AlineValek

FAQ Feminista

11 de June 2013 por Valek

faqfeminista

Ser feminista é um trabalho de Sísifo. Você escreve, explica, tenta evoluir o debate, daqui a pouco tem que fazer TUDO DE NOVO. Do zero. Porque sempre vai aparecer algum indivíduo no tabuleiro da vida que vai fazer você voltar 20 casas e ficar uma rodada sem jogar para explicar coisas óbvias que você já explicou trocentas vezes antes. Cansa. Dá rugas.

Aí a pessoa não entende por que você não teve paciência com ela. Porque essa pessoa geralmente acredita que ela foi a primeira a cruzar o seu caminho com aquele argumento asno e aí fica pensando que ela é especial e merece a sua atenção. Coitada.

Como minha paciência esgotou há muito tempo, resolvi escrever as respostas para as questões que eu mais ouço nesse mundão véio sem porteira quando o assunto é feminismo. Para facilitar, né? Se alguém aparecer repetindo qualquer um desses argumentos, dou um ctrl+c ctrl+v para responder. Sinta-se à vontade para fazer o mesmo.

 

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Oi. Essa comparação é tão sem pé nem cabeça quanto dizer “não sou nem flamenguista nem dentista”. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa e está na hora de aprender o que é cada uma delas.

Machismo é uma cultura de dominação que oprime especialmente as mulheres, que nega a elas humanidade, que as trata como inferiores e incapazes. Feminismo é um movimento de pessoas que lutam contra essa opressão e a favor de um mundo mais justo e igualitário para todas e todos.

Feminismo é sobre liberdade, sobre escolha, sobre respeito. Se você acha que mulheres devem ser tratadas como seres humanos e ter os mesmos direitos dos homens, parabéns, você é feminista. Juro, é só isso. Não tem letras miúdas.

A Clara Averbuck explicou isso muito melhor. Mais claro que isso, nem desenhando.

 

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Inclusive os paraquedistas, os trapezistas, os ciclistas, os economistas (ah, os economistas!), os fisiculturistas, os autistas, os turistas, os massagistas, os baristas, os malabaristas… Todos esses “istas” são um perigo para a sociedade. Ah, não fode. (Acabou de ganhar um passaporte grátis de volta para o tópico 1 desta lista).

 

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‘Xô te dizer o que é sexista: se incomodar com um nome só porque ele faz referência a algo feminino. Porque temos todo um idioma contaminado pelo machismo, com palavras depreciativas exclusivas para mulheres e com o masculino como norma, mas isso não parece incomodar muita gente, né? Aí você vem dizer que o nome de um movimento de MULHERES pelo fim da opressão contra MULHERES não deveria se chamar feminismo?

Essa implicância é só mais um reflexo do machismo: ficar incomodado quando mulheres ganham evidência, mesmo quando é em um pedacinho da palavra. Quer dizer, a gente já luta por espaço na política, no trabalho, na sociedade… e tem que lutar pelo nosso espaço até em uma palavra. Isso só mostra o quanto o feminismo é necessário – e faz todo sentido se chamar “feminismo”. Lide com isso.

Para finalizar, feminismo não se chama Humanismo pelo mesmo motivo que não se chama pão de queijo ou Hello Kitty: porque é OUTRA coisa. Humanismo é uma doutrina filosófica centrada no ser humano, em oposição ao sobrenatural, a deus e a metafísica. Então vamos deixar de ser tontos e parar de querer chamar bicicleta de pterodáctilo? Vamos.

 

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Coisas como ganhar salários iguais, ter autonomia sobre o próprio corpo e não ser desumanizada em cada canto desse planeta realmente são privilégios. Mas sabe por que são privilégios? Porque só um gênero tem. Queremos os mesmos direitos que qualquer ser humano merece; se isso te parece “demais”, é porque quem tem privilégios demais é você.

 

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Não lutamos pelo alistamento obrigatório porque é uma ideia imbecil. Por que alguém com algum bom senso lutaria para ser obrigado a fazer alguma coisa, meu deus? É muito mais sensato lutar pelo alistamento voluntário para AMBOS os gêneros e brigar para que as mulheres que queiram entrar na carreira militar consigam. É, porque é muito difícil para as mulheres terem uma carreira em uma instituição tão machista quanto as Forças Armadas. Se para você a questão militar é tão importante, você deveria comprar a briga dessas mulheres. Just saying.

 

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Onde estão afinal essas feministas que tanto odeiam os homens? Hoje, no History Channel, logo após “Alienígenas do Passado”. O programa vai trazer depoimentos inéditos: “fui abduzido por uma feminista que odeia homens! Elas existem, juro!”, diz o cara que odeia feministas.

Um especialista descobriu como encontrá-las e conta para a gente: se você disser três vezes na frente do espelho “misandria, misandria, misandria”, uma feminista que odeia homens aparece para você.

O programa também entrevistou transeuntes. Feministas que odeiam homens: você acredita? “Olha, acho que não dá para provar que elas existem, mas também não dá para provar que não existem.” Imperdível.

 

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Desconfio que Valerie Solanas é referência em feminismo somente para aqueles que odeiam o feminismo. Porque, sinceramente, o resto das feministas está cagando pra ela. Mas sabe o que é o mais engraçado disso tudo? Se incomodarem tanto com um manifesto odioso escrito por uma suposta feminista que nem está mais viva, que só é conhecida por anti-feministas, que nem é levada a sério pela maioria das feministas que atuam hoje em dia, enquanto não se importam nem um pouco com um “SCUM Manifesto” contra as mulheres que é recitado e colocado em prática todos os dias, em todos os cantos desse planeta e que tem matado mulheres de verdade. Sim, existe um “SCUM Manifesto” contra mulheres e ele se chama… mundo. Bem-vindo à realidade.

 

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Porque você já viu os preços nos salões de beleza? Estão pela hora da morte! Brincadeira. Não é nada disso. Feminismo não é revista feminina que tem regrinhas sobre como devemos nos vestir, o que devemos fazer, o que não podemos fazer e outras 1001 “dicas” para agradar seu homem. Aliás, o feminismo quer justamente pegar todas essas regrinhas, picotar em mil pedacinhos, jogar no chão e sambar em cima. Depilar, fazer as unhas, alisar o cabelo, usar salto alto e essas coisas que definiram como “femininas”, nada disso deve ser feito por obrigação. Depila quem quer. Uma feminista não se define pela quantidade de pelos que tem no corpo. Se ainda tem dúvidas do que é feminismo, volte para o tópico 1.

