Pague a Autora

Os demônios da minha escrita

Olívia Maia, em seu blog, fez a seguinte proposta para os amigos escritores:

“Como afirma Vargas Llosa: “El por qué escribe un novelista está visceralmente mezclado com el sobre qué escribe: los demonios de su vida son los temas de su obra.” Hay un poema hindú, el Vijñana Bhairava, que le gustava mucho a Cortázar, y que en cierta forma le explica: “En el momento en que se perciben dos cosas, tomando conciencia del intervalo entre ellas, hay que hincarse en ese intervalo. Si se eliminan simultáneamente las dos cosas, entonces, en ese intervalo, resplandece la realidad.”

Ignacio Solares, Imagen de Julio Cortázar

pergunta aos amigos escritores: quais são os demônios de sua vida? como esses demônios se infiltram na sua obra?”

O que me faz escrever?

É uma pergunta que se acendeu em mim mais claramente desde que tive uma aula com o editor Alexandre Barbosa de Souza: ao analisar se uma obra deve ser publicada, ele procura a obsessão profunda da autora dessa obra. Qual o projeto intelectual dessa pessoa? Qual é a missão dela? O escritor, segundo ele, é alguém obcecado; explicou que a literatura tem um componente de doença, porque mostra uma incompatibilidade do autor pelo que é estabelecido em nosso mundo.

É possível ver pinceladas dessa obsessão nas obras dos autores que admiro. Em um livro que estou lendo, “Como funciona a ficção”, de James Wood, ele dá um exemplo:

“A pergunta desse romance [O ano da morte de Ricardo Reis] e de grande parte da obra de Saramago não é o já batido jogo ‘metaficcional’ de ‘Ricardo Reis existe?’. É a pergunta muito mais lancinante: ‘Existimos se nos recusamos a nos relacionar com as pessoas?’.”

Tive que pensar muito a respeito disso: qual é a minha obsessão? Eu tenho uma? Por que escrevo se eu poderia não escrever? Se não-escrever é mais fácil, o que diabos me faz escrever?

Sobre os textos que escrevo no blog, um leitor já comentou: “percebi que todos os seus textos se completam, de alguma forma. Eles giram em torno de um mesmo tema.” Eu fiquei impressionada com essa observação, porque foi certeira.

Por algum motivo, nunca precisei refletir sobre isso; sempre tive consciência do tema dos textos que publico no blog. Escrevo aqui um texto único, dividido em vários, colocados em uma ordem aleatória, mas com pontos que sempre se conectam. Como a Teoria Pixar: são personagens de mundos muito distantes entre si, cada um com uma mensagem, mas todos fazem parte de uma mensagem maior.

Mas nos meus trabalhos de ficção, eu nunca tinha parado para perceber um ponto de conexão. A pergunta de Olivia me atingiu na cara sem que eu estivesse preparada para me defender ou revidar.

Agora eu estava com aquela pergunta incômoda no colo e tinha que fazer algo a respeito. Tive que me esforçar e olhar para os meus demônios. Então o demônio me olhou de volta e começou a falar.

Limitação. Da forma que a nossa realidade foi construída, estamos cercadas de limitações: as nossas e a do nosso mundo.

Enquanto vivo, vou esbarrando em tudo que não posso fazer e em tudo que não consigo fazer. Sou consciente demais das minhas limitações, o que faz com que as pessoas à minha volta reclamem e tentem me dizer do que eu sou capaz. Mas eu só consigo ver as barreiras; não porque eu seja obcecada com elas, mas porque é algo que me aflige. É, talvez, minha aflição mais profunda.

As barreiras, é claro, existem para todas as pessoas. Somos incapazes em tantos sentidos. Estamos presos às regras, convenções e possibilidades do mundo em que vivemos.

Mas e se as coisas fossem diferentes? As pessoas funcionariam? Como funcionariam?

A ficção é feita de uma substância que lhe permite ser manipulada, esticada, comprimida, combinada com outros elementos e deformada infinitamente.

É possível mexer nas alavancas e ver o que acontece: suspender a gravidade? Dá. Avançar no tempo? Dá. Criar outras espécies? Dá. Fazer um cara acordar como uma barata? Dá. Fazer todas as pessoas perderem subitamente a visão? Também dá. As possibilidades são ilimitadas.

Diante disso, posso criar as mais absurdas situações e jogar os personagens ali. Testar, ver como eles se saem. Talvez porque eu mesma queira aprender com eles como lidar com o absurdo.

Porque a nossa realidade já é um tanto absurda: é justamente isso que põe à prova nossas limitações, seja para delimita-las ou expandi-las. Mas poderia ser absurda de outras formas. E eu simplesmente preciso ver o que acontece.

Então eu sempre tendo a colocar uma maluquice no meio da história, o que eu até então via como uma limitação minha (mais uma), algo que eu só sabia fazer dessa forma porque talvez não tivesse me desenvolvido, porque escrevia de forma vulgar, juvenil. Mas e se esse fosse justamente o meu tema?

Foi quando percebi que meu demônio reside numa simples pergunta que me assombra: Como lidar com o absurdo?

E, de repente, as histórias que eu escrevo pareceram se conectar.

Refleti tanto sobre isso que comecei a pensar em uma hipótese absurda.

Certo, minhas histórias orbitavam em torno de um tema. As da Olivia, em torno de outro tema. As de Saramago, Bukowski, Tchekov, Lovecraft e tantos outros, idem.

E se, olhando de perto, pudéssemos ver que todos esses temas são, na verdade, os mesmos? Micro-universos que fizessem parte de um universo maior? Histórias que atravessam os limites do tempo e de quem as escreveu e completassem umas às outras?

Qual seria a mensagem maior, então? E, o mais intrigante: quantos demônios eram necessários para suportar o peso dessa mensagem e mantê-la erguida por tanto tempo?

Fotografia: Marc Charbonné // Flickr Creative Commons