Neu eu acredito ainda, mas resolvi gravar um vídeo. Como o fim do Google Reader está próximo, recebi algumas dicas de como se virar sem ele e resolvi compartilhar com vocês. Como continuar acompanhando uma infinidade de blogs e sites? Como continuar tendo uma leitura dinâmica e prática na internet?
Testei algumas opções e mostro três delas para ajudar você a se decidir: The Old Reader, BlogLovin e o Feedly. Se você está usando outro leitor de feeds e gostando, deixe sua experiência nos comentários! :)
Não me lembro de ter lido um livro tão rápido desde Como a Starbucks Salvou a Minha Vida. Mas a leitura de Jogador Nº1, de Ernest Cline, é tão viciante quanto videogame: depois que você começa a jogar, não tem como parar antes de zerar.
Já disse que ando muito fã de ficção para adolescentes. Jogador Nº1, no entanto, não foi criado para ESTA geração de adolescentes. Quem foi adolescente na década de 80 vai curtir muito mais o livro e as inúmeras referências à cultura pop da época. Os adolescentes de agora vão curtir também: o livro é sobre uma juventude imersa em uma realidade virtual hiperconectada.
Essa realidade virtual é um sistema chamado OASIS, onde se passa a maior parte da história. OASIS é uma espécie de “Second Life”: as pessoas se conectam ao jogo, criam seus avatares, fazem compras e negócios, estudam, se relacionam, ou participam de missões e batalhas, como em “World of Warcraft”. Tudo isso em uma imersão bastante realista.
Aperte Start
A história começa quando o criador desse jogo, o multibilionário e geek James Halliday, morre. Em seu testamento, transmitido para o mundo todo via OASIS, Halliday revela que deixará toda a sua herança para quem encontrar um easter egg que ele escondeu no jogo. Para encontrá-lo e vencer o jogo, o jogador precisa encontrar as três chaves (de cobre, jade e cristal) e passar por três portões.
O detalhe é que Halliday viveu sua adolescência nos anos 80. Ele é um super nerd. Então é claro que as pistas e desafios para encontrar o easter egg são todas relacionados a jogos, filmes, bandas e personagens da sua década favorita.
Doidos para colocarem as mãos na fortuna de Halliday, aparecem milhões de “caça-ovos”, jogadores que passam a estudar obstinadamente sobre a cultura pop dos anos 80 e revirar o OASIS em busca de alguma pista.
Cinco anos se passam e ninguém encontra nada. Até que aparece um nome no Placar, indicando que alguém conseguiu chegar à primeira chave: Parzival. O nome do avatar de um rapaz de 18 anos que mora em uma favela às margens de Oklahoma. Wade Watts, narrador do livro.
É um jogo. Com páginas no lugar do joystick.
O mais legal de Jogador Nº1 é que a narrativa é mais parecida com um jogo de videogame do que com um romance. O leitor passa, junto com Wade, por vários desafios, sobe de nível, pega itens raros, participa de batalhas, faz aliados e quebra a cabeça para descobrir o significado dos enigmas deixados por Halliday. Exatamente como em um jogo de aventura.
Depois que Wade (Parzival, dentro do OASIS) consegue a primeira chave, começa uma disputa alucinante. Art3mis, Aech, Daito e Shoto são outros avatares que estão no páreo e ficam no topo do Placar a maioria do tempo.
O problema é que a “caça ao ovo” não é uma inocente brincadeirinha de adolescentes gamers. Há uma fortuna em jogo. A IOI (ai-ou-ai), uma corporação gigantesca e inescrupulosa, está disposta a tudo para vencer esse jogo. Cheia de recursos, trapaças e uma equipe inteira de especialistas, ela coloca avatares de seus funcionários dentro do OASIS (os chamados Seis) para encontrar o ovo e colocar as mãos na herança de Halliday.
Um futuro negro aguarda os usuários do OASIS se a IOI vencer o jogo. De posse do OASIS, a empresa pretende acabar com a liberdade dos usuários de usar o sistema de graça, restringindo assim o acesso de uma parte importante da vida das pessoas. Seria como alguém cobrar pelo uso do sol.
Muito mais que correr para ser o Jogador Nº1, os “caça-ovo” precisam vencer o jogo para impedir que a IOI tome o que lhes é mais precioso: o OASIS.
“Sair de casa é superestimado”
Uma das questões muito abordadas no livro é essa divisão entre “real” e “virtual”. Embora toda a construção da história leve a acreditar que existe essa divisão, pelo fato dos personagens criarem “avatares” com uma aparência bem diferente e não possuírem na vida real a mesma popularidade ou recursos que possuem no jogo, entre outras coisas, eu percebi que não: real e virtual são a mesma coisa.
E não apenas em Jogador Nº1. Podemos não ter um sistema tão sofisticado como o OASIS, mas vivemos imersos em uma realidade virtual. Criamos avatares para transitar por esse mundo, muitas vezes, drasticamente diferentes do que somos na vida real.
Acho que o livro acaba mostrando o quanto essas duas realidades estão conectadas. As ações de Parzival dentro do jogo influenciam o que acontece fora dele – até mesmo colocando em risco o próprio Wade. Da mesma forma, coisas que Wade faz no mundo real são determinantes para mudar o destino do jogo.
O que fazemos na internet também faz parte das nossas vidas. Insistir nessa separação entre real e virtual é negar que o que fazemos na internet nos define e tem o poder de impactar o mundo “offline”. É se apegar a uma visão bastante caduca. É abrir margem para que as pessoas fujam da responsabilidade de assumir as consequências do que fazem na internet. É não reconhecer que o chamado “ativismo de sofá” é sim capaz de mudar uma realidade. Porque se por um lado a internet é usada por pessoas irresponsáveis que disseminam ódio e preconceito, ela pode ser usada para disseminar informação – a arma mais efetiva para mudar a mente das pessoas.
