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Frankenstein: mais do que horror e monstros

É 1816 e faz frio, apesar de ser verão. O que melhor a se fazer nesse clima tão esquisito do que se reunir com os amigos ao redor de uma lareira, não é mesmo? Na falta de um Netflix naquela época, é o que a jovem Mary Godwin e seu namorado Percy Shelley resolvem fazer quando vão se encontrar com o amigo Lord Byron e outros escritores da turma.

A noite é divertida, com muita bebida e histórias de fantasmas. Tão divertida que alguém se empolga além da conta, sobe na mesa e propõe: “gente, e se a gente fizesse um DESAFIO DE ESCRITA? Cada um de nós escreve um conto de terror e no próximo encontro lemos e decidimos quem é o ganhador!”

“Massa”, todos concordam, e começam a pensar em suas historietas de terror para o concurso.

Mary, na época com 18 anos, não consegue pensar em nada de cara e se angustia vendo os colegas já esboçando suas histórias. Sua inquietação com o deadline chegando ao fim acaba se refletindo em uma noite mal dormida, em que ela é atormentada por pesadelos. Um vulto enorme encarando-a, uma criatura horrenda criada por mãos humanas, a sensação de haver algo muito errado em criar vida desse jeito. Um monstro, mas quem? Criador ou criatura?

Ela se empolga e dá forma à história que leva para o encontro com seus amigos. Entre os outros contos apresentados aquela noite, Mary ouve a história “O Vampiro”, de John Polidori, que mais tarde seria considerada a origem do gênero de vampiro na literatura, que influenciaria desde Bram Stoker até Stephenie Meyer.

Mas não foi a única obra marcante que aquela noite fez surgir na história da literatura. Ali a jovem Mary, que mais tarde seria Shelley, estreou o conto que daria origem ao livro Frankenstein; or the Modern Prometheus, publicado em 1818 e lido até duzentos anos depois, criando raízes na literatura, na cultura pop e dando origem a outros ~clássicos~ que ela jamais seria capaz de prever, como “Nosso Amigo Frankenstein”. Nem a Sessão da Tarde seria o mesmo sem ela.

Nosso Amigo Frankenstein

Nosso Amigo Frankenstein (1991)


U

ma vida inteira sabendo da história do monstro de Frankenstein sem nem precisar ler a obra que o originou me deixou em dúvida se eu conseguiria me surpreender ao ler o livro. Quem não conhece Frankenstein, mesmo por alto? Apesar disso, o livro me surpreendeu, e muito.

A cada capítulo, Mary Shelley me mostrava que sua história não tinha nada a ver com as minhas expectativas, a começar por suas escolhas narrativas: quem narra a história é o capitão de um navio, Robert Walton, mandando cartas para sua irmã Margaret – Mary começa a história já nos dando um papel: como leitores, somos a irmã desse capitão – e ele narra uma expedição que faz para as águas geladas do norte. Quando o navio fica preso no meio de uma geleira, a tripulação avista um homem num trenó, quase congelando. A partir de então, suas cartas começam a contar a história desse cara que eles resgatam, um suíço chamado Victor Frankenstein.

Mary Shelley costura com habilidade uma história dentro de outra história: na superfície, são as cartas de Walton para sua irmã Margaret; dentro disso, Frankenstein contando sua história para o capitão de um navio; dentro disso, no momento em que ele se encontra com sua criatura, é o monstro contando sua história para seu criador; dentro disso, a história da família que o monstro ficou observando quando resolveu aprender sobre a vida em sociedade. Ela nos leva camadas adentro dessa cebola narrativa e depois nos faz voltar, um passo de cada vez, como resolvendo uma equação: primeiro parênteses, depois colchetes, depois chaves – e os elementos que restam ao final disso ainda me surpreenderam mais.

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Mary Shelley pensando em como resolver aquele arco narrativo, hmmmm

A criatividade da autora leva Frankenstein além do esperado para uma história de terror. O elemento do medo, do horror, do desconhecido presente no gênero conduz a narrativa, mas não a limita. Apesar de ter nascido com a proposta de ser um conto de terror, já que era esse o desafio que Mary, Percy, Lord Byron e seus amigos se meteram a escrever, Frankenstein ultrapassa as barreiras do gênero ao se tornar mais que uma história sobre um monstro assustador, mas uma especulação sobre responsabilidades, solidão e convívio em sociedade.

O livro transita entre o terror e o fantástico, trazendo elementos de romance, mistérios sobre assassinatos e algumas pinceladas de ciência, refletindo a própria mistura de referências das quais a autora se apropriou: desde o mito de Prometeu até o poema épico Paradise Lost; tal qual Frankenstein, Mary juntou todos esses pedaços e deu vida a uma nova criação. Tentar rotular e reduzir essa história a apenas um gênero literário é perder de vista a riqueza de conteúdo presente nela; como disse a escritora Ursula Le Guin nesta entrevista, “rótulos se transformam em prisões”:

“But when the characteristics of a genre are controlled, systematized, and insisted upon by publishers, or editors, or critics, they become limitations rather than possibilities. Salability, repeatability, expectability replace quality. A literary form degenerates into a formula.”