 

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Cê jura? Eu nunca iria imaginar que um sistema opressor tão profundamente arraigado na nossa sociedade pudesse ser internalizado e reproduzido justamente por suas vítimas. Falando sério: o fato de existirem mulheres endossando o machismo NÃO É licença para você ser machista. Você é obrigado a pisar em alguém só porque essa pessoa voluntariamente se deitou no chão? Aliás, o fato de existirem mulheres endossando o machismo só reforça a importância e a urgência do feminismo.

 

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Feminismo não é um livro de regrinhas que impede você de fazer coisas legais. O nome disso é cristianismo, feminismo é OUTRA coisa. O feminismo quer quebrar todos esses padrões que aprisionam as mulheres, inclusive em relação ao próprio corpo. Mulheres que percebem que podem amar o próprio corpo, que podem ter muito prazer no sexo e não apenas fazer sexo para dar prazer ao homem, que se despem do moralismo e da vergonha que tentam colocar sobre o sexo, não só dão de quatro, como dão de cinco, de seis, de quadradinho de oito, gozam e fazem coisas inimagináveis para essa sua cabecinha formatada pelo pornô mainstream que nem é sexo de verdade. Ou seja: feministas fodem bem melhor.

 

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Deve ser porque você só conhece as feministas da sua cabeça. Além disso, mulher nenhuma, sendo feminista ou não, tem obrigação de ser bonita. Não somos objetos decorativos, sabe? E já que tocou no assunto, você nem é lá essas coisas, querido.

 

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Ninguém defende o aborto. O que se defende é que o aborto seja descriminalizado para salvar a vida de mulheres que fazem na ilegalidade e MORREM. Ser contra a descriminalização do aborto legal e seguro é condenar mulheres à morte, especialmente mulheres pobres e negras.

Trazer uma questão de saúde pública para o nível de ser “contra ou a favor” do aborto é ficar na parte rasa do debate. Aliás, não interessa se eu sou pessoalmente contra ou a favor do aborto. A minha opinião pessoal e minhas crenças não deveriam nortear as leis. Porque eu sou contra babacas, mas nem por isso o governo está criando leis para impedir as pessoas de serem. Inclusive, tem gente por aí sendo babaca sem vergonha nenhuma.

É contra o aborto? Nunca faria um? Ótimo, não faça. O corpo é seu e ninguém deve te forçar a fazer qualquer coisa que você não queira (aliás, o aborto ser descriminalizado não significa que se tornará obrigatório, ok?). O quê? Você é homem e por isso não pode engravidar nem precisaria abortar? Então por que RAIOS você acha que sua opinião sobre um corpo que não é o seu conta? Vai plantar batata e tira a sua opinião do meu útero. ‘Brigadinha.

Não sei se você sabe, mas o aborto JÁ É crime, exceto em casos de estupro, risco de vida para a mãe e fetos anencéfalos, e isso NÃO ESTÁ adiantando para reduzir o número de abortos. As mulheres não vão parar de abortar, mas se o aborto continuar ilegal, elas não vão parar de morrer.

Sei que dava para fazer um FAQ inteiro só sobre essa questão, mas é o que temos para hoje. A Feminsta Cansada (tão cansada quanto eu) e a Clara já escreveram bem melhor sobre isso, fiquem também com as palavras delas.

 

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Para muita gente, querer se igualar aos homens no que eles têm de pior é… transar com quem bem entender. Mas aí vai uma novidade: mulher gosta de sexo tanto quanto homem. Queremos poder viver isso sem que nos julguem como vadias, da mesma forma que os homens não são julgados. Aliás, nem existem palavras o suficiente para condenar homens que fazem sexo. Acredito que uma sociedade é bem melhor quando homens e mulheres podem fazer sexo livremente. Desde que tenha consentimento, segurança e seja gostoso, qual é o problema?

Ao meu ver, o que os homens têm de pior é justamente um sistema opressor a favor deles. O que os homens têm de pior é saber que são amparados por esse sistema (que, felizmente, nem todos endossam) para poderem agredir mulheres, estuprar mulheres, intimidar mulheres e calar mulheres. Então não, não queremos nos igualar ao que os homens têm verdadeiramente de pior. Queremos explodir esse “pior”. Com uma bazuca.

 

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Sim. O pau não cai, se é esse o seu medo (aliás, pau nem é requisito para ser homem, sabia?). Inclusive, homens feministas fodem bem melhor (faz uma visitinha no tópico 10). Mas a primeira lição que o homem feminista aprende é: ouça as mulheres e respeite o seu espaço. Achar que pode dizer às mulheres como elas devem atuar no feminismo é um tanto machista. Quer ser feminista? Ótimo. Em vez de ficar chorando para ter espaço entre as feministas, você pode usar os espaços masculinos que você já frequenta para combater o machismo e ensinar a mais homens sobre como o feminismo é foda.

 

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Eu aprendi sobre o feminismo na internet. É grátis, é prático, é jovem. Para começar, você pode acompanhar os blogs da Lola, da Nádia, da Clara, da Feminista Cansada, das Blogueiras Feministas, das Blogueiras Negras, do Diogo e da Gizelli, que além de ter textos excelentes também fez uma lista com vários outros textos e blogs bacanas. Sirva-se! A Anita Sarkeesian tem uns vídeos excelentes (e legendados), o Alex Castro tem um texto bem didático sobre o assunto, e se você busca munição teórica, a Lola indicou uma pá de livros feministas aqui. Informação é o que não falta. Espero que boa vontade da sua parte também não.

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Pay the fucking writer

24 de May 2013 por Valek

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Eu vivo de escrever. É o meu trabalho, é o que faço para pagar as contas. O que não é nada fácil, especialmente porque não é um trabalho valorizado – isso quando as pessoas entendem que é um trabalho. Sei que ilustradores, atores, músicos e outros profissionais que trabalham com o imaterial vão se identificar com o que tenho a dizer a seguir: a pior coisa desse trabalho é ter que aturar gente que acha que é ok trabalharmos de graça.

