daquilo que nos faz sentir bem.”

- Carl Sagan

Aprendi que fazer perguntas é mais importante do que ter as respostas prontas. Enquanto para alguns o embaraço de uma pergunta sem resposta é insuportável, a ponto de criarem religiões que deem uma resposta, e consequentemente, um pouco de paz, para outros o inquietante é não poder fazer perguntas.

Claro que questionar o mundo, a nossa sociedade e a nós mesmos não é tarefa fácil. A angústia de lidar com os questionamentos que surgem nas nossas cabeças diante das dificuldades da vida, ou até mesmo de coisas simples, que de tão naturalizadas parecem não exigir – e em alguns casos até impedir – que sejam explicadas, é uma chama que não se apaga. É constantemente alimentada pela curiosidade, pelo fascínio com o mundo, pela vontade de mudar as coisas, pela necessidade de viver em um lugar melhor, sendo alguém melhor.

Essa angústia é o que me move. Se chego a uma ideia que me deixa em um estado confortável comigo mesma e com as coisas ao meu redor, passo a desconfiar. Mas essa sou eu.

E acho que não é por acaso que nos ensinam, desde sempre, que desconfiar, descrer e questionar são coisas ruins. As instituições dominantes da nossa sociedade se favorecem disso, pois assim conseguem prolongar sua existência e expandir sua dominação através dos tempos. Tentam sufocar qualquer questionamento que exponha a estranheza de seus princípios, ou apontar para o fato de que elas não são sólidas e imutáveis e necessárias para a nossa espécie como querem que acreditemos.

Mas ousamos perguntar. Cutucamos certezas, balançamos estruturas que foram historicamente blindadas contra críticas. Eu mesma já escrevi textos questionando instituições ditas sagradas e intocáveis, como a família, o casamento, o amor romântico, a escola, a masculinidade, o patriarcado, a igreja. E quase sempre as reações, tão parecidas, nos fazem pensar em outra pergunta, fundamental para entender as forças que buscam manter as coisas do jeitinho que elas estão: é tão frágil essa instituição e as coisas que ela defende que simples perguntas são capazes de derrubá-la?

Teriam dogmas um coração, veias e ossos que precisariam, frágeis, de uma proteção tão fervorosa daqueles que neles acreditam contra aqueles que têm a ousadia de questioná-los?

Ainda guardo as palavras do professor Idelber Avelar sobre a necessidade de fazer questionamentos mesmo a sistemas, organizações e instituições que se denominam sagradas: “Ideias não foram feitas para serem ‘respeitadas’. Ideias foram feitas para serem debatidas, copiadas, circuladas, disseminadas, combatidas e defendidas, parodiadas e criticadas. De preferência com argumentos. Seres humanos merecem respeito”. Mesmo com total consciência dessa necessária e lógica separação, quando entramos no campo dos questionamentos a organizações religiosas e suas ideias, especialmente a cristã, os questionadores são acusados de preconceituosos, de intolerantes; porque muitas pessoas são incapazes de descolar as críticas feitas à religião que seguem, como instituição e força política, de seu direito à crença pessoal.

Chega a ser desonesto querer calar as críticas à religião com o argumento de que questionar uma instituição milenar dominante – e opressora não poucas vezes durante a história da humanidade – é um ataque pessoal. Eu nem te conheço. Eu não me importo com o que você acredita ou pensa, ou ainda como se comporta na sua vida pessoal, independente dos dogmas que sua religião defenda. Quando falo da religião, sobretudo o cristianismo, não falo das crenças ou rituais que você adote para a sua vida, mas de uma organização poderosa que historicamente massacrou quem quer que discordasse dela, que endossou a escravidão, que perseguiu praticantes de outras religiões, que ainda hoje restringe o direito das mulheres, que se posiciona contra o direito de cidadãos de se casarem civilmente independente de sua orientação sexual, que quer impedir o avanço da ciência em pesquisas que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas com diversidade funcional, que é absurdamente irresponsável ao ensinar seus fiéis a não usarem métodos contraceptivos, preservativos ou, no caso de líderes evangélicos, de incentivarem meninas a não tomarem vacinas que as protegeriam do HPV.

É então que surge outra pergunta: essa igreja pode fazer tudo isso impunemente e se alguém ousa questionar (ou até mesmo escrever igreja com “i” minúsculo, o horror) acaba se tornando o verdadeiro algoz?

Tomo emprestado outro trecho desse texto do Idelber Avelar:

“Apesar do caráter laico da República Federativa do Brasil, garantido na nossa constituição, as religiões ainda gozam desses estranhos privilégios: não pagam impostos, por exemplo. A pior parte é que elas podem dar palpite em absolutamente tudo – desde o currículo escolar até o útero alheio – mas, no momento em que são questionadas, o debate é silenciado com aquele mais cretino dos argumentos, ‘ah, tem que respeitar minha religião’.”

Recentemente, um programa de TV que se propõe a mostrar as coisas mais fascinantes sobre o Universo descobertas pela ciência foi criticado por criacionistas que dizem que o programa não deveria afirmar que o Universo tem bilhões de anos, e que deveria apresentar as teorias criacionistas com o mesmo tempo e igual importância. Por que um programa científico deveria mostrar uma teoria completamente baseada em um dogma religioso, como se tivesse alguma validade? Por que acham que a religião deve ter esse privilégio? Por acaso alguém os estaria obrigando a ensinar a teoria da evolução dentro de suas igrejas, para eles acharem que têm o direito de fazer um pedido tão absurdo?

É esse tipo de recusa a ceder aos privilégios que a religião dominante sempre teve que são encarados, por alguns devotos seguidores, como ofensa pessoal. Além disso, quão autocentrado é imaginar que tudo é sobre você? Alex Castro escreveu:

“se você está feliz com seus deuses e com as suas escolhas, então, eu fico sinceramente feliz por você. e te pergunto: por que veio se enfiar logo aqui, em plena conversa de uma pessoa insatisfeita com outras pessoas insatisfeitas? o assunto não é você. não é de você que estamos falando. não queremos te convencer de nada. fica em paz. e, se as suas escolhas algum dia começarem a te oprimir, você sabe onde estamos. sinta-se sempre livre para juntar-se a nós.”

Interferir nos ritos pessoais de alguém, ou perseguir, ameaçar e discriminar pessoas religiosas (que é o que acontece hoje, por exemplo, com quem segue religiões de matriz africana, que não têm seu culto tão respeitado quanto o das pessoas cristãs) é BEM diferente de colocar dogmas na mesa e questioná-los, sobretudo se são, de alguma forma, prejudiciais à sociedade.

Se a religião não tentasse se meter em áreas que não são de seu domínio – a ciência, a política, as leis, as vidas das pessoas indiferentes a ela – eu não teria nenhum problema com ela. Mas enquanto ela for um problema, eu vou questioná-la e fazer perguntas inconvenientes, como essa: quem vai me calar?

***

Na imagem que ilustra este post, o astrônomo Neil DeGrasse Tyson, apresentador do remake da série Cosmos de 2014, originalmente apresentada pelo cientista Carl Sagan, nos anos 80. Recomendo fortemente tudo que venha dos dois.

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Sobre pequenas bolhas e exageros

27 de March 2014 por Valek

bolhas

Imagine quatro paredes à sua volta. Não as da sua casa ou as do seu trabalho, mas as de um lugar ainda menor. Pode colocar nesse espaço alguns móveis e objetos que lhe são familiares, só para não ficar vazio. Mas tenha em mente que esse diminuto espaço é tudo o que você tem, é o limite da sua vista, é a sua própria existência. Esqueça por um instante que você pode sair desse pequeno espaço quando você quiser, afinal, não quero que depois me acuse de tentar manter você em cárcere privado. Mas tente ficar ali dentro pelo tempo que você puder.