T

er construído uma história consistente, com múltiplas camadas e com personagens tão marcantes explica porque a obra de Mary Shelley conseguiu ser lembrada através das épocas. Quer dizer, mais ou menos.

A popularização de Frankenstein acabou transformando, remixando e moldando a história para narrativas que nada tinham a ver com a original, o que fez com que alguns erros de interpretação e versões da história acabassem se tornando mais conhecidos do que o próprio livro.

Eu já sabia do equívoco de acharem que Frankenstein é o nome do monstro. Um equívoco tão persistente que se enraizou na cultura pop, como no desenho animado que faria Mary Shelley ficar desgraçada da cabeça, “Frankenstein Jr.”, ou ainda em expressões como “o cliente quer que eu misture duas ideias diferentes, isso aqui vai ficar um Frankenstein!”, e assim por diante. Não, gente. Frankenstein é o criador; não sua criatura.

frankenstein_jr

mas oi? 

O fato de a criatura não ter nome, aliás, é um detalhe que chama a atenção para sua desumanização. Negar um nome é negar a identidade, a existência, a humanidade de alguém, e é isso que Frankenstein faz com ela. A criatura é chamada dos nomes mais horríveis pelo seu criador, de “demônio” a “aberração”, o que acentua seu sentimento de não pertencer a nenhum grupo, de ser uma coisa – que é justamente o que o motiva a buscar vingança, exigindo que Victor crie uma companheira para que se sinta menos sozinho no mundo.

“Como assim ele fala?”, eu pensei ao chegar em determinado ponto do livro. Pois é, não só ele fala, como fala bem.

É então que a figura do gigante abobalhado que não sabe falar, que conheci nos filmes, se desfez diante de mim. Quando Frankenstein reencontra o monstro (porque quando ele viu sua criação ganhando vida, ficou num cagaço tão grande que simplesmente foi embora e deixou a criatura solta pelo mundo), levei um baita susto quando ele se dirige a Victor com uma eloquência de professor de Letras.

Ele pode não ter nome nem lugar na sociedade, mas é dotado de consciência, de linguagem e do entendimento sobre a importância de se encaixar. Ele é praticamente em tudo humano e, apesar de sua aparência descrita como grotesca, o que o torna desfigurado é a solidão. Esvaziado da possibilidade de convivência e de uma vida em sociedade, porque seu criador não se preocupou em como lidar com sua existência, só restou ao monstro preencher o seu ser com a obsessão de punir Victor. É a única conexão que ele tem, baseada na dor e na vingança.

Aliás, as próprias motivações do protagonista (que passa o livro em arrependimento & desespero por não ter previsto a merda que ia dar trazer à vida um retalho humano) e o próprio momento da criação são um bocado diferentes do que eu esperava.

O livro de Mary Shelley não menciona que Victor Frankenstein usa eletricidade na criação do monstro; essa cena clássica que se eternizou em nosso imaginário, do cientista usando a descarga elétrica dos raios de uma tempestade para animar o corpo de um cadáver, surgiu na adaptação cinematográfica de Frankenstein em 1931, e acabou se tornando a versão mais conhecida da criação do monstro:

O processo de criação que Victor Frankenstein desenvolve é descrito de forma ambígua, sem muitos detalhes, porque Mary Shelley prefere criar uma atmosfera envolvente do que explicar pormenores científicos, e seu foco está claramente em construir personagens coerentes e multidimensionais.

Dessa forma, faz todo sentido não sabermos exatamente como o monstro é criado; lembre-se que Victor está contando sua história para um cara aleatório que o salvou no meio do gelo, então é possível perceber que ele está sendo cuidadoso com o seu relato nesse trecho, falando a todo momento de sua “descoberta maravilhosa”, mas nunca dando nenhuma pista de como ele conseguiu tal feito.

Victor Frankenstein teme que a experiência se repita, por isso ele chega a dizer algo como “posso ver pela impaciência e curiosidade que seus olhos expressam, meu amigo, que você espera ser informado sobre o meu segredo; mas NEM PENSAR; escute com atenção até o fim da minha história e você facilmente irá perceber por que sou reservado sobre esse assunto.”

Então, sem muita explicação, em uma noite de novembro, Victor simplesmente conta como viu o olho amarelo da criatura se abrir e seus membros se moverem repentinamente, em um sinal de que o ser inanimado ganhava vida. Pra não dizer que não há descrição nenhuma, há uma frase curta que até dá margem para as adaptações posteriores criarem todo o lance da eletricidade:

“I collected the instruments of life around me, that I might infuse a spark of being into the lifeless thing that lay at my feet.”

