Esta semana, uma revista de fofocas publicou em sua matéria de capa que é absurda a lei que tornaria obrigatório o ensino de filosofia nas escolas. De acordo com a revista, um país que vai mal em disciplinas como matemática e ciências não deveria se empenhar em ensinar filosofia, que, como todos sabemos, é apenas uma forma de “aumentar a pregação ideológica de esquerda”. Claro. Mas não vou nem entrar nessa questão. O fato apenas me lembrou que, além de eu ter tido uma péssima formação de filosofia no colégio público onde estudei, eu tenho ali, na minha prateleira de quadrinhos, o que considero uma das maiores obras filosóficas do nosso tempo: as tirinhas de Calvin & Haroldo, de Bill Watterson.

Calma. Antes de você sair em defesa de um grande pensador e de me julgar uma ignorante por essa afirmação, deixe que eu explique. A ligação dos quadrinhos com a filosofia começa com o nome dos personagens. Calvin e Hobbes (do original, em inglês, traduzido por aqui como Haroldo) foram inspirados, respectivamente, no teólogo John Calvin e no filosófo inglês Thomas Hobbes. O primeiro defendia a predestinação e o segundo acreditava na tendência da natureza humana à guerra. Um easter egg interessante plantado por Watterson, talvez porque ele não resista a uma boa ironia – o que, aliás, percebemos em todas as histórias.

O grande mérito dos quadrinhos é trazer grandes (e pequenas) questões existenciais em histórias divertidas, cativantes, inteligentes, sarcásticas e o mais importante: acessíveis a todos. Crianças podem ler. Adultos podem ler. E ambos vão gostar. Enquanto Calvin brinca com Haroldo na neve, finge ser um dinossauro, teima com seus pais ou ainda arruma formas de não fazer seu dever de casa, ele te leva a questionamentos intrigantes e você está pensando naquilo sem nem perceber.

Ele não ensina filosofia. Mas os livros de Calvin e Haroldo estão cheias de teorias, conclusões e perguntas incômodas nas quais vale a pena pensar e até expor suas crianças a elas, sem medo. Questionamentos do tipo: “O que os animais vão fazer agora que derrubaram a floresta para construir casas?? Céus, o que as pessoas iam achar se os animais passassem um trator nos bairros e plantassem novas árvores?” Outro bom exemplo está aqui:

"Vocês não me ensinaram nada exceto como manipular cinicamente o sistema. Parabéns."
A inteligência das tirinhas de Watterson também está na construção dos personagens. Haroldo é só um tigre de pelúcia, mas tem mais sensatez que muita gente de carne e osso. Calvin é um garoto com uma grande imaginação e uma cara de pau maior ainda. Isso faz com que seus pais (que não têm nome nos quadrinhos) precisem devolver com argumentos razoáveis as teimosias do filho. O que nem sempre é possível: às vezes eles precisam gritar para mostrar ao Calvin quem são os adultos ali.

Calvin parece um garoto impossível de existir. Mas em tempos de tanta facilidade de acesso à informação, e em que todo mundo nas redes sociais está pronto para desferir opiniões sobre tudo, é natural que nossas crianças tenham a mesma inclinação do personagem para o debate. E aí não adianta vencê-las falando mais alto. As crianças esperam de nós, adultos, argumentos convincentes que respondam às questões levantadas pela inocência e imaginação tão próprias delas. Ou que, pelo menos, tenhamos a sensibilidade de pensar sobre o assunto se não soubermos a resposta. E uma dessas questões é: estamos preparados para criar filhos com esse senso crítico?
Mas talvez a tal revista esteja certa em achar absurda a ideia da filosofia ser ensinada como português ou matemática. Crianças questionadoras acabam ficando iguais ao Calvin: terríveis.

Sandelon tinha acabado de cair em outro planeta. Talvez seja difícil acreditar, já que nem eu e nem você tenhamos passado por isso antes. Mas Sandelon estava, de fato, passando por isso e ainda assim achava difícil acreditar.
Preferiu ficar deitado, imóvel, e prendeu a respiração o quanto pode, em pânico. Não aguentou mais que dez segundos. Para sua sorte, a atmosfera do planeta era agradável e o ar que inalou não o matou instantaneamente, como ele pensou que aconteceria. Olhou com medo ao seu redor e estranhou praticamente tudo: da vegetação que cobria toda a superfície até o céu multicolorido, que se alaranjava no horizonte. Puta merda, estou mesmo em outro planeta.