***

Um dia eu já trabalhei como publicitária, em agência de propaganda. Tem uma coisa nesse mercado que me dá canseira só de lembrar: concorrência. É um negócio que funciona assim: para ganhar a conta de um cliente, várias agências concorrem entre si para apresentar ao cliente o seu trabalho. O cliente analisa vários quesitos, como estrutura da agência para atendê-lo, questões técnicas, orçamento e o trabalho criativo, usando essa avaliação como base para escolher qual das agências contratar. A questão é que a agência faz um imenso esforço e cria uma campanha completa para mostrar ao cliente. Se perde a conta, a agência trabalhou de graça. Se ganha, é maravilhoso, mas raramente essa campanha que ela apresentou na concorrência vai para a rua de verdade. Se não for completamente descartada para criar outra do zero, essa campanha terá que sofrer alguns ajustes. É mais trabalho.

Foi lendo esse texto sobre o ponto-cego das concorrências que me motivei a escrever este post. O autor põe em xeque esse modelo de negócio em que ninguém ganha: a agência (especialmente as menores), que mobiliza todo um esforço, equipes e recursos de graça; os criativos, que apesar de receberem seu salário independente de ganharem ou não a concorrência, serão exauridos por fins de semana e noites viradas para entregar o trabalho, para depois ficarem com a sensação de terem trabalhado em vão; e os clientes, que apesar de terem à disposição várias ideias de graça, serão, de certa forma, enganados, já que isso não dará a ele a real noção de como será o atendimento no dia a dia.

E, ainda assim, isso continua a ser feito.

Isso acontece com a publicidade porque o trabalho de criação não é algo material, palpável. Se o governo quer contratar uma empresa para construir um viaduto (algo bastante concreto), ele não pede para cada empresa construir um viaduto para então decidir qual será contratada. Nesse caso, a empresa apresenta orçamento, projetos, quesitos técnicos. A contratada sim, constrói o viaduto.

Ao meu ver (porque aqui só posso dar a minha opinião e a de mais ninguém, caso isso não tenha ficado claro), a campanha publicitária é o viaduto das agências, assim como o texto é o viaduto do escritor. E tem gente que não vê problema em pedir para que a gente construa um viaduto em um fim de semana sem pagar nada por ele.

***

A percepção de que o trabalho criativo/imaterial não tem tanto valor leva ao famigerado discurso da visibilidade. Ilustradores e ilustradoras (especialmente em início de carreira) já ouviram muito esse discursinho: “Faz uma ilustra para minha empresa, vai ser bom para o seu portfólio! Vai te dar visibilidade!”. Às vezes, essa visibilidade pode ser um investimento interessante, conduzir para projetos que vão compensar financeiramente (já aconteceu comigo algumas vezes), mas, na maioria das vezes, é só alguém querendo explorar você.

Tenho uma historinha polêmica sobre isso. Na faculdade (me formei em publicidade), tivemos um trabalho que era produzir um filme de 30 segundos e o cliente era a própria faculdade. O professor, para “incentivar” a turma, disse que o trabalho com a maior nota seria veiculado na TV. Eu, que tenho que ser chata e questionadora, perguntei: “e se o aluno não quiser?” O professor sequer tinha considerado essa opção; via como uma oportunidade para o aluno “expor o seu trabalho”. A questão é que a maioria das pessoas no meu grupo já trabalhava em agência, inclusive eu. Um dos integrantes trabalhava para uma agência que atendia a faculdade concorrente; ou seja, isso podia dar problema depois. Além do mais, eu já era paga para fazer esse tipo de trabalho em uma agência (como redatora) e não fazia sentido fazer o mesmo trabalho de graça para a faculdade. Fazer o trabalho pela nota, tudo bem. Mas não aceitamos que o trabalho pudesse ser veiculado. Resumo da ópera: o professor ficou puto com a gente, perdemos nota e o trabalho que ganhou a melhor nota acabou não sendo veiculado.

O que achei uma pena mesmo foi, no próprio curso de Publicidade e Propaganda, ensinarem que o nosso trabalho não vale nada. O problema não está só no mercado; está, também, na sua formação.

***

Vez ou outra aparece alguém querendo me pautar: “Aline, você poderia escrever sobre (insira tema nada a ver aqui)” ou “Você poderia ter escrito esse texto dessa forma, em vez dessa”. Se é sobre um tema que eu não teria vontade de escrever normalmente, se ela vem me pedir para escrever algo como se ela fosse minha cliente, e não minha leitora, eu suponho que a pessoa esteja me brifando para um trabalho pago, certo? Respondo com um: “ok, te passo um orçamento”. A pessoa não me responde mais.

Eu escrevo de graça para o meu blog, para meus projetos pessoais ou projetos que tenho com amigos. Mas eu escrevo sobre o que eu quero, do jeito que eu quero, no meu tempo.

Se você quer que eu escreva algo para você, sobre o que você quer, do jeito que você quer, é só me pagar e terei o maior prazer. Inclusive, sou bastante rápida e não tão cara quanto você imagina. Se precisar, é só me explicar sobre o trabalho e me pedir um orçamento.

Agora, o que eu escrevo de graça, não tenho o menor problema em disponibilizar de graça. Em breve vou disponibilizar 3 ebooks de contos meus para download gratuito e deixo os textos desse blog à disposição para as pessoas reproduzirem em seus blogs, trabalhos de faculdade ou cartões de aniversário para a mãe, desde que para fins não-comerciais. Explico sobre as condições para usar meus textos aqui. É sério: podem usar os meus textos. Spread the word.

***

Acredito que foi através da Clara Averbuck, uma escritora foda que muito admiro, que descobri esse vídeo, de um roteirista reclamando da cara de pau das produtoras de Hollywood que, vira e mexe, pedem para os roteiristas fazerem algo de graça. “Eu não daria sequer uma mijada sem ser pago por ela”, diz Harlan Ellison:

Para finalizar, pego emprestada a frase de Cacilda Becker (acho) para fazer um apelo: “não me peça de graça a única coisa que tenho para vender”. Só porque você não pode pegar com as mãos uma coisa, como você faz quando vai fazer compras no supermercado, não significa que essa coisa não tenha valor.

