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Tesão e trabalho

Isso de ser redator não é para quem gosta de escrever. E para a gente começar a conversar, você precisa ter bem claro na cabeça que uma coisa é ser redator; outra é gostar de escrever. Acontece de alguém entrar nessa e pertencer aos dois conjuntos (nossa, eu não uso esse termo desde as aulas de matemática na primeira série). Mas uma hora, esse alguém: a) de tanto ser redator, deixa de gostar de escrever; ou b) por gostar tanto de escrever, desiste de ser redator. Bem, estou há pouco tempo na profissão. Então tudo o que posso dizer é que ainda estou na fase de ser redatora e gostar de escrever.

Por que são duas coisas bem diferentes? Basicamente, gostar de escrever significa tesão. É aquele prazer em criar as próprias histórias, dar vida aos seus personagens, escrever o quanto e o quê vier na telha. Claro que envolve boas doses de sofrimento e angústia criativa. Mas ainda assim, você faz pelo seu prazer. Algo bem egoísta mesmo. Foda-se as regras, estruturas e técnicas. Quem gosta de escrever, escreve primeiro para si mesmo.

Redator não: escreve sob demanda. Escreve o que o cliente quer, muitas vezes sobre coisas que não gosta, e às vezes nem entende. Precisa ser inteligente, criativo, surpreender. Mas precisa ser persuasivo sempre. E para isso, precisa seguir algumas regrinhas. Claro que envolve a mesma angústia criativa. Muitos tem tesão pela coisa. Mas é bem diferente: você está escrevendo porque é o seu trabalho.

É meio que como ser puta. Ok, todo publicitário é meio puta, por motivos óbvios (aquela velha piadinha: passamos o dia abrindo as pernas para o cliente, sempre chegamos tarde em casa e nossos pais não sabem direito qual o nosso trabalho). Imagine que o seu trabalho é transar a semana inteira, mas prazer mesmo você sente quando transa nas horas de folga – porque quer, quando quer, e com quem quer. Ah, viu só? Quando relaciona com sexo, fica mais fácil de entender.

A vontade de falar sobre isso surgiu quando conheci o blog de uma dupla de redatores. Adorei cada um dos textos. Curtos, precisos, engraçados, uma delícia de ler. E mesmo se eu tivesse chegado ao blog sem saber que era escrito por dois colegas de profissão, eu saberia de cara.

Primeiro, porque estava super bem escrito. Apesar de conhecer ótimos blogs, acho cada vez mais difícil encontrar blogueiros que saibam escrever (atenção, outro ponto importante: saber escrever, gostar de escrever e ser redator raramente são conjuntos que se cruzam).

Outra coisa foi reconhecer em todos os textos cada um dos recursos que o redator usa em seu trabalho. As tais regrinhas da persuasão, sabe? Tudinho ali. É nessas horas que acho uma merda ser redatora. Eu podia simplesmente rir com o texto e achar legal, como a maioria dos leitores fazem. Mas não: leio analisando, como quem disseca uma rã. Aí consigo ver, claro como a água, o mecanismo por trás do texto. Não tem muita graça ver um show de mágico quando você também é um. Fico mais preocupada em entender o truque do que admirar a mágica. “Hm! Olha lá, olha lá! Tá usando retórica aristotélica!” Claro que o texto não deixa de ser bom, mas você entendeu.

É nessa hora que eu me preparo para receber algumas pedradas, mas preciso desabafar. Um texto de blog elaborado assim, para atingir seu público de forma deliberada, do jeitinho que a publicidade ensina, perde boa parte de sua personalidade. Aquela personalidade bem própria de quem gosta de escrever. De quem escreveu pelo tesão, pela necessidade de satisfazer primeiro a si mesmo, para só depois se lembrar (caso se lembre) de que depois alguém vai ler aquilo (caso alguém leia). Coisa de blog raiz, blog moleque. Um texto sem essa personalidade soa profissional demais.

Entendo que hoje em dia, blog é mais do que forma de expressão: também é profissão. Cada blogueiro tem um objetivo, e o de muitos é ganhar dinheiro – nada mais justo e digno. Mas a tal da personalidade dos textos é o maior indicativo de sucesso de um blog “monetizável”, não acham?

Já um texto com estrutura persuasiva está vendendo algo – no mínimo uma ideia. Mas se o texto está lá, supostamente para oferecer o prazer da leitura, e não tem o objetivo de vender nada, ou me convencer de alguma coisa, por que raios foi escrito dessa forma tão publicitária? Assim, só para me convencer que é bom? Esse esforço é desnecessário. Um texto bom não precisa da persuasão para me convencer disso.

Claro que essa é uma visão bem particular de quem está imersa o tempo inteiro em títulos, textos de apoios, e todas as fórmulas publicitárias de escrever. Quando saio da agência, tiro o jaleco de redatora e abro a gaveta dos personagens e das histórias malucas. Imagino que seria deprimente viver o tempo inteiro como redatora. Seria como trabalhar na cozinha do McDonald’s, e ao chegar em casa, preparar um baita Big Mac no jantar.

Aqui eu procuro escrever algo diferente do que preenche a minha rotina na agência. Se quiser ler títulos, recomendo que procure um anuário de propaganda.

Cada post que escrevo é um parto. Em parte, porque sou a leitora mais crítica deste blog. É difícil chegar em algo que me agrade. Também é difícil porque não tenho uma fórmula pronta a seguir. Vou sendo guiada pela tal angústia criativa, e como você já deve ter percebido, não me importo nem um pouco se o texto vai ficar muito grande nesse processo.

É isso mesmo. Lamento dizer, mas a última coisa com a qual me preocupo é em agradar você. Embora seja muito gratificante saber que tenho tantos leitores que leem até o último ponto dos meus textos quilométricos, e ainda me dão feedbacks incríveis, não é essa a minha maior motivação.

Anota aí: no dia em que eu passar a escrever só para o público gostar, pode saber que terei saído da intersecção entre quem é redator e quem gosta de escrever. Nesse dia, eu vou ser mais ou menos como uma puta bem profissional: o que já me deu tanto prazer vai ser só o meu trabalho.