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O que as palavras dizem sobre nós

“Não pode xingar o coleguinha porque é feio”. Eu, se tivesse filha ou filho, ensinaria de outra forma. Quando você xinga alguém, está dizendo mais sobre você do que sobre aquela pessoa. Basicamente, os xingamentos que você usa só servem para revelar o quão babaca você é.

Não se trata de, ao chamar alguém de “viado”, estar dizendo que o “viado” é você. Isso lembra aquelas discussões de crianças em que uma chama a outra de “bobo”, e a outra, por não ter argumentos melhores, responde que “bobo é você”. Não é nada disso. Xingar alguém de “viado” ou “seu gay” significa apenas que você não amadureceu o suficiente e considera que uma orientação sexual seja ofensiva. Ofensivo mesmo é nos dias de hoje “gay” ainda ser usado como xingamento.

Da mesma forma, chamar uma mulher de “vadia”, “piranha”, “puta”, “vagabunda” (é impressionante como não falta repertório para nos agredir) não diz nada sobre quem é essa mulher. Diz apenas que você é alguém que acredita que a conduta sexual de uma mulher define seu caráter. Que fazer sexo desvaloriza uma mulher, e, portanto, a torna merecedora de agressão. O curioso é que esse xingamento surge mesmo em situações que não têm nada a ver com sexo, como uma briga de trânsito ou uma rivalidade no ambiente de trabalho. Isso ainda diz mais: diz que para você importa mais a vida sexual dela do que qualquer coisa que ela tenha feito. Diz que você é alguém que agride outra pessoa por especular sobre o que ela faz com a buceta dela. Meio ridículo, não acha?

Ainda há os que tentam ofender uma pessoa chamando-a de gordo ou gorda (entre outras variações mais pejorativas). O negócio é que às vezes a pessoa é mesmo e sabe disso. Oras, ela tem espelho em casa. O problema está em quem usa isso como ofensa: na cabeça desse tipo de gente, ser gordo é algo ruim, negativo, motivo de vergonha. Quem aponta como falha de caráter e motivo de ofensa uma característica física como qualquer outra é que deveria ter vergonha. Porque ao dizer isso, você está se revelando uma pessoa pequena que se incomoda com o corpo dos outros. E todo mundo está vendo.

Aliás, só o fato de xingar alguém já diz muito sobre você. Se você faz isso, está dizendo que não consegue atacar o argumento e por isso ataca o argumentador. É alguém que, na impossibilidade de conciliar, deixar pra lá ou argumentar, agride.

As palavras revelam quem você é, e isso não vale apenas para xingamentos.

No dicionário, a palavra “vulgar” significa algo comum, banal, ordinário. Mas quem usa “vulgar” para se referir (olha que surpresa) ao comportamento de mulheres deu um significado totalmente novo à palavra: “vulgar” tornou-se a mulher que chama atenção, que veste roupas curtas, que dança funk, que beija muito, que não se comporta como uma dama, que “não se dá valor”. Muita gente usa essa palavra para designar qualquer coisa que tenha algum teor sexual: uma música pode ser vulgar, uma roupa, um livro, um programa de TV, uma pose. Se fosse só isso, tudo bem. O problema é que usam essa palavra para dizer que algo com algum teor sexual é, necessariamente, algo negativo. Não sei vocês, mas eu acredito que negativo mesmo é achar que sexo (e a liberdade sexual dos outros) seja algo tão condenável.

Um caso intrigante é quem usa o termo “politicamente correto”, geralmente acompanhado de uma escarrada metafórica no chão, para se referir a quem os chateia com questões como racismo, homofobia, machismo e que tais. Ser politicamente correto, aparentemente, significa ser chato, algo incomparavelmente mais “grave” do que distribuir agressões racistas, homofóbicas, machistas ou preconceituosas de modo geral sob o pretexto de estar apenas exercendo seu direito de liberdade de expressão. Não é preciso muito esforço para descobrir que quem usa essa expressão de forma pejorativa (ao mesmo tempo em que glorifica o termo “politicamente incorreto”) está gritando aos quatro cantos que não sabe o que significa liberdade de expressão e tampouco sabe como funcionam as coisas no mundo adulto: você é livre para dizer o que quiser, mas precisa aceitar as consequências do que diz.

É fácil entender uma pessoa se ela usa a palavra “mulherzinha” para ofender um homem; ou se ela xinga um negro de “macaco”; ou se começa uma expressão com “não sou preconceituoso, mas”; ou ainda se usa a palavra “vadia” de forma empoderadora; ou se fala “orientação sexual” ao invés de “opção sexual”; ou se fala em “patriarcado”; ou ainda se fala “a Babilônia vai cair”; ou até se escreve “deus” sempre em letra minúscula. As mesmas palavras que usamos para definir coisas e dar significado ao mundo à nossa volta também nos definem e nos revelam. A questão é: o que queremos que as palavras digam de nós?

Fotografia da capa: Mayron Avelar // Flickr Creative Commons