CAT | Contos

Sandelon tinha acabado de cair em outro planeta. Talvez seja difícil acreditar, já que nem eu e nem você tenhamos passado por isso antes. Mas Sandelon estava, de fato, passando por isso e ainda assim achava difícil acreditar.
Preferiu ficar deitado, imóvel, e prendeu a respiração o quanto pode, em pânico. Não aguentou mais que dez segundos. Para sua sorte, a atmosfera do planeta era agradável e o ar que inalou não o matou instantaneamente, como ele pensou que aconteceria. Olhou com medo ao seu redor e estranhou praticamente tudo: da vegetação que cobria toda a superfície até o céu multicolorido, que se alaranjava no horizonte. Puta merda, estou mesmo em outro planeta.
Não havia nenhuma nave ou tripulação espatifada ao seu redor, porque, é claro, as naves não conseguiam chegar tão longe quanto ele estava agora. Os cientistas descobriram que, para chegar em outros planetas, possivelmente habitados, era preciso escavar túneis. O que era bem mais complicado do que perfurar uma superfície, afinal, estamos falando de espaço-tempo.
Escolheram um indivíduo ordinário de quem ninguém sentiria falta, já que a passagem de volta não estava inclusa no pacote, devido a impossibilidades técnicas. Sabe-se apenas que os cientistas estavam trabalhando nisso agora.
Então, como estávamos vendo, Sandelon tinha acabado de cair em outro planeta. Levantou devagar, atento a cada ruído do ambiente. A única coisa que conseguia ouvir era uma frequência constante e aguda, como uma interferência. Era um som alto e irritante. A única coisa que não deixava aquele planeta ser um tédio completo.
E agora, o que eu faço?
Ele estava sozinho em um ambiente desconhecido sem missão a cumprir ou sequer alguma instrução do que fazer ou de como se virar naquele pedaço de fim de mundo. Aparentemente, os cientistas não se preocuparam com isso. Acharam que já seria muito otimista a previsão de que ele chegaria vivo a algum lugar. O fato é que chegou, e agora encarava desesperado a solidão de um planeta inóspito.
Para Sandelon, os planetas não passavam de bolotas no espaço às que se davam nomes engraçados. A posição deles também determinava se alguém estaria destinado a ser um grande teimoso ou só um fracassado qualquer. Mas querer pisar em um planeta distante só para dizer que pisou era inutilidade demais. Era improvável que ele encontraria algo além de plantas esquisitas e nada. Nada vezes nada.
Alguns diziam que existia a chance de haver vida inteligente em outros planetas. Mas Sandelon sabia que era besteira. Acreditava que só existia uma forma de vida inteligente em todo o Universo e ele era um bom representante dela. As Escrituras não mencionavam nenhuma outra espécie como cabeçudos com tentáculos ou rastejantes desintegradores de células, que eram vistos apenas na ficção e em estórias para colocar medo nos pequenos. Se existissem, as Escrituras certamente falariam deles. Isso encerrava a discussão.
Você deve imaginar o que vem a seguir. Sandelon deu de cara com um habitante daquele planeta, para seu completo pavor e para a ruína de suas crenças. A sua única reação foi ficar parado enquanto a criatura se aproximava, caminhando em meio ao mato alto. Sandelon então percebeu que, na verdade, ele havia morrido na experiência dos cientistas e que nada daquilo era real. Pelo menos foi no que ele preferiu acreditar por um momento.
O habitante era menor que ele, todo preto, tinha a cara achatada e grandes olhos amarelos. Tinha cinco membros, mas um deles não tocava o chão. Ficava suspenso no ar e parecia ter vida própria. Então a criatura parou na frente de Sandelon e começou a se comunicar com ele, em uma língua que ele não compreendia. Era um idioma simples, com poucos fonemas, mas estava longe de ser rudimentar. Encarou Sandelon, esperando uma resposta.
Tudo o que ele conseguiu balbuciar foi: não me coma.
A maior demonstração que Sandelon poderia ter de que aquela espécie era uma forma de vida inteligente foi a misericórdia. Era sinal de que havia entendido a mensagem. Uma criatura irracional o teria destroçado, com aquelas garras e dentes. Em vez disso, continuou a se comunicar. Estava tentando estabelecer um diálogo com Sandelon. Mas antes que ele pudesse pensar no que responder, a criatura saltou para o alto de uma das enormes plantas que havia no local, em uma velocidade e com uma habilidade que desafiavam a lógica rasa de Sandelon.
Não só se tratava de uma forma de vida inteligente, como era, certamente, um organismo superior e mais sofisticado. Sandelon ficou olhando embasbacado para a figura negra, que ainda o estudava com curiosidade lá do alto, e, de repente, achou injusto que houvesse no Universo uma espécie tão privilegiada quanto aquela.
Então é isso. A história de que a nossa existência é o centro de tudo não passa de uma grande mentira. Não estamos sozinhos no Universo.
Sandelon estava tão imerso nesse pensamento que nem se deu conta da ameaça que se aproximava. Tudo o que conseguiu ver foi uma criatura muito maior, bípede, carregando uma arma enorme e falando em uma língua ainda mais estranha. Então foi atingido por um tiro e tudo ficou embaçado.
Agora sim, estava diante da forma dominante daquele planeta.
******
As cigarras cantavam alto, mas Estefânia nem ligava mais. Era normal, ainda mais no fim de uma tarde quente como aquela. O que não era normal foi o clarão que borrou o céu por uma fração de segundos. A garota chupava uma manga quando isso aconteceu, e ficou olhando desconfiada para o horizonte.
- Diacho.
Foi lá ver o que era, não sem antes pegar sua espingarda de chumbo. Atravessou o matagal diante da casa e caminhou fazenda adentro, em direção ao local onde viu a luz. Quando chegou perto, viu que um bicho tentava pegar seu gato, que já tinha subido em um galho do pé de maracujá.
- Arre, espera aí, Celestino, que eu já tiro essa coisa daí!
Atirou sem pestanejar. Sabe-se lá que coisa era aquela. Não ia chegar perto a menos que o bicho não se mexesse mais. Avançou no mato alto até o lugar onde ele estava caído. Era uma criatura bizarra. Tinha metade do seu tamanho, o rosto alongado, o corpo curvado como a lâmina da foice de roçar mato. Coisa feia dos diabos. Definitivamente, não era humano, mas Estefânia não sabia que animal era aquele. E olha que de animal a garota entendia.
Alguns acreditavam que pudesse existir vida inteligente em outros planetas. Mas Estefânia sabia que era besteira. Trepou na árvore, pegou o gato e rumou para casa despreocupada. Por mais estranha que pudesse ser aquela coisa, não podia ser um alienígena. Essas coisas não existem.

(recomendado para maiores)
Talvez o brinquedo sexual mais estimulante para uma mulher seja o espelho. Tsc, e lá vai ela atrás de vibradores e creminhos. Ou então, como Clarissa, lá vai ela se olhar e se achar gorda. Eram aquelas dobrinhas marcadas pelo sutiã que incomodavam, por mais que dissessem que ela era do tipo gordelícia. Francamente, isso era elogio? Vestiu a blusa rapidinho e foi trabalhar.
Chegou na redação, onde exercia a pouco atraente função de assistente de marketing. Mas gostava da sua mesa. De longe dava para localizá-la: era aquela com duas anteninhas de pompons rosa em cima do monitor. Imprimia imagens do happythings.tumblr.com e colava nas laterais da sua baia. Chegou sorrindo um bom dia para seus colegas, enquanto cantarolava uma musiquinha qualquer em francês.
Abriu o email enquanto tomava seu café. Capuccino descafeinado, na verdade.
“Fwd: Brinquedinhos de mulheres” As meninas da redação enviavam entre si, pelo menos uma vez por semana, algum e-mail com link de sacanagem. E lá estava Clarissa na tal lista. Ela até abria, dava uma olhada por cima, só para não parecer a chata.
- E aí Silvinha, gostou do e-mail?
- Gostei foi daquele amigão duplo. Imagina, que loucura!
Hahaha, e as meninas riam no corredor do café, e o máximo que Clarissa fazia era mostrar os dentes enquanto enchia seu copo de água. Que conversa desagradável. No mínimo, fora de hora. Clarissa estava com muito trabalho e, bem, com pouco assunto. Não era por falta de gostar da coisa, se é que você entende. Imagina! Até tinha seus eventuais namorados e não podia reclamar de falta de opção. Talvez de sua falta de coragem, ou quem sabe ela não tivesse tesão o suficiente. Ainda.
