Muitos torcem para pegar um metrô vazio daqueles. Mas os passageiros do vagão estão mais incomodados e tensos do que se estivessem em um vagão lotado na hora do rush. São seis: Arnoldo, Evangevaldo, Sheristone, Liz, Dina e Sérgio. Estão calados e se entreolhando nervosos. Podem até estar pegando o caminho da saída, mas continuam a ser o que são desde que começamos essa merda: confinados.

Lisandra se tremeu toda quando anunciei o resultado da votação. A maioria absoluta do público preferiu um não-nascido em vez da candidata a deputada e ex-líder do grupo. Azar, ficou para trás. Ela chorou e implorou para que deixassem uma pistola com ela, embora tenha sido ela que se posicionou claramente contra as armas de fogo assim que elas foram encontradas. A justificativa para a brusca mudança de opinião? Ficaria sozinha, precisaria se defender. Dina jogou para ela uma pistola antes de entrar no vagão. Assim que as portas se fecharam, Evangevaldo a questionou. Por que teria sido tão generosa?

- Não se preocupe. Está sem munição. Só para evitar que ela se mate. Sabe, não pode ser tão fácil assim para ela. – foi o que Dina respondeu.

Agora eles estão longe. Tanto nos trilhos quanto na mente. Sérgio e Arnoldo arrumam os suprimentos e veem o quanto ainda têm. Evangevaldo dorme. Dina desmonta uma pistola e limpa cada peça. Liz e Sheristone, a um canto, conversam. É Liz que puxa papo com a garota que parece cabisbaixa.

- Seu bebê começou bem. Ninguém aqui teria zero votos para ser eliminado.

- É verdade. – ela responde, um tanto desanimada.

- Ei, não precisa ficar chateada. Você está assim por que a Lisandra teve que ficar para trás? – Liz pergunta, mexendo nos cabelos da garota. Sheristone responde balançando a cabeça afirmativamente. – Não se sinta culpada, foi uma decisão do público.

- É que eu nem queria ficar grávida, sacou? Se não fosse isso, tipo, ninguém ia precisar ficar pra trás. E a culpa foi minha.

- Claro que não, não seja boba!

- Foi culpa minha sim… Aquele dia, na festa, o Samuel pediu só uma chupadinha, mas eu não devia ter engolido. Não devia. Foi culpa minha.

- Espera. Como assim? Vocês não transaram?

- Tipo, de colocar aquilo naquilo não.

Liz fica em choque por um instante. Ela começa a entender o que Arnoldo quis dizer sobre o porquê das coisas acontecerem naquele lugar. Mas ela mesma não consegue acreditar. Prefere ficar calada e abraça Sheristone.

***

O metrô chega ao fim da linha: aquela era a última estação, conforme indicado no mapa que tinham com eles. Eles descem do vagão desconfiados, com as armas em punho – exceto Evangevaldo, que tem as mãos ocupadas com as muletas que o ajudam a se locomover.

- Deve ser a saída, só pode ser a saída. – diz o professor Sérgio olhando para cima e vendo uma porta surgir. As escadas rolantes ainda funcionam, e é por elas que os confinados sobem.

Eles se aproximam da tal porta e é Arnoldo que resolve abri-la. Uma luz forte irrompe da porta. A tal luz no fim do túnel? É o que eles pensam, aliviados. Atravessam a porta e dão o primeiro passo para o lugar de onde vem tanta luz.

- Saímos? Nós saímos? – pergunta Evangevaldo.

É então que os olhos se acostumam com a claridade e percebem, para a surpresa de todos, que não é a luz da superfície. São holofotes. Eles estão em um estúdio de TV, com câmeras, luzes e até uma plateia, que os recebe com efusivas palmas. E claro, lá estou eu.

- Sejam bem-vindos ao Gogó dos Afortunados! – digo, assim que eles percebem que, merda, não é a saída.

- Quê? – Sérgio larga a mochila com suprimentos no chão.

- Filho da puta, você nos enganou! – grita Dina.

- Eu? Em momento algum eu disse para onde esse metrô os levaria. Se alguém quis acreditar que ele levaria para a saída do jogo, foram vocês.

Dina não quer saber. Pega suas duas pistolas, mira em mim e atira. A bala ricocheteia e é só então que eles percebem que, na borda do palco onde estão parados como crianças em um show de calouros, há uma barreira de vidro à prova de balas. Eles não aprendem nunca.

- Quer dizer que estamos presos? – é o que Liz constata, como se não fosse a coisa mais óbvia do mundo.

- Não é à toa que vocês são os Confinados e Fodidos. – faço o favor de esclarecer. O público vai ao delírio e aplaude. O show continua.

- Qual é o jogo agora, Jacuzzi? – pergunta Evangevaldo – O que temos que fazer para sair dessa merda?

- Esse é o Gogó dos Afortunados, uma nova atração na nossa programação. – olho para as câmeras e explico sorridente. – Aqui, só quem tem talento sobrevive! E quem não canta…

- A gente espanca! – grita o público do auditório em uma só voz, enlouquecidos.

- Funciona assim. Cada um de vocês irá apresentar uma performance. Escolham a música que quiserem, que nosso maestro Surdino acompanha o tom. O público vai escolher os três melhores cantores, que vão poder sair daqui.

- E o que acontece com os outros três? – pergunta Liz, já preocupada com o fato da sua liberdade depender da sua voz, que acredita não ser lá essas coisas.

- Isso vocês vão ver após os comerciais!

- O que vocês vão ver após os comerciais é um tiro no meio da sua cara, seu bandido! – esbraveja Dina, se jogando contra o vidro e ficando a centímetros do meu rosto.

- Você tem uma garganta boa pra gritar e xingar, Dina. Por que não começamos com você e vemos o que a sua voz é capaz de fazer? – sugiro calmamente, enquanto vejo Dina bufando de raiva atrás do vidro, fazendo com que fique embaçado.

Um microfone surge do teto, no meio do palco. Ela vai até o outro lado do palco e sussurra através do vidro o nome de uma música para o maestro. Volta ao centro do palco e toma o microfone em suas mãos. Atrás delas, os demais confinados parecem apreensivos.

Depois dos primeiros acordes, abre o bocão e começa a cantar mais distorcido que as guitarras. A música começa irreconhecível, mas a letra é inconfundível. Definitivamente, Dina está cantando My Favourite Game – e encarnando uma Ninna Persson mais punk e menos agradável. No mínimo irônico ouvir ela cantar que está perdendo seu jogo favorito.

Ela termina sua performance escarrando e cuspindo uma bola de catarro no vidro à prova de balas, em direção ao público – que não sabe se gosta ou se vaia. Na dúvida, fazem apenas um grande alvoroço.

O próximo a encarar o microfone é Sheristone. Não lembra nem de longe a garota triste e apagada que vimos no metrô. A ideia de fazer uma performance diante de um público deixa ela animada rapidinho. Seu forte é o funk: podia facilmente ser a vocalista de qualquer Gaiola de Cachorronas, de Popozudas ou de Papagaios. Ela começa a cantar uma música melodiosa e lenta. Mas logo começa o batidão e ouvimos ela cantar “quero te dar, quero te dar”. Com um refrão tão fácil, Sheristone pode se concentrar na dança. É o que ela faz de melhor.

Evangevaldo está puto com aquela palhaçada toda. Mas se até Dina, que tem o pavio mais curto do grupo, cantou, o que ele pode fazer? Cantar a primeira coisa que lhe vem a cabeça: nossa, nossa, assim você me mata. Vindo de um cara que perdeu uma perna no jogo, chega a ser engraçado. Ele canta sem qualquer emoção, querendo se livrar disso logo. Porém, com uma estratégia. Ele sabe que se a música ainda estiver no mainstream ele corre o sério risco de ser eliminado, pois o público rejeita impiedosamente qualquer coisa na moda. No entanto, ele tem uma chance se a música estiver ultrapassada: qualquer coisa que tenha saído de moda vira hipster no mesmo instante. Pessoas que antes abominavam passam a adorar. É assim que a roda gira. “Ai se eu te pego, Jacuzzi” é como Evangevaldo finaliza sua música de oito versos. Não é bonito, mas pelo menos acaba rápido.

Arnoldo é o próximo. Ele ajeita os óculos sobre seu rosto redondo, segura o microfone e se prepara para cantar. Quando solta a voz, sua voz tímida e trêmula, ouvimos uma canção de ninar. Provavelmente, uma música que ele cantava para o filho antes de dormir. Com certeza, pensa no filho: canta toda a música com os olhos encharcados. Quase eu durmo, como acontece com boa parte das pessoas do auditório. Dá para ouvir os roncos. Porra, isso aqui é um show, essa meiguice não dá audiência. Mas algumas mulheres no auditório parecem emocionadas. É, o cara sabe comover.

Como cantora, Liz é uma excelente estudante de psicologia. Ela escolhe uma da Whitney Houston e até consegue ir razoavelmente bem quando não tenta atingir as notas mais altas. Parece ter visto O Guarda-Costas milhares de vezes quando mais nova: sua performance até convence. Na virada, Liz surpreende. Consegue sustentar o grito mais agudo da música a ponto do vidro à prova de balas trincar. Alguém tira essa menina de perto do microfone, fazendo o favor?