Você, em algum nível, é seu avatar. A diferença é que, assim como quando Wade entra no OASIS e se torna Parzival, você tem poderes inimagináveis quando está conectado. A questão é: você também usa seus conhecimentos para lutar pelo mundo no qual você acredita?
Aí que estou de bobeira na livraria (sempre vou à livraria para matar o tempo, não para comprar livros) e encontro o Sonhei que a neve fervia. Ouvi muita gente falar desse livro, mas não conhecia ainda trabalho da autora – só mesmo o blog e uma peça adaptada de seu romance Minúsculos assassinatos e alguns copos de leites. Ela até estava na plateia, mas como na época eu ainda não sabia who the fuck is Fal Azevedo, eu não fui lá dar um abraço nela e dizer: “cara, você é demais”. Porque hoje em dia eu faria isso, sem dúvidas.
Nem estou tão acostumada assim a ler não-ficção, mas a linguagem do livro é uma delícia. Cheguei até a sentir que eu estava, sei lá, invadindo a privacidade dela por estar lendo coisas tão íntimas. Por outro lado, eu me sentia parte do que ela estava narrando. Uma pequena amostra de porque me identifiquei tanto com a Fal:
Minha mãe tem um lance esquisito com telefones tocando: ela atende. Meio da refeição, meio do filme, conversa, aflição pra fazer xixi, nada detém minha mãe ou a impede de, neuroticamente, tirar aquela porra do gancho e mandar um “Oláááá!” (sim, ela atende o telefone assim). Não passa pela cabeça dela deixar aquele treco tocar até derreter. Oh, não, jamais. Ela tem que atender, é mais forte que ela. Eu? Pufffff. Na grande maioria das vezes, nem sei onde o telefone está. E não, nem me dou ao trabalho de olhar quem é no visorzim cagueta. Não quero atender. Quando eu estou ocupada, quando eu não estou ocupada, de noite, de dia, o fixo, o celular, o dos outros, no meio do trânsito, eu não quero atender. Nunca, ninguém. Não quero falar no telefone. Não quero falar. Simples assim.
Outro trechinho genial (nem preciso dizer que me imaginei nessa cena):
Prédio comercial é uma armadilha para pessoas como eu, que já sou tonta na vida normal. Dentro duma multinacional, sou meu próprio Peter Sellers. Saí no andar errado duas vezes. No escritório chique do cliente idem, na frente duma secretária que parecia feita de biscuit, derrubei um cinzeiro, na sala do cara (num carpete desta grossura) derrubei um copo d’água, gaguejei para dizer meu nome, e, quando saí e entrei no táxi, não sabia pronde ia.
– Para onde vamos?
– O senhor espera só um pouquinho preu me lembrar?
Quer dizer, Mundo Real 10, eu 0.
Enfim, a Fal é uma gostosura. Sonhei que a neve fervia é um livro de angústias, mas também de risos. É um livro escrito na base de “drops” (pequenos trechos sobre coisas diversas na vida da narradora, como os trechos acima) e pequenas conversas, que juntas formam uma conversa única, cheia de mineirices como “procê”, “cousa e tale” e “pronde”. Como não amar?
Parece que existe uma tendência a pessoas, à medida que envelhecem, preferirem não-ficção a ficção. Não sei o quanto isso é verdade, mas sei que hoje continuo tão fã de ficção quanto já fui quando mais jovem. E não apenas isso, como também tenho lido ficção para adolescentes. E gostado muito.
Quando Jogos Vorazes estreou nos cinemas, prometia ser o “novo Harry Potter” em termos de sucesso adolescente. Isso foi o suficiente para me deixar com o pé atrás: já imaginei uma história bobinha, estilo Crepúsculo, com personagens jovens e belos, romances açucarados e muito efeito especial para pouca história. O que aconteceu foi: eu realmente achei o filme bobo.
Mas nunca se deve julgar um livro pelo filme. Fui convencida por uma adolescente (sim, isso mesmo) a ler a trilogia escrita por Suzanne Collins e me surpreendi. Primeiro, pelo fato de um livro tão violento e extremamente político ser considerado literatura para adolescentes. É óbvio que o filme não mostra nem metade dessa violência toda. Do livro, escorre sangue.
Vamos lá: a história trata de um futuro distópico em que Panem, o país antes conhecido como América do Norte, é dividido por doze distritos comandados por uma Capital tirânica. Cada distrito produz um tipo de recurso: por exemplo, o Distrito 1 produz artigos de luxo, o 4 é da pesca e o 11 é da agricultura. Os distritos, que antes eram 13, já se rebelaram contra a Capital, no período histórico conhecido como Dias Escuros; mas a Capital os subjugou e destruiu o 13º distrito.
Para lembrar o país do insucesso da rebelião e do poder da Capital, foram criados os Jogos Vorazes. Uma espécie de reality show em que são escolhidos um garoto e uma garota (de 12 a 18 anos) de cada distrito para serem jogados em uma arena e lutarem entre si até a morte.
No meio disso tudo está Katniss, protagonista e narradora da história. É pelos olhos da garota que entramos no cenário cruel da arena dos Jogos; mas, antes disso, é através dela que conhecemos as condições precárias de sua vida no distrito 12.
Há coisas mais difíceis para um jovem enfrentar do que um conflito amoroso.
Collins conseguiu criar não apenas um universo rico e assustador, mas também uma trama sobre adolescentes que não gira em torno de um romance. O romance está lá, sem dúvidas; mas de uma forma bem diferente. Katniss não é a mocinha que idealiza e busca um amor romântico. Rola um clima entre ela e Gale, seu melhor amigo no Distrito 12, mas ela não leva isso muito a sério. Já seu envolvimento com Peeta, seu colega de arena, é pura encenação. O filme não deixa isso muito claro, mas Katniss não ama Peeta, e sente atração não por ele, mas pela sobrevivência – afinal, seu romance com o garoto favorece os dois diante do público e dos patrocinadores dos Jogos Vorazes.