O problema é que, quando se tem 22 anos, esperam que você tenha uma história sexual um pouco mais extensa do que alguns amassos e um boquete bem meia-boca. Também teve aquela vez que o César baixou sua calcinha de leve, enquanto se beijavam na cama dele. Clarissa levantou na hora, negou, fez charminho, e acabaram que nunca mais se viram depois disso. Virgem, dá para acreditar?
- Não, espera aí. Você nunca fez? Nem uma trepadinha? Tá de brincadeira.
- Ah, Lilian. Ainda não achei o cara certo, sabe?
- Olha, se você fosse tatuar a rola dele, eu até ia entender a sua preocupação. Ia ser mesmo uma tragédia escolher o cara – ou o pinto errado.
Clarissa se arrependeu de ter aberto a boca, era a primeira vez que falava dessas coisas com uma colega. Não era exatamente uma colega, Lilian era sua supervisora. Estavam na casa dela, já sem o salto alto, quando ela trouxe duas cervejas geladas e se sentou no sofá à sua frente.
Clarissa já podia antecipar mentalmente todo tipo de conselho que a outra ia oferecer. Nos dias atuais, os sacrifícios de virgem ainda existiam; mas era muito mais um martírio moral do que realmente ser amarrada em um altar e, sabe-se lá, ser apunhalada com uma adaga ritual. Vergonha nem era ser virgem, era ser burra mesmo. Em tempos onde era tão fácil parecer uma safada, em que bastava um avatar mais ousado e postar links de sacanagem (ou mensagens minimamente insinuantes), parecer virgem, independente de já ter feito ou não parte dos festejos da rola grossa, é que era inaceitável. Exceto no altar, em que todas, absolutamente todas, usavam véu e grinalda, como boas donzelas. Clarissa estava tão absorta em seus inúteis pensamentos virginais, que não imaginava que Lilian estava mais interessada em fazer perguntas do que oferecer conselhos de mulher bem transada e experiente.
- Então… você não sabe como é?
- Como é aquilo? Ah, sei sim. Eu te falei, já chupei uma vez, quando…
- Não estou falando disso, Clá. Céus, você tem o pensamento tão fálico!
- Falando assim você me faz sentir uma aberração, credo.
- Deixa de ser boba. Só tira o pau da cabeça, a pergunta não tem nada a ver com pau. O que eu queria saber é se você já gozou.
Foi como se os cinco litros de sangue de Clarissa de repente circulassem no seu rosto. Como saberia dizer se já gozou, se mal fez o básico, que era transar? Pelo menos, ela imaginava o processo como uma escadinha: sexo devia ser como subir degrau a degrau, até chegar lá. E acontece que Clarissa tinha tropeçado no primeiro andar. Preferiu não explicar isso para Lilian, então deu logo a resposta mais curta.
- Hm, não.
- E você nunca teve curiosidade para saber como é?
- Até tenho. Mas acho que vai ser bem mais gostoso quando – ai meu Deus, não me ache uma idiota por isso, ok – achar o cara certo para mim.
- Quem disse que você precisa de um cara pra isso?
Lilian riu de um jeito que Clarissa até pensou, de início, que sua chefe queria comê-la ali mesmo. Então lembrou do que levou àquela conversa: desde o princípio, tudo era sobre os benditos e-mails de putaria das meninas da redação. Lilian devia estar falando dos consolos, bolinhas tailandesas e estimuladores listados no link.
- Ou você nunca ouviu aquela do Woody Allen? Masturbação é sexo com a pessoa que você mais ama.
- É, faz sentido.
Sozinha em casa, ela finalmente teve coragem de olhar o link com mais calma. Eram cacetes, pirocas e perus de todos os tamanhos, cores, formatos e materiais. Tinha um azul ciano lindo que até ficaria bem na sua mesa se não fosse, pra início de conversa, uma rola bem grande. O tal amigão duplo era um pouco assustador, e Clarissa não gostava da ideia de ser metida por uma deformação de plástico. Aliás, ela nem gostava da ideia de perder a virgindade para qualquer coisa de plástico. Que pensamento mais idiota. Clicou na seção de vibradores e estimulantes de clitóris e ficou meio perdida com tantas opções. Achou um pequenininho, de encaixar no dedo, com a seguinte descrição: “Super silencioso, dá para usar no trabalho. Inclui baterias”. Arriscou encomendar esse, claro, sem esquecer do gel estimulante mentolado.
Demorou para chegar, mas depois de tantos anos sem gozar, não era um pequeno atraso dos correios que ia fazer diferença. Primeiro testou sua nova aquisição na pele do seu braço para ver o quanto vibrava. Olhou com estranheza, tentando imaginar se isso poderia ser bom lá embaixo. Ou pelo menos tentando avaliar os riscos de levar um choque com aquilo. Bobeira, não era elétrico. Resolveu que era hora de deixar as especulações de lado, e, depois do banho, deitou em sua cama só de camisola. Encarando o teto, preparou o brinquedinho no dedo e, por debaixo do cobertor, começou as atividades.
Era uma sensação incômoda e relaxante, como se fosse um spa de cócegas. Suas pernas estavam duras: sentir que não tinha o controle daquela área estava deixando Clarissa toda tensa e insegura no manejo daquela britadeira de periquita. Tentou pensar em algo excitante, talvez ajudasse a relaxar. Ah, a vez em que chupou o Rodrigo, um dos seus últimos namorados. Tinha ficado meio sem jeito com tanta carne na sua boca, esbarrando nos dentes e encostando na garganta. Resolveu ficar só na pontinha e não investir tanta saliva, por mais que o namorado forçasse a sua cabeça para ir mais fundo, usando uma técnica que Clarissa imaginou ser usada por torturadores, mas com uma tina de água gelada no lugar do pinto. Acabou que o pescoço dela estava mais duro que o pau dele. Quando se deu conta, o namorado estava tirando um corpo mole e murcho de dentro da sua boca. É, não ia funcionar. Suas lembranças não eram muito excitantes, mas ela podia inventar uma que fosse. Por que não?
Tentou imaginar como seria se tivesse deixado César ir adiante. Ele abaixou a calcinha dela e começou a fazer carinho no meio de suas pernas – carinho que ela simulava com seus próprios movimentos conduzindo o vibrador. Hm, tinha ficado gostoso de um jeito que fez Clarissa derreter e ficar um pouco molhada em baixo do cobertor. “Mas espera, nessa posição ele vai ver a minha barriga”, e ela sentiu que precisava ser convincente para continuar funcionando. Além do mais, aquele detalhe a incomodava profundamente, de forma que ela virou de ladinho para continuar. Foi quando olhou para seus seios, que volumosos, pulavam para fora da camisola, e também se incomodou como eles ficavam caídos e meio tortos naquela posição. Revirou na cama procurando o ângulo menos constrangedor e pensou que também teria sido uma tragédia se ela realmente tivesse deixado César fazer o que ele queria quando abaixou sua calcinha aquele dia. Arrancou o estimulador do dedo e jogou contra a parede. Perda de tempo.
Chegou na redação um pouco menos bem-humorada e um pouco mais descabelada do que o normal. Nessas horas agradecia por trabalhar para uma revista de adolescentes, em vez de uma daquelas para mulheres crescidinhas que trazem na capa “enlouqueça seu homem na cama”. Mas algo no olhar da sua chefe dizia que ela não ia conseguir se livrar do assunto tâo fácil.
- E aí, deu certo?
- Do que você tá falando, Lílian?
Sua supervisora sorriu e olhou para os lados. Levantou de sua mesa, levando sua caneca de café, e sentou-se na cadeira ao lado de Clarissa. Sussurrou e olhou por cima dos óculos de aros vermelhos:
- Tô falando do brinquedinho novo que você me falou.
- Ah, não funcionou muito bem.
- Como assim, menina? Tava até pensando em pedir um pra mim também.
- É, quem sabe pra você dê certo. Mas comigo não funcionou.
- Hm, tem certeza que foi o aparelhinho que não funcionou?
- Não senti nada.
- Clá, o vibrador só vibra. O que tem que funcionar pra você sentir prazer é a sua cabeça.
- O que você está querendo dizer?
- Só tô dizendo para você encanar menos. Sei lá, abrir a cabeça, curtir, relaxar. Esquecer que precisa de homem, ou até de vibrador pra ser feliz. Deixa você mesma se amar um pouco.