Pay the fucking writer.

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A difícil vida do privilegiado

22 de April 2013 por Valek

privilegio

Privilégio é um assunto espinhoso — especialmente para quem os tem. Ter que ouvir as dificuldades dos que são diariamente oprimidos é incômodo não porque escancara os privilégios que os privilegiados sequer percebem que têm, mas porque é uma puta injustiça não reconhecerem que a vida do privilegiado não é esse mar de rosas, não! A vida do privilegiado é bastante difícil sim, de forma que precisamos falar sobre suas penúrias e sofrimentos, sobre seus dramas, sobre suas dificuldades nesse mundo tão injusto.

A vida do privilegiado é difícil, acima de tudo, porque ele é incapaz de se perceber como tal. Sozinho ele não consegue ver que ele é rodeado de privilégios, de facilidades que os outros não têm, mas que para ele não passam de coisas banais, absolutamente normais. E como ele sofre por causa disso! Ter gente dizendo o quanto ele é privilegiado enquanto ele só está andando tranquilamente de mãos dadas com a pessoa que ama: “nada de mais! eu não sou privilegiado, imagina!”. Ele sofre por nunca entender porque estão reclamando que os filmes e comerciais quase não mostram negros, afinal, ele nem tinha percebido que eles não apareciam!

A vida do privilegiado é difícil porque ele tem imensa dificuldade de se colocar no lugar do outro. Não daquele que tem mais, do ricaço que tem lancha, mansão e conseguiu estudar no  exterior, mas daquele que tem menos. Para o privilegiado, é impossível imaginar alguém que não tenha feito faculdade não por escolha, coisa que ele está acostumado a ter, mas por falta de. É sofrível para o privilegiado tentar entender que aos outros é negada a autonomia ao próprio corpo que ele mesmo tem e sempre teve. E como é difícil viver com o privilégio de sequer conseguir imaginar por que tipo de coisa tem que passar uma pessoa que tem menos que ele.

A vida do privilegiado é difícil porque nem se esforçando muito ele consegue fracassar. Ele se ressente por ninguém falar da imensa pressão que ele sofre por poder fazer o que quiser e ser o que quiser na vida. Não é uma dureza viver em um mundo que funciona para não te deixar na pior nem se você quiser?

A vida do privilegiado é difícil porque ele não pode sequer expôr seus sofrimentos sem ser olhado como alguém mesquinho, que reclama de barriga cheia. Quando o assunto é violência contra negros, contra gays, contra transexuais, contra mulheres, contra pobres, contra índios, o privilegiado sente-se excluído, até revoltado. Ele não consegue aceitar não ser o centro de um assunto e, em sua angústia, entra na discussão para lembrar os oprimidos: “mas e eu? vocês não ligam para o meu sofrimento?”

A vida do privilegiado é difícil porque ninguém leva a sério o seu sofrimento. Seus reclames são transformados em piada e eles não podem nem contar com o politicamente correto (que tanto desprezam) para defendê-los dessas brincadeiras de mau gosto. O privilegiado fica, então, acuado pela insensibilidade daqueles que insistem em apontar seus privilégios e ofendê-los usando essa palavra feia.

Ter gente lutando por coisas que para ele sempre foram tão acessíveis e bobas, isso sim, é querer ter privilégios. Ele, que mora no bairro certo, tem a cor de pele certa, tem o gênero certo e nasceu no corpo certo, é apenas alguém normal que conseguiu superar os obstáculos da vida, sem choramingar para ter privilégios. Mas ninguém reconhece isso.

Uma lágrima desliza sobre o rosto do privilegiado quando alguém fere seus sentimentos ao lembrá-lo de seus privilégios. E então ele enfrenta mais um calvário, que é a terrível sensação de culpa que o corrói por dentro quando ele finalmente percebe que pode ser um privilegiado. Atordoado, ele grita “eu não tenho culpa! Eu não tenho culpa!”, mas, na verdade, está apenas tentando fugir de algo mais doloroso que a culpa, que é a reflexão sobre uma estrutura que sistematicamente beneficia alguns enquanto oprime outros.

O privilegiado sofre porque ele não quer falar sobre isso. Ele não quer ouvir sobre isso. Ele quer poder continuar falando sobre seu sofrimento e dificuldades, sobre ter que pagar mais na balada, sobre ter que pagar impostos enquanto tem vagabundo (sic) recebendo ajuda do governo, sobre não saber como explicar para o filho porque dois homens estão se beijando, sobre o horror de não poder fazer piadas sobre estupro, sobre estar sofrendo censura porque fez um comentário racista que não foi aprovado num blog, sobre a empregada cheia de direitos trabalhistas que não se presta nem a fazer um mingau depois do horário de expediente, sobre ter que se apresentar ao exército enquanto as mulheres ficam na maior vida boa (embora ele, branco, de classe média e com um sargento ou coronel amigo do pai não tenha precisado servir de verdade, ao contrário daquele outro rapaz da periferia, que, mais que querer, precisava servir para conseguir sustento).

É duro ser um privilegiado, eu sei. Por isso o privilegiado precisa de ajuda, especialmente para enfrentar a parte mais difícil: enxergar seus privilégios.

***

“As crianças, por não conhecer nada de diferente, aceitam a realidade como ela é. Para a criança privilegiada, seus privilégios são tão naturais que ela pensa que todo mundo os têm.

Então, um dia, por qualquer motivo (talvez lendo um blog), baixa aquela consciência da enormidade dos seus privilégios. De quanta coisa você tem ou teve que outros nunca tiveram.

Em um segundo momento, consciente de todos seus privilégios, você pára de reclamar dos privilégios que não possui e, mais importante, pára de lutar por mais privilégios.

Por fim, percebendo que somente isso não basta, mesmo que a custa de alguns sacrifícios pessoais, você começa a repassar alguns desses privilégios para quem nunca teve nenhum.

E assim o mundo começa a mudar.”