Embora esse conflito Peeta vs. Gale esteja presente durante toda a série (não entendo qual é o problema da protagonista ficar com os dois), Katniss tem outras preocupações. Como, por exemplo, não morrer de fome, de sede, trucidada por algum animal, ser assassinada, ter sua família morta ou ainda ajudar a liderar uma revolução.
Gosto da forma como Collins concentra a narrativa na sobrevivência. É impossível não empatizar com Katniss e sentir a mesma angústia de não conseguir encontrar água na arena, ou de ter que caçar para sustentar a irmã e a mãe no Distrito 12. Mesmo as estratégias para ela se dar bem nos Jogos, como a escolha do seu figurino e sua atuação nas entrevistas, tratam-se disso: sobrevivência. E Katniss dá um duro danado para sobreviver a tudo que acontece na história. Durante os três livros, perdi a conta de quantas vezes ela foi seriamente ferida, passou fome, frio, sede, ou quantas vezes ela passou perto da morte. As coisas não são nada fáceis para Katniss; tanto que, mesmo sabendo que ela é a narradora e ainda resta livro pela frente, cheguei a acreditar que ela fosse morrer em vários momentos. É maravilhoso quando o autor cria situações inusitadas não para salvar seu protagonista, mas para colocá-lo em apuros.
O livro tem lá seus defeitos. Achei que Collins terminou o segundo e o último livro com muita pressa. A narrativa segue num ritmo interessante e de repente acontece algo, as coisas ficam confusas, e quando você vê, o livro acabou. Também não fiquei muito satisfeita com o final da saga; ficou Harry Potter demais para o meu gosto. Isso e a falta de sexo (apesar de existir muita tensão sexual na história) foram as únicas coisas que fizeram eu me lembrar que estava lendo um livro para adolescentes.
De resto, o livro é tenso, cheio de cliffhangers que me deixaram grudada ao livro, querendo saber logo a continuidade dos acontecimentos, um desfile de personagens interessantes e muita maturidade ao colocar temas espinhosos como violência, política e mídia no centro da história.
Aos moldes da nossa própria mídia, o sofrimento e a matança são transformadas em entretenimento.
A política do “pão e circo” que leva tantos jovens à morte para deleite do público é uma forte ferramenta de opressão. Ao colocar na arena adolescentes dos doze distritos e estabelecer que só um pode sair vivo, a Capital está, na verdade, garantindo que os distritos vejam uns aos outros como oponentes, jamais aliados. Essa é a função do entretenimento não só em Panem, mas em nosso próprio mundo: manter as coisas como estão. Preservar o status quo. Não deixar que os oprimidos comecem uma revolução.
Mas Katniss desafia o poder da Capital para todo mundo ver, em plenos Jogos, transmitidos pela televisão. É tão emblemático ter uma heroína que se volte para esse sistema opressor e diga que “não, vocês não podem me controlar”, que considero essa cena, no final do primeiro livro, uma das mais emocionantes e a mais importante de toda a série.
É assim que Katniss, de tributo participante dos Jogos Vorazes no primeiro livro, faz sua transição para o movimento rebelde, no segundo livro. No último, ela se transforma no próprio símbolo da revolução, o Tordo, e vai à guerra. Por mais que muita gente torça o nariz, Katniss é uma heroína bem longe de ser passiva: ela toma decisões e ajuda a mudar o destino da história. Fico aliviada de ter uma personagem como ela como referência para os jovens, em contraposição a outros padrões tão nocivos e tão naturalizados pela mídia que são impostos a nós desde muito cedo.
É lindo ver esse tipo de mensagem em um livro para adolescentes: torço para que eles (especialmente as garotas) entendam que, assim como Katniss, podem também começar uma revolução.
Para quem ainda não leu: bem, é sabido que não dá para agradar todo mundo. Tem gente que acha que Katniss é uma heroína fraca, tão passiva quanto uma Cinderela. Tem gente querendo jogar um balde de água fria em quem esperava finalmente ver uma história protagonizada por uma heroína fodona, como quem diz “lamento, não foi dessa vez! Fica para a próxima, garotas!” E sobre isso eu escrevi neste post. Não deixem de ler.
É um pouco chateada que escrevo este texto. Desde o início do ano parti numa trip literária, louca para colocar em dia minha leitura, ler os livros que nunca tive tempo para ler, conhecer novas histórias, buscar referências. Daí que todo mundo me falava do Kerouac, que eu precisava ler, que eu ia gostar, que era essencial, que On The Road era o tipo de livro que mudou a vida de muita gente e essa coisa toda – tive que considerar o livro para a minha lista, e olha, eu estava ansiosa para ler. Tão ansiosa que, quando não encontrei o On The Road na livraria, considerei levar Os Vagabundos Iluminados. Mas lembrei do que o Marcos sempre diz quando vamos pela primeira vez a alguma hamburgueria: não inventa moda na hora de fazer o pedido, pede o hambúrguer básico que geralmente é a especialidade da casa. Resolvi não arriscar com Kerouac, e como todo mundo só falava de On The Road, tinha que começar por ele.
O negócio é que eu não gostei. Foi um caminho de 461 páginas difícil de percorrer – e é tão difícil para mim admitir isso. Tudo bem, a gente acaba encontrando autores que não gosta, histórias com as quais não se identifica, isso acontece, a vida segue. Mas eu fiquei me perguntando: o que aconteceu entre nós, Jack? O que faltou para as coisas darem certo, para rolar aquela química? Foi algo que eu não entendi, Jack? Talvez seja só que, não me leve a mal, você não faz o meu tipo.