Você deve imaginar que nesse espaço limitado não há muito o que fazer. Que assim que você passar um dia, uma semana, talvez um mês ou dois, olhando para essas mesmas quatro paredes e começando a se acostumar com o ambiente, talvez aquela mesa que antes você achava insuficiente para receber os amigos para um jantar agora lhe pareça enorme. Não é como se ela tivesse crescido de repente, mas ela toma boa parte do espaço onde você vive, logo, é grande demais. Você também está maior, não porque tenha acordado gigante de um dia para o outro.

Tamanho é só uma questão de referencial. Você também se sentiria encolhendo se fosse jogado numa sala maior do que qualquer uma em que já tenha pisado na sua vida. Fica fácil sentir-se grande quando se está cercado de coisas pequenas, não é? Tente se lembrar dessa sensação depois, mas agora quero que venha comigo. Sim, pode sair desse espacinho onde ficou em confinamento. Quero te apresentar a algumas pessoas.

Primeiro a Sílvia. Ela conseguiu o que a maioria das pessoas na civilização moderna capitalista deseja: trabalhar com o que ama. No seu caso, é falar sobre roupas, tendências, os “must-have” de quem tem bom gosto. O que ela mais gosta disso é o pouco esforço que isso exige, já que basta falar da sua própria vida, dos seus próprios gostos, das suas viagens inesquecíveis para o exterior, da decoração que está aprontando para seu apartamento novo.

Sílvia ama as hipérboles e superlativos tanto quanto os brindes que recebe das marcas com as quais faz suas “parcerias”. Não é o suficiente dizer que uma bolsa é bonita. Ela precisa dizer que é maravilhoooosa como quem diz que é algo que dará sentido à sua existência. Não basta mostrar o quanto um look é fashion, ela vai dizer que é tudo, que é capaz de mudar a sua vida. E ela vai rir loucamente enquanto tempera as suas dicas com muito exagero, porque ela precisa jogar o astral lá pra cima! Uma exclamação só? É pouco!!!!

Tente entender que ela é uma mulher intensa. Ou pelo menos é com intensidade que ela enxerga as únicas coisas que consegue ver sob os seus holofotes: sua própria vida e as coisas que ela consome. Deve ser difícil enxergar outras coisas com as luzes viradas pra lá. Vamos aproveitar enquanto ela tira mais fotos na frente do espelho para visitar outro personagem.

Quero que você conheça o Wilson. Um homem de grandes ideias, ou pelo menos é o que ele diz no seu currículo profissional. Passa em média 14 horas por dia no trabalho, cultivando suas ideias geniais para vender sabão em pó, bebidas alcóolicas e lâminas de barbear. Sua estante de prêmios, concedidos por outras pessoas exatamente iguais a ele, atestam que ele é mesmo um grande criativo, ainda que fora de seu mundo ninguém saiba sequer seu nome.

Talvez ele tenha dificuldade para perceber que é obcecado pelo seu trabalho, porque, para ele, seu trabalho é praticamente a totalidade de sua existência. Por isso ele não se importa em virar mais uma noite no escritório em busca da próxima grande ideia. E ele o fará com tal importância que é quase como se pessoas fossem morrer se ele não encontrasse a solução para aquela campanha de biscoitos de aveia. Sim, ele teve uma boa ideia que sabe que vai atingir o objetivo de comunicação do cliente. Mas não é o suficiente. Ele quer algo que mude a vida das pessoas, que decida o rumo da humanidade, que renda prêmios, mais prêmios. Ele faz a equipe ficar acordada, a base de pizza na madrugada, até que ele a alcance.

No final do dia, que pode ser perto da hora do almoço, já que seu relógio não pode ser comparado com o das pessoas normais, ele voltará para casa em seu enorme jipe, por ruas abarrotadas de carros que ele mesmo ajudou a vender e vai estacionar em uma vaga que quase não o cabe.

Agora conheça Matilde. É, ela parece desanimada. Acabou de levar um “não”, o que foi a cereja do bolo de bosta que ela acredita ter se tornado sua vida. Ela sente que o fracasso tem a perseguido com muito mais frequência do que o restante da humanidade. Afinal, já é a terceira carreira na qual embarca e ainda não conseguiu decolar.

Ela enviou o manuscrito de seu livro sobre viagens para uma editora, que após algumas semanas, enviou de volta sua carta de recusa. Foi o suficiente para a vida de Matilde desabar. Não que ela tivesse tentado em outras editoras, mas, ela se perguntava, por que as coisas não podiam ser mais simples? Talvez pelo fato de não ter que se preocupar com o aluguel, já que o apartamento onde morava era seu, ou com segurança profissional, pois frequentemente recebia convites para voltar a dar aulas, aquele “não” tornou-se um problema gigante.

É claro que o “não” só está pesando sobre seus ombros e fazendo-a ficar tão pra baixo porque Matilde acredita que ele significa uma recusa a ela como um todo; um atestado de seu fracasso que ela teria que esconder daqueles que faziam com que ela se sentisse tão pressionada para alcançar logo o sucesso & plenitude, embora ninguém de fato estivesse preocupado com sua carreira ou com os pequenos contratempos que ela tivesse no caminho. Mas ela não conseguia ver isso. Viu apenas que seu cachorro pegou pulgas. NADA dá certo pra mim, ela pensa, inconformada.

Por último, conheça Aleixo. Ele não é nenhuma celebridade e sua vida também está longe de ser perfeita, mas ele gosta bastante do discurso das “recaldadas”. Vez ou outra ele reclama dos invejosos que estariam desejando o seu fracasso simplesmente por ele ter tudo que essas pessoas, na verdade, mais gostariam de ter. O seu abdômen dividido, o seu cargo, o seu carro, as suas relações com pessoas incríveis, o seu status social.

Não é como se ele não sentisse inveja de ninguém, o que ele convenientemente gosta de esquecer quando reclama do famigerado recalque. Achou uó quando aquele seu colega de faculdade que achava um retardado conseguiu ser promovido para o cargo que ele sempre sonhou em ter. Sente até hoje uma certa raivinha daquela conhecida que consegue o mesmo reconhecimento entre as pessoas sem fazer tanto esforço quanto ele. E como inveja o cabelo do Sérgio, céus!

Ainda assim, seu discurso contra os invejosos é inabalável. Quem ouve até pensa que há uma legião de recalcados no pé de Aleixo. Mas não é a quantidade de invejosos que ele atrai que é o caso aqui; mas sim da importância exagerada que Aleixo dá a si mesmo e à sua vida, acreditando que ela é interessante e bem-sucedida o suficiente para que outras pessoas cheguem a desejar o seu fracasso. O que Aleixo não sabe é que ninguém liga.

Não parece, mas Aleixo, Matilde, Wilson e Sílvia têm muito em comum. Você deve ter percebido o quão autocentrados são esses personagens que você acabou de conhecer. Isso, sem dúvidas – e parabéns pelo seu poder de observação afiado. Mas os quatro têm em comum uma percepção distorcida do tamanho e da importância que cada um tem em seu próprio mundo. E é justamente esse mundo que eu queria te mostrar.

Você certamente se lembra do espaço apertado do início da nossa conversa. De como as coisas parecem maiores se colocadas perto de coisas pequenas. Do quão grande você vai se sentir se estiver em um lugar pequeno.

Nossos novos amigos vivem em um lugar parecido, e é por isso que dão a si mesmos e a coisas banais uma importância tão grande. Dentro da bolha apertada do mundo que escolheram para viver, eles são gigantes.

No grande esquema das coisas, eles – e nós – não são centrais tampouco essenciais, embora, dentro da bolha, eles ocupem boa parte do espaço. Em um espaço tão pequeno, qualquer problema vai parecer o maior do mundo, qualquer trabalho vai parecer o mais importante, qualquer um vai se sentir o centro do universo.

Mas talvez seja a nossa vontade de nos sentirmos mais importantes ou maiores que nos faça querer viver nessas bolhas ou nos acomodar naquelas que já nos cercam. E quais são essas bolhas que habitamos? Esse espaço tão pequeno que nos faz perder a medida das coisas, a medida de nós mesmos? A nossa cidade? O mercado? Nosso círculo de amigos? A internet?

