A escritora que querem comer viva

Parte 3 de 5 das “Conversas de Papel”, uma série de textos com minhas reflexões sobre a vida na escrita e sobre qual é o meu papel nisso tudo.

Presença na internet virou ponto indiscutível. Tem que estar aqui, ou você não existe. Vale para professor de yoga, banco, funerária, gente que faz cookie personalizado sob encomenda e – quem diria – até para gente que escreve.

Internet é ferramenta muito útil principalmente para os autores independentes que não dispõem das máquinas de marketing de uma grande editora ou não contam com os reforços da mídia tradicional. Não é porque alguns possuem bazuca que não possamos fazer algum estrago com um par de estilingues.

A internet é onde nos perdemos olhando o celular a cada meia hora para recolher mais migalhas de atenção em forma de likes, feito viciados em crack? É sim. Mas também é ferramenta que permite contato com os leitores, divulgar nossos livros, interagir com outros autores (bem mais fácil pela internet do que pessoalmente, aliás), expressar nossas intelectualíssimas opiniões e ainda compartilhar nossas ideias, de forma quase totalmente gratuita.

“Quase” porque mesmo nos casos em que não injetamos moeda de verdade para impulsionar nossas publicações, estamos pagando um preço para nos mantermos aqui. Custa tempo e custa exposição.

Nas últimas semanas passei a refletir se vale a pena ocupar cada cm2 de espaço virtual só porque está lá, disponível. O custo me pareceu alto demais. Deletei o Instagram do celular, mudei minha forma de usar o Twitter e continuei firme em deixar meu Facebook abandonado – o que não foi muito difícil, considerando o esforço consistente da plataforma em cortar as asinhas dos produtores de conteúdo independente, sufocando nosso alcance e matando nossas páginas de inanição, desde os idos de 2013, quando o Google Reader já não podia mais nos salvar.

“Você tem que estar onde seu público está”, foi o que ouvi de amigos que trabalham com mídias sociais, quando perguntei o que achavam da distância que eu estava criando das redes. O que me disseram fazia todo sentido, claro. O que me incomoda é o “estar”; manter a presença ali apenas para não ser esquecida, mesmo quando não ofereço nada que realmente acrescente, a não ser contribuir para a continuidade do ruído.

Numa entrevista em 1977, perguntaram à Clarice Lispector: “Qual é o papel do escritor brasileiro hoje em dia?”. Clarice respondeu: “o de falar o menos possível”. (1)

A resposta sucinta dessa Clarice cansada me fez pensar bastante. Tudo bem que a pergunta foi feita nos anos 70, mas que papel estou exercendo hoje, como escritora, em tempos onde é tão fácil falar, onde praticamente existe a imposição de falar? O que estou fazendo com esse poder que tenho em mãos, embora seja basicamente o mesmo de qualquer pessoa com um celular e acesso à internet? Será que o mundo precisa mesmo de mais uma selfie com meu rosto maravilhoso? Ou saber o que comi no almoço? Como isso pode ser relevante para falar do meu trabalho como escritora?

Que fique claro que essa não é a história de uma escritora com dificuldades de se adaptar a este “novo” ambiente. Eu estou na internet – no Twitter, no Instagram, no Facebook e até neste blog – muito antes de virar escritora. Aline Valek nasceu na internet, parida por mim. Estou habituada à presença virtual, e quase não consigo separar meu trabalho literário do meu trabalho na internet. Em muitos aspectos, são a mesma coisa.

A questão é que a internet mudou drasticamente desde que comecei aqui. E, se o tabuleiro muda, os jogadores precisam não só repensar sua posição nele, como trocar suas próprias peças. A Rainha não pode fazer muita coisa se acaba caindo numa partida de Banco Imobiliário.

