AlineValek

Razões pra gente fazer sexo

15 de June 2012 por Valek

Se tem uma coisa que não dá para escapar de ser na vida é virgem. Todo mundo nasce sendo e tem gente que fica sendo a vida inteira. Eu já fui virgem há muito, muito tempo atrás, em uma galáxia não muito distante, mas ainda consigo me lembrar razoavelmente bem do que significa viver nesse universo.

O virgem vive em um mundo cercado de apelo sexual. Na TV, nas músicas, nos filmes, nas piadas, nos videogames, nos livros. Não dá para escapar. É como se todos falassem um outro idioma que ainda não ensinaram na escola, mas dá pra aprender o básico da conjugação verbal assistindo o Porn Tube.

Na infância, existe uma curiosidade em relação ao assunto, especialmente porque desafia os adultos, que dizem que isso não é conversa pra criança (e dizer isso é pedir pra elas se interessarem, just saying). Nessa idade, eu tinha uma noção superficial da coisa mesmo sem nunca ter visto um pinto na vida – exceto pelos livros de ciência.

Já na adolescência, o bicho pega: a pressão começa a aparecer e ser virgem vai se tornando um fardo cada vez mais pesado. É claro que isso se manifesta de diferentes formas para garotas e garotos. Para eles, a pressão é no sentido de fazer logo e não correr o risco de ser o último cabaço da turma. Para elas, a pressão é para que seguremos a periquita e esperemos o momento “certo”, a pessoa “certa”, por mais que estejamos doidas pra dar. Para eles, é um teste de virilidade. Para elas, um teste de resistência.

Até a Madonna já foi virgem

É por isso que o virgem, nesse estágio de sair do casulo, é um coitado tão sofredor que, não por acaso, acaba se tornando um personagem perfeito para comédias e filmes de adolescentes. American Pie é um bom péssimo exemplo do uso desse estereótipo. Na época em que o filme fez sucesso, eu e boa parte dos meus colegas éramos virgens, e, mesmo sendo uma pobre virgenzinha, eu não entendia como podiam gostar de um filme tão boboca. Aquilo era uma tragédia. Bem diferente de filmes como Submarine, que tive a felicidade de conhecer essa semana.

Ok, Submarine não é sobre um garoto meio loser que perde a virgindade. Isso está presente na história, mas é só um detalhe. Submarine conta a história de Oliver, um adolescente meio estranho cheio de devaneios sobre a vida, a morte e outros pensamentos esquisitos, que tem como objetivo transar com sua namoradinha Jordana, uma garota tão estranha quanto ele próprio, e salvar o casamento dos pais, ameaçado por um suposto affair entre a mãe e o vizinho, um guru místico pop star.

Além da narrativa cativante, a forma que o filme (no caso, Oliver, já que o filme é contado do ponto de vista dele) aborda o sexo é no mínimo interessante. O garoto nos conta como ele consegue saber se os pais transaram: se o botão do regulador de luz do quarto está no meio, ou seja, ajustado para ligar a meia-luz, então é porque fizeram. O negócio é que o quarto não fica à meia-luz há sete meses, e Oliver acha isso preocupante.

Oliver tem bons motivos para se preocupar. A menos que os envolvidos sejam assexuais, um bom indicativo de que um relacionamento é saudável é a ocorrência de momentos um-sobre-o-outro (sejam eles casados ou tico-tico-no-fubá). E é aí que entra o outro lado da tal pressão sobre os virgens: se, por um lado, existe uma pressão doentia para que os virgens transem logo, por outro, existe uma pressão para que eles contenham seus desejos e esperem até o casamento. Tá achando que ser virgem é moleza?

e mão dada, pode?

Esses jovens casais que não deixam o quarto à meia-luz (até porque, dividir o mesmo quarto, só depois do casamento) também são conhecidos como a tal geração “Escolhi Esperar” – representada pela sugestiva figura de uma mão. Orgulhosos de suas virgindades, seguem determinados na escolha de só inaugurarem seus genitais com as devidas alianças na mão esquerda, porque, aparentemente, é assim que deus gosta de sexo.

Ser virgem é bastante difícil, eu sei, eu já fui. Por isso, é de se admirar quem simplesmente escolhe ser virgem. Cada um deve ter autonomia sobre o seu corpo e fazer suas próprias escolhas, sim; o problema é quando o jovem é impelido a suprimir seu tesão, como se isso fosse torná-lo melhor que as outras pessoas. Ser virgem, assim como transar, não torna uma pessoa superior ou inferior a ninguém. E tudo bem que não deve ser verdade que se você segurar um espirro sua cabeça explode, mas impedir o corpo de suprir suas necessidades fisiológicas, quando existem, não é lá muito saudável.

Não bastasse todos esses problemas cabeludos que os virgens já têm, eles ainda têm a tendência de fantasiar sobre o sexo como se fosse a entrega de um Oscar. O que só complica mais as coisas. Eu já disse algumas vezes que, em muitos casos, o que estraga um filme é uma expectativa muito alta. A mesma coisa vale pro sexo. Quer saber? Aí vai um spoiler (não sobre Submarine, mas sobre a primeira vez): não é nada demais. Não desce nenhum anjo do céu, não tem fogos de artíficio e não se ganha nenhum super-poder. Então pode ser um pouco frustrante pra pessoa que se guarda achando que isso vai tornar o sexo de alguma forma mais especial e fuén.