E, se tamanho é uma questão de referencial, a gente só vai ter noção da nossa verdadeira medida se saírmos das nossas bolhas umbilicais e encararmos uma perspectiva mais realista.

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Isso é para que não esqueçamos que, no plano geral, todas as pequenas merdas cotidianas que nos afligem, inclusive nós mesmos, não são, afinal grande coisa. Sem exagero.

Imagem daqui.
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Descobri que meu gato é deus

18 de March 2014 por Valek

gatodeus

A ideia caiu na minha cabeça tão repentinamente quanto foi feita a luz no princípio de tudo, como dizem por aí.

Primeiro, eu não levei muito a sério. Depois, comecei a observar com mais atenção. Então fiquei chocada com a conclusão que pude tirar das inúmeras evidências que se apresentaram: meu gato é mesmo deus.

Ele é onipresente. Onde quer que eu vá, lá estará sua presença na forma de pelos grudados na minha roupa. Ou dentro do meu sapato. Ou no céu da minha boca.

Quando eu o chamo, ele não responde. É indiferente às minhas súplicas.

Ele sabe que não é o único, mas não aceita que os outros possam ser tão venerados quanto ele.

Exige ser adorado. Acredita que deve ser amado acima de todas as coisas. Mais do que o sofá, em cujas quinas, agora arruinadas, ele afia suas santas garras; mais do que a gaveta de roupas, que ele decidiu que a ele pertence para dormir; mais do que a mim mesma, que sou apenas um instrumento de sua vontade.

Fica feliz somente quando faço sua vontade. E, quando faz exigências, espera ser atendido imediatamente. “Abra a janela!” ou “Ponha mais comida!” ou “Limpe minha bosta!” ou ainda “Vá sentar na sala porque quero deitar lá olhando para você, humana!”. Caso contrário, ameaça e faz birra – como virar a caixa de areia ou arranhar a lateral da cama.

A primeira e a última coisa que faço no dia é dedicar a ele a minha humilde oferta em sinal de devoção. A ele agrada que essa oferta seja em forma de ração. Da marca que ele prefere.

Quando alguém vem aqui em casa e quero mostrá-lo aos convidados, ele simplesmente some, fazendo com que eu passe vergonha e que pensem que ele é apenas fruto da minha imaginação.

Quando estou mal, sua presença me conforta. Mas ele também não faz nada para resolver minhas merdas.

Ele faz questão que eu saiba que ele está no quarto quando estou transando. Vendo tudo.

Quando coisas estranhas acontecem em casa ou ouço barulhos estranhos que não sei explicar, digo que é ele agindo. Como na vez em que o papel higiênico apareceu, misteriosamente, todo picotado no chão do banheiro.

Ele tudo pode. Deitar em cima do meu teclado enquanto escrevo. Passear em cima da geladeira. Dormir no meu quarto à noite. Em cima do meu travesseiro. Empurrando minha cabeça para fora da cama.

Somente a ele cabe eleger seu humano favorito.

Ele gosta de brincar com a vida dos insetos. Ele gosta de ficar observando-os, tão menores e tão frágeis, em suas vidinhas insignificantes e efêmeras. Ele gosta de perturbá-los, jogando-os de um lado para o outro. Fazendo com que fujam aterrorizados. Mastigando-os e os devolvendo vivos sem uma perna ou uma asa para ver como se saem com esta provação. Eventualmente os mata, quando fica muito entediado.

É, meu gato é deus. Tudo indica que seja.

E eu, ao apertar sua barriguinha e pegá-lo no colo como um bebê, muito provavelmente seja uma herege.

Meu deus.

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Para usar em situações de emergência

12 de March 2014 por Valek

beyonce

Acontece. Você vai falar besteira. Algo que você fizer ou disser vai te colocar em uma situação da qual não vai conseguir sair a não ser que você faça uma sessão de hipnose coletiva e apague a memória de todos. Mas vamos encarar a verdade e assumir que você não vai conseguir causar amnésia em ninguém, nem desaparecer por trás de uma cortina de fumaça ninja.

Nesse momento – e eu espero que aconteça, porque significa que você vive entre pessoas com a mentalidade minimamente saudável – alguém vai te dar um toque sobre a grande merda ofensiva que você acabou de falar. E talvez essa pessoa esteja um pouco brava quando for apontar o absurdo da sua atitude ou da sua fala. Talvez esteja muito. Talvez você a tenha ofendido pra valer.

O que você faz? Senta em posição caramujo e chora? É uma possibilidade e uma escolha totalmente legítima em um momento para o qual ninguém te preparou e que vai te deixar em um estado um tanto desnorteado. Mas calma, errar não é o fim do mundo. Aliás, encare essa como uma oportunidade dourada – e grátis – de se tornar um ser humano melhor.

A primeira coisa a se fazer é meditar e tentar entender onde foi que você escorregou. É a parte mais difícil, mas sei que você consegue.

Mas, aconteça o que acontecer, resista ao impulso de justificar a sua merda, tentando torná-la aceitável de alguma forma. Um cocô de peruca continua sendo uma bela bosta. Acredite: a probabilidade de você entrar numa encrenca ainda maior ao tentar se justificar é bem próxima de 100%; então não arrisque, a não ser que esteja se empenhando em uma carreira de babaca bem-sucedida. Dizem que paga bem.

O melhor a se fazer é simples: pedir desculpas e reconhecer o seu erro sem “mas”.

Então suponhamos que você seja uma empresa que fez uma propaganda racista – o que é apenas uma louca suposição, já que hoje no Brasil isso seria impensável, mas viaje na ficção comigo, certo? – então você teria que se posicionar para o público a respeito do seu erro. O roteiro abaixo é uma forma de encarar a situação como faria um ser vivo com o mínimo de consciência, e pode ser adaptado de acordo com o desastre no qual você se meteu.

O roteiro é só um exemplo (e faz parte de um cenário ideal totalmente imaginado, em que a pessoa realmente refletiu sobre seu erro), podendo haver outras formas de conter a tragédia, mas não é difícil imaginar que o oposto disso é o que você NÃO deve fazer.

Claro que o objetivo não é “se sair bem”, como se a vida fosse uma espécie de concurso de miss simpatia. Lidar com seus erros é algo que vai muito além de salvar o próprio rabo; é o mínimo que o mundo espera de você depois da cagada monumental que você esculpiu. Então não espere nenhuma medalha, confetes ou aplausos – a consciência de estar aprendendo e evoluindo como pessoa deveria ser recompensadora o suficiente.

***

Desculpe. Antes de qualquer coisa, é nossa obrigação pedir desculpas pelo nosso comercial. Apenas a possibilidade de nossa campanha ter sugerido algo racista é séria o suficiente para que apresentemos à sociedade e ao público consumidor os nossos sinceros pedidos de desculpas.

A rejeição com a qual algumas pessoas reagiram ao comercial nos apontou para um detalhe que até então não tínhamos percebido, já que o comercial vem sido veiculado desde 2013. Aqui cabe reconhecermos nossa falha de não termos entendido tão profundamente quanto o nosso público o sentido da propaganda dentro do contexto da nossa sociedade. Um erro que iremos nos esforçar para não repetir, em respeito às nossas consumidoras.

Ainda que nossa intenção fosse usar uma modelo com os braços pintados de preto por um mero apelo visual e artístico, não cabem aqui justificativas. Analisamos seriamente a mensagem da propaganda e chegamos à conclusão de que o contexto da escravidão, em que o trabalho braçal de homens e mulheres negras serviu de verdade como vetor da realização da vontade de seus senhores e senhoras brancas, não pode ser ignorado – e é por esse comercial evocar essa história tão lamentável do passado de nosso país, ainda que acidentalmente, é que devemos desculpas e o comprometimento de sermos mais cuidadosos daqui em diante.

Sabemos que o fato de nossa agência de propaganda contratar modelos negras, ou já ter feito comerciais com atletas ou cantores negros, não torna nossas propagandas totalmente imunes a mensagens que possam, eventualmente, ofender a população negra. O racismo é estrutural de nossa sociedade e por vezes é difícil notá-lo; mas sempre que for percebido é preciso combatê-lo, mesmo que em um comercial de roupas.