Deu uma piscadela e voltou para a sua mesa e seus montes de planilhas. Deixou Clarissa cheia de coisas para pensar durante o dia. E que dia. Estava tão cheia de trabalho que nem teve tempo de abrir o e-mail de sacanagem que a Regina mandou para as meninas. Mas também não estava interessada.
Queria mesmo um bom banho quando chegasse em casa. Feito. Demorou-se na água quente e saiu do banheiro nua, secando os cabelos com a toalha. Parou na frente do espelho, pegou a escova e começou a pentear os cabelos para a esquerda, depois para a direita. De repente trocou olhares consigo mesma e imaginou uma forma de parecer diferente. Com os dedos, jogou os cabelos para trás, deixando seu rosto completamente descoberto. Por nunca ter usado o cabelo assim, ficou surpresa com a diferença que fez para o seu rosto. Brincou com o espelho, fazendo caras e bocas que a faria se achar ridícula em qualquer outra situação. Sorriu com a brincadeira boba e pegou novamente a toalha.
Então olhou para o seu corpo no espelho e afastou a toalha da frente de seus seios. Também eram interessantes, afinal. E sensíveis. Sabia o quanto era prazeroso receber alguns carinhos ali, mas eles não estavam recebendo muita atenção. O que gostava de sentir ali? Passou seus dedos de leve e ficou arrepiada: seus mamilos se eriçaram na hora. Apertava, alisava, brincava e gostava. Molhou seus dedos com saliva e tocou na ponta dos seus seios. Chegava a um novo nível de prazer, sentia suas bochechas esquentando. Continuou a tocar seus seios e virou-se para ver sua bunda, que ficava tão maior empinada naquele ângulo. A visão era ótima. Como ela nunca tinha percebido isso antes?
Sentou-se na cama, sem tirar os olhos da Clarissa do espelho. Chupou seu dedo e desceu ele pelo corpo até chegar na vagina. Estremeceu. Começou com movimentos suaves, e seu dedo deslizava bem devagar na sua pele molhada. Com a outra mão, continuou a alisar seus seios e a se divertir sentindo-os durinhos e pontudos. Não queria perder nada. Abriu bem as pernas para ver todos os detalhes e sentia cada vez mais tesão com aquela imagem, com aquele toque.
Nem percebeu quando exatamente resolveu deitar na cama, mas já estava rebolando e se esfregando em seus lençóis, ao mesmo tempo em que dedilhava a xana em todas as direções. Respirava alto, seus peitos subiam e desciam no mesmo ritmo dos gemidos. Revirou na cama até ficar com a bunda virada para cima, e levou as duas mãos para baixo, onde começou a fazer um movimento coordenado fora das possibilidades anatômicas de qualquer pau ou língua masculina. Seus dedos não eram só rápidos: sabiam o que queriam. Então Clarissa sentiu algo lá dentro esquentar e, como se fosse um espirro, explodir em algo incontrolável. O que foi isso? Ela desacelerou os dedos, mas queria continuar sentindo. Gozou?
Suas pernas tremiam, mas Clarissa continuou firme. Não enfiou um, mas dois dedos na boceta. Doeu quando entrou, mas ela estava tão louca que foi fundo e meteu sem parar. Com o rosto afundado no travesseiro, ela abafava seus gemidos que ficavam cada vez mais altos, mais fora de controle. Nem suas aulas de natação na adolescência exigiram tanto fôlego; mas eram tão molhadas quanto. Ela encontrou a posição certa, o ritmo certo, o toque certo. Quem mais poderia fazer isso? Foi mais rápido só para saber até onde ela podia ir. Então ela foi. Sim, definitivamente, ela gozou de novo.
Clarissa desmontou na cama como se fosse líquida. Sorria descabelada ainda com a cara no travesseiro. Exausta demais para se vestir, apenas se encolheu na cama, como se abraçasse sua própria nudez e a sua nova descoberta: não só a do orgasmo, mas a de que, por baixo daquela Clarissa insatisfeita com suas medidas, estava uma mulher que era um puta tesão.
Fora isso, nada mudou. Clarissa continuou a ir para o trabalho sorridente, continuou a tomar seu capuccino descafeinado, e as meninas da redação continuaram a enviar e-mails com putaria. O que nem elas sabiam é que a menina do marketing que adorava imprimir imagens do happythings.tumblr.com agora enviava suas próprias fotos, nua, para o gostosas.tumblr.com.
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…
Acabo de tirar uma história da gaveta. Comecei a escrever Hipersonia Crônica já tem um tempo, mas continuar a guardá-la e reescrevê-la em um processo sem fim não ia acabar em lugar nenhum. Agora espero que acabe na mão de alguns leitores.
Hipersonia Crônica é a história de um gerente de projetos que começa a ter sérios distúrbios do sono que chegam a afetar a sua vida profissional. O problema é que o seu trabalho também começa a afetar seus sonhos, em uma aventura perigosa que revira sua cabeça.
O download é gratuito. Basta você clicar no botão ali de cima e postar um tweet com o link do livro. E pronto: boa leitura!
Mais uma historinha que as próximas gerações podiam ouvir desde cedo.

O dia de Lourenço começava cedo. Quase sempre com uma torrada comida no meio do caminho. O café ele deixava para tomar quando chegava no escritório, enquanto lia os e-mails. Uma olhada rápida no portal de esportes. Leitura dinâmica no jornal do dia. Um cara sempre informado.
O telefone tocou, ele sabia que era pepino. Não deu outra. Era o cliente querendo marcar uma reunião no final do dia. Ele disse que sim, tudo certo, mas a apresentação não estava pronta ainda. Ligou na hora pro Pacheco e falou para dar um jeito de agilizar tudo. Urgente.
Ainda nem era hora do almoço e ele já tinha feito quase todo o texto para colocar na apresentação. Enviou os relatórios que o chefe pediu. Foi umas três vezes na mesa da Sílvia cobrar uns documentos pendentes. Pediu um sanduíche no delivery. Ia comer no escritório, adiantar umas coisas.
A tarde passou voando. Lourenço também. No táxi, respondeu pelo celular alguns e-mails que não teve tempo de ler no escritório. Deu uma boa alongada no pescoço. Sentiu uma tensão sobre os ombros. Devia ser por causa da apresentação de logo mais.
Tudo certo, tudo lindo, mas o cliente pediu alguns ajustes antes de aprovar o orçamento. Claro. E ele, que queria vender logo o projeto, trabalhou até às três da manhã. Só se rendeu à cama quando não aguentou mais de dor nas costas.
O dia seguinte continuou estressante. Ligações. E-mails. Gente incompetente. Cobranças. Contrato fechado. Relatórios. Café. A assistente de Lourenço chegou por trás e colocou as mãos em suas costas. “Nossa! Quanta tensão, Lourenço!” Ficou impressionada com a dureza dos nós em seus ombros. Fez uma massagem gentil no chefe estressado. Mas as costas estavam tão duras, que começou a dar soquinhos. É, ela não ia dar conta. Mas indicou um spa com um ótimo massagista.
Depois do expediente, Lourenço passou lá. Tirou a camisa e deitou na cama. Suas costas deram uma baita canseira no massagista. “Vamos precisar de mais uma sessão. A coisa está feia.” Chegou no escritório reclamando com a secretária. Parecia que a dor tinha piorado. Agora mal conseguia mover os ombros.
De qualquer forma, voltou ao tal spa. Quando tirou a camisa, o massagista fez uma cara feia de espanto. Mostrou o espelho a Lourenço. Ele levou um susto. O músculo sobre os ombros estava bastante inchado. Duro como pão de antes de ontem. “É melhor procurar um ortopedista!”
Com o terno, não dava para notar o inchaço nos ombros. Mas passou o expediente todo duro, sentindo-se um cabide. Chegou no consultório e o doutor fez a mesma cara feia de espanto. Apalpou os ombros, examinou as costas, deitou ele de lado na maca, até deu umas batidinhas com um martelinho. Pediu uns exames só para ter certeza, mas a verdade é que não tinha ideia do que podia ser aquilo. Mas adiantou: “Pode ser stress.” Receitou uns analgésicos. Pediu para Lourenço tirar pelo menos três dias de repouso.
No segundo dia, voltou ao escritório. Cheio de coisas para fazer. Tomou tanto remédio que tinha analgésico saindo pelos ouvidos. Aos colegas, dizia que estava melhorando. Claro, não tinha tempo para ficar sentindo dor.
E o inchaço não dava sinais de melhorar. Ou amaciar. O pior é que a dor estava se espalhando pelas costas inteiras. Tinha vontade de pedir o seu salário todo em massagens.