Oliver, pelo contrário, não tem a menor pretensão de se guardar. E, para convencer Jordana a transar com ele, o garoto faz uma listinha fofa com as razões para eles fazerem sexo.

3 – Se vamos nos decepcionar, por que esperar?

Já dizia a música: façamos, vamos amar. O importante é ter vontade e deixar rolar, sem pressa, sem pressão. Razões pra gente fazer sexo é o que não falta. Razões para ver Submarine também não. A única coisa que estraga esse filme é você deixar de vê-lo.

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As vadias marcham

29 de May 2012 por Valek

Foto: Marcos Felipe

A Marcha das Vadias de 2012 foi uma delícia. Não só pelas pessoas (homens, mulheres e crianças) que ocuparam as ruas para lutar por um mundo sem violência contra a mulher, mas, principalmente, pelas reações rancorosas e machistas que surgiram por aí.

Essas reações só confirmam a necessidade da Marcha das Vadias.

Parece que as pessoas se incomodam mais com o nome do movimento do que com o fato de mais de 15 mil mulheres serem estupradas por ano no país ou com o fato de o Brasil ocupar o 7º lugar no ranking mundial em homicídio de mulheres. A Marcha das Vadias é indecente? Indecente é o machismo, que mata.

As pessoas já têm uma má vontade enorme para entender o que é o feminismo, por mais que a informação correta seja tão fácil de encontrar quanto vídeos de gatinhos. Não ia ser diferente com a causa da Marcha das Vadias. O tempo que as pessoas gastam comentando bobagens é o mesmo que ela levaria para se informar um pouquinho.

Foto: Marcos Felipe

Então vamos juntar o Tico e o Teco: somos chamadas de vadias por termos uma vida sexual. Por expressarmos nossa sexualidade. Por nos vestir como queremos e por nos comportar como bem entendemos. Somos chamadas de vadias por não aceitarem que o corpo é nosso, e não deles – muito menos do Estado ou da igreja. Somos chamadas de vadias porque queremos ser livres. Existe um infindável leque de coisas pelas quais somos taxadas de vadias. Em resumo, somos chamadas de vadias pelo simples fato de sermos mulheres. Dizem que somos vadias? Então vamos assumir que sim, somos vadias. Só para dizer de volta que isso não é justificativa para nos agredirem, nos violentarem, nos desrespeitarem.

Foto: Marcos Felipe

“Mas eu respeito… quem se dá ao respeito”.

A pessoa posa de respeitadora das mulheres, quando, na verdade, o que ela quer dizer com isso está tão impregnado de machismo que até escorre. E o que ela quer dizer, afinal? Que precisamos ser o que (e como) eles querem para ver se somos dignas de algum respeito.

Quando alguém diz isso, está querendo dizer que existe só um tipo de mulher que merece respeito, e que para isso — vejam só — ela ainda depende de seu magnânimo julgamento! Pensa bem: é o mesmo raciocínio de quem diz que se uma mulher foi estuprada, foi porque provocou; que se uma mulher apanhou do marido foi porque mereceu. Que a culpa é da mulher, que “não se deu ao respeito”.

Se alguém emite um juízo de valor sobre determinada pessoa que a exclua do grupo considerado “aceitável”, está despojando ela de sua humanidade. E desumanizando-a, pode então justificar sua violência contra ela. Precisa desenhar para ficar ainda mais claro?

Eu estava lá! Foto: Carol Savioli

É por isso que nós vadias marchamos. Para pisotear as ideias erradas de toda essa gente equivocada. Para mostrar que somos negras, somos gays, somos mães, somos putas, somos trabalhadoras, somos livres — e todas nós merecemos respeito.

A Marcha das Vadias foi linda. Mulheres e homens de todas as cores, tamanhos, idades e orientações sexuais se uniram para dizer que querem viver em um mundo sem violência contra a mulher, sexismo, racismo e homofobia. Nossa voz despertou o desespero de quem não aceita um mundo de igualdade (e não duvido que muitos haters vão aparecer por aqui também). Gente que vai fazer de tudo para tirar a legitimidade do nosso discurso, mas não vão nos abalar. Perto do pensamento pequeno de quem critica, a nossa luta fica ainda maior.

Foto: Marcos Felipe

Serviço de utilidade pública

Vamos combinar o seguinte: só vale criticar algo que você conhece minimamente bem. Então, para ajudar quem não entende o que é feminismo e o que a Marcha das Vadias tem a ver com isso (ou para quem gosta de ler sobre o assunto), vou indicar ótimos textos. Leitura obrigatória.

 

Manifesto: por que marchamos? – Marcha das Vadias DF

Marcha das Vadias for dummies – Letícia F., do Cem + 1.

Marcha das Vadias: coletividade e mobilização – Srta. Bia, em Blogueiras Feministas

As vadias e as feministas: uma discussão datada – Glaucia Fracarro, em Blogueiras Feministas

O que é feminismo? – Bidê Brasil

Porque sou um homem feminista – relato de  Byron Hurt, em Escreva Lola Escreva

Who needs feminism? - pôsters legais no Facebook para você compartilhar (em inglês)

 

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A espiã que sabia que era demais

26 de April 2012 por Valek

Amanhã, como todos sabem, é a estreia do filme Avengers, mais uma produção milionária que leva o universo dos quadrinhos da Marvel para os cinemas. Eu não estava tão empolgada, e, para falar a verdade, eu estava com um medinho de assistir o filme. Motivo? A minha personagem favorita de todos os tempos estaria nele, e as superproduções para o cinema costumam decepcionar os fãs mais fervorosos.

