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Ficção científica feminista: trabalhamos

Sou fã de ficção científica. Talvez eu me sinta tão atraída por histórias do gênero porque 1. elas oferecem a possibilidade de descobrir mundos bem diferentes do nosso 2. são um meio de analisar de forma crítica a nossa própria realidade. O que me incomoda é que a ficção científica ainda é produzida majoritariamente por homens, para um público também masculino, muitas vezes com histórias repletas de estereótipos mal construídos sobre mulheres (isso quando a história sequer possui personagens femininas relevantes).

Foi esse incômodo que motivou a mim e a Sybylla, outra grande fã do gênero, a produzirmos uma obra capaz de apresentar uma visão diferente de ficção científica, onde pudéssemos contar histórias que nós mesmas gostaríamos de ler. Convidamos algumas pessoas tão fãs de ficção científica quanto a gente, que toparam embarcar nessa aventura e contribuíram, cada uma, com uma visão bem própria de ficção científica feminista.

Surgia então o Universo Desconstruído: uma coletânea de contos com o objetivo de quebrar estereótipos negativos que recaem sobre mulheres, pessoas negras, trans* e homossexuais.

A coletânea apresenta 10 contos assinados por mim, pela Sybylla, por Alex Luna, Ben Hazrael, Camila Mateus, Dana Martins, Gabriela Ventura, Leandro Leite, Lyra Libero e Thabata Borine. A ilustração da capa foi feita pela Tais Fantoni e o design do projeto pelo Marcos Felipe.

Juntas pudemos não apenas construir essas histórias, mas aprender muito e trocar ideias sobre feminismo & ficção científica. Fiquei bastante orgulhosa do resultado final e honrada por ter feito parte disso com essa turminha do barulho.

E sabe o que é mais legal? Você pode baixar Universo Desconstruído de graça!

A coletânea está disponível em 3 formatos: .epub (compatível com Kobo), .mobi (compatível com Kindle) e .pdf. Para baixar, você “paga” com um tweet ou uma mensagem no FB: assim você faz o download e ainda nos ajuda a divulgar o trabalho :)

epub

mobi

pdf

Ajude a divulgar também o site do projeto: http://universodesconstruido.com/

Abaixo, um trechinho do meu conto. Espero que curtam. Que a Força Feminista esteja com vocês.

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Eu, Incubadora

Koda é uma pessoa. Não é um homem, não é uma mulher, não pensa, não fala, não anda, não é jovem, não é pobre, não sabe em que ano estamos. Koda sequer nasceu. Koda é um embrião de 2 semanas.

Koda existe em um mundo onde todo ser humano é registrado desde sua concepção, o que foi possível graças à implantação de um dispositivo de controle reprodutivo em todas as pessoas do sexo feminino quando atingem idade de maturidade sexual, aos 11 anos. Dessa forma, a existência de Koda, a partir do instante da fecundação, foi parar num servidor de controle de natalidade do governo, que lhe atribuiu um nome pré-natal (randômico e andrógino, gerado por computador), um número de identidade e todos os direitos de um cidadão humano.

Koda não nasceu e sequer possui um sistema nervoso, mas já é considerado um cidadão e uma pessoa humana pela sociedade.

Sei que tudo o que você consegue ver olhando para Koda, banhado em líquido amniótico nesse ambiente escuro e quente, é um amontoado amorfo de células, a promessa de um simpático ser humano extra-uterino, mas que – por enquanto – é apenas um bolinho de células que poderia ser facilmente confundido com uma verruga, uma verruga minúscula; mas entenda que o fato de Koda ser considerado uma pessoa seja talvez o aspecto mais revelador sobre o mundo onde ele ou ela nascerá.

Olha só quem amou a coletânea.

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Fotos: Marcos Felipe.