Ficar sentado doía. Ficar deitado doía. Fazer alongamento doía. Passar a mão doía. Doía tanto, que se levasse um murro na cara nem ia sentir. Começou a levar uma almofada para o trabalho. Suas costas estavam duras feito parede de concreto. E a lombar começava a ficar tão bizarramente inchada quanto seus ombros.
O doutor entregou as radiografias. Não dava para saber o que era aquele inchaço. Parecia uma formação óssea. Era melhor recolher uma amostra de sangue. Achou preocupante os remédios não fazerem efeito e disse que era um inchaço bem anormal.
Em casa, Lourenço não conseguia parar de pensar. “Ai, meu Deus, será um tumor? Vou morrer?” E aí lembrou do dead line do projeto que renderia um contrato milionário. Aproveitou e enviou um e-mail pelo celular antes de deitar. Dormiu de bruços.
Foi difícil acordar. Sentia-se esmagado. Tentou levantar, mas suas costas ainda doíam. Não conseguia se virar na cama. Escorregou para o lado, tirou o pijama e pegou a toalha. Ao passar pelo espelho, quase caiu para trás. “Que porra é essa?” Olhou para as suas costas, onde agora via um bizarro casco de tartaruga. Esverdeado. Duro. Lisinho. Pesado. Não podia ser outra coisa. Era mesmo uma carapaça, uma carapaça de tartaruga!
Céus, tantos dias para nascer um casco de tartaruga, tinha que ser logo no dia em que tinha uma reunião pela manhã? Estava atrasado. Faltava terminar um relatório. Agora tinha um casco de tartaruga que precisava esconder. Ligou o chuveiro e esfregou bem o rosto. Vai que ele descobria que estava sonhando. Sofrendo alucinações por causa da dor.
Saiu do banho se sentindo bem melhor. Mas o casco continuava ali. Como uma mochila carregada de pedregulhos. Só que Lourenço não ligava mais. Agora ele tinha duas longas nadadeiras e olhos brilhantes em um rosto bem enrugadinho. Foi andando pela casa devagar e feliz. Finalmente ia conseguir tirar as tão sonhadas férias na praia.
Moral da história: Quem nunca para ainda vai ser esmagado pelo peso que carrega.
Preciso confessar que este blog não é o único onde ando escrevendo. Entre os projetos paralelos nos quais estou envolvida, um deles já está no ar e super funcionando. É o 30 dedos, um blog colaborativo de contos. Na verdade é bem simples. E começou bem de repente: foi quando o Zé Moreira teve a ideia de chamar Tarrask e eu para nos aventurarmos a escrever uma história a 6 mãos, 30 dedos e muito improviso.
Funciona assim: cada um escreve um pouquinho e joga o pepino para o próximo. Nada é planejado. Ninguém sabe como a história vai acabar. Não sabemos nem como ela vai continuar. Por incrível que pareça, está saindo dessa bagunça uma história cheia de suspense e personagens interessantes. E o melhor de tudo: você não vai saber qual trecho de cada capítulo tem o meu dedo, ou o do Zé, ou o do Tarrask.
Eventualmente, chamamos um convidado para escrever um capítulo especial e nos deixar em apuros ainda maiores. Tem um capítulo novo toda quinta, e recomendo que você acompanhe os feeds para não perder nenhum.
Já tem três capítulos por lá. Mas como sou boazinha, vou postar o primeiro para vocês terem uma ideia.
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Robson não imaginava o quanto era dolorida a sensação de flutuar. Esperava que quando a gravidade sumisse sob seus pés, tudo ficaria mais leve e ele experimentaria uma espécie de prazer. Mas na prática, ele sentiu desespero. Seus ossos pesavam no corpo, e tudo chacoalhava por dentro, como se não tivesse onde se segurar. Mais ou menos igual a ele, que jogava os braços para todos os lados tentando encontrar algo para as mãos agarrarem. Então veio o impacto. Era a gravidade dizendo: “olá, ainda estou aqui”.
Seu corpo bateu de um lado para o outro. Seria um perfeito boneco de pano, se sua carne não estivesse se rasgando e esfolando enquanto se chocava contra poltronas, vidro e metal retorcido. Girou e foi arremessado para fora, junto com um monte de caco de vidros. Só percebeu que era real quando deu com a cara no asfalto. Levantou o rosto, sentindo que estava meio surdo. Mas conseguiu ver perfeitamente o ônibus capotado. E o pessoal lá dentro não devia estar com uma aparência melhor.
Um gosto estranho preenche a boca de robson, ele nunca havia cuspido tanto sangue na vida, nem mesmo nas brigas que já tinha se metido na vida por conta de excesso de bebida, ou falta de mulher.
O cheiro de gasolina e borracha queimada tomam conta de tudo, robson decide andar e se afastar um pouco daquele inferno, e no primeiro corte ele percebe que havia perdido o sapato direito, logo o sapato que tinha acabado de comprar, e ele achando que o dia não podia piorar.
Como normalmente acontece em acidentes em estradas movimentadas, um monte de gente começa a aparecer ao redor para fazer perguntas inoportunas, comentários desnecessários ou oferecer primeiros-socorros sem a capacidade necessária. Alguém telefona para a polícia, outro para o jornal e outro para a mãe, para contar que um ônibus perdeu o freio, escapou da pista, caiu do elevado entrando na sala-de-estar de uma casa que tinha o azar de estar por ali. Robson, jogado no asfalto do acostamento, sangrando e dolorido, pegou o telefone e ligou para o último número. Teve sorte, o aparelho ainda funcionava.
“Alô, Marcelo. Fudeu, cara. O ônibus capotou, estou no meio da rua, todo fudido. Não consigo andar, acho que vão me levar pra um hospital. É melhor você desaparecer. Prometo manter o bico fechado.”
Continuação aqui.
A gente mora junto há pouco tempo, mas já deu para me acostumar às manias dela. E ela se irritar com as minhas. Por exemplo, quando ela chega do trabalho sempre tem uma bronca. Ou é a minha bebida que ela encontra derramada, ou o cobertor jogado no chão, ou ainda uma mijadinha fora, mas de leve. “Você dormiu o dia inteiro, né, safado?” Eu até tento disfarçar, mas a cara amassada e os olhos inchados não me deixam mentir.
Passo as tardes esparramado no sofá. E para ninguém dizer que a minha vida é só isso, às vezes tiro um ronco na cama também. Meu negócio é dormir, comer, beber. E eventualmente, cagar. No meio tempo, fico na janela olhando o que o povo lá de fora tá fazendo.
Ela só chega à noite, às vezes brava, às vezes morrendo de saudade. Sempre cansada. Quando não está muito tarde, ela vai para a cozinha e prepara a janta. Eu fico na sala, sentindo aquele cheirinho bom. Apareço só quando está pronto e vou até a mesa espiar, para ver se está com uma cara boa.
Ela serve o prato dela, e depois serve o meu. Enche de comida e depois vem reclamar que estou barrigudo. É foda.
Depois ela vai tomar banho. Quando deixa a porta aberta, é um sinal. Fico parado na porta, só olhando. E ouvindo a água bater no corpo dela e depois no chão. Fico ali a noite inteira, se ela quiser. Nem reclamo quando ela demora muito. Ela que tá pagando a conta de luz mesmo.
Eu prefiro banhos rápidos. Não gosto é de cortar as unhas, mas ela reclama quando vê que começam a crescer. Eu não tô nem aí. Faz uns meses que ela comprou um perfume, desses caros. Uso uma vez por mês e olhe lá. Bom mesmo é o meu cheiro natural de macho.
Quando ela começa a apagar as luzes, eu já sei que é a hora de dormir. Chego de mansinho na cama. Faço massagem no pescoço e peço para entrar dentro do cobertor. Gosto de dormir de conchinha, bem abraçado. Quer dizer, até ela se mexer no meio da noite e me empurrar para o lado. Volto, faço carinho nos cabelos, roço o bigode no narizinho dela. Mas ela não acorda por nada. Justo na hora em que eu estou mais aceso. Aí não tenho o que fazer, amigo. O jeito é levantar e ir beber uma água. Ou vou para a sala e brinco sozinho mesmo.
Ela sempre acorda atrasada. E de mau humor. “Sai daqui! Não me enche o saco, tô atrasada!” Fico puxando o fio da chapinha enquanto ela arruma o cabelo, só porque me divirto com ela irritada.