O negócio é que eu vi o filme (em uma espécie de pré-pré-estreia) e me surpreendi. O filme envolve, as cenas de luta são incríveis, a construção dos personagens ficou excelente (Mark Ruffalo destruiu como Hulk e sambou na minha cara por eu ter achado que ele não ia conseguir) e não me decepcionei com a participação da Viúva Negra na história, que acabou sendo mais importante do que eu imaginava. É claro que não fiquei 100% satisfeita: os primeiros segundos de Natasha Romanoff na tela me irritaram profundamente (quem assistir vai descobrir o porquê).

Mas o filme foi só um pretexto para eu escrever sobre a personagem que Scarlet Johansson interpretou tão brilhantemente (embora eu tenha demorado a me acostumar com a ideia; achava que Scarlet tinha muito mais a ver com Yelena Belova do que com a Romanoff, e, bem, eu nutro uma certa antipatia pela substituta da Viúva Negra).

Yelena Belova, a nova Viúva Negra

A ruiva Natasha Romanoff (ou Romanova) surgiu nos quadrinhos em 1964 e chuta traseiros desde então. Nasceu em Stalingrado e foi onde quase morreu, ainda bebê: nazistas atearam fogo à sua casa, e sua mãe, para salvá-la, arremessou-a pela janela. Assim parou nas mãos do soldado russo Ivan Petrovitch, que passou a protegê-la e treiná-la. Ela cresceu, desenvolveu suas habilidades e logo foi convocada para a KGB – pouco depois de receber a notícia que seu primeiro marido, o piloto de testes Alexi Shostakov, teria morrido em missão.

Treinada para ser letal, teve sua performance física aperfeiçoada quimicamente pelos russos e foi condicionada psicologicamente para ser essa espiã durona que conhecemos. Perita em artes marciais, atiradora de elite, hacker, estrategista, expert em espionagem, disfarce, infiltração, não há nada em que Romanoff não seja boa. Praticamente uma lenda na academia de espionagem Red Room. Isso até descobrir que era só uma das 27 agentes Viúvas Negras infiltradas durante a Guerra Fria – e a única que sobreviveu.

Demolidor: só um dos vários heróis que caíram na teia - e na cama da espiã.

Sua entrada no Avengers aconteceu só em 1967, e foi a 16ª a integrar o grupo. Mas essa vida heróica não faz muito seu estilo, e, na maior parte do tempo, é uma agente freelancer da S.H.I.E.L.D.

Por que a Viúva Negra é tão foda?

Ela é uma versão femme fatale do Batman. Não tem super poderes e sua maior arma é sua inteligência. Pode não ter a fortuna de Bruce Wayne, mas é uma lutadora tão escrota quanto ele, além do jeitão de poucos amigos, a atuação geralmente solitária e o gosto por roupas pretas.

"Apenas pense em mim como mais um dos caras maus. Porque, basicamente, é o que eu sou."

Mas, diferente do Homem Morcego, ela é coadjuvante na maioria das histórias. A Viúva Negra só ganhou sua própria série de quadrinhos em 1999, com Web of Intrigue. Em 2001, Romanova e a jovem espiã Yelena Belova protagonizaram o arco de histórias Black Widow: Breakdown. Em 2005, foi a vez de Black Widow: The Things They Say About Her (a que estou lendo atualmente).

Cena da melhor história da Viúva Negra

Mas sem dúvidas a melhor série da Viúva Negra foi Itsy-Bitsy Spider, de 1999. Escrita pela roteirista Devin K. Grayson e com o traço incrível do artista J.G. Jones, a história traz uma Natasha Romanoff em fim de carreira, escalada para uma missão no Oriente Médio, onde precisa descobrir sobre uma nova biotoxina que transforma soldados em exterminadores enfurecidos, que matam tudo e todos ao redor até definharem, consumidos pela droga, poucos minutos depois. O negócio é que os militares russos parecem interessados na droga, e enviam a espiã Yelena Belova para interceptá-la. É então que a velha Viúva Negra encontra-se com a nova Viúva Negra, e Natasha Romanoff confronta mais do que uma rival, mas uma crise de identidade. Recomendo altamente.

O que me entristece é que não basta a personagem ser tudo isso que a Viúva Negra é e ter um background riquíssimo, ela ainda estará em segundo plano no mundo dos quadrinhos, onde quase sempre é reconhecida como apenas mais uma gostosa.

Avengers: todos fazendo poses heróicas, enquanto a Viúva Negra mostra... a bunda. E se fosse o contrário?

E a vida para as super heroínas não está nada fácil. Quantos filmes, das atuais adaptações dos quadrinhos para o cinema, foram protagonizados por mulheres? Da Marvel, temos a Elektra – que, cá pra nós, não chegou nem aos pés das histórias em quadrinhos. Sem falar que o filme faz parte daquela safra de produções que cagaram todos os super heróis. Da DC, temos a Mulher Gato – outra personagem sensacional completamente desperdiçada. O filme é tão pífio que nem vale a pena comentar. Por outro lado, filmes com heróis (homens, claro) não param de ser lançados – e ganham até sequência (Homem de Ferro, só pra citar um exemplo).