Não estou dizendo que foi uma merda. Foi muito inspirador conhecer o livro que, reza a lenda, foi datilografado furiosamente em vinte dias, em um único rolo de papel. Invejo você, Jack. E foi esse manuscrito em rolo que foi recusado por vários editores antes de finalmente ser publicado, com diversas alterações, em 1957. A versão que eu li, a original, é descrita pela editora como “mais selvagem” e também mais crua. O livro inteiro é um único parágrafo, como uma pista em linha reta, sem curvas, que você precisa seguir com atenção porque se você desviar o olhar por um segundo você se perde ou bate de frente com o caminhão que vem do outro lado.
O livro, dividido em cinco partes, conta a história de Jack atravessando o país (o dele, claro) e vivendo ao deus dará. Só nessa brincadeira, ele foi da costa leste a costa oeste, e de volta para a costa leste umas três vezes – e, depois, da costa leste ao México. Apesar da exaustiva descrição dos percursos das viagens (fiquei tão cansada como se estivesse, de fato, viajando com eles em um carro velho), há momentos interessantes e personagens que valem a pena. Jack mandou muito bem nos trechos em que narrava shows de jazz – tinha ritmo, energia, e a música é algo muito difícil de transmitir só com a escrita. Coisa que ele conseguiu. Mas quem segura a história mesmo é Neal Cassady (ou Dean Moriarty, dependendo da versão que você leia). O cara é um porra louca, imprevisível, parece um cão abobalhado: tudo o excita e sua energia parece não acabar “sim, sim, simmm!”. Pegar no volante o deixa tão feliz quanto um cão agarrar um belo osso. Neal foi o que pulsou e brilhou em meio a uma história que, pelo menos ao meu ver, foi sobre o mapa dos Estados Unidos da América.
cena do filme
On The Road tem sim seus pontos positivos – não nego. Mas não consegui me encantar por ele. Talvez seja por uma questão de contexto (e eu estaria fora dele). A liberdade e o desapego podem ser um tema muito mais interessante para quem está justamente do outro lado da coisa, buscando esse escape em um livro porque é o que não tem na vida real. Ou, por outro lado, um livro sobre pegar a estrada pode gerar grande identificação com quem gosta de fazer isso e o faz com frequência. É claro que existem vários fatores para alguém gostar ou desgostar, mas o que quero dizer é que um livro não é “gostável” por si só. O mérito de um bom livro é metade do escritor – e a outra metade, do leitor. Você pode até ter uma visão diferente da minha e gostar, quem sabe. Estou com o livro aqui à disposição.
Jack, não foi dessa vez. Fica para a próxima, ok? Agora você me dá licença: vou ali voltar para o Bukowski – o único vagabundo do qual consigo gostar.
Sempre falo da importância de ser crítico e de não acreditar em qualquer bobagem que se vê por aí, mas como leitora faço questão de ser crédula. Gosto de acreditar nas histórias bem contadas e já cheguei a dizer que alguém não pode ser um escritor se não consegue convencer seus leitores.
Quando me deparei com a história do Livro Infinito, escrita por Alex Luna, acreditei de tal forma que quase não acreditei que aquele texto seria o prólogo de uma coletânea de contos chamada Mentirinhas (à época). Tive o privilegiado acesso aos textos antes de serem publicados como Inverdades (com um subtítulo que considero perfeito: “pequenas manifestações divinas em folhas de chá, marcas de sangue e manchas de batom”).
De cara, você vai se deparar com algo curioso: todos os contos têm nomes de personagens mitológicos, deuses esquecidos, santos ou personagens bíblicos. Isso tem tudo a ver com o prólogo, em que somos apresentados a manuscritos que supostamente contêm a fórmula das histórias universais da humanidade.
A maior descoberta literária de todos os tempos aconteceu há mais de sete séculos, num mosteiro da velha Castilha. Depois de duas décadas copiando e traduzindo textos em latim, árabe e grego, o frei Giorgio Romano encontrou o esboço da Teoria do Todo Literário num manuscrito árabe. No texto, atribuído a um pensador da corte do grande sultão Harum al-Rachid, é levantada a hipótese de que todas as histórias são repetições de padrões, assim como as palavras são apenas repetições de letras. Para o autor do manuscrito, cuja identidade não foi identificada pelo monge, novos autores podem tentar recriar as histórias com novas roupagens, mas nunca conseguirão criar um texto original.
Judas
É sabido que as histórias se repetem, e não é de hoje, como mostram as infindáveis adaptações e remakes vistas no cinema: até a história de Jesus tem incríveis semelhanças com outros mitos ainda mais antigos. Em Inverdades, essas semelhanças são muito bem-vindas, mas nem sempre tão óbvias. Os títulos de cada história dão uma pista, mas às vezes é preciso pesquisar para entender qual é a relação dos personagens do livro com seus respectivos mitos.
Isso faz de Inverdades um livro cheio de easter eggs para serem desvendados. E essa experiência (altamente recomendável), de buscar o significado dos mitos em cada conto, faz com que as histórias não se encerrem ali. Não foram poucas as vezes em que recorri ao Google para pesquisar mais sobre os mitos e sempre me surpreendi: tanto por ter descoberto uma história que ainda não conhecia, quanto por ter encontrado uma engenhosa associação com as histórias escritas por Alex Luna. Você nunca ia imaginar, por exemplo, que a história bíblica de Jonas e a baleia pudesse ganhar contornos eróticos em um conto perturbador sobre bondage, dominação e sadomasoquismo.
