AlineValek

Justice

3 Comentários 27 de June 2012 por Valek

Um  herói.

Escorre sangue na sarjeta. A cidade não se apavora, pois dorme. E mesmo acordada, fecha os olhos para a brutalidade, essa instituição que muitos querem manter a qualquer custo. Eu vi sua verdadeira face e senti o cheiro de assassinato que vinha dela. Não me apavoro mais. Se fosse para ter medo, eu teria continuado no armário sufocante onde fiquei preso durante anos.

Cheguei tarde demais. Da janela do oitavo andar, dá para ver o corpo de Sara na calçada. O apartamento dela está vazio, escuro e cheirando a terror. Um crime perfeito. Os legistas chegarão em algumas horas, e, logo depois, os investigadores. Não encontrarão vestígios, não levantarão uma lista de suspeitos. O assassino nunca será encontrado, pois Sara se matou. Mas ela não se jogou sozinha.

Em cima da mesa, um bilhete que aponta um culpado sem rosto, sem nome, sem corpo. Desde que se descobriu gay, Sara foi rejeitada pelos pais, esquecida pelas amigas, condenada pela sua igreja e atacada por e-mails anônimos com ameaças de estupro, que a “ensinaria” a “gostar” de homem. Ela não fala isso em seu bilhete de despedida. Apenas pede desculpas. Era mais fácil acreditar que havia algo de errado com ela do que enxergar o cancro do mundo ao seu redor.

Volto às ruas e espreito pelas sombras. Já fiz isso por medo. Hoje, faço porque a minha existência é uma ameaça para muita gente. Alguns me consideram um herói. Outros, uma aberração. A verdade é que sou alguém que quer mudar as coisas. Apertar o detonador que vai dar início à revolução. Dizem que sou um vingador mascarado. Mas não é vingança que procuro. É justiça.

O dia do despertar.

Começa o horário eleitoral gratuito na TV, mas a família reunida na sala está interessada mesmo é na novela, que começa logo depois. É o rosto do candidato à reeleição que aparece primeiro na tela, até o seu amigável discurso ser interrompido por uma falha na transmissão. O pai, sem entender, muda de canal para ver se o problema era na emissora. Mas todos os canais mostram a mesma coisa.

Uma figura mascarada atrás de uma bancada.

Boa noite, Brasil. Primeiro, devo pedir desculpas pela interrupção. Eu, assim como muitos de vocês, aprecio o conforto da rotina diária, a segurança familiar, a naturalidade de poder amar sem medo ou vergonha. Gosto muito de tudo isso, claro. Então, já que temos algo em comum, pensei em tomar um pouco do tempo de suas vidas para sentar e conversar.

Há aqueles que não querem que a gente fale. Eles podem usar a violência em vez do diálogo, mas as palavras sempre manterão seu poder. As palavras oferecem um significado e, para aqueles que ouvem, a anunciação da verdade.

E a verdade é que existe algo muito errado nesse país. Não existe? Crueldade e injustiça. Intolerância e opressão. Enquanto a maioria pode viver tranquilamente sua vida sexual e afetiva, outros precisam escondê-la e reprimi-la. Em função de um detalhe como a orientação sexual, pessoas são privadas de seus direitos constitucionais básicos. São rebaixadas a subcidadãs. Como isso aconteceu? Quem é o culpado?

Há alguns mais responsáveis que os outros, com certeza, e eles vão ter que prestar contas. Mas verdade seja dita: se procuram por culpados, basta que se olhem no espelho. Eu sei porque vocês fizeram isso. Sei que têm medo. Medo de mudanças, medo do diferente. Mas chegou a hora de dar fim ao silêncio. É hora de acabar com essa loucura.

Há mais de 40 anos, pessoas como eu marcaram o dia 28 de junho rebelando-se contra a opressão. Hoje, precisamos mostrar que igualdade, justiça e liberdade são mais que palavras. São perspectivas.

Se vocês não veem nada, se desconhecem os crimes contra essas pessoas, eu sugiro que deixem o 28 de junho passar em branco. Mas, se vocês veem o que eu vejo, se sentem o que eu sinto e se buscam o que eu busco, então peço que se unam a mim do lado de fora da Câmara dos Deputados. Juntos, daremos a eles um 28 de junho do qual jamais se esquecerão.

O sinal da TV voltou. Mas quem assistiu àquela mensagem não foi mais o mesmo.

Um tributo a Alan Moore. Uma homenagem ao Dia do Orgulho Gay.

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  1. Douglas Reis

    Quem conhece o mestre Alan Moore vai perceber as claras referências. Ah o poético e irresistível chamado à ação, ao abandono do pensamento anestesiado, à mudança de atitude e de visão com relação à forma como o sistema está estabelecido. “V” leria o seu texto com orgulho! Vamos abrir os olhos e aguçar os ouvidos. Depois de despertar para os problemas que nos cercam não há mais volta…

  2. R

    texto incrível!

  3. Jessica

    oo blog é legal, suas postagens são beeem inteligentes =D cuuuurtiii mt…soo alteraria a “cara” da página, me deprimiu um pouco kkkkk Parabéns flooor, gooostei mesmo daq!!