AlineValek

Recado para as inimigas

06 de June 2013 por Valek

inimigas

Ainda me lembro quem me ensinou que eu não poderia confiar em outras mulheres. Ele me disse, cochichando no ouvido, que mulher é tudo falsa. Que minhas amigas eram invejosas, interesseiras, que a qualquer momento iriam me trair.

Ele me ensinou que outras mulheres deveriam ser vistas sempre como uma ameaça. Que elas iriam roubar meu namorado. Que iriam chamar mais atenção do que eu. Então ele me deu um tapinha de aprovação quando eu chamei aquela garota de vagabunda. “Boa menina”, ele disse.

Ele me ensinou que todas as merdas que eu passava por ser mulher eram culpa dessas mulheres que não se dão valor. Que por culpa delas, as mulheres – inclusive eu, tão boa e comportada – seriam para sempre vistas como objetos sexuais.

Ele sorriu pra mim quando eu me impedi de ter amigas, por achar que não seriam verdadeiras comigo. Ele sorriu pra mim quando eu disse que não gostava de conversa de mulher porque eram todas fúteis. Ele quase gozou de felicidade quando odiei aquela garota sem motivo algum.

Ele, o patriarcado, me ensinou tudo isso, e eu aprendi bem.

Então algo aconteceu. E o patriarcado arrancou os cabelos de desespero quando eu percebi que eu não precisava sentir raiva de outras mulheres. Ele esperneou quando eu parei de tratar outras mulheres como minhas inimigas. Ele gritou de ódio e até babou, porque se eu parasse de brigar com as outras mulheres, ia poder lutar CONTRA ELE.

***

O patriarcado é um velho autoritário que não gosta de mulheres. Quer dizer, até gosta, porque o patriarcado faz questão de ser macho e extremamente hétero. Mas só gosta de mulher em posições que ele consegue dominar facilmente: cuidando da casa, dos filhos, em empregos mal remunerados, em papéis sexualizados e estereotipados na televisão, fora da política.

O patriarcado, como o bom exemplo de velho amargurado que é, só pensa em sabotar as mulheres, deixá-las sempre na pior. Sua existência gira em torno desse único e mesquinho propósito de vida. Fazer mulheres acreditarem que são todas inimigas é uma de suas táticas. Fazer elas se sentirem sempre insatisfeitas com seus corpos é outra. Mas ele tem outros mil e um truques na manga para garantir que mulheres continuem sendo desprezadas.

O patriarcado até se acha poderoso e inabalável, mas se uma mulher começa a questioná-lo, ele só falta mijar nas calças. Ele se treme todo. Por isso, ele precisa de pessoas que o defendam, porque nem isso ele é capaz de fazer sozinho. Se alguma mulher ousa levantar a voz para questioná-lo, logo aparece um de seus defensores para dizer que ela devia estar lavando a louça em vez de estar falando qualquer coisa.

O patriarcado é um velho parasita que grudou no nosso mundo e se alimenta da tragédia das mulheres. Ele se alimenta de canudinho de cada agressão, de cada mulher sofrendo calada, de cada mulher que morre pelas mãos do ex, de cada lei que tenta negar às mulheres autonomia e o direito ao próprio corpo. Ele lambe os beiços. Tente tirar isso dele e você vai ver como o velhote fica furioso. Porque se o patriarcado não puder nos explorar, ele definha. Seca até os ossos.

O patriarcado é um velho que só tem uma coisa maior do que seu ódio às mulheres: medo de acabar. Mas ele vai. Ele já começou a acabar. E acaba um pouquinho mais toda vez que uma mulher percebe que suas “inimigas” não existem. Que é só uma cortina de fumaça.

É aí que o patriarcado começa a se quebrar, pedacinho por pedacinho: quando mandamos um recado para as nossas “inimigas” e não é ódio; mas um “estamos juntas”. Porque só juntas podemos combatê-lo. Só juntas sobreviveremos.

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Das vergonhas que passo na vida

03 de June 2013 por Valek

festa

Quando chega junho, lembro imediatamente do quanto eu odiava festa junina. Hoje não. Cago para as danças, para os santos, para as roupas xadrezes, mas aproveito a época para encher a barriga do melhor tipo de comida que eu poderia desejar. Especialmente pamonha. Mas já odiei festa junina a ponto de querer que o mês de junho simplesmente desaparecesse. Traumas passados.

Foi na primeira série (que hoje em dia não é mais primeira série, é segundo ano ou algo assim) que eu me meti na roubada de participar da quadrilha da escola. Fui metida, na verdade, porque quando você está na primeira série você não tem escolha. Eu estava até empolgada, ensaiava quase todo dia no horário de aula e ia ganhar uma roupa nova para me apresentar.

O dia da apresentação. Tudo ensaiadinho, eu com minha sainha rodada de caipira, meus pais na plateia. Nada podia dar errado. Só que deu. A música já estava para começar quando a professora (Tia Andrea, ainda lembro) trouxe pelo braço um menino que eu nunca tinha visto na vida para ser meu par. Ela explicou que o meu par, com quem eu tinha ensaiado todos esses dias, não viria e eu teria que dançar com aquele menino. Ok. Nada de mais. I can handle it.

Fui dar as mãozinhas para o menino-substituto, para começarmos a dançar, e ele simplesmente se recusou. Puxou as mãos dele, ficou emburrado e tentou dizer para a Tia: “eu não quero dançar com ela! Ela não é meu par!” Então virou as costas para mim e simplesmente foi embora. Foi. Embora. A música já estava rolando e eu estava sozinha. Sem par não dava para dançar. Eu estava fodida.

Ainda hoje não acredito no quanto eu, com aquela idade, consegui raciocinar e agir tão rápido. Mais que depressa, peguei (ou melhor, roubei) o menino do lado, tomei-o pela mão e voltei a dançar COMO SE NADA TIVESSE ACONTECIDO. A minha vizinha da quadrilha, a que ficou sem par, ficou parada sem acreditar que em um momento ela estava fazendo tudo certinho, como o ensaiado, e no outro estava sozinha. Ninguém avisou para ela que a quadrilha era um faroeste sem lei, um jogo sem regras, uma terra de ninguém. Pode ter certeza que ali, naquela fração de segundos, aquela garota teve um vislumbre de que o mundo, meu amor, é uma selva cheia de animais selvagens. Abriu o berreiro.