Retiramos o comercial do ar por sentir grande desconforto em permitir que seja veiculado um filme com a mínima conotação racista que seja, mas esperamos que o debate sobre o racismo continue em pauta, para que essa tomada de consciência que tivemos possa se estender para toda a sociedade.

***

Não é tão difícil, gente.

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8 de março, e lá vamos nós

07 de March 2014 por Valek

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Eu queria escrever sobre o Dia da Mulher? Não.

Primeiro, porque já escrevi uma vez e pra mim é o suficiente.

Depois, porque cansa falar a mesma coisa todo ano, de ter uma data específica para fazer um tipo de Revisão Telecurso 2000, um supletivo, e tentar resumir tudo o que todas as feministas falaram o ano inteiro até babar. Sem falar na pressão de não deixar essa data passar sem promover uma conscientização sobre os direitos da mulheres, como se fossem dar atenção ao que falamos só porque é 8 de março. Mas não, não vão.

E aí entra o terceiro motivo que me dá vontade de fugir deste planeta no Dia da Mulher: porque eu sei que vão despejar, em um dia só, um monte de besteiras, piadas e clichês fantasiadas de “homenagem”, justamente o tipo de coisa que a gente tenta mostrar o ano inteiro que é errado, que é machista, que é escroto. Aparentemente machismo no Dia da Mulher é a rabanada do Natal ou o ovo de chocolate da Páscoa: não pode faltar. E se for para responder e apontar cada mensagem ou atitude equivocada que acontece todo 8 de março, a gente não faz mais nada da vida.

E, por último, não queria escrever porque caíria na repetição. Sinto que o importante sobre esta data já foi escrito por gente mais competente do que eu para abordar essas questões. As coisas que eu teria para escrever seriam justamente aquelas que as feministas já estão peludas de falar 24 horas por dia, 7 dias por semana. Não teria nada a acrescentar.

Mas aí eu, que cago para coerência, resolvi quebrar a minha meta de não falar sobre o Dia da Mulher este ano.

Topei dar uma entrevista sobre as “homenagens” problemáticas da data, que pode ser lida aqui. Óbvio que eu já sabia que a jornalista colocaria apenas um trecho da minha fala, mas acho que as minhas respostas terem sido bravas (motivadas pelo cansaço que dá falar sobre esse mesmo assunto etc etc) contribuíram para que só uma fosse escolhida (risos). Então resolvi postar as minhas respostas na íntegra para já ficar bem claro o meu posicionamento sobre as merdas que a gente aguenta em um dia que supostamente seria sobre as lutas das mulheres mas que (surprise!) foi transformada em mais uma oportunidade para mudar de assunto e falar sobre o nosso encanto, beleza e bla bla bla.

Espero que não entendam isso como uma crítica à jornalista, pois eu curti de verdade a matéria. Acho que foi muito boa no que se propôs a discutir. E vocês devem imaginar o tipo de comentário que estão deixando lá, agredindo a jornalista simplesmente por falar o óbvio, né?

***

- Por que o Dia Internacional da Mulher foi criado? Qual era a sua intenção?

Dia da Mulher surgiu como uma data de protesto, liderada por operárias, o que é muito emblemático: em sua origem está o grito contra a dominação burguesa e masculina.

- Por que uma data como essa, de protesto, se transformou num dia tão banal, de presentear as mulheres?

O que é que o capitalismo não sequestra para transformar em uma data de consumo, não é mesmo?

- Você acha que, no 8 de março, a suposta gentileza de dar presentes para as mulheres é, na verdade, uma atitude machista?

Não necessariamente. Pode ser uma ingenuidade, ainda que, mesmo sem maldade, a pessoa esteja contribuindo para esvaziar o sentido da data. É importante retomar a importância desta data, de luta pelos direitos das mulheres, justamente para conscientizar as pessoas de que o Dia das Mulheres não existe para dar flores e presentes, nem para homenagear a “beleza” e a “feminilidade”. O machismo é muito maior do que os presentinhos do Dia da Mulher.

- Que atitudes você acha que são ofensivas às mulheres nesse dia? Existe alguma homenagem que seja aceitável?

As atitudes ofensivas às mulheres no Dia da Mulher são as mesmas ofensivas em todos os outros dias do ano. Só pra citar alguns exemplos: tentar estabelecer um ideal de mulher, ainda que elogiosamente, é violento porque exclui um universo de mulheres (as não-mães, as fora do padrão de beleza, as negras, as gordas, as mulheres trans*); colocar constantemente a mulher no papel de enfeite, como se só existíssemos com a função de ser bonita; invadir o espaço da mulher; ser condescendente e invalidar o que a gente diz, quase como se mulheres fossem crianças que não devessem ser levadas a sério; sem falar na violência, nos atos e discursos cotidianos que reforçam uma cultura que torna o estupro aceitável, no racismo, na discriminação no mercado de trabalho, na representação estereotipada na mídia, etc. Enfim, não é muito difícil imaginar o que seja ofensivo.

Agora, essa pergunta de que homenagem seria “aceitável” dá a impressão que quem questiona essas homenagens são ditadoras intolerantes e que quem faz as “inocentes” homenagens é quem está sendo oprimido por não se adequar. E não é assim. Não existe alguém reprovando e reprimindo violentamente as homenagens ofensivas do Dia da Mulher; pelo contrário, são essas homenagens que nos diminuem violenta e sistematicamente, não sozinhas, mas como parte de um todo – um todo machista, de dominação e ódio às mulheres.

- Bombons, rosas, mensagens… Tudo isso é condenável? Como deveria ser o jeito correto de celebrar o Dia Internacional da Mulher?

Acho engraçado como as pessoas parecem mais preocupadas em não serem “condenadas” com a homenagem errada do que darem atenção às questões que REALMENTE importam no Dia da Mulher. Como se fossem as feministas que tivessem criado um problema ao dizer que não queremos a rosa, mas sim acabar com um sistema que nos oprime, nos diminui, nos nega humanidade e nos mata. Tenho que dizer que o problema não é rejeitar essas homenagens, o problema é o que essas homenagens estão tentando ocultar. E discutir que tipo de presente pode ou não pode, qual é o jeito “certo” de homenagear as mulheres nesse dia é continuar fugindo das questões que realmente deveriam ser discutidas nessa data.

A nossa luta não é para definir como “celebrar” o Dia da Mulher. A nossa luta é por direitos básicos e fundamentais, como a autonomia ao nosso próprio corpo que as leis (feitas por homens) nos negam historicamente, nos lançando para o risco de aborto ilegais que matam mulheres, especialmente mulheres negras e pobres. A nossa luta é por direitos trabalhistas, é pela presença da mulher na política, é pelo espaço público que também nos é negado quando somos acuadas por assédio disfarçado de “cantada”. A nossa luta é pelas mulheres trans* massacradas diariamente por uma sociedade transfóbica que lhes nega humanidade. A nossa luta é para quebrar o padrão de beleza que nos aprisiona, os papéis de gênero que nos limitam, os discursos onipresentes que validam a violência sobre nossos corpos.

O debate que queremos colocar na mesa para nós é uma questão de vida e morte, não um debate que se restringe ao “jeito certo de celebrar o Dia da Mulher”.

- Você concorda que muitas coisas ainda devem mudar para que as mulheres possam, efetivamente, comemorar com um dia específico no ano?

Melhor do que poder comemorar um dia específico no ano é a possibilidade de ter a vida respeitada integralmente, todos os dias do ano e em todos os anos depois dele.

***

Notaram como as minhas respostas são papagaiadas dos discursos que outras feministas já defendem o ano inteiro? Achei que eu mesma seria um bom exemplo do que escrevi no meu texto de ontem. Tanta preocupação em estar afinadinha com um discurso que os outros não ouvem. Se houvesse um vestibular feminista, acho que eu passaria com essas respostas. Mas é isso que importa? Ter as respostas certas? Usar as palavras certas?

Eu não quero ter certezas.