O professor Sérgio está concentrado. Ele sabe que sua liberdade depende de sua performance, então decide dar tudo de si. O maestro manda as primeiras notas no piano, e Sérgio, de olhos fechados, incorpora o próprio Freddie Mercury. “Don’t stop now” seria uma mensagem para o público? Nem Glee faria uma performance tão teatral. Até um espacate Sérgio tentou emendar na sua ousada coreografia. Quando a música termina, ele faz um movimento dramático e fica de joelhos, parado no meio do palco.

Diante dessa cena, só posso perguntar ao público:

- Qual foi a melhor performance? Escolha quem merece sair e quem merece ficar e se foder. Porque quem não canta…

- A gente espanca! – responde o público.

 

O jogo está chegando ao fim e é um show de calouros que vai definir o destino dos confinados. Você escolhe: quem fez a melhor performance e merece sair desse inferno?

  • Arnoldo, pai solteiro e dono do segredo do jogo. (50%, 1 Votes)
  • Sérgio, professor e cover do Freddie Mercury. (50%, 1 Votes)
  • Dina, a pirada explosiva. (0%, 0 Votes)
  • Sheristone, funkeira e estranhamente grávida. (0%, 0 Votes)
  • Evangevaldo, o cara de uma perna só. (0%, 0 Votes)
  • Liz, a universitária conciliadora. (0%, 0 Votes)

Total Voters: 2

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Ter uma perna amputada é algo que Evangevaldo nunca desejou nem para Dani Lorran, cantora louca, cheiradora de pó e sua pior cliente. No entanto, é o que acontece com ele depois do ataque zumbi de Clarissa. O mais infeliz da situação é que quem se encarrega de arrancar a perna destruída do corpo de Evangevaldo é seu próprio affair na casa. O professor Sérgio é o único capacitado para a tarefa, pelo simples fato de ter ensinado o básico de anatomia humana nas aulas do cursinho pré-vestibular onde trabalhava.

Os músculos e nervos da panturrilha já tinham sido dilacerados, praticamente descolados do osso. O que antes foi uma perna agora parece um bife pendurado, e a cada hora fica mais esverdeada. Sérgio anestesia Evangevaldo com um soco no maxilar e começa a cortar o resto de carne que ainda resta, dois dedos abaixo do joelho. Ele sua como nunca antes suou em uma sessão de aeróbica quando começa a serrar a tíbia. Quem o ajuda é Sheristone, que segura a perna morta pelos pés.

Sérgio pode não saber nada de Medicina, mas conhece bem processos como a eletrocauterização, que fazem parte de sua aula como professor de Química e Física. Ele se aproxima do corte com dois cabos elétricos em faíscas, e o choque faz Evangevaldo acordar e urrar de dor. Quando Sérgio termina, não sabemos dizer quem está mais cansado.

As coisas não estão menos tensas para o restante dos confinados. Eles discutem formas de fugir da casa, e Liz lamenta não terem encontrado nenhuma saída na ronda que fizeram.

- Eu encontrei algo. – todos voltam seus olhares esbugalhados para Arnoldo.

- Espero que tenha sido uma sala cheia de explosivos pra gente colocar essas paredes abaixo e dar o fora daqui. – é o que Dina diz.

- Enlouqueceu? – exclama Lisandra – Deus me livre guarde de ser mais uma sala com armas! Já não bastam as mortes que tivemos?

- Se não fosse essa belezinha aqui, estaria todo mundo igual à Ravena. Morto. – Dina responde, aproximando do rosto da deputada a pistola que usou para eliminar Clarissa.

- Calem a boca vocês, o Arnoldo disse que encontrou algo. – interrompe Liz.

- Há uma porta lá embaixo, nos fundos da casa. Eu não entrei, não sei se é seguro. Mas atrás da porta existe um túnel. Quer dizer, parece mais com uma estação de metrô. Mas sem metrô, sem luz, sem nada.

- Pode ser a saída. – sugere Liz.

- Pode ser uma armadilha. – adverte Lisandra.

- A única forma de saber é indo até lá. – Dina coloca a pistola na cintura, mas antes que saia da cozinha, Lisandra grita:

- Ninguém vai sair da casa, é o que eu digo.

- Como é? – Dina encara a deputada.

- Eu disse que ninguém sai da casa, pela nossa própria segurança. Isso é exatamente o que eles querem. Expor a gente a mais situações de perigo. O público deve estar adorando, não é? – Lisandra grita olhando para uma das câmeras. – Entrar num túnel sem saber se é seguro e sem saber onde ele vai dar é mais vontade de se matar do que de sobreviver.

- Tente me impedir.

- Querida, se você quer se jogar aos leões para satisfazer o público, vá em frente. Eu vou ficar aqui, com quem preferir achar uma forma inteligente de sair.

- Ótimo. Quem quiser vir comigo, vai precisar disso. – Dina balança uma de suas pistolas. Arnoldo olha para Lisandra, depois olha de volta para Dina. É o primeiro a aceitar a arma.

Duas horas depois, Dina está com munição e suprimentos preparados e devidamente guardados em uma das malas, e todos estão reunidos na sala. Já sabemos quem vai e quem fica só de olhar para as armas que carregam na cintura. Dina, Arnoldo, Sheristone e Sérgio estão com suas pistolas e preparam-se para entrar no tal túnel. Liz, Evangevaldo e Lisandra apenas olham.

Evangevaldo não curte muito a ideia de andar por aí com um trabuco daqueles, mas também não curte a ideia de não poder andar por aí por estar com uma perna a menos. Curte menos ainda ter que escolher ficar com Lisandra, mas antes isso que se arriscar e se foder ainda mais. Sérgio fica decepcionado, é claro. Mas ele só não fica na casa porque não admite ficar ao lado de Lisandra. E assim o único casal do reality é forçado pelas circunstâncias a se separar.

***
De fato é uma estação de metrô. Mas está tão escuro que os confinados não sabem dizer se estão com as pálpebras fechadas ou abertas. Dina carrega uma pequena lanterna – a única que havia na dispensa – e guia o grupo, caminhando pelos trilhos.

Eles andam quilômetros pelo túnel. No caminho ouvem sons estranhos, parecem vir lá da frente, ou lá de trás, ou de dentro das paredes. Não dá para saber. Quando os sons vêm, e são como gases ressonando em uma barriga do tamanho de um avião, todos param assustados, apontando suas pistolas para todos os lados. Mas o barulho para da mesma forma que começa.
Então os confinados continuam andando até que Sérgio avista o que parece ser uma outra estação. Eles correm e sobem para a plataforma.

- Espero mesmo que a gente encontre uma forma de ligar a energia daqui. – diz Arnoldo.

Não demora muito e Dina encontra uma caixa metálica no fundo da estação. Ela abre a porta e sorri. Puxa uma das alavancas e a mágica se faz: as luzes da estação se acendem uma a uma, acompanhadas de ruídos elétricos que preenchem o ambiente.

- Suas orações foram atendidas, Arnoldo. – ela diz, sarcástica – Agora achar a saída vai ficar mais fácil.

Na segunda estação eles não encontram nada, a não ser muita sujeira. Eles seguem pelo túnel e caminham por um dia inteiro. Exaustos, param para descansar no meio dos trilhos.

- Pirou que vô dormir aqui. – diz Sheristone – Tipo, vai que um trem passa aqui enquanto a gente dorme. A gente vira panqueca, tá ligado?

- Não vai passar trem nenhum. Não passou até agora. – assegura Dina.

- Como cê sabe?

- Essa estação de metrô está nos fundos de uma casa construída pra um reality show. É claro que não tem trem nenhum. – explica Sérgio. – Ainda existe a possibilidade de tudo isso ser cenográfico.

O cansaço fala mais alto que a preocupação e eles passam a noite – ou o dia, não dá para saber – ali mesmo. Eles dormem como pedras até que Arnoldo desperta assustado. No túnel que se estende atrás deles, ruídos de passos se aproximam. Arnoldo levanta e pega sua pistola o mais rápido que pode. Os outros acordam e também ouvem o barulho. Parece uma estaca batendo no chão, seguida de passos. Estaca, passos. Estaca, passos.

- Quem está aí? – Dina grita.

Os passos se aproximam mais, e antes que seja possível ver a quem pertencem, Arnoldo se desespera e atira.

- Puta que o pariu, desgraçado! – alguém grita no fundo do túnel.

- Evangevaldo! – exclama Sérgio.

- Esse filho da puta quase me acerta! – Evangevaldo continua gritando, à medida que se aproxima, usando muletas. Atrás dele vêm Lisandra e Liz.

- Sorte a sua que ele atira mal pra diabo. – responde Sérgio.

- O que aconteceu? – pergunta Dina.

- Teve um blecaute na casa. – Lisandra se adianta em responder. – E começamos a ouvir barulhos estranhos, parecendo um ronco vindo das paredes, ou algo do tipo. Encontramos a porta para a estação e, bem, era o único lugar iluminado.

