Quatro mulheres e uma história de sobrevivência

Poucas histórias em quadrinhos me tocaram tanto quanto Four Women (publicado pela Wildstorm, 2002). Eu não estava preparada para o que me aguardava naquelas páginas e eu jamais poderia imaginar que eu ficaria atônita depois de terminar a leitura. Precisava escrever sobre isso, não só por ser uma história que recomendo altamente, mas pela inteligência ao abordar um assunto tão pesado. Adianto: Four Women é uma história sobre estupro.

Essa série em cinco edições é um trabalho de Sam Kieth, o cara que desenhou as primeiras edições de Sandman, com roteiro de Neil Gaiman. Outros trabalhos conhecidos do artista são as séries Zero Girl, The Maxx e Wolverine/Hulk. E, como nessas três, Sam Kieth cuidou do roteiro e do traço de Four Women.

A história, como o próprio título sugere, é sobre quatro amigas: Donna, Marion, Bev e Cindy.

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Elas estão em uma viagem de carro, indo a uma festa de casamento em outra cidade. Sabemos que algo terrível aconteceu nessa viagem porque a história desde o início é narrada por Donna, que está contando o ocorrido para sua terapeuta.

Logo, a narrativa está impregnada do ponto de vista de Donna, de forma que os fatos não são apresentados na mesma ordem em que aconteceram, mas na sequência que ela se lembra – ou acha conveniente contar. Pode parecer confuso, mas isso é o que me manteve grudada nas páginas e o que garantiu a tensão. Tensão, aliás, é o que não falta nessa história.

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As coisas começam a ficar esquisitas quando o carro delas enguiça no meio da estrada. Uma picape surge logo em seguida e saem de dentro dela dois caras. Em vez de ficarem aliviadas porque alguém pode ajudá-las, elas ficam mortas de medo.

Naquele momento eu consegui me colocar no lugar das personagens por saber bem porque aquilo era tão apavorante. Vivemos em um mundo onde não é seguro ser mulher. Certamente alguém pode lembrar que não é seguro pra ninguém, que qualquer um corre o risco de ser assaltado, agredido e até morto numa situação dessas. Mas um gênero inteiro de pessoas tem uma preocupação a mais: estupro. E o que é ainda mais assustador nessa realidade é que nem é preciso estar em um carro enguiçado no meio do nada para correr esse risco; se você é mulher, você nem precisa sair de casa para se tornar uma vítima em potencial desse tipo de violência.

Para homens, a pergunta “o que você faz para se proteger de ser abusado sexualmente?” chega a ser alienígena. Mas praticamente todas as mulheres vão ter uma resposta na ponta da língua. Pode parecer paranoia, mas é uma questão de sobrevivência que aprendemos desde cedo. É a nossa realidade. Cindy, a mais nova do grupo, lembra o leitor disso quando os caras começam a bater no carro delas, para intimidá-las, e ela diz: “Ei, eu vou a festas com caras de fraternidade bêbados que são muito mais assustadores do que isso.”

Não satisfeitos em tentar intimidá-las, os caras levam a situação ao extremo (e é claro que eu não vou contar para não estragar a sua experiência com a história. Você vai ter que ler para descobrir). Não se surpreenda se, de repente, você se sentir preso/presa dentro do carro junto com elas passando por essa situação de horror.

A partir daí, a história conta o que cada uma das quatro fez para proteger as outras amigas – e é interessante observar como as reações foram bem diferentes umas das outras.

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Four Women me fez lembrar de algo que me incomodava nas histórias do Manara e eu não sabia dizer o quê. Para quem não sabe, Milo Manara é um artista italiano conhecido por suas histórias cheias de erotismo, como El Gaúcho, Verão Índio, Bórgia, Clic, Encontro Fatal. Apesar de ser um péssimo roteirista, é notável o talento de Manara para desenhar mulheres corretíssimas para os padrões de beleza (mesmo sendo todas tão parecidas), assim como é difícil deixar de notar sua fixação com estupro.

Nas histórias que li, sempre havia uma cena envolvendo uma mulher sendo estuprada ou humilhada; em Encontro Fatal isso é tão marcante que senti um mal estar físico real ao ler a história.

A questão é que Manara retrata essas cenas de violência sexual contra mulheres de forma que pareça belo, sexy, sensual, excitante. Que se pareça menos com o que realmente é: uma violência. Em seus quadrinhos, Manara glamouriza o estupro.

Certamente é bem diferente do que vemos em Four Women. Em primeiro lugar, pelo roteiro bem construído, diálogos excelentes e pela profundidade que foi dada às personagens. Mas, acima de tudo, pela perspectiva sob o qual o estupro é encarado. Manara costuma apresentar o abuso sexual como uma forma de sexo, mas estupro não tem NADA a ver com sexo. Estupro tem a ver com poder. Bev, uma das quatro mulheres da história de Sam Kieth, deixa isso bem claro em uma de suas falas:

“isso é uma disputa por poder, e eles [os agressores da história] não querem perder a moral.”

Four Women é uma história em quadrinhos surpreendente sobre sobrevivência, mas é difícil ler sem sentir um aperto no coração e enorme empatia pelas personagens.

Além disso, passa no Bechdel Test com louvor, o que torna a leitura ainda mais recomendável. Por mais que não tenha sido nada fácil acompanhar o sufoco dessas quatro mulheres, foi um alívio descobrir uma HQ em que as mulheres são pessoas e não apenas objetos de um desejo tóxico por controle e poder que já nos oprime tanto, bem aqui, no mundo real.

Texto originalmente escrito em 2013.

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