Da série de textos sobre Privilégios do Alex Castro. Leiam todos, de um por um. Uma, duas, doze vezes, sempre que você puder, sempre que você sentir aquela vontade incontrolável de dizer que uma minoria está “pedindo direitos demais”, sempre que surgir aquela coceirinha para dizer que os seus problemas sim, são mais graves do que os daquele grupo historicamente oprimido, sempre que você se sentir tentado a desviar o rumo de uma discussão sobre uma sociedade estruturalmente desigual para a culpa que fazem você, coitado, sentir por carregar o peso desses privilégios — até porque, como Alex Castro ainda fez questão de explicar, “ser responsável por solucionar um problema é muito distante de ser culpado por ele.”

***

Você conseguiu contar quantas vezes repeti as palavras “privilégio” e “privilegiado” no texto? Para alguns, vai parecer um descuido grosseiro, “não se repete tantas vezes umas palavra assim, essa autora não sabe escrever, vou lá nos comentários corrigi-la etc”. Por incrível que pareça, isso foi cuidadosamente pensado para ter um efeito. Você sabe dizer por que fiz isso? Sim. Para que o privilégio deixe de ser uma coisa invisível. Quem sabe assim, repetindo a palavra incansavelmente, ela consiga se materializar diante dos seus olhos, ganhar textura, cor, formato, volume e que você consiga perceber os privilégios que te cercam. Que eles são palpáveis, que eles têm peso. Que eles são isso: privilégios.

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A pessoa que não quero ser

04 de April 2013 por Valek

pinterest

Acho muito difícil seguir modelos. ”Quando crescer, quero ser igual (insira pessoa de sua admiração aqui)”. Além de alguns modelos serem simplesmente inalcançáveis, eu não sei dizer que tipo de pessoa eu gostaria de ser. Prefiro seguir por eliminação. Porque sei bem que tipo de pessoa eu NÃO quero ser.

A pessoa que não quero ser se preocupa demais em criticar a vida dos outros e escolhas alheias que nada interferem em sua própria vida.

A pessoa que não quero ser é aquela que faz comentários rudes e constrangedores porque acredita que está sendo “sincera”.

A pessoa que não quero ser é um monolito que acredita que tudo o que sempre foi deve continuar a ser, que não questiona as tradições, que tem pavor de mudanças.

Essa pessoa, a que não quero ser, vai fazer as coisas do jeito mais fácil, vai seguir a cartilha, vai fazer o que é esperado que ela faça.

A pessoa que não quero ser é aquela que não assume responsabilidade pelas coisas que diz ou faz.

Não quero ser a tia resmungona. Não quero ser a pessoa que chuta a poltrona da frente no cinema. Não quero ser a pessoa que coloca o som alto demais sem se importar com os vizinhos. Não quero ser a pessoa que corrige o português dos outros em público. Não quero ser a pessoa que faz montagens toscas para postar no Facebook.

Não quero ser a pessoa que comenta sem ler. Que chama a outra de vadia. Que agride desconhecidos pela internet. Que comenta “como fulana está gorda”. Que faz perguntas indelicadas. Que impede o companheiro de ter vida própria, como outro ser humano independente. Que se define pelas coisas que tem. Que vai limitar alguém por conta de seu gênero. Que se deixa limitar pelo que disseram que é mais adequado ao seu gênero. Que afirma coisas sem saber sobre o que está falando. Que não sabe dizer “não sei”. Que quer ter opinião sobre tudo.

Não ser essa pessoa é o trabalho mais difícil a qual me dedico. É um esforço diário. Então repito para mim mesma, o dia todo “não quero ser essa pessoa, não quero ser essa pessoa”, esperando que, no final das contas, tudo o que me resta ser que não seja essa pessoa me torne uma pessoa um pouco melhor.

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Opinião

28 de March 2013 por Valek

imagesIntellectual-kittyEu não tenho opinião sobre o Lollapalooza nem sobre as bandas que vão tocar no festival. Eu não tenho opinião sobre o Expressionismo Abstrato nem sobre o Romantismo Alemão do século XIX. Eu não tenho opinião sobre o último ganhador de um leão de Cannes na categoria Filme. Ou na maioria delas. Eu não tenho opinião sobre o SBT. Eu não tenho opinião sobre o folder que recebi hoje de manhã.

Eu não me meto a dar opinião sobre tudo que me aparece porque eu não tenho opinião sobre um monte de coisa.

E nem preciso.

Porque a maravilha da opinião, amigos, é que ela é um direito, mas nunca uma obrigação.

***

 

 

Existem as pessoas com as quais eu concordo, as pessoas das quais eu discordo, as pessoas que me fazem mudar de ideia e as pessoas que ignoro.

As pessoas com as quais eu concordo me fazem lembrar, eventualmente, que é impossível concordar integralmente com alguém o tempo todo.

Algumas pessoas das quais eu discordo me fazem perceber que nem sempre eu preciso ser inimiga de alguém por discordar de suas ideias.

As pessoas que me fazem mudar de ideia me fazem perceber que eu não preciso ficar de um “lado” para sempre.

As pessoas que eu ignoro, bem, essas me fazem lembrar que eu não preciso ter opinião sobre tudo e sobre todos, todo o tempo.

***

Estes dois pequenos textos foram publicados na minha página do Facebook, onde escrevo uma porção de coisas além dos textos que vocês acompanham pelo blog. Vai lá curtir.

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O casamento é superestimado

21 de March 2013 por Valek

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Frequentemente me perguntam quando é que eu vou me casar. Estou em um relacionamento há 5 anos e com essa pessoa divido as contas e a cama. Se isso não é estar casada, então não sei o que é.

Para os outros, casamento é outra coisa.

As coisas são o que dizemos que elas são. Se definimos que trabalho é aquilo que fazemos em um escritório, sob a supervisão de um chefe, 8 horas ou mais por dia, 5 dias por semana para ganhar dinheiro até o tão esperado dia da aposentadoria, então teremos pessoas perguntando a escritores, ilustradores, freelancers e músicos: “Tá, mas no que você trabalha de verdade?”

As pessoas nem precisam me perguntar isso. A cara delas quando digo com o quê trabalho já denuncia que elas não acreditam que eu trabalho “de verdade”. E com o casamento é a mesma coisa.

