Archive for August 2010

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Uma historieta de arrepiar

O que seria de um escritor sem um pouco de história verídica de vez em quando, não é? Por isso mesmo, hoje a história é da minha vida.

Nem sempre eu fui assim, de esquerda (e calma lá: antes de fazer cara feia e desistir do texto, pelo menos me deixe mostrar que isso não é tão mau. Afinal, só usei esse palavrão porque realmente não tinha outra forma de começar).

nullHoje em dia, estou do lado de cá por acreditar que o papel do Estado na sociedade deva ser o de garantir que todos tenham direitos iguais. Essa é a finalidade que dá um sentido para o Estado existir. Ele deve trabalhar para que todos tenham iguais condições na sociedade, com acesso à cultura, informação, saúde, moradia, trabalho e educação.

Vamos combinar que a direita não compartilha dessa visão. E como eu não faço parte da fatia privilegiada pelos interesses do lado de lá, simplesmente não faz sentido eu ser de direita (e sim, houve um tempo em que eu não era de esquerda. Mas nessa época isso não fazia a menor diferença, já que eu era adolescente, meio besta, e não dava a mínima para qualquer coisa que não fizesse parte do meu mundinho limitado).

Você deve estar se perguntando onde raios eu quero chegar com tudo isso. Simples: na história de como tudo isso começou. Já ouviu falar do ProUni?

nullEssa foi a ótima ideia de alguém que percebeu o quanto era difícil para pessoas de baixa renda entrarem na faculdade. Apesar de gratuitas, as universidades federais exigem de seus candidatos ao vestibular um nível de conhecimento que as escolas públicas ainda não oferecem. Resultado: a maioria dos estudantes das universidades públicas vem do ensino privado, de famílias ricas. É uma concorrência desleal. Resta o quê? As universidades e faculdades privadas, que poucos podem pagar.

É aí que entra o Programa Universidade Para Todos: para quem fez o ensino médio em escola pública, tem baixa renda e não consegue entrar em uma universidade federal, por estar disputando a vaga com candidatos muito superiores, vindos de escolas particulares, o Estado tem a obrigação de pagar pelos estudos da pessoa em uma faculdade privada. Garantir direitos iguais, lembra?

Pois é. E eu, que tentei tantas vezes entrar na UnB (Artes Plásticas e Desenho Industrial, pasmem), já estava familiarizada com a rotina de fazer aquela prova medonha. A cada vez que eu reprovava, ficava mais claro que eu nunca conseguiria fazer um curso superior. Pelo menos não daquela forma.

Como quem não quer nada, resolvi fazer novamente o Enem. Na época, era uma prova que todo mundo que estivesse terminando o terceiro ano precisava fazer. Quer dizer, precisar não precisava, mas pelo menos nas escolas públicas, os alunos eram encorajados a fazer. Eu já tinha feito o Enem quando terminei meu ensino médio, e no semestre seguinte repeti a dose; mas tinha encarado mais como um exercício para o vestibular da UnB. Então resolvi fazer uma terceira vez, e o “como quem não quer nada” ali em cima é mentira. No meu segundo Enem, eu tirei uma nota PÉSSIMA na prova de redação. Tenho que admitir: foi puro revanchismo que me levou a fazer a terceira vez. Porra, aquilo não podia ficar assim!

Eu já sabia que o Enem era a ferramenta que o ProUni usava para dar bolsas de estudo para as melhores notas. Mas só caiu a ficha que eu finalmente ia ter a chance de cursar o ensino superior quando chegou o resultado do meu exame. Não, na verdade só caiu a ficha quando eu consegui respirar, depois do choque de ver minha nota em redação: 97. Eu queria tanto ver esse texto de novo, não lembro se era realmente tão bom.

Parece coisa do destino: um texto meu abrindo as portas para que eu entrasse na faculdade. E não foram só essas portas que se abriram. Virar universitária foi como ganhar um bilhete que eu podia usar para conseguir o que eu quisesse, transitar sem limites (e nem estou falando da meia entrada, hehe). Foi como cruzar uma linha, onde do outro lado eu poderia ter uma vida radicalmente diferente.

(entra flashback: Aline morando em uma cidade de interior, sem a menor perspectiva, ganhando alguns trocados escrevendo trabalhos de faculdade para os outros, dando aulas de desenho e acreditando que, com mais uns anos de estudo, conseguiria passar em um concurso, e assim não precisar mais entregar currículo aleatoriamente)

Agora cá estou eu, estudando no melhor curso de Publicidade de Brasília; atualmente trabalhando no mercado publicitário, já tendo passado por três agências (e olha que nem sou formada ainda); tendo uma renda consideravelmente melhor; e ganhando horrores de dinheiro com contos eróticos (ok, essa última é mentira).