Mas sei que estou cansada desse eterno dejá-vu. As mesmas merdas de sempre, as mesmas respostas de sempre. Como em uma cruel imitação do filme do Bill Murray, estamos presas em um eterno Dia da Marmota – mas que por aqui acontece no dia 8 de março.

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Papagaísmo

06 de March 2014 por Valek

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Seja bem-vinda ao templo do Papagaísmo. O culto vai começar em alguns minutos, então escolha um poleiro e fique à vontade. Enquanto espera, gostaria de ler este folheto sobre o Papagaísmo?

O Papagaísmo é tão antigo quanto a própria humanidade. Você talvez só tenha ouvido sobre isso por causa da internet, que possibilitou que a gente descobrisse tantas coisas novas e ao mesmo tempo tivesse contato com tanta repetição, não é mesmo? Por isso a internet foi escolhida como lugar para a construção deste templo. Não só porque é fácil de chegar e os terrenos são mais baratos, mas porque é um lugar que respira o Papagaísmo. Sem a internet, talvez o Papagaísmo não tivesse a mesma força.

O Papagaísmo, no entanto, se sustenta na própria essência do ser humano. Somos máquinas repetidoras, afinal. Aprendemos por repetição. As histórias que contamos são repetições de histórias já contadas de outras formas. Vivemos em ciclos marcados pela repetição de uma rotina. Repetimos os dias uns após os outros, os meses, as estações, as datas comemorativas, os anos. É na repetição que encontramos a fuga que torna suportável viver em um universo sem ordem.

Hoje o Papagaísmo está em seu melhor momento. Seus adeptos estão em todos os lugares e muita gente segue os preceitos papagaístas sem se dar conta. Isso é fácil de perceber em um passeio pela internet. O mesmo assunto sendo falado em uma infinidade de sites. A mesma opinião sendo proferida por uma multidão de rostos diferentes. Todos em busca de algo que possam replicar, para que com isso consigam mostrar o que endossam. Formar a própria identidade. Dizer o que defendem.

Não, não tem nada a ver com plágio, se é isso o que está pensando. No Papagaísmo não há a apropriação indevida de uma criação. O que se repete aqui não é com a intenção de tomar para si a autoria, uma vaidade que para os papagaístas não faz tanto sentido quanto o prazer de repercutir uma fala ou ideia com as quais concordam. Além disso, os papagaístas também criam. Mas em suas produções transparece o caráter de réplica, usando o mesmo repertório de palavras já usadas antes para sustentar os mesmos argumentos que outros também repetem.

O Papagaísmo está acima de qualquer doutrina, movimento ou religião. É ele, aliás, que os ajuda a existir. Ou você acha que qualquer um deles iria muito longe sem que alguém os papagaiasse ao decorrer dos séculos? Mesmo quem se opõe e questiona os dogmas ou princípios que outros papagaiam por aí encontra no Papagaísmo seguidores dispostos a fazer o mesmo, transformando até o ato crítico de questionar instituições, movimentos, religiões, correntes de pensamento ou comportamentos em algo possível de se transformar em mera repetição.

O Papagaísmo é democrático, pois não se restringe a apenas um espectro político ou a um movimento específico. Onde houver uma ou mais pessoas reunidas em nome de repetir uma ideia, seja ela qual for, lá estará o espírito do Papagaísmo. Aliás, o Papagaísmo é engrenagem que move a disputa entre os opostos nos quais as pessoas gostam de se dividir. Entrar na internet, por exemplo, tem se resumido cada vez mais à busca de argumentos com os quais concordamos para que possam ser repetidos contra aqueles que acreditamos que estão do outro lado.

Informação é poder? Não enquanto não for replicada à exaustão. Repetição sim é poder, quando o jogo que foi escolhido para jogarmos foi a queda de braço. Se ideias medem forças, a mais repetida é a mais musculosa. É papagaiando que se espera ganhar um debate: esmagando a opinião contrária com a bolha inflada de uma opinião repetida massivamente. Talvez a isso se deva o sucesso e o crescimento do Papagaísmo.

Ah, o culto vai começar, veja! Ou melhor: escute. Eu sei, eu sei, é ensurdecedor. Essa confusão de vozes papagaiando ao mesmo tempo é uma coisa incrível e ao mesmo tempo perturbadora. Porque dá pra distinguir as vozes que estão replicando as outras ao redor, ainda que de forma descoordenada, quase num mantra. Mas, se você olhar com atenção, irá perceber também que, mesmo falando as mesmas coisas, é como se falassem línguas diferentes.

Cada um repetindo o mesmo tipo de fala, o mesmo tipo de ideia – e ninguém se escutando. As falas são cada vez mais repetidas e menos ouvidas. Lógico, você diz, se essas mesmas palavras já foram ditas, vou ouvir pra quê?, você me pergunta. Bem, aí é a hora em que te digo que Papagaísmo não é sobre ouvir o que vai exigir que você faça silêncio pra entender, mas sobre repetir aquilo que você concorda e tem pressa em amplificar. Essa é a beleza do Papagaísmo.

Ei, o Papagaísmo não é seguido apenas por pessoas acríticas. As pessoas mais críticas estão no culto de hoje, não está vendo? Questionamentos, especialmente os mais provocativos, não só são papagaiáveis como são amplamente papagaiados – se esse questionamento consiste em criticar os outros, é claro. Afinal, repetir sem parar críticas aos outros é a melhor forma de evitar criticar a si mesmo. Autoquestionamento é um troço que não dá para replicar, já que o de cada um seria único e não depende de ser transmitido aos quatro ventos para acontecer. Mas quem é que suporta silêncio hoje em dia, não é mesmo?

Além disso, se o Papagaísmo fosse sobre ser autocrítico e colocar a mão na consciência, teríamos que mudar o nome do animal. Mas essas plumas verdes ficam tão bem em você, não acha?

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Muito prazer, eu sou o e-book

26 de February 2014 por Valek

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Não é chato quando as pessoas olham torto para você sem nem mesmo te conhecerem? Pois é, isso acontece comigo direto. Vai ver é porque nasci assim. Nasci e-book. E as pessoas tendem a temer e a rejeitar aquilo que não conhecem muito bem.

Preconceito só se sustenta enquanto houver ignorância a respeito daquilo que é diferente, é o que penso. Por isso, resolvi escrever um pouco mais sobre mim, por mais que seja um paradoxo alguém como eu, um arquivo cheio de coisas escritas, escrever alguma coisa. Mas acho que estarei quebrando a lógica do universo por um bom motivo, não acha?

Não posso mudar o que sou para ser aceito, mas, quem sabe, você possa mudar de opinião sobre mim? Não pense que com isso quero forçar amizade com você. Sou sussa, muito na minha. De verdade. Só quero mostrar que eu não mordo. E como poderia, se nem dentes eu tenho? Ha ha!

Certo, certo. Posso ser acusado de fazer piadas horríveis, mas não quero ser acusado das bobagens que andam falando aí a meu respeito, sem o menor conhecimento de causa e com muitos estereótipos fundamentados no senso comum.

Então deixe que eu me apresente. Muito prazer, eu sou o e-book.

faq_ebook_1Sou um livro digital. Bem parecido com meu parente mais popular, o mp3, sou um arquivo que apresenta um conteúdo que antes estava atrelado a um único suporte físico. Talvez as pessoas achem que eu não valho nada porque não podem me tocar, mas eu posso ser lido normalmente, que é o que importa em um livro, certo?

Não preciso de papel para existir, basta uma tela. Posso ser lido em vários dispositivos, como celulares, computadores, tablets e leitores de e-books como o Kobo e o Kindle, que são aparelhos criados com a finalidade de me ler.

Também me apresento em diferentes formatos de arquivo, entre eles, .pdf, .epub, .mobi, .lrf, .cbr ou .cbz (especialmente histórias em quadrinhos), .ibooks, .azw, .lit, só para citar alguns. Alguns formatos são lidos apenas por aparelhos específicos, enquanto outros formatos podem ser lidos por diferentes aparelhos, como o .pdf, que você já deve conhecer, e o .epub.

