Piores bússolas

Com frequência escolhemos péssimas bússolas para nos guiar. Depois reclamamos que estamos perdidas.

A comparação é a pior delas.

Inevitável olhar por cima do ombro e ver o que o outro está fazendo. Prática até recomendável: nos ajuda a ter referências. Arejar a cabeça para novas ideias e fazeres. Aprendemos principalmente por imitação, como macaquinhos que somos.

Nessas, muito fácil se ver na situação de se comparar. “Ah, nunca vou conseguir fazer um traço dessa maneira”. “Puxa, eu deveria usar as cores mais assim”. “Fulana nem desenha tão bem e tem muito mais seguidores!!”

Armadilha que, na maioria das vezes, só conduz a um lugar: o fundo do poço. Lá, onde a gente se lamenta por não ser tão boa quanto alguém, não ter tantos recursos quanto o outro, ou achar que está muito atrás na fila do pão.

O problema é que o trabalho do outro dificilmente vai estabelecer uma direção para o nosso. Porque as pessoas são diferentes; tem bagagens diferentes, estilos de vida diferentes, processos diferentes. Tudo isso se reflete num trabalho com aquelas características distintas, que não está nem acima nem abaixo do nosso.

Não é uma escala linear, em que é possível se localizar dez passos atrás de fulano a partir do que ele faz e como faz. Não é uma competição, em que você deve tentar superar sicrano em produção e qualidade técnica. Fulano, sicrano e beltrano não estão nem um pouco interessados em competir com você. E talvez, só talvez, eles consigam fazer algo bom e admirável porque focam mais no próprio trabalho em vez de prestar tanta atenção no dos outros.

Só é possível medir nossa evolução usando nosso próprio trajeto como bússola. Como nosso trabalho era e como passou a ser? O quanto progredimos desde nosso último texto? O quanto melhoramos desde o último desenho? Aprendemos algo com nosso último projeto?

Então olhar para o trabalho do outro deixa de ser fonte de ansiedade e competição (“putz, ele já tá lançando outro livro e eu aqui!” ou “de novo ela é chamada para esses projetos bacanas e ninguém liga pra mim”) e se transforma em inspiração e admiração (“massa demais que ele conseguiu financiar o projeto dele, agora deixa eu voltar pro que eu estava fazendo porque esse texto não vai se terminar sozinho”).

Deixa o coleguinha trabalhar e foca no seu.

É saudável olhar para o lado, desde que a gente não perca de vista nossa referência interna: a consciência de onde viemos e para onde vamos. É mais seguro assumir o volante assim.


Texto originalmente publicado em Uma Newsletter #9, em agosto de 2017. Receba as próximas edições diretamente no seu email. É grátis!

Crédito da foto: Himesh Kumar Behera via Unsplash

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