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Corpo que

Este corpo tem água e osso. Tem carnes moles. E dedos finos. Tem dois braços, com ombros, cotovelos e mãos. Tem duas pernas, com nádegas, joelhos e pés. No meio, um recheio de vísceras quentes que se movem o tempo inteiro, mesmo quando o corpo descansa. Em cima disso tudo, uma cabeça que às vezes esquece que o resto existe.

É um corpo que deita, fica sentado e anda, mas não muito, ou o joelho reclama. O esquerdo. É um corpo que não aprendeu direito a manter os ombros para trás, a coluna reta. Quando senta, às vezes fica torto. É um corpo que consegue cruzar as pernas ao extremo, até que elas fiquem totalmente entrelaçadas, como uma trança. É um corpo que encolhe, estica e flexiona mais que verbo.

Corpo esse que tem um peso, altura e idade. Que ficou maior ao decorrer dos anos. Corpo de formas mutantes, onde nada é fixo. Tem unhas que crescem, cabelos que caem, pelos que brotam. A pele desbota.

Corpo que tem siso nascendo e empurrando os outros dentes, que vão ficando apertadinhos, amontoados, em uma boca onde a língua é a consciência. A vida inteligente que habita um planeta úmido, cheio de detritos e cercado de paredes feitas de osso e esmalte.

Corpo que cheira e tem cheiro. Corpo que faz barulhos por dentro e por fora, quando falo ou canto ou respiro ou tenho fome. Corpo que enxerga com olhos meio defeituosos e com cada pedaço de pele que o cobre. Corpo que ouve o mundo e a si mesmo, quando o coração bate tão forte que emudece o resto.

Corpo que caga, mija, sua, peida, vomita, escarra. Corpo que se desfaz em sólidos, líquidos e gasosos. Corpo que devora e joga fora o que não presta, todo santo dia. Corpo que digere, processa e anda por aí carregando cocô até chegar a hora de jogá-lo fora. Corpo que filtra o sangue, a água e o que mais eu beber, até expelir em forma de urina que às vezes tem um leve aroma de café misturado ao ácido. Corpo que se deteriora aos poucos até o dia em que vai apodrecer de vez.

Corpo que chora e fica com a cara inchada. Treme no frio até as costas doerem. Serve pra dançar e descansar. Fica na horizontal e na vertical. Obedece à gravidade. Alonga e estrala. Sangra quando se fere. Tem dores estranhas que, em vez de calar, preciso ouvir para entender o que elas querem dizer. Expressa uma identidade. Tem um RG e CPF.

Corpo com sensações que nunca experimentei, possibilidades que nunca usei. Com um tempo de vida útil que eu nunca vou saber até quando vai. Um corpo que não está na garantia. Um corpo que não pode ser outro. Não é perfeito, nem atleta, nem capa de revista. Não tem rabo, nem asas, nem barbatanas.

Corpo que tem marcas de sol, pintas, tatuagens, espinhas, cicatrizes de acidentes, de arranhões de gato e de mordida de cachorro. Cabelo que não é mais virgem, com tinta no cabelo tesourado bem curto. Corpo com marcas que indicam que esse aparelho não é novo em folha. É – e está sendo – usado.

Corpo com buracos, de saída ou entrada. Tem cu e tem narina. Tem ouvido e tem umbigo. Tem vagina e tem boca – e, nos dois, lábios. Corpo que menstrua. Que goza. Às vezes os dois ao mesmo tempo. Corpo com um útero, ovários e uma porção de ovos.

Corpo com uma bunda riscada por estrias e polvilhada de celulites, que se estendem até as coxas. Corpo que tem barriga fofa e canela fina. Corpo que tem mamilos pequenos e escuros. Corpo com seios moles que esticam se levanto os braços, esparramam se deito de barriga para cima, esmagam se deito em cima deles, sacodem se o carro passa por um quebra-molas.

Corpo com veias e nervos formando as linhas de metrô que passam pelo corpo todo, linhas azuis e vermelhas. Corpo com um cérebro gelatinoso dentro de uma carapaça dura, que quase já se abriu uma vez. Corpo com músculos pouco usados e com um esqueleto inteiro por dentro que não deixa essa coisa mole se desmanchar. Corpo com consciência, palpitação, respiração e movimento.

Corpo que me carrega pra lá e pra cá, o único que tenho.

Meu. Corpo. O corpo que eu sou.

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