- E aquela história de encontrar uma forma inteligente de sair da casa? – pergunta Dina, e ela mesma responde: – Ah, deve ser porque ESSA é a forma inteligente de sair da casa. Espero que estejam prontos para caminhar bastante. – Evangevaldo não gosta da forma que Dina sorri para ele ao dizer isso.

Eles andam uns bons quilômetros até encontrarem a próxima estação. Eles sobem na plataforma para descansar e comer um pouco. Arnoldo comenta o quanto seria interessante um metrô de verdade passar por ali. Os outros ignoram o que ele diz quando Sheristone encontra, por baixo de uma grossa camada de poeira, um painel com um mapa. Todos se juntam para interpretar aquilo e entender onde estão, por onde devem ir, e qual a provável saída. Depois de quarenta e sete minutos de discussão, ideias imbecis e hostilidade gratuita, decidem descolar o mapa do painel e continuar a caminhar pelo túnel. É quando eles ouvem um estrondo ecoando de longe e um metrô se aproxima veloz da estação, passando a um palmo do nariz de Dina, parada na beirada da plataforma.

As portas do vagão se abrem, e os confinados, meio sem acreditar, meio aliviados, começam a entrar. Então um dos telões da estação se acendem repentinamente e mostram a imagem de adivinha quem. A minha.

- Jacuzzi. – rosna o professor. – Qual é o truque agora?

- Assim você me magoa. Falando desse jeito, parece que fomos os culpados por tudo que aconteceu na casa. O que não é verdade.

- Chega de conversa. – interrompe Dina. – Estamos indo embora e é nesse vagão. E é agora.

- Ótimo, se é o que vocês querem… – digo, um pouco chateado – Mas tem um detalhe. Esse vagão tem um limite de carga, digamos assim. Ele só funciona ao embarcar exatamente sete pessoas.

- Maravilha, estamos em sete. Partiu. – observa Arnoldo.

- Se vocês estivessem certos, o metrô já estaria andando, não acham? – é triste eu precisar mostrar a eles o quanto são burros.

- Merda. Somos oito. – lembra Liz – Sheristone está grávida.

- Vamos ter que deixar alguém para trás. – diz Sérgio.

- Evangevaldo não está em condições de seguir. Ele fica – diz Dina.

- Ah, deixem o aleijado. Aleijado e negro, quem melhor pra eliminar, não é mesmo, ô guerrilheira de boutique? – ele protesta.

- Se alguém aqui tem que ser deixado para trás é a Dina. – Lisandra toma partido de Evangevaldo. – Ela é perigosa e imprevisível. Já temos muita coisa para enfrentar fora o temperamento dessa maluca.

- Maluca é você – interrompe Sérgio – Não pense que esqueci todas as sandices que você já disse a cada um de nós!

De repente, começa uma discussão para decidir quem era a figura mais indesejada da casa. Enquanto os confinados discutem para bater o martelo e definir quem não embarcaria no vagão, Lisandra, em desespero, sugere:

- Vamos fazer um aborto na Sheristone.

- Quê? Tá maluca? – grita Sheristone.

- Sejamos razoáveis, ok? Estamos falando de um feto de no máximo três semanas. Isso não é nada. Por outro lado, ao decidir que um entre nós sete será deixado para trás, isso significa sentenciar à morte ou a algo pior uma vida adulta, formada, consciente.

- Achei que você fosse contra o aborto em sua plataforma política. – lembra o professor Sérgio.

- Não sejam ridículos, essa situação é diferente.

- Diferente em quê, pelamordedeus? – exclama Liz.

- Como um aborto pode ser uma escolha mais razoável do que deixar um de nós para trás? Não entendo essa mulher. – diz Evangevaldo, ao que Lisandra responde:

- Se vocês soubessem COMO essa gravidez aconteceu, entenderiam.

Coitados. A decisão de quem fica é uma escolha sua. E agora, quem deve ser deixado pra trás?

  • Lisandra. (100%, 6 Votes)
  • O feto abortado de Sheristone. (0%, 0 Votes)

Total Voters: 6

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ilustração Alberto Montt - em http://www.dosisdiarias.com/

 

Toda vez que ouço ou leio uma pessoa citando o episódio de Adão e Eva como o início da história humana, tenho vontade de jogar tudo para o alto e gritar um palavrão.

Mas de certa forma elas estão certas. Imagino que a humanidade, ou aquilo que nos diferencia dos primatas que nos antecedem na escala evolutiva, começou no exato momento em que começamos a contar e inventar histórias.

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É a primeira vez na história de um reality show que a existência de um líder se faz absolutamente necessária. E não é preciso a produção do programa realizar nenhuma prova. Digamos que a prova é decidida pelo desespero: uma participante havia desaparecido da casa, um outro participante morreu misteriosamente, e outro participante escondeu uma pistola com munição em sua gaveta, mesmo sendo o responsável por não deixar que ninguém tivesse acesso às armas que foram encontradas em uma sala secreta na casa.

Depois desse episódio, não restou escolha aos confinados: colocaram Arnoldo no paredão por considerarem uma falta grave a violação de confiança que ele cometeu. Além do mais, o cara só pode ter surtado para tomar posse de uma daquelas pistolas. Porém, para a surpresa (e desgosto) dos confinados, Arnoldo não é eliminado pelo público. E, para a surpresa maior de todos, nem Sérgio é eliminado. Isso mesmo. O público decide, sabe-se lá por algum arroubo de generosidade ou de sadismo, que ninguém sairá do jogo desta vez.

Tantas surpresas desagradáveis estão deixando o pessoal inseguro. É aí que eles percebem que um líder é mesmo necessário. Alguém que tome decisões, segure a onda, garanta a segurança de todos. Na verdade, eles têm uma forcinha para chegarem a essa conclusão.

- Sei que ninguém quer se comprometer com tamanha responsabilidade. – diz Lisandra, segurando a chave da sala das armas – Algumas coisas têm saído do controle por aqui, mas ainda podemos controlar pelo menos o que está ao nosso alcance.

- O que pretende fazer, Lisandra? – pergunta Ravena.

- O que devíamos ter feito desde o dia em que descobrimos essa maldita sala. Jogar fora a chave. – então Lisandra engole a chave e, em seguida, toma três grandes e sonoros goles de água. Ela coloca o copo sobre o balcão e dirige um olhar afetado para Arnoldo Lineu.

Liz é a única pessoa que ainda conversa com Arnoldo. O livreiro está na área de serviço, tirando as roupas da máquina de lavar, notadamente abalado. Sua cabeça está a mil. Pensa que era melhor ter saído. Mas, aparentemente, alguém quer ver todo mundo se foder junto.

- Eu entendo o que você fez, Arnoldo. – diz Liz, pegando um dos cestos e ajudando o colega na tarefa – Não sabemos o que pode acontecer. Ninguém quer ser o próximo a morrer de repente ou a desaparecer do nada.

- E aí você apoia aquela doida como líder? – ele parece furioso.

- Não é bem assim. Precisamos de alguém para cuidar das coisas. Alguém para se responsabilizar, sabe. A verdade é que todo mundo está igual a você: só quer defender a própria pele. Estaríamos perdidos se não tivéssemos alguém que se preocupe com a segurança do grupo.

- Cê não sabe o que fala.

- Ah não?

- Não. – Arnoldo estende algumas roupas no varal enquanto continua – Se você ainda não sabe, a Sheristone está grávida.

- Bem, eu ouvi falar. Ela estava se engraçando com o Samuel Braun antes dele ser eliminado. Acabou dando merda. Mas o que isso tem a ver com a Lisandra?

- Eu estava na cozinha quando Ravena foi contar a ela a novidade. Sabe o que Lisandra respondeu? – Arnoldo pendura a roupa com um pregador, faz uma pausa e olha de volta para Liz. – Ela disse à Ravena que queria mesmo que isso acontecesse. Pra que a menina aprendesse uma lição e parasse de se insinuar para os homens.

- Foi um comentário maldoso. – pondera Liz – Mas ela não deixa de ter razão. A garota teve o que mereceu.

- Você não entende, caralho? – é a primeira vez que Arnoldo deixa de aparentar ser um cara tranquilo e pacífico – Não, você não entende. Você não sabe o porquê das coisas que acontecem nessa casa. Mas eu sei.

***

Os recentes acontecimentos não deixam faltar assunto na casa. Mas ainda há especulações sobre o sumiço de Clarissa, que aconteceu exatamente depois de uma briga feia entre ela e Ravena. Alguns se perguntam se ela foi retirada da casa por retribuir às agressões, ou se saiu do jogo por livre e espontânea vontade, na calada da noite. “Espero que esteja morta”, é o que diz Ravena em uma das conversas sobre o desaparecimento. “Espero que ela ainda apareça”, é o que Evangevaldo diz, em resposta ao rancor gratuito da blogueira.

No dia seguinte, Evangevaldo está cortando as unhas do pé na varanda quando avista Clarissa voltando, caminhando pelo gramado atrás da piscina. Ele quase não acredita.