Não se engane: não é história para crianças
É até difícil eleger uma inverdade favorita, mas gostei particularmente de São Jerônimo Penitente, a história de um velho ateu e moralista que morre e tem seus segredos mais pervertidos descobertos pelo seu neto. É aquela história gostosa de ler, especialmente pelo peculiar tom de humor que ela carrega, aquele típico de velhos ranzinzas que não veem graça em nada.
O velho, estirado no caixão, dormia o sono dos que já vão tarde. Pelo menos, era o consenso familiar. (…) Nunca estava bem-humorado e dizia sempre que o segredo de uma vida longa era querer que ela não durasse muito, porque se dizia pelos cantos, principalmente pela parte da família materna de Robson, que já era hora de o velho esticar as canelas. Claro está, odiar o sogro é um esporte nacional. Mais que isso, quase um imperativo categórico obedecido até pelos alienígenas, se acaso tivessem o infortúnio do casamento na sua civilização, teoricamente avançada.
Aliás, outro mérito do livro é ser um desfile de personagens com voz própria, que marcam cada conto com uma linguagem única. Você viaja com rebeldes pelo ambiente agreste do sertão em Judas, passa pelas desventuras da imigrante Núbia nas ruas de Lisboa em Chih Nu, e chega até Roma, falando italiano com o cientista Daniele, em Galatéia. Personagens com tanta profundidade que têm até textura.
Nem Colombina ficou de fora
Tão admirável quanto a habilidade narrativa de Alex Luna é o seu empenho, cara e coragem de publicar seu livro de forma independente. Se você é dos que escrevem, fica a inspiração: fazer literatura não depende de nada, a não ser de você mesmo. Se você também é dos que leem, fica a dica: Inverdades é uma ótima leitura.
Como comprar
Basta clicar aqui e comprar o livro na Amazon, em edição para Kindle.
“Ah, mas eu não tenho Kindle, mimimi”
Você sabia que dá pra baixar o Kindle pro seu pc ou mac? Eu também não sabia. Pois é, dá para fazer o download gratuito aqui. Depois, é só aproveitar a leitura. :)
A primeira coisa que fiz quando terminei de ler o livro do Alex Castro, Onde Perdemos Tudo, foi procurar sobre Jácome Gol. Um escritor que tem forte influência sobre o último conto do livro, A Falta Que Nos Fazem Os Figos, além de ser autor do livro Quando Morrem Os Pêssegos, que dá nome a outro conto. De acordo com o próprio Alex, Gol é “um autor brasileiro menos conhecido”, mas desconfiei mesmo assim. Alex é daqueles escritores que levam a ficção ao extremo. É admirável e, ao mesmo tempo, assustadora a forma que ele faz você acreditar em qualquer coisa que ele escreva.
Alguém não pode ser um escritor se não consegue convencer seus leitores. É o que a gente espera quando pega um livro para ler: que o escritor consiga sustentar sua mentira durante as quinhentas e oitenta e cinco páginas e além. Onde Perdemos Tudo não tem tudo isso, claro. É uma leitura rápida, por ser um livro curto e agradável. E também não é nenhuma mentira: as histórias falam sobre algo que é bem real na vida de todos.
Essa veracidade das histórias, mais do que o tema da coletânea de contos – a perda, foi o que me chamou a atenção. Poderia jurar que conheço o personagem-narrador do conto A Morte do Meu Cachorro. Além do mais, o livro já começa com um conto onde eu mesma sou uma personagem. Na verdade, é a dedicatória.
Querida Aline,
Espero que tenha chegado bem. As crianças já estão na cama. Eu saí pra comprar cigarro e já volto. Por favor, não esquece de tirar o lixo e passear com a Lulu. Devo voltar antes das onze. Te amo. Do seu marido, Alex. SP, 23/11/2008
E é assim, com relacionamentos que se acabam, despedidas, mortes e outras perdas que o livro continua. Encaramos, de uma só vez, as situações mais difíceis de se encarar. Muitas pessoas – a quem eu indicaria fortemente a leitura deste livro – não conseguem lidar com a perda. Não aceitam, não superam, não se desapegam. Acabam se perdendo. Porque, apesar da evidente contradição, a vida não está completa enquanto não perdemos algo. O emprego, o cabelo, os amores, os amigos, o dinheiro, a vergonha, a fé, uns quilinhos, os pais, as chaves de casa, o último capítulo da novela, a virgindade, o ônibus, o jogo, a vez, as vistas, os dentes. Ser adulto é isso: engolir o choro e aprender a perder. Sobre essa maturidade, Alex Castro escreveu A Morte do Meu Cachorro, que começa assim:
A infância acaba, disse alguém, quando morre nosso cachorro.(…) Amigos humanos têm outros afazeres e outros amigos. Um dia, seus caminhos se descruzam e cada um vai viver sua vida. Talvez nunca mais se vejam. Um cachorro, entretanto, só tem o dono e seus caminhos são coincidentes: a vida do cachorro é a vida do dono e ele sempre ficará ao seu lado, até morrer. Então, com o fim, absoluto e irrecorrível, da amizade mais sincera que pode existir, a infância acaba.
Também vemos, neste e no conto com o mesmo nome do livro, a diferença entre o fim de uma amizade e de um relacionamento amoroso. Amores, como o de Ramiro e Jáque, terminam de forma dolorosa, mal-explicada e abruptamente, deixando no lugar um passado incômodo e um presente confuso. Amizades não precisam terminar de fato pra gente saber que acabou. A vida se encarrega de distanciar as pessoas antes que elas percebam que a vida delas se descruzaram e, mesmo que se cumprimentem sem ressentimentos de ex-namorados, já não têm mais assunto. “Será que não percebem o quão ameaçador é o silêncio de quem já disse tudo, de quem já partilhou tudo?” Mas só porque essa perda acaba sendo mais natural que a outra, não significa que seja mais suportável. Afinal, a morte também é uma perda bastante natural.