Já na hora de sair, saio correndo antes que ela abra a porta. Então eu mio alto. Ela não pode ir embora sem antes colocar no pires o meu Whiskas sachê.
Baseado em fatos reais
Algumas coleções começam assim: deliberadamente, antes mesmo de conseguir o primeiro item. Quero colecionar selos. Moedas antigas. Anões de jardim. Mangá tal vai ser publicado, vou colecionar. Outras começam depois que o cara já tem um item e, hm, isso é legal, vou conseguir outros e colocar todos juntos na prateleira. Mas a coleção dela não. Ela só começou com isso depois que percebeu que já tinha muitos.
Ela colecionava recifenses. E não era como colecionar objetos, em que dava para colocar tudo em potinhos e exibir na prateleira. Eles faziam coisas, se moviam muito, interagiam entre si e com pessoas diversas, e na maioria das vezes, nem sabiam que estavam sendo colecionados. Então imagina que trabalhão seria para Lia colocar todos eles na sua estante.
Quando ela se deu conta que tinha muitos deles, e que aquelas pessoas amontoadas na listinha do twitter tinham algo em comum, percebeu que eram recifenses colecionáveis. A partir de então, o que Lia fazia era descobrir e observar.
Ela usava um caderninho preto, daqueles moleskines que nem pauta tinha, e escrevia com uma letra meio torta o nome deles, com arrobinha e tudo. Ao lado, colava uma etiquetinha com a foto ou com a imagem que melhor representava cada um. Fazia anotações que ninguém ia entender, mas não ligava: não colecionava isso para os outros mesmo.
Algumas anotações eram cheias de detalhes, outras bem vagas. “Cara de boina, fala pouco” ou “compõe tão bem quanto Chico Buarque” ou “saia rodada, coisas floridas, tons terrosos, igual ao cabelo. Gosta de dar ideias de fim de semana, redatora, mas tem bom gosto para fotografias como ninguém” ou “blogs com os melhores nomes ou qualquer coisa do tipo, apelido curioso, cabelo bem encaracolado (será que ainda usa assim?), escreve escreve escreve, confuso fuso horário, não tá em Recife, mas esse não me engana” ou “gosta de achar vídeos bizarros, e se satisfaz quando passa para os outros mas ninguém tem coragem de ver” e assim por diante, por muitas e muitas páginas.
Esses pequenos detalhes é que davam a Lia prazer de colecionar. Porque o melhor de sua coleção era que crescia em quantidade e em profundidade: ela podia descobrir novos recifenses, ou descobrir coisas novas nos recifenses que já tinha. Isso porque ela conseguia interagir com eles, e a cada conversa tinha algo novo para catalogar (o que não seria possível se ela colecionasse figurinhas de jogadores de futebol ou objetos da Hello Kitty).
Muita gente dizia que nordestino era tudo igual. Alguns até achavam que do sudeste pra cima, era tudo baiano. Mas Lia via o quanto eram diferentes as pessoas do nordeste, com características tão peculiares, tão próprias e notáveis; mas os recifenses, uau. Não era nenhuma tara, mas Lia os achava interessantíssimos. Não tinha um recifense igual ao outro, então ela não corria risco de ter nada repetido em sua coleção.
E Lia já tinha tantos, que chegou a um ponto em que ela não precisava procurar. Os recifenses é que iam até ela, achando que ela também era de lá. Isso facilitou as coisas, e Lia até gostou da ideia de parecer de Recife. Pesquisou blogs, abriu google maps, descobriu bandas, e selecionou alguns vídeos para ver se conseguia ensaiar aquele sotaque inconfundível. Não chegou nem perto de conseguir. Logo ela, brasiliense naturalizada, que mal conseguia balbuciar seu mineirês de origem, tentando arriscar o recifês avançado.
Um dia, Lia esbarrou com um recifense em carne e osso. Foi em um almoço com amigos; ela já tinha ouvido falar dele, mas não imaginava que ele se parecia tanto com o Otto. Ficou emocionada. Tirou sua caderneta da bolsa sob a mesa, e disfarçadamente anotou “redator, veio da Espanha, coca-cola com gelo e sem limão, salada na mesma proporção que o filé”. Com um sorrisinho satisfeito e os olhos brilhando, fechou o moleskine e colocou de volta na bolsa.
***
Depois de um tempo, Lia finalmente foi ao Recife. E seu interesse em conhecer a cidade não era exatamente pelas praias. Ela só teve um pequeno probleminha no aeroporto: desconfiaram da bagagem dela depois de descobrir uma mala cheia de caderninhos pretos.
Atenção: 18+ NSFW
Todo mundo vive alguma sacanagem que não conta para ninguém. Pelo menos uma. Aquilo que aconteceu e você só revela pra você mesmo, quando vai se masturbar. Se você é um adulto minimamente normal, você pode até não sair por aí contando sua vida sexual, mas todos esperam que você faça sexo; e sim, posições exóticas estão dentro do pacote. Mas tem pelo menos uma safadeza sua que ninguém imagina que você tenha feito. E se soubessem, você certamente seria olhado torto.
Por isso, Mari mantinha seu segredinho bem guardado. Em primeiro lugar, porque era casada. Em segundo, porque morria de tesão quando se lembrava, e sabia que, dentre todas as coisas da sua vida que compartilhava com o marido, pelo menos uma era só dela. Era o que dava a ela a sensação de ser um indivíduo, não apenas metade de um casal.
E olha que o casamento de Marilúcia não era nenhuma ditadura, e estava bem longe de ser um relacionamento fracassado. Era um casal jovem, juntos há apenas sete anos. Mari se casou na igreja, como reza a cartilha da boa esposa. Depois de algum tempo, mesmo amando seu casamento, passou a achar que a palavra esposa era sinônima de “mulher traída que faz um sexo muito mais ou menos”.
Mari tinha uma carreira estável e feliz como servidora pública. Não porque achava a coroação de uma existência trabalhar no administrativo, mas era um trabalho mais tranquilo, que não consumia muito de sua vida. Saía do escritório às seis e pronto: podia viver. Já o marido era jornalista. Frequentemente ficava até tarde na redação, e mesmo sem querer, Paulo estava trabalhando até nas horas de folga. Sempre lendo jornais, assistindo TV, navegando em blogs e portais de notícia. Afinal, a vida de um jornalista é estar bem informado.
Paulo não deixava de comparecer com a esposa, claro. Mari não tinha do que reclamar. Ela ficava impressionada daquele homem dar conta de tanta coisa ao mesmo tempo. Trabalhar o dia inteiro não tirava a disposição de Paulo na cama. Nem no sofá, ou na cozinha, ou no chuveiro. Ok, ele não era nenhuma máquina insaciável, tinha seus limites. Mas o importante é que quando fazia, deixava Mari satisfeita.
Só que ultimamente Paulo estava mais aceso. Era época de eleições e ele estava trabalhando igual a um condenado. Voltava exaurido, muitas vezes puto e querendo mandar o jornal à merda. Como as pessoas têm formas diferentes de reagir a situações extremas de stress, ao invés de chegar em casa deprê e dormir igual a uma pedra, Paulo passou a dormir menos. Bem menos.
Uma noite dessas, depois de ser bem comida e bem chupada, Mari acordou e viu o marido no computador. Meio sonolenta, virou-se para o relógio de cabeceira e viu que já eram três e meia da manhã.
“Amor, está tarde. Vem pra cama, vem.” Ele foi até a cama e deu um beijo carinhoso na testa da mulher. “Já vou, amor. Estou só terminando uma coisinha”. Ele foi até a cozinha, buscar água. Mari ficou preocupada, mas voltou a dormir. “Esse homem agora só quer saber de trabalhar”.
A cena se repetiu durante algumas noites. Paulo já apresentava grandes olheiras no rosto. Mas por outro lado, parecia mais empolgado.
Até que um dia, ele chegou com alguns papeis e mostrou para Mari. Ela não entendeu o sorriso do marido. “Anda, leia leia! Ainda não tá revisado, mas queria sua opinião.”
Ela começou a leitura e logo percebeu que não era mais um de seus textos jornalísticos. Era um conto, muito bem contado por sinal. Mas Mari arregalou os olhos quando percebeu que era um conto erótico. Bem safado, apesar de um pouco cômico. Era a história de um professor que tinha uma estranha tara: só conseguia transar com desconhecidas. Se ele conhecia a mulher, sabia onde morava, o que fazia, ou convivia com ela no trabalho, seja uma aluna ou uma colega, ele simplesmente brochava.
