Archive for April 2010

Apr/10

12

Bukowski de um conto só

Resolvi desenvolver um conto bem diferente do tipo de coisa que costumo escrever, só para ver no que ia dar. Deu nisso aqui (atenção 18+):


Bukowski de um conto só.

Bem, tinha esse cara que me mostrou uma história que tinha acabado de escrever. Na verdade, nem escritor ele era. Fazia pouco tempo que a gente se conhecia, e por isso mesmo achou melhor mostrar para mim primeiro. Ele era fã de Bukowski. Não, ele era fã mesmo era de sacanagem.

A tal história começava com “vem pra cá”, e eu já sabia que ia dar em putaria. Continuei a ler e achei a escrita de um mau acabamento tremendo. Ah, isso porque na época eu só lia coisas limpinhas. Ainda não conhecia Bukowski e achava que Misto Quente era só um sanduíche.

(É, eu só conheci Bukowski com o Carlos. Fui relutante. Mas para entender um, eu precisava conhecer o outro.)

De volta ao conto. Falava de um cara que resolvia passar o feriado de carnaval com uma menina de outra cidade. Ambos sabiam o que queriam, não havia nenhum joguinho de conquista ou algo do tipo, até porque isso combina mais com historinhas de adolescentes. A história era sobre a transa dos dois, e ao mesmo tempo não tinha nada a ver com a transa dos dois. Isso porque o cara está lá tirando o atraso, mas cheio de coisas na cabeça que a narrativa vai resgatando aos poucos. Típico de homens com casos antigos mal resolvidos.

(Sabe aqueles contistas que acham que você vai entender a porra da história como se você estivesse lá, e por isso escrevem de forma bem vaga, porque não querem se expor ao tentar falar de algo íntimo? Então. São uns enrustidos. O Carlos não, ele se jogou inteiro ali. Eu fiquei até constrangida.)

Igual ao Bukowski, não dava para saber até onde era confessional e onde ele começava a inventar. Mas era muito real. Real e autêntico, senão seria um tédio. Por exemplo, tem a parte em que a menina chupava o cara, e ele em pensamento considerava as carícias sem muita habilidade, boas o suficiente só para manter duro. Nessa hora ele já estava pensando na outra, claro. O interessante foi ver o efeito disso na cabeça dele e na forma como as coisas acabaram. Mas eu não vou contar, né? Depois trago para você ler.

Acho que você vai gostar, mas eu me arrependo de ter lido.

(Exceto porque se eu não tivesse lido, provavelmente não teria conhecido Bukowski, e aí provavelmente não estaríamos tendo essa conversa agora.)

Mas o negócio é que eu li. E o problema não foi nem saber de um suposto caso dele, narrando em detalhes a trepada que eles deram. O problema mesmo foi ter sido a única história. Única!

O que aconteceu foi o seguinte: ele resolveu parar de escrever quando a namorada dele, que não era bem namorada, mas vamos considerar assim já que eles transavam frequentemente e ele era apaixonado por ela, foi embora pro Chile. Pra Cuba. Sei lá. Foi depois disso que ele resolveu dar um fim prematuro à sua recém-iniciada carreira de escritor decadente.

Tentei motivá-lo dizendo que era uma boa história, afinal, gente escrevendo sacanagem tem aos montes, mas gente que conseguisse envolver o leitor daquele jeito estava em falta. Mas ele não deu muita importância à minha insistência. Tive que me contentar em reler o mesmo conto várias vezes, até perceber que o safado estava escondendo mais.

(Claro que estava. Alguns meses depois ele me comeu, e mais de uma vez. Ele tinha material para, pelo menos, mais um bom conto. E é uma pena, uma pena mesmo, mas por algum motivo que eu desconheço, ou por algum motivo que a garota de Cuba sabe bem, ele resolveu guardar essas histórias. E tinha uma mais ou menos assim: )

Já devia ser quase meio-dia quando acordei no sábado, e me espantei ao pegar o celular para ver as horas. Ainda mais quando vi aquela mensagem. Carlos tinha me mandado às duas da manhã e dizia: “sem martírios”. Franzi a testa incomodada. “Mas que diabos?” E então lembrei que eu não tinha bebido tanto assim para fazer algo do qual eu me arrependesse na festa de ontem. Talvez tivesse falado mais do que devia, mas aí já era outra história.

