Archive for June 2010

Jun/10

30

Briefing de Microconto

Aquele atendimento fazia bem mais que só encaminhar email do cliente: ele sempre acrescentava um URGENTE no final.

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Jun/10

29

Microconto de RSS

Eram tantos feeds que ele parou de ler a vida.

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Post sobre Lost tá sempre em tempo. Certo, Faraday?

O que posso dizer sobre Lost sem ser, de cara, passional demais? Foram seis anos de uma história que fez jus ao seu nome do início ao fim. Começou com personagens perdidos em uma ilha, que depois ficaram perdidos no tempo, fazendo a série perder audiência, sem antes deixar os fãs perdidos no meio de tanto mistério, terminando com roteiristas mais perdidos que todo mundo até agora – e com o sentimento que a gente perdeu tempo assistindo.

A série dividiu opiniões e foi uma divisora de águas, sendo a percursora de uma mudança na forma de pensar e consumir entretenimento. Ok, até pode não ser um bom exemplo de fechamento de narrativa, que definitivamente não correspondeu a todo o potencial que a série possuía no início, mas sem dúvidas Lost foi um dos cases mais bem sucedidos de transmedia storytelling. Não tiro a razão de quem esbraveja contra a habilidade narrativa dos condutores da história (até porque faço parte do time que nutre um sentimento de revolta desde que começou a última temporada), mas é inquestionável: há algum mérito em fazer com que uma pessoa permaneça ligada a uma série televisiva durante cinco anos consecutivos e VIVA (sim, viva, e não apenas assista) uma história com tanta intensidade durante todo esse tempo.

Elenco de Lost reunido

Não vou chover no molhado e ficar discorrendo longamente sobre cada furo da sexta temporada e sobre o nível juvenil da narrativa, coisa que o Gravataí já fez melhor aqui e aqui. Só quero expor uma análise dos pontos principais, sob a perspectiva da narrativa (além de deixar claro que detestei e que não houve um momento em que não pensei que a autoria do roteiro houvesse sido passada para um grupo de adolescentes com sério déficit de neurônios. Essa de purgatório e igrejinha no final para irem juntos para o céu não colou. Por mim, se os jovens da Caverna do Dragão se cruzassem com os heróis de Lost para todos irem juntos para casa, o final ia ser muito mais convincente).

Apesar de já estar meio capenga na quinta temporada, acho que a história podia ter terminado por ali mesmo, com a explosão da bomba H. Não ia ter respondido metade do que a sexta temporada tentou porcamente fazer, mas ia ser um final digno. E convenhamos, ia fazer mais sentido.

What lies in the shadow of statue? Taí uma pergunta que seria melhor não ter respondido. Jacob? Não, obrigada.

Acredito que o maior erro dos roteiristas foi tentar explicar todos os mistérios que haviam criado para a ilha. A pressão devia estar forte para o lado deles, pois o dinheiro está sempre no banco do motorista e os produtores executivos precisavam chamar de volta os espectadores, com a promessa de que todos teriam as respostas que queriam. Tá certo que era uma expectativa geral, todo mundo assistia o capítulo seguinte na esperança de encontrar uma explicaçãozinha que seja, mas as coisas eram melhores quando NÓS, os espectadores, chegávamos nas respostas. Na sexta temporada, o caminho se inverteu, e foram as respostas que começaram a chegar até nós, de uma forma bem forçada, diga-se de passagem. Saber construir, e acima de tudo, manter perguntas na cabeça do espectador é a principal arte de quem escreve suspense. E é uma linha tênue: perguntas demais confundem e aborrecem o leitor, sem falar que podem acabar em frustração se não forem satisfatoriamente respondidas no desfecho. Eu particularmente, acho muito mais provocante e envolvente uma história que deixa um final em aberto, para que eu participe da história com a minha própria imaginação. E quantas perguntas eles não trocaram por respostas rasas, quando não por sumários pontos finais?