“Uma editora que faz parte do mesmo grupo do jornal está lançando uma revista masculina. E eles estão procurando um colunista para escrever contos eróticos. Acho que vou enviar essa história e ver se eles topam.” Paulo estava passando por um período desgastante no trabalho e tinha escrito esse conto como válvula de escape. Estava funcionando. Afinal, Paulo chegava em casa e conseguia esquecer dos pepinos do jornal.
Mari ficou feliz por ele e deu a maior força. A trepada daquela noite foi inspirada. E foi aí que o talento literário de Paulo mostrou-se forte: o conto erótico veio à cabeça de Mari enquanto ela chupava o marido, e devagarinho ela deixou aquele pensamento tomar conta dela. Começou a imaginar que aquele pau na sua boca era de um estranho. De um cara qualquer que ela nunca tinha visto antes. Então chupou com gosto, mexendo a língua de um jeito diferente. O tesão só aumentava quando percebia que ele estava indo à loucura. Esqueceu do tempo e ficou ali, dedicada. E foi tanta sua dedicação, que Paulo gozou ali mesmo, na sua boca.
Como toda boa fantasia, essa não foi esquecida tão facilmente. Ainda mais um mês depois, quando Mari viu, orgulhosa, o conto do jornalista Paulo Cavalcanti publicado na revista masculina Pecado. Guardou um exemplar em sua gaveta no escritório, e ficava excitada toda vez que pensava em transar com um completo desconhecido, como fazia o personagem da história.
Não demorou muito até Marilúcia encontrar a oportunidade perfeita para uma trepada casual. Foi almoçar em um restaurante que frequentava sempre, e naquele dia o lugar estava bem cheio. Estava sozinha quando um homem que, não tendo encontrado uma mesa vaga, aproximou-se e perguntou se podia se sentar ali. Mari assentiu que sim com a cabeça e voltou a comer. Ela achava a situação particularmente desconfortável; por isso, evitava almoçar na praça de alimentação do shopping ao lado.
Olhou para seu parceiro de mesa e começou a pensar diferente. Era um cara bem ajeitado e aparentava ser mais velho que ela. O cabelo jogado para trás já mostrava alguns fios brancos, e Mari avaliou que ele tivesse por volta dos trinta e seis, trinta e sete anos. Não mais que quarenta. Em seu crachá, ela descobriu o nome do cara: Eduardo. Nenhuma aliança nos dedos.
Mari então pegou sua bolsa, tirou sua aliança disfarçadamente e jogou lá dentro. Deu um gole no suco e tomou coragem para puxar assunto. Algo bem idiota. Teve sorte, o cara era muito simpático. Conversaram sobre o trabalho de cada um, o trânsito, o stress. Eduardo falou que nas horas vagas pedalava. “Você devia experimentar. Também ia te fazer bem!” E Mari só conseguia pensar: “hm, o que quero experimentar é outra coisa.”
Roçou seu pé na perna dele, bem de leve, por debaixo da mesa. Fez como quem não tinha a intenção, e depois jogou um charme levando as mãos ao cabelo. A conversa seguiu descontraída. Os dois foram juntos pagar a conta, e no final ela pegou o comprovante e anotou seu número no verso. “Aqui, Eduardo. Caso você queira dividir uma mesa comigo depois do expediente.”
Ela voltou ao escritório se sentindo uma piranha. “Ai meu Deus, o Paulo não pode nem imaginar uma coisa dessas!” Na hora, ligou para o marido só para saber como ele estava. Conversaram rapidamente e com carinho. Desligou e jurou a si mesma que não iria mais longe do que isso. Então deu cinco e meia. Eduardo ligou e ela mudou de ideia.
Não a leve a mal. Afinal, você também já fez alguma sacanagem que ninguém pode saber. Os dois foram para um barzinho, tomaram um chope, conversaram, mas ficaram pouco tempo. Mari deu sinais de que estava afim e Eduardo gostava da ideia de sair com uma mulher tão liberal.
Foram para o apartamento dele, mas já começaram a se agarrar no elevador. Assim que entrou, Mari levantou a blusa e fez Eduardo sentar no sofá. Ela veio por cima e colocou os seios na cara dele, para que ele beijasse, chupasse, lambesse. Mari virou-se, tirou a calça e abaixou a calcinha. Arrebitou a bunda e começou a rebolar, deixando a calça de Eduardo molhada.
Ela deslizou por entre as pernas dele e abriu o zíper como quem desembrulha um presente. Não deixava de ser uma surpresa: era o pau de um cara desconhecido, tinha a cor, textura, tamanho, tudo diferente. Inclusive o gosto. Ela começou provocando com a língua na pontinha. Depois lambeu tudo, até ficar todo molhado e deixar Eduardo louco de tesão. Chupou com vigor, como se nunca fosse ficar satisfeita.
Mari parou de repente e subiu no sofá. Ficou em pé, de pernas abertas e deu a buceta para Eduardo chupar. Ele usou a língua enquanto enfiava o dedo. Ela ainda estava curtindo quando ele resolveu colocá-la de quatro. Mari exibia sua bunda enquanto ele colocava a camisinha. Então ele meteu sem cerimônias.
Ele ainda estava de calça, e a fivela do seu cinto aberto batia de leve na bunda de Mari, acompanhando o ritmo nervoso de seu vai-e-vem. Ela aproveitou a posição para alcançar seu clitóris e se masturbar enquanto Eduardo se divertia. Logo ela gozou. Mari sentiu seu corpo inteiro esquentar.
Ao vê-la gemer como uma louca, Eduardo acelerou. Agarrava as nádegas dela com a força das unhas. Então urrou e diminuiu o ritmo de uma vez. Ele tinha gozado. Saiu de dentro da vagina e sentou no sofá, desabando. Mari gostava mesmo era de ver o sêmen. Gostava quando Paulo ejaculava em cima dela e via o gozo todo escorrendo. Mas como Eduardo ia saber disso, não é mesmo? Além do mais, Mari pensou, seria constrangedor para dois estranhos que ela fosse assim tão íntima da porra dele na primeira vez.
Foi rápido, mas Mari preferiu assim. Deu tempo de chegar em casa, tomar banho e ainda começar a preparar a janta antes do marido chegar. Acima de qualquer suspeita, como reza a cartilha da boa esposa.
Ela não sofreu com o drama da ligação no dia seguinte. Pior seria se Eduardo tivesse ligado, mas ela cuidou disso. Antes de sair do apartamento, disse ter adorado e tal, mas que não podia fazer isso de novo porque era casada. E assunto encerrado.
Bem, pelo menos até Paulo chegar, duas semanas depois, falando sobre sexo com estranhos. O do seu conto, claro. Ele mostrou à mulher vários e-mails de leitores que a redação da revista recebeu. Enquanto ele lia cada comentário, a mulher ia se contagiando com sua empolgação.
“É incrível como a gente consegue entrar no personagem, parece que estamos vivendo a história. Paulo Cavalcanti sabe como provocar as mais diversas sensações, do tesão ao riso. O cara é foda, com o perdão do trocadilho”, lia Paulo. “Ah, tem também o e-mail dessa leitora que ficou sem graça de tão excitada. E eu ri demais com esse, olha aqui!”
“Ah, amor. Eu concordo com tudo. Você escreve muito bem, merece todo esse sucesso”, respondeu Marilúcia, cheia de orgulho, beijando o marido.
“O editor da revista me quer como colunista fixo. Vou escrever putaria todo mês… e não vai ser sobre eleições! Já comecei a escrever a continuação da história, mas agora… preciso responder alguns e-mails”, disse Paulo eufórico.
Mari sorriu e foi para a cozinha. Apesar da repercussão do conto inspirador do marido, ela não voltou a fazer sexo com estranhos. Mas sempre se masturbava pensando no cinto de Eduardo batendo de leve em sua bunda, enquanto era comida de quatro. Essa era a sacanagem só dela.
E Paulo continuou com a sacanagem só dele: ser escritor de contos eróticos. Porque escrever era solitário como uma punheta; até que alguém, sabe-se lá quem, lesse suas histórias. Aí seria quase como fazer sexo com estranhos. Afinal, nessa coisa toda, o escritor acaba tendo uma relação íntima com alguém completamente desconhecido: o leitor. A diferença é que rola muito mais intimidade do que uma simples gozada na cara.
Conto originalmente publicado no site PSV Crônicas, onde participei do Desafio 3: Vazio, ficando com o segundo lugar!