Sem falar de outros ganhos: fazer uma faculdade expandiu meu universo. Conheci coisas que antes não imaginava existir, descobri talentos que eu não imaginava ter. Passei a ter maior contato com pessoas diferentes, mais acesso à cultura e informação. Toda essa invasão de coisas, pessoas, culturas, aprendizados, fez de mim o que sou hoje. Alguém muito melhor – aliás, muito maior.

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Lula na formatura dos primeiros bolsistas ProUni de Medicina. Ele bem que podia aparecer na minha formatura também, hein.

Agora imagina: outras pessoas que foram beneficiadas com o ProUni também passaram ou estão passando pela mesma transformação. Uma pesquisa registra a mudança positiva que aconteceu na vida dessas pessoas, que reflete a história que estou contando e não me deixa mentir. De 2005 pra cá, quando começou o programa, com Lula e Fernando Haddad, foram cerca de 500 mil beneficiados, e ainda são previstas pelo MEC mais 60 mil bolsas só para esse segundo semestre.

A longo prazo, isso significa uma verdadeira revolução social. Revolução porque está mexendo com a estrutura da coisa toda. A história muda para uma pessoa e a história da sociedade muda junto: mais pessoas bem informadas, com maior poder de consumo, mais cultura, e mais chance de passar melhores condições de vida para a geração seguinte.

Isso tudo dispensa mais explicações sobre porque eu apoio políticas de governo voltadas para o social, né?

E minha história como bolsista não termina aqui. Ainda pretendo fazer um mestrado na área de comunicação, estudar fora, poder me dedicar à vida acadêmica, e contribuir com todo esse conhecimento adquirido para devolver à sociedade o investimento que o governo está fazendo em mim. Quem sabe até lá surjam outras histórias como essa, para que finalmente alguma coisa mude na história do País?


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Aug/10

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Microconto do dia seguinte

Quando transaram, Julia gozou, apaixonada. Quando se viram no dia seguinte, foi como se nada tivesse acontecido. Julia sofria de amnésia.

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Aug/10

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Inquilino

Conto originalmente publicado no site PSV Crônicas, onde participei do Desafio 3: Vazio, ficando com o segundo lugar! :) Foi uma experiência muito bacana participar desse desafio, e nem digo pelo prêmio, que não foi meu objetivo quando resolvi escrever; minha satisfação foi, de fato, escrever este conto, e depois, ver a reação super positiva dos leitores. Tenham certeza de que apenas isso já valeu o desafio pra mim. Deixo vocês com o conto, e não deixem de conferir os outros textos que participaram do desafio aqui.

Agosto é quando se consegue os melhores apartamentos nessa cidade. Quer dizer, se o que você está procurando é aluguel. Eu tenho certa experiência nisso, porque sempre morei de aluguel (minto: uma vez fui dono de um terreno durante um bom tempo, mas depois construíram um shopping lá). E é mais ou menos nessa época que a maioria dos contratos acaba, ou que os inquilinos resolvem ir atrás de um lugar melhor. Deve ser porque é inverno, e aí eles percebem que o lugar é uma merda quando faz frio (engraçado como as pessoas, mesmo em cidades grandes, se parecem com aqueles animais que migram no inverno).

Eu tenho meus contatos, acabo descobrindo onde vai abrir alguma vaga. Chego no apê (os antigos moradores ainda estão empacotando as coisas), avalio o espaço, vou direto na janela ver se tem uma boa vista – e uma boa tranca. Sempre vejo as trancas. Se estão funcionando direito, se são seguras. Não é nenhum transtorno obsessivo compulsivo, é precaução. Uma vez fui morar em uma casa no subúrbio. Era um muquifo, mas muito espaçosa. Daquelas que até sua respiração faz um eco enorme. Mas o portão não era muito seguro e as trancas das janelas muito fáceis de arrombar. Um bando de viciados achou que era um ótimo lugar para se esconder durante a noite, sem se intimidar com o fato que eu estava morando ali. Lógico, saí de lá no dia seguinte.

Ok, deu para entender que eu só me mudo se o lugar tem uma tranca que se garante, certo? Quando escolho o apartamento, já estou morando lá no dia seguinte que o pessoal antigo desocupa o espaço. Sempre carrego pouca coisa. Com essa minha vida errante, vi que era um desperdício ter muitos móveis, muitas roupas, muitos livros. Afinal, nunca sei se no próximo lugar que vou morar vai ter espaço para tanta coisa. E espaço pra mim é importante. Por isso, quanto menos coisa tiver, melhor. Aumenta a sensação de espaço.

