Da minha coleção de zines

Fazer zines me abriu várias portas. Uma delas foi a de me tornar uma colecionadora. Entender o cuidado, carinho, criatividade, autenticidade — e, muitas vezes, brigas com impressoras — envolvidos nesse trabalho de publicar de forma independente apurou o meu olhar para quem cria esses pedacinhos de magia em formato de papel.

Aqui em casa temos uma caixa cheia delas. Zines compradas, zines que ganhamos, que encontramos em eventos ou que recebemos pelos Correios.

Resolvi abrir essa caixa para mostrar um pouco do que me faz gostar tanto dessa coleção. Em seguida, falo um pouquinho da história por trás de cada zine, sobre o que é, quem faz. Espero que sirva de convite para conhecer melhor cada um desses artistas!

Em ordem de aparição:

Fran Nerd, “Orange Ginger Jam”

Fran Meneses, a.k.a. Fran Nerd, é uma ilustradora chilena que me cativou pelo seu estilo que é um chazinho de camomila para os olhos. Essa foi a primeira zine internacional que adquiri; chegou num envelope muito cuidadoso que veio de Londres, onde ela morava na época. A zine também tem uma pegada viajante: é um diário de viagem ilustrado sobre sua visita ao Chile, para rever a família e amigos. 

Olivia Maia, “Rabiscologia”

Não podia faltar minha amiga Olivia, que além de escritora também ilustra e faz zines! “Rabiscologia” foi um projeto que Olivia viabilizou por meio de seu apoia.se e que recebi em casa todo mês. Toda edição traz um tema diferente e textos profundos e tão refinados quanto seus desenhos. Difícil escolher uma favorita. Nas edições 0 e 13, ela faz uma compilação dos desenhos que fez para o Inktober, maratona de desenho que propõe a ilustradores do mundo inteiro fazer um desenho por dia durante o mês de outubro. Recomendadíssima porta de entrada para o universo oliviano.

Fotolab Linaibah, “Narco”

Enquanto eu trabalhava no stand de Bobagens Imperdíveis na feira do Pixel Show de 2017, Marcos fez alguns achados nos outros stands do evento. Um deles foi essa zine fotográfica sobre o Pablo Escobar que veio dentro de um saquinho de churros (!) e acompanha um saquinho cheio de pó branco (!!), que é, na verdade, uma farinha de milho pré-cozida usada para fazer arepas. Ao final, a zine traz uma receita para preparar essa comida típica colombiana, depois de páginas e páginas de fotos do infame narcotraficante e de diversos atores que o representaram na TV ou no cinema. A produção e engenhosidade é trabalho do estúdio Fotolab Linaibah, de São Paulo.

Giovana Medeiros, “Farofrance”

Uma de minhas artistas favoritas e uma das primeiras zines da minha coleção! Também um diário de viagem ilustrado, Farofrance traz os registros de um mochilão que Giovana fez pela Europa, compartilhando momentos bacanas, boas comidas e mini roubadas com suas amigas. Muito interessante acompanhar esse percurso (que foi de Dublin a Barcelona e terminou na Grécia) através do traço fofo da artista.

Lovelove6, “Sheiloca” e “As pessoas são frágeis e ignorantes”

Acho que posso dizer que tenho praticamente tudo que a Lovelove6 — brasiliense autora da HQ Garota Siririca — já lançou. Sou fã, não escondo. A zine (que acredito que se chama) “Sheiloca” é uma história seriada sobre uma realidade alternativa onde só existem mulheres vivendo numa espécie de aldeia matriarcal. A cada mês, Lovelove6 manda um pedaço da história para os apoiadores do seu trabalho. Em “As pessoas são frágeis e ignorantes”, a artista reúne uma série de quadrinhos produzidos entre 2014 e 2016. Arte, cultura do estupro na universidade, aborto, orgasmo feminino, padrão de beleza, política e suicídio são alguns dos temas presentes nessa zine extremamente potente.

