CAT | Notas da Autora
Foi difícil, mas terminei. E não falo apenas da faculdade, mas de outra coisa que tumultuou a minha vida: o meu trabalho final. Para quem ainda não sabe, meu projeto de conclusão de curso, em dupla com o Cavi Loos, foi a produção de uma temporada piloto de cinco episódios para um seriado de internet. Isso porque eu sou maluca e encarei o desafio de fazer algo que não domino, correndo todos os riscos possíveis, só para experimentar algo diferente.
Ainda penso que podia ter escolhido a segurança de ter feito algo que eu já faça bem para garantir a qualidade do resultado. Mas aprender a trabalhar uma narrativa audiovisual valia o risco. E olha que não foram poucos: corremos o risco de não conseguir terminar tudo a tempo da entrega, e sequer tínhamos a garantia de uma boa nota (embora, no final das contas, tenhamos tirado a nota máxima).
Da criação do roteiro ao fim das edições, foram uns três meses. Para imaginar a correria, considere ainda que as gravações das cenas dos cinco episódios foram feitas em apenas seis dias (dois finais de semana mais dois dias), sem verba alguma, e que todo o trabalho, que precisaria de uma equipe de, no mínimo, 14 pessoas, foi feito por uma equipe de 4 pessoas. Eu diria que foi um milagre, se eu acreditasse nisso. Mas foi mesmo um puta trabalho e dedicação dos envolvidos, tanto da equipe quanto dos lindos do elenco.
Agradeço a cada um deles não só por terem ajudado o seriado a acontecer, mas principalmente pelo aprendizado. Entre tantas coisas, posso destacar o que aprendi com o Caio Lins, diretor de elenco, em relação à construção de personagens. Foi incrível observar ele orientando os atores, mostrando grande intimidade com os personagens que criei, como se ele mesmo os tivesse criado – aliás, como se eles existissem mesmo. A liberdade do elenco ao construir os personagens com a interpretação me fez perceber que só quando o criador perde o controle de sua criação é que ela ganha vida. Isso com certeza vai me ajudar a escrever histórias com personagens mais vivos e convincentes. E é claro, também aprendi com os inúmeros erros. É, parece clichê, mas é isso mesmo: é com eles que a gente aprende.
Por isso, estou disponibilizando o roteiro para download (é só clicar aqui). Sei que existem uns malucos que leem de tudo e também vão querer ler isso. O que é ótimo, porque comentários e críticas serão muito, muito bem-vindas. Sério, me escrevam. Tenho certeza que posso aprender com vocês também.
Ah, e o mais importante: vocês podem ver os episódios no canal do Não Repara a Bagunça no YouTube. A temporada piloto está sendo publicada durante esta semana: todo dia, um novo episódio, às 17h. Assinem o canal, é mais fácil. Alguma coisa nesse processo todo tinha que ser, né?
Olhando a data do último post dá para ver que já faz um bom tempo que não escrevo coisa nova, e frequentemente me perguntam porque parei de escrever.
Agora respondo.

Não, não parei de escrever. Como poderia? Apenas suspendi temporariamente as atividades aqui no blog para me dedicar a um projeto megalomaníaco na qual eu me meti. Para quem não sabe, esse semestre eu me formo em Publicidade e Propaganda e estou produzindo um seriado para meu projeto final.
Isso mesmo. Um seriado. Ele se chama Não Repara a Bagunça e tem cinco episódios (se tudo der certo). Enquanto ele não fica pronto, vocês podem conferir o processo de produção e um pouco da história aqui, no blog do making of: www.naoreparaabagunca.com.br/makingof. Tem muito material de bastidores para mostrar, aos poucos vou postando.
E não se preocupem: assim que o seriado estiver pronto, volto a postar normalmente por aqui. Afinal, o que mais quero fazer depois de me formar é me dedicar totalmente ao blog (tá, e também fazer uma bela faxina aqui em casa).
Mas depois a gente conversa. Tenho gravação esse final de semana e muita coisa para preparar!

Ela achou que, se não dava para ouvir vozes no apartamento ao lado, também não iam ouvi-la gemendo um pouco mais alto na hora do sexo. O vizinho era mudo, mas escutava bem.
Concentração é metade do trabalho de quem escreve. E dispersão é um dos meus maiores problemas. É olhar para os botões de ferramentas do Word e pronto, já estou em outro lugar. Sem falar nas escapadinhas para as outras janelas, ou aquela espiadinha rápida no twitter, ou quando aquela notificação de email novo salta na tela. Qualquer coisa. Tenho a mesma atenção de um pombo (que, hoje em dia, nem desviam mais dos carros, reparem).