Enquanto não há detalhes sobre como Victor conseguiu criar vida, o livro é inteiro sobre como despedaçar uma vida. A sensação que fica é que a criação não precisa mais do que um lapso de momento, mas a destruição, o aniquilamento total de uma pessoa, precisa de muito mais do que isso.


M

ary Shelley não precisou pintar Victor Frankenstein como um cientista louco e obcecado para que pudéssemos questionar suas motivações e entender o tamanho da irresponsabilidade que foi fazer um corpo morto ganhar vida e sumir na primeira oportunidade. Ele é um rapaz sensível, cheio de sonhos e passa o livro inteiro atordoado tentando remendar sua grande cagada ao tentar impedir que pessoas inocentes se machuquem por causa de seu erro. Mesmo assim, vem à luz sua responsabilidade nessa questão: o monstruoso não é trazer algo à vida sem garantir meios para que isso possa realmente ter uma vida?

Nesse ponto me dou conta que Victor não criou nada; ele destruiu, desde o primeiro momento. Uma vida humana precisa muito mais do que um corpo para existir e, sozinho no mundo, a criatura só recebe agressão, violência e discriminação, percebendo que não há lugar para ela nesse mundo. Não consigo imaginar uma forma mais cruel de destruir alguém, ao privá-la de qualquer convívio, ao eliminar qualquer possibilidade de que sua identidade e existência sejam reconhecidas, ao afastá-la para as sombras e para a solidão.

Como esperar que a criatura manifeste qualquer sentimento positivo em relação à humanidade se, em seu desenvolvimento, nada bom em relação a ela foi colocada em seu coração? O monstro nasce da destruição, é dela que se alimenta e é só isso que ele, afinal, tem a oferecer a seu criador.

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gravura de Theodore Von Holst para a edição revisada de Frankenstein de 1831

A história então é sobre duas jornadas opostas: a de um homem dando vida a uma criatura, e a de uma criatura destruindo a vida de um homem.

Se “dar vida” é muito mais do que fazer um corpo se mexer, tirá-la também vai muito além de fazer com que um corpo fique inerte. Quando Victor Frankenstein se recusa a criar uma noiva para a criatura, ele recebe a ameaça de que sua vida estava acabada; claro que ele entende que a criatura pretendia literalmente matá-lo, apertar com aquelas mãos enormes seu pescocinho até se quebrar como um graveto, mas o que o monstro tinha em mente era um aniquilamento mais completo.

Ele não precisaria tocar em Victor para vê-lo sofrer e morrer: tudo o que a criatura fez foi matar, uma por uma, as pessoas mais próximas de Frankenstein, fazendo-o morrer primeiro por dentro; e, quando não restou mais nada de bom dentro do homem, ainda o torturou até que ele afundasse na loucura, talvez numa tentativa de fazer seu criador sentir, forçosamente, o mesmo desespero e solidão que o consumiu durante toda sua existência.

Depois de matar a pessoa mais amada de Frankenstein, o monstro o faz ir atrás dele em uma perseguição insana, por várias cidades, montanhas, até às planícies geladas onde ele é salvo e encontrado por Robert Walton, que acaba também aderindo à busca pelo causador de todo esse infortúnio. Como em Moby Dick, esse tipo de perseguição nunca acaba bem. Não há vencedores; apenas a destruição.

É a destruição que dá o tom do livro; do início ao fim.

Chega a ser um negócio meio de tragédia anunciada: logo no começo do livro, há um trecho em que Frankenstein conta ao capitão que estava tão envolvido com os estudos para descobrir como “criar vida”, que não saía mais do seu laboratório, há meses não ia a Genebra visitar a família, mal se alimentava, quase não via a luz do dia. Seus estudos, antes mesmo de dar no que deu, já estavam acabando com ele. Então ele alerta que nada de bom pode surgir de uma paixão tão desenfreada que perturbe a tranquilidade de um ser humano, inclusive se tal paixão for a busca por conhecimento:

“If the study to which you apply yourself has a tendency to weaken your affections and to destroy your taste for those simple pleasures in which no alloy can possibly mix, then that study is certainly unlawful, that is to say, not befitting the human mind.”

Nessa incômoda reflexão que ficou pendurada no ar, Mary Shelley conseguiu esconder um pouco de horror em algo tão cotidiano: às vezes o que nos destrói não é um monstro assassino, mas algo que nos afasta das outras pessoas e não nos permite apreciar os pequenos prazeres da vida – sem isso não seríamos tão diferentes de uma criatura oca que perambula sozinha pelo mundo.

Há um motivo para Frankenstein ter sobrevivido a dois séculos e influenciado tanto a nossa cultura: mais do que preencher uma noite fria entre amigos no século XIX, a história tem a capacidade de dialogar com a nossa realidade e de apontar, no nosso próprio mundo, os momentos em que criamos os monstros que voltarão para nos destruir.