Dos Avengers, todos os integrantes tiveram seu próprio filme, menos um. Adivinha qual? Sim, a Viúva Negra. E olha que eu tinha grande esperança da personagem ter um filme só dela (a própria Scarlet ainda espera isso). Mas quem sabe não role? A Scarlet Johansson fez um trabalho tão bem feito que voltou a alimentar minhas esperanças de ver a Viúva Negra estampando um cartaz de cinema – dessa vez sozinha e, espero, com uma pose menos sexualizada.

 

Leia também:

She Hulk

Mulheres nos quadrinhos - Pt. 1

Mulheres nos quadrinhos - Pt. 2

 

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Feito é melhor que perfeito

12 de April 2012 por Valek

Just do it, sério.

Seja lá de onde surgem as ideias, elas parecem cair em várias cabeças ao mesmo tempo. E é claro que se a ideia é boa, não gostamos de desperdiçá-la. Vamos carregando ela no colo, como se fosse um tesouro, esperando o momento certo e as condições ideais de colocá-la em prática. Precisamos trabalhar nela indefinidamente até que ela fique perfeita, até que nós mesmos estejamos perfeitos para poder executar essa preciosidade. Temos todo o tempo do mundo. Afinal, a ideia é boa demais para ser feita logo, certo?

Lembre-se do início do texto: a ideia pode ser boa, mas, com certeza, outra pessoa também já pensou na mesma coisa. Pode ser que essa outra pessoa seja mais prática que você e pule essa etapa de punheta eterna que é lapidar uma ideia. Imagine que ela faça primeiro o que você acreditava que precisava de tempo e cuidado para começar a ser feito. E aí? Vai reclamar para o papa?

Isso acontece sempre. E o perfeccionista sempre fica chupando dedo.

Conversando com um amigo publicitário, ele me contou que tinha tido uma ideia genial para um de seus jobs. A ideia era simples, mas era realmente boa. O problema é que não foi aprovada, disseram que precisava ser melhor trabalhada. Ainda não era “do caralho”. Daí que, semanas depois, o cliente concorrente foi lá e fez a mesma ideia. Ganhou prêmio e tudo.

E você achando que era original.

Ontem mesmo conversei com um amigo que está sempre cheio de ideias para escrever, mas ele nunca acha que as ideias estão boas o suficiente. Ou ele pensa em como aquilo pode ser escrito de forma genial, ou desiste, achando que é besteira escrever aquilo. Resultado: não coloca as ideias no papel. Se colocasse, já tinha dado um livro.

O que fez primeiro, fez mal feito. Mas e agora? Está feito do mesmo jeito.

Outro amigo teve uma ideia para um livro de fantasia, mas descobriu que fizeram um filme com a mesma história. E o pior: o filme era horrível. Não duvido que ele ainda possa escrever algo genial, mas já pensou? Criar uma história brilhante e no fim alguém dizer “nossa, não é que parece aquele filme que eu vi na Sessão da Tarde dia desses?”

A nossa capacidade para achar que uma ideia não é boa o suficiente é praticamente infinita. Alguns acham bonito esse processo eterno de lapidar uma ideia, de preferência protegendo-a a sete chaves, como se aquela pessoa que teve a ideia fosse a primeira e única no mundo a ter pensado naquilo.

Bonito mesmo é quem encara o desafio de fazer. Vai dar certo? Só fazendo pra saber. Se der errado, deu. A vida continua, você supera, aposto que consegue ter ideias tão boas ou ainda melhores. Mas pelo menos foi feito – e existe um mérito enorme em fazer algo virar realidade.

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O que aprendi na (faculdade de) publicidade

06 de February 2012 por Valek

Foi na colação de grau, semana passada, que minha passagem pelo curso de Publicidade e Propaganda foi definitivamente encerrada. Ufa. Como vocês acompanharam parte importante da minha vida acadêmica pelo blog, achei que seria o melhor momento para compartilhar um pouco do que aprendi nos últimos quatro anos.

Primeira lição, crianças: publicidade não é mágica

Nem foi preciso tudo isso para aprender o mais importante

Sei lá quantas disciplinas fizeram parte da minha grade curricular. Mas tudo, tudo mesmo, poderia ser reduzido a três grandes ensinamentos que tive logo nos primeiros semestres.

O Prof. Delamare, em uma de suas primeiras aulas, deu a melhor definição do que é um publicitário: “é aquele cara que consegue conversar, no mínimo, dois minutos sobre qualquer assunto”.

Na época, eu achava difícil imaginar como seria possível saber sobre tanta coisa. Não só é possível, como é necessário. Tanto que até hoje busco saber sobre os mais variados assuntos, porque sei que vou precisar usar em algum momento. Cada job também é um aprendizado. Aposto que consigo conversar mais de dois minutos sobre previdência complementar. Mas é melhor mudar de assunto, né?

não sei do que cês tâo falando, bicho

 

Criar conceito, destruir preconceito

Aprender a criar um conceito forte para vender a marca ou o produto é essencial. Mas, antes disso, eu aprendi algo mais importante. Adivinha com quem. É, foi o Prof. Delamare que jogou a real: “como publicitários, vocês vão ter que, muitas vezes, vender produtos que vocês não gostam, falar sobre coisas que vocês não gostam, falar com um público que vocês não gostam.