Como .pdf sou bastante versátil, é verdade, mas esse não é o formato que me cai melhor. Isso porque o .pdf trata cada página de um livro como uma imagem, como um layout fixo, o que não é nada mal se você está lendo no computador, mas pode ser bem chato se você estiver lendo em uma tela menor. Você não conseguirá redimensionar o texto para um tamanho que fique mais confortável de ler – que é justamente o que sei fazer de melhor: me adaptar.

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Sim, sim. Vou tomar como exemplo um dos formatos mais usados, o .epub. Com ele, me torno líquido. Igual água, quando eu for “despejado” em um dispositivo, vou me adaptar ao seu tamanho de tela. O conteúdo é exatamente o mesmo, mas o jeito que vou aparecer em um celular vai ser diferente de como você vai me ver no Kobo, por exemplo. Afinal, são tamanhos de tela diferentes.

Além disso, você pode me esticar ou me espremer, mudando o tamanho da fonte e das margens para que o texto fique mais confortável para a sua leitura. Você não precisa sofrer com letras miudinhas. Prefere que eu me espalhe em letras grandonas? Opa, é só pedir. Ou então prefere que caiba mais texto na tela para ter que virar menos páginas? Também faço.

E é justamente por ser tão maleável que não vou ter um número de páginas fixo. Dependendo do tamanho da tela e de como você quis o tamanho da fonte e coisas do tipo, posso ter dezenas ou centenas de páginas. Acaba que a minha forma para cada um que me lê será única.

Pode mexer em mim o quanto quiser. Faz um pouco de cosquinha, mas juro que não vou me incomodar.

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Normais. Não se preocupe se os livros que você lê têm gravuras e ilustrações, elas também vão aparecer em mim. A única diferença é que vou adaptar o tamanho delas para o tamanho da tela na qual você está me visualizando. Em um celular, a imagem aparecerá bem menor do que em uma tablet.

Em alguns dispositivos, como o Kindle e o Kobo, elas vão aparecer em tons de cinza, pois a tela não é colorida. Por outro lado, a resolução da tela de um iPad faz com que ilustrações fiquem bem melhores e mais nítidas do que ficariam em um papel.

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Mas… quem disse que eu quero substituir alguém? É verdade que os livros de papel têm o seu charme, aquele cheirinho gostoso que vicia, o toque, o ato de virar páginas e de enfeitar prateleiras. Não nego suas qualidades. Mas eu também tenho as minhas.

Sou bem versátil, como já expliquei acima; não junto poeira; sou mais durável; não ocupo espaço, e o espaço de armazenamento que ocupo em um computador ou leitor de e-books é mínimo, quase insignificante; sou mais barato, isso quando não estou disponível de graça na internet; e é melhor parar por aqui antes que você ache que sou presunçoso.

Você não precisa me odiar só porque gosta dos livros de papel. Eu existo só pra facilitar a sua vida. Para ajudar a tornar a leitura mais acessível. Sei lá, pra ser mais uma opção.

Sou exatamente igual ao livro de papel em conteúdo. O que você lê nele, vai ler em mim também. E uma boa história não depende de seu suporte para ser poderosa, para emocionar, para fazer pensar. Se você é o tipo de pessoa que se importa mais com o conteúdo do que com a forma, aposto que nem vai sentir a diferença.

Confesso que eu já fui muito complexado quando eu era mais novo, com todo mundo apontando o dedo para mim e dizendo que eu nunca seria tão bom quanto um de papel. Mas minha mãe me dizia que o que importa é o que eu tenho por dentro. E não é que era verdade? Achei um monte de gente que aprendeu a gostar de mim pelo que eu sou.

Sempre vai ter quem goste mais da folha de papel do que o que está escrito nela. Paciência. Não vou me deixar abalar por essas pessoas e deixar de fazer o meu trabalho, que é levar as histórias a quem as deseja ler, não importa onde.

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Que nada. Não importa o dispositivo que você use, você só precisa de duas coisas: acesso a internet e um cartão de crédito, o que hoje em dia está se tornando cada vez mais comum.

Na primeira vez que você for acessar uma loja de livros digitais, como a Amazon, Livraria Cultura/Kobo Store, Saraiva ou iBooks Store, por exemplo, você terá que fazer um cadastro, preenchendo as suas informações e do seu cartão de crédito. Se você já comprou qualquer coisa na internet, sabe como funciona. Se ainda não fez isso, vai ver como é simples.

Você só precisa fazer isso uma vez na loja (ou lojas) da sua preferência. Depois disso, é só escolher o livro que deseja e em um clique eu serei todinho seu. Um clique, sério.

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Quando você me compra em uma loja, eu não fico no dispositivo, mas sim guardadinho na sua conta. Vou usar a Amazon como exemplo: ao me comprar por lá, estarei associado indefinidamente com a sua conta, que é só sua. Você poderá me ler em um Kindle, mas também em um celular, uma tablet ou um computador, desde que tenham instalados o aplicativo do Kindle (que dá pra baixar de graça).

A vantagem disso: se você perder o seu Kindle, não terá me perdido. Estarei salvo na sua conta. Outra coisa legal é que você pode começar a me ler no Kindle, depois continuar no mesmo ponto em um celular e terminar a leitura em um computador.

O mesmo vale para a Livraria Cultura, que é por onde você compra os livros para ler no seu Kobo (sobre esse aparelho tem um texto supimpa aqui). Se me comprou por lá, estarei na sua conta, de forma que poderei ser lido no Kobo ou em qualquer outro dispositivo com o aplicativo do Kobo instalado (também dá pra baixar gratuitamente).

Ah, e é claro que fora as lojas, você pode me encontrar e me baixar pela internet. Nesse caso, estarei no seu computador ou no dispositivo onde você quiser que eu esteja, como um arquivo normal.

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Bem, meio que não existe esse conceito de “emprestar”, se estamos falando de mim. Se você me baixou na internet, é claro que você pode me transferir ou me enviar por e-mail para outra pessoa, mas aí você estaria me dando, né. Dependendo da loja, você também conseguiria me dar de presente para outra pessoa, comprando e me destinando ao e-mail da pessoa presenteada – ou enviando a ela um gift card.

Se você me comprou em alguma loja, você só conseguiria me “emprestar” para outra pessoa se você desse para ela o login e a senha da conta onde estou armazenado, mas duvido muito que você queira fazer isso. Aliás, recomendo fortemente que não: lembre-se que as suas informações pessoais e do seu cartão de crédito também estão lá! Elas devem ser sigilosas, não confie a ninguém.

Mas veja pelo lado positivo: não conseguir me emprestar significa que nunca vai ter que se preocupar com aquela pessoa cara de pau que demora a devolver seus livros – ou pior, que os perde ou os estraga!

Update: fora do Brasil existem serviços que permitem que eu seja emprestado, caso eu tenha sido adquirido na Amazon. Mas depende da editora dizer se posso ou não ser emprestado, então é meio restrito.

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Olha, tenho que admitir que eu poderia ser ainda mais barato. Mas não é porque eu sou digital que eu não custei nada para ser feito.

Imagine que existe todo um trabalho de tradução (quando é um livro traduzido, óbvio), diagramação, edição, revisão e que isso custou dinheiro à editora (ou ao autor independente, quando é o caso). Além disso, o preço também inclui os direitos autorais, que comigo são de 25%, diferente dos direitos autorais do livro de papel, que são de 10% do preço de capa – o que parece pouco se pensarmos que o autor é o maior responsável pela obra. Sim, do meu preço você pode cortar os custos com impressão e distribuição. Então teremos nas lojas um preço, em média, 30% mais barato do que os livros de papel.

E mesmo nas lojas você consegue encontrar livros gratuitos; não só as amostras, mas livro completos de autores novos que querem que você os conheça. Também posso ser encontrado de graça em uma busca rápida na internet. Sou oferecido de graça por muita gente que está produzindo boas histórias e querem que você as leia.