- Clarissa? Pessoal, é a Clarissa! Ela voltou! – ele grita, levantando-se.

Mas logo ele repara em algo estranho. O caminhar de Clarissa é arrastado, descoordenado, aos tropeções. Será que está machucada? Os outros confinados se juntam a ele na varanda, onde conseguem ver a participante se aproximando.

- Tem algo errado. – Evangevaldo alerta, segurando Sérgio pelo braço. O professor já se adiantava em direção à artista plástica.

- Clarissa, que bom que você voltou. Está tudo bem? – Lisandra toma a dianteira, como boa líder que é. Mas a resposta que obtém é um grunhido pavoroso. Quando Clarissa se aproxima, é possível não só ver sua pele esverdeada, seus olhos sem cor e sua boca espumando, como sentir o cheiro de carniça vindo dela.

- Mas que porra…? – Arnoldo fica em choque.

- Cadê a arma, Lisandra? Cadê a arma? – é Dina que se aproxima da deputada, perguntando sobre a pistola que Arnoldo tinha tirado da sala.

- Eu… eu coloquei de volta na sala antes de trancar.

- Puta que o pariu! – Dina sai correndo para dentro da casa e todos já imaginam o que ela pretende.

- Não, Dina! Volte aqui! Ninguém vai atirar em ninguém! – grita Lisandra. – Ela parece estar precisando de ajuda!

Depois disso, as coisas aconteceram muito rapidamente. Clarissa acelera o passo e começa a correr atrás de Lisandra. Lisandra corre para perto do grupo. Clarissa lança seus braços e tenta agarrar o que estiver na sua frente. Todos gritam. Ela agarra Evangevaldo pela camisa. Ele afasta Clarissa com um chute, ela segura firme a perna dele. Unhas, dentes e muita força. Evangevaldo grita. A desgraçada está dilacerando sua perna. Ele sente a carne desgrudar do osso à medida que ela o puxa. Os outros o puxam pelo braço e Ravena luta para salvar a perna do colega. Clarissa acaba soltando Evangevaldo, mas agarra Ravena pelo pescoço.

Enquanto isso, Dina tenta arrombar a sala das armas com um extintor de incêndio. Uma, duas, quatro pancadas e a porta se abre. Ela pega uma Glock 9 mm e carrega com munição. Quando volta correndo para a varanda, vê Clarissa abrindo o pescoço de Ravena. Atira. Atira de novo. Clarissa desaba, com mais um buraco na cara. Todos estão paralisados.

- Está morta. – é o que Dina diz ao se aproximar da blogueira. Parece mais carne moída do que a gostosa que fazia ensaios sensuais para a internet. Lastimável.

***

Dia de votação e os confinados aguardam na sala principal, como de costume. Mas a expressão deles é diferente. Dina está de pé, com duas pistolas na cintura. Quando apareço no telão, ela é a primeira a falar.

- A gente estava esperando por você. Queremos algumas explicações.

- Opa, opa. Eu sou o apresentador por aqui. Sei que vocês tiveram um dia difícil, mas isso não muda o fato de que hoje é dia de votação. Podem se dirigir à cabine, um de cada vez.

- Não vai ter votação nenhuma, Jacuzzi. Estamos todos saindo do jogo. Agora.

- Só tem um jeito de sair da casa, esqueceram? É sendo eliminado pelo público.

- Ou morrendo, pelo visto. – intervém Arnoldo. – Chega dessa brincadeira, Jacuzzi. Queremos todos sair do jogo.

- E temos um participante ferido! – alerta Lisandra. – Evangevaldo está com a perna em frangalhos, ele precisa ser retirado.

- Se querem retirar alguém do jogo, sigam o procedimento e votem na pessoa, oras. – prossigo, calmamente.

- Já chega. – Liz levanta-se e vai em direção ao lado de fora – Se não vai deixar a gente sair por bem, não tem problema. Vamos fugir.

No mesmo momento, acionamos as portas de segurança. Pesadas barreiras de metal descem e travam entradas, saídas, janelas e cada fresta na casa. Uma pena, vâo ficar sem piscina.

- Crianças, o jogo tem que continuar. – digo sorrindo.

- Desgraçado! – Dina mira a arma na tela e atira em minha imagem, destroçando a TV.

Depois de um momento de silêncio profundo, alguém diz “temos que achar a saída”. Sheristone, Lisandra e Liz sobem as escadas para procurar no andar de cima, enquanto Dina e Arnoldo procuram embaixo. Sérgio permanece ao lado de Evangevaldo, que está deitado no sofá ensopado de suor e com a perna ensanguentada.

Arnoldo encontra uma porta estreita ao explorar os fundos da casa. Ao abri-la, leva um susto.

- Santa mãe de Deus. – Então Arnoldo percebe que a sua teoria sobre aquela casa pode estar certa.

 

O que vem a seguir é uma decisão sua. O que Arnoldo encontra atrás da porta? Vote e tente, assim com ele, sobreviver a esta história.

  • Uma estação de metrô desativada. (63%, 5 Votes)
  • Uma jaula de ariranhas. (37%, 3 Votes)

Total Voters: 8

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Parabéns pelo seu dia, mulher. Parabéns a você que é feminina, delicada e nos encanta com sua beleza. Parabéns a você que não é feminista, masculinizada ou vulgar. Parabéns a você que não fala palavrão, porque sabe que isso não é de bom tom para uma mulher. A você que não deixa de fazer a unha, passar batom e fazer escova, mesmo que trabalhe em serviços masculinos em que isso seja totalmente dispensável, porque você sabe, a gente precisa ter certeza que você ainda é mulher.

Parabéns a você, mulher perfeita. Sem estrias, sem gorduras, sem pelos, sem poros. A você que não é gorda e por isso cabe em roupas maravilhosas. A você que também não é magra demais, para podermos admirar suas curvas. Parabéns a você que faz de tudo para se encaixar nesse meio termo imaginário. Colocar peito, tirar barriga, levantar o nariz, depilar a laser, esticar o cabelo, clarear os dentes, malhar glúteos. Parabéns a você que, se for gorda, está tentando emagrecer; porque todos sabem que gordas são mal amadas e não se cuidam. A você que, se for velha, está tentando o tempo todo parecer mais jovem, porque mulher tem data de validade.

Parabéns, mulher para casar. Você, que se dá ao respeito, é uma mulher de família, mulher prendada que sonha em cuidar do marido e dos filhos que ele te der. Parabéns a você que não é uma biscate, que não toma a iniciativa, que não sai na rua usando decote, minissaia e shortinho. A você que não fica com três caras em um mês, que não transa no primeiro encontro, que sabe que não pode ter tanta liberdade sexual quanto um homem. Parabéns também a você, mulher para transar. Que é um fetiche, é desejada, é usada e é jogada fora. Parabéns a você que não é puta, pois vale ainda menos e está abaixo do que podemos considerar como um ser humano.

Parabéns mulher, mesmo se você não for hétero. A você que, mesmo gostando de outras mulheres, continua feminina e sexy, porque assim pode continuar sendo objeto do nosso desejo. Parabéns mulher, por nunca ser levada a sério quando está nervosa ou chateada, porque todos sabemos que é apenas TPM. Parabéns a você, que é má motorista, adora sapatos e sempre estoura o limite do cartão de crédito só porque é mulher. A você que é vendida como cerveja. Parabéns a você, mulher clichê que tanto amamos.

Feliz Dia da Mulher a você, que não tem autonomia sobre seu corpo. A você que sabe que se for estuprada foi porque provocou, a você que se for assassinada pelo parceiro foi porque mereceu. Parabéns a você, que não vai tentar um aborto simplesmente porque não queremos que você faça isso, e não porque a decisão de continuar uma gestação no seu útero seja uma escolha sua. Porque não é.

Parabéns pelo seu dia, mulher. Uma homenagem de quem é a razão de existir do Dia da Mulher e o faz tão necessário até hoje.

Sinceramente,

Machismo.

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Você que acabou de mudar de canal e pegou a história pela metade, não se preocupe: você não perdeu muita coisa. Exceto alguns barracos, cenas de sexo, intrigas, a descoberta de uma sala cheia de armas de fogo, a revelação que o prêmio em jogo no reality show é uma ilha no meio do Oceano Índico, e até o desaparecimento de uma das personagens. Nada demais. Eu sou Jorge Jacuzzi e você está assistindo ao Confinados e Fodidos.

Onde paramos mesmo? Ah, na eliminação. Ravena Divanchi não aceitou muito bem ser indicada para a eliminação. Embora Lisandra, que já passou por essa situação, aconselhasse a blogueira a aproveitar seu corpo e sua sensualidade para atrair a atenção do público nesse momento decisivo, Ravena preferiu usar outra estratégia. De frente para as câmeras, e escondida dos demais confinados, a blogueira pediu a mobilização de seus seguidores e leitores para votar pela eliminação de Samuel. É claro que ela não abriu mão de usar biquínis minúsculos e tomar demorados banhos de sol com a bunda para cima.

Resultado: uma impressionante virada na votação que eliminou o dublê Samuel Braun. Quem mandou o fortão não ter nem um perfilzinho no Twitter? Acabou saindo do jogo, deixando mais do que alívio para os confinados.

