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Um salve aos bolsistas

Não quero falar do Cristovam, nem para ele. Ele, que fez declarações equivocadas. Ele que disse que era demagogia prometer diploma universitário para quem não concluiu um bom ensino médio.

Quero falar das respostas que surgiram disso. Das inúmeras pessoas que o responderam com depoimentos de suas jornadas no sistema de ensino até alcançar o diploma. Gente de origem pobre. Gente que estudou em escola pública. Gente que fez supletivo. Gente que só teve uma universidade entrando em seu horizonte graças a alguma política pública, como cotas ou ProUni. Gente que se formou e hoje é bem-sucedida. Gente que continuou a estudar: fez pós, mestrado, doutorado, pós-doutorado. Gente que hoje ensina.

Eu me emocionei com todas aquelas histórias (a sequência que reunia os tweets com os depoimentos foi removida, sabe-se lá por quê), porque sei exatamente o que significa o sentimento dessas pessoas. Me emociono por também fazer parte dessa geração que teve a vida transformada.

Deixa eu te contar como.

Estudei em escola pública, numa época em que fazer UnB era coisa de rico (ainda não havia cotas). Era para quem estudava em escola particular ou para quem tinha condições de investir em cursinhos. Minha família não tinha condições.

Foi através do ProUni que consegui uma bolsa integral pra entrar na faculdade. Parece clichê dizer que isso abriu meus horizontes, mas não tenho outra forma de explicar. Foi algo que transformou a minha vida em inúmeros sentidos.

Sofri muito preconceito sim. Dentro da faculdade, até da própria faculdade. Essa visão equivocada do Cristovam é muito comum. Acham que porque viemos da escola pública somos lixo. Mas deixa eu te contar um negócio:

Nós, os bolsistas, éramos os mais inteligentes, talentosos e empenhados daquela turma. Tirávamos as melhores notas. Fazíamos os trabalhos mais criativos. Conseguimos entrar no mercado de trabalho e exercer a profissão ainda nos primeiros semestres.

Acho que fomos a primeira leva de bolsistas na faculdade. Quando entramos, a instituição não acreditava na gente. No primeiro semestre, separou os bolsistas numa segunda turma, pra gente não se misturar com os filhos da burguesia. Mas já no primeiro semestre perceberam que o desempenho dessa turma B foi bem melhor que o da turma A. No segundo semestre, juntaram tudo numa turma só.

Preconceito por ser bolsista continuei enfrentando até o fim da faculdade, até depois de formada. Já ouvi muitas vezes que ProUni é só demagogia e outras variações que tentavam desmerecer o meu diploma, a minha jornada e as minhas origens.

Quantas vezes você acha que já não ouvi, muitas vezes até de pessoas “próximas”, de amigos “esclarecidos”, que o ProUni estava piorando a qualidade da educação? Que essa não era a solução para a educação, que tinha que melhorar a educação pública de base?

Claro que tem que melhorar a educação pública desde o fundamental, não há como discordar disso, mas qual então deveria ser a solução pra mim, que já havia terminado o ensino fundamental há eras? O que eu deveria fazer, eu que não podia mudar o fato de que terminei o ensino médio num colégio estadual em que faltavam professores para cobrir todas as matérias do dia, e que portanto não me dava condições de competir de igual pra igual com um aluno do Galois, do Marista? Eu deveria aceitar que nessa encarnação perdi a chance? Aceitar que universidade não era para mim?

Em cada um desses comentários, havia bem mais do que a crítica a uma política pública; era o desdém à minha presença em espaços que, não fosse o ProUni, continuariam inacessíveis para mim.

Sempre respondi a esse preconceito com trabalho duro. Hoje, sou autora publicada. Tenho um trabalho sólido. Luto pra me estabelecer numa carreira extremamente elitista. Ainda é difícil, mas cheguei a um lugar que a Aline lá do colégio público jamais imaginou que chegaria.

Eu nunca imaginaria que um dia eu entraria na UnB, não como estudante, mas para palestrar sobre o meu trabalho, falar sobre criação e literatura, por iniciativa dos alunos dali. Aquele dia eu soube que algo grande tinha acontecido. Quando o jogo vira, às vezes é só mais um dia normal.

Escritor não precisa de diploma, é verdade. Mas passar pela experiência de um curso superior me armou com os recursos que uso até hoje no meu trabalho. O ProUni foi um divisor de águas na minha vida e me emociono quando leio histórias de outras bolsistas que também venceram.

É lindo ver que a situação está mudando. Tenho uma irmã mais nova que hoje estuda na UnB. Por mérito dela, sim, mas também pela oportunidade que as cotas para baixa renda representaram. Dá um orgulho imenso de ver que a universidade está se tornando um espaço cada vez mais democrático, com espaço para vozes e origens diversas.

Precisamos ter acesso à educação, mas a educação também precisa de nós, da nossa presença, para se transformar. Um ambiente de ensino com pessoas de diferentes realidades é muito mais rico do que ambientes de ensino fechados a estudantes de determinado padrão de vida.

Então, se você é cotista ou bolsista: força. Você vai ouvir muita bosta. Mesmo depois de se formar, você pode sentir olhares de desdém. Vão te fazer sentir, das formas mais sutis, que você não merece aquele espaço que você ocupou. Mas eu sei que você é feita de uma substância diferente. Que há muita resistência aí dentro. Por isso mesmo, esse tipo de preconceito (muitas vezes vindo da boca de senadores da república), não vai te parar.

Continue estudando, continue crescendo. Não se assuste com o barulho ao seu redor: são as estruturas de um velho mundo se rompendo. Porque, quando transformamos a nossa vida dessa forma, é um caminho sem volta. O mundo se transforma também.

 


Foto: Element5 Digital // Via Unsplash


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