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Ué, como não? Lembra que eu disse que você pode fazer comigo o que você bem entender? Isso inclui me rabiscar todinho com as suas anotações. Mas ei, não com uma caneta! Ou você vai acabar estragando a sua tela ao tentar fazer isso.

No Kobo, por exemplo, você pode destacar trechos interessantes e ainda adicionar notas a eles (surge um tecladinho para você digitar sua anotação). A vantagem é que as marcações que você fez em mim são mostradas em forma de lista quando você acessa o menu “anotações”, de um jeito que fica bem fácil de achar, diferente de um livro de papel que você teria que dobrar orelhas ou encher de post-its. Nesse ponto eu não invejo nada meus colegas de papel.

Outra coisa que você não conseguiria fazer em um livro de papel é acessar o dicionário apenas com um toque em qualquer palavra.Não precisa interromper a sua leitura indo atrás de um dicionário ou procurando o significado na internet.

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Sim, é verdade. Telas luminosas exigem esforço dos olhos; quem trabalha o dia inteiro na frente do computador sabe disso. Por isso foram criados dispositivos com telas que não emitem luz. Eles imitam o papel (sem aquele cheiro que enlouquece as pessoas, lógico) e com todas as vantagens que só euzinho ofereço.

O Kindle e o Kobo são os principais. Apesar de, como eu já disse, eu poder ser lido em celulares, tablets e computadores, você pode me aproveitar bem melhor se me abrir em um e-reader. Eles foram feitos sob medida pra mim, são leves, práticos, as telas não emitem luz e você não terá a distração que você teria em outros dispositivos, como Candy Crush, e-mail e Twitter.

E eu até que gosto de ter a sua atenção exclusiva. Acho romântico.

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Que eu sou prático, isso até minha modéstia me impede de negar. Você não precisa ir até uma livraria, podendo me comprar ou me baixar pela internet, sem sair de casa. Posso ser lido onde você quiser, usando o aparelho que você preferir, da forma que for melhor para você.

Agora, de verdade, não entendo como isso pode excluir o prazer da leitura.

Aliás, a possibilidade de explorar uma experiência de leitura que se adapte ao que você acha mais confortável pode ser muito prazerosa sim. Posso ser prático e prazeroso ao mesmo tempo, por que não? Há muito prazer em se descobrir novas formas de fazer algo que você gosta. E com a minha flexibilidade então, posso levar você à loucura.

Espera. Então é disso que você tem medo? De se apaixonar por mim?

Não, não tenha medo. Pode se entregar. Não vou exigir que você abandone o seu antigo amor; como eu já disse, me adapto bem às situações.

Tudo o que quero é uma pessoa aberta a se relacionar comigo. E quem sabe agora eu não pareça mais atraente aos seus olhos? Já que você me conheceu um pouco melhor, bem, você já sabe onde me encontrar. Estou esperando você.

***

Dúvidas? Mande um e-mail para a minha secretária.

 

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Meninas, vocês não têm que agradar ninguém

20 de February 2014 por Valek

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Ilustração de Amanda Grazini. Daqui. Sou fã do traço dessa moça.

Felizmente, posso falar de adolescência como uma memória distante. Há muito atravessei essa fase de terríveis constrangimentos, sentimentos conflitantes, mudanças e erros. Muitos erros. Ainda não conheci alguém que não se lembre da adolescência com uma ponta de vergonha, exceto talvez por uma ou outra pessoa que ainda esteja nela. Dá saudade? Dá. E vontade de voltar àquela época onde tudo era descoberta, aventura e azaração? Nenhuma.

Transições são difíceis, especialmente aquela entre a infância e a vida adulta. E o que acredito que marca essa passagem, no caso da adolescência, é o sentimento de inadequação – que só existe porque, bem, é quando a gente percebe que precisa se adequar. Já temos idade o suficiente para entender como a sociedade funciona, mas ainda não temos vivência o suficiente para não sermos massacrados por suas regras e imposições. Então fazemos de tudo para sermos aceitos por algum grupo (nem que seja o grupo dos excluídos), para não pagar mico, para pertencer. Mais ou menos o que continuará acontecendo na vida adulta.

Isso se torna algo ainda mais difícil quando você é uma jovem mulher. Aliás, o que não é mais difícil sendo mulher, né? Você lá, cheia de hormônios querendo descobrir seu novo corpo, mas tendo que segurar a periquita porque disseram que você precisa se guardar para o cara certo (sempre um cara, afinal você é uma garota e só pode ser heterossexual, oras). Seu corpo ainda está mudando (e nunca vai parar de mudar, isso eu garanto a você) e já querem que ele se adeque a padrões rijos e a determinado peso para que você não receba o rótulo de feia.

Você recebe mil estímulos de todas as frentes dizendo a você para andar na linha. Para se conformar às regras criadas para fazer você sempre perder no jogo, não importa o que faça. Para odiar as garotas que são diferentes de você. Para sempre agradar os caras. Para adequar seu corpo. Para provar o tempo inteiro que você é bonita – e se é bonita, ainda ter que provar que não é só bonitinha. E tudo isso em um momento da sua vida em que você precisa escolher o rumo que sua vida tomará quando a idade adulta chegar. Não é nada fácil.

Então antes que você ache que esse texto vai ter alguma bronca ou lição de moral, deixemos esse assunto de lado e vamos conversar sobre livros. Porque se tem algo da adolescência que não saiu de mim é o meu gosto por boa literatura juvenil.

***

Recentemente li duas histórias protagonizadas por garotas. Frankie e Ira.

Frankie é uma jovem de 15 anos que está no segundo ano de uma espécie de colégio interno no norte de Massachusetts, nos Estados Unidos. Ira, com quase 15 anos, está no início do Ensino Médio em uma escola de São Paulo.

Frankie é criação de Emily Lockhart (detesto como o primeiro nome das autoras é abreviado na capa para esconder que são mulheres), do livro “O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks” e Iracema é criação de Clara Averbuck em seu mais recente livro, “Eu Quero Ser Eu”. Ambas as personagens são adolescentes, com personalidades bem fortes, suas histórias se passam no colégio, o que é de se esperar quando você é adolescente e só tem isso pra fazer da vida, e giram em torno da necessidade de adequação do qual falei ali em cima. Mas a semelhança entre as duas para por aí.

Frankie estuda em um colégio interno tradicionalíssimo e super respeitado. Cheio de regras. Há uma passagem interessante no livro em que ela fala sobre o pan-óptico, descrito por Michel Foucault em “Vigiar e Punir”. O pan-óptico é um tipo de prisão projetada arquitetonicamente de forma a permitir que todos os prisioneiros sejam vigiados – sem que eles saibam se estão sendo ou não vigiados. Sabendo que estão sendo vigiados, os prisioneiros cumprem as regras automaticamente. Acaba que, graças a essa profunda paranoia criada na cabeça das pessoas, o mínimo de vigilância é necessário. É assim que ela se sente no seu colégio.

(e curioso notar o quanto a nossa sociedade se assemelha, em alguns aspectos, a um pan-óptico.)

Bem, então ela está nesse lugar onde todos sabem direitinho o seu lugar. Não só na hierarquia entre direção e alunos, mas também na hierarquia existente entre os grupos de alunos. Ela sabe que não deve sentar sem convite na mesa de almoço dos alunos mais velhos, que isso é uma espécie de transgressão. Ela se preocupa com as regras como um prisioneiro do pan-óptico se preocupa com a vigilância invisível, mesmo quando ela, deliberadamente, transgride alguma regra:

“Ninguém vai me castigar, Frankie disse a si mesma. Posso quebrar essa regra se quiser. (…) Havia uma parte de Frankie que se sentia como praticamente qualquer adolescente se sentiria naquela situação: constrangida. Ela desejava não ter quebrado aquela regra idiota. (…) Mas outra parte de Frankie estava curtindo o fato de ela ter (…) quebrado uma regra tão entranhada na mente de todos que nunca ocorreu a ninguém que não era, de fato, uma regra.” (p. 156)

Frankie transgride algumas regras, sim. Ela é questionadora o suficiente para fazer isso. Mas a autora se assegura de que isso não trará consequências drásticas e irreversíveis no destino da personagem – ser expulsa da escola, por exemplo.

