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Problemas de concordância: escrever e ganhar dinheiro

Parte 2 de 5 das “Conversas de Papel”, uma série de textos com minhas reflexões sobre a vida na escrita e sobre qual é o meu papel nisso tudo.

 

Não consigo imaginar um contexto em que falar de dinheiro seja confortável: dividir a conta do restaurante, negociar salário, pechinchar um desconto, contestar um troco. Assunto embaraçoso. Peço desculpas por ter que tratar dessa indelicadeza aqui. “Dinheiro é sujo”, aprendi. Não só pela quantidade de bactérias que ele carrega (“lave as mãos!”), mas num sentido moral mesmo.

Fazer coisas por dinheiro nos rebaixa. Sua puta. Seu vendido.

Escrever então? Não pode. Tem que ser por amor. Pela arte. Até porque a própria dinâmica do mercado dificulta um pouco, para a maioria dos que seguem o ofício, que isso seja um trabalho. Do tipo remunerado. Que permite pagar as contas. Que preenche o vazio da conta corrente.

Vira uma dualidade: de um lado o ato de escrever, do outro, mas do outro mesmo, a possibilidade de ganhar dinheiro.

Equilíbrio difícil. Me faz lembrar aquele filme dos anos 80, “O feitiço de Áquila”. Um casal condenado a nunca se encontrar: a moça, durante o dia, vira um falcão; o rapaz, à noite, um lobo. Mesmo drama. Se consigo trabalhar para ganhar dinheiro, não terei tempo de escrever. Se consigo escrever, não consigo ganhar dinheiro o suficiente para viver.

Como se fôssemos duas pessoas brigando pelo mesmo espaço. Uma quer usar o cartão de crédito. A outra quer criar arte verdadeira, sem as amarras do capitalismo. Uma fazendo escolhas equivocadas e embaraçosas em nome da outra.

Do lado de fora, todos assistem, como se só estivessem esperando pelo momento em que desistimos dessa loucura e vamos arrumar um “emprego de verdade”, ou pelo momento em que perdemos tudo, inclusive a sanidade, e vamos morar na rua. Ou o que causar mais Schadenfreude.

2013 foi um ano de muita gritaria. Teve aquela onda de protestos, violência da PM, sequestro de pauta. Também foram tempos de inquisição na internet: dedos apontados e um julgamento que fez Tom Zé de réu.

O crime: ter feito um trabalho de locutor para uma propaganda da Coca-Cola, na campanha da Copa do Mundo. Emprestar a voz para uma empresa ícone do capitalismo? Fazer propaganda?? Muitos fãs ficaram revoltados. Não pode! Vendido!

A trajetória de Tom Zé como um dos artistas mais autênticos da música brasileira? Não importava; as pedradas na internet o atingiram do mesmo jeito. A covardia foi tanta que deixaram esse artista enorme, do alto dos seus 76 anos (à época), perder o sono. Ainda teve que se explicar no Facebook. Porque quem ganha dinheiro precisa sempre apresentar desculpas.

“No ano passado meu disco fora patrocinado pela Natura e como eu nunca tinha recebido patrocínio desse tipo – nem de nenhum outro –, cara, eu me senti como um artista levado em conta! Para profissionais de meu tipo as gravadoras são agora inalcançáveis. Atualmente sinto paixão pela retomada do projeto dos instrumentos experimentais de 1972. Com a eficiente colaboração do engenheiro Marcelo Blanck, começamos a desenvolver alguma tecnologia, mas com recursos parcos, insuficientes. Os resultados estão nos animando muito. Aí entrou o anúncio da Coca-Cola que, mesmo sem ela saber, patrocinaria boa parte da pesquisa. Será que o uso dos recursos obtidos com o anúncio muda a avaliação de vocês?” (1)

Aparentemente não. Tom Zé ficou tão chateado (ou cansado) com a história toda que resolveu doar todo o cachê para um instituto de música da sua cidade natal.

Esse desfecho não foi menos triste. Mesmo se não fosse para patrocinar os estudos para sua obra, ou para doar para uma causa social, o dinheiro que recebeu do trabalho publicitário era de direito dele. E daí o que fizesse com a grana? Ele poderia ter gasto em carros, em champanhe, em compras no supermercado, em figurinhas da Copa do Mundo. Não importa. Ninguém tem nada a ver com isso. Ficar com esse dinheiro não o tornaria menos artista.

A grandeza de Tom Zé se revelou, no entanto, quando resolveu transformar isso em arte e lançou o disco “Tribunal de Feicebuqui”.