Engana-se quem (eu) acredita que seja a união, reconhecida legalmente, entre pessoas que se amam. O casamento é uma ideia muito maior do que isso, uma narrativa mais repetida em nossa cultura do que a história da Branca de Neve, do descobrimento do Brasil ou de Adão e Eva. E, como uma complexa narrativa, o casamento possui um vasto repertório de personagens, rituais, alegorias e simbologias que precisam ser seguidas para que seja considerado “de verdade”.

alma-gemea

Tudo começa com a ideia da alma gêmea.

Ouvimos desde sempre que não é possível ser feliz sozinho. Nos filmes, nas novelas, nos livros e em tudo quanto é história há um par romântico que sabemos estar predestinado ao ou à protagonista. Um exemplo do lobby do casório: quantas histórias de princesas da Disney NÃO giram em torno de casamento?

Assim como esses personagens, só estaríamos felizes e realizados ao encontrar essa alma gêmea. Logo, é esperado que você se case com aquele alguém que faz você feliz — como se não fosse absurdo depositar no outro a enorme responsabilidade de fazer você feliz.

Bem, e nessa narrativa repetida há mais tempo do que eu possa imaginar, o casamento é uma coisa mágica que une duas pessoas em uma só. Duas pessoas virando UMA SÓ, gente. Está até na Bíblia: “já não serão dois, mas uma só carne”. Eu acho isso pavoroso. Prefiro continuar sendo eu, tendo minha própria identidade, e estar ao lado de alguém que também tenha a sua. Mas vá lá; a sociedade considera casamento a criação de um monstro de duas cabeças.

“Então você não está casada com a sua cara metade?” Não. Nem ele nem eu somos metades. Somos seres humanos inteiros. Por experiência, aprendi que não há cilada maior do que buscar alguém que precise de mim para ser completo e ainda esperar que essa pessoa me faça feliz.

até tu, Mônica?

até tu, Mônica?

“Casamento tem que ser na igreja”

Toda essa história de encontrar alguém que nos faça feliz, uma alma gêmea feita para nos completar, reveste o casamento de uma aura mística que as religiões costumam explorar. Afinal, uma união tão especial tem que ser eterna, e para ser eterna tem que ser celebrada numa igreja, diante de deus, certo?

Ninguém precisa ser religioso para saber cada detalhe de um casamento na igreja. Está nos filmes, nas novelas, nos livros, nas revistas, em todos os lugares. A noiva de branco, entrando na igreja levada pelo pai; a marcha nupcial; os convidados acompanhando emocionados o pai entregar a noiva para o noivo, como se fosse uma posse; a troca de alianças; os votos; o momento em que se tem alguém contra o casamento que fale ou se cale para sempre; o “até que a morte os separe”, o “eu os declaro marido e mulher” e o “pode beijar a noiva”, roteiro decorado como fala de filme que a gente assistiu mais de vinte vezes.

Os problemas quanto a isso são dois, e não tem nada a ver com a cerimônia em si ou com quem ESCOLHE se casar assim. 1) Todos esperarem (e cobrarem) que você faça o mesmo, seguindo o roteirinho de subir no altar para se casar, mesmo que você não queira, mesmo que você não veja o menor sentido nisso. 2) A igreja deter o monopólio sobre o casamento, não aceitando como verdadeira qualquer união que fuja desse roteirinho.

Dispensar a aprovação da igreja nesse aspecto da sua vida não é o suficiente; ela, não satisfeita, tenta interferir nas leis CIVIS para impedir qualquer tipo de casamento que não a agrade.

“Esse negócio de se casar com uma pessoa do mesmo sexo não está no script! Meu deus, vocês estão estragando nossa historinha mágica! Han? O quê? Eles não vão se casar na igreja? Ah, não importa, o casamento é propriedade nossa! E se a gente não foi convidado para a festa, aí é que não vamos permitir que se casem MESMO. Hmpf.”

Será que é tudo pela festa?

Perguntaram para o meu sogro quando é que ele ia tomar vergonha na cara e se casar “de verdade” com a mulher com quem já vive há anos. É claro que a resposta que esperavam era quando seria a festa de casamento. Então ele respondeu: “Mas a gente casou. No cartório, sozinhos.” Achei genial.

Começo a suspeitar que só existe toda essa cobrança para que o casamento seja como manda o figurino porque esse roteiro inclui uma festa. E quase todo mundo adora festa. Então, quando me perguntam quando é que vou me casar, devem estar querendo saber mesmo é “quando você vai pagar para eu me empanturrar de bebida e coxinha de catupiry, dançar até cair, comer bolo e posar para as fotos com o vestido novo que eu não vou poder usar em outra ocasião?”

Então talvez seja por isso que tanta gente fica brava com casamento de pessoas do mesmo sexo: porque sabem que homofóbicos não serão convidados para a festa.

A grande dificuldade, afinal, é aceitar o diferente.

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A vida é um roteiro com cenas bem definidas, em que cada um de nós recebe um papel. Quem transgride esses papeis um tiquinho de nada é rejeitado. Porque olham para a vida do “diferente” e não conseguem entendê-lo. Não conseguem encaixá-lo em rótulos que já conhecem. Aí o cérebro trava.

Porque tudo isso é sobre o furor das pessoas que tentam, a todo custo, enquadrar o outro numa norma própria. Medir o mundo usando a si mesmo como régua.

Quem é que vai dizer que eu sou casada “de verdade”? Uma festa de casamento? O papa? Uma aliança no dedo? Um pedido de noivado? Um status de relacionamento no Facebook? Pelo menos nos meus documentos, o que vai dizer é uma certidão. Mas e na minha vida pessoal? Quem é que tem o direito de determinar isso? Minha família? Você?

E a principal questão: por que isso importa?

Tudo isso é superestimado. Especialmente a diferença que faz para os OUTROS algo que é, ou pelo menos deveria ser, totalmente PESSOAL.

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Dicas para quem lê muito na internet

18 de March 2013 por Valek

Neu eu acredito ainda, mas resolvi gravar um vídeo. Como o fim do Google Reader está próximo, recebi algumas dicas de como se virar sem ele e resolvi compartilhar com vocês. Como continuar acompanhando uma infinidade de blogs e sites? Como continuar tendo uma leitura dinâmica e prática na internet?