Não havia nenhuma nave ou tripulação espatifada ao seu redor, porque, é claro, as naves não conseguiam chegar tão longe quanto ele estava agora. Os cientistas descobriram que, para chegar em outros planetas, possivelmente habitados, era preciso escavar túneis. O que era bem mais complicado do que perfurar uma superfície, afinal, estamos falando de espaço-tempo.
Escolheram um indivíduo ordinário de quem ninguém sentiria falta, já que a passagem de volta não estava inclusa no pacote, devido a impossibilidades técnicas. Sabe-se apenas que os cientistas estavam trabalhando nisso agora.
Então, como estávamos vendo, Sandelon tinha acabado de cair em outro planeta. Levantou devagar, atento a cada ruído do ambiente. A única coisa que conseguia ouvir era uma frequência constante e aguda, como uma interferência. Era um som alto e irritante. A única coisa que não deixava aquele planeta ser um tédio completo.
E agora, o que eu faço?
Ele estava sozinho em um ambiente desconhecido sem missão a cumprir ou sequer alguma instrução do que fazer ou de como se virar naquele pedaço de fim de mundo. Aparentemente, os cientistas não se preocuparam com isso. Acharam que já seria muito otimista a previsão de que ele chegaria vivo a algum lugar. O fato é que chegou, e agora encarava desesperado a solidão de um planeta inóspito.
Para Sandelon, os planetas não passavam de bolotas no espaço às que se davam nomes engraçados. A posição deles também determinava se alguém estaria destinado a ser um grande teimoso ou só um fracassado qualquer. Mas querer pisar em um planeta distante só para dizer que pisou era inutilidade demais. Era improvável que ele encontraria algo além de plantas esquisitas e nada. Nada vezes nada.
Alguns diziam que existia a chance de haver vida inteligente em outros planetas. Mas Sandelon sabia que era besteira. Acreditava que só existia uma forma de vida inteligente em todo o Universo e ele era um bom representante dela. As Escrituras não mencionavam nenhuma outra espécie como cabeçudos com tentáculos ou rastejantes desintegradores de células, que eram vistos apenas na ficção e em estórias para colocar medo nos pequenos. Se existissem, as Escrituras certamente falariam deles. Isso encerrava a discussão.
Você deve imaginar o que vem a seguir. Sandelon deu de cara com um habitante daquele planeta, para seu completo pavor e para a ruína de suas crenças. A sua única reação foi ficar parado enquanto a criatura se aproximava, caminhando em meio ao mato alto. Sandelon então percebeu que, na verdade, ele havia morrido na experiência dos cientistas e que nada daquilo era real. Pelo menos foi no que ele preferiu acreditar por um momento.
O habitante era menor que ele, todo preto, tinha a cara achatada e grandes olhos amarelos. Tinha cinco membros, mas um deles não tocava o chão. Ficava suspenso no ar e parecia ter vida própria. Então a criatura parou na frente de Sandelon e começou a se comunicar com ele, em uma língua que ele não compreendia. Era um idioma simples, com poucos fonemas, mas estava longe de ser rudimentar. Encarou Sandelon, esperando uma resposta.
Tudo o que ele conseguiu balbuciar foi: não me coma.
A maior demonstração que Sandelon poderia ter de que aquela espécie era uma forma de vida inteligente foi a misericórdia. Era sinal de que havia entendido a mensagem. Uma criatura irracional o teria destroçado, com aquelas garras e dentes. Em vez disso, continuou a se comunicar. Estava tentando estabelecer um diálogo com Sandelon. Mas antes que ele pudesse pensar no que responder, a criatura saltou para o alto de uma das enormes plantas que havia no local, em uma velocidade e com uma habilidade que desafiavam a lógica rasa de Sandelon.
Não só se tratava de uma forma de vida inteligente, como era, certamente, um organismo superior e mais sofisticado. Sandelon ficou olhando embasbacado para a figura negra, que ainda o estudava com curiosidade lá do alto, e, de repente, achou injusto que houvesse no Universo uma espécie tão privilegiada quanto aquela.
Então é isso. A história de que a nossa existência é o centro de tudo não passa de uma grande mentira. Não estamos sozinhos no Universo.
Sandelon estava tão imerso nesse pensamento que nem se deu conta da ameaça que se aproximava. Tudo o que conseguiu ver foi uma criatura muito maior, bípede, carregando uma arma enorme e falando em uma língua ainda mais estranha. Então foi atingido por um tiro e tudo ficou embaçado.
Agora sim, estava diante da forma dominante daquele planeta.