Ele deu um exemplo: o job era fazer um anúncio para uma coletânea de música brega. Você não gosta, mas você vai ter que falar dos pontos positivos do produto para conseguir vender. E aí?

E aí que preconceito não combina com a profissão. Bem, não é o que a gente vê por aí: publicitários super descolados, aparentemente com uma cabeça aberta, mas que no fundo são um poço de ignorância. Não os julgo, é mesmo muito difícil abrir mão dos preconceitos.

Nunca me esqueci do que o Delamare ensinou. Isso mudou a minha vida para sempre. Aprendi que, antes de torcer o nariz para qualquer coisa, é preciso conhecer aquilo. Ver o outro lado. Entender porque as pessoas gostam. Entender porque não gostam. Enfim, entender as pessoas. Claro, ainda tenho preconceitos. Acabar com eles é um trabalho diário.

Também aprendi sobre redação

Foi no mesmo semestre que comecei a estagiar em uma agência que conheci a Raquel Cantarelli, professora de Redação Publicitária. E foi quando ela me ensinou a máxima: “o texto precisa ser uma conversa”.

Parece simples, mas é. Isso determinou muita coisa no meu trabalho como redatora e em todos os meus textos. Inclusive aqui no blog. Esse ensinamento foi muito além da publicidade. E acho que isso importa mais do que qualquer coisa que eu tenha aprendido com diretores de criação ou com textos de redatores pica grossa.

O que a faculdade não ensinou

Coitado de quem terminou o curso achando que está preparado. A faculdade não ensina nem metade do que é ser publicitário. Coisa que só aprendi mesmo na prática, por mais que eu ainda tenha o que aprender.

A faculdade não ensina a escrever, coisa que a gente vê quando recebe alguns briefings. Não ensina que foi você quem estudou para fazer aquilo, mas a palavra final é do cliente, então engole aí o orgulho e refaz.

A faculdade também não ensina como é o mercado. Ame-o ou deixe-o, esse é o mote. A publicidade exige que você seja apaixonado por ela, porque você vai precisar abrir mão de muita coisa para continuar nela. Por causa dela, vai ter que lidar com gente com mais ego do que ideias, ou com mais pretensão do que deveria por ter ideias. Vai ter que calar e ralar, porque amanhã tem mais job na mesa.

vai achando que isso aqui é glamour, vai

Quatro anos é muito tempo. Mas se não fosse trabalhar como publicitária ao mesmo tempo em que fazia o curso, certamente eu não teria aprendido tanto.

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Calvin & Haroldo por crianças mais críticas

19 de January 2012 por Valek

Esta semana, uma revista de fofocas publicou em sua matéria de capa que é absurda a lei que tornaria obrigatório o ensino de filosofia nas escolas. De acordo com a revista, um país que vai mal em disciplinas como matemática e ciências não deveria se empenhar em ensinar filosofia, que, como todos sabemos, é apenas uma forma de “aumentar a pregação ideológica de esquerda”. Claro. Mas não vou nem entrar nessa questão. O fato apenas me lembrou que, além de eu ter tido uma péssima formação de filosofia no colégio público onde estudei, eu tenho ali, na minha prateleira de quadrinhos, o que considero uma das maiores obras filosóficas do nosso tempo: as tirinhas de Calvin & Haroldo, de Bill Watterson.

Calma. Antes de você sair em defesa de um grande pensador e de me julgar uma ignorante por essa afirmação, deixe que eu explique. A ligação dos quadrinhos com a filosofia começa com o nome dos personagens. Calvin e Hobbes (do original, em inglês, traduzido por aqui como Haroldo) foram inspirados, respectivamente, no teólogo John Calvin e no filosófo inglês Thomas Hobbes. O primeiro defendia a predestinação e o segundo acreditava na tendência da natureza humana à guerra. Um easter egg interessante plantado por Watterson, talvez porque ele não resista a uma boa ironia – o que, aliás, percebemos em todas as histórias.

O grande mérito dos quadrinhos é trazer grandes (e pequenas) questões existenciais em histórias divertidas, cativantes, inteligentes, sarcásticas e o mais importante: acessíveis a todos. Crianças podem ler. Adultos podem ler. E ambos vão gostar. Enquanto Calvin brinca com Haroldo na neve, finge ser um dinossauro, teima com seus pais ou ainda arruma formas de não fazer seu dever de casa, ele te leva a questionamentos intrigantes e você está pensando naquilo sem nem perceber.

Ele não ensina filosofia. Mas os livros de Calvin e Haroldo estão cheias de teorias, conclusões e perguntas incômodas nas quais vale a pena pensar e até expor suas crianças a elas, sem medo. Questionamentos do tipo: “O que os animais vão fazer agora que derrubaram a floresta para construir casas?? Céus, o que as pessoas iam achar se os animais passassem um trator nos bairros e plantassem novas árvores?” Outro bom exemplo está aqui:

"Vocês não me ensinaram nada exceto como manipular cinicamente o sistema. Parabéns."

 

A inteligência das tirinhas de Watterson também está na construção dos personagens. Haroldo é só um tigre de pelúcia, mas tem mais sensatez que muita gente de carne e osso. Calvin é um garoto com uma grande imaginação e uma cara de pau maior ainda. Isso faz com que seus pais (que não têm nome nos quadrinhos) precisem devolver com argumentos razoáveis as teimosias do filho. O que nem sempre é possível: às vezes eles precisam gritar para mostrar ao Calvin quem são os adultos ali.