Your mind, a wild monkey
Daí que na falta de ritalina, encontrei o Ommwriter. Santa indicação do Alex Tarrask. É um programa que todo escritor, redator, roteirista, ou blogueiro devia usar ou pelo menos experimentar. É simples. Bem simples mesmo: é só uma grande tela que invade seu computador e te deixa sozinho com o texto. É só o que você vê. Sem barra de ferramentas, sem outras janelas, nem as horas dá pra ver (mas aí você tem que fazer uma forcinha para esquecer que o Alt ou Cmd + Tab existe).
A simplicidade dele protege você de se preocupar com coisas inúteis, como formatação de texto, de parágrafo, ou até número de páginas (o máximo que você consegue ver é o número de palavras digitadas, e só quando você move o cursor). Você tem três opções de fundo, pode optar por colocar som no teclado, ou optar por três relaxantes sons ambiente. Ou ainda ficar com o silêncio absoluto, a escolha é sua.
Minha experiência com o Ommwriter foi bastante positiva, mas ainda é um tanto recente. Escrevi alguns posts (como esse), trechos de contos e um projeto de romance no qual estou trabalhando. Escrevi como se não houvesse amanhã. Os bloqueios existiram e existem, mas sem uma porta de escape, fica bem difícil o bloqueio se transformar em dispersão total.