A Tia, que ficou tão sem reação quanto todos ali (inclusive o menino que roubei, cuja única reação possível foi dançar comigo como se estivesse no automático) puxou a menina sem par, aos prantos, para ver se conseguia arrumar alguém para ela dançar. Nem sei se conseguiu, apenas fiquei grata por tê-la tirado da minha vista.

O forró acabou, vieram as palmas. Voltei correndo, toda orgulhosa, claro, para onde meus pais assistiam à apresentação. Esperava os parabéns, porque tinha certeza de que tinha dançado direitinho, os ensaios me levaram à perfeição. Mas fui recebida com risadas. Não entendi. “Como é que você faz um negócio desses, menina? Roubar o par da coleguinha?” Eu não sabia nem como me justificar. Só então percebi o quanto eu tinha sido ridícula e fiquei com tanta vergonha que só queria afundar minha cara em um pedação de algodão doce.

***

Sou uma envergonhada. Faço e digo cada coisa que, às vezes, no segundo seguinte, já me mata de vergonha. Depois de horas, dias, semanas, continuo pensando naquele momento constrangedor e tenho vontade de me desintegrar, de chorar agachada no chão, de arrancar um pedaço do meu braço a mordidas, de bater a cabeça na parede de tanta vergonha. “Viu? Quem mandou não ficar calada? Falou merda!”

Tenho vergonha até de dizer que tenho tanta vergonha. Mas a minha vida é uma sucessão de gafes e constrangimentos que tento administrar da melhor forma possível para seguir adiante para a próxima vergonha que vou passar.

Toda vez que eu passo por uma vergonha retumbante, eu me lembro do episódio da festa junina. Apenas para sentir mais vergonha, como se, atingindo um nível máximo no termômetro da vergonha, ela fosse passar automaticamente. Apenas para eu sentir que sempre fui um desastre e não seria ali, naquela entrevista, naquele jantar ou naquela saída de fim de semana que seria diferente.

Mas o negócio é que eu me lembro do episódio da festa junina. E aí percebo que as coisas mais incríveis que já fiz (como roubar o menino da coleguinha) foi quando eu não estava me preocupando com a tal vergonha. Porque passar vergonha é exatamente isso: algo que passa.

 

Imagem via Hypeness
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Um verdadeiro changeman

29 de May 2013 por Valek

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Você conhece bem a história: um homem abre a porta para uma mulher e faz de tudo para que ela não precise mover uma palha sequer. Puxa a cadeira, acende o cigarro dela, paga a conta, não deixa ela andar pelo lado externo da calçada e há até os que fazem questão de fazer a declaração do imposto de renda para a moçoila!

Esse homem fica bastante chateado se disserem que essa gentileza seletiva (que ele dedica apenas a mulheres) está fora de moda. Esse homem acha que, se não for possível ser um gentleman nesse mundo, então só resta a ele a opção de ser um truculento sem educação que cospe no chão, peida na mesa de jantar e está pouco se importando se aquela pessoa carregando um monte de sacolas vai conseguir abrir a porta sozinha.

Há muito tempo, conheci um cara muito simpático que me ajudou a subir com as compras até meu apartamento. Impressionada com a disposição do sujeito, agradeci:

– Nossa, você é um gentleman.

– Não. Eu sou um changeman! – ele respondeu.

Achei que ele estava apenas tentando fazer um trocadilho ruim, até que ele fez a coreografia de transformação na minha frente. Naquele momento eu descobriria a diferença entre um gentleman e um changeman.

Dá o play e vem comigo. 

Um changeman não abre portas para uma dama indefesa. Ele abre para quem quer que esteja vindo atrás dele, seja uma senhora, seja o porteiro, seja uma criança de dois anos, seja um lutador de vale-tudo. Um changeman só não abre portas para monstros alienígenas gigantes.

Um changeman não é necessariamente um homem – estão aí a Change Phoenix e a Change Mermaid para mostrar que mulher também pode ser changeman e desempenhar feitos heróicos, como ceder lugar para os mais velhos no ônibus ou segurar a mochila de alguém que está em pé no corredor do coletivo.

Um changeman não estende seu casaco numa poça d’água para a sua dama passar, porque isso é idiota. Além do mais, quem ainda faz isso, meu deus?

"tá pesado isso, né? pode deixar que a gente ajuda a carregar"

“tá pesado isso, né? pode deixar que a gente ajuda a carregar”

Um changeman também não faz questão de pagar a conta do restaurante se a sua companheira também pode pagar. E, mesmo quando resolve pagar a conta, um changeman jamais pensa que a outra pessoa lhe deve qualquer coisa, muito menos sexo, por esse seu ato descompromissado de gentileza. Um changeman nunca espera algo em troca das coisas que faz pelas pessoas.

Um changeman lava a louça e não espera uma chuva de confetes por ter feito uma tarefa tão básica quanto limpar a própria bunda. Um changeman só espera os parabéns por salvar a humanidade destroçando um vilão maligno com sua bazuca; logo, lavar a louça não é nada demais para quem está acostumado a grandes feitos. Um changeman sabe que lavar a louça ou arrumar a casa não pode sequer ser considerada uma gentileza, é uma obrigação.

Aliás, um verdadeiro changeman vê cada ato de gentileza como uma obrigação. Ser gentil e ter empatia é o mínimo para qualquer ser humano decente. Para um integrante do Esquadrão Relâmpago, então, é indispensável. Um changeman sabe que não é ser gentil com todos que o torna especial; mas sim ter super poderes para combater o Senhor Bazoo. Ser gentil é o normal, o básico.

