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Violência e consentimento

Primeiro, assista ao vídeo.

Provavelmente você já deve ter visto, já que ele parte da ideia daquele outro vídeo que viralizou há algum tempo, com dois desconhecidos sendo colocados na frente da câmera para se beijarem – um vídeo que depois descobriram se tratar de uma propaganda disfarçada para uma marca de roupas. E tudo que transformam em propaganda perde a graça. Bem, mas não é o caso desse vídeo, embora seja muito parecido com o do beijo, até no visual.

Neste vídeo os desconhecidos não são instruídos a se beijarem, mas sim a dar um tapa na cara daquele completo estranho ou estranha diante de si. Um tapa. Na cara. De alguém que você nunca viu na vida.

É muito interessante observar a reação das pessoas. Como se comportam antes de dar um tapa. As coisas que falam, como decidem quem vai bater primeiro. Até estabelecem limites (“espere eu tirar o óculos” ou “calma, vou tirar os anéis” ou “pode me bater, eu só não quero sangrar” “haha, eu nunca faria isso!” ou “obrigada por tirar o anel, muito gentil da sua parte!” “viu, eu me importo com você!”). Como são gentis umas com as outras, apesar de não se conhecerem e, bem, terem que estapear a outra mesmo assim.

E aí rola o tapa, um em cada rosto. Elas riem. Perguntam se podem bater mais. Começam a curtir a brincadeira. Dão tapas mais elaborados, com as duas mãos. Outras dão chutes. Fazem uma corrente de tapas. Dão tapas na bunda. Pedem pra outra bater mais forte.

Fica divertido! Elas riem, se divertem, extravasam. E é tão íntimo. Eu diria que isso exigiu bem mais intimidade e confiança do que beijar um desconhecido (coisa que já é tão natural em festas e carnavais). Depois de tanto se baterem, eles se abraçam, se beijam, parecem ter feito um novo amigo.

Como pode rolar tanta intimidade, gentileza e amizade em um tapa?

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O objetivo do diretor deste vídeo era justamente explorar a natureza da violência: “um tapa, subtraído de seu contexto violento, é mais íntimo do que um beijo. Um tapa atenuado pela permissão do outro se torna um abraço. Elas constroem um relacionamento nesse momento.”

Achei esse experimento incrível. Porque consegue expor (de uma forma fofa e divertida) algo que temos tanta dificuldade para elaborar: que, basicamente, a violência se define pela falta de consentimento.

Um exemplo no esporte: MMA. Muitos acham o esporte muito violento, porque tem porrada, sangue, o objetivo é subjugar o adversário. Mas quem acompanha e vê com atenção, percebe que não é bem assim. Existem muitas regras que servem para proteger os lutadores. Não existe isso de espancamento até a morte, porque o juiz interrompe a luta com o mínimo sinal de perda de consciência de algum dos lutadores, mesmo que o cara apague apenas por uma fração de segundos. Se o cara é pego numa chave de braço, por exemplo, ele dá um tapinha no braço ou na perna do outro lutador, ou ainda no chão, para sinalizar que “chega, não quero mais, me rendo, você ganhou”. É tipo uma safe-word. O limite do consentimento: o outro tem que parar, a luta é interrompida.

O cara entra no octógono consentindo com o fato de que poderá bater e apanhar, com a consciência dos limites daquele jogo, do que ele pode ou não fazer, e tentar vencer o outro dentro dessas regras.

O futebol, por outro lado, é mais violento. Porque as agressões não fazem parte das regras do jogo, sendo inclusive punidas. Mesmo assim as agressões acontecem, e o pior é que são inesperadas, pegam o jogador desprevenido. Qualquer rasteira por trás, empurrão ou até mordida. Sem falar que a violência do futebol também é praticada pela própria torcida, sendo que ninguém entrou no estádio consentindo em apanhar – embora alguns queiram bater.

Parafraseando o Alessandro Martins, o MMA é mais civilizado porque consiste em dois cavalheiros ou duas damas que concordaram expressamente em se espancar até um dos dois não aguentar mais. Eles não se batem porque se odeiam ou porque querem prejudicar o outro. Por mais que exista rivalidade entre alguns lutadores, é comum no final de uma luta os caras se abraçarem, parabenizarem o outro e ainda pedirem palmas da torcida para o adversário que tenha dado trabalho.

O consentimento sendo a linha que separa a violência da não-violência pode ser observada em outros aspectos da vida.

O assédio na rua é uma violência porque a mulher que é submetida a essa situação não concordou com isso. Não há como ela sequer expressar seu consentimento para um desconhecido que passa de carro gritando baixaria ou para um estranho que passa por ela praticamente cheirando seu cangote. E lembrando que 1) usar uma saia curta ou decote não significa consentimento 2) os caras que fazem isso não estão nem um pouco interessados no consentimento da moça, portanto, a “graça” que eles veem nisso é justamente em cometer um abuso.

Se duas pessoas adultas e conscientes concordam em fazer sexo, bem, aí é sexo. Uma relação, uma troca. Se uma pessoa decide fazer sexo com alguém sem o consentimento dessa pessoa, deixa de ser sexo e se transforma numa violência. É estupro. E lembrando que uma pessoa ter permitido fazer algo sexual uma vez não significa que ela está concedendo permissão automática para tudo, todas as vezes.

Tem casais que curtem se bater, fazem disso um fetiche. Então eles concordam em se amarrar, em infligir dor no outro ou se submeter à dor, impondo suas próprias regras, com limites e consentimento. Sem consentimento, é violência.

Até um beijo ou um abraço dado sem o consentimento do outro torna-se uma violência.

E acho que estamos falhando em ensinar o que é consentimento e saber o que isso significa. Muita gente não entende sequer o básico: que se uma pessoa está inconsciente ou bêbada ela não é capaz de dar consentimento. Que não dizer um “não” não quer dizer que a pessoa consentiu. Que um “não” significa sempre e indubitavelmente um “não” e que a pessoa não está dando o seu consentimento para algo. Que não respeitar esses limites é cometer uma violência.

Chega a ser irônico pensar que um vídeo de tapa na cara possa nos ensinar tanto sobre civilidade e gentileza – algo que só podemos experimentar, como sociedade, por meio do respeito ao consentimento.

Este texto foi publicado originalmente na edição 20 de Bobagens Imperdíveis, newsletter que envio semanalmente com textos exclusivos, conversas, atualizações sobre o meu trabalho, curiosidades, tretas, indicações de leitura e muitas bobagens. Assinar é fácil, rápido e grátis, é só clicar aqui.