No dia anterior, eu e alguns amigos da faculdade saímos para o aniversário da Marina, e o Carlos resolveu ir junto. Fazia um tempo que eu não saía com o pessoal; esse negócio de ficar sempre amarrada com namorado exige lá seus sacrifícios. Então aproveitei para dançar bastante e beber um pouco, coisa que geralmente não tinha oportunidade de fazer.

(Nas horas em que eu me sentava, e o Carlos estava lá em todas elas, era só sobre isso que eu falava. É claro que meu namoro estava ok, mas eu nunca cheguei a ficar mais de um mês solteira para conhecer a real angústia de ficar sozinha. E ele achando muito engraçado, apontou pro Henrique, bebendo à beira da piscina, e perguntou se era isso que eu queria: “sozinho há tanto tempo que nem consegue mais chegar em outra pessoa”. Acho que foi daí que ele tirou o “sem martírios” que mandou por sms: era meio que para eu não me sentir mal por essa situação, e ele era muito bom nisso. Confesso.)

Lá pelas tantas da festa, a minha boca estava seca e meus sentidos embaralhados. Levei meu copo para reabastecer e o Carlos veio em minha direção. Perguntou quem eu estava procurando, e respondi como quem fala de um grande amigo: “Vodca!” Ele sorriu, tirou o copo da minha mão e me levou até onde o pessoal dançava: “Não tem mais vodca. Acabou.” Fiquei sinceramente puta e disse para ele não tentar bancar o namorado. Aquele tipo de besteira que a gente só fala porque bêbado tem licença poética. Mas ele nem ligou muito.

Tanto é que mandou o sms, não mandou? Isso significava que eu ainda podia contar com a ajuda que ele me ofereceu para embalar minhas coisas no sábado. O namorado estava trabalhando no final de semana de novo, e eu de mudança na próxima quarta. Bem, eu liguei.

Ficou combinado dele vir à tarde e trazer a caixa de ferramentas. Eu ia precisar de ajuda para desmontar algumas prateleiras e a cama. Nada como um pouco de trabalho braçal em pleno sábado, han. Quando ele chegou, lá pelas cinco, eu já tinha encaixotado alguns livros e estava espantada com a quantidade de poeira que as apostilas são capazes de acumular.

Ele desceu mais alguns quilos de livros da prateleira de cima e se sentou ao meu lado no chão. Incrível como o trabalho conseguiu ficar duas vezes mais lento, mesmo sendo feito por duas pessoas.

(Eu tinha alguns livros do Stephen King, e toda vez que ele pegava um para guardar na caixa, a gente ficava jogando conversa fora sobre ele. Era um dos poucos gostos literários que a gente tinha em comum. Como eu já disse, ele gostava de Bukowski e de umas músicas mais alternativas que não faziam meu tipo.)

Quando as prateleiras ficaram vazias, ele deu a ideia de lancharmos antes de desmontar tudo. Achei uma boa, minhas costas já estavam todas doloridas e nem tinha chegado na parte difícil. Trouxe para a sala refrigerante e uns croissants bem sem-vergonhas de padaria. Já era início de noite quando paramos de enrolar e Carlos começou a desenroscar os parafusos. Enquanto isso, eu dava um jeito de desocupar a armação da cama e abrir espaço suficiente no meu quarto pequeno para ele conseguir desmontar tudo. Joguei o colchão na sala e parei para dar uma olhada no trabalho dele.

(Olha, eu podia estar olhando para qualquer coisa, menos para o trabalho. Não sou nenhuma tarada ou algo do tipo, mas ele ali sentado e concentrado me deu um tesão que me deixou até desconcertada. O cara ali me ajudando e eu excitada com o jeito que ele desfazia as voltinhas do parafuso. Que foi isso, hein?)

Ajudei o Carlos a tirar da parede e guardar as prateleiras em seus lugares devidos. E foi mais ou menos nessa hora que acabou a luz. Assim, de uma vez, como quem leva um soco na cara e de repente fica tudo escuro. E o pior é que tinha acabado na rua inteira. Breu total. “Ah, tá de brincadeira, né”. Nem acreditei que falei isso alto, não era a intenção. Peguei meu celular e tentei ajudar o Carlos a encontrar as chaves do carro. Mas ele disse que não, o que é isso, fazia questão de ficar, ainda tinha a cama para terminar, e a luz voltava rapidinho, eu ia ver só. Eu sentei no colchão que tinha largado ali e ele sentou logo depois.

