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Dandara e a jornada da heroína

Toda aventura começa com um chamado. Ou pelo menos a maioria delas, se a gente pensar que grande parte das histórias contadas pela humanidade têm em comum a mesma estrutura; das aventuras de heróis de quadrinhos até às narrativas bíblicas, dos filmes da Marvel até os mitos da antiguidade.

Essa estrutura, conhecida como a Jornada do Herói, foi descrita por Joseph Campbell, antropólogo e autor do livro O Herói de Mil Faces, e geralmente começa apresentando o herói em seu mundo ordinário, para em seguida mostrar a vidinha pacata e comum deste personagem sendo virada de cabeça para baixo a partir do momento em que ele recebe um chamado que o joga para dentro de uma aventura.

Foi assim que aconteceu. “Vou fazer um e-book contando a história de Dandara de Palmares. Você topa ser a ilustradora?” Esse foi o chamado que recebi, da minha amiga e também escritora Jarid Arraes. Na estrutura de Campbell, o passo seguinte seria “a recusa ao chamado”, que é aquele momento em que o personagem está indeciso, ou inseguro, ou por qualquer motivo acha que tem qualquer coisa melhor a fazer do que dar prosseguimento àquela história.

Eu tinha algum motivo para essa “recusa”: veja, eu nunca fiz um trabalho como esse. Eu sou escritora. Certo, eu ilustro, mas ilustrar um livro inteiro? Complicado. E esse prazo apertado, não sei se consigo. Mas aceitei o chamado feliz, feito Sam pondo mochila nas costas e seguindo Frodo lealmente até as perigosas beiradas de Mordor.


Dandara não existe, disseram. E realmente há tão pouca documentação histórica sobre a guerreira palmarina, companheira de Zumbi, que há margem para muitos acreditarem que ela não passa de lenda. Mas é uma questão que ultrapassa a discussão sobre o que é fato ou não é; em uma realidade que relega mulheres ao papel de coadjuvantes ou figurantes e apaga suas histórias, em que nos negam até mesmo a chance de termos heroínas nas quais nos inspirar, é doloroso ver Dandara, símbolo de luta e resistência negra, ser jogada para debaixo dos tapetes da história.

Como Jarid escreveu:

“Achei – e ainda acho – que se Dandara não está devidamente registrada na historiografia brasileira, o machismo e o racismo tão impregnados na nossa cultura certamente tiveram papéis importantes nesse enredo.”

Foi nesse apagamento de Dandara da nossa cultura e das nossas narrativas que surgiu a motivação de Jarid para escrever. Ela não aceitou essa invisibilidade. Ficou chateada, incomodada, mas fez algo a respeito. Respondeu com arte. Diziam que Dandara não passava de lenda? Ótimo. Então ela escreveria as lendas da guerreira. Foi assim que teve a ideia de escrever um livro de ficção, inspirado na história do Brasil e no pouco que contam sobre Dandara dos Palmares.

uma das ilustrações do  livro: Dandara e Zumbi

uma das ilustrações do livro: Dandara e Zumbi

 

Na ficção, quando a motivação de um protagonista é bem construída e interessante, faz com que o leitor sinta vontade de acompanhá-lo por sua jornada. Jarid não é um personagem, mas a motivação que a conduziu para essa ideia me fez acreditar no projeto e ver – no livro que ela escreveu – que sua vontade se refletiu em personagens vivos e histórias cheias de verdade.

Verdade não por serem fatos históricos, porque até deusa dos ventos atravessando o oceano com um nenê no colo tem no livro; mas verdade por serem histórias profundamente humanas.


Como sidekick de Jarid nessa missão de imensa responsabilidade, tal qual um Robin para o Batman (do qual ela aliás é fã), tive o privilégio de ter uma visão única do livro. Vê-lo pelo avesso. Por fora e por dentro. Foi mais do que desenhar um texto que ela escreveu; foi compartilhar a narrativa de uma história, foi criarmos juntas uma heroína. Por trás das lendas de resistência e luta, houve uma história de aprendizado e troca.