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As cigarras cantavam alto, mas Estefânia nem ligava mais. Era normal, ainda mais no fim de uma tarde quente como aquela. O que não era normal foi o clarão que borrou o céu por uma fração de segundos. A garota chupava uma manga quando isso aconteceu, e ficou olhando desconfiada para o horizonte.
- Diacho.
Foi lá ver o que era, não sem antes pegar sua espingarda de chumbo. Atravessou o matagal diante da casa e caminhou fazenda adentro, em direção ao local onde viu a luz. Quando chegou perto, viu que um bicho tentava pegar seu gato, que já tinha subido em um galho do pé de maracujá.
- Arre, espera aí, Celestino, que eu já tiro essa coisa daí!
Atirou sem pestanejar. Sabe-se lá que coisa era aquela. Não ia chegar perto a menos que o bicho não se mexesse mais. Avançou no mato alto até o lugar onde ele estava caído. Era uma criatura bizarra. Tinha metade do seu tamanho, o rosto alongado, o corpo curvado como a lâmina da foice de roçar mato. Coisa feia dos diabos. Definitivamente, não era humano, mas Estefânia não sabia que animal era aquele. E olha que de animal a garota entendia.
Alguns acreditavam que pudesse existir vida inteligente em outros planetas. Mas Estefânia sabia que era besteira. Trepou na árvore, pegou o gato e rumou para casa despreocupada. Por mais estranha que pudesse ser aquela coisa, não podia ser um alienígena. Essas coisas não existem.

A primeira coisa que fiz quando terminei de ler o livro do Alex Castro, Onde Perdemos Tudo, foi procurar sobre Jácome Gol. Um escritor que tem forte influência sobre o último conto do livro, A Falta Que Nos Fazem Os Figos, além de ser autor do livro Quando Morrem Os Pêssegos, que dá nome a outro conto. De acordo com o próprio Alex, Gol é “um autor brasileiro menos conhecido”, mas desconfiei mesmo assim. Alex é daqueles escritores que levam a ficção ao extremo. É admirável e, ao mesmo tempo, assustadora a forma que ele faz você acreditar em qualquer coisa que ele escreva.
Alguém não pode ser um escritor se não consegue convencer seus leitores. É o que a gente espera quando pega um livro para ler: que o escritor consiga sustentar sua mentira durante as quinhentas e oitenta e cinco páginas e além. Onde Perdemos Tudo não tem tudo isso, claro. É uma leitura rápida, por ser um livro curto e agradável. E também não é nenhuma mentira: as histórias falam sobre algo que é bem real na vida de todos.
Essa veracidade das histórias, mais do que o tema da coletânea de contos – a perda, foi o que me chamou a atenção. Poderia jurar que conheço o personagem-narrador do conto A Morte do Meu Cachorro. Além do mais, o livro já começa com um conto onde eu mesma sou uma personagem. Na verdade, é a dedicatória.
Querida Aline,
Espero que tenha chegado bem. As crianças já estão na cama. Eu saí pra comprar cigarro e já volto. Por favor, não esquece de tirar o lixo e passear com a Lulu. Devo voltar antes das onze. Te amo. Do seu marido, Alex. SP, 23/11/2008
E é assim, com relacionamentos que se acabam, despedidas, mortes e outras perdas que o livro continua. Encaramos, de uma só vez, as situações mais difíceis de se encarar. Muitas pessoas – a quem eu indicaria fortemente a leitura deste livro – não conseguem lidar com a perda. Não aceitam, não superam, não se desapegam. Acabam se perdendo. Porque, apesar da evidente contradição, a vida não está completa enquanto não perdemos algo. O emprego, o cabelo, os amores, os amigos, o dinheiro, a vergonha, a fé, uns quilinhos, os pais, as chaves de casa, o último capítulo da novela, a virgindade, o ônibus, o jogo, a vez, as vistas, os dentes. Ser adulto é isso: engolir o choro e aprender a perder. Sobre essa maturidade, Alex Castro escreveu A Morte do Meu Cachorro, que começa assim:
A infância acaba, disse alguém, quando morre nosso cachorro.(…) Amigos humanos têm outros afazeres e outros amigos. Um dia, seus caminhos se descruzam e cada um vai viver sua vida. Talvez nunca mais se vejam. Um cachorro, entretanto, só tem o dono e seus caminhos são coincidentes: a vida do cachorro é a vida do dono e ele sempre ficará ao seu lado, até morrer. Então, com o fim, absoluto e irrecorrível, da amizade mais sincera que pode existir, a infância acaba.