Foi uma experiência muito bacana participar desse desafio, e nem digo pelo prêmio, que não foi meu objetivo quando resolvi escrever; minha satisfação foi, de fato, escrever este conto, e depois, ver a reação super positiva dos leitores. Tenham certeza de que apenas isso já valeu o desafio pra mim. Deixo vocês com o conto, e não deixem de conferir os outros textos que participaram do desafio aqui.

Agosto é quando se consegue os melhores apartamentos nessa cidade. Quer dizer, se o que você está procurando é aluguel. Eu tenho certa experiência nisso, porque sempre morei de aluguel (minto: uma vez fui dono de um terreno durante um bom tempo, mas depois construíram um shopping lá). E é mais ou menos nessa época que a maioria dos contratos acaba, ou que os inquilinos resolvem ir atrás de um lugar melhor. Deve ser porque é inverno, e aí eles percebem que o lugar é uma merda quando faz frio (engraçado como as pessoas, mesmo em cidades grandes, se parecem com aqueles animais que migram no inverno).
Eu tenho meus contatos, acabo descobrindo onde vai abrir alguma vaga. Chego no apê (os antigos moradores ainda estão empacotando as coisas), avalio o espaço, vou direto na janela ver se tem uma boa vista – e uma boa tranca. Sempre vejo as trancas. Se estão funcionando direito, se são seguras. Não é nenhum transtorno obsessivo compulsivo, é precaução. Uma vez fui morar em uma casa no subúrbio. Era um muquifo, mas muito espaçosa. Daquelas que até sua respiração faz um eco enorme. Mas o portão não era muito seguro e as trancas das janelas muito fáceis de arrombar. Um bando de viciados achou que era um ótimo lugar para se esconder durante a noite, sem se intimidar com o fato que eu estava morando ali. Lógico, saí de lá no dia seguinte.
Ok, deu para entender que eu só me mudo se o lugar tem uma tranca que se garante, certo? Quando escolho o apartamento, já estou morando lá no dia seguinte que o pessoal antigo desocupa o espaço. Sempre carrego pouca coisa. Com essa minha vida errante, vi que era um desperdício ter muitos móveis, muitas roupas, muitos livros. Afinal, nunca sei se no próximo lugar que vou morar vai ter espaço para tanta coisa. E espaço pra mim é importante. Por isso, quanto menos coisa tiver, melhor. Aumenta a sensação de espaço.
Eu gosto de sossego. Não sou aquele vizinho problemático, que faz barulho, faz fofoca, faz sujeira. Eu fico quieto no meu canto, mas não vem bater na minha porta não. Eu finjo que nem estou. É assim que construo a minha política da boa vizinhança: cada um no seu quadrado.
Eu só tenho um pequeno probleminha, que são as contas. Chega uma hora que eu não consigo deixar em dia, e elas começam a acumular na caixa de correio. Claro que o pessoal da imobiliária fica puto, mas sempre arrumo um jeito de ficar mais um pouquinho. Quando não dá mais, eles arrumam outro inquilino e eu me mando para outro canto. Não dá pra ter muito apego, sabe?
Mas com o apartamento da 112 a história foi diferente. Eu realmente gostava daquele lugar. E eu já estava morando lá há quase um ano. Vizinhança tranquila, bairro mais afastado do centro, trancas seguras, sala bem espaçosa, uma boa acústica – daquelas que deixam o eco bem bonito. Quando eu me mudei para lá, era até semi-mobiliada. Perfeito, né não? Só que meu contrato estava chegando ao fim e parecia que já tinha gente interessada no lugar. Mas bati o pé: não ia sair de lá nem fudendo. Passou um mês nisso e aí a imobiliária resolveu me fazer uma visitinha.
Quando olhei pelo olho mágico reconheci na hora aquele engomadinho do outro lado. Silvino era o corretor encarregado de alguns apartamentos naquela área. Pobre coitado, porque era difícil pra burro conseguir inquilino para qualquer apartamento naquela área.
Convidei ele para entrar, pedi para não reparar na bagunça. Ele fez uma cara meio incomodada, porque eu não estava usando nada. Mesmo assim me encarou e foi direto ao ponto: “senhor, você já deve saber que vim falar sobre sua permanência no imóvel. Ainda essa semana ele terá que ser desocupad- Quer dizer, terá que ser ocupado.”
Eu até que ia oferecer algo para ele beber, mas a geladeira estava vazia. “Seguinte. O lance é que eu não vou sair daqui, a não ser que você me dê um bom motivo para ser despejado.”
“Um bom motivo é que enquanto o senhor ocupa o lugar, a gente não ganha nada. Precisamos receber aluguel.”
“Ah, mas isso de pagar aluguel não estava no meu contrato.”
“Contrato? Olha, o problema é que as coisas ficaram meio informais. Você não tem um contrato assinado” (acho que ele sempre quis ser advogado, pelo jeito que riu e ajeitou a gravata)
“Como não? Pode olhar aí nos seus papéis. Vê o que diz na ficha sobre o imóvel. Olha direitinho.”
Ele abriu a pastinha velha e puxou alguns papéis. Encontrou a ficha, leu com cuidado (mexendo os olhos pra lá e pra cá) e sua boca repuxou quando respondeu, meio desgostoso: “vazio.”
“Viu só. Eu assinei.”
“Mas… Ora, veja bem. Você sabe o que significa isso. As coisas funcionam assim: alguém vem morar aqui e você desaparece. Já tenho pessoas interessadas, então o imóvel não vai mais poder ficar vazio.”
“Deixa eu te dizer como as coisas funcionam. Eu sou um inquilino como qualquer outro, e não simplesmente a ausência de alguma coisa. Eu tô aqui, não tô? Não dá pra se desfazer do vazio. Você enche algo e o vazio vai para outro lugar. É assim que as coisas funcionam, cara. E no momento não tô afim de ir pra lugar nenhum.”
“Hm, ir para outro lugar…”
Silvino teve uma ideia aquela hora, pensou bastante e me fez uma proposta indecente. Um apartamento com o dobro do tamanho, a duas quadras dali, trancas seguras, sossego total. Ele ia arrumar um jeito de eu poder ficar lá por quanto tempo eu quisesse, sem problemas quanto ao aluguel. Eu só ia precisar dividir o apartamento por alguns meses com a atual moradora.
Eu nunca tinha morado com ninguém antes, então fiquei curioso para ver como isso poderia acontecer. Ok, fechei o negócio e me mudei no dia seguinte. Realmente, o apartamento era uma belezura. Mobília retrô, do jeito que eu gosto. Além do mais, vi que ia me dar bem com a moradora. D. Mitres era uma senhora, já surda, que morava no apê às custas dos netos ricaços (que aliás, nunca iam visitá-la). Uma ótima companhia.
Morreu pouco tempo depois e fiquei com o lugar só pra mim. O único problema foi ter que morar com o cadáver da velha por quase um mês. Eu podia ter esperado agosto para encontrar um lugar melhor, mas preferi me garantir e ficar por ali mesmo. O apartamento compensava. Além do mais, sabe como é: hoje em dia especulação imobiliária não está para brincadeira. Nem para um vazio como eu.
Então era isso: eu tinha esse amigo, que tinha essa queda por mim, a gente se agarrou, e agora eu só conseguia imaginar ele na minha cama, daquele jeito que eu gosto; mas o cara era praticamente casado, e ainda me propôs um ménage com a Ana, a mulher dele. Difícil? É porque você não está no meu lugar.
Depois daquele telefonema, ele ficou sem saber se devia insistir. E eu sem saber se devia aceitar. Eu nunca transei com mulher, quanto mais com uma mulher e um homem ao mesmo tempo. Tudo bem, parecia cômodo fazer isso com a Ana e o Gustavo, que eu conhecia e tal. Mas um casal que nunca fez isso, e que sempre teve um relacionamento 100% fechado, tinha TUDO para dar errado.
Entre eu e o Gustavo continuou aquele climinha. Teve o dia em que ele estava me ajudando a revisar o planejamento de aula, e assim, como não quer nada, colocou a mão firme sobre minha perna, por debaixo da mesa. Ele queria tanto quanto eu, mas estava com medo de pular a cerca.
Aí o negócio é que eu topei. Não dava para saber se ele estava fazendo isso porque queria uma espécie de infidelidade consentida. O que importa é que eu sentia tesão por ele e ponto.
Caprichei na produção e apareci no apartamento dele, do jeito que a gente combinou. O casal me recebeu bem, como sempre. Quando cheguei, já estavam bebendo vinho e me ofereceram uma taça. Sentamos na sala e ficamos conversando, bebendo, e comendo uns belisquetes que eles tinham preparado.