O que eu vejo: só texto
Nunca experimentei meditar, mas acredito que Ommwriter seja a versão com teclado de meditação em um templo budista. No Tibete.
Essa invenção genial foi criada pela equipe de Rafa Soto, da agência HerraizSoto&Co de Barcelona. O Ommwriter é o resultado de estudos feitos para descobrir como criar um ambiente propício para a concentração e a criatividade. O programa também representa a filosofia de trabalho da agência, de dar importância às ideias, e chegaram a ganhar com ele um merecedíssimo bronze no One Show. Eles também mereciam ganhar um abraço.
Ommwriter from hs&co on Vimeo.
Não, ele não é milagroso. Não te torna um grande escritor do dia para a noite. Ele te ajuda em 50% do que você precisa, como eu disse lá em cima. O resto é com você, claro.
O programa é compatível com o Mac, PC e até iPad, e você pode fazer o download de graça aqui.
Escrevam bastante.
Redatores são constantemente lembrados, seja por recomendações sérias de seus diretores de criação, ou por zoações amigáveis de seus duplas diretores de arte, que as pessoas têm preguiça de ler. “As pessoas não leem. Diminui esse texto, resume aquele ali, dá uma enxugada no título, etc.” Este post bem que podia ser um mimimi de quem ainda acredita que a gente não escreve texto de apoio à toa, que as pessoas lêem sim; eu até queria, mas não vou escrever sobre isso. Preciso concordar que sim, as pessoas têm preguiça de ler. E não falo isso gratuitamente. Tirei isso de um fato recente, do qual muitos de vocês já devem ter ouvido falar.
O livro de português “Viver e Aprender” (parte da coleção didática criada para o Ensino de Jovens e Adultos) virou notícia e assunto na internet. A mídia alardeou que o MEC teria comprado livros que ensinam os alunos a falarem “errado”. O polêmico trecho diz que a pessoa pode falar “os livro”, desde que saiba que, dependendo da situação, pode sofrer preconceito linguístico. Foi o suficiente para o mundo desabar. Absurdo! A educação vai ser nivelada por baixo! Estão acabando com o português! Imagina se o jeito dessa gente pobre falar “os livro” pode ser legitimado, etc, etc.
Não vou me aprofundar na questão linguística, porque já fiizeram muito melhor o Alex Castro, o Diego Jiquilin no blog da Lola, o Helio Schwartsman na Folha, e este artigo na Terra Magazine. E isso para não citar o vídeo onde os escritores Marcelino Freire e Cristóvão Tezza rebatem com bom humor a babaquice da Globo em atacar o livro sem nem saber do que está falando.
Aí entra a preguiça de ler. Com base em apenas um trecho de uma única página, já vimos todos os tipos de comentários afoitos e indignados pelo twitter e blogs afora (principalmente na mídia). Ninguém teve a preocupação de ler um pouco mais sobre o assunto. De entender do que se trata o livro, em que contexto aquela lição “dos livro” estava sendo dada. Muitos nem sabiam que o livro didático é destinado ao EJA e não a crianças.
Boa parte da culpa é da própria educação que recebemos na escola. Aprendemos com base no “certo” e “errado”. O modelo de ensino no qual a maioria de nós foi alfabetizado não contemplava a crítica, o questionamento. E agora que isso está começando a mudar, queremos que a próxima geração continue aprendendo com métodos já ultrapassados?
A escola também falhou, no caso de muita gente, em ensinar a ler. Até na faculdade vemos pessoas com clara deficiência de leitura e interpretação de texto. E é gente “limpinha”, não esses pobres que falam “os livro”. Quando não estão com preguiça de ler, não conseguem entender o que estão lendo.
Mas o pior é quem sequer se dá ao trabalho de entender um assunto ou procurar saber mais sobre ele, e sai por aí falando besteira. Do jornalismo a gente não pode esperar muito mesmo. Até porque, apesar de indignados com o tal livro que relativiza o uso da norma culta, são eles os que cometem erros grotescos, mesmo sendo profissionais que supostamente deveriam falar português impecavelmente. Triste foi ver gente instruída, bem informada, e até redatores (!!!) proferindo comentários típicos de um bobalhão como Alexandre Garcia.
Que ter domínio da língua culta é essencial para quem trabalha com Redação Publicitária, disso não temos dúvidas. Mas a publicidade não seria a mesma se os redatores escrevessem como um promotor público. Olhem para qualquer bom anúncio e vocês verão uma linguagem coloquial, gostosa de ler. Nem na literatura a norma culta é seguida com rigor. Nem você, caro leitor erudito, fala da mesma forma que escreve.
A língua é das pessoas, não dos dicionários e gramáticas. A linguagem é viva, e não é o uso que as pessoas fazem dela que irá matá-la. Pelo contrário. E sobre essa incrível propriedade da nossa língua, Alex Castro diz:
A língua portuguesa não está na defensiva, não está decadente, não está morrendo, não precisa ser salva, não precisa ser defendida.
O português, presente em todos os continentes, é a sexta língua mais falada do mundo e a terceira do ocidente. Ele não tem o monopólio de palavras – sim, vários idiomas têm palavra para “saudade”. Ele não é mais rico do que nenhum outro idioma. O português não precisa ser mais rico do que ninguém. O português é. E isso basta.
Todos comemora.