Na primeira música, que leva o mesmo nome do álbum, um trecho cantado por Emicida diz muito: “bruxo, descobrimos seu truque / defenda-se já / no Tribunal do Feicebuqi / A nossa súplica: que é que custava morrer de fome só pra fazer música?” (2)

É uma pista de que o maior incômodo das pessoas foi com a narrativa. Tom Zé não podia destoar da expectativa que se cria sobre os artistas, de se sacrificar, passar fome e viver no aperto em nome da Arte. Essa era a traição: não cumprir o roteiro.

Muito mais atrativa era a narrativa de um artista humilde, que mesmo sendo um dos maiores nomes da nossa música popular, ainda trabalhava como jardineiro, ganhando R$ 150 por mês. (3) Essa história sim, as pessoas podem aceitar, porque de certa forma as consola. Ufa, o artista continua pobre! Agora sim, posso seguir tranquilo no trabalho que detesto; porque sofro, não amo o que faço, mas pelo menos ganho bem!

O que se tira disso é que artista não só não pode ganhar dinheiro com seu trabalho, mas tem que PAGAR um preço por ter escolhido essa carreira.

“Não temos verba para isso”. Se você também escreve, ilustra, ou é um artista de qualquer meio, já deve ter se deparado com propostas desse tipo, até com bastante frequência. Querem sua participação, seu trabalho, seu tempo, mas não podem oferecer nada em troca. Ah, claro, a visibilidade, às vezes.

Não é nenhum segredo que viver da venda de livros é uma realidade só para alguns poucos autores. Não conheço nenhum deles, nunca vi, mas devem existir. Acho que são só um pouquinho mais prováveis que os unicórnios. Então do que vivem o resto dos mortais que não se sustentam da venda de livros? Do que se alimentam? De onde vem a ideia de que já estamos bem de vida o suficiente para trabalhar por caridade?

Não conversamos sobre isso porque é deselegante (e porque às vezes temos vergonha), mas está todo mundo tentando o seu melhor para não naufragar no cheque especial.

Há quem receba ajuda da família. Há quem tenha posses e com isso banque sua escrita. Há quem tenha juntado dinheiro por muito tempo para conseguir se estabelecer e poder viver da arte. Há quem tenha marido ou esposa para ajudar a segurar a barra. Há quem viva de doação dos leitores. Há os que conciliem a escrita com trabalho formal, carteira assinada, chefe, horário. Há quem viva de freelas: tradução, revisão, ilustração, roteiro, ghostwriter, petsitter, emprestar o corpo para a Ciência, o que dá. Há quem dê aulas, oficinas, palestras. Há aqueles cujo trabalho se pague por prêmios, editais ou bolsas. Há quem faça um pouco de todas as alternativas anteriores. Nenhuma delas é mais ou menos válida que a outra. Nenhuma delas deveria ser motivo de vergonha.

Ainda bem que somos criativos. Precisamos arrumar diversas saídas para bancar nosso trabalho e continuar a escrever livros. Participação em eventos e palestras é uma dessas alternativas, embora seja muito difícil encontrar quem entenda que é um trabalho que merece ser remunerado. Já fui convidada para um monte delas,inclusive em outros estados, por organizadores que não estavam dispostos a me pagar um puto, nem para a passagem. Mas, poxa, eu ganharia em visibilidade! (O pior é que, na maioria das vezes, eu é que estaria emprestando a minha visibilidade. Acham que sou trouxa).

Tem quem aceite. Cada um sabe da sua própria carreira. Mas se você é colega da escrita, permita-me um conselho: fazer trabalhos de graça pela visibilidade não vai te ajudar a atrair trabalhos pagos, só vai fazer você atrair mais trabalhos de graça pela visibilidade. E aí, colega, você se condena a um círculo vicioso – e mal pago.

Esse é um assunto que deixa Harlan Ellison bem bravo. Ele é escritor, roteirista de quadrinhos e de TV, escreveu para séries como The Twilight Zone e Star Trek. Entende do negócio de escrever por dinheiro.

“Sempre querem que escritores trabalhem sem ganhar nada. O problema é que tem um monte de escritores que não fazem nem ideia que eles deveriam ser pagos toda vez que fazem algo. Aí eles fazem de graça! ‘Duh-uh, vou fazer de graça, vão olhar pra mim, vão me notar!’. Bem. Eu me vendo sim, mas pelos preços mais altos. Eu não daria sequer uma mijada sem ser pago por ela. Fico tão bravo com isso, porque são os amadores que fazem a coisa ficar mais difícil para os profissionais.” (4)

Estamos perdidos num mercado feito por uma parte de gente ingênua e por uma boa dose de gente picareta. Gente que diz que paga mas não paga, ou que paga valores cretinos, que acha ok pedir a um artista que trabalhe de graça, ou ainda que espere que um autor pague para trabalhar. Sou muito imaginativa, é verdade, mas tudo isso já vi acontecer. Já tenho ótimo material para um livro (de terror).