Certamente, o tema rende. Quem sabe não sai um segundo livro com mais contos? Enquanto isso, fico no aguardo do lançamento, previsto para 2012, da reedição de Quando Morrem os Pêssegos, de Jácome Gol.
Imagine que isso seja um briefing: criar uma campanha para a Starbucks, com tudo o que a empresa acredita, que fale sobre os produtos, mas que envolva e emocione o público. Pensou em um filme de 30 segundos, ou em um anúncio inteligente com uma baita fotona? Um redator fez bem melhor do que isso. E nem era job.
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Ainda não sei dizer porque esse título me chamou tanto a atenção, se caberia muito bem em um livro de auto-ajuda. Só sei que ele estava lá, em alguma seção aleatória da livraria, e eu o peguei. Eu nem queria comprar um livro. Mas se a história fosse tão cativante quanto o resumo da quarta capa, então quem sabe valesse a pena?
É basicamente isso: o livro conta a história de um ex-diretor de criação da JWT de Nova York, que se vê na rua da amargura quando é demitido aos 53 anos. Velho, falido, divorciado, com um tumor no cérebro e nenhum plano de saúde, Michael Gates Gill recomeça do zero quando aceita o emprego de servir café em uma loja da Starbucks.
Confesso que a primeira sensação ao pegar o livro foi schadenfreude: era a história real de um publicitário poderoso que perdia tudo na vida. Mas não teve como não me identificar com o personagem, ainda mais depois de descobrir que Mike era redator.
A narrativa é uma delícia. Pude acompanhar Mike e sentir sua dificuldade em se adaptar ao novo emprego e ao novo estilo de vida (tendo que pegar trem e metrô durante uma hora e meia de viagem, todo dia, para chegar à Starbucks da 93 com a Broadway), ao mesmo tempo em que conhecia um pouco de seu passado em flashbacks na medida certa.
Mas não é esse o ponto que me levou a escrever este post.
Mike conseguiu nesse livro o que talvez nenhuma de suas campanhas premiadas tenha conseguido em sua carreira publicitária: ele mostra um lado da Starbucks que poucos conhecem, e envolve o público com o universo da marca, de uma forma que a publicidade tradicional não conseguiria.
Fiquei apaixonada pelo ambiente de trabalho que ele descreve, pela relação da loja com seus consumidores, pela relação dos funcionários com a loja, e pela variedade de cafés que ele apresenta durante a narrativa. Se eu não conseguir um emprego lá, quero pelo menos sentar e tomar um Tall Latte. É, histórias têm esse poder.
Atingir o público dessa forma, conseguir essa ligação com sua marca, e até quem sabe, fazê-lo chorar (como eu chorei várias vezes), não é, afinal, o objetivo da publicidade?
Não estou dizendo com isso que o livro seja uma propaganda deliberada para a Starbucks. Ele não é. A questão é perceber que, para ser mais efetiva, a publicidade precisa parecer cada vez menos com… publicidade.
Pessoas: é o que importa quando você trabalha com comunicação... ou servindo café
Mike ao lado de Crystal, a gerente de Starbucks que lhe deu um emprego
Quem faz parte de uma geração old school da propaganda (como Mike) ainda vai demorar para entender que hoje vale mais se aproximar das pessoas para levar experiências legais ligadas à marca do que uma superprodução de 30 segundos na Globo.
Se você é publicitário, vale a pena ler “Como a Starbucks salvou minha vida” sob essa perspectiva, e refletir sobre este aspecto da nossa profissão. Mesmo se não for, a leitura é deliciosa. É como um bom copo de café: você precisa experimentar.
Alguns defendem que evoluímos do macaco; outros acreditam que os homens surgiram do barro e as mulheres de uma costela. E tem até quem acredita que viemos parar neste mundo após cair de um cometa. Em geral, os humanos discordam sobre sua própria origem. Mas temos que concordar em uma coisa: contar histórias é algo que os humanos fazem muito bem desde o começo.
Quer um exemplo? O livro bíblico Gênesis. Apesar de escrito por uma galera tão antiga quanto andar sobre as duas patas, ainda hoje arrebata milhões de leitores (com o perdão do trocadilho cristão). É de dar inveja a qualquer bruxinho mirim.
E quando vi na livraria a adaptação para quadrinhos desse famoso livro, fiquei louca para ler. Segurei meu ímpeto consumista e tive a sorte de descobrir que meu amigo Doug já tinha o livro. Peguei emprestado e devorei em uma noite e uma manhã.
Robert Crumb fez um trabalho genial ao adaptar LITERALMENTE as passagens bíblicas para os quadrinhos. Não “enfeitou” a história com simbologias, metáforas ou interpretações. Tá tudo lá, ipsis literis.
Eis Robert Crumb
“Todas as outras versões em quadrinhos da Bíblia que vi contêm passagens com narrativas e diálogos completamente inventados, numa tentativa de ‘modernizar’ e deixar mais ‘dinâmicas’ as velhas escrituras”, conta ele no prefácio. Como procurou manter-se fiel à versão original, traduzida por Robert Alter, a linguagem é cansativa. Tem trechos repetitivos, alguns deles truncados com um monte de nomes próprios difíceis, e a narrativa é seca, rápida e crua. Mas suas fabulosas ilustrações conseguem deixar a leitura deliciosa.
Não é muito difícil saber do que se trata a história. Afinal, o protagonista é o personagem mais adorado do planeta. E não estou falando do Calvin, que em matéria de sabedoria e carisma ganha de lavada do todo-poderoso.