***

- Ai cacete, essa hérnia vai acabar me matando. – Seu Patrício resmunga ao se sentar em uma cadeira de sol na beira da piscina.

Sérgio é a única pessoa por perto; os outros ainda dormem. Ele está deitado na banheira de hidromassagem e revira os olhos quando ouve o velho chegar. Ele até tenta ser paciente com Seu Patrício, mas o aposentado é um verdadeiro mala. Não há uma pessoa na casa que consiga ficar perto dele por muito tempo. O maldito consegue fazer absolutamente qualquer conversa terminar em doenças, remédios e diagnósticos. Sem falar dos pigarros nojentos que inadvertidamente solta perto dos colegas, sempre pedindo desculpas e justificando: “é o refluxo”.

Por essas e outras, os confinados andam evitando a presença de Seu Patrício, que, além do papo desagradável, de não fazer força para ser simpático com ninguém, ainda usa sua idade avançada como desculpa para se servir primeiro nas refeições, ficar com a melhor cama e não precisar fazer as tarefas domésticas. Mas a experiência de Sérgio dando aulas para adolescentes ajuda a lidar com o gênio difícil de Seu Patrício.

- Seu Patrício, resolveu vir para a piscina? Que coisa boa!

- Tem nada pra fazer na porcaria dessa casa, então o jeito é vir pra piscina. E nem posso entrar, porque tá fazendo sol, mas tá um tempo meio frio, e não posso resfriar de novo. Semana passada fiquei derrubado, não conseguia sair da cama. Tanto que nem vi a briga das duas malucas. Não tenho sorte. Quando alguma coisa finalmente acontece nessa casa dos diabos, eu tô de cama. E os putos não me mandam um dorflex, unzinho! Ainda bem que eu trouxe todo o meu estoque. Até porque o remédio que eu tomo pra controlar a pressão me dá insônia. Daí o remédio que eu tomo para dormir ataca meus rins. Só que o remédio que eu tomo pros rins me dá dor no estômago, aí eu tenho que tomar anti-ácido, e o anti-ácido…

- Seu Patrício, vou buscar um suco, o senhor aceita? – Sérgio interrompe, arrumando uma maneira de sair dali antes que o velho desfile todo o Código de Doenças conhecido pela Medicina.

- Traz, mas sem açúcar. E só se for de manga, porque aquele de caju está azedo igual ao meu saco.

O professor Sérgio nem chega a ouvi-lo. Já está dentro de casa servindo um refresco e pensando em como envelhecer é algo lamentável. Aparentemente, a idade traz tanto doenças quanto chatice. Sérgio prefere morrer do que chegar a um ponto em que sua existência seja um incômodo para os outros. O professor nem consegue sentir pena de Seu Patrício: entende a razão de seus colegas para evitar o velho. Quanto mais Sérgio pensa sobre isso, mais se irrita. Chega a derramar um pouco de suco. Aquele velho é um filho da puta, ele pensa, indo buscar um pano para limpar a sujeira que fez. Talvez ele seja assim porque sempre tenha sido assim, asqueroso, egoísta, paranoico. Sérgio acha que talvez ele mereça mesmo ser isolado.

- Por que ele não se mata? – o professor pensa alto.

Ele respira fundo e volta para a piscina, levando os sucos. O desabafo para as câmeras parece ter feito bem.

- Prontinho, Seu Patrício. Um suco de manga bem docinho. – ele deposita o copo na mesa ao lado do aposentado. O velho nem olha para Sérgio, o que deixa o professor mais irritado. Que velho ingrato.

Sérgio volta para a banheira e se acomoda. Alguns minutos se passam e ele olha novamente para o velho, que nem tocou no copo de suco. Esse cara está de sacanagem? Sérgio começa a pensar que Seu Patrício o fez pegar o suco só de birra.

- Ô Seu Patrício, o senhor não vai beber o suco que eu peguei pro senhor, não? – o aposentado continua imóvel. O sangue sobe à cabeça de Sérgio e ele levanta para tomar satisfação. Talvez dizer umas boas verdades. Mas quando o professor cutuca Seu Patrício, ele cai para o lado. Como um boneco.

- Quê? Morto? – grita Ravena apavorada assim que Sérgio termina de contar a todos o que acaba de acontecer.

- Mas ele estava tomando os remédios dele, não estava? – pergunta Arnoldo.

- Claro, isso era como religião pro velho. – observa Evangevaldo.

- Vai ver é algo que estão colocando na nossa comida. – adverte Liz.

- Vai ver é algo que colocaram na bebida dele. – Lisandra se aproxima do grupo.

- O que você está insinuando? – Sérgio está vermelho de tão nervoso.

- Eu não insinuei nada. Procure entender direito o que os outros dizem antes de sair vestindo carapuças. O que quero dizer é que concordo com a Liz. Alguém é responsável pela morte de Pôncio Patrício, seja por causar a morte ou por permitir que ela acontecesse. Omitindo socorro, por exemplo.

- Lisandra, morda essa sua língua antes de me acusar novamente! – esbraveja Sérgio, que precisou ser segurado por Evangevaldo para não avançar na jugular da mocreia.

- Mas não se preocupem, colegas. – a deputada continua – Vou fazer de tudo para descobrir o que aconteceu. Vou cuidar disso.

Então surge Dina e arremessa uma pá na direção da deputada.

- Então pode começar ajudando a enterrar o velho.

O nervosismo de Sérgio levanta a desconfiança dos outros. Mas o alvo da votação acaba sendo outro. Às vésperas do dia de votação, descobrem uma pistola na gaveta de Arnoldo. Isso mesmo, aquele cara a quem confiaram a guarda da chave de uma sala cheia de armas de fogo, achando que ele seria incapaz de querer usar uma daquelas pistolas.

- Vocês não entendem. – Arnoldo se defende, assim que é descoberto – Coisas estranhas acontecem nessa casa. Um homem morreu, uma mulher sumiu, sem falar nas agressões que rolam. Eu tenho um filho pra criar! Eu preciso me proteger disso!

Não adianta. Arnoldo leva os votos de todos na casa. De acordo com as regras do jogo, o segundo candidato ao voto do público é indicado por quem já está no paredão. Arnoldo então indica Sérgio, esperando que a morte mal explicada de Seu Patrício possa salvar sua pele e mantê-lo no jogo. Quer dizer, depois do que aconteceu, será que Arnoldo deve continuar na casa?

***

Ravena entra no quarto e encontra Sheristone sentada na cama, com uma estranha expressão de pavor. Está pálida. Do jeito que as coisas vão, natural que a garota esteja apavorada, ainda mais sendo tão nova. Praticamente uma criança. Então Ravena vê para o que a garota está olhando tão fixamente. Há uma caixa rosa jogada no chão. Ravena sabe bem o que significa isso.

- Garota, não me diga que…

- Tô grávida.

As coisas na casa estão saindo do controle. Pelo menos você ainda tem controle de algo: quem sai da história?

  • Não sai ninguém. Deixa todos se foderem lá. (60%, 3 Votes)
  • Arnoldo Lineu, o pai solteiro (40%, 2 Votes)
  • Sérgio Cromo, o professor de química (0%, 0 Votes)

Total Voters: 5

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Era só Júnia colocar os pés na rua para saber que ia se aborrecer. Por que a certeza? Porque ela era mulher, claro. Júnia não conseguia passar por uma simples calçada sem ouvir assovios e gracejos como “ô lá em casa”, “ai se eu te pego”, “nossa que delícia”, e outras tantas frases mais elaboradas e criativas que nunca foram exclusivas de pedreiros.

Mas toda mulher, no fundo, no fundo, gostava – era o que o mundo dizia. Júnia não tinha chegado tão no fundo assim, talvez por isso achasse um saco. Mas não era chato como um ônibus que não parava quando ela dava sinal, porque isso ela conseguia superar. Era chato como um testemunha de jeová batendo na sua casa às oito da manhã de um sábado para falar um monte de asneira que você não queria ouvir. Júnia achava que era tão invasivo quanto.

E Júnia não era nada demais, ela achava. Cabelo comprido, olhos, nariz, boca, dois braços, duas pernas e um par de seios, pequenos, mas ainda assim eram dois. Para sua infelicidade, cantadas não eram uma exclusividade das gostosonas. E nem das garotas que desfilavam de minissaia e decote pelas ruas. Mas essas não podiam nem reclamar – o mundo também dizia – porque afinal, se estavam vestidas daquele jeito, estavam pedindo. Vestidas como vagabundas, é claro que vão atrair cantadas – e até causar estupros por aí. Mas Júnia observou que, aparentemente, usar calça comprida, camiseta e casaco também era se vestir como uma vagabunda. Céus, não tinha saída, ela pensava.

Em uma conversa com o irmão, resolveu desabafar. Ele achou um absurdo, claro.

- Olha, se fosse comigo, se um gay mexesse comigo, ah, eu descia a porrada.

- Entendi.