Também vemos, neste e no conto com o mesmo nome do livro, a diferença entre o fim de uma amizade e de um relacionamento amoroso. Amores, como o de Ramiro e Jáque, terminam de forma dolorosa, mal-explicada e abruptamente, deixando no lugar um passado incômodo e um presente confuso. Amizades não precisam terminar de fato pra gente saber que acabou. A vida se encarrega de distanciar as pessoas antes que elas percebam que a vida delas se descruzaram e, mesmo que se cumprimentem sem ressentimentos de ex-namorados, já não têm mais assunto. “Será que não percebem o quão ameaçador é o silêncio de quem já disse tudo, de quem já partilhou tudo?” Mas só porque essa perda acaba sendo mais natural que a outra, não significa que seja mais suportável. Afinal, a morte também é uma perda bastante natural.
Certamente, o tema rende. Quem sabe não sai um segundo livro com mais contos? Enquanto isso, fico no aguardo do lançamento, previsto para 2012, da reedição de Quando Morrem os Pêssegos, de Jácome Gol.
Foi difícil, mas terminei. E não falo apenas da faculdade, mas de outra coisa que tumultuou a minha vida: o meu trabalho final. Para quem ainda não sabe, meu projeto de conclusão de curso, em dupla com o Cavi Loos, foi a produção de uma temporada piloto de cinco episódios para um seriado de internet. Isso porque eu sou maluca e encarei o desafio de fazer algo que não domino, correndo todos os riscos possíveis, só para experimentar algo diferente.
Ainda penso que podia ter escolhido a segurança de ter feito algo que eu já faça bem para garantir a qualidade do resultado. Mas aprender a trabalhar uma narrativa audiovisual valia o risco. E olha que não foram poucos: corremos o risco de não conseguir terminar tudo a tempo da entrega, e sequer tínhamos a garantia de uma boa nota (embora, no final das contas, tenhamos tirado a nota máxima).
Da criação do roteiro ao fim das edições, foram uns três meses. Para imaginar a correria, considere ainda que as gravações das cenas dos cinco episódios foram feitas em apenas seis dias (dois finais de semana mais dois dias), sem verba alguma, e que todo o trabalho, que precisaria de uma equipe de, no mínimo, 14 pessoas, foi feito por uma equipe de 4 pessoas. Eu diria que foi um milagre, se eu acreditasse nisso. Mas foi mesmo um puta trabalho e dedicação dos envolvidos, tanto da equipe quanto dos lindos do elenco.
Agradeço a cada um deles não só por terem ajudado o seriado a acontecer, mas principalmente pelo aprendizado. Entre tantas coisas, posso destacar o que aprendi com o Caio Lins, diretor de elenco, em relação à construção de personagens. Foi incrível observar ele orientando os atores, mostrando grande intimidade com os personagens que criei, como se ele mesmo os tivesse criado – aliás, como se eles existissem mesmo. A liberdade do elenco ao construir os personagens com a interpretação me fez perceber que só quando o criador perde o controle de sua criação é que ela ganha vida. Isso com certeza vai me ajudar a escrever histórias com personagens mais vivos e convincentes. E é claro, também aprendi com os inúmeros erros. É, parece clichê, mas é isso mesmo: é com eles que a gente aprende.
Por isso, estou disponibilizando o roteiro para download (é só clicar aqui). Sei que existem uns malucos que leem de tudo e também vão querer ler isso. O que é ótimo, porque comentários e críticas serão muito, muito bem-vindas. Sério, me escrevam. Tenho certeza que posso aprender com vocês também.
Ah, e o mais importante: vocês podem ver os episódios no canal do Não Repara a Bagunça no YouTube. A temporada piloto está sendo publicada durante esta semana: todo dia, um novo episódio, às 17h. Assinem o canal, é mais fácil. Alguma coisa nesse processo todo tinha que ser, né?
Olhando a data do último post dá para ver que já faz um bom tempo que não escrevo coisa nova, e frequentemente me perguntam porque parei de escrever.
Agora respondo.

Não, não parei de escrever. Como poderia? Apenas suspendi temporariamente as atividades aqui no blog para me dedicar a um projeto megalomaníaco na qual eu me meti. Para quem não sabe, esse semestre eu me formo em Publicidade e Propaganda e estou produzindo um seriado para meu projeto final.
Isso mesmo. Um seriado. Ele se chama Não Repara a Bagunça e tem cinco episódios (se tudo der certo). Enquanto ele não fica pronto, vocês podem conferir o processo de produção e um pouco da história aqui, no blog do making of: www.naoreparaabagunca.com.br/makingof. Tem muito material de bastidores para mostrar, aos poucos vou postando.
