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A maioria das escritoras que eu gostaria de ter lido, eu nunca li. Nunca chegaram a ser publicadas. Algumas delas nunca chegaram a escrever. Eram criativas, imaginativas, tinham boas histórias para contar. Mas eram analfabetas. Ou tão pobres que não tinham tempo para isso, porque precisavam, em primeiro lugar, sobreviver. Outras tantas morreram jovens, antes de colocar ao menos uma palavra no papel.

As minhas escritoras favoritas que nunca conheci, se escreveram, não chegaram à minha época. Seus nomes foram apagados e seus trabalhos jogados no anonimato. Tiveram suas vidas empurradas para a miséria e para longe da ficção.

Mas quem liga para as escritoras que nunca puderam ser escritoras? Tantos trabalhos fantásticos, tantos grandes escritores! Que importa se a maioria esmagadora era homem? Foram geniais. E como eu posso reclamar se houveram escritoras mulheres também brilhantes? Poderia ter havido mais, mas eu que me contentasse com as que conseguiram.

Virginia Woolf, essa pelo menos tive a chance de conhecer. Não pessoalmente, porque viveu no século passado. Ainda assim, ela veio até mim e me contou algumas verdades. Não sentada ao meu lado, no sofá, mas através do ensaio “Um Teto Todo Seu”, de 1928, e já é o melhor que eu poderia desejar.

Já que estamos falando de escritoras que não existiram, Virginia me propôs: imagine que Shakespeare teve uma irmã tão inclinada à criação quanto ele, conseguiria ela alcançar o mesmo reconhecimento e fama que teve o irmão?

Judith, essa irmã hipotética, conforme Virginia ia me contando, “era tão audaciosa, tão imaginativa, tão ansiosa por ver o mundo quanto ele. Mas não foi mandada à escola.” Nunca foi incentivada a estudar, a ler, a escrever, a desbravar o mundo. Deveria se ocupar de afazeres domésticos e logo deveria se casar, com quem o pai desejasse. Mas ela fugiria e tentaria a sorte no teatro, que amava tanto quanto o irmão. Ela, no entanto, seria rejeitada. Jamais conseguiria escrever e se mataria em uma noite de inverno para ninguém nunca mais ouvir falar nela.

É preciso condições mínimas para se dedicar à escrita. “A mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela se pretende mesmo escrever ficção.” Significa autonomia, segurança financeira, tempo para escrever. Era tudo o que as mulheres não tiveram em boa parte da história da humanidade. Que muitas não têm ainda hoje.

Virginia Woolf expôs em seu ensaio o cenário que impediu tantas mulheres de terem sido escritoras:

“A liberdade intelectual depende de coisas materiais. A poesia depende da liberdade intelectual. E as mulheres sempre foram pobres, não apenas nos últimos duzentos anos, mas desde o começo dos tempos. As mulheres têm tido menos liberdade intelectual do que os filhos dos escravos atenienses. As mulheres, portanto, não têm tido a menor oportunidade de escrever poesia. Foi por isso que coloquei tanta ênfase no dinheiro e num quarto próprio.”

Escrever é difícil, ponto. Mas se torna algo impossível se a pessoa que escreve não tem autonomia, não tem segurança financeira, não tem escolhas, tem que enfrentar tantas barreiras e tanto preconceito.

72 por cento dos escritores publicados atualmente são homens. Onde estão as escritoras? Pelo que estão passando que não estão preenchendo mais essas porcentagens?

Enquanto isso, muitas das que são publicadas às vezes têm seu primeiro nome suprimido, escondido em uma abreviatura, para que não vejam que o livro foi escrito por uma mulher e assim possa ser vendido. Outras tantas têm seu trabalho diminuído, rotulado como subliteratura, como algo menor. Ou, quando são elogiadas, ouvem que “escrevem como homem”, ou ainda precisam ouvir de editores comentários sobre sua aparência, e não sobre seu trabalho.

É todo um mundo lutando contra mulheres que escrevem, empurrando um gigantesco não contra elas, colocando barreiras em seu caminho, até que desistam, enlouqueçam e suas histórias sejam esquecidas.

E aqui estou eu, fazendo parte dessa luta para não ser esmagada por ter resolvido escrever. Enfrentando várias dificuldades, ainda que com a consciência de que tenho a chance que tantas mulheres não tiveram.

Foi quando me sentei ontem para continuar a escrever meu livro que lembrei das minhas escritoras favoritas que nunca foram escritoras. Imaginar que eu não poderia escrever se eu tivesse nascido em outro lugar e outra época, é louco demais para eu não fazer um bom uso dessa oportunidade que eu tenho.

Se o mundo faz força para fazer as mulheres escritoras encolherem até sumirem, o mínimo que a gente pode fazer é dar a elas uma forcinha para que possam crescer.

Divulgar o trabalho delas. Comprar seus livros. Escrever sobre eles. Valorizar o trabalho delas. Incentiva-las a continuar.

Apoie a escritora. Não deixe ela enfrentar essa barra sozinha.

É o que tento fazer sempre que possível; como autora independente, sei bem como isso faz a diferença.

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A escritora precisa de dinheiro para continuar a escrever.