Academia das letras

Há quanto tempo você não malha? Dá pra notar pela flacidez dessas suas frases que você não tem se exercitado. E essas concordâncias verbais fazendo dobras, hein? Vamos ter que trabalhar pesado nisso aí.

Primeiro, vai ter que flexionar bem esses verbos. Depois, malhar bem esses substantivos. Um tempinho de exercícios para ganhar força e você vai ver como conserta a postura do parágrafo. Fica ereto, consistente, uma maravilha.

Se o argumento está bem definido, então, não vai ter quem te derrube. E não vai ter leitor que resista a não passar o marcador de texto nas suas frases mais musculosas. Elas vão saltar aos olhos, impressionar, fazer com que pensem: eu queria ter escrito isso.

É claro que não é só puxar o ferro das construções linguísticas, não. Tem que cuidar da alimentação – e a dieta precisa ser rigorosa. Vai precisar comer muito arroz com feijão gramatical e proteína literária. Chega de ler porcaria. Só vai fazer você ficar entalado, pesado, preguiçoso. Certo, uma ou duas barrinhas de leitura inútil por dia, só para dar um gostinho diferente. Mas não vá exagerar, hein? Por outro lado, capriche no prato de literatura clássica e contemporânea. Uma saladinha de quadrinhos para acompanhar.

Ninguém disse que ia ser fácil. Mas olha para trás, para o rascunho que você era e para o manuscrito que você está se tornando. Já tem personagens bem desenvolvidos, a trama já ganhou contornos mais bem definidos e os diálogos não estão mais atrofiados. Mas não pense que parou por aqui: é quando você está exausto, com as entrelinhas suadas, é que tem que continuar. Então, sem moleza. Quero mais 1.000 abdominais de caracteres até o fim do dia.

Condicionamento é tudo. Depois que engrena, o que seria impossível no começo, como chegar ao ápice da história, agora você consegue na maior leveza. Quando você vê, já está puxando diálogos de peso e nem sente dor. Consegue até prolongar o tempo na esteira dos textos corridos e nem trava mais nos primeiros metros de página, como no começo.

O que era mirradinho e sem força, agora tá parrudo, tá grandão. Acha que acabou? Agora é que vem a parte difícil. Vamos cortar tudo que é desnecessário, fazer uma verdadeira lipoaspiração em cada capítulo. Tirar as gorduras, as firulas, o que está sobrando, só fazendo volume. É doloroso, não vou mentir. Mas engole o choro porque é necessário.

Vamos começar tirando o excesso de adjetivos, que estão escapulindo do cós da calça. Aquelas cenas do protagonista conversando com o reflexo do espelho podem sair fora sem dó. A introdução do narrador a gente dá uma reduzida básica, de cinco para três páginas. Viu? Já está ficando enxuto, leve, ágil. Sem falar que ficou uma belezura só.

Mas o que importa mesmo é a força. Ou como você acha que você vai conseguir carregar uma centena de leitores nas costas? Ou conseguir nocautear um leitor antes que ele desista de você e mude para o próximo texto? Ou como você espera viver para ser lido pela próxima geração? Então pense bem antes de se acomodar e relaxar as letras: no mundo dos textos, meu amigo, os fracos não têm vez.

Texto originalmente publicado na Confeitaria Magazine. Já acompanha? Além de mim, outros autores incríveis escrevem para a Confeitaria.

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