E não se preocupem: assim que o seriado estiver pronto, volto a postar normalmente por aqui. Afinal, o que mais quero fazer depois de me formar é me dedicar totalmente ao blog (tá, e também fazer uma bela faxina aqui em casa).
Mas depois a gente conversa. Tenho gravação esse final de semana e muita coisa para preparar!

Ela achou que, se não dava para ouvir vozes no apartamento ao lado, também não iam ouvi-la gemendo um pouco mais alto na hora do sexo. O vizinho era mudo, mas escutava bem.

(recomendado para maiores)
Talvez o brinquedo sexual mais estimulante para uma mulher seja o espelho. Tsc, e lá vai ela atrás de vibradores e creminhos. Ou então, como Clarissa, lá vai ela se olhar e se achar gorda. Eram aquelas dobrinhas marcadas pelo sutiã que incomodavam, por mais que dissessem que ela era do tipo gordelícia. Francamente, isso era elogio? Vestiu a blusa rapidinho e foi trabalhar.
Chegou na redação, onde exercia a pouco atraente função de assistente de marketing. Mas gostava da sua mesa. De longe dava para localizá-la: era aquela com duas anteninhas de pompons rosa em cima do monitor. Imprimia imagens do happythings.tumblr.com e colava nas laterais da sua baia. Chegou sorrindo um bom dia para seus colegas, enquanto cantarolava uma musiquinha qualquer em francês.
Abriu o email enquanto tomava seu café. Capuccino descafeinado, na verdade.
“Fwd: Brinquedinhos de mulheres” As meninas da redação enviavam entre si, pelo menos uma vez por semana, algum e-mail com link de sacanagem. E lá estava Clarissa na tal lista. Ela até abria, dava uma olhada por cima, só para não parecer a chata.
- E aí Silvinha, gostou do e-mail?
- Gostei foi daquele amigão duplo. Imagina, que loucura!
Hahaha, e as meninas riam no corredor do café, e o máximo que Clarissa fazia era mostrar os dentes enquanto enchia seu copo de água. Que conversa desagradável. No mínimo, fora de hora. Clarissa estava com muito trabalho e, bem, com pouco assunto. Não era por falta de gostar da coisa, se é que você entende. Imagina! Até tinha seus eventuais namorados e não podia reclamar de falta de opção. Talvez de sua falta de coragem, ou quem sabe ela não tivesse tesão o suficiente. Ainda.
O problema é que, quando se tem 22 anos, esperam que você tenha uma história sexual um pouco mais extensa do que alguns amassos e um boquete bem meia-boca. Também teve aquela vez que o César baixou sua calcinha de leve, enquanto se beijavam na cama dele. Clarissa levantou na hora, negou, fez charminho, e acabaram que nunca mais se viram depois disso. Virgem, dá para acreditar?
- Não, espera aí. Você nunca fez? Nem uma trepadinha? Tá de brincadeira.
- Ah, Lilian. Ainda não achei o cara certo, sabe?
- Olha, se você fosse tatuar a rola dele, eu até ia entender a sua preocupação. Ia ser mesmo uma tragédia escolher o cara – ou o pinto errado.
Clarissa se arrependeu de ter aberto a boca, era a primeira vez que falava dessas coisas com uma colega. Não era exatamente uma colega, Lilian era sua supervisora. Estavam na casa dela, já sem o salto alto, quando ela trouxe duas cervejas geladas e se sentou no sofá à sua frente.
Clarissa já podia antecipar mentalmente todo tipo de conselho que a outra ia oferecer. Nos dias atuais, os sacrifícios de virgem ainda existiam; mas era muito mais um martírio moral do que realmente ser amarrada em um altar e, sabe-se lá, ser apunhalada com uma adaga ritual. Vergonha nem era ser virgem, era ser burra mesmo. Em tempos onde era tão fácil parecer uma safada, em que bastava um avatar mais ousado e postar links de sacanagem (ou mensagens minimamente insinuantes), parecer virgem, independente de já ter feito ou não parte dos festejos da rola grossa, é que era inaceitável. Exceto no altar, em que todas, absolutamente todas, usavam véu e grinalda, como boas donzelas. Clarissa estava tão absorta em seus inúteis pensamentos virginais, que não imaginava que Lilian estava mais interessada em fazer perguntas do que oferecer conselhos de mulher bem transada e experiente.
- Então… você não sabe como é?
