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Cegueira branca

Quando Saramago escreveu Ensaio sobre a Cegueira talvez não imaginasse o quão perto do real estivesse a epidemia por ele imaginada. Hoje a cegueira branca se espalha com uma assustadora rapidez, atingindo até pessoas do nosso convívio.

Claro que ela não funciona como na ficção do escritor português; mas eu diria que a versão da vida real é ainda mais perigosa, justamente por não ser percebida como uma epidemia. Está naturalizada. E é preocupada com o avanço desta doença que escrevo este alerta.

Como o nome sugere, este tipo de cegueira atinge principalmente pessoas brancas e as mais privilegiadas entre elas. Ninguém sabe exatamente como se dá o contágio, mas acredita-se que o surto da doença tenha tido início com os primeiros avanços no combate à desigualdade social e racial. Não é mera coincidência que os primeiros registros da cegueira branca tenham se dado na mesma época da adoção de cotas para negros nas universidades.

O principal sintoma que indica que uma pessoa foi afetada pela cegueira é acreditar que, por ser da elite branca, faz parte de uma minoria explorada, discriminada e perseguida.

Cercada de privilégios, a pessoa desenvolve uma grave miopia social. E privilégios cegam. Em casos mais extremos, podem fazer a pessoa perder, além da empatia, a noção e até o senso de ridículo. Mas, sobretudo, tantos privilégios impedem que a pessoa veja a realidade.

Acreditar que a elite branca é uma minoria discriminada é não ver que a maior parte das riquezas e propriedades do país estão na mão dessa mesma elite branca. É não ver que essas pessoas ocupam mais posições de chefia e estão nas profissões que pagam melhor.

Acreditar que existe uma “minoria branca” que sofre preconceito é não ver que a TV, as revistas, as propagandas e os filmes celebram o protagonismo e a beleza branca. É não ver que a cor de sua pele é enxergada por toda a sociedade como o padrão. É não enxergar que pele clara e cabelo liso são as características desejáveis e até impostas como a norma do que é considerado belo.

Acreditar que a elite branca é perseguida por pagar impostos, mais do que cegueira, é desonestidade. É não ver que, bem, não se está fazendo mais do que a obrigação, principalmente se a pessoa em questão tiver uma empresa. É não ver que pagar impostos não é exclusividade das pessoas brancas.

Acreditar que a minoria branca é oprimida no Brasil é não ver que até começarem a criar cotas para o ingresso de negros e bolsas para os mais pobres, as universidades eram um espaço dominado pelos brancos e pelos filhos de uma elite que acumulou historicamente todos os privilégios possíveis, inclusive o acesso à educação de qualidade.

Acreditar que oprimidos são os brancos é não ver a opressão sistemática e histórica que vitimou e ainda vitima as pessoas negras. É não ver que os trabalhos mais mal remunerados ainda são destinados às pessoas negras, que ainda estão entre as mais pobres do país. É não ver que os tiros da polícia são endereçados a corpos negros. É não ver o massacre da juventude negra no Brasil.

É não ver como as religiões de origem africana são marginalizadas e perseguidas ou ainda não conseguir enxergar que a cultura produzida pelas pessoas negras é sempre diminuída e menosprezada. É não ver a quem são jogadas as bananas em estádios de futebol, é não ver a quem são destinadas as piadas e caricaturas que diminuem e desumanizam todo um grupo de pessoas. É não ver a ausência gritante de pessoas negras nas propagandas, na TV, apresentando jornal, protagonizando novelas, filmes, na capa de revistas e achar isso normal.

Fazer parte de uma elite branca e tentar se colocar no lugar do oprimido é não ver o quanto isso é cruel, desrespeitoso e de uma ignorância gigantesca. É não ver que se está pisando na história de luta do povo negro. É não ver o quanto as pessoas negras ainda têm que lutar para conquistar o mínimo de direitos que desde sempre são usufruídos pela elite branca.

O antídoto para a cegueira branca são doses generosas de empatia. Já que estão impedidos de ver, os infectados por essa epidemia podem pelo menos abrir bem os ouvidos e ouvir a voz das pessoas negras. Ouvir o que elas têm a dizer. Escutar a realidade do ponto de vista delas, sair um pouco da zona de conforto e comodidade que são os privilégios.

Não vai ser fácil, principalmente para quem se acostumou a vida inteira com tantas facilidades concedidas às pessoas brancas. Mas até então, é a única cura conhecida.

E, depois que se abre os olhos para essa realidade, é impossível voltar atrás. É quando finalmente vemos que é preciso fazer algo a respeito – e reconhecer, em que nível, somos parte do problema.

Fotografia: Renaud Torres // Flickr Creative Commons.