A redatora que sentia saudades de escrever

Vira e mexe estou às voltas com as mesmas crises de sempre. Não as crises políticas, tampouco as financeiras – embora estas sejam responsáveis pela metade dos problemas de todo mundo -, mas as crises autorais. Aquelas, de deixar escritores em desespero. Se eu pelo menos fosse um, o quadro não estaria tão ruim.

Cheguei a uma fase em que o menor dos problemas é o backspace teimando em diminuir, retroceder, fazer desaparecer as linhas escritas com tanto suor, tanto sofrimento. Sequer existe algo para ser apagado. Se fosse em outros tempos, teria o estranho prazer em encher minha lixeira com papéis amassados, que eu arrancaria da máquina de escrever depois de surrar no papel  palavra por palavra, com aquele tec tec que encheria toda a sala – e minha cabeça. Hoje as teclas estão todas aqui e cada um dos dedos já sabe seu lugar, mas olho para elas e a tela continua vazia.

Quer dizer, e todas aquelas histórias que eu tinha? Todos aqueles assuntos? Tem uma hora em que simplesmente acaba? E aí depois de todo esse tempo sem escrever, volto assim, de mãos vazias, e tudo o que resta para compartilhar é essa coisa meio confessional – e confesso: isso nunca fez meu estilo -, mas só porque não quero deixar essa tela em branco. Só porque não posso deixar mais um dia em branco.

Achei que sendo redatora eu estaria mais perto de trabalhar com o que eu gosto. Mas, ao mesmo tempo em que crio e escrevo bastante, acho que nunca estive tão distante de trabalhar com o que eu gosto. Publicidade não é tesão o tempo inteiro. Acho que literatura menos ainda – exceto se você for um badalado escritor que ganhe dinheiro fácil, tipo Paulo Coelho ou Stephenie Meyer. Mas a questão é que na publicidade o meu escrever está condicionado ao que o cliente quer, ao que ele precisa. E no meu esforço de chegar a ser uma boa redatora (já que falta aquele talento maroto, aquele talento raiz, que imagino ter sido um belo atalho na vida dos grandes e premiados redatores), eu me anulei no mais importante: deixei de escrever para mim mesma. Deixei as minhas histórias de lado para me empenhar em escrever histórias para marcas. Continuo entretendo o público, contando histórias. Mas não as minhas.

Não que seja um problema escrever sob essas circunstâncias. Eu escolhi publicidade, afinal. Acho que se eu tivesse escolhido qualquer outra coisa, tipo Letras, eu seria uma puta pedante chata e limitada. Mas acho que essa coisa de ser “artista” equilibra as coisas. Saber que posso sentar aqui e contar uma história, e saber que haverá alguém do outro lado para ler, e saber que o que eu escrever não vai precisar ser aprovado por ninguém antes disso acontecer.

Tipo agora. Vê se um troço todo “meu querido diário” como esse seria aprovado, se não fosse meu desespero em escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Mas se tem uma coisa que aprendi com um amigo foi nunca me desculpar por nada que eu escreva ou publique. Porque decidi que vou escrever sem pudor, sem escrúpulos, sem vergonha. Soltar o braço. É isso ou me conformar em não saber mais o som que o teclado faz quando digito furiosamente, sem parar.

Agora se me dão licença, preciso acordar cedo amanhã. A redatora ainda tem um monte de jobs esperando por ela.

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