Já Ira começa a história contando ter sido expulsa de sua escola anterior. Diferente de Frankie, ela não fica remoendo sua preocupação em não ser pega, em não fazer as coisas do jeito esperado. Ela simplesmente faz, ela simplesmente fala. Em um momento, ela conta sobre o bedel da escola que fica vigiando os corredores para evitar que os alunos matem aula. Sobre como ele olha torto para ela, como se estivesse só esperando o menor deslize para pegar no pé dela.

“Tem um monte de menina e de menino fazendo coisa errada naquela escola. Mas elas fazem cara de anjinho para Poletto, o Bedel, e ele compra. Eu não faço cara de nada pra ninguém. Eu odeio essa gente toda. Eu queria ficar em casa desenhando. Eu queria ser eu em paz.” (p. 27)

A ideia de quebrar regras é particularmente atraente para adolescentes (e a ideia de não conseguir controlar os adolescentes é o terror da sociedade adulta, vide rolezinhos), mas não é só isso que vejo nessas duas passagens específicas dos dois livros. Isso tem muito mais a ver com a preocupação em se adequar do que pode aparentar à primeira vista. Frankie e Ira repetem esse padrão (uma de preocupação e a outra de desapego) em outros aspectos, especialmente naqueles relacionados a garotos.

Frankie namora um rapaz popular na sua escola, o Matthew; Ira se interessa por um rapaz popular, do tipo “mauricinho”, o Bruno. Nas duas histórias, os dois rapazes representam um desafio para as protagonistas. É através deles que o elemento da “aceitação”, tão difícil na vida das adolescentes, é introduzido na história – embora Frankie e Ira lidem com isso de formas diferentes.

Frankie mede o tempo inteiro suas palavras para não aborrecer Matthew ou parecer imatura. Ela o admira, ela realmente é apaixonada por ele, apesar de ele tratá-la de forma tão paternalista e infantilizante. Parece que ele diz o tempo todo o quanto ela é bonita para colocá-la em seu devido lugar, o de enfeite. É claro que ela se irrita com isso. Ela quer ser reconhecida como uma igual.

Em certo ponto da história, ela descobre que o namorado faz parte de uma sociedade secreta de alunos – a Leal Ordem dos Bassês – e claro que ela não pode fazer parte porque o grupo não aceita meninas. É daí que partem as “altas confusões” do livro: Frankie quer mostrar para o namorado e para seus amigos que ela não é só uma garota bonita. Que ela é tão inteligente e ousada quanto qualquer um deles.

Então a personagem é movida por uma motivação feminista? Sim e não. As coisas que Frankie faz são realmente admiráveis e superam as expectativas rasas que o mundo espera dela como uma “princesinha”; mas tudo que ela faz, ela faz, na verdade, para ser aceita pelos garotos. Para obter DELES alguma aprovação. E é exatamente isso que somos ensinadas a fazer. O tempo todo. A usar o absorvente íntimo que a propaganda diz que vai atrair o olhar dos caras. A aprender as técnicas sexuais que vão enlouquecer os caras na cama. A não ser independente demais porque isso intimida os caras. Os caras. Os caras. Sempre os caras.

Ira, se pudesse, falaria para Frankie: “sai dessa”.

Aliás, me incomodou muito a forma como Lockhart mostrava, através do olhar da protagonista, como os caras daquele clube do bolinha eram tão mais espertos. Divertidos. Inteligentes. Leais. Ela faz isso o tempo inteiro, mas destaco um trecho:

“Os caras faziam guerra de pãezinhos e discutiam política. E fofocavam e falavam sobre esportes e inclinavam suas cadeiras tão para trás que parecia certo que fossem capotar – mas isso nunca acontecia. (…) A qualidade de Matthew que ela mais gostava era sua aparente imunidade ao constrangimento. Por exemplo, Alfa disse uma coisa tão ridícula no jantar que Matthew esguichou suco pelo nariz, molhando toda a camiseta. (…) Mas Matthew ficou de pé, ergueu os braços, vitorioso, e proclamou a si mesmo o ser humano mais nojento da Alabaster, desafiando qualquer um a provar o contrário. (…) Ela jamais teria imaginado que se sentiria atraída por um garoto que tinha acabado de esguichar suco pelo nariz, mas ela estava.” (pg. 102 e 103)

Em “Eu Quero Ser Eu”, os comportamentos juvenis tipicamente masculinos não são colocados em um pedestal:

“De onde estava, podia ver Bruno e seus asseclas fazendo suas piadas idiotas, suas brincadeiras de menino, seus soquinhos, suas demonstrações de virilidade adolescente.” (pg. 17)

Talvez por não ver os meninos como superiores, Ira não tenta ser aceita por eles. E é isso que acho tão incrível na personagem. Ela tem consciência de que ela não se encaixa, de que ela não é o que os garotos ou a sociedade esperam dela e nem faz questão de ser. Vejo que ela se incomoda com essa questão, afinal, ela pensa e reflete sobre isso o livro inteiro. Mas o que a incomoda não é o fato de não ser aceita, e sim a imposição de que ela precisa ser aceita. Ela se recusa a isso.

“Inadequada se sentia a sua avó. E a minha também. E algumas das nossas mães. E várias das nossas amigas. Que triste. As mulheres têm essa triste mania de querer agradarzinho. Na verdade eu acho que não é uma mania. Acho que elas foram ensinadas assim. Digo elas porque comigo foi diferente. Eu fui criada pra ser livre.” (p. 45) 

Claro que as duas, Frankie e Ira, quebram a cara no final do livro (e não vou contar, vocês vão ter que ler para descobrir). Mas errar faz parte de ser adolescente, especialmente porque os erros não vão deixar de acontecer na vida adulta e saber lidar com eles é fundamental.

Não acho que as duas sejam opostos; são apenas duas jovens que qualquer um de nós poderia conhecer (claro que Ira está mais próxima de nossa realidade, mas Frankie também é bem verossímil). São bem parecidas até. O que acho fundamentalmente diferente é a mensagem que cada história passa.

A leitura de “O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks” é muito boa: o final de cada capítulo puxa você para a continuação da história, por mais que as atitudes de Frankie deem vontade de sacudi-la pelos ombros para que ela caia na real e pare de tentar ser aceita pelos caras. Você não precisa disso. Nenhuma mulher, independente da idade, precisa disso.

Por isso “Eu Quero Ser Eu” é um livro raro. Ele fala o que, infelizmente, ninguém me contou na adolescência (e durante muito tempo da vida adulta, até eu conhecer o feminismo): você não tem que agradar ninguém. Você não tem que mudar o seu corpo, você não tem que medir a sua atitude, você não tem que usar determinadas roupas só para se encaixar no padrão. Não é você que está errada; é o mundo ao seu redor. Você não tem que se adequar.

Essa é uma mensagem muito poderosa para as garotas. Porque quando somos adolescentes, estamos tão mais vulneráveis ao bombardeio de mensagens que nos fazem sentir feias, inadequadas, erradas, inferiores.

E aí eu, que além de shippar* a Ira e sua amiga Roberta durante a leitura, imaginando como seria fofo se as duas formassem um casal, fiquei imaginando como seria legal se Ira e Frankie se conhecessem. Se a Frankie aprendesse com a Ira a desencanar e a ser mais livre, ela seria imbatível. Aliás, que legal seria se outras meninas, daqui, do mundo real, também conhecessem a Ira. E com ela descobrissem a ser mais elas – e menos o que a sociedade engessou como “mulher de verdade”.

***

*shippar: basicamente o que fazem os fãs de alguma obra de ficção (desde livros até seriados de TV) ao torcerem por um casal, que pode ter sido ou não estabelecido pelo autor ou autora. Gíria bem de adolescente, né? Mas, surpreendemente, só fui aprender essa palavra depois de velha, ainda que durante a adolescência eu tenha unido tantos casais inusitados na minha cabeça. Já shippei muito sem saber.

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