- Como é aquilo? Ah, sei sim. Eu te falei, já chupei uma vez, quando…
- Não estou falando disso, Clá. Céus, você tem o pensamento tão fálico!
- Falando assim você me faz sentir uma aberração, credo.
- Deixa de ser boba. Só tira o pau da cabeça, a pergunta não tem nada a ver com pau. O que eu queria saber é se você já gozou.
Foi como se os cinco litros de sangue de Clarissa de repente circulassem no seu rosto. Como saberia dizer se já gozou, se mal fez o básico, que era transar? Pelo menos, ela imaginava o processo como uma escadinha: sexo devia ser como subir degrau a degrau, até chegar lá. E acontece que Clarissa tinha tropeçado no primeiro andar. Preferiu não explicar isso para Lilian, então deu logo a resposta mais curta.
- Hm, não.
- E você nunca teve curiosidade para saber como é?
- Até tenho. Mas acho que vai ser bem mais gostoso quando – ai meu Deus, não me ache uma idiota por isso, ok – achar o cara certo para mim.
- Quem disse que você precisa de um cara pra isso?
Lilian riu de um jeito que Clarissa até pensou, de início, que sua chefe queria comê-la ali mesmo. Então lembrou do que levou àquela conversa: desde o princípio, tudo era sobre os benditos e-mails de putaria das meninas da redação. Lilian devia estar falando dos consolos, bolinhas tailandesas e estimuladores listados no link.
- Ou você nunca ouviu aquela do Woody Allen? Masturbação é sexo com a pessoa que você mais ama.
- É, faz sentido.
Sozinha em casa, ela finalmente teve coragem de olhar o link com mais calma. Eram cacetes, pirocas e perus de todos os tamanhos, cores, formatos e materiais. Tinha um azul ciano lindo que até ficaria bem na sua mesa se não fosse, pra início de conversa, uma rola bem grande. O tal amigão duplo era um pouco assustador, e Clarissa não gostava da ideia de ser metida por uma deformação de plástico. Aliás, ela nem gostava da ideia de perder a virgindade para qualquer coisa de plástico. Que pensamento mais idiota. Clicou na seção de vibradores e estimulantes de clitóris e ficou meio perdida com tantas opções. Achou um pequenininho, de encaixar no dedo, com a seguinte descrição: “Super silencioso, dá para usar no trabalho. Inclui baterias”. Arriscou encomendar esse, claro, sem esquecer do gel estimulante mentolado.
Demorou para chegar, mas depois de tantos anos sem gozar, não era um pequeno atraso dos correios que ia fazer diferença. Primeiro testou sua nova aquisição na pele do seu braço para ver o quanto vibrava. Olhou com estranheza, tentando imaginar se isso poderia ser bom lá embaixo. Ou pelo menos tentando avaliar os riscos de levar um choque com aquilo. Bobeira, não era elétrico. Resolveu que era hora de deixar as especulações de lado, e, depois do banho, deitou em sua cama só de camisola. Encarando o teto, preparou o brinquedinho no dedo e, por debaixo do cobertor, começou as atividades.
Era uma sensação incômoda e relaxante, como se fosse um spa de cócegas. Suas pernas estavam duras: sentir que não tinha o controle daquela área estava deixando Clarissa toda tensa e insegura no manejo daquela britadeira de periquita. Tentou pensar em algo excitante, talvez ajudasse a relaxar. Ah, a vez em que chupou o Rodrigo, um dos seus últimos namorados. Tinha ficado meio sem jeito com tanta carne na sua boca, esbarrando nos dentes e encostando na garganta. Resolveu ficar só na pontinha e não investir tanta saliva, por mais que o namorado forçasse a sua cabeça para ir mais fundo, usando uma técnica que Clarissa imaginou ser usada por torturadores, mas com uma tina de água gelada no lugar do pinto. Acabou que o pescoço dela estava mais duro que o pau dele. Quando se deu conta, o namorado estava tirando um corpo mole e murcho de dentro da sua boca. É, não ia funcionar. Suas lembranças não eram muito excitantes, mas ela podia inventar uma que fosse. Por que não?