E depois o chororô: ah, mas a literatura não é valorizada! Ah, mas os autores ganham muito pouco! Ah, falta verba! Ah, nosso mercado não recebe recursos! Tão mais fácil colocar a culpa num outro. Mas se estamos nesse mercado, SOMOS esse mercado. Se o cenário é este, não é porque ele caiu pronto do céu, enviado por uma civilização extraterrestre; fomos nós que o criamos, com o mau-caratismo de se aproveitar do trabalho dos outros ou com a permissividade de se deixar ser explorado.

O amadorismo do mercado vai continuar ganhando enquanto houver todo esse pudor para tratar de dinheiro. Mas precisamos ir além de choramingar pelas dificuldades. Precisamos do peito aberto de quem sabe o valor que tem.

E se não tem verba, me desculpe, mas eu nem levanto da cama.

Um dos aprendizados mais difíceis da minha carreira foi saber o meu valor. Esse aprendizado me custou caro, por isso o defendo com tanta ênfase.

Trabalho para ser paga. Que me desculpem os desprendidos, os iluminados que podem abrir mão de bens materiais, os defensores da Arte pela Arte.

Quero ganhar dinheiro, e quero ganhar bem. Não tenho nenhum fetiche com pobreza. Pelo contrário, me movimentei a vida inteira no sentido de conseguir deixar de ser pobre. Não tenho nada, nada mesmo, para herdar. Não tenho lastro, não tenho família para me sustentar caso tudo dê errado, não tenho bens no meu nome. Tenho o meu trabalho, que faço não porque amo, mas porque sei fazer, e sei fazer bem. Mereço, então, receber por ele.

Não que isso seja uma justificativa. Ninguém precisa oferecer desculpas comoventes para ter autorização para ganhar dinheiro. Nem Tom Zé, nem Aline Valek, nem ninguém. Essa é apenas minha realidade, tão válida quanto a de quem já tem dinheiro e quer ganhar bem escrevendo; ou a de quem faz arte porque ama e não está nem aí para o quanto vai ganhar com isso. Nenhuma jornada é melhor ou pior que a outra.

Para mim, no entanto, é importante defender que o trabalho da escrita (em sua amplitude de possibilidades, como descrevi acima) seja bem remunerado porque esse discurso do artista sofredor, do artista que deve ganhar pouco por sua arte porque, afinal, faz o que ama, serve principalmente à manutenção da literatura e da arte como um espaço elitista. Faz quem já tem condições. Os filhos da classe trabalhadora que não inventem de fazer arte. Isso vocês não bancam.

Muito se fala sobre diversidade, mas ainda se joga para segundo plano aquilo que de fato a tornaria viável. Ter vozes mais diversas na Literatura é muito mais do que uma questão de boa vontade do público, de bom mocismo das editoras ou de uma cultura com mais empatia, gentileza, empoderamento ou seja lá qual for a palavra de ordem do momento. É questão de dinheiro.

Eu sei, eu sei, falar da vil moeda tira o brilho da luta, torna tudo bem mais pragmático. Mas é uma questão bem prática, se você prestar atenção. Como esperar que se mantenha na carreira literária autores de realidades diversas à da elite que sempre deteve o poder e o acesso à cultura, se esses autores não puderem se sustentar com seu trabalho?

Por isso desconfio horrores de quem aparece para romantizar pobreza. Não sabe merdas do que está falando. Ser pobre não é bom, não. É mais do que “não estar inserido na roda do consumo”; é ser privado de acesso a uma porção de coisas. Educação e cultura, por exemplo. Direito a uma voz.

Artista de verdade não pode se corromper com dinheiro, dizem. Faz parte de ser artista sofrer e enfrentar dificuldades, também insistem. E todo esse discurso, no final das contas, serve muito bem para manter essa “plebe” trabalhadora afastada da produção artística e intelectual. Porque, cruzes, trabalhar em troca de dinheiro é coisa de pobre.

