Pague a Autora

Pay the fucking writer

Eu vivo de escrever. É o meu trabalho, é o que faço para pagar as contas. O que não é nada fácil, especialmente porque não é um trabalho valorizado – isso quando as pessoas entendem que é um trabalho. Sei que ilustradores, atores, músicos e outros profissionais que trabalham com o imaterial vão se identificar com o que tenho a dizer a seguir: a pior coisa desse trabalho é ter que aturar gente que acha que é ok trabalharmos de graça.

Um dia eu já trabalhei como publicitária, em agência de propaganda. Tem uma coisa nesse mercado que me dá canseira só de lembrar: concorrência. É um negócio que funciona assim: para ganhar a conta de um cliente, várias agências concorrem entre si para apresentar ao cliente o seu trabalho. O cliente analisa vários quesitos, como estrutura da agência para atendê-lo, questões técnicas, orçamento e o trabalho criativo, usando essa avaliação como base para escolher qual das agências contratar. A questão é que a agência faz um imenso esforço e cria uma campanha completa para mostrar ao cliente. Se perde a conta, a agência trabalhou de graça. Se ganha, é maravilhoso, mas raramente essa campanha que ela apresentou na concorrência vai para a rua de verdade. Se não for completamente descartada para criar outra do zero, essa campanha terá que sofrer alguns ajustes. É mais trabalho.

Foi lendo esse texto sobre o ponto-cego das concorrências que me motivei a escrever este post. O autor põe em xeque esse modelo de negócio em que ninguém ganha: a agência (especialmente as menores), que mobiliza todo um esforço, equipes e recursos de graça; os criativos, que apesar de receberem seu salário independente de ganharem ou não a concorrência, serão exauridos por fins de semana e noites viradas para entregar o trabalho, para depois ficarem com a sensação de terem trabalhado em vão; e os clientes, que apesar de terem à disposição várias ideias de graça, serão, de certa forma, enganados, já que isso não dará a ele a real noção de como será o atendimento no dia a dia.

E, ainda assim, isso continua a ser feito.

Isso acontece com a publicidade porque o trabalho de criação não é algo material, palpável. Se o governo quer contratar uma empresa para construir um viaduto (algo bastante concreto), ele não pede para cada empresa construir um viaduto para então decidir qual será contratada. Nesse caso, a empresa apresenta orçamento, projetos, quesitos técnicos. A contratada sim, constrói o viaduto.

Ao meu ver (porque aqui só posso dar a minha opinião e a de mais ninguém, caso isso não tenha ficado claro), a campanha publicitária é o viaduto das agências, assim como o texto é o viaduto do escritor. E tem gente que não vê problema em pedir para que a gente construa um viaduto em um fim de semana sem pagar nada por ele.

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A percepção de que o trabalho criativo/imaterial não tem tanto valor leva ao famigerado discurso da visibilidade. Ilustradores e ilustradoras (especialmente em início de carreira) já ouviram muito esse discursinho: “Faz uma ilustra para minha empresa, vai ser bom para o seu portfólio! Vai te dar visibilidade!”. Às vezes, essa visibilidade pode ser um investimento interessante, conduzir para projetos que vão compensar financeiramente (já aconteceu comigo algumas vezes), mas, na maioria das vezes, é só alguém querendo explorar você.

Tenho uma historinha polêmica sobre isso. Na faculdade (me formei em publicidade), tivemos um trabalho que era produzir um filme de 30 segundos e o cliente era a própria faculdade. O professor, para “incentivar” a turma, disse que o trabalho com a maior nota seria veiculado na TV. Eu, que tenho que ser chata e questionadora, perguntei: “e se o aluno não quiser?” O professor sequer tinha considerado essa opção; via como uma oportunidade para o aluno “expor o seu trabalho”. A questão é que a maioria das pessoas no meu grupo já trabalhava em agência, inclusive eu. Um dos integrantes trabalhava para uma agência que atendia a faculdade concorrente; ou seja, isso podia dar problema depois. Além do mais, eu já era paga para fazer esse tipo de trabalho em uma agência (como redatora) e não fazia sentido fazer o mesmo trabalho de graça para a faculdade. Fazer o trabalho pela nota, tudo bem. Mas não aceitamos que o trabalho pudesse ser veiculado. Resumo da ópera: o professor ficou puto com a gente, perdemos nota e o trabalho que ganhou a melhor nota acabou não sendo veiculado.

O que achei uma pena mesmo foi, no próprio curso de Publicidade e Propaganda, ensinarem que o nosso trabalho não vale nada. O problema não está só no mercado; está, também, na sua formação.

Vez ou outra aparece alguém querendo me pautar: “Aline, você poderia escrever sobre (insira tema nada a ver aqui)” ou “Você poderia ter escrito esse texto dessa forma, em vez dessa”. Se é sobre um tema que eu não teria vontade de escrever normalmente, se ela vem me pedir para escrever algo como se ela fosse minha cliente, e não minha leitora, eu suponho que a pessoa esteja me brifando para um trabalho pago, certo? Respondo com um: “ok, te passo um orçamento”. A pessoa não me responde mais.

Eu escrevo de graça para o meu blog, para meus projetos pessoais ou projetos que tenho com amigos. Mas eu escrevo sobre o que eu quero, do jeito que eu quero, no meu tempo.

Se você quer que eu escreva algo para você, sobre o que você quer, do jeito que você quer, é só me pagar e terei o maior prazer. Inclusive, sou bastante rápida e não tão cara quanto você imagina. Se precisar, é só me explicar sobre o trabalho e me pedir um orçamento.

Agora, o que eu escrevo de graça, não tenho o menor problema em disponibilizar de graça. Em breve vou disponibilizar 3 ebooks de contos meus para download gratuito e deixo os textos desse blog à disposição para as pessoas reproduzirem em seus blogs, trabalhos de faculdade ou cartões de aniversário para a mãe, desde que para fins não-comerciais. Explico sobre as condições para usar meus textos aqui. É sério: podem usar os meus textos. Spread the word.

Acredito que foi através da Clara Averbuck, uma escritora foda que muito admiro, que descobri esse vídeo, de um roteirista reclamando da cara de pau das produtoras de Hollywood que, vira e mexe, pedem para os roteiristas fazerem algo de graça. “Eu não daria sequer uma mijada sem ser pago por ela”, diz Harlan Ellison:

Para finalizar, pego emprestada a frase de Cacilda Becker (acho) para fazer um apelo: “não me peça de graça a única coisa que tenho para vender”. Só porque você não pode pegar com as mãos uma coisa, como você faz quando vai fazer compras no supermercado, não significa que essa coisa não tenha valor.

Pay the fucking writer.

Fotografia da capa: Lívia Cristina // Flickr Creative Commons