Tentou imaginar como seria se tivesse deixado César ir adiante. Ele abaixou a calcinha dela e começou a fazer carinho no meio de suas pernas – carinho que ela simulava com seus próprios movimentos conduzindo o vibrador. Hm, tinha ficado gostoso de um jeito que fez Clarissa derreter e ficar um pouco molhada em baixo do cobertor. “Mas espera, nessa posição ele vai ver a minha barriga”, e ela sentiu que precisava ser convincente para continuar funcionando. Além do mais, aquele detalhe a incomodava profundamente, de forma que ela virou de ladinho para continuar. Foi quando olhou para seus seios, que volumosos, pulavam para fora da camisola, e também se incomodou como eles ficavam caídos e meio tortos naquela posição. Revirou na cama procurando o ângulo menos constrangedor e pensou que também teria sido uma tragédia se ela realmente tivesse deixado César fazer o que ele queria quando abaixou sua calcinha aquele dia. Arrancou o estimulador do dedo e jogou contra a parede. Perda de tempo.
Chegou na redação um pouco menos bem-humorada e um pouco mais descabelada do que o normal. Nessas horas agradecia por trabalhar para uma revista de adolescentes, em vez de uma daquelas para mulheres crescidinhas que trazem na capa “enlouqueça seu homem na cama”. Mas algo no olhar da sua chefe dizia que ela não ia conseguir se livrar do assunto tâo fácil.
- E aí, deu certo?
- Do que você tá falando, Lílian?
Sua supervisora sorriu e olhou para os lados. Levantou de sua mesa, levando sua caneca de café, e sentou-se na cadeira ao lado de Clarissa. Sussurrou e olhou por cima dos óculos de aros vermelhos:
- Tô falando do brinquedinho novo que você me falou.
- Ah, não funcionou muito bem.
- Como assim, menina? Tava até pensando em pedir um pra mim também.
- É, quem sabe pra você dê certo. Mas comigo não funcionou.
- Hm, tem certeza que foi o aparelhinho que não funcionou?
- Não senti nada.
- Clá, o vibrador só vibra. O que tem que funcionar pra você sentir prazer é a sua cabeça.
- O que você está querendo dizer?
- Só tô dizendo para você encanar menos. Sei lá, abrir a cabeça, curtir, relaxar. Esquecer que precisa de homem, ou até de vibrador pra ser feliz. Deixa você mesma se amar um pouco.
Deu uma piscadela e voltou para a sua mesa e seus montes de planilhas. Deixou Clarissa cheia de coisas para pensar durante o dia. E que dia. Estava tão cheia de trabalho que nem teve tempo de abrir o e-mail de sacanagem que a Regina mandou para as meninas. Mas também não estava interessada.
Queria mesmo um bom banho quando chegasse em casa. Feito. Demorou-se na água quente e saiu do banheiro nua, secando os cabelos com a toalha. Parou na frente do espelho, pegou a escova e começou a pentear os cabelos para a esquerda, depois para a direita. De repente trocou olhares consigo mesma e imaginou uma forma de parecer diferente. Com os dedos, jogou os cabelos para trás, deixando seu rosto completamente descoberto. Por nunca ter usado o cabelo assim, ficou surpresa com a diferença que fez para o seu rosto. Brincou com o espelho, fazendo caras e bocas que a faria se achar ridícula em qualquer outra situação. Sorriu com a brincadeira boba e pegou novamente a toalha.
Então olhou para o seu corpo no espelho e afastou a toalha da frente de seus seios. Também eram interessantes, afinal. E sensíveis. Sabia o quanto era prazeroso receber alguns carinhos ali, mas eles não estavam recebendo muita atenção. O que gostava de sentir ali? Passou seus dedos de leve e ficou arrepiada: seus mamilos se eriçaram na hora. Apertava, alisava, brincava e gostava. Molhou seus dedos com saliva e tocou na ponta dos seus seios. Chegava a um novo nível de prazer, sentia suas bochechas esquentando. Continuou a tocar seus seios e virou-se para ver sua bunda, que ficava tão maior empinada naquele ângulo. A visão era ótima. Como ela nunca tinha percebido isso antes?
Sentou-se na cama, sem tirar os olhos da Clarissa do espelho. Chupou seu dedo e desceu ele pelo corpo até chegar na vagina. Estremeceu. Começou com movimentos suaves, e seu dedo deslizava bem devagar na sua pele molhada. Com a outra mão, continuou a alisar seus seios e a se divertir sentindo-os durinhos e pontudos. Não queria perder nada. Abriu bem as pernas para ver todos os detalhes e sentia cada vez mais tesão com aquela imagem, com aquele toque.