Eu gosto de sossego. Não sou aquele vizinho problemático, que faz barulho, faz fofoca, faz sujeira. Eu fico quieto no meu canto, mas não vem bater na minha porta não. Eu finjo que nem estou. É assim que construo a minha política da boa vizinhança: cada um no seu quadrado.

Eu só tenho um pequeno probleminha, que são as contas. Chega uma hora que eu não consigo deixar em dia, e elas começam a acumular na caixa de correio. Claro que o pessoal da imobiliária fica puto, mas sempre arrumo um jeito de ficar mais um pouquinho. Quando não dá mais, eles arrumam outro inquilino e eu me mando para outro canto. Não dá pra ter muito apego, sabe?

Mas com o apartamento da 112 a história foi diferente. Eu realmente gostava daquele lugar. E eu já estava morando lá há quase um ano. Vizinhança tranquila, bairro mais afastado do centro, trancas seguras, sala bem espaçosa, uma boa acústica – daquelas que deixam o eco bem bonito. Quando eu me mudei para lá, era até semi-mobiliada. Perfeito, né não? Só que meu contrato estava chegando ao fim e parecia que já tinha gente interessada no lugar. Mas bati o pé: não ia sair de lá nem fudendo. Passou um mês nisso e aí a imobiliária resolveu me fazer uma visitinha.

Quando olhei pelo olho mágico reconheci na hora aquele engomadinho do outro lado. Silvino era o corretor encarregado de alguns apartamentos naquela área. Pobre coitado, porque era difícil pra burro conseguir inquilino para qualquer apartamento naquela área.

Convidei ele para entrar, pedi para não reparar na bagunça. Ele fez uma cara meio incomodada, porque eu não estava usando nada. Mesmo assim me encarou e foi direto ao ponto: “senhor, você já deve saber que vim falar sobre sua permanência no imóvel. Ainda essa semana ele terá que ser desocupad- Quer dizer, terá que ser ocupado.”

Eu até que ia oferecer algo para ele beber, mas a geladeira estava vazia. “Seguinte. O lance é que eu não vou sair daqui, a não ser que você me dê um bom motivo para ser despejado.”

“Um bom motivo é que enquanto o senhor ocupa o lugar, a gente não ganha nada. Precisamos receber aluguel.”

“Ah, mas isso de pagar aluguel não estava no meu contrato.”

“Contrato? Olha, o problema é que as coisas ficaram meio informais. Você não tem um contrato assinado” (acho que ele sempre quis ser advogado, pelo jeito que riu e ajeitou a gravata)

“Como não? Pode olhar aí nos seus papéis. Vê o que diz na ficha sobre o imóvel. Olha direitinho.”

Ele abriu a pastinha velha e puxou alguns papéis. Encontrou a ficha, leu com cuidado (mexendo os olhos pra lá e pra cá) e sua boca repuxou quando respondeu, meio desgostoso: “vazio.”

“Viu só. Eu assinei.”

“Mas… Ora, veja bem. Você sabe o que significa isso. As coisas funcionam assim: alguém vem morar aqui e você desaparece. Já tenho pessoas interessadas, então o imóvel não vai mais poder ficar vazio.”

“Deixa eu te dizer como as coisas funcionam. Eu sou um inquilino como qualquer outro, e não simplesmente a ausência de alguma coisa. Eu tô aqui, não tô? Não dá pra se desfazer do vazio. Você enche algo e o vazio vai para outro lugar. É assim que as coisas funcionam, cara. E no momento não tô afim de ir pra lugar nenhum.”

“Hm, ir para outro lugar…”

Silvino teve uma ideia aquela hora, pensou bastante e me fez uma proposta indecente. Um apartamento com o dobro do tamanho, a duas quadras dali, trancas seguras, sossego total. Ele ia arrumar um jeito de eu poder ficar lá por quanto tempo eu quisesse, sem problemas quanto ao aluguel. Eu só ia precisar dividir o apartamento por alguns meses com a atual moradora.

Eu nunca tinha morado com ninguém antes, então fiquei curioso para ver como isso poderia acontecer. Ok, fechei o negócio e me mudei no dia seguinte. Realmente, o apartamento era uma belezura. Mobília retrô, do jeito que eu gosto. Além do mais, vi que ia me dar bem com a moradora. D. Mitres era uma senhora, já surda, que morava no apê às custas dos netos ricaços (que aliás, nunca iam visitá-la). Uma ótima companhia.

Morreu pouco tempo depois e fiquei com o lugar só pra mim. O único problema foi ter que morar com o cadáver da velha por quase um mês. Eu podia ter esperado agosto para encontrar um lugar melhor, mas preferi me garantir e ficar por ali mesmo. O apartamento compensava. Além do mais, sabe como é: hoje em dia especulação imobiliária não está para brincadeira. Nem para um vazio como eu.

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