Um changeman não vê gênero na hora de ser gentil. Ele é gentil e pronto, pois isso faz parte de sua missão como defensor da Terra. Ao contrário de um gentleman, que só pode ser homem e só faz gentilezas com mulheres, um changeman pode ser homem ou mulher e não usa a gentileza para ser condescendente com ninguém. É por isso que um changeman tem um robô gigante e um gentleman não.

Simples, né?

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Vivendo a vida perigosamente

22 de May 2013 por Valek

perigosa

Às vezes nem os mais sangrentos jogos de aventura ou os mais explosivos filmes de ação conseguem satisfazer a sua busca por adrenalina. Se você já não vê mais graça em explodir miolos de zumbis ou resolver os mais perversos enigmas para salvar o mundo ou a própria pele de um vilão demoníaco, tenho uma experiência cheia de desafios para te apresentar.

Neste jogo, sair à noite desacompanhado em uma simples caminhada se torna uma experiência mais assustadora do que clipe de terror do Michael Jackson. O medo de ser assaltado, sequestrado ou levar um tiro fica pequeno perto da ameaça de estupro que ronda cada esquina. E nem precisa ser noite para uma simples caminhada se transformar em uma aventura digna de Indiana Jones: a qualquer hora do dia, andar na rua significa desviar de obstáculos, como cantadas perversas, abordagens invasivas e avaliações cretinas sobre o seu corpo, feitas em alto e bom som para todo mundo ouvir e acabar com o seu dia, detonando a sua barra de energia a cada “quero te chupar todinha”.

Experimente o desafio de sair com vida de um relacionamento abusivo, em um sistema programado para você ser considerado posse de outro personagem. Em vez de ser premiado por tomar a iniciativa e fazer as próprias escolhas, você corre o risco de perder a vida se essa iniciativa for romper com um namorado ou um marido possessivo. Para deixar tudo mais emocionante, nem quando você consegue se livrar desse desafio sua vida está a salvo, pois seu algoz vai estar à solta, só esperando o momento certo de esfaquear você. Nada mais eletrizante do que não saber quando seu marido vai te descer a porrada de novo ou quando seu ex vai te encontrar e atirar em você. Isso, é claro, se você conseguir passar da fase “medo de denunciar o agressor porque a casa é dele e não consigo me sustentar sozinha já que precisei abrir mão de tudo para cuidar dos filhos que tive com ele”.

No final de cada escolha que você fizer, desde o tamanho da roupa que você escolhe para sair, até a profissão ou se vai ter filhos ou não, prepare-se para enfrentar o chefão do julgamento da sociedade. Seus golpes tem o poder de deixar você atordoado e sem saber como prosseguir no jogo, já que você terá a sensação de que, não importa o que faça, estará sempre errado: se você envelhece, é trocado por uma mulher mais nova e fica com a reputação manchada; se você casa com um homem mais velho, fica com a reputação manchada porque só pode ser uma vadia interesseira; se você é feia, vai precisar fazer de tudo para ficar bonita; se é bonita, só pode ser uma mulher superficial, burra e interesseira. Não basta esse quebra-cabeças ser impossível de ser resolvido, ele ainda vai devorar você no final.

Você vai precisar do dobro do esforço para provar que você é habilidoso ou competente em alguma área e que não chegou até ali porque conseguiu algum “cheat” transando com o chefe. Você vai ter que levar uma vida com as mesmas dificuldades e angústias de um personagem normal, mas com o “plus” de tentar lidar com o bombardeio de mensagens e imagens dizendo o quanto o seu corpo é inadequado, como um Tetris de propagandas de “emagreça mais rápido”, “alise o seu cabelo crespo” e “clareie suas axilas” que se acumulam na sua frente até obstruir completamente sua visão. Você vai ter que enfrentar o desafio de uma gravidez, mesmo que isso custe a sua vida, só porque você nasceu e cresceu ouvindo que ser mãe é o propósito da vida de toda mulher, além de ter que ouvir todo tipo de pitaco sobre a sua gestação, como se o seu corpo fosse de domínio público.

E, enquanto você tenta se concentrar em superar todos esses desafios e sobreviver a tantos inimigos, como se já não fosse o suficiente, você ainda terá que ouvir, como trilha sonora ininterrupta, piadinhas sobre como mulheres só deveriam pilotar fogão, sobre como uma mulher feia deveria agradecer por ser estuprada, sobre falta de louça para lavar, ou sobre como uma mulher “vadia” pode ser comparada a uma fechadura que abre com qualquer chave. Tudo isso em looping. Uma centena de milhões de vezes. Até você ter quase certeza que já decorou todo o repertório (então aparece um novo absurdo para acabar com a sua concentração e suas forças). Este é um jogo apenas para quem tem nervos de aço.

A única coisa fácil desse jogo é chegar ao Game Over: seu jogo pode acabar com você morrendo pelas mãos do seu parceiro ou de seu ex; na tentativa de aborto clandestino; porque alguém simplesmente não aceitou que você pudesse ser mulher mesmo tendo nascido do sexo masculino; porque você não sobreviveu ao distúrbio alimentar que desenvolveu por não aceitar o próprio corpo; por você ser da cor errada e estar mais vulnerável à violência, abuso e descaso; tudo isso sem poder contar com vidas extras. É só uma e boa sorte.

Para passar por essas e outras experiências arriscadíssimas, nem é preciso dispor de um console, controles, cd’s ou cartuchos: basta ser mulher. É aí que se descobre porque as coisas são tão absurdamente difíceis, porque não há vidas extras e porque não é possível desligar o console ou trocar o jogo para algo mais recreativo e menos apavorante, como um PacMan. Para você, um privilegiado que pertence ao gênero “certo”, talvez a ideia de passar pelos desafios aqui descritos possa mesmo não passar de um jogo; se não um com interface em 3D, ao menos um jogo de imaginação. Mas, para mais da metade da população mundial, essas dificuldades são reais.

Porque, pelo menos enquanto as coisas continuarem como estão, estaremos condenadas a viver perigosamente, em um mundo que, além de não ser seguro, como o calabouço cheio de armadilhas das fases mais cascudas do Super Mario, não foi feito para a gente ganhar. Nunca.