Conversamos trivialidades, que na verdade serviam para disfarçar um campo invisível de tensão sexual entre nós que já existia desde a festa passada – ou que talvez já existisse desde a primeira vez que me mostrou aquele conto. Enfim, não importa. O que importa é que estava um escuro desgraçado, ele deitado e eu sentada ao lado dele, ele dando alguns sinais, e eu já nem me dando ao trabalho de considerar se devia ou não. Quando me dei conta, já estava debruçada sobre ele.

Estranhei minha língua dentro da boca dele, e ele usava a língua para acomodar a minha, beijando vigorosamente e me puxando para mais perto, como se já não bastasse a ação da gravidade do meu corpo sobre o dele.

(Você sabe que é um caminho sem volta quando o cara te vira na cama e ele deita em cima, deixando você sentir o tamanho do tesão dele quando aproxima aquele volume de você, bem no meio das suas pernas abertas. Pois é, foi quando eu senti que já era.)

Ele me pôs sentada para conseguir me acariciar melhor e continuamos a nos beijar. Em um lampejo, a luz estava de volta. Ele nem abriu os olhos e impediu que eu desgrudasse da boca dele. Tateou a parede ao lado dele até encontrar o interruptor e o desligou. Voltamos para a escuridão total, onde tudo que havia eram mãos explorando territórios ainda desconhecidos, e logo já não havia roupas para impedi-las.

Abri o zíper da calça dele, respirei fundo e comecei a chupar. De olhos fechados, tentava imaginar que não era a primeira vez que fazia com ele, para poder me dedicar com mais paixão e sem aqueles pudorezinhos. Agora que não tem volta, vai fundo, minha filha. Até porque a essa altura, não ia querer que ele achasse que estava bom o suficiente só para manter duro. Não senhor, eu ia dar trabalho caso ele estivesse tentando pensar na outra.

Mas quando foi o turno dele, tirou minha calcinha e fez um oral como há tempos eu não recebia. Aí esqueci da outra, do conto, do namorado. De tudo. Enquanto ele me beijava a buceta, eu acariciava seus cabelos curtos e segurava com força quando ele merecia.

Puxei-o para perto de mim, para dentro de mim. E ele veio deslizando. A gente ficou se curtindo um tempão, experimentou outros ângulos, ele viu o que eu conseguia fazer com as pernas, e eu fui entrando no ritmo dele.

(Nenhum dos dois estava com pressa, e eu podia ficar ali a noite inteira. Mas a ansiedade foi tomando conta de mim, ou algum outro tipo de bloqueio, sei lá. Nada que impedisse de continuar gostoso, mas eu estava quase entrando em combustão de tão louca, e não gozava de jeito nenhum. Sei lá se era medo, culpa, mas acho que a falta de uma intimidade prévia com o Carlos contou um pouco.)

Ele decidiu terminar. Ainda não tinha gozado e ainda estava no ponto de continuar, mas a gente simplesmente estava exausto. Ele deve ter passado pela mesma ansiedade que eu, mas parecia satisfeito. Eu fiquei frustrada de início, mas quando deitei do lado dele entendi que a falta de um orgasmo não estragava uma trepada tão boa.

Levantei ainda nua e fui até a janela, onde observei a rua, já toda iluminada novamente. Ele ficou do colchão, me observando das sombras. Ele brincou que queria ter uma câmera fotográfica naquela hora. Queria captar aquela imagem, disse que a iluminação estava perfeita. E eu já respondi bem direta: “Vai inventar de escrever um conto sobre essa transa também?” Ele respondeu sorrindo que era melhor não. Ah, que desperdício.

Ele mudou de assunto e me chamou para deitar com ele ali e dormir. “Tá louco? Meu namorado vem me buscar amanhã de manhã.” Um tanto desapontado, perguntou: “Não posso dormir aqui então?” Respondi sorrindo que era melhor não. Afinal, nem tudo pode ser fácil para um Bukowski.

Espero por mais. Depois eu te conto.


, ,

Voltar ao topo