Testei algumas opções e mostro três delas para ajudar você a se decidir: The Old Reader, BlogLovin e o Feedly. Se você está usando outro leitor de feeds e gostando, deixe sua experiência nos comentários! :)

Ah, aproveita e assina o feed do meu blog, vai.

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Valores da família

12 de March 2013 por Valek

addams family

Não é lindo quando um político fala que defende os valores da família? Não que defende coisas palpáveis, como água encanada para todos, ou uma reforma no Ensino Médio, ou a construção de uma cidade subterrânea, ou a arrecadacão de impostos sobre a beleza, mas sim os “valores da família”. Essa coisa indiscutivelmente importante, mas que ninguém explica o que é.

Justamente por ninguém nunca dizer o que isso significa, é que podemos fazer um breve exercício de imaginação para preencher com algum sentido os “valores da família”. Que valores são esses, afinal?

Valores da família são as pequenas hipocrisias que mantêm a sociedade unida, apesar de tudo.

Valores da família são os momentos de constrangimento nas festas de fim de ano. É reencontrar a prima e dizer que ela emagreceu só pra parecer educado. É dizer para aquela parente distante que você nunca visita: “nossa, como você está sumida!”

Valores da família são os pais projetando nas crianças o que eles sempre quiseram ser mas não puderam, porque precisavam trabalhar duro e ganhar dinheiro para um dia poder ter filhos. É não querer que o filho assuma que gosta de rapazes por medo do que os vizinhos vão falar. É poder dar beijo de língua nas primas, porque elas não são exatamente família, né?

Valores da família são a macarronada e o frango assado de todo almoço de domingo com os pais. É a desculpa que todo mundo dá para não lavar a louça depois. É dividir o quarto com o irmão e ele pegar suas coisas sem pedir. É a mãe ver que a família está desmoronando quando encontra maconha na gaveta da filha. Ou uma camisinha. Ou um DVD do Rafinha Bastos.

Valores da família são os casamentos que não acabam por preguiça. Ou medo. Ou porque “o que iam dizer, meu deus?”. É poder criticar as escolhas daquela sua sobrinha artista, que não fez concurso público. É esperar que os seus filhos tenham a mesma religião que você.

Valores da família são as bonecas caríssimas que você dá para sua neta, mesmo que ela tenha pedido o boneco do Batman. É ser adolescente e gritar dramaticamente “eu nunca pedi pra nascer!” se a mãe ameaça dar bronca. É ir transar na casa do namorado ou da namorada porque os pais dele ou dela se importam menos com isso. Ou preferem nem imaginar o que vocês estão fazendo.

Os valores da família incluem todos os pitacos que você pode dar na vida dos seus parentes. Ou os comentários invasivos que você pode fazer sobre a família dos outros. Exatamente como fazem alguns políticos, ao acreditar que aqueles que não têm uma família com pai e mãe casados na igreja, filhos heterossexuais e casa própria sejam menos família, com menos valores.

Para os defensores dos “valores da família”, a família é um monólito. Um conceito estático e imutável que deve estar sempre acima de tudo e de todos. Como se as famílias deles valessem mais que as outras. Como se as famílias que eles consideram “certas” não estivessem cheias dessas pequenas controvérsias e momentos de constrangimento. Como se existisse família “certa”.

Nesse caso, não são os valores da família que precisam de defesa; mas nós é que precisamos nos defender de seus defensores.

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O que as palavras dizem sobre nós

28 de February 2013 por Valek

“Não pode xingar o coleguinha porque é feio”. Eu, se tivesse filha ou filho, ensinaria de outra forma. Quando você xinga alguém, está dizendo mais sobre você do que sobre aquela pessoa. Basicamente, os xingamentos que você usa só servem para revelar o quão babaca você é.

Não se trata de, ao chamar alguém de “viado”, estar dizendo que o “viado” é você. Isso lembra aquelas discussões de crianças em que uma chama a outra de “bobo”, e a outra, por não ter argumentos melhores, responde que “bobo é você”. Não é nada disso. Xingar alguém de “viado” ou “seu gay” significa apenas que você não amadureceu o suficiente e considera que uma orientação sexual seja ofensiva. Ofensivo mesmo é nos dias de hoje “gay” ainda ser usado como xingamento.

Da mesma forma, chamar uma mulher de “vadia”, “piranha”, “puta”, “vagabunda” (é impressionante como não falta repertório para nos agredir) não diz nada sobre quem é essa mulher. Diz apenas que você é alguém que acredita que a conduta sexual de uma mulher define seu caráter. Que fazer sexo desvaloriza uma mulher, e, portanto, a torna merecedora de agressão. O curioso é que esse xingamento surge mesmo em situações que não têm nada a ver com sexo, como uma briga de trânsito ou uma rivalidade no ambiente de trabalho. Isso ainda diz mais: diz que para você importa mais a vida sexual dela do que qualquer coisa que ela tenha feito. Diz que você é alguém que agride outra pessoa por especular sobre o que ela faz com a buceta dela. Meio ridículo, não acha?

Ainda há os que tentam ofender uma pessoa chamando-a de gordo ou gorda (entre outras variações mais pejorativas). O negócio é que às vezes a pessoa é mesmo e sabe disso. Oras, ela tem espelho em casa. O problema está em quem usa isso como ofensa: na cabeça desse tipo de gente, ser gordo é algo ruim, negativo, motivo de vergonha. Quem aponta como falha de caráter e motivo de ofensa uma característica física como qualquer outra é que deveria ter vergonha. Porque ao dizer isso, você está se revelando uma pessoa pequena que se incomoda com o corpo dos outros. E todo mundo está vendo.

Aliás, só o fato de xingar alguém já diz muito sobre você. Se você faz isso, está dizendo que não consegue atacar o argumento e por isso ataca o argumentador. É alguém que, na impossibilidade de conciliar, deixar pra lá ou argumentar, agride.

As palavras revelam quem você é, e isso não vale apenas para xingamentos.