Nem percebeu quando exatamente resolveu deitar na cama, mas já estava rebolando e se esfregando em seus lençóis, ao mesmo tempo em que dedilhava a xana em todas as direções. Respirava alto, seus peitos subiam e desciam no mesmo ritmo dos gemidos. Revirou na cama até ficar com a bunda virada para cima, e levou as duas mãos para baixo, onde começou a fazer um movimento coordenado fora das possibilidades anatômicas de qualquer pau ou língua masculina. Seus dedos não eram só rápidos: sabiam o que queriam. Então Clarissa sentiu algo lá dentro esquentar e, como se fosse um espirro, explodir em algo incontrolável. O que foi isso? Ela desacelerou os dedos, mas queria continuar sentindo. Gozou?
Suas pernas tremiam, mas Clarissa continuou firme. Não enfiou um, mas dois dedos na boceta. Doeu quando entrou, mas ela estava tão louca que foi fundo e meteu sem parar. Com o rosto afundado no travesseiro, ela abafava seus gemidos que ficavam cada vez mais altos, mais fora de controle. Nem suas aulas de natação na adolescência exigiram tanto fôlego; mas eram tão molhadas quanto. Ela encontrou a posição certa, o ritmo certo, o toque certo. Quem mais poderia fazer isso? Foi mais rápido só para saber até onde ela podia ir. Então ela foi. Sim, definitivamente, ela gozou de novo.
Clarissa desmontou na cama como se fosse líquida. Sorria descabelada ainda com a cara no travesseiro. Exausta demais para se vestir, apenas se encolheu na cama, como se abraçasse sua própria nudez e a sua nova descoberta: não só a do orgasmo, mas a de que, por baixo daquela Clarissa insatisfeita com suas medidas, estava uma mulher que era um puta tesão.
Fora isso, nada mudou. Clarissa continuou a ir para o trabalho sorridente, continuou a tomar seu capuccino descafeinado, e as meninas da redação continuaram a enviar e-mails com putaria. O que nem elas sabiam é que a menina do marketing que adorava imprimir imagens do happythings.tumblr.com agora enviava suas próprias fotos, nua, para o gostosas.tumblr.com.
Outros contos eróticos:
…
Concentração é metade do trabalho de quem escreve. E dispersão é um dos meus maiores problemas. É olhar para os botões de ferramentas do Word e pronto, já estou em outro lugar. Sem falar nas escapadinhas para as outras janelas, ou aquela espiadinha rápida no twitter, ou quando aquela notificação de email novo salta na tela. Qualquer coisa. Tenho a mesma atenção de um pombo (que, hoje em dia, nem desviam mais dos carros, reparem).

Your mind, a wild monkey
Daí que na falta de ritalina, encontrei o Ommwriter. Santa indicação do Alex Tarrask. É um programa que todo escritor, redator, roteirista, ou blogueiro devia usar ou pelo menos experimentar. É simples. Bem simples mesmo: é só uma grande tela que invade seu computador e te deixa sozinho com o texto. É só o que você vê. Sem barra de ferramentas, sem outras janelas, nem as horas dá pra ver (mas aí você tem que fazer uma forcinha para esquecer que o Alt ou Cmd + Tab existe).
A simplicidade dele protege você de se preocupar com coisas inúteis, como formatação de texto, de parágrafo, ou até número de páginas (o máximo que você consegue ver é o número de palavras digitadas, e só quando você move o cursor). Você tem três opções de fundo, pode optar por colocar som no teclado, ou optar por três relaxantes sons ambiente. Ou ainda ficar com o silêncio absoluto, a escolha é sua.
Minha experiência com o Ommwriter foi bastante positiva, mas ainda é um tanto recente. Escrevi alguns posts (como esse), trechos de contos e um projeto de romance no qual estou trabalhando. Escrevi como se não houvesse amanhã. Os bloqueios existiram e existem, mas sem uma porta de escape, fica bem difícil o bloqueio se transformar em dispersão total.

O que eu vejo: só texto
Nunca experimentei meditar, mas acredito que Ommwriter seja a versão com teclado de meditação em um templo budista. No Tibete.
Essa invenção genial foi criada pela equipe de Rafa Soto, da agência HerraizSoto&Co de Barcelona. O Ommwriter é o resultado de estudos feitos para descobrir como criar um ambiente propício para a concentração e a criatividade. O programa também representa a filosofia de trabalho da agência, de dar importância às ideias, e chegaram a ganhar com ele um merecedíssimo bronze no One Show. Eles também mereciam ganhar um abraço.
Ommwriter from hs&co on Vimeo.
Não, ele não é milagroso. Não te torna um grande escritor do dia para a noite. Ele te ajuda em 50% do que você precisa, como eu disse lá em cima. O resto é com você, claro.
O programa é compatível com o Mac, PC e até iPad, e você pode fazer o download de graça aqui.
Escrevam bastante.