"É difícil ser religioso quando certas pessoas nunca são incineradas por relâmpagos." Calvin
Quanto a Deus, foi interessante reparar em como se desenvolveu e se relacionou com os demais personagens ao longo do livro. Nos primeiros capítulos, está no centro da narrativa e tudo se faz de acordo com a sua vontade. Quer dizer, os humanos parecem sempre inclinados a contrariá-lo. Talvez isso explique seu mau-humor: não existe um quadro sequer em que Deus esteja sorrindo.
Mais ou menos depois do incidente com a Torre de Babel é que ele passa a aparecer menos; de vez em quando se dá ao trabalho de falar com seus escolhidos através de sonhos ou delírios. Isso mostra que quanto mais pessoas e clãs vão surgindo no mundo, mais as pessoas ficam voltadas para as complexas relações umas com as outras. Todos ocupados demais com suas próprias questões, mas sem deixar de usar deus como justificativa pra tudo. Igualzinho hoje.
(Ah! Esse episódio da Torre de Babel me deixou impressionada e revela um aspecto importante do cara: estavam lá os humanos construindo um baita monumento para fortalecer seu espírito de união. Uma coisa linda. E Deus faz o quê? Pirraça. Ele pensa: “Eita ferro. Um povo que fala uma só língua pode fazer o que quiser! Nem pensar que eu vou deixar.” E aí vocês já imaginam o que acontece.)
A mesa do criador
Felizmente, o livro é um desfile de personagens mais interessantes do que esse. Mas não fiquei surpresa ao perceber que a narrativa acompanhava apenas os patriarcas, embora as personagens mulheres fossem mais fortes e decididas, donas do seu próprio nariz e capazes de gerar viradas impressionantes na história (a exemplo de Rebeca e Raquel).
Dentre os patriarcas, o que mais me impressionou foi Jacó (depois chamado Israel). Trabalhou como um condenado 20 anos a serviço de Labão, pai de Raquel. Foi enganado e explorado pelo sogro, que não queria deixar que ele voltasse para sua terra com suas duas esposas. Jacó pede para que pelo menos tenha suas próprias provisões. Então faz um acordo com Labão: ele trabalha mais alguns anos cuidando do rebanho, e todas as ovelhas negras e cabras malhadas ficam como seu pagamento. Labão aceitou, lógico. Era muito mais comum nascerem cordeiros brancos e cabras negras. Aí Jacó utiliza a genética a seu favor: separa os animais mais saudáveis para cruzar perto do bebedouro onde cravou estacas com listras. Dessa forma, nasciam crias com manchas. E então começa a fazer os animais listrados e fortes cruzarem entre si, criando um rebanho especial. Ok, fora a parte das estacas, é pura ciência.
Além disso, a história está cheia de putaria explícita, estupros, sanguinolência, saques, pelo menos dois genocídios promovidos por Deus, desavenças mortais entre irmãos, duas filhas que engravidam do pai, e até um pai que quase mata o próprio filho em sacrifício ao seu deus. Não falta emoção, pode ter certeza.
Enfim…
Sodoma antes do genocídio
Espero não ter ofendido ninguém, afinal, essa é minha análise do ponto de vista literário. Como aspirante a escritora e amante da leitura, reconheço no livro Gênesis uma história riquíssima. Foi ali que os hebreus depositaram as histórias sobre a origem do seu povo, e a meu ver, usaram o recurso da fantasia por dois motivos: a) não tinham conhecimento para explicar, de forma racional e científica, os acontecimentos e fenômenos ao seu redor, ou como e porque as coisas e pessoas eram do jeito que eram; e b) esses elementos sobrenaturais deixaram a história mais legal, oras. Ou se Edward não fosse um vampiro (ok, há controvérsias), você acha que existiria uma legião de adolescentes enlouquecidas pela saga?
Você mede um sucesso literário pela quantidade de leitores entusiastas que a obra gera. E nesse quesito, a Bíblia não tem nem comparação. Impressionante como os caras conseguiram fazer uma história resistir milhares de anos, chegando para milhões de pessoas. E mais: conseguir, nos dias de hoje, um cara tão foda como Robert Crumb para ilustrá-la.
Post sobre Lost tá sempre em tempo. Certo, Faraday?
O que posso dizer sobre Lost sem ser, de cara, passional demais? Foram seis anos de uma história que fez jus ao seu nome do início ao fim. Começou com personagens perdidos em uma ilha, que depois ficaram perdidos no tempo, fazendo a série perder audiência, sem antes deixar os fãs perdidos no meio de tanto mistério, terminando com roteiristas mais perdidos que todo mundo até agora – e com o sentimento que a gente perdeu tempo assistindo.
A série dividiu opiniões e foi uma divisora de águas, sendo a percursora de uma mudança na forma de pensar e consumir entretenimento. Ok, até pode não ser um bom exemplo de fechamento de narrativa, que definitivamente não correspondeu a todo o potencial que a série possuía no início, mas sem dúvidas Lost foi um dos cases mais bem sucedidos de transmedia storytelling. Não tiro a razão de quem esbraveja contra a habilidade narrativa dos condutores da história (até porque faço parte do time que nutre um sentimento de revolta desde que começou a última temporada), mas é inquestionável: há algum mérito em fazer com que uma pessoa permaneça ligada a uma série televisiva durante cinco anos consecutivos e VIVA (sim, viva, e não apenas assista) uma história com tanta intensidade durante todo esse tempo.
Elenco de Lost reunido
Não vou chover no molhado e ficar discorrendo longamente sobre cada furo da sexta temporada e sobre o nível juvenil da narrativa, coisa que o Gravataí já fez melhor aqui e aqui. Só quero expor uma análise dos pontos principais, sob a perspectiva da narrativa (além de deixar claro que detestei e que não houve um momento em que não pensei que a autoria do roteiro houvesse sido passada para um grupo de adolescentes com sério déficit de neurônios. Essa de purgatório e igrejinha no final para irem juntos para o céu não colou. Por mim, se os jovens da Caverna do Dragão se cruzassem com os heróis de Lost para todos irem juntos para casa, o final ia ser muito mais convincente).