Na internet tudo é ficção, mesmo o que não parece ser. Deveria ser um campo onde os contadores de histórias pudessem ficar à vontade. Espaço de domínio nosso. Não foi o que aconteceu, lógico. Fomos engolidos pela narrativa própria desse mundo, em que os principais autores são chamados “influencers”, em que as obras de ficção mais lidas são as fake news e que os personagens mais celebrados são aqueles que as pessoas criam de si próprias.

É um jogo de manipular imagens, esse em que estamos. Os jogadores que avançam mais são aqueles que conseguem se construir como personagens interessantes usando peças que às vezes são mais falsas que cenário do Chapolin Colorado. Parecer importa muito mais do que ser ou fazer.

Às vezes escritores se dão muito bem nesse jogo; seja porque já contavam com um grande público antes da internet (Neil Gaiman, Paulo Coelho ou Margaret Atwood não são pop nas redes por acaso), seja por terem entendido as regras do jogo e se adequado bem a elas. Não porque seja nosso território, não é. Essa terra tem outros donos agora.

Por mais vastas que pareçam ser as possibilidades na internet, há poucas formas de chegar nos lugares mais altos, onde o autor consegue um alcance de fato significativo. Existe um favorecimento (de visibilidade, voz e verba) para aqueles que se encaixam num modelo muito específico (e questionável), que é o de celebridade.

O modelo de celebridade atual se impõe até sobre quem não usa internet como profissão; é bizarro observar o comportamento de pessoas que não precisam formar público ou vender seu trabalho nas redes, mas que estão usando das mesmas técnicas e estética da galera com milhões de seguidores. É um tal de falar “gente”, pressupondo um público numeroso do outro lado da tela, de dizer “tem muita gente me perguntando…” para tratar de diquinhas de consumo ou de investir um tempo enorme editando e aplicando filtros em vídeos narrando em detalhes suas viagens de férias. As pessoas estão levando esse negócio MUITO a sério.

Quando eu frequentava mais o Instagram, comecei a me incomodar com o fato de todas as pessoas, artistas, influencers ou apenas usuários, criarem stories idênticos, com a mesma linguagem, mesma estética, propósitos muito parecidos (muitas das vezes, pela ausência de propósito). A pouca diversidade é sintoma de que estão todos bebendo da mesma fonte: as celebridades “influenciadoras” que todo mundo segue. E assim tudo vira uma cópia de uma cópia de uma cópia (2).

Estamos obcecados por celebridades. Em consumi-las. Em tentar nos transformar em uma.

Gosto de acreditar que isso aconteceu por acidente; o modelo estava aí, quando percebemos estávamos todos seguindo, replicando sem nem pensar, independentemente da área de atuação. O mais provável é que tenha ocorrido mais por falta de propostas alternativas, ou mesmo por comodismo: mais fácil seguir e validar um caminho pré-estabelecido do que criar um caminho próprio, onde cada passo tem um propósito, que nem sempre precisa passar pelos números mais turbinados e pela aquisição de likes a todo custo.

Isso nos leva à situação aberrante de um escritor precisar se provar como bom escritor através de sua aura de celebridade; mas ser bom no jogo da influência virtual não significa nada a não ser habilidade no jogo da influência virtual. Boa escrita não tem tanto peso se você carregar sucesso no pacote e estiver pronto para ser um recorte de inspiração pronto para consumo.

A escritora sueca Carolina Ramqvist escreveu sobre isso:

“Em algumas entrevistas, [meu livro] ‘The Girlfriend’ foi considerado um ‘romance de sucesso’ e eu fui chamada de ‘autora de sucesso’. O foco não era apenas na autora como uma pessoa, mas na escritora como uma pessoa bem-sucedida. Um artigo numa grande revista não parecia mais capaz de se tratar do livro de um autor porque era bom, ele precisava também chamar a atenção da mídia e ser curtido por muita gente. Isso pode ser entendido como uma consequência das mudanças no jornalismo cultural e da crítica literária, mas também do escritor como um personagem empurrado para a narrativa neoliberal de força individual e independência, que se tornou a grande história dessa sociedade midiática e que se presta, assim como a literatura, a tratar do que significa ser humano; mas nessa história fraqueza e ambivalência são abordadas apenas para destacar força e certeza. Era uma mentira que parecia nova e se tornou particularmente ridícula quando aplicada ao escritor”. (3)

Para ser justa, é preciso lembrar daquele ditado popular que diz que a internet não tornou as pessoas idiotas, apenas tornou a idiotice delas mais evidente. Da mesma forma, a internet não criou esse culto à celebridade, apenas elevou isso para uma escala maior.