Porque ser mulher é jogar a vida no hard.

***

Aproveitem e leiam esse texto (em inglês): Straight, White, Male: the lowest difficult setting there is, de John Scalzi.

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Nós somos como a chuva que passa

15 de May 2013 por Valek

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Não sei se são os longos períodos de seca que nos fazem esquecer, mas cada vez que chove parece que é a primeira vez. As pessoas reclamam das ruas alagadas, lamentam não poderem sair ao ar livre, ficam abismadas com os desastres e acidentes causados pela chuva, ficam apreensivas com a previsão do tempo para o fim de semana e veem com alívio os vendedores de guarda-chuva nas calçadas.

Cada chuva ganha a importância de um evento único, vira assunto com desconhecidos, vira pauta no noticiário da tevê, vira motivo de preocupação para os governantes.

Quando para de chover e as ruas secam, é como se nunca tivesse chovido. É vida que segue.

Não estava chovendo quando cheguei à conclusão de que, no grande esquema das coisas, a nossa própria existência é essa chuva passageira, com a (óbvia) diferença de que, depois que para, ela não volta a chover. Enquanto existimos, damos grande importância a cada pequeneza que envolve a nossa existência, seguimos as regras como se o mundo dependesse disso e brigamos por coisas que nem vão mais existir daqui a dez anos. Estamos aqui criando, falando coisas, fazendo filhos, fazendo guerras, provocando desastres e mudando a geografia do planeta como uma tormenta que em breve vai passar. Para o universo, vai ser como um chuvisco de verão, um pingo inconveniente. Mas vai passar.

***

ÁGUA-NO-ESPAÇO

por falar em chuva: nuvem de vapor no espaço com 140 trilhões vezes mais água que a Terra.

Quando eu era nova demais para saber das coisas e ainda não tinha aprendido que temos coração, intestino, cérebro e veias, eu jurava que, por dentro, o corpo humano era cheio de planetas. Que se alguém me abrisse, veria constelações e planetas boiando em um infinito negro. Eu sei, uma bobinha. Mas eu não deixava de ter razão: somos feitos da mesma matéria que se espalhou pelo universo formando planetas, estrelas, vida, tudo o que conhecemos e outras coisas que ainda nem chegamos perto de imaginar. Então sim, o universo está dentro de nós.

Sabendo disso, é impossível ignorar as dimensões cósmicas do negócio em que a gente se meteu. Que o que parece grande e importante para a gente não é nada perto das grandezas com as quais o universo está acostumado a lidar. Que a Terra é um troço insignificante na escala do tempo e do espaço e que não pode nem se considerar especial por abrigar uma forma de vida senciente que inventou a internet (especialmente por ter inventado a internet), porque só a gente acha a humanidade digna de nota, até onde se tem notícia.

Sabendo que somos feitos da mesma matéria do universo e sabendo que até o sol vai se apagar um dia, é impossível ignorar que também deixaremos de existir, não apenas individualmente, mas como espécie ou como marco do que quer que seja. E que o nosso fim, assim como o fato de estarmos fincados nesse planeta, respirando e usando a internet, não é nem minimamente relevante.

Aí nos apegamos a tudo isso aqui com uma imensa vontade, só porque é difícil aceitar o quanto somos desimportantes. Mas a ideia de sermos efêmeros não deveria ser tão desesperadora quanto saber que estamos lançados numa imensidão insondável e não temos nem onde nos segurar. A boa notícia é justamente que isso vai passar.

“Considerando o tempo que passamos existindo e o tempo que passamos não-existindo, nosso estado natural é a não existência. Existir seria apenas um breve soluço, um glitch, um bug, dentro de uma perfeita, plena e eterna condição de não-existir.”

***

Nesse momento, eu estava tentando prestar atenção em qualquer coisa que não fosse a minha imensa azia. Na mesa do bar, uns amigos jogavam conversa fora – já que eu sou sempre a pessoa menos falante da mesa – e eu só pensando na grandiosidade do universo, em como aquele momento era insignificante e que, em breve, nem eles, nem o garçom nem o pedaço de chão onde estava a minha cadeira iriam existir mais.

Mas, para uma existência assustadoramente curta e passageira, a minha azia até que estava demorando a passar.

Quanto mais eu tentava pensar em outra coisa, maior ficava a minha azia. De repente, ela era a maior coisa no bar, na cidade, no planeta. A azia ficou maior que o mundo, maior do que eu. Ficou do tamanho do universo.

Mas o final da história você já sabe. A azia passou, fui para casa, dormi, acordei para um novo dia. Porque tudo passa: a chuva, a dor, o cosmos. Inclusive – e principalmente – nós.

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[Seção de Cartas] O mal do século

08 de May 2013 por Valek

monkey

Carta que recebi do leitor Pato Donald:

onde estão as mensagens pessoais no mundo das indiretas?

por que todo mundo manda bilhetinhos, torpedos e sms, mas muito raramente recebemos uma carta, uma folha inteira, um parágrafo que a gente tem vontade de tatuar, um poema que a gente decora e guarda pra sempre, uma canção?

a nossa geração é a que mais escreve, e a que menos toca o outro?

 

Querido leitor,

Seu questionamento me lembrou de um estudo que li recentemente. Pesquisadores da Universidade de Munnford descobriram que há uma relação direta entre o impulso de se comunicar e a qualidade dessa comunicação.

Talvez eles tenham feito o estudo movidos por essa sua angústia. Mas é só um palpite.

A pesquisa foi feita aproveitando uma daquelas cabines de programa de auditório, em que a pessoa é isolada acusticamente e precisa responder, sem ouvir, se trocaria o prêmio de um milhão de reais por uma chupeta usada, sabe? Mas, na pesquisa, essa cabine foi colocada em meio a um debate e apresentava um isolamento acústico ao contrário, em que a pessoa lá dentro podia ouvir tudo que era dito durante o debate, mas ninguém no ambiente conseguia ouvir o que ela dizia, a não ser quando a luz da sirene era acesa. Só nesse momento essa pessoa podia dizer a sua opinião e ser ouvida pelos demais.