A outra metade da população da qual Júnia não fazia parte parecia achar fácil se livrar disso, talvez por sua pouca familiaridade com a situação. Reagir não era exatamente uma opção, embora toda vez que Júnia passava por isso elaborava em sua cabeça mil formas de responder à altura as gracinhas que tinha que ouvir.

- Bom dia, princesa! – “Bom dia é o cacete, e tira o olho da minha bunda”

- Biiiiiii bii! – “Vai buzinar para a puta que te pariu!”

- Nossa, você tá uma delícia, hein. – “Vai comer merda”

- Que tesão! – “Por quê? Tá com o dedo no seu cu, babaca?”

- Fiu fiu! – “Que foi? Nunca viu mulher não?”

Mas Júnia nunca reagia por dois motivos. Primeiro, achava perigoso. Ela soube de mulher levando tiro na cara por muito menos. Segundo, porque por mais escrota que fosse a resposta que ela imaginava, nunca achava que era tão grosseira quanto as cantadas que recebia.

Até que teve uma ideia.

Evitava passar por uma calçada quando tinha um grupo de homens parado por perto. Mas daquela vez não mudou de caminho. Continuou andando, certa de sua pequena vingança. Quando passou na frente dos três caras, os sempre donos da situação, não deu outra: começaram a assoviar, dizer as gracinhas de sempre. Júnia passou por eles, perto até demais. E, quando teve certeza que no passo seguinte eles estavam olhando para a sua bunda, peidou alto. Um peido bem barulhento, fedido, um estrago. Que orgulho de peido. Continuou andando e deixou de presente para os três sujeitos o cheiro morno de suas entranhas.

Ouviu os três putos xingando lá atrás e gargalhou satisfeita. A cantada, literalmente, saiu pela culatra.

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Não tem choradeira nem abraços de despedida quando Valdique é eliminado do Confinados e Fodidos. Ao receber o resultado da votação, ele pega suas malas e dirige um aceno cordial ao pessoal da casa. Para ele, só é possível entender aquela absurda rejeição do resultado como a ignorância dos leitores quanto à sua genialidade, da mesma forma que os clientes que reprovavam suas campanhas super criativas. Lisandra não esconde o sorriso quando Valdique sai, por fim, da casa.

Mas isso foi o de menos, considerando o bafafá do dia da votação. Lisandra despejou acusações em cima do diretor de criação. É claro que preparamos uma edição desse barraco. Vamos ver a fita.

- Mas não está claro o porquê de eu ter te indicado? – diz Valdique, em tom defensivo – Isso é um jogo, da mesma forma que tiveram que votar em mim, tive que votar em você.

- Quem você acha que engana, senhor publicitário? – esbraveja Lisandra – Você acha que vai conseguir manipular o público com seu discurso, mas eu não caio nessa.

- Digo o mesmo para você, senhora candidata – Valdique se senta calmamente na varanda e começa a fumar um charuto. – Guarde essa sua tentativa ridícula de desmoralizar seu oponente para a Câmara dos Deputados. Aqui não vai funcionar.

- Lisandra, não vale a pena brigar. O que está feito, está feito – Liz tenta apaziguar a situação, mas Lisandra empurra a estudante para longe.

- Pois deixa eu te ensinar uma coisa que você ainda não deve ter aprendido, garotinha – continuou a aspirante a deputada. – Sem uma estratégia, não se vence esse jogo. E que estratégia adotar quando você tem o poder de indicar alguém para ir para a disputa da eliminação com você?

- Você escolhe alguém mais fraco, claro – sugere Samuel.

- Alguém que o público não vai se importar em eliminar – continua Ravena.

- E assim salva sua pele, exato – Lisandra retoma o raciocínio. – E eu sei porque esse desgraçado me indicou. Entre todos os confinados, temos seis mulheres. Clarissa, Ravena, Sheristone, Dina, Liz. E eu. Esse cara tem experiência com a mídia. Ele sabe o que o público quer e espera de uma mulher em um reality show. Todas as outras cinco são jovens, bonitas, magras. Ele sabe que um tipo como eu não dá audiência. Dessa forma, o público não se importaria em me eliminar. Admite, Valdique. Essa foi sua estratégia.

Valdique se limita a gargalhar.

- Ih, acho que você tá viajando legal. – interrompe Sheristone. – Nada a ver isso, ele te escolheu porque você é da política, e ninguém gosta de político, né. Político é tudo safado!

- Papinho de feminista. – desdenha Samuel.

- Quer saber? Eu também votava em você. Mulher chata, parece minha ex-mulher – diz seu Patrício.

Lisandra fica vermelha, roxa, azul, e todas as cores da paleta Pantone com a qual Valdique é tão familiarizado. Por um momento ele acredita que vai ser agredido, mas Lisandra entra na casa e volta trazendo uma trouxa de roupas de grife. Todas do publicitário.

- Ei, o que você vai fazer? – ele grita.

Lisandra joga tudo na piscina. Todos olham as roupas boiando enquanto Valdique se controla para não apagar o charuto na cara de sua oponente. Lisandra entra em casa calmamente. Mal sabe ela que esse seria o presente de despedida de Valdique do jogo.

***

Em um dos corredores da casa existe um interfone. Ele serve para que os confinados possam se comunicar com a produção. Sabe, caso algo dê errado. Ravena vai até ele e aperta o botão.

- Ehr, oi. É que acabou a manteiga hoje e fui até a dispensa ver se tinha chegado mais. Então eu percebi que o estoque de comida ainda não foi reposto. Então… Bem, eu queria saber qual é o dia que vocês enchem a dispensa de novo.

Ela aproxima o ouvido do interfone e aguarda uma resposta. Seu Patrício se aproxima e também fica à espera.

- Olha aqui, boneca – uma voz mecânica do outro lado responde – Lamentamos informar, mas a dispensa não vai ser reposta não.

- Quê? – ela parece não acreditar.

- Quê? – Seu Patrício parece não ouvir.

- Isso mesmo que você ouviu. Essa é toda a comida que vocês têm até o final do programa. Ou você achou que toda semana iam ter aquela quantidade absurda de comida? Dá pra alimentar um batalhão, porra.

Ravena sai pisando duro, ainda não sabendo como dar essa notícia ao resto do pessoal. Seu Patrício continua ao lado do interfone. Meio incerto, ele aperta o botão, aproxima-se do interfone e começa a falar.

- Ô seu moço, pelo menos você podia me arrumar um dorflex? É que eu tô com uma dor na coluna, meu filho. – ninguém responde. – Hein? Uma maconhazinha, então?

Felizmente, bebida é a única coisa que entra na casa toda semana. E como isso só acontece em dia de festa, os confinados bebem como se não houvesse amanhã. O funk rola solto na pista de dança, para alegria de Sheristone – e dos machos que a assistem dançar. Evangevaldo e Sérgio estão na varanda, bebendo e fumando.

- É uma coisa muito louca – diz o professor Sérgio. – A gente estar aqui, jogados à própria sorte, em um jogo que ainda estamos descobrindo as regras. É torcer para não enlouquecer.

- Acho que já enlouqueci há muito tempo – diz Evangevaldo – Se você soubesse o que já passei. Até uma busca no meio da mata fechada atrás de um apresentador de TV eu já fiz. Tudo pra não chamarem a polícia ou o resgate e descobrirem que ele estava no meio de um ritual místico, sendo enrabado com um gengibre. Fui picado por uma cobra nessa brincadeira de busca. Uma cobra!

- Nossa. Não me diga que era o Fabiano Monroe? Do Povão na TV?

- Esse filho da puta mesmo. – ele dá um gole na cerveja.

- E pensar que esse jogo está fabricando celebridades desse tipo.

- Ou piores.

- Olha, só pra esclarecer: eu não estou aqui para ser celebridade – Sérgio olha para o colega por cima dos óculos, sorrindo – Esse mundo de fama me dá nojo.

- Não vem com essa.

- É sério!

- Ninguém sabia qual era o prêmio até dia desses. Cada um tem uma motivação para estar aqui. E, convenhamos, aparecer é a mais óbvia delas.

- Tá bom, tá bom. Eu quero sim visibilidade. Mas não uma visibilidade gratuita, para ser uma celebridade reconhecida. Nada disso. Eu quero, sei lá. Passar uma mensagem positiva.

Evangevaldo ri, toma mais um gole da cerveja, finge que acredita. Na pista de dança, Samuel toma Sheristone pela cintura e sensualiza com a garota – que tem a metade do seu tamanho. E, talvez, da sua idade.

- Uma coisa que não funciona nesse tipo de jogo é a formação de casais – continua Evangevaldo. – Pode até parecer que isso fortalece, mas se o objetivo é ganhar o prêmio, isso só atrapalha.

- É. Mas eu não estou aqui pelo prêmio. Não acharia ruim me envolver com uma pessoa. Se a pessoa fosse interessante, claro.

- Eu também não estou aqui pelo prêmio. – Evangevaldo sorri de volta.

Sérgio se levanta e se senta ao lado de Evangevaldo. Bem perto. Eles trocam sorrisos e toques, e logo estão trocando beijos também. Outras pessoas se beijam essa noite, que pode ser considerada uma verdadeira festa da saliva. Mas os únicos que vão brincar debaixo do edredom são Evangevaldo e o professor Sérgio.