Preciso confessar que este blog não é o único onde ando escrevendo. Entre os projetos paralelos nos quais estou envolvida, um deles já está no ar e super funcionando. É o 30 dedos, um blog colaborativo de contos. Na verdade é bem simples. E começou bem de repente: foi quando o Zé Moreira teve a ideia de chamar Tarrask e eu para nos aventurarmos a escrever uma história a 6 mãos, 30 dedos e muito improviso.
Funciona assim: cada um escreve um pouquinho e joga o pepino para o próximo. Nada é planejado. Ninguém sabe como a história vai acabar. Não sabemos nem como ela vai continuar. Por incrível que pareça, está saindo dessa bagunça uma história cheia de suspense e personagens interessantes. E o melhor de tudo: você não vai saber qual trecho de cada capítulo tem o meu dedo, ou o do Zé, ou o do Tarrask.
Eventualmente, chamamos um convidado para escrever um capítulo especial e nos deixar em apuros ainda maiores. Tem um capítulo novo toda quinta, e recomendo que você acompanhe os feeds para não perder nenhum.
Já tem três capítulos por lá. Mas como sou boazinha, vou postar o primeiro para vocês terem uma ideia.
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Robson não imaginava o quanto era dolorida a sensação de flutuar. Esperava que quando a gravidade sumisse sob seus pés, tudo ficaria mais leve e ele experimentaria uma espécie de prazer. Mas na prática, ele sentiu desespero. Seus ossos pesavam no corpo, e tudo chacoalhava por dentro, como se não tivesse onde se segurar. Mais ou menos igual a ele, que jogava os braços para todos os lados tentando encontrar algo para as mãos agarrarem. Então veio o impacto. Era a gravidade dizendo: “olá, ainda estou aqui”.
Seu corpo bateu de um lado para o outro. Seria um perfeito boneco de pano, se sua carne não estivesse se rasgando e esfolando enquanto se chocava contra poltronas, vidro e metal retorcido. Girou e foi arremessado para fora, junto com um monte de caco de vidros. Só percebeu que era real quando deu com a cara no asfalto. Levantou o rosto, sentindo que estava meio surdo. Mas conseguiu ver perfeitamente o ônibus capotado. E o pessoal lá dentro não devia estar com uma aparência melhor.
Um gosto estranho preenche a boca de robson, ele nunca havia cuspido tanto sangue na vida, nem mesmo nas brigas que já tinha se metido na vida por conta de excesso de bebida, ou falta de mulher.
O cheiro de gasolina e borracha queimada tomam conta de tudo, robson decide andar e se afastar um pouco daquele inferno, e no primeiro corte ele percebe que havia perdido o sapato direito, logo o sapato que tinha acabado de comprar, e ele achando que o dia não podia piorar.
Como normalmente acontece em acidentes em estradas movimentadas, um monte de gente começa a aparecer ao redor para fazer perguntas inoportunas, comentários desnecessários ou oferecer primeiros-socorros sem a capacidade necessária. Alguém telefona para a polícia, outro para o jornal e outro para a mãe, para contar que um ônibus perdeu o freio, escapou da pista, caiu do elevado entrando na sala-de-estar de uma casa que tinha o azar de estar por ali. Robson, jogado no asfalto do acostamento, sangrando e dolorido, pegou o telefone e ligou para o último número. Teve sorte, o aparelho ainda funcionava.
“Alô, Marcelo. Fudeu, cara. O ônibus capotou, estou no meio da rua, todo fudido. Não consigo andar, acho que vão me levar pra um hospital. É melhor você desaparecer. Prometo manter o bico fechado.”
Continuação aqui.
Com a chegada da TV na minha casa esses dias, e com o livro que estou lendo agora, “A Televisão na Era Digital”, de Newton Cannito, tenho pensado bastante sobre novelas. Não sou fã de novelas. Não gosto da forma com que são escritas. Gosto menos ainda da forma com que são interpretadas. Além disso, elas têm servido algumas vezes como ferramenta para alimentar preconceitos e a ignorância do público. Mas sejamos justos: não se pode menosprezar o que é, para muitas pessoas, o único contato com a arte de contar histórias.
Das últimas vezes em que sentei na frente da televisão e sintonizei em alguma novela, prestei atenção em alguns detalhes. Tanto na narrativa, quanto na linguagem visual. Acho que você também já deve ter percebido.
Diferente da maioria dos seriados com os quais me acostumei nesses últimos anos, as novelas têm apenas alguns planos básicos. Planos gerais de cenários, que são mostrados, normalmente, de apenas uma perspectiva (você nunca vai ver o outro lado da sala), planos médios para enfatizar a ação dos personagens, e planos em close na hora dos diálogos (um rosto de cada vez, sempre deixando de costas o personagem com quem se fala).
Outra característica marcante são as cenas rápidas (os cortes logo dão lugar a outras cenas, com outros personagens), e sempre baseadas no diálogo ou em expressividade extrema. Pode reparar. Os personagens estão sempre conversando sobre sentimentos, sobre a relação que existe entre as pessoas na trama, sobre o vilão que matou não sei quem e eles precisam desmascarar (eles se ocupam mais disso do que a própria polícia). Ninguém resolve nada por telefone ou por e-mail: as intrigas só acontecem presencialmente, as pessoas só se falam quando se visitam ou se encontram por acaso.
Todas as emoções são vividas ao extremo. Quando choram, fazem escândalo. Quando se apaixonam, morrem de amores. Quando gesticulam, quase fazem mímica.