Ela já tinha em mente a estrutura da história de Dandara, sua trajetória desde o nascimento mágico até o fim trágico e misterioso, mas pude acompanhar o processo em que ela preencheu esses acontecimentos até dar forma às lendas da guerreira, enquanto eu cuidava das formas (literalmente falando) da personagem.

“Acho que ela precisa ser bem fora dos padrões, Aline”, foi a recomendação da minha parceira. Desenvolvemos uma Dandara de pele bem escura, mais escura que os outros personagens, e com o cabelo crespo sempre à mostra, características da negritude geralmente desprezadas, e que na nossa história seriam celebradas.

Dandara_Sketch04

estudos de personagem

 

Ela também não poderia ser magra, e eu já não sou fã desse estereótipo de heroína com corpão que se vê em muitas HQ’s, então imaginei uma Dandara robusta, bem alta, que passasse através de sua expressão corporal sua força e atitude. Também demos a ela uma arma bem especial: duas adagas que cruzadas formam o símbolo Akofena, que representa sua coragem.

Dandara_Sketch06

estudos de personagem

 

Nosso processo de trabalho partiu de reuniões e de uma extensa troca de e-mails mamutes, com ideias, esboços, e uma porção de gifs engraçadinhos que hoje em dia são indispensáveis para qualquer comunicação que queira ser íntima e completa. Ilustração e texto, assim, foram sendo criados juntos, quase simultaneamente.

Enquanto eu calejava os dedos desenhando, torcendo para conseguir entregar tudo a tempo – porque meus outros projetos continuavam olhando pra mim, cobrando minha presença –, pude acompanhar de perto o processo de escrita.

À esquerda, esboço da cena; à direita, ilustração do capítulo finalizada

À esquerda, esboço da cena; à direita, ilustração do capítulo finalizada

 

Vi duas histórias sobrepostas. As jornadas se entrelaçando. Enquanto Dandara, em algum lugar na ficção, treinava e bolava estratégias em Palmares, Jarid fazia lista dos capítulos que escreveria, anotava ideias, projetava prazos. Enquanto Dandara tentava convencer os quilombolas a executar algum plano mirabolante contra um senhor de escravos, Jarid propunha fazer o e-book crescer para um livro impresso. Enquanto Dandara saía pra lutar sozinha contra capatazes, Jarid peitava as dificuldades de produzir e publicar sozinha um projeto independente.

Na jornada das duas, erros e acertos. Conquistas e frustrações. Aliados e dificuldades. Dandara está longe de ser uma heroína fodona e perfeita que consegue tudo com facilidade, o que tornaria a história previsível e distante demais dos leitores; a Dandara desse livro é cheia de contradições, erra, é teimosa, tem coragem inclusive – e acima de tudo – para expor suas fraquezas. Porque ela é humana. E sendo humana, é possível se identificar com ela, torná-la próxima o suficiente para inspirar especialmente jovens leitores e leitoras.

Mas chegar a isso foi todo um processo, que Jarid conta neste texto.

“Muitas pessoas sentem que precisam ‘compensar’ seus supostos defeitos. É uma espécie de estratégia de sobrevivência, uma forma de não ser totalmente excluído e esquecido, pois todas as pessoas necessitam de reconhecimento, apoio e encorajamento. Assim como eu, muitas mulheres e garotas negras sentem a necessidade de ter mais empenho e dedicação em suas notas e estudos, ou sentem-se obrigadas a se destacarem nas atividades que praticam para conseguirem mais oportunidades. (…) A esse fenômeno dou o nome de ‘Síndrome do Não Boa o Bastante’.

De repente, eu refletia na minha personagem todas aquelas inseguranças sociais e pessoais pelas quais eu passei. A primeira versão do livro estava cheia de uma Dandara que eu tentava justificar e afirmar, como se aquela personagem nunca fosse boa o suficiente; eu pensava que as pessoas leriam e não enxergariam seu heroísmo, sua garra e sua força. (…) Quando eu finalmente rejeitei a ‘Síndrome do Não Boa o Bastante’, a protagonista que eu criei conseguiu se mostrar em toda sua glória, coragem e humanidade.”