Bem, os pesquisadores acreditavam que, exposta a longas horas de opiniões contrárias ou a favor de determinado assunto, a pessoa dentro da cabine teria tempo para ponderar melhor e, quando fosse a sua vez de ser ouvida, ela tivesse uma opinião bem articulada. Que nada. Estavam enganados: assim que a luz acendia, indicando que era sua vez de falar, a pessoa ficava tão excitada de expor sua opinião para toda aquela gente que dizia qualquer bobagem.

Fizeram o teste com cinquenta e três pessoas e um chimpanzé e o resultado foi sempre o mesmo. Na segunda fase do teste, os pesquisadores aumentaram as vezes em que a luz da sirene acendia durante o debate, ou seja, aumentaram as chances daquela cobaia se expressar, mas a qualidade de sua opinião só fazia piorar. Alguns chegavam até a babar e grunhir enquanto expressavam sua posição sobre determinado tema em meio ao calor da discussão. O poder de ser ouvido parece mínimo, mas foi o suficiente para deixar essas pessoas ensandecidas.

A conclusão a que chegaram é que quanto mais oportunidade é dada para dar uma opinião, menos elaborada será essa opinião.

Agora imagine que a internet é um lugar cheio dessas luzinhas de sirene acesas. Tem tanto espaço para falar alguma coisa, que pouco importa o que seja essa coisa a ser dita. Mensagens curtas, superficiais e pouco articuladas acabam sendo a saída para atender a uma demanda ampla e inesgotável por opinião nesse ambiente controlado, onde quem quer que esteja dentro da cabine tem a possibilidade de ser ouvido por um número considerável de pessoas — que pode não ser grande, mas já é maior do que se estivesse escrevendo uma carta que apenas uma pessoa leria.

Esse é o contexto em que surge o mal do século: os comentaristas de portal. Eles procuram desesperadamente por uma sirene acesa em meio à vastidão da internet, onde possam despejar seus comentários e exercer o seu poder de serem ouvidos, por mínimo que seja. Não que eles sempre tenham algo a acrescentar, mas veja como é brilhante a luz da sirene acesa! Eu tenho que falar alguma coisa!

Não que eu ache que a internet acabou com as cartas (ou e-mails, comentários, mensagens, tanto faz) bem escritas, dessas que dão vontade de guardar e fazem pensar por um bom tempo. É improvável que os comentaristas de portais fossem o tipo de pessoa que escrevesse canções ou cartas antes de descobrirem as irresistíveis caixas de comentários. Eu, pelo menos, não faria questão de receber uma carta de um desses (por mais que eu goste de receber cartas).

As pessoas que escrevem coisas que realmente tocam os outros continuam por aí, embora soterradas por uma avalanche de pessoas ensandecidas que escrevem qualquer coisa como se o direito de falar fosse ser arrancada delas a qualquer momento (o que, pensando bem, não é de todo impossível). Essas pessoas talvez não sejam vistas com tanta frequência porque demora e dá trabalho escrever um parágrafo inteiro, uma página ou duas, bem articuladas, que dê vontade de tatuar. Mas eu quero acreditar que existe, querido leitor. Se não, não teria tatuado a sua cartinha. Na coxa direita. Em letra de forma.

 

***


Esse texto faz parte da Seção de Cartas do blog, em que um leitor me manda uma opinião e eu respondo com ficção. Participe também, mandando a sua cartinha que terei o maior prazer de publicar com uma resposta completamente inventada. É de graça e o anonimato será preservado. Escreva sua carta aqui.

Ilustração daqui.
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A reinvenção da Bíblia

17 de April 2013 por Valek

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A vida do escritor freelancer é duríssima. Suas contas vencem no mesmo dia de todo mês e o valor nunca faz o favor de diminuir, embora seus trabalhos escasseiem com facilidade. É em situações desesperadoras desse quilate que a criatividade se desenvolve, de forma que o escritor tem uma ideia que, além da óbvia e gritante questão da sobrevivência, pode lhe render uma boa fortuna.

Então peço que o leitor e a leitora desde já perdoem este escritor que prepara com tanto fervor uma ideia, para dizer o mínimo, calhorda. Algumas vezes, a moral pode ser um empecilho para a sobrevivência ou para o lucro em um mundo como esse, como vocês bem poderão ver a seguir.

O escritor desenvolve a sua ideia e até monta tudo bonitinho em PPT, para apresentar a sua proposta a clientes em potencial. Ele faz várias ligações para os seus contatos e consegue o interesse das pessoas para quem imaginou vender sua ideia, marcando uma reunião com todos no mesmo dia, horário e local — o que não é nada fácil, já que são todos figurões, gente da mais alta casta e influência. Mas faz parte do plano: sua ideia só vale os milhões que deseja se ele tratar com tão insignes clientes.

O dia chega e o escritor tem, reunidos em uma sala de reuniões, os representantes das igrejas cristãs. Entre eles, o papa, bispos católicos, pastores líderes das maiores igrejas e os bispos evangélicos mais famosos da TV.

– Vou ser bem direto com os senhores, já que sou escritor e não publicitário – começa o escritor – A minha proposta é um grande projeto que pode ser do interesse do cristianismo. O que quero propor é reescrever a Bíblia.

– Cê tá de brincadeira? – um dos bispos diz surpreso, enquanto a sala é tomada por cochichos.

– De jeito nenhum, Sua Santidade. Alteza. Excelência. Eminência. Falo sério e vou explicar porque minha proposta é ousada, mas extremamente necessária ao cristianismo!

Ele avança os slides e para numa tela com os dizeres “Deus é amor”.