Calvin parece um garoto impossível de existir. Mas em tempos de tanta facilidade de acesso à informação, e em que todo mundo nas redes sociais está pronto para desferir opiniões sobre tudo, é natural que nossas crianças tenham a mesma inclinação do personagem para o debate. E aí não adianta vencê-las falando mais alto. As crianças esperam de nós, adultos, argumentos convincentes que respondam às questões levantadas pela inocência e imaginação tão próprias delas. Ou que, pelo menos, tenhamos a sensibilidade de pensar sobre o assunto se não soubermos a resposta. E uma dessas questões é: estamos preparados para criar filhos com esse senso crítico?

Mas talvez a tal revista esteja certa em achar absurda a ideia da filosofia ser ensinada como português ou matemática. Crianças questionadoras acabam ficando iguais ao Calvin: terríveis.

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Keep calm and just write

10 de July 2011 por Valek

Concentração é metade do trabalho de quem escreve. E dispersão é um dos meus maiores problemas. É olhar para os botões de ferramentas do Word e pronto, já estou em outro lugar. Sem falar nas escapadinhas para as outras janelas, ou aquela espiadinha rápida no twitter, ou quando aquela notificação de email novo salta na tela. Qualquer coisa. Tenho a mesma atenção de um pombo (que, hoje em dia, nem desviam mais dos carros, reparem).

Your mind, a wild monkey

Daí que na falta de ritalina, encontrei o Ommwriter. Santa indicação do Alex Tarrask. É um programa que todo escritor, redator, roteirista, ou blogueiro devia usar ou pelo menos experimentar. É simples. Bem simples mesmo: é só uma grande tela que invade seu computador e te deixa sozinho com o texto. É só o que você vê. Sem barra de ferramentas, sem outras janelas, nem as horas dá pra ver (mas aí você tem que fazer uma forcinha para esquecer que o Alt ou Cmd + Tab existe).

A simplicidade dele protege você de se preocupar com coisas inúteis, como formatação de texto, de parágrafo, ou até número de páginas (o máximo que você consegue ver é o número de palavras digitadas, e só quando você move o cursor). Você tem três opções de fundo, pode optar por colocar som no teclado, ou optar por três relaxantes sons ambiente. Ou ainda ficar com o silêncio absoluto, a escolha é sua.

Minha experiência com o Ommwriter foi bastante positiva, mas ainda é um tanto recente. Escrevi alguns posts (como esse), trechos de contos e um projeto de romance no qual estou trabalhando. Escrevi como se não houvesse amanhã. Os bloqueios existiram e existem, mas sem uma porta de escape, fica bem difícil o bloqueio se transformar em dispersão total.

O que eu vejo: só texto

Nunca experimentei meditar, mas acredito que Ommwriter seja a versão com teclado de meditação em um templo budista. No Tibete.

Essa invenção genial foi criada pela equipe de Rafa Soto, da agência HerraizSoto&Co de Barcelona. O Ommwriter é o resultado de estudos feitos para descobrir como criar um ambiente propício para a concentração e a criatividade. O programa também representa a filosofia de trabalho da agência, de dar importância às ideias, e chegaram a ganhar com ele um merecedíssimo bronze no One Show. Eles também mereciam ganhar um abraço.

Ommwriter from hs&co on Vimeo.

Não, ele não é milagroso. Não te torna um grande escritor do dia para a noite. Ele te ajuda em 50% do que você precisa, como eu disse lá em cima. O resto é com você, claro.

O programa é compatível com o Mac, PC e até iPad, e você pode fazer o download de graça aqui.

Escrevam bastante.

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Preguiça de ler

23 de May 2011 por Valek

Redatores são constantemente lembrados, seja por recomendações sérias de seus diretores de criação, ou por zoações amigáveis de seus duplas diretores de arte, que as pessoas têm preguiça de ler. “As pessoas não leem. Diminui esse texto, resume aquele ali, dá uma enxugada no título, etc.” Este post bem que podia ser um mimimi de quem ainda acredita que a gente não escreve texto de apoio à toa, que as pessoas lêem sim; eu até queria, mas não vou escrever sobre isso. Preciso concordar que sim, as pessoas têm preguiça de ler. E não falo isso gratuitamente. Tirei isso de um fato recente, do qual muitos de vocês já devem ter ouvido falar.

O livro de português “Viver e Aprender” (parte da coleção didática criada para o Ensino de Jovens e Adultos) virou notícia e assunto na internet. A mídia alardeou que o MEC teria comprado livros que ensinam os alunos a falarem “errado”. O polêmico trecho diz que a pessoa pode falar “os livro”, desde que saiba que, dependendo da situação, pode sofrer preconceito linguístico. Foi o suficiente para o mundo desabar. Absurdo! A educação vai ser nivelada por baixo! Estão acabando com o português! Imagina se o jeito dessa gente pobre falar “os livro” pode ser legitimado, etc, etc.

Não vou me aprofundar na questão linguística, porque já fiizeram muito melhor o Alex Castro, o Diego Jiquilin no blog da Lola, o Helio Schwartsman na Folha, e este artigo na Terra Magazine. E isso para não citar o vídeo onde os escritores Marcelino Freire e Cristóvão Tezza rebatem com bom humor a babaquice da Globo em atacar o livro sem nem saber do que está falando.