The School of Life Design, “Become Worry-free Right Now”

Mais uma maravilha encontrada graças ao poder de curadoria do Marcos. Essa ele trouxe de sua viagem aos EUA, onde pirou dentro de uma loja de zines no Brooklyn, onde mal conseguiu escolher o que levar, tamanha a diversidade de produções. Essa chamou a atenção dele por trazer 12 meditações para transcender a realidade. Os textos são muito imersivos e foram capazes de me levar a uma jornada interessante, onde colhi vários insights pessoais. Zine para degustar aos pouquinhos. Guardei um bocado de meditações para situações de emergência. Jessica Mullen, a autora dos textos, é uma das fundadoras da School of Life Design, com diversos projetos gráficos que exploram princípios do design voltados para o crescimento espiritual.

Glória Nogueira, “Mapa mental” e “O livro das proibições”

Em 2018, ministrei uma oficina de zines no SESC e foi uma experiência de troca incrível. Alguns dos alunos já faziam zines e numa das aulas me deram suas produções de presente! Daria para fazer um post apenas com as zines fantásticas que fizeram na oficina ou levaram pra mim, mas aqui destaco algumas delas. Glória chamou a atenção por ser a mais nova entre os alunos, mas já colecionava muita experiência em fazer zines muito sinceras sobre experiências xóvens. Achei incrível o tema de “Mapa mental”: Ensino Médio. Peguei o túnel do tempo e fui transportada diretamente para aquela época, apenas para confirmar que a vida adulta é uma versão mais esquisita e duradoura da vida de colégio.

Alex Xavier, “Quarentão: macho em crise modelo 4.0”

Também tive o prazer de conhecer Alex nessa oficina. Alex Xavier é escritor e participante do Coletivo Discórdia, povoado por pessoas super criativas que escrevem livros, contos, poemas e zines! “Quarentão” é uma zine em formato de manual de instruções que me arrancou muitas risadas. Posso não ser exatamente o público-alvo da publicação — o homem branco, hétero, que acabou de sair da casa dos trinta e, portanto, deverá adotar o sufixo ENTA até deixar de respirar, palavras dele —, mas o humor e a criatividade desse manual o tornam uma indicação para toda a família.

Anne Caroline Quiangala, “Em busca de habitação”

Conheci Anne num bate-papo sobre ficção fantástica, em São Paulo. Ali, sua eloquência e carisma me fascinaram. Anne, que é criadora do blog Preta, Nerd & Burning Hell, me mandou uma zine que fez minha admiração por ela só aumentar. Claro, por tratar das profundezas do oceano, tema que dialoga diretamente com meu romance, mas principalmente pela forma tão íntima e honesta que ela escolheu para conduzir os textos e ilustrações da zine. Eu diria que é o terceiro diário de viagem desta lista; uma jornada psicológica, ainda mais tão profunda como essa, vale tanto quanto uma visita a outros países.

Aline Lemos, “Cobra” e o “Jardim da Górgona”

Aline Lemos, a.k.a Desalineada, outra descoberta que devo ao mozão Marcos Felipe. Compramos “Jardim da Górgona” na feira da CCXP (2016?), onde a conheci e passei a acompanhar seu trabalho. Essa zine é a reunião das ilustrações que Aline criou para o Inktober daquele ano, e consegue criar um universo inteiro sem precisar de uma palavra. Já “Cobra” se trata de uma zine-biografia de Ercília Nogueira, autora de “Virgindade inútil”, livro polêmico para a década de 20, época em que foi lançado. “Sou pornográfica porque trato de mostrar qual é o papel representado há dois mil anos pela mulher”, escreve Ercília; e Aline a desenha, resgatando o trabalho da autora em uma HQ tão jornalística quanto artística.


Espero que tenha gostado das minhas indicações. A caixa de comentários é livre para você deixar as suas.

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