– Vocês trabalham todos os dias tentando convencer a humanidade de que Deus é amor, certo? – alguns presentes na sala balançam a cabeça afirmativamente – Mas fica difícil fazer isso quando você tem um livro contando como Deus destruiu cidades, promoveu genocídios, enganou pessoas, criou pragas e outras coisinhas que nem os ditadores mais insanos sonhariam em fazer. Se você espremer o Velho Testamento sai mais sangue do que jornal policial sensacionalista. Vocês podem até dizer que contornaram a situação pregando que o Novo Testamento rompia com essas atrocidades por mostrar uma nova aliança de Deus com o povo, mas, cá entre nós? O Novo Testamento também está cheio de trechos problemáticos. Paulo mesmo falou cada bobagem que só Jesus na causa. Sem falar nas contradições mais loucas, como por exemplo, uma hora a Bíblia diz que as leis do Velho Testamento para sempre serão válidas (inclusive em livros do Novo Testamento) e depois diz que não. Tem horas que diz que tudo bem amaldiçoar alguém, tem horas que diz que não pode. Tem horas que diz que Deus aprova a escravidão, tem horas que diz que não, de jeito nenhum. – o escritor faz uma lista interminável de contradições correr na tela – Isso é o que acontece quando um livro é escrito por centenas de pessoas, em que cada um escreve o que quer. O que não vai acontecer se eu reescrever a Bíblia, é claro.

– Esses errinhos dão uma dor de cabeça, você não imagina – diz um pastor, fazendo outros líderes cristãos concordarem com ele – A maioria dos nossos fieis nem percebe, porque só leem os trechos que a gente manda ler… Mas os ateus, ah, os ateus… Esses adoram encher o saco e nos desmoralizar apontando as contradições da Bíblia.

– Malditos ateus – alguém gritou lá do fundo.

– Você pode resolver esse problema dos ateus? – diz o papa, como que subitamente acordando de uma soneca.

– Claro! – diz o escritor, satisfeito por estarem entrando no jogo dele – Vou escrever uma Bíblia à prova de ateus! Uma Bíblia que mostre apenas um deus amoroso, carismático, que não faça birra de criança, quem sabe até com um bom gosto musical, um corte de cabelo mais atual, mas enfim, um deus que seja misericordioso nas escrituras, não só nas palavras de vocês. E o melhor de tudo é que vocês poderão apresentar essa maravilha reeditada, com uma linguagem que não dá sono se você ler mais de três versículos, sem contradições grotescas e com diálogos inteligentes pela quantia módica de 300 milhões de obamas. Antes que vocês achem que é um valor absurdo, deixem que eu explique que esse foi o faturamento dos livros do Harry Potter, o que é um valor justo quando estamos falando da maior e mais importante obra escrita da humanidade!

– Muito legal e tal, mas a gente não pode simplesmente mudar algo que está aí há séculos – observa um dos bispos – Tudo bem que a Bíblia já foi editada algumas vezes, mas estamos falando de reescrevê-la…

– Não vejo problemas – disse um pastor-celebridade – Se eu consigo vender até DVD de sertanejo gospel, vender uma segunda edição da Bíblia vai ser moleza.

– É uma boa ideia, mas precisamos conversar melhor sobre isso – disse o papa – Marcamos uma reunião para o próximo mês. No mesmo dia, mesma hora e mesmo local. E então daremos a resposta final.

Para quem não tinha nada, isso já é alguma coisa. O escritor aceita e fica combinado que se encontrariam dali a um mês. Vamos acelerar um pouco o tempo e ir direto para o dia da reunião, em que os mesmos representantes das igrejas cristãs encontram-se na mesma sala de um mês atrás. O escritor está ansioso.

– Já temos uma resposta – começa um pastor – Decidimos que iremos contratar os seus serviços para reescrever a Bíblia.

– Mas com alguns ajustes, claro – diz um dos bispos.

– Sem problemas, já imaginei que vocês gostariam de dar uns toques para o Deus da Bíblia ficar ainda mais misericordioso – o escritor diz empolgado, já se armando de papel e caneta para fazer as anotações.

– Na verdade, é justamente esse o ajuste que a gente quer fazer – diz o papa – Sabe essa história de reescrever a Bíblia tirando as partes violentas? Pois é, na verdade a gente quer manter essas partes.

– Manter? – o escritor fica com cada músculo do rosto paralisado de confusão – Se é para ficar do mesmo jeito, por que eu iria reescrevê-la?

– Sabe como é, seu escritor, é que tirar essas partes meio que zoa o nosso esquema – diz um dos pastores – A gente usa a Bíblia justamente como apoio para argumentos mais difíceis da pessoa engolir. Não precisa ter uma Bíblia mostrando um Deus 100% amor, é só a gente falar umas duas ou três vezes no culto que os fieis entendem isso. Mas tem que estar escrito no papel que, se não pagar o dízimo ou praticar o adultério, algo horrível vai acontecer com a pessoa. Se não, com que moral a gente pode falar isso?

– Mas a gente amou a sua ideia, sério – um bispo faz questão de dizer, com um sorriso bem simpático – Queremos que você reescreva corrigindo todas essas pequenas contradições que racham a nossa cara de vergonha e arrume essas historinhas mal explicadas. Deixar a coisa toda mais amarradinha.

– Aí aproveita e deixa mais claro algumas coisas – interrompe outro pastor – A gente sente falta de Jesus falando umas poucas e boas contra os gays, sabe? Coloca uns versículos a mais no Velho Testamento contra essa prática nefasta do homossexualismo. Aliás, pode colocar uns capítulos inteiros. Ah, sabe a parte em que Jesus fica furioso quando tem um pessoal lucrando com atividades dentro do templo? Pode cortar. A gente também não gosta daquela parte “dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus” porque Deus não tem que ter limites, não é mesmo? Ainda mais agora com a gente investindo pesado na política, tô lançando mais uns três candidatos na próxima eleição.

– Se puder deixar Jesus menos revolucionário também seria bom – diz um bispo lá no fundo – Não acho bom dar ideia para as pessoas acharem que podem questionar e enfrentar os poderosos. Chega me coço todo de pensar nisso.

– Mas é bom manter a parte do “vinde a mim as criancinhas”, – outro bispo faz questão de ressaltar – quem sabe até dizer que tudo bem fazer algumas carícias, que Deus não vê problema nisso, algo do tipo.