Aí entra a preguiça de ler. Com base em apenas um trecho de uma única página, já vimos todos os tipos de comentários afoitos e indignados pelo twitter e blogs afora (principalmente na mídia). Ninguém teve a preocupação de ler um pouco mais sobre o assunto. De entender do que se trata o livro, em que contexto aquela lição “dos livro” estava sendo dada. Muitos nem sabiam que o livro didático é destinado ao EJA e não a crianças.

Boa parte da culpa é da própria educação que recebemos na escola. Aprendemos com base no “certo” e “errado”. O modelo de ensino no qual a maioria de nós foi alfabetizado não contemplava a crítica, o questionamento. E agora que isso está começando a mudar, queremos que a próxima geração continue aprendendo com métodos já ultrapassados?

A escola também falhou, no caso de muita gente, em ensinar a ler. Até na faculdade vemos pessoas com clara deficiência de leitura e interpretação de texto. E é gente “limpinha”, não esses pobres que falam “os livro”. Quando não estão com preguiça de ler, não conseguem entender o que estão lendo.

Mas o pior é quem sequer se dá ao trabalho de entender um assunto ou procurar saber mais sobre ele, e sai por aí falando besteira. Do jornalismo a gente não pode esperar muito mesmo. Até porque, apesar de indignados com o tal livro que relativiza o uso da norma culta, são eles os que cometem erros grotescos, mesmo sendo profissionais que supostamente deveriam falar português impecavelmente. Triste foi ver gente instruída, bem informada, e até redatores (!!!) proferindo comentários típicos de um bobalhão como Alexandre Garcia.

Que ter domínio da língua culta é essencial para quem trabalha com Redação Publicitária, disso não temos dúvidas. Mas a publicidade não seria a mesma se os redatores escrevessem como um promotor público. Olhem para qualquer bom anúncio e vocês verão uma linguagem coloquial, gostosa de ler. Nem na literatura a norma culta é seguida com rigor. Nem você, caro leitor erudito, fala da mesma forma que escreve.

A língua é das pessoas, não dos dicionários e gramáticas. A linguagem é viva, e não é o uso que as pessoas fazem dela que irá matá-la. Pelo contrário. E sobre essa incrível propriedade da nossa língua, Alex Castro diz:

A língua portuguesa não está na defensiva, não está decadente, não está morrendo, não precisa ser salva, não precisa ser defendida.

O português, presente em todos os continentes, é a sexta língua mais falada do mundo e a terceira do ocidente. Ele não tem o monopólio de palavras – sim, vários idiomas têm palavra para “saudade”. Ele não é mais rico do que nenhum outro idioma. O português não precisa ser mais rico do que ninguém. O português é. E isso basta.

Todos comemora.

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Vale a pena ver direito

19 de April 2011 por Valek

Com a chegada da TV na minha casa esses dias, e com o livro que estou lendo agora, “A Televisão na Era Digital”, de Newton Cannito, tenho pensado bastante sobre novelas. Não sou fã de novelas. Não gosto da forma com que são escritas. Gosto menos ainda da forma com que são interpretadas. Além disso, elas têm servido algumas vezes como ferramenta para alimentar preconceitos e a ignorância do público. Mas sejamos justos: não se pode menosprezar o que é, para muitas pessoas, o único contato com a arte de contar histórias.

Das últimas vezes em que sentei na frente da televisão e sintonizei em alguma novela, prestei atenção em alguns detalhes. Tanto na narrativa, quanto na linguagem visual. Acho que você também já deve ter percebido.

Diferente da maioria dos seriados com os quais me acostumei nesses últimos anos, as novelas têm apenas alguns planos básicos. Planos gerais de cenários, que são mostrados, normalmente, de apenas uma perspectiva (você nunca vai ver o outro lado da sala), planos médios para enfatizar a ação dos personagens, e planos em close na hora dos diálogos (um rosto de cada vez, sempre deixando de costas o personagem com quem se fala).

Outra característica marcante são as cenas rápidas (os cortes logo dão lugar a outras cenas, com outros personagens), e sempre baseadas no diálogo ou em expressividade extrema. Pode reparar. Os personagens estão sempre conversando sobre sentimentos, sobre a relação que existe entre as pessoas na trama, sobre o vilão que matou não sei quem e eles precisam desmascarar (eles se ocupam mais disso do que a própria polícia). Ninguém resolve nada por telefone ou por e-mail: as intrigas só acontecem presencialmente, as pessoas só se falam quando se visitam ou se encontram por acaso.

Todas as emoções são vividas ao extremo. Quando choram, fazem escândalo. Quando se apaixonam, morrem de amores. Quando gesticulam, quase fazem mímica.

É muito drama, gente

 

Qualquer semelhança com o teatro não é mera coincidência. Os diálogos que conduzem a história são um bom exemplo da influência da linguagem teatral, que também está presente no jogo de câmeras: os planos usados simulam a perspectiva do espectador em relação ao palco.

O mais interessante mesmo é a construção dos personagens. Novela vai, novela vem, e alguns personagens parecem os mesmos de histórias passadas. Dejá vu? Podemos dizer que é preguiça do autor, que prefere apostar em formulinhas, ou que não sabe criar personagens mais complexos. Mas isso já é algo feito desde o século XV, quando surgiu na Itália o gênero Commedia Dell’Arte, que digamos, é o bisavô das novelas como conhecemos hoje.

