CAT | Leitura
Esta semana, uma revista de fofocas publicou em sua matéria de capa que é absurda a lei que tornaria obrigatório o ensino de filosofia nas escolas. De acordo com a revista, um país que vai mal em disciplinas como matemática e ciências não deveria se empenhar em ensinar filosofia, que, como todos sabemos, é apenas uma forma de “aumentar a pregação ideológica de esquerda”. Claro. Mas não vou nem entrar nessa questão. O fato apenas me lembrou que, além de eu ter tido uma péssima formação de filosofia no colégio público onde estudei, eu tenho ali, na minha prateleira de quadrinhos, o que considero uma das maiores obras filosóficas do nosso tempo: as tirinhas de Calvin & Haroldo, de Bill Watterson.

Calma. Antes de você sair em defesa de um grande pensador e de me julgar uma ignorante por essa afirmação, deixe que eu explique. A ligação dos quadrinhos com a filosofia começa com o nome dos personagens. Calvin e Hobbes (do original, em inglês, traduzido por aqui como Haroldo) foram inspirados, respectivamente, no teólogo John Calvin e no filosófo inglês Thomas Hobbes. O primeiro defendia a predestinação e o segundo acreditava na tendência da natureza humana à guerra. Um easter egg interessante plantado por Watterson, talvez porque ele não resista a uma boa ironia – o que, aliás, percebemos em todas as histórias.

O grande mérito dos quadrinhos é trazer grandes (e pequenas) questões existenciais em histórias divertidas, cativantes, inteligentes, sarcásticas e o mais importante: acessíveis a todos. Crianças podem ler. Adultos podem ler. E ambos vão gostar. Enquanto Calvin brinca com Haroldo na neve, finge ser um dinossauro, teima com seus pais ou ainda arruma formas de não fazer seu dever de casa, ele te leva a questionamentos intrigantes e você está pensando naquilo sem nem perceber.

Ele não ensina filosofia. Mas os livros de Calvin e Haroldo estão cheias de teorias, conclusões e perguntas incômodas nas quais vale a pena pensar e até expor suas crianças a elas, sem medo. Questionamentos do tipo: “O que os animais vão fazer agora que derrubaram a floresta para construir casas?? Céus, o que as pessoas iam achar se os animais passassem um trator nos bairros e plantassem novas árvores?” Outro bom exemplo está aqui:

"Vocês não me ensinaram nada exceto como manipular cinicamente o sistema. Parabéns."
A inteligência das tirinhas de Watterson também está na construção dos personagens. Haroldo é só um tigre de pelúcia, mas tem mais sensatez que muita gente de carne e osso. Calvin é um garoto com uma grande imaginação e uma cara de pau maior ainda. Isso faz com que seus pais (que não têm nome nos quadrinhos) precisem devolver com argumentos razoáveis as teimosias do filho. O que nem sempre é possível: às vezes eles precisam gritar para mostrar ao Calvin quem são os adultos ali.

Calvin parece um garoto impossível de existir. Mas em tempos de tanta facilidade de acesso à informação, e em que todo mundo nas redes sociais está pronto para desferir opiniões sobre tudo, é natural que nossas crianças tenham a mesma inclinação do personagem para o debate. E aí não adianta vencê-las falando mais alto. As crianças esperam de nós, adultos, argumentos convincentes que respondam às questões levantadas pela inocência e imaginação tão próprias delas. Ou que, pelo menos, tenhamos a sensibilidade de pensar sobre o assunto se não soubermos a resposta. E uma dessas questões é: estamos preparados para criar filhos com esse senso crítico?
Mas talvez a tal revista esteja certa em achar absurda a ideia da filosofia ser ensinada como português ou matemática. Crianças questionadoras acabam ficando iguais ao Calvin: terríveis.