– E é claro, serão duas versões: a protestante e a católica – diz um pastor-celebridade – Me dá nos nervos quando misturam evangélicos e católicos. Parece que não respeitam o nosso direito de nos odiarmos mutuamente e de não querer que nos confundam com eles!

– Em uma coisa concordamos! – diz o papa amigavelmente.

– Pois bem, então vou ter que fazer alguns ajustes no orçamento, já que seriam duas versões… – começa o escritor, até que é interrompido por outro pastor:

– Já íamos chegar nesse ponto! Não acho justo cobrar um valor tão extorsivo de homens de Deus. Como recebemos apenas 10% dos fieis, acreditamos que devemos pagar apenas 10% do valor proposto. Assim fica combinado em 30 milhões para você reescrever duas versões da nova obra mais importante da humanidade. Fechado?

Não é exatamente o que o escritor esperava, mas ainda assim é dinheiro para chuchu. Podia custar uma eternidade no inferno, se isso existisse, mas o que importa? A fatura do cartão de crédito e o aluguel já estavam atrasados. O escritor aperta a mão do pastor, recolhe suas anotações e vai para casa tendo certeza que todos que escreveram a Bíblia, inclusive ele, eram grandes filhos da puta.

Moral da história: quer um livro sobre amor? Vá ler Nicholas Spark.

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Horóscopo Sincero

10 de April 2013 por Valek

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Áries: o dia pode reservar algumas surpresas, então cuidado ao sair de casa. Olhe sempre para os dois lados antes de atravessar a rua.

Touro: você sentirá que é tempo de deixar para trás coisas que estão há muito tempo guardadas dentro de você. Não esqueça de dar descarga e lavar bem as mãos depois de usar o banheiro.

Gêmeos: você pode ter um dia de trabalho bastante produtivo e satisfatório. Ou não. Em qualquer caso, você se sentirá atraído a procrastinar na internet.

Câncer: aborrecimentos esperam por você na seção de comentários dos sites de notícia. Preserve sua sanidade e seu bom astral ficando longe deles no dia de hoje. Ou para sempre.

Leão: o seu telefone poderá tocar no dia de hoje, podendo trazer uma boa notícia, ou uma cobrança, ou alguém querendo jogar conversa fora. Ou poderá ser simplesmente engano.

Virgem: você terá uma grande decepção hoje com algum conhecido, familiar ou colega. Ao entrar na página Orgulho de Ser Hétero, você irá descobrir quais dos seus amigos curtiram essa vergonha.

Libra: evite frituras, comidas gordurosas e industrializadas, coma legumes e verduras. Beba bastante água.

Escorpião: a sensação de que o tempo está passando mais rápido ou mais devagar é só coisa da sua cabeça. O dia continua com as mesmas 24 horas de sempre.

Sagitário: você pode até conhecer pessoas novas no dia de hoje, mas sua existência continuará sendo solenemente ignorada pelo resto da humanidade.

Capricórnio: o impulso de comentar sobre um assunto que você não domina virá com força. Se você tiver a escolha entre dizer algo sem pensar e ficar calado, ao escolher a primeira, as chances de se arrepender são altíssimas.

Aquário: entre as diversas sensações que o aquariano poderá experimentar no dia de hoje, o sono é definitivamente uma delas.

Peixes: você não conseguirá cumprir as suas tarefas do dia se continuar perdendo tempo lendo o seu horóscopo na internet.

zodiac2Ilustrações: Donya Todd
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Procuram-se entendedores

02 de April 2013 por Valek

entendedor

Procuram-se entendedores de textos com urgência. Que leiam textos na internet, de todos os tamanhos e sobre todos os temas. Não há restrição de gênero, faixa etária, cor ou endereço.

Não é exigida nenhuma qualificação acadêmica além da alfabetização. O nível de experiência exigido é o básico: que saibam, mais do que juntar letrinhas, entender o que elas juntas significam.

É preciso ter disponibilidade de tempo para ler o texto inteiro pelo menos uma vez, e, caso necessário, duas vezes ou mais. A disponibilidade também deve incluir o tempo para pensar sobre o que o texto diz e o tempo para formular conclusões.

O entendimento de textos pode ser feito de casa ou em qualquer outro lugar onde o entendendor ou entendedora esteja disponível para leitura, como no metrô ou no local de trabalho remunerado, desde que observado o tempo necessário para ler e entender o texto em questão.

Os principais atributos procurados para a função são boa vontade e disposição. Imaginação é recomendada, mas não é obrigatória. Já a capacidade para identificar ironias tem caráter eliminatório. Sem ela, fica vedado ao candidato ou candidata assumir a função de entendedor ou entendedora.

A função abrange apenas o entendimento de textos. Porém, entendedores podem se inscrever para vagas de comentaristas, embora não seja obrigatório. Os interessados nessa modalidade também precisam dominar, além do entendimento do texto, o entendimento de boas maneiras. Discordar do texto entendido não implica em comentar de forma agressiva ou mal educada.

O entendimento de textos não é remunerado, mas oferece os seguintes benefícios: vale aprendizado, passe livre para conclusões mais bem embasadas (contra ou a favor), bônus em sagacidade e impedimento de passar vergonha. Vagas ilimitadas.

Tratar aqui.

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Tumultuando o debate

26 de March 2013 por Valek

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As caixas de comentários na internet são o espaço onde a insanidade humana se manifesta em todo o seu esplendor. De portais de notícias a sites que tratam de assuntos polêmicos, passando pelas redes sociais e pequenos blogs de ficção, tumultuar o debate é a regra. Pelo menos é o que acreditam alguns comentaristas, que se engajam em constranger autor e público desviando o foco do assunto para questões que achem mais relevantes, como a corrupção (sempre).

Cada vez mais requisitados devido à grande demanda de textos circulando pela internet, os comentaristas do caos carecem de um arsenal renovado para continuar tornando sua atuação marcante, já que apenas escrever em CAPS LOCK e lançar frases indignadas como “acorda Brasil!” não são mais satisfatórias. De olho neste mercado, o professor Anon lança um curso inédito com táticas sofisticadas e indispensáveis para quem pretende fazer carreira tumultuando debates na internet.

