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Teocracia à brasileira

Em um futuro não tão distante, os recém-nascidos saem da maternidade com uma certidão de nascimento e uma conta no Facebook, e Holywood já fez todas as adaptações possíveis de livros para o cinema, incluindo o Manual Básico da Informática (um sucesso de bilheteria). Mas, nesse futuro não tão distante, o Brasil é uma teocracia cristã.

Até que não é nada mal viver nesse país. Se você é um cristão, claro. Afinal, você tem a certeza de que as pessoas no controle estão construindo um país santificado, e é sempre bom morar em um país que será poupado da ira devastadora de Deus no juízo final. Com a vantagem de ter belas praias.

A família é coisa sagrada nessa sociedade brasileira. Desde que seja formada por pai, mãe e filhos. Para impedir que outros arranjos familiares não-abençoados sejam feitos, algumas mudancinhas na Constituição impedem o casamento ou qualquer tipo de união entre pessoas do mesmo sexo. O divórcio também é proibido, pois o que Deus uniu ninguém separa. Nem as próprias pessoas envolvidas no relacionamento.

O Ministério da Família é instituído para cuidar dessas questões. Há campanhas e cartilhas ensinando como criar seus filhos e a família pode sofrer uma intervenção se eles começam a jogar RPG ou ouvir heavy metal que não seja gospel. Pastores atuam como psicólogos que dão suporte à família e resolvem querelas entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs. Mais ou menos como um programa Casos de Família, só que em um órgão público. E com leitura de trechos da Bíblia em vez de perguntas da plateia.

Não só há crucifixos nas repartições públicas, como há pias de água benta nas entradas, para que aqueles que passam nos prédios do governo possam se benzer e fazer o sinal da cruz. Antes de começar os trabalhos no Senado ou na Câmara, os parlamentares se unem em oração e são ungidos com óleo santo para que possam governar sob os desígnios divinos.

A Bíblia faz parte do material escolar oferecido pelo governo e nem é preciso dizer que nas aulas de ciências os alunos aprendem criacionismo. Teorias que colocam ideias perigosas na cabeça dos jovens são completamente abolidas. De forma que é melhor ser pego com revista de mulher pelada do que ser encontrado com um livro de Darwin ou até mesmo do Stephen Hawking. Suspensão na hora e mais dez Pais Nossos de penitência.

Marcar presença em missas ou cultos não é obrigatório, mas pagar o dízimo é. Além de todos os impostos para saúde, educação e segurança, o dízimo passa a ser um imposto recolhido de todos os brasileiros para as igrejas. O “Deus seja Louvado” impresso nas cédulas não nos deixa esquecer a quem pertence aquele dinheiro. Deixar de pagar o dízimo é crime tanto quanto sonegar o imposto de renda.

O atendimento na saúde melhorou. Como não há médicos para todos, pastores atendem pacientes que podem ser curados em uma sessão de descarrego. Eles ainda não dispensam o trabalho dos médicos; mas se um doente é curado, se alguém que foi baleado consegue sobreviver, se um câncer consegue ser retirado, atribuem a cura ao poder das orações feitas nas salas de cirurgia. Camisinhas e anti-concepcionais deixam de ser distribuídos pelo governo, para não incentivar a promiscuidade. Em compensação, o exorcismo passa a ser um serviço oferecido pelo sistema público de saúde.

As mulheres não têm que andar todas cobertas, como naqueles países bárbaros. Não, imagina. Aqui, elas só são proibidas de usar blusas muito decotadas, saias curtas ou calças justas. Também não podem cortar o cabelo, porque expor o pescoço e a nuca é coisa de mulher vulgar, e cabelo curto demais é coisa de mulher masculinizada — coisas nada boas aos olhos de Deus. Mas é altamente recomendado que estejam sempre lindas em Cristo, bem ao gosto de seus maridos.

A criminalização do aborto é tratada com mais rigor. Mulheres que tentam ou realizam um aborto, não importa o motivo, são presas e depois levadas para serem apedrejadas em praça pública. Às vezes acontece de morrerem nesse processo, mas a defesa da vida deve estar em primeiro lugar, certo? Esse também é o castigo para mulheres adúlteras. Ou que fazem sexo antes do casamento. A submissão da mulher presente na Bíblia passa a ser parte da Constituição e um dos valores mais caros à teocracia do Brasil.

O culto a outros deuses passa a ser ilegal. Terreiros de candomblé são destruídos ou lacrados pela polícia. Já os ateus são presos e afastados da sociedade, para o próprio bem dela. E ainda têm que aguentar a visita diária de um testemunha de Jeová na cadeia tentando lhes converter.

Em vez da Voz do Brasil, as emissoras de rádio passam a transmitir a Ave-Maria. O que é um problema: os evangélicos, apesar de terem sua parte do domínio da mídia, não gostam nada disso. As disputas de poder deixam de ser entre partidos e passam a ser entre as correntes cristãs. Conflitos civis entre evangélicos, católicos e outras denominações eclodem nas ruas. No governo, quem tem a maior bancada garante seus interesses. Sob a proteção de Deus, o Brasil funciona em plena democracia: o que significa que ganha o religioso que gritar mais alto.

Não custa avisar: esse texto não passa de um delírio. Pura ficção. Afinal, uma teocracia à brasileira está bem longe de acontecer, né?

Imagem da capa: autor desconhecido de Nuremberg, via Wikimedia Commons.