Se na ficção Dandara luta contra a escravidão, escrever o livro também foi uma batalha pessoal de Jarid contra o racismo. Uma luta para encontrar a própria voz. Para acreditar nela. O que acaba apenas reforçando a importância e necessidade de contar essa história – e se tornando  também um motivo a mais para ouvi-la.


Cordelista, Jarid pincelou seu livro com sua poesia, ao criar cenas poéticas e mágicas como a do nascimento de Dandara. Um trecho:

 

“A tarde já caía quando Iansã partiu com tremenda velocidade rumo ao ponto mais alto dos céus. Com cortes rápidos de espada, o ar era dividido e se transformava em blocos de nuvens coloridas, tingindo o céu de rosa e vermelho, em incontáveis tons e formas encantadoras. Iansã estava feliz, convicta de seu plano.

Havia pensado em tudo com profundidade. Não poderia usar as próprias armas e atos para mudar o curso da história de todos, mas podia criar uma mulher tão forte quanto ela; uma mulher que amasse seu povo e lutasse pela liberdade, tendo a espada como íntima companheira e extensão dos seus braços; uma mulher de pulsão combativa, de furor rebelde. ‘Uma filha do meu ser’, imaginava e sorria.

(…) De repente, trovões. Os sons da natureza ecoavam, redemoinhos de vento bailavam em círculos e espirais rosados, escuros e perigosos. Da espada de Iansã, uma luz crescia e pulsava como a respiração de uma mulher em trabalho de parto, até que seu clímax foi atingido. Nos braços dela, estava, enfim, uma garotinha de olhos expressivos.

– Seu nome será Dandara e você trará libertação para seus irmãos e irmãs. – disse Iansã sorrindo, olhando a menina com ternura.

(…) África estava viva, acordada, com olhos bem abertos. A dança de Iansã com sua filha recém-criada demarcava uma celebração poderosa que durou por dias ininterruptos”.

uma das ilustrações do livro: Iansã segurando baby Dandara

 

É óbvio que deuses podem criar heróis com muito mais facilidade; para autores de carne e osso, isso é muito mais difícil. Quando se é autora, então, as coisas se complicam.

As Lendas de Dandara não surgiu magicamente da espada de Iansã, mas de muito trabalho e de um processo tão turbulento quanto os furacões que a orixá representa. Mesmo depois do livro pronto, é uma batalha que não finda para divulgá-lo, para chamar a atenção e fazer as pessoas se interessarem pela história de Dandara. É difícil romper as barreiras do preconceito para produzir literatura independente, especialmente se produzida por mulheres, especialmente se a história foge dos padrões de heróis homens e brancos que já inundam a ficção.

Mas motivos não faltam para conhecer a história: tem deuses africanos, tem Iansã sendo 100% maravilhosa, tem uma mãe apaixonante, tem magia, tem lutas de espada, tem capoeira, tem romance, tem o Zumbi mais feminista ever, tem drama, tem fogo na Casa Grande e corrente sendo quebrada na senzala, tem jornada da heroína com provações aliados e inimigos, tem Dandara braba e Dandara meiga, tem historinha pra ler e figura pra ver.

a Dandara de mil faces

a Dandara de mil faces

 

Tenho orgulho de ter participado desse projeto, e é difícil falar dele como só um livro. Foi aprendizado. Porque a própria Jornada de Herói consiste em uma série de etapas que um personagem passa para poder crescer, como no vídeo-game, em que vamos passando de fase e ficando mais poderosos; Dandara e Jarid, que passaram por essas etapas de crescimento, me inspiraram em todo esse processo e me fizeram ver que uma jornada vale ainda mais a pena quando percebemos que saímos maiores do outro lado. Principalmente quando o nosso lado é o do leitor.


 

Dandara_Livro01

As Lendas de Dandara está disponível em e-book (nos formatos epub, mobi e pdf) e em versão impressa. Você pode escolher entre as duas opções e comprar seu exemplar no site.