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Meu blog é um dinossauro que se recusa a virar fóssil

Os blogs não vão voltar a ser o que já foram.

Respondo isso mentalmente depois de ler alguns textos e discussões reivindicando que os blogues voltem a ser “pessoais”. Mas esperar que o reino da blogosfera volte a ser o mesmo de alguns anos atrás, antes do furacão virar tudo de cabeça pra baixo? Acho tão improvável quanto esperar que os continentes de hoje voltem a ser Pangeia.

Um dia, blog era expressão. Hoje, também é negócio. E é muito mais lucrativo para os que falam de humor, polêmicas ou life-style – que é o nome bonito que arrumaram para classificar blogs que falam de consumo.
 
Blogueiro hoje é porta-voz de marca. São celebridades, influenciadores, indicam tendências. Muita gente já consegue viver apenas de seus blogs – e alguns vivem bem.

Mas ei. Isso não anula o fato de existirem blogs sobre outros temas, com outras abordagens. Blogs feitos por gente como a gente, que luta para conseguir alguma atenção num oceano de conteúdo patrocinado, superficial, replicado e com títulos apelativos como 20 coisas que você não sabia sobre o seu papel de trouxa ou Cachorro é colocado em manchete de link pega-trouxa e o que acontece depois é surpreendente.
 
Errado, no caso, é quem não se adequa. Afinal, é isso que as pessoas buscam e é o like delas que faz esse mercado girar.

Dia desses recebi pelo formulário de contato aqui do blog a seguinte “proposta”: “promova suas publicações no Face ou Instagran (sic). Promovemos cerca de 500 curtidas por postagem pelo valor de R$15 / pacote mínimo de 30 postagens”. Hoje, relevância é medida pela quantidade de curtidas – ainda que seja possível comprá-las a um preço mais barato que o do quilo da carne.

Depois do Facebook, os blogs não vão voltar a ser o que eram antes. Primeiro, porque coisas que antes seriam escritas num blogue hoje se transformam em textão naquele site.

Em segundo lugar, porque: você já experimentou ser produtor de conteúdo e divulgar seu trabalho por lá? Ainda que mais de 11 mil pessoas tenham escolhido seguir a minha página para acompanhar o que escrevo, o Facebook só deixa cerca de 500 verem o que posto por lá. No melhor estlo Rede Globo, ele cobra para que você veicule sua mensagem para uma audiência maior.

Relevância é medida por curtidas, e não há curtidas grátis.

Mas não adianta chorar sobre o Google Reader derramado. Se as pessoas mudaram seus hábitos de leitura, que se mude também a estratégia.

Não sou uma blogueira “das antigas”, mas, apenas neste blog, escrevo há seis anos. Durante este tempo, vi blogs surgirem & morrerem, vi as coisas mudarem, crescerem, novos continentes se formarem, pequenos blogs serem derrubados para construírem estacionamentos para os grandes.

Durante esses seis anos, meu blog passou de desconhecido para muito acessado, ao ponto de receber milhares de likes e visitas num único dia. Vi também o sucesso passar e eu voltar a batalhar por algum espaço. Vi o número de acessos diminuir, mas o número de leitores aumentar.

Como a banda que emplaca alguns hits de sucesso na rádio e depois sai do mainstream apenas para constatar que os fãs mais firmeza continuavam a acompanhar os shows, também percebi que o meu blog continuava a ser lido por um público muito fiel – e que sabe o que quer.

Seis anos de blog e realmente não tinha como ser como já foi um dia. Se as coisas mudaram, eu mudei também. Acabei diminuindo minha presença no blog para me comunicar com as pessoas de uma forma mais íntima, mais pessoal.

Há um ano, criei a newsletter Bobagens Imperdíveis e com ela mudei minha forma de blogar. Ali, consegui resgatar o caráter de “diário” que os blogs de antigamente tinham e estabeleci um contato muito mais humano e direto com meus leitores. Conto mais como foi essa minha experiência neste texto: “Como o e-mail mudou minha forma de blogar”.

Os relacionamentos que passei a desenvolver ali são impossíveis de serem medidos pelas atuais métricas de “sucesso” na internet. Eu posso estar mais pobre de likes, a moeda corrente no reino da blogosfera, mas estou descobrindo uma nova riqueza, na forma desse contato tão único com meus leitores.

Os blogs não vão voltar a ser o que já foram, repito. Mas eles podem se transformar em outra coisa.

Já quis acabar com este blogue várias vezes, mas continuei a escrever. Aliás, completa um ano este texto sobre os motivos de eu ainda escrever na internet e ele continua atualíssimo. Considero este um espaço de resistência. Vou ficando, enquanto tantos blogs bacanas acabam por falta de dinheiro, de ânimo, de leitores – e eu sempre lamento quando isso acontece.

Eu vou continuar escrevendo, ainda que esse espaço, por falta de glamour ou de assuntos que estejam na moda, deixe de ser considerado “blog” e se torne um dinossauro que teima em não ser extinto.

E, por mais que eu me chateie com o fato de bons blogs nunca terem o merecido destaque, ou por mais que eu ache horrível essa cultura de apenas consumir passivamente o que aparece no feed do Facebook e nunca correr atrás de coisas legais na internet, não é isso que vai querer me fazer voltar no tempo – até porque não é possível.

Vou, em vez disso, sentar no meu humilde terreno no reino da blogosfera e esperar pelas próximas mudanças.

Esperarei pelo dia em que o mercado de likes vá à bancarrota e relevância não tenha mais a ver com um número de joinhas pra cima em relatórios numa firma descolada de social media. Haverá, talvez, um dia em que as pessoas descubram que é possível entrar em contato com o mundo por outros lugares que não através do portal do Facebook. Haverá o dia em que as pessoas deixem de consumir conteúdo para se relacionar com ele de forma mais profunda. O dia em que as coisas não fiquem ultrapassadas tão rápido. O dia em que o alcance de um conteúdo não dependa apenas de quanta grana seu criador tenha para divulgá-lo.

No futuro, os blogs podem deixar de ser os shopping centers, points super badalados e revistas de celebridades que são hoje e virar outra coisa. O espaço de um novo movimento artístico. Um meio de contato com outra raça inteligente. Um lugar para experimentar e criar novas línguas. O exílio que vai receber os ex-moradores do Facebook quando aquela merda acabar. Uma realidade virtual onde criaremos novas personas para nós e construiremos uma nova sociedade, revolucionando o mundo como o conhecemos. Um espaço para falarmos de nossas angústias, ideias e pensamentos sem nenhuma pretensão de fama e reconhecimento. Um lugar para buscar contato humano.

Só não é preciso esperar até esse dia para conhecer blogs mais pessoais, com bom conteúdo, de gente que tem o que falar e merece ser ouvida. Esses já existem – ainda que possa dar um algum trabalho pra achar.

O que não dá é pra esperar que uma Pangeia da blogosfera exista de novo. Essa, ficou pra trás – como um dia também ficará a blogosfera de hoje.

Imagem da capa: College of Humor, daqui.