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Dentucismo

É triste ver como vivemos num mundo normatizador. Tem que andar na linha, ter a cor certa, o peso ideal, o corpo em forma. Se tá errado, conserta. Corta a barriga, estica a cara, desenha um rosto novo, tapa todos os poros, clareia esse suvaco, faz uma lipo. Tem pelo? Tira. Tá faltando cabelo? Coloca mais. Liso, de preferência.

aprendemos isso na escola. Torturamos nosso traço para se adequar às linhas do caderno de caligrafia, para fazer uma letra redondinha conforme o exemplo, perfeita, inalcançável para nossas mãozinhas pequenas e cheias de vontade de criar, extrapolar, se soltar. A lição mais importante: se adequar.

O que desvia do padrão não raras vezes é rotulado como doença. Defeito. Não deve fazer bem.

Os dentes? Não escapam. Os cuidados com eles vão muito além da limpeza, do zelo para que nossos mastigadores durem o máximo possível: a simetria e o alinhamento são importantes. Ninguém quer ter um sorriso dentuço quando nos dizem que belo é o sorriso da moça da revista e do galã da TV. Brancos, alinhados, do tamanho certo. Aos que desviam do padrão, há conserto. A solução proposta é prender os coitados num aparato de metal e apertar como se fosse a inquisição tentando obter dos dentes uma confissão de bruxaria. Até que fiquem perfeitos.

Há quem prefira assim, assim como há quem prefira o cabelo vermelho ou a pele rabiscada ou o peito maior e é capaz de submeter o corpo a essas interferências para ficar a seu gosto. Se é neste corpo que nossa existência está confinada, então que ele seja nosso para fazermos dele o que acharmos melhor. Uma tela em branco para pintarmos com as cores da nossa identidade.

Mas e aí se a minha identidade é ser dentuça? E aí se resolvi que meus dentões, além de inofensivos pra minha saúde, dizem também quem eu sou? E aí se eu me recusar a consertar os meus dentes separados, ou pequenos, ou tortinhos, ou avantajados ou pra frente, por deixar de vê-los como um defeito?

Pois bem, chega dessa odontonormatividade.

Por mais que muitas pessoas precisem ajeitar o interior da boca  para falar, respirar e mastigar bem (coisas tão importantes na vida), dentes fora do padrão não necessariamente vão afetar a saúde e essa é a questão: pressuporem imediatamente que dentucismo é um defeito, um problema de saúde. Mas quando os dentes “errados” não interferem no bom funcionamento da pessoa, essa nossa sociedade normativa acaba tornando isso um problema para a autoestima dela. E aceitação também é uma questão de saúde e bem-estar.

Cansei de ver em todos os lugares só sorrisos perfeitos. Todos iguais. Aliás, perfeito pra quem? Quem definiu o que é certo? Dentões não podem ser perfeitos justamente por sua espontaneidade, por sua brancura escancarada, por ser uma surpresa por trás dos lábios de alguém?

Dentuça, cresci com a ideia de que precisava ser consertada, de que precisava pôr um aparelho. Por rirem de mim, passei a ter vergonha de rir. A só tirar fotos séria e a odiar a cara esquisita e desconfortável que ficava registrada depois. Fugia das câmeras, odiava quando me mandavam sorrir. Meus dentões foram moldando não só o formato do meu rosto, mas a minha timidez, minha personalidade. Acabou a adolescência e nunca cheguei a ter condições de colocar um aparelho, não sei se felizmente ou infelizmente. Tivesse eu colocado, teria hoje um rosto diferente e seria uma pessoa diferente. Talvez com mais selfies. Credo.

Mas em um momento da minha vida adulta decidi que não colocaria aparelho. Que aqueles dentes só me incomodavam porque eu via em todos os lugares que eles eram inadequados – mas não precisavam ser. Que eles talvez fossem uma parte da minha personalidade que eu precisava abraçar (assim como a minha voz que sempre achei irritante, mas olha eu hoje gravando podcast, para o terror da sociedade). Afinal, só eu os tinha. São distintos, peculiares, expressivos – e, diferente da dona, nada tímidos.

Isso não significa que eu tenha, instantaneamente, ficado bem resolvida com meu dentucismo assumido. Ainda me incomodo ou me embaraço se eles escapam numa fotografia; acho eles muito exibidos! Mas a normatividade me incomoda mil vezes mais que ter dentes de esquilo. Porque a normatização, amigos, acaba levando à estigmatização daqueles que fogem ao padrão.

Por isso quero ver mais sorrisos irregulares e dentuços nos heróis e heroínas dos filmes; não apontados como um defeito, mas celebrados como qualquer outra característica que só a fantástica diversidade dos nossos corpos apresentam. Quero ver mais Mônicas, mais Titis, mais Chicos Bentos; e ainda que nós dentuços não sejamos representados só como aquele personagem que vai ser esculhambado justamente pelos dentões.

Não quero, por ser dentuça, ter que me esconder à luz do dia e carregar os dentões como uma espécie de maldição, assim como meus colegas vampiros, que vivem na ficção e nos filmes de terror, também discriminados por serem um desvio da norma!

Não é porque não nos adequamos aos padrões nos quais querem nos aprisionar – sejam eles quais forem – que irão nos impedir de sorrir. De sorrir bem grande.

“Sempre me acharam muito parecido com minha mãe. Só o nariz diferíamos. A semelhança estava sobretudo nos olhos e na boca. Sai míope como ela, dentuço como ela. Há dentuços simpáticos e dentuços antipáticos. Muito tenho meditado sobre esse problema da antipatia de certos dentuços. Creio ter aprendido com minha mãe que o dentuço deve ser rasgado para se tornar antipático. O dentuço que não ri para que não se perceba que ele é dentuço, está perdido. Aliás, de um modo geral, a boca amável é a boca em que se vê claro. Era o caso de minha mãe: tinha o coração, já não digo na boca mas nos dentes, e estes eram fortes e brancos, alegres, sem recalque: anunciavam-na.” 

Manuel Bandeira, escritor e dentuço.

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Fotografia: Marcos Felipe

Quando eu estava procurando referências para fazer a ilustração desse texto, eu simplesmente não consegui achar imagens de dentuços sendo representados de forma positiva, o que por si só já é emblemático. Aí me mostraram as ilustras do Taiyo La Paix. Fiquei apaixonada.

Ilustração da capa: Taiyo La Paix, daqui.