Até então, nada diferente do que costumavam ser minhas visitas ao casal. Só que dessa vez, Gustavo estava bem à vontade. Começou a falar comigo cheio daquelas insinuações que antes só usava quando a mulher não estava por perto. Ao mesmo tempo, passava a mão nas pernas da Ana, fazendo o vestido dela subir ligeiramente, como se eu não estivesse ali. E eu achando tudo aquilo muito divertido.
Cheguei junto, o vinho já tinha deixado minha cabeça bem leve. Sentei perto dos dois e a gente continuou a conversa em um nível mais íntimo. Trocamos alguns toques, meus dedos passearam pelas pernas da Ana, como se eu só quisesse arrumar o vestido que o outro subiu. Gustavo acariciava minha nuca, e foi assim que me puxou para o beijo. Logo tinha mais uma língua ali no meio, e opa. Vou te contar que foi meio estranho. São duas texturas diferentes, dois ritmos diferentes. Uma mais afobada, outra se movendo mais devagar, querendo descobrir, entender, aproveitar. Cada uma brigando por um espacinho na boca do outro. Uma loucura, mas logo você acostuma e curte.
Deixei que eles continuassem a se beijar e fui explorar o Gustavo. Beijava e mordia o pescoço, não precisava nem me preocupar em não deixar vestígios do crime. Ele passava a mão por trás da minha cintura, e não demorou muito para vir encher a mão com os meus seios. Senti que Ana começou a ficar um pouco incomodada com toda aquela empolgação para cima de mim, e antes que o Gustavo se desfizesse do meu decote, peguei a mão dele e impedi que avançasse, dando umas mordidinhas carinhosas.
Trouxe Ana para perto de mim, talvez assim ela ficasse mais à vontade. Olhei bem fundo nos olhos dela e a beijei. A sensação de ser um beijo entre amigas passou rapidinho. Apesar de ser a primeira vez que eu ficava com uma mulher, senti que a gente estava bem entrosada. Quem fez as honras de colocar meus seios pra fora foi ela, tocando com a ponta dos dedos, delicadamente, de um jeito que a afobação do Gustavo não ia permitir. Tirei o vestido dela, e ao vê-la ali só de calcinha, não sabia muito bem por onde começar. Mas pelo jeito que ela reagia aos meus beijos e lambidas, eu parecia estar acertando. Ah, e o Gustavo, que nessa hora já tinha sido deixado totalmente de lado, nem estava achando ruim não.
Ela resolveu não deixá-lo sozinho nas carícias. Eu estava adorando ver, mas o que eu queria mesmo era provar. Fiquei de joelhos, tirei a calça dele e me debrucei. Ana passou os dedos entre meus cabelos, ajeitando-os para trás, porque ela queria ver direitinho eu chupando o namorado dela. O movimento dos dois continuou um tempinho lá em cima, até que ela resolveu descer e me ajudar. Nossas línguas passavam por ele de cima a baixo, e vez ou outra se encontravam. No mesmo estilo do beijo a três, Ana e eu começamos a nos beijar, enquanto ele esfregava a ponta no meio daquela confusão de línguas. Ele já estava ficando louco. Deixei ela continuar o trabalho e fui buscar a língua dele.
Gustavo me queria toda nua. Tirou minha roupa e começou a me masturbar. Não parou nem quando Ana sentou em cima dele e começou a rebolar. Depois ela cedeu a vez e ficou só observando ele me comer.
Ménage tem uma logística meio complicada, afinal de contas, o cara tem só um pau. Por outro lado, não faltam mãos e bocas para o resto. E quando você está lá, no meio de tantas possibilidades, quer experimentar tudo, ver todas as posições e testar todas as combinações; revezar é o menor dos problemas. Era tanto vai e vem, que Gustavo não aguentou mais segurar e gozou. Isso foi na vez da Ana, que logo veio para mim.
Ela estava se revelando, viu. Pudemos ficar nos curtindo, respeitando nosso tempo e descobrindo uma a outra. Gustavo aparecia com suas carícias, mas foi o toque dela que chegou onde interessava. Ana me fez gozar de um jeito que estremeci toda. E não paramos. Em seguida foi a vez dela, e pelo sorriso iluminado que ela me deu junto com o orgasmo, eu soube que poderia fazer isso a vida toda.
Ainda chegamos a descobrir outras formas de fazer a outra gozar, antes do Gustavo ficar pronto de novo e chegar no ápice da festa. A gente estava totalmente embriagada, pegando fogo, e ele nos explorou da forma que bem entendia. Metendo com força mesmo.
Foi quando resolvi fazer uma coisa que nunca achei que faria. Abri as pernas da Ana e comecei a chupar, primeiro com carinho e meio insegura. Depois lembrei do jeito que o Carlos fazia que me deixava louca e resolvi experimentar. Também funcionou com ela. Enquanto isso, o Gustavo veio por trás, aproveitando que eu estava de quatro. Deve ter sido uma cena linda. Ele transando comigo e assistindo eu chupar a mulher dele. O casal conseguia olhar um para o rosto do outro, da posição que estava.
(Como vou explicar? Ah, imagina aí.)
Ele gozou pela segunda vez, agarrado à minha cintura. Ah, e o carinho que a Ana estava fazendo na minha cabeça estava tão gostoso que ainda me demorei um pouquinho mais. Ele despencou do lado da mulher e os dois se abraçaram, satisfeitos. Ele buscou meu corpo e me abraçou também. Mas eu estava me sentindo extremamente desconfortável com isso e logo me levantei, dando um beijo na testa dele. Sabe, aquele momento era dos dois.
(Gostei bastante. Apesar de ter sido uma delícia, foi bem, BEM diferente do que já vi em filmes pornôs. Quando a gente vê, acha que é só aquela putaria mesmo. Mas a história muda quando a gente está fazendo de verdade. São pessoas, e como tudo que envolve pessoas, é complexo. Eu tive foi sorte de ter feito com eles. A coisa fluiu bem, e não sei como seria se tivesse sido com outro casal. Ou se a mulher que fizesse parte do casal fosse eu. É, seria bem diferente. Por isso, saí do apartamento do casal aquela noite com uma estranha, súbita e enorme admiração pela Ana.)
É complicado levar tudo numa boa, como se nada tivesse acontecido, depois de uma transa a três. Os sinais e insinuações do Gustavo continuaram lá, mas com um carinho diferente. Dava a impressão de que ele me incorporaria ao relacionamento se ele pudesse. Ele parou de me dar carona com tanta frequência, disse que a Ana ficava um pouco enciumada. Certa ela. Porque agora ele me desejava como nunca.
Teve o dia em que ela apareceu lá em casa. Eu tinha tirado o dia para colocar em dia as alterações no projeto final, então não estava esperando MESMO nenhuma visita. Estava até usando shorts de pijama. Fiquei surpresa, pedi desculpas pela bagunça. Mas eu estava pensando mesmo é que ia dar merda. “Pronto, veio me dizer para ficar longe do Gustavo, não quer que a gente pense que por causa daquela transa a gente é alguma coisa, etc.” Vai vendo.
Estava na bancada preparando o café enquanto a gente conversava. Ela me falou do trabalho dela, perguntou também como eu estava indo de projeto final. Toda aquela conversa que a gente sabe que era só para dar umas voltas básicas. Servi o café e ela ficou reticente, olhando para a xícara. Deu um gole e resolveu ir direto ao ponto. “Você ainda pensa naquele dia, Elisa?” Tive que ser honesta, né. Porque pensava sim. Então ela me disse que foi a primeira vez que transou com uma mulher. Disse que não sabia se eu pensava o mesmo, ou se tinha conhecido melhores, mas que achou muito bom.
Eu só pude rir. “Linda, essa também foi a minha primeira vez”, admiti. Ela pareceu respirar aliviada e riu também. Trocamos uma ideia sobre o que tinha sido a experiência para cada uma. Lembrar daquilo tudo me deixou morrendo de tesão. Então ela me vem com essa: “Seria bom repetir a dose”. Eu nem disse nada. Só a beijei com muito gosto.
Mais uma vez a teoria da infidelidade deu o ar de sua graça. Só que dessa vez, de uma forma que eu nunca imaginei que pudesse acontecer. Já deitadas no sofá, entre beijos, Ana disse que não passava pela cabeça do Gustavo que ela estava ali.
Tudo bem, ele não ia saber mesmo.