Novamente é véspera de votação. Dessa vez, os confinados pensam com cuidado em quem votar: é o indicado pela casa que pode levar alguém para o paredão; e ninguém queria ser esse felizardo. As alianças começam a surgir. E as picuinhas também.

- Peraí – diz Ravena, chegando na cozinha e vendo algumas cascas de pepino sobre o balcão. – Quem cortou pepino? A salada de hoje foi só alface e tomate.

Sheristone dá de ombros. Arnoldo aponta para a sala, onde Clarissa está deitada no sofá, com duas rodelas de pepino sobre os olhos. Ravena fica louca de raiva. Chega na sala e dá um cutucão na colega, que se levanta no susto.

- Oi, Ravena. O que foi?

- Por que você está com pepino nos olhos?

- Hidratação e relaxamento – responde Clarissa com um tom de obviedade.

- Você não entendeu ainda, querida, que tudo o que temos na dispensa é tudo o que teremos até o fim do programa? Então por que você colocou a merda desse pepino nos olhos?

- Querida, não precisa ficar nervosa por causa de um pepino. Se acabar, a gente começa a usar abobrinha na salada, não faz diferença. E outra, o que está na dispensa é para todos. Eu também posso usar como quiser.

- Então por que você não enfia no cu?

- Como é?

- Foi isso mesmo que você ouviu, sua vaca.

Logo as duas saem aos tapas. Os outros confinados correm até a sala, mas só Liz, Evangevaldo e Arnoldo tentam separar a briga. Os outros assistem, com desprezo, indiferença, ou até prazer. Dina se senta em um dos sofás, acende seu cigarro e ri como se fosse uma cena de comédia.

- Pra ser melhor, só faltou elas estarem de biquini na lama – é o comentário de Samuel ao chegar ao lugar da confusão.

O saldo da briga é mínimo: duas blusas rasgadas, alguns tufos de cabelo arrancados e um pepino inutilizado. O clima de tensão já estava elevado antes. É dia de votação, afinal.

Depois de todos irem à cabine de votação, revelo quem é o primeiro indicado da noite. Samuel Braun, com sete votos. Ele não parece surpreso; desde que impediram que ele ficasse com a chave da sala de armas, ele sabe que as pessoas dali têm medo dele. Nada mais natural do que querer eliminar quem pode fazer algum estrago.

- Jacuzzi, eu vou indicar a Ravena – diz Samuel, sem tirar um sorriso perigoso do rosto.

- Você vai se arrepender disso, grandão. – responde Ravena com outro sorriso. Um sorriso que esconde um profundo desconforto e muita raiva.

- Não, não, princesa – ele continua – O público é que vai se arrepender se não eliminar você. Se eu ficar, eles podem ter certeza de uma coisa: vou virar essa casa de cabeça pra baixo. Tá na hora do jogo começar.

No dia seguinte, os confinados tomam café calados. Lisandra vai pegar a última torrada da mesa e pergunta se alguém mais vai comer.

- A Clarissa ainda não tomou café – diz Arnoldo.

- Estranho, ela ainda não desceu – comenta Liz, tomando um gole de suco.

- Espera. Vou lá ver se ela já acordou – diz a candidata se levantando.

- Fala que preparei um pepino delicioso pra ela – grita Ravena, cheia de rancor.

Lisandra vai até o quarto da pintora e não a encontra. Ela procura nos outros quartos e nada. Vai até a varanda, dá a volta na piscina. Nos banheiros. Na dispensa. Então ela volta para a cozinha, com uma expressão alarmada.

- O que foi? – pergunta Samuel.

- A Clarissa. Ela desapareceu.

 

E aí, quem deve sair da história?

  • O perigoso dublê Samuel Braun (75%, 6 Votes)
  • A gostosa blogueira Ravena Divanchi (25%, 2 Votes)

Total Voters: 8

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O melhor de assistir a um punhado de pessoas agindo como ratinhos em testes de laboratório é não ser uma delas. Boa noite a você, que é um desses sortudos. Esse é o Cofinados e Fodidos e eu sou o seu apresentador, Jorge Jacuzzi. A única pessoa nessa merda toda que você não vai poder eliminar. Então, amigo, é melhor ir se acostumando comigo.

Na semana passada, os confinados tiveram que definir algo muito mais importante que qualquer prova do líder: quem ficaria com a chave da sala cheia de armas de fogo? O fato de ser o primeiro dia e ninguém confiar em ninguém só deixou as coisas ainda mais difíceis. É claro que se isso acontecesse daqui a duas semanas, daqui a um mês, ou daqui a um ano não faria a menor diferença. Imagine se isso acontecesse no seu trabalho. Você confiaria em quem?

Bem, Samuel Braun se voluntariou para ser o guardião da sala. Mas o seu jeitão destemido não inspirou muita confiança. E se o fortão decidisse usar uma das pistolas? Quem ia impedir aquela montanha de músculos a usar a sala como bem entendesse? Isso foi o que Dina sugeriu. Ela não gostava da ideia de um cara daquele porte tendo controle da situação na casa. Então decidiram que a questão seria resolvida na sorte. Colocaram o nome de cada um em papeizinhos e deram para o Seu Patrício sortear. Com dificuldade, ele leu o nome no papel que tirou:

- Arnoldo. Pronto, decidido. A chave fica com você, filho. Agora me deixem em paz com minhas palavras cruzadas.

No final das contas, o pessoal ficou satisfeito. Arnoldo tem aquela cara de mosca morta que não seria capaz de puxar o gatilho nem de uma pistola d’água. Mas ele parece bem preocupado com a sua nova responsabilidade.

- Ei, cara. Não encana não. – Liz senta-se no sofá onde Arnoldo brinca com a chave entre os dedos. – Isso é só um teste. Ninguém vai se machucar, então você não tem porque se preocupar.

- Sei não. Essa história toda tá parecendo o Battle Royale.

- Quê?

- Battle Royale, nunca ouviu falar? É um mangá que conta a história de um jogo onde a regra é as pessoas se matarem umas as outras até restar só uma. Essa ideia me dá medo, fico pensando no meu filho lá fora, sabe.

Liz para de entender na palavra “mangá”. Ela se limita a dar um tapinha consolador no ombro do colega.

Os dias passam e os confinados estranham a falta de provas. As típicas provas que vemos nos demais reality shows, como prova do líder, prova da comida, prova do anjo, prova do diabo que te carregue, e tantas outras, aqui não acontecem. Mas eles se esquecem disso rapidinho quando chega o dia da festa. Como é Carnaval, a festa é um baile de máscaras. Bem apropriado para o jogo.

Lá estão eles no oba oba, dançando, comendo e bebendo mais álcool que uma Belina velha. Não tarda para começarem a dar os primeiros vexames. Ravena paga peitinho. Sheristone escorrega na pista de dança. Evangevaldo dança pole dance usando um coqueiro. Lisandra cochila enquanto Seu Patrício, levemente embriagado, conta para a colega como foi sua última consulta ao gastroenterologista. O professor Sérgio se joga na piscina de máscara, pluma, purpurina, roupa e tudo. Ele encontra um objeto estranho no fundo e resolve levá-lo à superfície.

- Pessoal! Pessoal, venham ver! Rápido! – diz ele, ao abrir o tubo que achou no fundo da piscina e descobrir um papel enrolado ali dentro.

- O que é isso? – Clarissa pergunta quando o professor estica o papel sobre a mesa.

- Parece um mapa. Será que é alguma prova? – diz Evangevaldo, olhando o papel de perto.

- Não, não é uma prova. – conclui Sérgio – Olha o que diz aqui: “Parabéns, confinados. Vocês acabam de descobrir, esperamos que não muito tarde, o prêmio do vencedor deste reality show: a Ilha dos Porcos. Uma ilha virgem e inexplorada, boiando ao sul do Oceano Índico, apenas esperando pelo vencedor desse jogo. Boa sorte e cuidado para não se perderem das coordenadas”.

- O prêmio é uma ilha? Não acredito! – exclama Evangevaldo.

- Affe, mas o que diabos vou fazer com uma ilha? – diz Lisandra.

- Um pedaço de terra desses vale mais do que dinheiro, Lisandra. – explica Ravena, com a paciência de uma pedagoga – Vale, sei lá, milhares de milhões.

- E se tiver petróleo nesse lugar, – interrompe Valdique – então sabemos que daqui vai sair uma das pessoas mais ricas do mundo.

Descobrir qual é o prêmio às vésperas do dia de votação mexe com os nervos do pessoal. Ninguém conversa na hora do almoço. Só ficam se olhando, como se estivessem ajustando a mira e escolhendo em quem atirar. Agora é hora de saber como eles vão votar. Vamos conversar com eles.

- Boa noite, confinados. Que beleza vê-los sentadinhos aí na frente da TV. Eu sou o Jorge Jacuzzi, o apresentador desse show de horrores. Acredito que vocês imaginam porque não apareci para vocês até agora.