É muito drama, gente
Qualquer semelhança com o teatro não é mera coincidência. Os diálogos que conduzem a história são um bom exemplo da influência da linguagem teatral, que também está presente no jogo de câmeras: os planos usados simulam a perspectiva do espectador em relação ao palco.
O mais interessante mesmo é a construção dos personagens. Novela vai, novela vem, e alguns personagens parecem os mesmos de histórias passadas. Dejá vu? Podemos dizer que é preguiça do autor, que prefere apostar em formulinhas, ou que não sabe criar personagens mais complexos. Mas isso já é algo feito desde o século XV, quando surgiu na Itália o gênero Commedia Dell’Arte, que digamos, é o bisavô das novelas como conhecemos hoje.

Você só precisa assistir a um episódio de uma novela para ver nos personagens as “máscaras” que eram usadas na Commedia Dell’Arte. Os enamorados (claro), o arlequim, a colombina, o velho avaro, o covarde que se faz de valente, etc. Estão todos lá. E todas as histórias surgem mais ou menos do mesmo tipo básico de personagens. Só muda os atores. Quer dizer, o papel do comelão que fica com todas na novela é sempre do Zé Mayer.

Os enamorados da vez
Além disso, a novela usa e abusa da verbalização (aqueles diálogos óbvios e repetitivos) porque ela tem muito em comum com o rádio. O público que assiste novela geralmente faz outras coisas ao mesmo tempo: arrumar a casa, cozinhar, passar roupa. Eu costumava desenhar enquanto “assistia” a uma das últimas novelas que lembro ter acompanhado: O Cravo e a Rosa, uma adaptação de Walcyr Carrasco para a obra de Shakespeare “A Megera Domada”. Quando você não está olhando o tempo todo para a tela, as falas ajudam bastante a entender o que está acontecendo.
Em seu livro, Newton Cannito dá algumas pistas para entender porque as novelas brasileiras são do jeito que são:
A criação dos breaks de intervalo e o hábito do público de mudar de canal com o controle remoto recuperam a necessidade de constantes atrações no conteúdo e de personagens e histórias simples, que possam ser imediatamente reconhecidas, num modelo mais próximo ao seriado e às histórias populares.
Por isso, acho importante ver as novelas com um novo olhar. Imagina o malabarismo que é escrever novelas tendo em mente todas as limitações da mídia. Ao mesmo tempo, os autores podem acompanhar a reação do público enquanto escrevem, e assim mudar os rumos da história em uma experiência interativa, mais ou menos como jogar RPG.
Depois de ver tudo isso, você pode até continuar detestando novela, mas precisa admitir que de pobre essa cultura não tem nada. É claro que existem novelas boas e ruins. Mas não podemos achar que as novelas precisam ser iguais a seriados ou filmes para serem boas no que foram criadas para fazer: contar histórias.
Sem dúvidas essa foi a descoberta que mais me impressionou nesses últimos dias. Na verdade, sempre fico impressionada quando vejo que tal escritor ou tal poeta também já escreveu para a propaganda, como é o caso por exemplo, de Olavo Bilac e até do autor de Como a Starbucks Salvou a Minha Vida.
Foi no livro de outro redator, Roberto Menna Barreto, que encontrei o nome de Orígenes Lessa. À primeira vista, é um nome esquisito. Mas para mim, é muito familiar. A sensação foi de cruzar na rua com um velho conhecido. E o que ele estava fazendo ali, afinal? No início da carreira de Barreto na publicidade, Lessa era ninguém menos que o redator mais foda da JWT, lá pelo final dos anos 50.

Nunca vi sequer uma peça publicitária dele. Mas a sua escrita eu conheço desde bem antes de saber que existia a profissão de redator. Ele já figurava nos meus livros escolares e foi o autor de dois dos livros que marcaram a minha infância: Memórias de um Cabo de Vassoura e Confissões de um Vira-Lata. Geniais. Claro que a bibliografia dele é bem mais extensa, incluindo contos, romances, ensaios e até reportagens.

Daí que o cara volta, comigo já adulta, e mostra que ainda tem algo importante para me ensinar. Dessa vez, não na matéria de Português; mas em Propaganda.
No início do livro “Criatividade em Propaganda”, Roberto conta como foi começar na carreira de redator em uma grande agência. Fala dos bloqueios, dos erros, dos jobs que viravam pesadelos. Não conseguia produzir. Até que um dia, Lessa chegou puto na agência. Tinha acabado de ler um excelente conto do jovem redator, publicado no suplemento literário do Jornal do Brasil. Não conseguia entender como alguém capaz de escrever algo daquele tipo não conseguia escrever nada que prestasse durante o expediente. Roberto ficou desesperado. Explicou que tentava seguir as regras, mas eram tantas!
Então Orígenes Lessa responde com o que considero uma grande verdade. Reproduzo abaixo:
Roberto, propaganda… é uma merda! O melhor anúncio não vale um bom conto ou um bom poema. A não ser para o imbecil que anuncia e para o imbecil que compra! Propaganda serve sabe para quê? Para se ganhar dinheiro mais fácil. Para se ter tempo! Tempo de escrever, de ler, tempo de produzir coisa séria!
Sabe o que é propaganda, rapaz? Olhe para este lápis. Você tem de fazer um anúncio sobre este lápis. Você fixa este lápis e rebusca na cabeça o que você pode dizer – não importa o que, nem como – capaz de levar o cara que vai ler a comprar este lápis. Você tem de convencer o sujeito, só isso!
E pensando bem, ver as coisas simples assim ajuda bem mais na criação do que acreditar que fazemos anúncios ou as pessoas morrem. Não foi por acaso que Lessa se tornou o redator mais importante da JWT. Ou um dos imortais da Academia Brasileira de Letras.
