SDD

Quando conheci Vic, não imaginava que ela pudesse ser assim incomum. Quer dizer, ela tem lá suas esquisitices, como ver graça em Friends ou guardar a faca junto com a margarina na geladeira, mas até aí tudo bem. Quase não acreditei quando descobri que o curioso a respeito dela era que Vic não sentia saudades.

Nem a saudade boa do desejo de rever alguém, nem a saudade que dói, com aquele sentimento de angústia e de perda que preenche a ausência de alguém. Nadinha. Nunca aprendeu, ela disse, com uma naturalidade de quem revela não saber ver as horas em relógio de ponteiro.

Impossível, foi o que eu disse. Vai ver ela só não tivesse tido oportunidade de sentir saudade de alguém. Não há um parente que more longe? Nenhuma pessoa amada morreu ainda? Nenhum amigo próximo que tenha seguido um caminho diferente? Seus pais, ela disse, são de outro país. Uma de suas melhores amigas morreu há poucos anos. Tantos outros amigos e amores já tinham entrado e saído da sua vida. Então?

Não sinto nada, ela confirmou, embora não tentasse me convencer de alguma coisa. Talvez estivesse acostumada à incredulidade dos outros quanto a isso. Continuou a tomar o seu café e de repente lembrou-se de comentar comigo o último episódio de Game of Thrones. E eu ali, me sentindo em um episódio de The Twilight Zone, subitamente em uma realidade paralela onde a saudade não existe.

Imagine só. No mundo de Vic, não há a necessidade de renovar, com mensagens ou ligações, um relacionamento que se distanciou, só pelo motivo de estar distante. Em sua realidade, também não faz sentido cobrar isso de ninguém.

Vic é indiferente ao tempo e à distância entre ela e outras pessoas. Não a faz amar alguém mais ou menos. Não a faz sentir dor, tristeza ou vontade de colocar Someone Like You no último volume e deslizar pela parede enquanto chora.

Aliás, músicas que falam “vai, minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser” ou “não sei porque você se foi, quantas saudades eu senti” não fazem efeito em Vic. Ela não se comove com “aonde está você agora além de aqui, dentro de mim?” ou não entende o sentido de músicas que dizem “a solidão deixa o coração neste leva e traz”.

Também não lhe faz falta sentir falta das coisas. Nem isso. Até porque, como sentir saudade de algo que nunca sentiu?

E ainda assim, Vic funciona. Faz amigos, apaixona-se, fica triste ou sofre, ainda que por outros motivos.

Talvez não lhe falte nada, mesmo quando alguém se afasta. Talvez Vic não veja as lacunas vazias, como alguém que não percebe o silêncio, apenas o barulho. Preocupa-se em sentir a presença, em vez da ausência. Talvez tenha a memória tão boa que está segura de seus sentimentos mesmo se aquela pessoa não estiver por perto para alimentá-los; ou talvez simplesmente porque não se importe em se esquecer. Parece encarar com naturalidade o vai e vem de pessoas em sua vida, como quem sabe que mesmo longe elas estão em algum lugar.

As pessoas estão por aí, ela disse ao pagar a conta, percebendo que eu não tinha tirado o assunto da cabeça. As pessoas estão por aí e um dia não vão estar mais. Posso não saber o que é saudade, mas disso eu sei.

Então tudo fez sentido.

A saudade e a falta dela.

Até tinha esquecido disso até Vic me mandar, dia desses, fotos de sua nova casa. Ela se mudou para outra cidade e desde então não tomamos café juntas outra vez. Uma pena.

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