Zygmunt Bauman lembra que na sociedade tradicional, arranjada em comunidades onde as pessoas compartilhavam de um forte senso de identidade, as pessoas que lutavam para preservar essa identidade eram consideradas heróis ou heroínas, e, por usarem suas habilidades em favor de um bem maior, da perpetuação da espécie ou daquela cultura, eram recompensadas com a glória e tornadas famosos.

Na sociedade contemporânea, que funciona como uma rede em vez de uma comunidade, e onde o coletivo perde espaço para o individualismo, defender uma identidade de grupo já não faz tanto sentido. Morrer pela pátria nos soa cafona. Nesse contexto, surge a celebridade: um rosto familiar que une as pessoas, dispersas e confusas, em torno de algo que todas elas possam reconhecer. Diferente dos heróis que se destacam por oferecer suas habilidades em favor do coletivo, as celebridades não precisam fazer nada realmente fantástico: é uma fama redundante, onde você se torna famoso por ser famoso.

Isso explica o estranho fenômeno de “influenciadores” com milhões de seguidores que não são nem especialmente inteligentes ou especialmente habilidosos, mas que são famosos por serem muito bons no jogo da fama.

“É a sociedade de consumo que cria a demanda por celebridades, e reconstrói o sistema de estrelas. Deixe-me dar o exemplo do chamado tabloide: você acha que existiria sem a construção social do sistema de celebridades? E vice-versa. Acho que não. É um produto de consumo, especialmente para responder ao ‘sonho’ de leitores, que, no entanto, querem encontrar problemas, querem entrar na vida cotidiana das estrelas, ouvindo de alguma forma, como se fossem novos vizinhos. Em suma, não se pode, agora, tornar-se uma celebridade graças à nossa vontade, ou como resultado de um talento. Depois disso, você deve implementar um sistema de produção inteira. No final, a pessoa famosa na sociedade líquida é nada mais do que uma mercadoria.” (4)

Aí reside minha principal frustração com essa nova forma de habitar a internet: ser bem-sucedida como escritora (ou professora de yoga, ou artista, ou empreendedora, ou cozinheira) significa se tornar uma celebridade, assumir o fato de que as pessoas não querem consumir apenas o que você faz, mas querem consumir você.

Ilustração de Theodore De Bry, 1592 / domínio público

Aparentemente o discurso de “separar o artista da obra” só vale para quando não gostamos do artista; quando o artista é uma pessoa MARAVILHOSA, ou seja, uma pessoa que as outras têm a permissão de consumir sem culpa, o oposto passa a ser incentivado: misturar artista e obra até que não se saiba onde um termina e o outro começa. Se a artista é uma pessoa descolada, desconstruída, simpática e atenciosa com seus seguidores, se diz as coisas certas e é fotogênica, é alta a chance de sua obra ser considerada BOA simplesmente por estar associada à sua imagem.

Uma obra boa jamais pode redimir uma pessoa desprezível, com o que até posso concordar, mas por que uma pessoa adorável consegue redimir uma obra mediana, ou até ruim?

Porque construir personalidades é o negócio do momento. Não basta escrever bons personagens, é preciso você mesmo ser um personagem que as pessoas vão querer acompanhar. Saber o que está almoçando, as viagens que está fazendo, os livros que está lendo, onde comprou aquele material de desenho, os mimos que recebeu, os famosos com quem convive, seus crushs, seus momentos de vulnerabilidade.