A Iniciativa Dharma dava um gostinho especial para a série.

O que nossos ilustres escritores lostianos fizeram foi justamente o que todo mundo faz quando já não consegue explicar nada racionalmente: parte para o mítico, o sobrenatural. Lost era a representação perfeita do gênero sci-fi fantasy, equilibrando bem essas duas vertentes até desandar e deixar o sci-fi perdido no meio do caminho, provavelmente em algum dos lapsos temporais decorrentes dos soluços espaço-temporais da ilha. Se essa historinha de céu e purgatório já não colou, imagina então o Jacob, que fez papel de figura divina da ilha, como protetor de uma espécie de fonte sagrada da vida . Perceba que essa consciência de que existia uma força poderosa na ilha já está presente desde o início, e apenas se reforçou na segunda temporada, em que apareceu a Iniciativa Dharma. Tanto nesta fase quanto no final, temos essa fonte de “poder”, alvo de muita cobiça e envolta de mistérios. A diferença é que no início esse mistério dava muito mais pano para manga, e ao mesmo tempo em que nos enchia de perguntas, ia mostrando o significado e o porquê daquilo tudo, através das experiências científicas envolvendo eletromagnetismo, meteorologia, parapsicologia e zoologia (sim, eu sou uma fã da fase Dharma); enquanto no final a “grande explicação” se resumiu em dizer que todo esse poder vinha de uma gruta com uma água mágica e uma rolha que se tirada do lugar destruíria a ilha e libertaria todo o mal. Totalmente desnecessário.

Outro grande ponto que a série tinha conseguido desenvolver, até estragar tudo na sexta temporada, eram os personagens. A relação entre eles, a motivação de cada um e a relevância deles para a história, era tudo muito consistente. Poucas vezes tive contato com personagens tão profundos e bem construídos quanto os sobreviventes do vôo 815, assim como os Outros (afinal, Juliet e Ben figuram entre os melhores personagens da série na minha opinião, juntamente com Desmond e Faraday). Mas para que eles se perdessem (no sentido narrativo) foi um pulo. O casal Jin e Sun teve uma participação inexpressiva, Sawyer não deixou nem pálida sombra do que já foi um dia, Ben abandonou os mind games que o consagraram como vilão dos bons e velhos tempos de Dharma, Richard (ou Ricardus) mostrou ser nada mais que um cagão que nunca teve relevância no grande esquema da ilha, Sayid virou um zumbi (ponto), e nem Widmore cumpriu as expectativas do personagem poderoso e com moral para acabar com toda aquela história que ele parecia ser. Tudo isso para que Jack pudesse aparecer mais, e olha que ele conseguiu ficar ainda mais seboso e cansativo do que já era.

Se vir esses caras na rua, pode bater. O roteirista Carlton Cuse com o roteirista e criador Damon Lindelof

Aí vai a gota d’água: o detalhe é que os roteiristas não sabiam o que estavam fazendo. Rá, e todo mundo achando que eles tinham tudo friamente calculado desde o início. Coisa nenhuma. Olha só essa entrevista que encontrei, com JJ Abrams, um dos roteiristas e criadores da série:

O final da série é aquilo que você pensou que fosse ser desde o início?

JJ: Ah, de jeito nenhum! Há pequenos temas e elementos espalhados, mas a verdade é que quando começamos não sabíamos exatamente o que havia na escotilha. Tínhamos ideias, mas não sabíamos até onde poderíamos explorá-las. A noção sobre o papel dos Outros existia, mas não sabíamos exatamente o que eles significariam. Àquela altura Damon ainda não havia tido a ideia do flash forward. Ver onde chegamos e o que eles criaram é muito gratificante e algo que ninguém poderia prever no início de tudo.