Não me incomodo de ser considerada vendida, prostituta, mercenária, ou qualquer outra palavra que arranjem para diminuir quem sabe que merece ser pago pelo que faz. Se ser paga pelo meu trabalho significa romper com o discurso que desde sempre manteve a rodinha da Literatura para uns poucos, eu quero dinheiro sim; parafraseando Mano Brown: “demorou, eu quero é mais, eu quero até sua alma”. (5)

Por fim, não se pode fechar os olhos para o fato de que o dinheiro faz parte da nossa produção, e a influencia diretamente.

Escreve Margaret Atwood: “O fator dinheiro é muitas vezes relegado ao segundo plano [na biografia de um escritor]. Contudo, o dinheiro é muitas vezes decisivo, não apenas para aquilo que o escritor come, como também para o que escreve. Certas histórias são emblemáticas – o pobre Walter Scott, por exemplo, assinou uma promissória para um sócio, e quando este foi à falência, precisou se matar de escrever para saldar a dívida. Tais pesadelos nos atormentam quando estamos acordados, sem falar nos que temos quando dormimos. Acorrentados à escrivaninha. Forçados a produzir continuamente, sem levar em conta a nossa disposição, sem levar em conta a qualidade.” (6)

Não é preciso ir ao extremo do desespero e da miséria para pensar em como o dinheiro influencia a escrita de alguém. A forma que o escritor escolhe de viabilizar sua carreira acaba por moldá-la, e às vezes revela caminhos interessantes. Um escritor que precise pegar muitos trabalhos freelancers pode escrever livros de forma mais espaçada; ou ainda um escritor que queira se manter mais ativo no circuito comercial se programe para lançar um livro por ano; quantidade, densidade e intensidade da produção: não dá para ignorar que o dinheiro é elemento importante nas decisões que tomamos em nossa carreira.

Mostramos criatividade na escrita não só pelos temas ousados, por soluções interessantes de enredo ou por escrever diálogos inteligentes. Também somos criativos quando arranjamos formas de manter o trabalho sustentável.

O dinheiro então, em vez de coleira do capitalismo, força de restrição de nossos impulsos criativos, pode ser visto como elemento integrante do nosso processo criativo. Se por um lado restringe, ao se impor como uma dificuldade que precisa ser contornada, expectativas para lidar e metas de vendas, por outro liberta, ao se tornar ferramenta para viabilizar nossa criação.

“Para o jovem escritor com ambições puristas, que deseja ser autêntico, que sonha ser artista, isto é um círculo vicioso, especialmente quando a sociedade em geral endossa a opinião expressa no conto de Eudora Welty ‘The Petrified Man’ – ‘Se você é tão sabido, por que continua pobre?’ Ou pobre e autêntico ou rico e vendido, exibindo uma etiqueta de preço na alma. Tal é a mitologia”. (6)

A mitologia dessa dualidade poderíamos deixar para filmes de Sessão da Tarde. Na escrita, essa não precisa ser uma verdade. Se ainda é, é porque o permitimos. Com que finalidade? Não sei. Esse verniz de sofredores miseráveis com canequinhas de alumínio na mão não vai nos levar muito longe. Talvez apenas a mais eventos sem cachê e sem grana pra passagem.

Ganhar dinheiro por si só não é meu objetivo, ou eu seria uma idiota de me lançar numa carreira onde isso é tão mais difícil. Quero ganhar dinheiro fazendo o que sei fazer. Bem, isso envolve mais do que fazer o trabalho e esperar vir o reconhecimento, as propostas milionárias, o suave som do dinheiro caindo na conta corrente (ah, que pena que não faz barulho nenhum).

Ganhar dinheiro fazendo o que sei fazer é sobretudo questão de posicionamento. Postura que decidi assumir, ainda que eu precise pagar um preço por isso.

Esse texto não foi revisado em sobriedade.

Arte da capa: “A balança”, Aline Valek, marcador de texto sobre papel.

Referências

(1) Nota de Tom Zé sobre as reações à propaganda da Coca Cola https://www.facebook.com/tomze/posts/10151297893292066

(2) Álbum “Tribunal de Feicebuqui” https://www.youtube.com/watch?v=hqPH94PDHQk

(3) Tom Zé jardineiro http://www1.folha.uol.com.br/fsp/imoveis/ci3110199904.htm

(4) Trecho de entrevista com Harlan Ellison https://www.youtube.com/watch?v=mj5IV23g-fE&feature=youtu.be&t=2m2s

(5) Racionais MC’s, Negro Drama https://www.youtube.com/watch?v=Vx1ooSzcUXk

(6) Margaret Atwood, no livro de ensaios “Negociando com os mortos”

 

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