Chega o ponto em que as selfies e os livros do escritor que gosto fazem parte da mesma obra, e ambos são partes dele que preciso consumir. Não basta ouvir Caetano; queremos comer Caetano, devorá-lo, degluti-lo, mastigá-lo. (5)

Nós, habitantes da internet, gostamos de nos ver como livres pensadores, gente intelectualizada e alternativa, mas qual a diferença do que fazemos no Instagram, cultuando celebridades e tentando nos tornar uma, para as pessoas que leem ou aparecem na revista Caras?

É o mesmo culto à celebridade, cujo poder, de volta às teorias de Bauman, deriva da autoridade do número: “ela aumenta (e diminui) com o número de espectadores, ouvintes, compradores de livros e discos”. (6) Ou seja, é um poder que flutua, que não nos pertence de fato, se depende de números que fogem ao nosso controle, de uma audiência que em um momento está lá, e no outro pode desaparecer.

Querer escrever para ser famoso é uma das coisas mais tontas que se pode buscar. Claro que quando autores mais conceituados do que eu falam isso, parece menos implicante e mais fundamentado. Margaret Atwood escreve: “Um jovem escritor, entre outras coisas, deve atentar para seus leitores potenciais porque uma vez que começa a achar consolo na ideia de que eles pelo menos o amam, apesar do que dizem os críticos, está acabado como escritor sério”. Cyril Connolly afirma: “De todos os inimigos da literatura, o sucesso é o mais insidioso”. (7)

A fama não é real. O trabalho é. Por isso concordo demais com Austin Kleon quando, sobre o uso das redes sociais, aconselha: “não mostre o seu almoço ou o seu café, mostre seu trabalho.” (8)

Estou mais alinhada ao pensamento de que vale mais a pena usar esse espaço virtual para expor, em vez das minhas entranhas em brasa, o processo daquilo que crio. Nessa cozinha, prefiro ser a cozinheira do que o prato principal.

No entanto, não sei se é possível fugir completamente ao modelo de celebridades tão favorecido pela própria lógica das plataformas que usamos; mas minha ideia é continuar em busca de um outro caminho para mim, especialmente me questionando qual o propósito de continuar falando só porque tenho o microfone na mão.

A internet vai mudar de novo, eu sei, como já mudou tantas vezes. E as celebridades, que tanto foram devoradas e chupadas até os ossos, vão acabar perdendo seu lugar no banco do motorista. Assim espero.

Esse texto não foi revisado em sobriedade.

Arte da capa: “Internet”, Aline Valek, marcador de texto sobre papel.

Referências:

(1) Programa Panorama entrevista Clarice Lispector: https://www.youtube.com/watch?v=ohHP1l2EVnU

(2) Cena do filme “Clube da Luta”. https://www.youtube.com/watch?v=pAQ3JuXkDkU

(3) Artigo da escritora Carolina Ramqvist sobre a figura pública do escritor: https://lithub.com/the-writer-as-public-figure-vs-the-writer-who-actually-writes/

(4) Entrevista com Zygmunt Bauman, traduzida do italiano: http://blogacritica.blogspot.com/2014/10/conversa-com-zygmunt-bauman-o-culto-das.html

(5) Adriana Calcanhoto, “Vamos comer Caetano”: https://www.youtube.com/watch?v=pYJEIPxcM78

(6) Zygmunt Bauman, no livro “Comunidade”.

(7) Margaret Atwood citando Connolly, em seu livro “Negociando com os mortos”.

(8) Austin Kleon, no livro “Mostre seu trabalho!”

Série “Conversas de papel”

1. Forasteira nas fronteiras da escrita

2. Problemas de concordância: escrever e ganhar dinheiro 

3. A escritora que querem comer viva <- você está aqui

4. Navegando em diferentes profundidades

5. Sobreviver por mais tempo

 

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