Você só precisa assistir a um episódio de uma novela para ver nos personagens as “máscaras” que eram usadas na Commedia Dell’Arte. Os enamorados (claro), o arlequim, a colombina, o velho avaro, o covarde que se faz de valente, etc. Estão todos lá. E todas as histórias surgem mais ou menos do mesmo tipo básico de personagens. Só muda os atores. Quer dizer, o papel do comelão que fica com todas na novela é sempre do Zé Mayer.

Os enamorados da vez

 

Além disso, a novela usa e abusa da verbalização (aqueles diálogos óbvios e repetitivos) porque ela tem muito em comum com o rádio. O público que assiste novela geralmente faz outras coisas ao mesmo tempo: arrumar a casa, cozinhar, passar roupa. Eu costumava desenhar enquanto “assistia” a uma das últimas novelas que lembro ter acompanhado: O Cravo e a Rosa, uma adaptação de Walcyr Carrasco para a obra de Shakespeare “A Megera Domada”. Quando você não está olhando o tempo todo para a tela, as falas ajudam bastante a entender o que está acontecendo.

Em seu livro, Newton Cannito dá algumas pistas para entender porque as novelas brasileiras são do jeito que são:

A criação dos breaks de intervalo e o hábito do público de mudar de canal com o controle remoto recuperam a necessidade de constantes atrações no conteúdo e de personagens e histórias simples, que possam ser imediatamente reconhecidas, num modelo mais próximo ao seriado e às histórias populares.

Por isso, acho importante ver as novelas com um novo olhar. Imagina o malabarismo que é escrever novelas tendo em mente todas as limitações da mídia. Ao mesmo tempo, os autores podem acompanhar a reação do público enquanto escrevem, e assim mudar os rumos da história em uma experiência interativa, mais ou menos como jogar RPG.

Depois de ver tudo isso, você pode até continuar detestando novela, mas precisa admitir que de pobre essa cultura não tem nada. É claro que existem novelas boas e ruins. Mas não podemos achar que as novelas precisam ser iguais a seriados ou filmes para serem boas no que foram criadas para fazer: contar histórias.

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Orígenes Lessa, redator

17 de March 2011 por Valek

Sem dúvidas essa foi a descoberta que mais me impressionou nesses últimos dias. Na verdade, sempre fico impressionada quando vejo que tal escritor ou tal poeta também já escreveu para a propaganda, como é o caso por exemplo, de Olavo Bilac e até do autor de Como a Starbucks Salvou a Minha Vida.

Foi no livro de outro redator, Roberto Menna Barreto, que encontrei o nome de Orígenes Lessa. À primeira vista, é um nome esquisito. Mas para mim, é muito familiar. A sensação foi de cruzar na rua com um velho conhecido. E o que ele estava fazendo ali, afinal? No início da carreira de Barreto na publicidade, Lessa era ninguém menos que o redator mais foda da JWT, lá pelo final dos anos 50.

 

Nunca vi sequer uma peça publicitária dele. Mas a sua escrita eu conheço desde bem antes de saber que existia a profissão de redator. Ele já figurava nos meus livros escolares e foi o autor de dois dos livros que marcaram a minha infância: Memórias de um Cabo de Vassoura e Confissões de um Vira-Lata. Geniais. Claro que a bibliografia dele é bem mais extensa, incluindo contos, romances, ensaios e até reportagens.

Daí que o cara volta, comigo já adulta, e mostra que ainda tem algo importante para me ensinar. Dessa vez, não na matéria de Português; mas em Propaganda.

No início do livro “Criatividade em Propaganda”, Roberto conta como foi começar na carreira de redator em uma grande agência. Fala dos bloqueios, dos erros, dos jobs que viravam pesadelos. Não conseguia produzir. Até que um dia, Lessa chegou puto na agência. Tinha acabado de ler um excelente conto do jovem redator, publicado no suplemento literário do Jornal do Brasil. Não conseguia entender como alguém capaz de escrever algo daquele tipo não conseguia escrever nada que prestasse durante o expediente. Roberto ficou desesperado. Explicou que tentava seguir as regras, mas eram tantas!

Então Orígenes Lessa responde com o que considero uma grande verdade. Reproduzo abaixo:

Roberto, propaganda… é uma merda! O melhor anúncio não vale um bom conto ou um bom poema. A não ser para o imbecil que anuncia e para o imbecil que compra! Propaganda serve sabe para quê? Para se ganhar dinheiro mais fácil. Para se ter tempo! Tempo de escrever, de ler, tempo de produzir coisa séria!

Sabe o que é propaganda, rapaz? Olhe para este lápis. Você tem de fazer um anúncio sobre este lápis. Você fixa este lápis e rebusca na cabeça o que você pode dizer – não importa o que, nem como – capaz de levar o cara que vai ler a comprar este lápis. Você tem de convencer o sujeito, só isso!

E pensando bem, ver as coisas simples assim ajuda bem mais na criação do que acreditar que fazemos anúncios ou as pessoas morrem. Não foi por acaso que Lessa se tornou o redator mais importante da JWT. Ou um dos imortais da Academia Brasileira de Letras.

 

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