- Temos uma ideia, – diz Lisandra – e acho que tem a ver com uma porta que encontramos aqui na casa.

- Na verdade, achamos que seria interessante deixar vocês se virarem sozinhos na primeira semana. Mas não vamos falar sobre isso agora, estamos ao vivo. Bem, hoje vamos escolher duas pessoas que serão oferecidas no altar, como dois cordeirinhos, para os leitores desse reality. Mas só um irá voltar ao jogo.

- Pelo menos uma coisa aqui tinha que se parecer com um reality show, né – diz Sheristone aliviada, jogando o cabelo para o lado.

- Tem mais de reality do que você imagina, filha. Pois bem. Um por um, na ordem em que vocês estão sentados agora, tanto faz, dirijam-se para a cabine de votação e digam quem vocês querem eliminar.

Liz é a primeira a entrar na cabine. E a primeira a usar o discursinho besta da falta de afinidade como justificativa. Cá entre nós, sabemos que a estratégia dos confinados é outra. É de olho no prêmio, que não é qualquer coisa, que eles precisaram decidir, de ontem para hoje, quem seria o jogador mais forte, para que fosse logo eliminado. Os votos seguintes nos dão uma boa ideia disso. Dina recebe três votos; talvez seja impositiva demais para uma mulher. Mas ela é apenas a segunda mais votada. Valdique recebe seis votos. Provavelmente o fato de ser publicitário tenha pesado na decisão dos confinados: ter na casa um profissional em influenciar as pessoas é, para alguns, algo perigoso.

- Seis? Nada mal. – Valdique sorri, quando revelo o resultado.

- Bem, vocês já devem ter percebido que por aqui as regras são um pouquinho diferentes. Então, o segundo candidato à eliminação será indicado por quem já está fodido. Valdique, é você quem vai escolher a pessoa que vai para o paredão com você.

Valdique arregala os olhos, surpreso. Mas parece satisfeito ao saber que ele poderá escolher seu oponente. Os outros onze não parecem tão felizes.

- Jacuzzi, eu gostaria de levar comigo para essa disputa… a Lisandra. – ele sentencia.

Lisandra suprime um protesto, e engole calada a indicação. Os demais tiram um peso das costas: agora estão uma semana mais próximos da ilha.

- Valdique e Lisandra, nos próximos dias um de vocês sairá do jogo, de acordo com a vontade do público. E por hoje é só. Agora vou curtir meu Carnaval, passar bem.

É só eu me despedir e o telão apagar que o clima de tensão impera na casa. Lisandra se levanta, e em vez de estender sua mão para o cumprimento cordial que Valdique lhe oferece, aponta um dedo na cara do publicitário.

- Eu sei porque você me indicou, seu desgraçado.

Cenas do próximo capítulo? Só depois que você eliminar um dos confinados: Valdique, o diretor de criação super premiado, ou Lisandra, a empresária e nova candidata a deputada estadual? Deixe seu voto na caixa de comentários e fique ligadinho.

Conheça os personagens


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Evangevaldo Moreia

Mais que um cara trabalhador, é um inveterado workaholic. Trabalha como um louco em uma assessoria de imprensa de grandes celebridades da TV e do cinema. Precisa se virar do avesso para não deixar escândalos sexuais, problemas com a justiça e imprudências nas redes sociais acabarem com a carreira de seus clientes. Ele sabe que é uma merda ser uma celebridade. Não é isso – nem o prêmio – que o motivou a participar do reality show. Ele só queria mesmo uns dias de folga.

Clarissa Blasé

Funcionária pública, tem um trabalhozinho burocrático qualquer que lhe permite horas de ócio durante o expediente, mas mesmo assim julga a sua função especial por algum motivo. É pintora e recentemente expôs em uma galeria suas obras, pinceladas mal-feitas que aprendeu em um curso de verão e desde então diz que é o seu estilo. Pinta paisagens para comover as pessoas, mas é com o seu carisma insistente, mais forçado que inseminação artificial, que ela consegue vender algum quadro – e seguir a vida enganando a si mesma.


Arnoldo Lineu

Tem dois trabalhos: é vendedor em uma livraria cult e pai solteiro. Desde que a mulher pediu divórcio para morar em outro continente com seu novo affair, Arnoldo cuida do Arnoldinho, que completa agora um ano, dois meses e cinco dias. Recebe apoio dos pais, pensão da ex-mulher, descontos na compra de livros infantis, choro e fraldas sujas do filho e afagos das colegas quando mostra fotos do sorrisinho do bebê. Acha que estar em um reality show é uma ótima forma de comover mais pessoas.

Sheristone Thuanny

Nem saiu do ensino médio ainda, mas pela maquiagem na cara você apostava o seu rabo que ela já estaria na pós-graduação. Garota desinibida e cheia de charme, é dotada de um acervo de mais de duzentos passos diferentes de funk. Seu vocabulário não tem a mesma variedade, mas isso não significa que sua língua não seja afiada.

Pôncio Patrício

Aposentado e preenchedor compulsivo de palavras cruzadas. Ex-fumante, ex-marido, ex-funcionário público, ex-corinthiano. Desde que seu neto lhe deu de presente um notebook da CCE e instalou internet no apartamento, Seu Patrício (como prefere ser chamado) ficou tarado por procurar doenças e se auto diagnosticar procurando sintomas no Google. Gosta de entrar em fóruns e no Yahoo! Respostas para destilar seu conhecimento ou tirar dúvidas: aquela dorzinha seria lúpus ou arterite temporal?

Ravena Divanchi

Jornalista, mas nunca trabalhou em redação de jornal. Tem três blogs: um sobre política, um sobre cinema e outro sobre moda, com direito a tutorial de maquiagem e tudo. Também é conhecida pelos eventuais ensaios sensuais que faz para revistas masculinas. Precisa fazer um grande esforço para acreditar que é admirada principalmente pela inteligência, mas não acha ruim ter fãs que preferem o seu decote. Audiência é sempre audiência.

Samuel Braun

É dublê de filmes de ação, está acostumado a levar porrada, cair de grandes alturas, pegar fogo. À primeira vista, parece só um marombado cheio de músculos, mas é um marombado cheio de músculos que gosta de viver perigosamente. Está disposto a qualquer coisa e não tem medo de nada, por mais que o convívio social, que, definitivamente, não é a sua onda, seja ainda mais arriscado que uma cena de capotagem.

Dina Ávila

Já foi secretária, recepcionista de hotel, promotora de eventos, corretora de seguros e algumas outras coisas até ser demitida de cada emprego por mandar alguém à merda: ou chefe, ou colega, ou cliente. A maior tragédia foi quando trabalhou numa concessionária de carros importados: se encheu de um colega que insinuava que ela só conseguia vender porque transava com os clientes, pegou um Dodge Challenger no saguão, acelerou em direção à mesa do cara e bum. Para a frustração de Dina, seu colega não ficou tão destruído quanto o carro.

Sérgio Cromo

Professor de química, física e biologia em um cursinho pré-vestibular. Seus alunos o adoram na mesma proporção em que ele era rejeitado por seus colegas quando estava no colégio. Aguentou calado anos de bullying por ser nerd e gay, e agora, um professor bem sucedido e bem remunerado, tem orgasmos de satisfação por saber que os filhos da puta com quem estudou são fracassados e tentam até hoje passar em concurso público. No final das contas, hoje são eles que tomam no cu.

Lisandra Batista

É empresária, dona de uma pequena boutique na cidadezinha de Jupi do Ibiajara e atualmente está se lançando na carreira política. Vai se candidatar a deputada estadual pelo PQUEI, e topou participar do reality para ter mais tempo de exposição que os 10 segundos no horário eleitoral a que tem direito cada candidato do seu partido. Defende a educação, a segurança, água limpa para todos, a família, entre outras coisas que ninguém é contra.

Valdique Cruz

Diretor de criação de uma respeitada agência de publicidade. Premiado, admirado, rico, está no auge aos 39 anos. Já cuidou tanto de layouts, que a imagem de que cuida hoje é a sua. Plásticas, academia, roupas de grife e matérias em revistas especializadas dizendo o quanto ele é foda ajudam na tarefa. Egocêntrico e excêntrico como manda o figurino dos publicitários, achou que participar do reality era uma boa ideia – tão boa quanto aquelas que lhe renderam leões.

Liz Ventura

Estudante do último período de Psicologia. A aluna exemplar, queridinha dos professores, muito popular entre os colegas. Mas passa longe de ser uma aluna brilhante. Quem não convive com a figura até acha que ela é doce e meiga gratuitamente, mas é daquelas que querem se dar bem não importa o que aconteça. Trancou a faculdade para participar do reality, com a justificativa de que vai fazer do seu confinamento e dessa “experiência social” o tema do seu trabalho final. Foi o que ela disse.

 

Esses são os confinados que você vai poder eliminar ou poupar nos próximos capítulos. E aí, você se identificou com algum?

Leia o primeiro capítulo aqui.

 

Disclaimer necessário porque a internet está cheia de idiotas: esses personagens são do mundo da ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas será uma puta coincidência, não me processem.

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