O professor Anon disponibilizou em seu site algumas dicas que aprofundará em seu curso, e que você pode conferir logo abaixo:


1. Use a liberdade de expressão a seu favor

Evocar a liberdade de expressão é o grande trunfo dos dias atuais. Afinal, praticamente ninguém é contra. Logo, a liberdade de expressão autoriza você a criticar o que bem entender. No entanto, se alguém criticar o seu comentário, diga que está sendo patrulhado e que essa crítica à sua crítica é uma ameaça à liberdade de expressão. Se alguém perceber a sua tática, grite “censura! censura!” e saia da situação sem perder a pose heróica de defensor do valor mais precioso da democracia.

 

2. Leve tudo aos extremos

Essa técnica consiste em pinçar um trecho do texto em debate e fazê-lo parecer ridículo. Funciona assim: alguém diz que casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser permitido. Você pode responder que, se isso acontecer, as portas estarão abertas para legalizar relações incestuosas, pedófilas, e até casamento com animais. O horror, o horror! Lembre-se: quanto mais exagerado, melhor.

 

3. Distorça o que está escrito

Bem parecido com a anterior, com a diferença que você não sugere o absurdo; você faz parecer que o absurdo saiu da boca da outra pessoa. Por exemplo, a fala “acho que esse tipo de piada é preconceituosa” poderia ser respondida com: “que absurdo, ele acha que as piadas devem ser proibidas!”. Essa tática é uma das mais eficientes para instaurar a confusão, e fica ainda melhor se você realmente não leu o texto ou não entendeu o que o argumentador quis dizer (ver dica nº 12).

 

4. Junte coisas que não têm nada a ver

Nada melhor para desvirtuar um debate sério do que chegar na conversa misturando e confundido conceitos básicos. Isso obriga as pessoas a pararem a conversa de adultos e terem que argumentar com você, fazendo-as a voltar ao bê-a-bá da questão, que elas já estão cansadas de explicar. Um exemplo é o famoso “se podem usar uma camisa que diz ‘100% negro’, eu posso usar uma camisa que diz ‘100% branco’!”. Outro clássico é o “não sou feminista nem machista”, porque coloca, equivocadamente, o feminismo como o oposto do machismo. Qualquer pesquisa rápida na mesma internet que você está usando para comentar já revelaria o conceito básico correto. Mas para quê pesquisar antes? O objetivo é cansar as pessoas, e usar essa tática funciona muito bem.

 

5. Crie paradoxos

Seu papel não é explicar, é confundir. Faça mentes explodirem com afirmações do tipo: “ao dizer ser contra a homofobia, você está sendo preconceituosa com os homofóbicos!” ou “você está sendo intolerante com os intolerantes!”

 

6. Desinforme

Propague o senso comum, faça estatísticas dizerem o que você quer que digam, tire as coisas de contexto. Diante de dados de homicídio de gays por motivação homofóbica, diga que a quantidade de gays assassinados não é tão grande quanto a quantidade de heteros mortos. Complete dizendo que parte dessas mortes de gays foram causadas, na verdade, por acidentes de trânsito.

 

7. Reclame do que faltou

Se um texto fala sobre X, você pode tentar diminui-lo dizendo que ele não falou sobre Y. É uma técnica genial, pois em 100% das vezes é possível dizer que faltou ao argumentador abranger algum tema relacionado. Assim fica fácil fugir do assunto e, de quebra, você expõe uma lacuna no texto — ainda que, no fundo no fundo, você saiba que não é possível falar sobre tudo em um texto só.

 

8. Menos é mais

Aprofundar críticas pra quê? Em vez de perder tempo tentando apontar o quê há de errado com os argumentos do outro, diga apenas “texto chato”. Ou: “superficial”. É minimalista, é tendência, é finesse.

 

9. Seja o chefe

Diga como o autor deveria ter escrito o texto, que ele deveria ter sido mais sucinto, ou mais sutil, ou sem tantas vírgulas, ou ter usado a palavra “alegre” em vez de “feliz”. Sim, como se você fosse o chefe, afinal, você está pagando para aquela pessoa escrever o texto para você, certo?

 

10. Parta para a porrada

Ad Hominem é a técnica preferida de quem está na segunda série. Mas nunca sai de moda. Agrida o argumentador, diga que ele é bobo, feio, cara de melão, que é presunçoso, um analfabeto, uma vadia, diga que ele bate na mãe, que é petista, que lhe falta louça pra lavar ou uma boa pica, que tem o umbigo estufado e que, tão somente por isso, seu texto não vale nada. Abuse da criatividade.

 

11. Pasqualize

Uma variação do Ad Hominem, só que em vez de atacar o argumentador, você ataca o texto. Foque na ortografia e na gramática e deixe o argumento em questão de lado, afinal, seu objetivo é justamente fugir dele. Aponte os erros de português, a crase que faltou, a vírgula fora de lugar, o acento que não deveria mais estar em cima daquele ditongo. Não é que você se apega a pequenezas desnecessárias; é que uma pessoa que não obedece à norma culta da língua não merece ser levada a sério.

 

12. Pule a leitura

Às vezes, nem é preciso ler o texto inteiro (ou entendê-lo) para dar uma opinião contundente, não é mesmo? É como já dizia um velho sábio: “eu estou na internet pra dar opinião, se eu quisesse ler, estaria na escola”.

 

13. Seja coerente

Agarre-se ao seu ponto de vista até o final. Mudar de opinião é uma fraqueza, algo que deve ser evitado. Para manter-se coerente aos seus princípios, use e abuse de todas as técnicas demonstradas no curso.

As matrículas já estão abertas e o material do curso pode ser acessado gratuitamente aqui. Em entrevista, o professor Anon garante a eficácia dos seus ensinamentos e acredita que, com a ajuda deles, vários comentaristas poderão avacalhar textos e debates internet afora. No entanto, já existem materiais que rebatem as táticas do curso. E nem é preciso muitas regras; os mais preparados já sabem que basta apenas uma: “não alimente os trolls”.

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