A primeira coisa que fiz quando terminei de ler o livro do Alex Castro, Onde Perdemos Tudo, foi procurar sobre Jácome Gol. Um escritor que tem forte influência sobre o último conto do livro, A Falta Que Nos Fazem Os Figos, além de ser autor do livro Quando Morrem Os Pêssegos, que dá nome a outro conto. De acordo com o próprio Alex, Gol é “um autor brasileiro menos conhecido”, mas desconfiei mesmo assim. Alex é daqueles escritores que levam a ficção ao extremo. É admirável e, ao mesmo tempo, assustadora a forma que ele faz você acreditar em qualquer coisa que ele escreva.
Alguém não pode ser um escritor se não consegue convencer seus leitores. É o que a gente espera quando pega um livro para ler: que o escritor consiga sustentar sua mentira durante as quinhentas e oitenta e cinco páginas e além. Onde Perdemos Tudo não tem tudo isso, claro. É uma leitura rápida, por ser um livro curto e agradável. E também não é nenhuma mentira: as histórias falam sobre algo que é bem real na vida de todos.
Essa veracidade das histórias, mais do que o tema da coletânea de contos – a perda, foi o que me chamou a atenção. Poderia jurar que conheço o personagem-narrador do conto A Morte do Meu Cachorro. Além do mais, o livro já começa com um conto onde eu mesma sou uma personagem. Na verdade, é a dedicatória.
Querida Aline,
Espero que tenha chegado bem. As crianças já estão na cama. Eu saí pra comprar cigarro e já volto. Por favor, não esquece de tirar o lixo e passear com a Lulu. Devo voltar antes das onze. Te amo. Do seu marido, Alex. SP, 23/11/2008
E é assim, com relacionamentos que se acabam, despedidas, mortes e outras perdas que o livro continua. Encaramos, de uma só vez, as situações mais difíceis de se encarar. Muitas pessoas – a quem eu indicaria fortemente a leitura deste livro – não conseguem lidar com a perda. Não aceitam, não superam, não se desapegam. Acabam se perdendo. Porque, apesar da evidente contradição, a vida não está completa enquanto não perdemos algo. O emprego, o cabelo, os amores, os amigos, o dinheiro, a vergonha, a fé, uns quilinhos, os pais, as chaves de casa, o último capítulo da novela, a virgindade, o ônibus, o jogo, a vez, as vistas, os dentes. Ser adulto é isso: engolir o choro e aprender a perder. Sobre essa maturidade, Alex Castro escreveu A Morte do Meu Cachorro, que começa assim:
A infância acaba, disse alguém, quando morre nosso cachorro.(…) Amigos humanos têm outros afazeres e outros amigos. Um dia, seus caminhos se descruzam e cada um vai viver sua vida. Talvez nunca mais se vejam. Um cachorro, entretanto, só tem o dono e seus caminhos são coincidentes: a vida do cachorro é a vida do dono e ele sempre ficará ao seu lado, até morrer. Então, com o fim, absoluto e irrecorrível, da amizade mais sincera que pode existir, a infância acaba.

Também vemos, neste e no conto com o mesmo nome do livro, a diferença entre o fim de uma amizade e de um relacionamento amoroso. Amores, como o de Ramiro e Jáque, terminam de forma dolorosa, mal-explicada e abruptamente, deixando no lugar um passado incômodo e um presente confuso. Amizades não precisam terminar de fato pra gente saber que acabou. A vida se encarrega de distanciar as pessoas antes que elas percebam que a vida delas se descruzaram e, mesmo que se cumprimentem sem ressentimentos de ex-namorados, já não têm mais assunto. “Será que não percebem o quão ameaçador é o silêncio de quem já disse tudo, de quem já partilhou tudo?” Mas só porque essa perda acaba sendo mais natural que a outra, não significa que seja mais suportável. Afinal, a morte também é uma perda bastante natural.
Certamente, o tema rende. Quem sabe não sai um segundo livro com mais contos? Enquanto isso, fico no aguardo do lançamento, previsto para 2012, da reedição de Quando Morrem os Pêssegos, de Jácome Gol.
Imagine que isso seja um briefing: criar uma campanha para a Starbucks, com tudo o que a empresa acredita, que fale sobre os produtos, mas que envolva e emocione o público. Pensou em um filme de 30 segundos, ou em um anúncio inteligente com uma baita fotona? Um redator fez bem melhor do que isso. E nem era job.
Ainda não sei dizer porque esse título me chamou tanto a atenção, se caberia muito bem em um livro de auto-ajuda. Só sei que ele estava lá, em alguma seção aleatória da livraria, e eu o peguei. Eu nem queria comprar um livro. Mas se a história fosse tão cativante quanto o resumo da quarta capa, então quem sabe valesse a pena?
É basicamente isso: o livro conta a história de um ex-diretor de criação da JWT de Nova York, que se vê na rua da amargura quando é demitido aos 53 anos. Velho, falido, divorciado, com um tumor no cérebro e nenhum plano de saúde, Michael Gates Gill recomeça do zero quando aceita o emprego de servir café em uma loja da Starbucks.
Confesso que a primeira sensação ao pegar o livro foi schadenfreude: era a história real de um publicitário poderoso que perdia tudo na vida. Mas não teve como não me identificar com o personagem, ainda mais depois de descobrir que Mike era redator.

A narrativa é uma delícia. Pude acompanhar Mike e sentir sua dificuldade em se adaptar ao novo emprego e ao novo estilo de vida (tendo que pegar trem e metrô durante uma hora e meia de viagem, todo dia, para chegar à Starbucks da 93 com a Broadway), ao mesmo tempo em que conhecia um pouco de seu passado em flashbacks na medida certa.
Mas não é esse o ponto que me levou a escrever este post.
Mike conseguiu nesse livro o que talvez nenhuma de suas campanhas premiadas tenha conseguido em sua carreira publicitária: ele mostra um lado da Starbucks que poucos conhecem, e envolve o público com o universo da marca, de uma forma que a publicidade tradicional não conseguiria.
Fiquei apaixonada pelo ambiente de trabalho que ele descreve, pela relação da loja com seus consumidores, pela relação dos funcionários com a loja, e pela variedade de cafés que ele apresenta durante a narrativa. Se eu não conseguir um emprego lá, quero pelo menos sentar e tomar um Tall Latte. É, histórias têm esse poder.
Atingir o público dessa forma, conseguir essa ligação com sua marca, e até quem sabe, fazê-lo chorar (como eu chorei várias vezes), não é, afinal, o objetivo da publicidade?
Não estou dizendo com isso que o livro seja uma propaganda deliberada para a Starbucks. Ele não é. A questão é perceber que, para ser mais efetiva, a publicidade precisa parecer cada vez menos com… publicidade.