No dicionário, a palavra “vulgar” significa algo comum, banal, ordinário. Mas quem usa “vulgar” para se referir (olha que surpresa) ao comportamento de mulheres deu um significado totalmente novo à palavra: “vulgar” tornou-se a mulher que chama atenção, que veste roupas curtas, que dança funk, que beija muito, que não se comporta como uma dama, que “não se dá valor”. Muita gente usa essa palavra para designar qualquer coisa que tenha algum teor sexual: uma música pode ser vulgar, uma roupa, um livro, um programa de TV, uma pose. Se fosse só isso, tudo bem. O problema é que usam essa palavra para dizer que algo com algum teor sexual é, necessariamente, algo negativo. Não sei vocês, mas eu acredito que negativo mesmo é achar que sexo (e a liberdade sexual dos outros) seja algo tão condenável.

Um caso intrigante é quem usa o termo “politicamente correto”, geralmente acompanhado de uma escarrada metafórica no chão, para se referir a quem os chateia com questões como racismo, homofobia, machismo e que tais. Ser politicamente correto, aparentemente, significa ser chato, algo incomparavelmente mais “grave” do que distribuir agressões racistas, homofóbicas, machistas ou preconceituosas de modo geral sob o pretexto de estar apenas exercendo seu direito de liberdade de expressão. Não é preciso muito esforço para descobrir que quem usa essa expressão de forma pejorativa (ao mesmo tempo em que glorifica o termo “politicamente incorreto”) está gritando aos quatro cantos que não sabe o que significa liberdade de expressão e tampouco sabe como funcionam as coisas no mundo adulto: você é livre para dizer o que quiser, mas precisa aceitar as consequências do que diz.

É fácil entender uma pessoa se ela usa a palavra “mulherzinha” para ofender um homem; ou se ela xinga um negro de “macaco”; ou se começa uma expressão com “não sou preconceituoso, mas”; ou ainda se usa a palavra “vadia” de forma empoderadora; ou se fala “orientação sexual” ao invés de “opção sexual”; ou se fala em “patriarcado”; ou ainda se fala “a Babilônia vai cair”; ou até se escreve “deus” sempre em letra minúscula. As mesmas palavras que usamos para definir coisas e dar significado ao mundo à nossa volta também nos definem e nos revelam. A questão é: o que queremos que as palavras digam de nós?

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Gatos são mulheres que não se dão ao respeito

25 de February 2013 por Valek

Poucas expressões na língua portuguesa são tão escrotas quanto o “você tem que se dar ao respeito”. Além de soar mal, não faz muito sentido. Mas, como todas ouvimos isso desde pequenas, sabemos bem o que isso significa: temos que ser mulheres direitas, que não falam palavrão, não gostam de sexo, não mostram partes demais do corpo, não bebem, não se divertem. Uma mulher que se dá ao respeito comporta-se de acordo com regras que ninguém sabe quem inventou, e, por estarem aí há muito tempo, ninguém se incomoda em questionar “por que merdas ainda seguimos isso?”.

As “mulheres que não se dão ao respeito” são tão desprezadas e temidas porque não estão sob controle. Tem coisa que mais tira a sociedade do sério do que uma mulher que não pode ser controlada? Talvez tenha: um animal doméstico que não pode ser controlado.

Um gato é muitas coisas, menos obediente. Você pode tentar ensiná-lo a dormir apenas na caminha que você arrumou para ele, mas, se ele quiser, vai se esparramar na mesa de jantar e tirar uma soneca ali mesmo. Ele vai subir na geladeira, entrar em armários e gavetas sem a sua permissão e não vai esperar pela sua aprovação para eleger a cadeira do seu escritório como o lugar onde ele vai passar a tarde dormindo – e deixar uma espessa camada de pelos.

Assim como as mulheres ditas vulgares, gatos são vaidosos e entregues aos prazeres que consideramos imorais, como a autonomia ao próprio corpo. Não têm vergonha de exibir sua anatomia perfeita, sua confiança ao andar e um olhar que apenas quem é dono de si consegue ostentar. Com a mesma falta de vergonha, deitam-se como esfinges ou derramam-se com a pança à mostra, porque não consideram que suas barriguinhas salientes sejam ofensivas ou até mesmo indesejáveis.

A sensualidade dos gatos constrange os mais moralistas. Seu andar rebolativo, a cauda em riste para indicar que está de bom humor, o miado fino e dissimulado emitido para cativar os mais sensíveis, tudo é tipicamente feminino.

Gatos são vadias. Esfregam-se, massageiam, rebolam, fazem charme e lambem sem pudores. Para alguns, mostram-se reservados e até mesmo ariscos; para outros, doam-se com intensidade, ainda que não permitam que sejam dominados. Não adianta exigir ser amado por um gato ou acreditar que você tem o direito de receber qualquer sentimento de um felino. O amor é dele e ele dá para quem quiser. Assim são as mulheres que não se dão ao respeito: amam quem querem, quando querem, do jeito que querem. Odiá-la por não ser correspondido é ser incapaz de amar alguém que seja livre.

É por essas e outras que gatos e vadias atraem ódio e incompreensão. Não é raro ouvirmos, geralmente vindo de quem não conhece gatos nem nunca conviveu com um, que estes animais são “traiçoeiros”. Mulheres que vivem sua sexualidade livremente, da mesma forma, são consideradas “sem caráter”, como se conduta sexual pudesse determinar se você é uma pessoa boa ou má. E não é que as vadias e os gatos também têm em comum a tendência de serem julgados como “interesseiros”?

Tanta liberdade incomoda. Não é por acaso que mulheres que tenham saído um pouquinho da linha e gatos sejam alvos de tanta violência. Os que não aceitam o comportamento nem de um nem de outro recorrem aos argumentos mais intolerantes possíveis para justificar a violência que empregam como punição por não poder dominá-los: “gatos são animais do demônio”, “com essa roupa curta, é claro que ela estava pedindo”, “gato bom é gato morto”, “não se dá ao valor e ainda quer ser respeitada”.

No final das contas, a aversão a gatos e o uso da expresão “você tem que se dar ao respeito” são boas formas de descobrir quem é que não consegue lidar com a liberdade dos outros. E, pessoalmente, quem eu vou evitar a todo custo.

***

Tem um texto bem completo falando sobre a relação dos gatos com o feminino em diversas culturas. Leiam.

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Vadio, mas ela gosta
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Viver com gatos

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