Certamente haviam inúmeras possibilidades de terminar melhor essa história. Mas assim como eles não puderam prever o futuro da série, também não é possível voltar no tempo e tentar consertar a lambança. E para o fim dessa era Lost, que vai deixar muita saudade de uma história bem contada, assim como muita revolta de um final mal contado, só tenho uma coisa a dizer:

See you in another life, brotha.

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Jun/10

28

Microconto de Esquina

Essa é a história de Bete e Luiz: ele esbarrou de leve no cotovelo dela quando atravessaram a rua. Nunca mais se viram.

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Em crise.

Vira e mexe estou às voltas com as mesmas crises de sempre. Não as crises políticas, tampouco as financeiras – embora estas sejam responsáveis pela metade dos problemas de todo mundo -, mas as crises autorais. Aquelas, de deixar escritores em desespero. Se eu pelo menos fosse um, o quadro não estaria tão ruim.

Cheguei a uma fase em que o menor dos problemas é o backspace teimando em diminuir, retroceder, fazer desaparecer as linhas escritas com tanto suor, tanto sofrimento. Sequer existe algo para ser apagado. Se fosse em outros tempos, teria o estranho prazer em encher minha lixeira com papéis amassados, que eu arrancaria da máquina de escrever depois de surrar no papel  palavra por palavra, com aquele tec tec que encheria toda a sala – e minha cabeça. Hoje as teclas estão todas aqui e cada um dos dedos já sabe seu lugar, mas olho para elas e a tela continua vazia.

Quer dizer, e todas aquelas histórias que eu tinha? Todos aqueles assuntos? Tem uma hora em que simplesmente acaba? E aí depois de todo esse tempo sem escrever, volto assim, de mãos vazias, e tudo o que resta para compartilhar é essa coisa meio confessional – e confesso: isso nunca fez meu estilo -, mas só porque não quero deixar essa tela em branco. Só porque não posso deixar mais um dia em branco.

Achei que sendo redatora eu estaria mais perto de trabalhar com o que eu gosto. Mas, ao mesmo tempo em que crio e escrevo bastante, acho que nunca estive tão distante de trabalhar com o que eu gosto. Publicidade não é tesão o tempo inteiro. Acho que literatura menos ainda – exceto se você for um badalado escritor que ganhe dinheiro fácil, tipo Paulo Coelho ou Stephenie Meyer. Mas a questão é que na publicidade o meu escrever está condicionado ao que o cliente quer, ao que ele precisa. E no meu esforço de chegar a ser uma boa redatora (já que falta aquele talento maroto, aquele talento raiz, que imagino ter sido um belo atalho na vida dos grandes e premiados redatores), eu me anulei no mais importante: deixei de escrever para mim mesma. Deixei as minhas histórias de lado para me empenhar em escrever histórias para marcas. Continuo entretendo o público, contando histórias. Mas não as minhas.

Não que seja um problema escrever sob essas circunstâncias. Eu escolhi publicidade, afinal. Acho que se eu tivesse escolhido qualquer outra coisa, tipo Letras, eu seria uma puta pedante chata e limitada. Mas acho que essa coisa de ser “artista” equilibra as coisas. Saber que posso sentar aqui e contar uma história, e saber que haverá alguém do outro lado para ler, e saber que o que eu escrever não vai precisar ser aprovado por ninguém antes disso acontecer.

Tipo agora. Vê se um troço todo “meu querido diário” como esse seria aprovado, se não fosse meu desespero em escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Mas se tem uma coisa que aprendi com um amigo foi nunca me desculpar por nada que eu escreva ou publique. Porque decidi que vou escrever sem pudor, sem escrúpulos, sem vergonha. Soltar o braço. É isso ou me conformar em não saber mais o som que o teclado faz quando digito furiosamente, sem parar.

Agora se me dão licença, preciso acordar cedo amanhã. A redatora ainda tem um monte de jobs esperando por ela.

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Jun/10

27

Microconto de Livraria

Ela não ia precisar da ajuda do vendedor. O que ela queria mesmo era ser escolhida ao acaso por algum livro.

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