Pessoas: é o que importa quando você trabalha com comunicação... ou servindo café

Mike ao lado de Crystal, a gerente de Starbucks que lhe deu um emprego
Quem faz parte de uma geração old school da propaganda (como Mike) ainda vai demorar para entender que hoje vale mais se aproximar das pessoas para levar experiências legais ligadas à marca do que uma superprodução de 30 segundos na Globo.
Se você é publicitário, vale a pena ler “Como a Starbucks salvou minha vida” sob essa perspectiva, e refletir sobre este aspecto da nossa profissão. Mesmo se não for, a leitura é deliciosa. É como um bom copo de café: você precisa experimentar.
Alguns defendem que evoluímos do macaco; outros acreditam que os homens surgiram do barro e as mulheres de uma costela. E tem até quem acredita que viemos parar neste mundo após cair de um cometa. Em geral, os humanos discordam sobre sua própria origem. Mas temos que concordar em uma coisa: contar histórias é algo que os humanos fazem muito bem desde o começo.
Quer um exemplo? O livro bíblico Gênesis. Apesar de escrito por uma galera tão antiga quanto andar sobre as duas patas, ainda hoje arrebata milhões de leitores (com o perdão do trocadilho cristão). É de dar inveja a qualquer bruxinho mirim.
E quando vi na livraria a adaptação para quadrinhos desse famoso livro, fiquei louca para ler. Segurei meu ímpeto consumista e tive a sorte de descobrir que meu amigo Doug já tinha o livro. Peguei emprestado e devorei em uma noite e uma manhã.
Robert Crumb fez um trabalho genial ao adaptar LITERALMENTE as passagens bíblicas para os quadrinhos. Não “enfeitou” a história com simbologias, metáforas ou interpretações. Tá tudo lá, ipsis literis.

Eis Robert Crumb
“Todas as outras versões em quadrinhos da Bíblia que vi contêm passagens com narrativas e diálogos completamente inventados, numa tentativa de ‘modernizar’ e deixar mais ‘dinâmicas’ as velhas escrituras”, conta ele no prefácio. Como procurou manter-se fiel à versão original, traduzida por Robert Alter, a linguagem é cansativa. Tem trechos repetitivos, alguns deles truncados com um monte de nomes próprios difíceis, e a narrativa é seca, rápida e crua. Mas suas fabulosas ilustrações conseguem deixar a leitura deliciosa.
Não é muito difícil saber do que se trata a história. Afinal, o protagonista é o personagem mais adorado do planeta. E não estou falando do Calvin, que em matéria de sabedoria e carisma ganha de lavada do todo-poderoso.

"É difícil ser religioso quando certas pessoas nunca são incineradas por relâmpagos." Calvin
Quanto a Deus, foi interessante reparar em como se desenvolveu e se relacionou com os demais personagens ao longo do livro. Nos primeiros capítulos, está no centro da narrativa e tudo se faz de acordo com a sua vontade. Quer dizer, os humanos parecem sempre inclinados a contrariá-lo. Talvez isso explique seu mau-humor: não existe um quadro sequer em que Deus esteja sorrindo.
Mais ou menos depois do incidente com a Torre de Babel é que ele passa a aparecer menos; de vez em quando se dá ao trabalho de falar com seus escolhidos através de sonhos ou delírios. Isso mostra que quanto mais pessoas e clãs vão surgindo no mundo, mais as pessoas ficam voltadas para as complexas relações umas com as outras. Todos ocupados demais com suas próprias questões, mas sem deixar de usar deus como justificativa pra tudo. Igualzinho hoje.
(Ah! Esse episódio da Torre de Babel me deixou impressionada e revela um aspecto importante do cara: estavam lá os humanos construindo um baita monumento para fortalecer seu espírito de união. Uma coisa linda. E Deus faz o quê? Pirraça. Ele pensa: “Eita ferro. Um povo que fala uma só língua pode fazer o que quiser! Nem pensar que eu vou deixar.” E aí vocês já imaginam o que acontece.)

A mesa do criador
Felizmente, o livro é um desfile de personagens mais interessantes do que esse. Mas não fiquei surpresa ao perceber que a narrativa acompanhava apenas os patriarcas, embora as personagens mulheres fossem mais fortes e decididas, donas do seu próprio nariz e capazes de gerar viradas impressionantes na história (a exemplo de Rebeca e Raquel).
Dentre os patriarcas, o que mais me impressionou foi Jacó (depois chamado Israel). Trabalhou como um condenado 20 anos a serviço de Labão, pai de Raquel. Foi enganado e explorado pelo sogro, que não queria deixar que ele voltasse para sua terra com suas duas esposas. Jacó pede para que pelo menos tenha suas próprias provisões. Então faz um acordo com Labão: ele trabalha mais alguns anos cuidando do rebanho, e todas as ovelhas negras e cabras malhadas ficam como seu pagamento. Labão aceitou, lógico. Era muito mais comum nascerem cordeiros brancos e cabras negras. Aí Jacó utiliza a genética a seu favor: separa os animais mais saudáveis para cruzar perto do bebedouro onde cravou estacas com listras. Dessa forma, nasciam crias com manchas. E então começa a fazer os animais listrados e fortes cruzarem entre si, criando um rebanho especial. Ok, fora a parte das estacas, é pura ciência.
Além disso, a história está cheia de putaria explícita, estupros, sanguinolência, saques, pelo menos dois genocídios promovidos por Deus, desavenças mortais entre irmãos, duas filhas que engravidam do pai, e até um pai que quase mata o próprio filho em sacrifício ao seu deus. Não falta emoção, pode ter certeza.
Enfim…

Sodoma antes do genocídio
Espero não ter ofendido ninguém, afinal, essa é minha análise do ponto de vista literário. Como aspirante a escritora e amante da leitura, reconheço no livro Gênesis uma história riquíssima. Foi ali que os hebreus depositaram as histórias sobre a origem do seu povo, e a meu ver, usaram o recurso da fantasia por dois motivos: a) não tinham conhecimento para explicar, de forma racional e científica, os acontecimentos e fenômenos ao seu redor, ou como e porque as coisas e pessoas eram do jeito que eram; e b) esses elementos sobrenaturais deixaram a história mais legal, oras. Ou se Edward não fosse um vampiro (ok, há controvérsias), você acha que existiria uma legião de adolescentes enlouquecidas pela saga?
Você mede um sucesso literário pela quantidade de leitores entusiastas que a obra gera. E nesse quesito, a Bíblia não tem nem comparação. Impressionante como os caras conseguiram fazer uma história resistir milhares de anos, chegando para milhões de pessoas. E mais: conseguir, nos dias de hoje, um cara tão foda como Robert Crumb para ilustrá-la.
Ainda no ano passado, escrevi sobre a força das mulheres nos quadrinhos – como autoras e produtoras. Hoje é a vez de voltar a falar de mulher nos quadrinhos – mas de uma que vem de dentro deles: a Mulher Hulk, que completa neste mês de março seus 30 anos de existência. Foi criada no mesmo ano da fundação do National Woman History Project, uma organização educacional que traz como tema em 2010 “Writing Women Back into History”. Guardem bem isso.
Jennifer Walters, uma advogada idealista (com um histórico de defesa dos direitos de minoria, liberdades civis, e de proteção a indivíduos vitimados por corporações pouco éticas) é baleada e quase perde a vida, se não fosse seu primo Bruce Banner (isso mesmo, o Hulk) realizar uma transfusão de sangue improvisada que a salva – e infesta seu organismo com radiação gama. Essa alteração em seu sangue a transforma em uma forma de vida feminina superforte e esverdeada, tal qual seu monstruoso primo, mas com a grande diferença (e vantagem) de manter sua inteligência e autocontrole após a transformação. A tendência é essa até fora dos quadrinhos: quando o poder sobe à cabeça de alguns homens, ficam irracionais e selvagens.
Todo o carisma da personagem se deveu a isso. Não era uma descerebrada movida pelo instinto de destruir tudo o que via pela frente. Vamos combinar que os roteiros da maioria dos quadrinhos da década de 80 não eram lá geniais, mas o humor da Mulher Hulk era cativante. No entanto, o título próprio da Mulher Hulk durou só 20 edições na época. Depois disso, levou a vida como integrante dos Vingadores, Quarteto Fantástico, e até chegou a fazer dupla com o amigão da vizinhança. Passou muito tempo levando uma vida errante, mas depois do sucesso do último filme de Hulk , essa grande personagem (grande mesmo) pode dar a volta por cima e figurar em uma adaptação para o cinema.

Oh! E agora, quem poderá nos defender?
Mas não é porque ela é grande, verde e ESMAGA que a vida seria mais fácil. Ainda que seja uma mulher de personalidade, inteligente, espirituosa, advogada competente e heroína poderosa, o atributo que é levado em consideração pelos outros em primeiro lugar acaba sendo seus seios, e o resto de seu corpão que preenche as roupas minúsculas e provocativas das quais os desenhistas gostam de abusar. É como uma fã da heroína disse aqui: a objetificação da personagem através de capas hiper-sexualizadas fez com que a She-Hulk fosse vista bem mais como uma personagem que o público gostaria de levar para a cama, do que como uma personagem que o público admirasse pela personalidade. E não é o que acontece sempre? Agora imagine se o mesmo critério valesse para os homens: o Superman, com aquela cara de paisagem e jeitão sem-graça, seria um fracasso absoluto. E você também, leitor homem, que apesar de não usar cueca por cima da calça está bem longe de ser um sex symbol, teria dificuldades em ser bem-sucedido ou até mesmo manter seu emprego se seus atributos físicos valessem mais do que seu potencial e competência.
Mas nem com os superpoderes da She-Hulk metade dos problemas das mulheres estariam resolvidos. Talvez aqueles engraçadinhos, que acreditam que o ponto alto do dia de uma mulher é quando eles resolvem nos abordar no meio da rua, pensassem duas vezes antes de invadir nosso espaço com comentários abusivos sobre nosso corpo, se não quisessem ter o crânio esmagado ali mesmo (eu pelo menos, esmagaria sem dó). Agora, se mesmo com todas as conquistas da mulher em relação a seu espaço no mercado de trabalho, ainda existe uma grande desigualdade de salários e postos ocupados (ou acha que é pura coincidência que a profissão mais mal-remunerada, a de empregada doméstica, seja ocupada quase totalmente por mulheres?), não seria com os poderes da She-Hulk que seria possível reverter essa situação. Ela mesma sabe a dificuldade que é galgar degraus em uma carreira quando se usa salto alto.

And justice for us
E por isso o mês de março é tão importante, não só para a She Hulk, mas para todas as mulheres. Não para ganhar flores e mensagens dizendo o quantos somos fortes, especiais, que o mundo não seria nada sem a nossa beleza, e toda essa baboseira sem sentido. O dia 8 de março não é uma data de comemoração. É uma data de protesto. Uma data que hoje resgata o centenário da luta das mulheres trabalhadoras por uma sociedade com condições mais iguais.
Em 1910, Lena Lewis, uma das principais representantes do movimento feminista norte-americano, declarou que não era uma época para celebrar nada, mas um dia para antecipar as lutas que viriam, “quando poderemos eventualmente e para sempre erradicar o último vestígio do egotismo masculino e seu desejo de dominar as mulheres”.
Hoje é o dia em que lembramos o mundo de escrever as mulheres de volta em sua história. E que, se algum poder for concedido a nós, mulheres, que não seja o da invisibilidade. Mas, como a She Hulk, o da força.
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Alan Moore e a falta de imaginação do cinema
5 comentários | Postado por Valek em Filmes, Histórias Esquecidas, Leitura

Gaiman e Moore
A estreia de Avatar, de James Cameron, e seu consequente sucesso de bilheteria trouxe uma série de críticas por ser um filme “sem história”. Mas como esse é um assunto tão last month, não pretendo entrar muito nesse mérito, embora eu acredite que é preciso saber separar uma história que eu não goste de uma história que non ecziste. E francamente, a história de Avatar está ali. Não é a mais original, uma história que se diga “noooossa que genial, até gozei!!”, mas a história não só existe como está acompanhada da construção de um universo exuberante e completo para que ela acontecesse.
Já disse que não é sobre isso que pretendo falar, né?
Apenas mencionei pois foi justamente isso que me lembrou de uma entrevista do Alan Moore que encontrei na época em que Watchmen estava sendo adaptado para o cinema, e até cheguei a postar em meu antigo blog, o Histórias Esquecidas.
Junto dela, também encontrei uma entrevista originalmente publicada na Inglaterra pela revista Knave, em 1900-e-eu-não-tinha-nascido-ainda, feita pelo Neil Gaiman (sim, o próprio) em sua época de jornalista (ninguém é perfeito), que contava como entrevistado ninguém menos que Alan Moore, criador de Constantinte, Monstro do Pântano, V de Vingança, A Liga Extraordinária, e tantos outros. Dispensando os óbvios comentários sobre o quanto o cara é foda, segue a entrevista em que Moore criticou a adaptação cinematográfica de Watchmen.
Concordam? Discordam? Acham que hoje em dia as pessoas estão mais exigentes em relação às histórias que veem no cinema? Ou que na verdade estão ainda mais preguiçosas, esperando que o filme já lhes dê as histórias prontas? A caixa de comentários é toda de vocês!
Entrevista de Moore para a Wired, em tradução livre:
“(…)Acredito nos testes de Pentagon no final dos anos 80, em que os quadrinhos foram considerados o melhor meio de transmitir informação para alguém de uma forma que irão reter e se lembrar. Eu pessoalmente sinto – e isso é só uma besteira de hippie pseudo-cientista – sinto isso porque a unidade de circulação do que costuma ser chamado o lado esquerdo do nosso cérebro é a palavra. O lado esquerdo do nosso cérebro é relativo à nossa fala e à racionalidade. A unidade de linguagem para o lado direito do nosso cérebro, pelo contrário, seria a imagem, afinal, o lado direito é preverbal.
Talvez seja por causa da combinação de palavras e imagens numa forma de leitura que os quadrinhos têm este poder único. Agora, é claro, filmes são uma combinação de palavras e imagens, mas têm uma estrutura e um modo de trabalho completamente diferente.
Uma das minhas grandes objeções aos filmes, é porque são imersivos demais, e acho que isso nos transforma em pessoas preguiçosas e sem imaginação. A absurda duração que o cinema moderno e suas capacidades de computação gráficas conseguem alcançar para salvar a audiência de incomodar a si mesma de imaginar alguma coisa por si próprias, provavelmente causará um efeito de limitação na imaginação das massas. Você não tem que fazer nada. Com um quadrinho, você tem que fazer um bocado mais. Mesmo tendo figuras lá para você, você terá que preencher todas as lacunas entre os painéis, terá que imaginar as vozes dos personagens. Você terá um bocado de trabalho nisso; não tanto quanto um livro sem ilustrações, mas ainda assim, terá muito trabalho.
Parece que a audiência exige que tudo seja explicado para eles, que tudo seja fácil. E eu não acho que isso seja uma boa cultura. Eu me lembro do King Kong de Willis O’Brien e de outros artistas que tornaram coisas como essa possíveis. Sim, eu sabia como isso era feito. Mas parece tão maravilhoso. Hoje em dia, eu vejo um milhão de Orcs correndo pelas colinas e fico entediado. Não fico nem um pouco impressionado. Porque, francamente, eu poderia pegar qualquer um passando na rua que conseguiria criar os mesmos efeitos se dessem a ele meio milhão de dólares para fazê-lo. Isso remove a arte e a imaginação e coloca o dinheiro no banco do motorista, e eu acho que é uma equação bem lógica – em que há uma relação inversa entre dinheiro e imaginação.
A maioria dos filmes que vejo parecem ter o mesmo nível de desaprovação que esperam no nível da exibição pirotécnica. É tudo “ooh” e “ah”. Essas parecem ser as únicas respostas apropriadas à maioria dos filmes modernos. Acho que estamos entrando em um período de reavaliação cultural. Espero que seja verdade, porque acredito que se não estivermos, estamos em um período de condenação cultural. Temos que repensar essa coisa toda, e acredito que repensar nossa cultura é parte disso. Eu realmente espero que sim.”
No capítulo anterior, propus um exercício de memória que consistia em tentar lembrar, em 1 minuto, do máximo de nomes de artistas de quadrinhos que fosse possível. Através dessa brincadeira foi possível constatar algo que é fato no mercado editorial de quadrinhos: o pouco espaço que as mulheres têm, em relação aos homens, como criadoras e produtoras.
Mas existem mais mulheres nesse negócio do que a gente imagina (tanto que tive que dividir o post em dois). Aqui, continuo apresentando algumas das artistas que vão figurar no projeto da Marvel previsto para março, a GIRL COMICS, e ainda falo das brasileiras dentro do universo dos quadrinhos.

Começando com Jill Thompson, uma velha conhecida da minha prateleira. Escritora e ilustradora, a grande maioria de seus trabalhos tem alguma relação com o mestre Neil Gaiman, ora ilustrando as histórias escritas por ele, ora ilustrando e escrevendo histórias dentro do universo por ele criado.
Ela tem uma lista gigantesca e invejável de trabalhos: participou de algumas edições de “Sandman”, trabalhou na série “Livros da Magia”, “Orquídea Negra”, “Dead Boys Detectives”, “Vidas Breves” até em “Monstro do Pântano”, sem falar, é claro, do clássico e incrível “Morte – A Festa”. Fez vários trabalhos para a Darkhorse, Marvel, e tem sua própria série publicada pela Sirius Entertainment: “Scary Godmother”, adaptada para uma animação que Jill editou, dirigiu, produziu, assinou direção de arte, pintura de background, etc, etc. Ufa!

"Garotas podem ser o que quiserem! Até personificações antropomórficas de aspectos do Universo!"
Valerie D’orazio trabalhou como editora de várias séries da DC, como “Aquaman”, “Catwoman”, “Arkhan Asylum”, “Liga da Justiça”, “Crise de Identidade”, e vários outros. Mas é em seu trabalho para a Marvel, “Cloak and Dagger” (a dupla Manto e Adaga) que atuou como escritora; além de ter seu próprio livro, chamado “Memórias de uma Super-Heroína Ocasional”. Destaca-se principalmente por ser presidente da associação Friends of Lulu, que trabalha para promover as garotas na indústria de quadrinhos, como produtoras e leitoras. Não deixem de conhecer, elas até organizam Prêmios Anuais!

Aí vai outra ilustradora que trabalha bastante: Colleen Coover, artista com uma lista imensa de trabalhos já realizados para a Marvel, entre eles, inúmeras edições da série “X-men: First Class”. Vale a pena dar uma olhada na galeria dela, seu estilo é inconfundível; além do mais, ela é famosa por suas histórias lésbicas de apelo erótico (cuidado com o link).
Outras artistas que vão estar no GIRLS COMICS: Molly Crabapple , Ming Doyle e Carla Speed McNeil.
Se tem um lugar em que as mulheres não precisam se preocupar com um espaço reduzido de atuação em comparação com os homens, é o Japão. Por mais que a terra do sol nascente já tenha sido (e ainda seja, em alguns aspectos) muito machista e conservador, as artistas de lá não são tolhidas como no ocidente, onde desde cedo a gente aprende que super heróis e quadrinhos são “coisas de menino”. Isso acontece porque o mercado editorial do Japão é bem diferente, devido a uma cultura de leitura muito bem difundida. Logo, existe mangá com linguagem específica para todo tipo de público: crianças, adolescentes, adultos, sejam eles do sexo masculino ou feminino.

A grande maioria das consagradas artistas do Japão atua dentro da modalidade Shoujo (mangá para meninas), com um estilo de desenho mais delicado e com histórias que acabam focando no romance entre personagens e em conflitos emocionais (sem deixar de lado elementos como fantasia, aventura, drama e comédia). Essa é a marca registrada das meninas do estúdio Clamp, por exemplo, com sucessos como “Sakura Card Captors”, “Tsubasa Chronicles”, e “xxxHolic”.
É claro que isso não é uma regra, e a gente consegue encontrar histórias de estilo bem diferente assinadas por mulheres. Como é o caso de Shiori Teshirogi, autora da série “Lost Canvas”, de Cavaleiros do Zodíaco.
Ainda podemos encontrar mulheres altamente bem-sucedidas neste ramo, como Rumiko Takahashi, autora de “Inu-Yasha” e “Ranma ½”: seus mangás são sucesso de vendas, e é a terceira mulher mais rica de todo o Japão. É praticamente a J.K. Rowling oriental.
Vindo para o Brasil, a gente encara o outro lado do mundo e o outro extremo da situação: o próprio mercado de quadrinhos tem pouco espaço no “mainstream”, que é dominado por publicações estrangeiras. Para trabalhar com quadrinhos no Brasil, seja homem ou mulher, é preciso muita coragem para enfrentar um cenário cheio de adversidades, onde é preciso ralar em dobro para alcançar reconhecimento.
Apesar disso, temos importantes nomes para a produção nacional, como Maurício de Sousa, Henfil, Angeli, Laerte, Rafael Grampá, Fábio Moon, Gabriel Bá, Marcelo Cassaro, etc, etc. Mas por aqui, as diferenças se acentuam.
Na lista de indicados ao prêmio HQ Mix de 2009, entre os inúmeros nomes, apenas três eram de mulheres: Adriana Brunstein, indicada a melhor roteirista, Pryscila Vieira e Cibele Santos, indicadas a melhor tira nacional, com “Amely” e “Mulher de 30”, respectivamente. Será que está faltando um toque feminino em nossa produção nacional?

Calma lá, ainda temos outras boas representantes brasileiras nos quadrinhos: Erica Awano e Petra Leão, por exemplo. As duas já trabalharam juntas no que considero a melhor série brasileira de quadrinhos, a história de fantasia medieval “Holy Avenger”; a primeira como desenhista, e a segunda como roteirista de três edições especiais.

Depois de participar deste e de outros bem-sucedidos trabalhos no Brasil, Erica Awano se tornou um talento do tipo exportação, trabalhando para editoras gringas em projetos mega relevantes como a adaptação de quadrinhos do universo de Warcraft, e a série “The Complete Alice in Wonderland”, adaptação com roteiro de Leah Moore (filha do mestre Alan Moore).

Petra Leão, além de roteiros para nacionais como “Holy Avenger”, “Capitão Ninja”, “Dado Selvagem” e “Mercenários”, publicou no mercado americano sua série “Victory”, tornando-se a primeira mulher brasileira a publicar quadrinhos nos Estados Unidos. Atualmente é roteirista da “Turma da Mônica Jovem”, um inovador lançamento da editora de Maurício de Sousa.
Neste post tentei reunir algumas representantes femininas do universo dos quadrinhos, e inevitavelmente, deixei alguns nomes de fora (como de importantes artistas que o Doug lembrou nos comentários do post anterior).
Para finalizar, gostaria de chamar a atenção a um aspecto importante, que é possível observar especialmente em relação ao pouco espaço e reconhecimento dado às nossas artistas, no contexto brasileiro: este é um reflexo do espaço que não é dado à mulher, de uma forma geral, em uma sociedade expressamente machista.
As mulheres acabam sendo reféns de dois lados de uma mesma situação. Elas têm menos reconhecimento e menos espaço para produzirem seus trabalhos em uma área dominada por homens; e em razão dessa dominação masculina, são reféns de estereótipos femininos criados por eles para atender o ideal de um público também composto, em sua maioria, por homens. Afinal, faz parte do apelo ao público desta mídia utilizar personagens femininas que habitam o imaginário masculino, com atributos físicos e vestimentas que, na vida real, são rejeitados pela sociedade. Que dureza ser mulher, han.
Ainda bem que temos heroínas que já conquistaram seu espaço e vêm mostrando que, para produzir quadrinhos, não faz diferença ser homem ou mulher – desde que se tenha talento – e que as mulheres possuem muitos poderes, mas felizmente, a invisibilidade está deixando de ser um deles.
PS: Encontrei um artigo bem completo sobre o assunto. Quem quiser ler mais sobre, clica aqui. ;D
Se você é um dos aficcionados por quadrinhos que, assim como eu, cresceu em meio a um universo que vai além apenas do ato da leitura, então você está apto para um pequeno exercício mental que quero propor: marque 1 minuto em seu relógio, e dentro deste tempo tente lembrar-se do máximo possível de nomes de artistas que trabalharam em personagens e histórias geniais no mundo dos quadrinhos. Pronto? Pode começar.
Agora que o tempo acabou, responda: de quantos nomes conseguiu se lembrar? 10 nomes é uma boa média. Entre eles, aposto que a maioria – ou todos – que você conseguiu se lembrar é de homens. Mas e quanto às mulheres? Seria preciso uma forcinha extra para chegar a algum nome.
Sem dúvidas, a mulher é um elemento dos quadrinhos que não pode faltar para seu principal público consumidor: os homens. Mas, como você já deve ter imaginado pelo exercício de memória acima, não é exatamente dessas mulheres nos quadrinhos que este post trata (até porque seria possível citar mais de 20 boas personagens femininas em menos de 1 minuto). O título se refere, na verdade, às heroínas que estão por trás da criação das histórias em quadrinhos: as roteiristas, ilustradoras, produtoras, e por que não, as leitoras.

Há algum tempo, a Marvel anunciou para 2010 uma novidade que vai atingir diretamente cada uma dessas integrantes do mercado editorial de quadrinhos, e em consequência, o próprio universo das mulheres. A editora irá lançar a GIRL COMICS, uma minissérie feita exclusivamente por mulheres. E isso significa mulheres desenhando, escrevendo, letreirizando, arte-finalizando, produzindo, editando, TUDO. Não é sensacional? A primeira edição está sendo planejada para março, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, e aos 30 anos de fundação do National Women’s History Project e da primeira aparição da Mulher Hulk.
Jeanine Schaefer, a editora da minissérie, falou um pouco sobre esse projeto inovador (minha tosca tradução):
Eu definitivamente penso que mulheres e garotas vão buscar [a minissérie], mas não porque fizemos uma combinação do que poderia fazer mulheres gostarem de quadrinhos. Estou esperando que seja encorajador ver tantas mulheres que estão ganhando a vida em quadrinhos, e a ideia é reforçar que quadrinhos possam ser (e já são) tanto para elas quanto são para os homens.
Para um mercado em que a mulher já alcança alguma expressividade como consumidora (mesmo que o público dominante ainda seja o masculino, assim como os homens também estão no domínio do meio de criação e produção), este projeto da Marvel representa um grande passo para a democratização da produção cultural.
Abaixo, vocês conhecem algumas das autoras e artistas que vão trabalhar no projeto GIRL COMICS – assim, da próxima vez que você fizer o exercício de memória, irá ter alguns nomes femininos para citar! ;D

► Quem leu quadrinhos entre os anos 80 e 90 certamente já leu algo de Ann Nocenti. Foi a sucessora de Frank Miller no roteiro de “Demolidor”. Entre diversos trabalhos para a DC e ainda alguns para a Marvel, foi roteirista de “Someplace Strange“, com a participação de John Bolton, um dos meus ilustradores preferidos.

► Kathryn Immonen já participou de roteiros em “Ultimate X-Men” e “Ultimate Spiderman”, mas seus principais projetos para a Marvel foram “Runaways” (traduzido para o Brasil como “Fugitivos”), em parceria com a ilustradora Sarah Pichelli; e uma série com uma personagem originalmente criada em 1944, “Patsy Walker: Hellcat”, com arte da capa produzida por seu marido, Stuart Immonen, outro grande destaque da editora.
► Marjorie Liu era advogada recém-formada quando percebeu que não gostava da coisa e queria mesmo era ser escritora. Seus principais trabalhos para a Marvel são: “Dark Wolverine”, que conta a história do filho de Logan; e “NYX: No Way Like Home”, uma bem sucedida série de jovens mutantes desgarrados.

► Aí vai um nome que você não pode esquecer se for fã de quadrinhos: Trina Robbins. Essa é figuraça importante na história dos quadrinhos americanos e na participação das mulheres nesse mercado. Tem vários trabalhos notáveis como roteirista, escreve há mais de 30 anos e é responsável pela criação da roupa de Vampirella, além de ter feito a arte a lápis das histórias da Mulher Maravilha nos anos 80. Trabalhou em um jornal feminista underground lá pelos anos 60. Foi ela que lançou os primeiros quadrinhos só para mulheres, chamado “Ain’t me, Babe Comix”. Tem uma extensa bibliografia de não-ficção voltada para o tema da mulher nos quadrinhos – seria bom encontrar alguma dessas obras no Brasil.

► Além de atuar como roteirista, Amanda Conner também é ilustradora e já teve inúmeros trabalhos publicados pela Marvel, DC e outras editoras. É dela o traço da série “Birds of Prey”, da DC (no Brasil, “Aves de Rapina”), “Power Girl”, além de ser responsável pela arte de “SuperGirl” e “Superman: Lois Lane”, além de vários outros trabalhos. E para inveja de muito marmanjo, Vampirella já passou por suas talentosas mãos muitas vezes.
► Outra grande roteirista, Devin Grayson, fez diversos trabalhos para a DC, como: “Novos Titãs”, “Asa Noturna”, “Superman”, “Os Titãs”, algumas edições de “Batman Chronicles”, “Batman Legends of Dark Knight” e outras muitas histórias envolvendo o homem-morcego.

Fez também alguns trabalhos para a Marvel, entre eles “Black Widow” e “Black Widow: Break Down” (Grayson tem os créditos de ter escrito uma das melhores histórias da Marvel que já li, com a ruivíssima e mortal Viúva Negra, definitivamente minha heroína favorita). Tem tantos trabalhos publicados que nem dá pra listar tudo aqui. É abertamente bissexual e o trabalho dela é muito apreciado pela mídia gay.
No próximo post, listo as outras mulheres que são figuras de peso no cenário americano de quadrinhos, e também uma comparação com outros mercados editoriais desse segmento, como o japonês e o brasileiro. E é claro: vou falar da mulher como consumidora de quadrinhos.
Continua…
“Um texto só é um texto se ele oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei da sua composição e a regra de seu jogo”
Derrida
Uma das muitas frases que me marcaram na leitura do livro “Jornalismo e Literatura – a sedução da palavra”, uma coletânea com material de vários autores (organizada por Gustavo de Castro e Alex Galeno) trazendo intrigantes e importantes relações sobre o escrever jornalístico e o escrever literário.
Recomendo.
[Publicado originalmente em 23 de março de 2009]

