[Seção de Cartas] O mal do século

Carta que recebi do leitor Pato Donald:

onde estão as mensagens pessoais no mundo das indiretas?

por que todo mundo manda bilhetinhos, torpedos e sms, mas muito raramente recebemos uma carta, uma folha inteira, um parágrafo que a gente tem vontade de tatuar, um poema que a gente decora e guarda pra sempre, uma canção?

a nossa geração é a que mais escreve, e a que menos toca o outro?

 

Querido leitor,

Seu questionamento me lembrou de um estudo que li recentemente. Pesquisadores da Universidade de Munnford descobriram que há uma relação direta entre o impulso de se comunicar e a qualidade dessa comunicação.

Talvez eles tenham feito o estudo movidos por essa sua angústia. Mas é só um palpite.

A pesquisa foi feita aproveitando uma daquelas cabines de programa de auditório, em que a pessoa é isolada acusticamente e precisa responder, sem ouvir, se trocaria o prêmio de um milhão de reais por uma chupeta usada, sabe? Mas, na pesquisa, essa cabine foi colocada em meio a um debate e apresentava um isolamento acústico ao contrário, em que a pessoa lá dentro podia ouvir tudo que era dito durante o debate, mas ninguém no ambiente conseguia ouvir o que ela dizia, a não ser quando a luz da sirene era acesa. Só nesse momento essa pessoa podia dizer a sua opinião e ser ouvida pelos demais.

Bem, os pesquisadores acreditavam que, exposta a longas horas de opiniões contrárias ou a favor de determinado assunto, a pessoa dentro da cabine teria tempo para ponderar melhor e, quando fosse a sua vez de ser ouvida, ela tivesse uma opinião bem articulada. Que nada. Estavam enganados: assim que a luz acendia, indicando que era sua vez de falar, a pessoa ficava tão excitada de expor sua opinião para toda aquela gente que dizia qualquer bobagem.

Fizeram o teste com cinquenta e três pessoas e um chimpanzé e o resultado foi sempre o mesmo. Na segunda fase do teste, os pesquisadores aumentaram as vezes em que a luz da sirene acendia durante o debate, ou seja, aumentaram as chances daquela cobaia se expressar, mas a qualidade de sua opinião só fazia piorar. Alguns chegavam até a babar e grunhir enquanto expressavam sua posição sobre determinado tema em meio ao calor da discussão. O poder de ser ouvido parece mínimo, mas foi o suficiente para deixar essas pessoas ensandecidas.

A conclusão a que chegaram é que quanto mais oportunidade é dada para dar uma opinião, menos elaborada será essa opinião.

Agora imagine que a internet é um lugar cheio dessas luzinhas de sirene acesas. Tem tanto espaço para falar alguma coisa, que pouco importa o que seja essa coisa a ser dita. Mensagens curtas, superficiais e pouco articuladas acabam sendo a saída para atender a uma demanda ampla e inesgotável por opinião nesse ambiente controlado, onde quem quer que esteja dentro da cabine tem a possibilidade de ser ouvido por um número considerável de pessoas — que pode não ser grande, mas já é maior do que se estivesse escrevendo uma carta que apenas uma pessoa leria.

Esse é o contexto em que surge o mal do século: os comentaristas de portal. Eles procuram desesperadamente por uma sirene acesa em meio à vastidão da internet, onde possam despejar seus comentários e exercer o seu poder de serem ouvidos, por mínimo que seja. Não que eles sempre tenham algo a acrescentar, mas veja como é brilhante a luz da sirene acesa! Eu tenho que falar alguma coisa!

Não que eu ache que a internet acabou com as cartas (ou e-mails, comentários, mensagens, tanto faz) bem escritas, dessas que dão vontade de guardar e fazem pensar por um bom tempo. É improvável que os comentaristas de portais fossem o tipo de pessoa que escrevesse canções ou cartas antes de descobrirem as irresistíveis caixas de comentários. Eu, pelo menos, não faria questão de receber uma carta de um desses (por mais que eu goste de receber cartas).

As pessoas que escrevem coisas que realmente tocam os outros continuam por aí, embora soterradas por uma avalanche de pessoas ensandecidas que escrevem qualquer coisa como se o direito de falar fosse ser arrancada delas a qualquer momento (o que, pensando bem, não é de todo impossível). Essas pessoas talvez não sejam vistas com tanta frequência porque demora e dá trabalho escrever um parágrafo inteiro, uma página ou duas, bem articuladas, que dê vontade de tatuar. Mas eu quero acreditar que existe, querido leitor. Se não, não teria tatuado a sua cartinha. Na coxa direita. Em letra de forma.

Esse texto faz parte da Seção de Cartas do blog, em que um leitor me manda uma opinião e eu respondo com ficção. Participe também, mandando a sua cartinha que terei o maior prazer de publicar com uma resposta completamente inventada. É de graça e o anonimato será preservado. Escreva sua carta aqui.

Fotografia da capa: Boris Lechaftois // Flickr Creative Commons

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