Apesar de já estar meio capenga na quinta temporada, acho que a história podia ter terminado por ali mesmo, com a explosão da bomba H. Não ia ter respondido metade do que a sexta temporada tentou porcamente fazer, mas ia ser um final digno. E convenhamos, ia fazer mais sentido.
What lies in the shadow of statue? Taí uma pergunta que seria melhor não ter respondido. Jacob? Não, obrigada.
Acredito que o maior erro dos roteiristas foi tentar explicar todos os mistérios que haviam criado para a ilha. A pressão devia estar forte para o lado deles, pois o dinheiro está sempre no banco do motorista e os produtores executivos precisavam chamar de volta os espectadores, com a promessa de que todos teriam as respostas que queriam. Tá certo que era uma expectativa geral, todo mundo assistia o capítulo seguinte na esperança de encontrar uma explicaçãozinha que seja, mas as coisas eram melhores quando NÓS, os espectadores, chegávamos nas respostas. Na sexta temporada, o caminho se inverteu, e foram as respostas que começaram a chegar até nós, de uma forma bem forçada, diga-se de passagem. Saber construir, e acima de tudo, manter perguntas na cabeça do espectador é a principal arte de quem escreve suspense. E é uma linha tênue: perguntas demais confundem e aborrecem o leitor, sem falar que podem acabar em frustração se não forem satisfatoriamente respondidas no desfecho. Eu particularmente, acho muito mais provocante e envolvente uma história que deixa um final em aberto, para que eu participe da história com a minha própria imaginação. E quantas perguntas eles não trocaram por respostas rasas, quando não por sumários pontos finais?
A Iniciativa Dharma dava um gostinho especial para a série.
O que nossos ilustres escritores lostianos fizeram foi justamente o que todo mundo faz quando já não consegue explicar nada racionalmente: parte para o mítico, o sobrenatural. Lost era a representação perfeita do gênero sci-fi fantasy, equilibrando bem essas duas vertentes até desandar e deixar o sci-fi perdido no meio do caminho, provavelmente em algum dos lapsos temporais decorrentes dos soluços espaço-temporais da ilha. Se essa historinha de céu e purgatório já não colou, imagina então o Jacob, que fez papel de figura divina da ilha, como protetor de uma espécie de fonte sagrada da vida . Perceba que essa consciência de que existia uma força poderosa na ilha já está presente desde o início, e apenas se reforçou na segunda temporada, em que apareceu a Iniciativa Dharma. Tanto nesta fase quanto no final, temos essa fonte de “poder”, alvo de muita cobiça e envolta de mistérios. A diferença é que no início esse mistério dava muito mais pano para manga, e ao mesmo tempo em que nos enchia de perguntas, ia mostrando o significado e o porquê daquilo tudo, através das experiências científicas envolvendo eletromagnetismo, meteorologia, parapsicologia e zoologia (sim, eu sou uma fã da fase Dharma); enquanto no final a “grande explicação” se resumiu em dizer que todo esse poder vinha de uma gruta com uma água mágica e uma rolha que se tirada do lugar destruíria a ilha e libertaria todo o mal. Totalmente desnecessário.
Outro grande ponto que a série tinha conseguido desenvolver, até estragar tudo na sexta temporada, eram os personagens. A relação entre eles, a motivação de cada um e a relevância deles para a história, era tudo muito consistente. Poucas vezes tive contato com personagens tão profundos e bem construídos quanto os sobreviventes do vôo 815, assim como os Outros (afinal, Juliet e Ben figuram entre os melhores personagens da série na minha opinião, juntamente com Desmond e Faraday). Mas para que eles se perdessem (no sentido narrativo) foi um pulo. O casal Jin e Sun teve uma participação inexpressiva, Sawyer não deixou nem pálida sombra do que já foi um dia, Ben abandonou os mind games que o consagraram como vilão dos bons e velhos tempos de Dharma, Richard (ou Ricardus) mostrou ser nada mais que um cagão que nunca teve relevância no grande esquema da ilha, Sayid virou um zumbi (ponto), e nem Widmore cumpriu as expectativas do personagem poderoso e com moral para acabar com toda aquela história que ele parecia ser. Tudo isso para que Jack pudesse aparecer mais, e olha que ele conseguiu ficar ainda mais seboso e cansativo do que já era.
Se vir esses caras na rua, pode bater. O roteirista Carlton Cuse com o roteirista e criador Damon Lindelof
Aí vai a gota d’água: o detalhe é que os roteiristas não sabiam o que estavam fazendo. Rá, e todo mundo achando que eles tinham tudo friamente calculado desde o início. Coisa nenhuma. Olha só essa entrevista que encontrei, com JJ Abrams, um dos roteiristas e criadores da série:
O final da série é aquilo que você pensou que fosse ser desde o início?
JJ: Ah, de jeito nenhum! Há pequenos temas e elementos espalhados, mas a verdade é que quando começamos não sabíamos exatamente o que havia na escotilha. Tínhamos ideias, mas não sabíamos até onde poderíamos explorá-las. A noção sobre o papel dos Outros existia, mas não sabíamos exatamente o que eles significariam. Àquela altura Damon ainda não havia tido a ideia do flash forward. Ver onde chegamos e o que eles criaram é muito gratificante e algo que ninguém poderia prever no início de tudo.
Certamente haviam inúmeras possibilidades de terminar melhor essa história. Mas assim como eles não puderam prever o futuro da série, também não é possível voltar no tempo e tentar consertar a lambança. E para o fim dessa era Lost, que vai deixar muita saudade de uma história bem contada, assim como muita revolta de um final mal contado, só tenho uma coisa a dizer: