AlineValek

Teocracia à brasileira

07 de March 2013 por Valek

Em um futuro não tão distante, os recém-nascidos saem da maternidade com uma certidão de nascimento e uma conta no Facebook, e Holywood já fez todas as adaptações possíveis de livros para o cinema, incluindo o Manual Básico da Informática (um sucesso de bilheteria). Mas, nesse futuro não tão distante, o Brasil é uma teocracia cristã.

Até que não é nada mal viver nesse país. Se você é um cristão, claro. Afinal, você tem a certeza de que as pessoas no controle estão construindo um país santificado, e é sempre bom morar em um país que será poupado da ira devastadora de Deus no juízo final. Com a vantagem de ter belas praias.

A família é coisa sagrada nessa sociedade brasileira. Desde que seja formada por pai, mãe e filhos. Para impedir que outros arranjos familiares não-abençoados sejam feitos, algumas mudancinhas na Constituição impedem o casamento ou qualquer tipo de união entre pessoas do mesmo sexo. O divórcio também é proibido, pois o que Deus uniu ninguém separa. Nem as próprias pessoas envolvidas no relacionamento.

O Ministério da Família é instituído para cuidar dessas questões. Há campanhas e cartilhas ensinando como criar seus filhos e a família pode sofrer uma intervenção se eles começam a jogar RPG ou ouvir heavy metal que não seja gospel. Pastores atuam como psicólogos que dão suporte à família e resolvem querelas entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs. Mais ou menos como um programa Casos de Família, só que em um órgão público. E com leitura de trechos da Bíblia em vez de perguntas da plateia.

Não só há crucifixos nas repartições públicas, como há pias de água benta nas entradas, para que aqueles que passam nos prédios do governo possam se benzer e fazer o sinal da cruz. Antes de começar os trabalhos no Senado ou na Câmara, os parlamentares se unem em oração e são ungidos com óleo santo para que possam governar sob os desígnios divinos.

A Bíblia faz parte do material escolar oferecido pelo governo e nem é preciso dizer que nas aulas de ciências os alunos aprendem criacionismo. Teorias que colocam ideias perigosas na cabeça dos jovens são completamente abolidas. De forma que é melhor ser pego com revista de mulher pelada do que ser encontrado com um livro de Darwin ou até mesmo do Stephen Hawking. Suspensão na hora e mais dez Pais Nossos de penitência.

Marcar presença em missas ou cultos não é obrigatório, mas pagar o dízimo é. Além de todos os impostos para saúde, educação e segurança, o dízimo passa a ser um imposto recolhido de todos os brasileiros para as igrejas. O “Deus seja Louvado” impresso nas cédulas não nos deixa esquecer a quem pertence aquele dinheiro. Deixar de pagar o dízimo é crime tanto quanto sonegar o imposto de renda.

O atendimento na saúde melhorou. Como não há médicos para todos, pastores atendem pacientes que podem ser curados em uma sessão de descarrego. Eles ainda não dispensam o trabalho dos médicos; mas se um doente é curado, se alguém que foi baleado consegue sobreviver, se um câncer consegue ser retirado, atribuem a cura ao poder das orações feitas nas salas de cirurgia. Camisinhas e anti-concepcionais deixam de ser distribuídos pelo governo, para não incentivar a promiscuidade. Em compensação, o exorcismo passa a ser um serviço oferecido pelo sistema público de saúde.

As mulheres não têm que andar todas cobertas, como naqueles países bárbaros. Não, imagina. Aqui, elas só são proibidas de usar blusas muito decotadas, saias curtas ou calças justas. Também não podem cortar o cabelo, porque expor o pescoço e a nuca é coisa de mulher vulgar, e cabelo curto demais é coisa de mulher masculinizada — coisas nada boas aos olhos de Deus. Mas é altamente recomendado que estejam sempre lindas em Cristo, bem ao gosto de seus maridos.

A criminalização do aborto é tratada com mais rigor. Mulheres que tentam ou realizam um aborto, não importa o motivo, são presas e depois levadas para serem apedrejadas em praça pública. Às vezes acontece de morrerem nesse processo, mas a defesa da vida deve estar em primeiro lugar, certo? Esse também é o castigo para mulheres adúlteras. Ou que fazem sexo antes do casamento. A submissão da mulher presente na Bíblia passa a ser parte da Constituição e um dos valores mais caros à teocracia do Brasil.

O culto a outros deuses passa a ser ilegal. Terreiros de candomblé são destruídos ou lacrados pela polícia. Já os ateus são presos e afastados da sociedade, para o próprio bem dela. E ainda têm que aguentar a visita diária de um testemunha de Jeová na cadeia tentando lhes converter.

Em vez da Voz do Brasil, as emissoras de rádio passam a transmitir a Ave-Maria. O que é um problema: os evangélicos, apesar de terem sua parte do domínio da mídia, não gostam nada disso. As disputas de poder deixam de ser entre partidos e passam a ser entre as correntes cristãs. Conflitos civis entre evangélicos, católicos e outras denominações eclodem nas ruas. No governo, quem tem a maior bancada garante seus interesses. Sob a proteção de Deus, o Brasil funciona em plena democracia: o que significa que ganha o religioso que gritar mais alto.

***

Não custa avisar: esse texto não passa de um delírio. Pura ficção. Afinal, uma teocracia à brasileira está bem longe de acontecer, né?

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Season finale da humanidade

05 de March 2013 por Valek

220 dias após o fim do mundo.

Em algum escritório com ar-condicionado no centro da cidade, um funcionário que não precisava usar gravata folgou um nó imaginário em torno do seu pescoço, na tentativa de diminuir a sensação de sufocamento, e pensou: “não vejo a hora de chegar sexta-feira”.

O negócio é que isso não fazia mais a mínima diferença. O mundo tinha acabado e o tão aguardado apocalipse foi rápido como um peido. Não foi um megaevento cheio de efeitos especiais, terror, ranger de dentes e meteoros salpicando as ruas, como a maioria esperava que fosse ser. E foi tão rápido e casual que a maioria nem percebeu.

Por algum motivo desconhecido por todos, o fim do mundo acabou caindo meses antes do previsto, fazendo com que todos continuassem esperando pelo apocalipse quando na verdade ele já tinha acontecido há tempos.

Este pequeno detalhe foi capaz de proporcionar um problema de dimensões trágicas que só não abalou o mundo porque, a esta altura, ele já tinha acabado.

Peço que me perdoe pelo inevitável spoiler, mas na história a seguir todos estão mortos. Algo que não será muito difícil de imaginar, já que você também está.

***

231 dias após o fim do mundo.

Solano acordou atrasado e se arrumou às pressas para ir ao trabalho. No caminho, furou um sinal vermelho. Chegou ao escritório de olhar baixo, pois não se lembrava se havia tirado as remelas da cara antes de sair, o que denunciaria o motivo de seu atraso. Ao ligar o computador, comentou que o trânsito estava uma loucura, que estava cada vez mais difícil ser pontual em uma cidade como aquela.

O chefe, que parecia estar esperando o funcionário há horas, mas que na verdade havia chegado há apenas dez minutos, apareceu diante de sua mesa passando mil tarefas que precisavam ser entregues em apenas duas horas. Na frente de todos, lembrou que o horário do expediente naquela empresa começava às oito. Solano pediu desculpas, de cabeça baixa.

Sua vontade mesmo era de mandar aquele desgraçado à merda. Que importava chegar uma ou duas horas atrasado, se precisava sair depois do horário quase todos os dias para dar conta da demanda monstruosa que lhe era incumbida? Isso sem receber hora extra e ganhando um salário de dar vergonha.

Então pensou no aluguel para pagar, no financiamento do carro, na mensalidade da pós, nas compras do mês. Não podia pedir demissão assim. Voltou sua atenção ao computador, desejando apenas que a sexta-feira chegasse logo.

***

237 dias após o fim do mundo.

Em um culto cheio de pessoas ardorosamente fiéis, um pastor falava sobre a misericórdia divina. Lançando perdigotos no púlpito, enfatizou que Jesus vai voltar, que o tempo está próximo. “Amém, amém, glória, aleluia”, respondiam os fiéis. “A hora de aceitar Jesus é agora! Só ele pode nos salvar da danação eterna, amém?”

Sueni agarrou sua Bíblia com fervor ao responder “amém”. Ela estava preparada para o retorno de seu salvador. Nesse dia, o mundo acabaria e quem não tivesse aceitado Jesus seria lançado ao sofrimento eterno, para pagar por seus pecados. Ela não. Ela seria arrebatada por seu deus misericordioso e viveria a eternidade, após o fim do mundo, na glória do senhor.

Mas seu espírito só viveria em paz se ela conseguisse converter o irmão e impedir que ele ardesse na fogueira de Satanás. Ele precisava se arrepender de sua vida tortuosa logo, antes que o mundo acabasse.

***

299 dias após o fim do mundo.

Seis da manhã e uma fila já se formava em frente a uma loja de celulares. Consumidores ansiosos para adquirir o novo telePhone se espremiam de frio e mordiam os lábios esperando a abertura da loja. “Quero ser um dos primeiros a ter o aparelho”, declaravam com entusiasmo aos repórteres. Ninguém sabia explicar por quê.

Em outro canto, um casal de namorados anunciava aos pais que a garota estava grávida. Como todos falavam dos preparativos para a chegada do bebê e ninguém mencionou casamento, a avó da garota, na outra ponta da mesa, apenas resmungou: “ninguém mais se preocupa com as tradições hoje em dia.”

Mais tarde, um jornalista de um grande portal publicava a seguinte notícia: “flagrada na praia, atriz Celina Monrone exibe dobrinhas e estrias”.

***

583 dias após o fim do mundo.

Um festival atraiu milhares de pessoas para uma cidade do interior. A festa, regada a música sertaneja e muita bebida alcóolica, chamou a atenção do país pelas orgias e loucuras que aconteceram lá.

O jornalista de um grande portal publicou uma matéria com o título “festa de música sertaneja vira grande suruba — veja as dobrinhas e estrias das mulheres que ficaram completamente nuas por lá”, que foi compartilhada por milhares de pessoas na internet.

A vovó viu o caso pela televisão enquanto tricotava e ficou impressionada com a inconsequência daqueles jovens. “A geração de hoje não se importa com o dia de amanhã!”

Sueni, aterrorizada ao saber da notícia, orou em línguas pedindo misericórdia. No juízo final, que aconteceria em um futuro conhecido apenas por seu deus, todos eles seriam castigados e punidos. Inclusive e principalmente aquela jovem que tirou toda a roupa e dançou nua em cima de um carro. A jovem e seus peitões lindos e macios seriam punidos, sim, seriam.

Aneta, a dona dos peitos, sinceramente não ligava. Continuou dançando.

Ninguém sabia, mas os poucos que perceberam que todos estavam mortos e que o mundo tinha acabado há muito tempo estavam nessa festa.

***

700 dias após o fim do mundo.

Solano já não se sentia bem há algumas semanas. Trabalhando demais, não teve tempo de ir ao médico. Resolveu ir quando estava cuspindo e vomitando sangue a cada vinte minutos, o que começava a afetar a sua produtividade.

O médico fez os exames e uma cara preocupante. Anunciou que a doença de Solano estava em estágio avançado, que ele precisaria ser internado para fazer o tratamento.

Na cama do hospital, Solano teve tempo para pensar. Qual era o objetivo de trabalhar tanto para consumir e pagar contas, se de repente deixaríamos de existir? Por que tanto apego à existência se sequer sabemos o que fazer com nossas vidas?

E então Solano revirou na cama, tentando ver o lado positivo da situação. Afinal, poderia ter sido pior, ele pensou. “O mundo poderia ter acabado antes de eu ter sido promovido, na semana passada.”

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Justice

27 de June 2012 por Valek

Um  herói.

Escorre sangue na sarjeta. A cidade não se apavora, pois dorme. E mesmo acordada, fecha os olhos para a brutalidade, essa instituição que muitos querem manter a qualquer custo. Eu vi sua verdadeira face e senti o cheiro de assassinato que vinha dela. Não me apavoro mais. Se fosse para ter medo, eu teria continuado no armário sufocante onde fiquei preso durante anos.

Cheguei tarde demais. Da janela do oitavo andar, dá para ver o corpo de Sara na calçada. O apartamento dela está vazio, escuro e cheirando a terror. Um crime perfeito. Os legistas chegarão em algumas horas, e, logo depois, os investigadores. Não encontrarão vestígios, não levantarão uma lista de suspeitos. O assassino nunca será encontrado, pois Sara se matou. Mas ela não se jogou sozinha.

Em cima da mesa, um bilhete que aponta um culpado sem rosto, sem nome, sem corpo. Desde que se descobriu gay, Sara foi rejeitada pelos pais, esquecida pelas amigas, condenada pela sua igreja e atacada por e-mails anônimos com ameaças de estupro, que a “ensinaria” a “gostar” de homem. Ela não fala isso em seu bilhete de despedida. Apenas pede desculpas. Era mais fácil acreditar que havia algo de errado com ela do que enxergar o cancro do mundo ao seu redor.

Volto às ruas e espreito pelas sombras. Já fiz isso por medo. Hoje, faço porque a minha existência é uma ameaça para muita gente. Alguns me consideram um herói. Outros, uma aberração. A verdade é que sou alguém que quer mudar as coisas. Apertar o detonador que vai dar início à revolução. Dizem que sou um vingador mascarado. Mas não é vingança que procuro. É justiça.

O dia do despertar.

Começa o horário eleitoral gratuito na TV, mas a família reunida na sala está interessada mesmo é na novela, que começa logo depois. É o rosto do candidato à reeleição que aparece primeiro na tela, até o seu amigável discurso ser interrompido por uma falha na transmissão. O pai, sem entender, muda de canal para ver se o problema era na emissora. Mas todos os canais mostram a mesma coisa.

Uma figura mascarada atrás de uma bancada.

Boa noite, Brasil. Primeiro, devo pedir desculpas pela interrupção. Eu, assim como muitos de vocês, aprecio o conforto da rotina diária, a segurança familiar, a naturalidade de poder amar sem medo ou vergonha. Gosto muito de tudo isso, claro. Então, já que temos algo em comum, pensei em tomar um pouco do tempo de suas vidas para sentar e conversar.

Há aqueles que não querem que a gente fale. Eles podem usar a violência em vez do diálogo, mas as palavras sempre manterão seu poder. As palavras oferecem um significado e, para aqueles que ouvem, a anunciação da verdade.

E a verdade é que existe algo muito errado nesse país. Não existe? Crueldade e injustiça. Intolerância e opressão. Enquanto a maioria pode viver tranquilamente sua vida sexual e afetiva, outros precisam escondê-la e reprimi-la. Em função de um detalhe como a orientação sexual, pessoas são privadas de seus direitos constitucionais básicos. São rebaixadas a subcidadãs. Como isso aconteceu? Quem é o culpado?

Há alguns mais responsáveis que os outros, com certeza, e eles vão ter que prestar contas. Mas verdade seja dita: se procuram por culpados, basta que se olhem no espelho. Eu sei porque vocês fizeram isso. Sei que têm medo. Medo de mudanças, medo do diferente. Mas chegou a hora de dar fim ao silêncio. É hora de acabar com essa loucura.

Há mais de 40 anos, pessoas como eu marcaram o dia 28 de junho rebelando-se contra a opressão. Hoje, precisamos mostrar que igualdade, justiça e liberdade são mais que palavras. São perspectivas.

Se vocês não veem nada, se desconhecem os crimes contra essas pessoas, eu sugiro que deixem o 28 de junho passar em branco. Mas, se vocês veem o que eu vejo, se sentem o que eu sinto e se buscam o que eu busco, então peço que se unam a mim do lado de fora da Câmara dos Deputados. Juntos, daremos a eles um 28 de junho do qual jamais se esquecerão.

O sinal da TV voltou. Mas quem assistiu àquela mensagem não foi mais o mesmo.

Um tributo a Alan Moore. Uma homenagem ao Dia do Orgulho Gay.

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Anunciado mais um reboot

26 de June 2012 por Valek

Depois de confirmado o reboot da Marvel, que foi na onda do reboot da DC, do jogo Tomb Raider, do filme do Homem-Aranha e da novela Gabriela, o Universo acaba de anunciar seu próprio reboot. Enquanto não param de surgir novas versões de Carrie, a Estranha, todo mundo já não via a hora de criarem uma nova versão deste mundo. E o mais aguardado remake da história da humanidade tem data marcada ainda para este ano. “Depois de tantos milênios de espera, finalmente vão apresentar o Universo remodelado!”, declara um empolgado fã.

Os executivos responsáveis por essa audaciosa produção já revelaram alguns detalhes. A primeira mudança importante será no visual dos protagonistas. Os humanos ganharão tons de pele mais vibrantes, que vão do azul ao verde limão, contrastando com as cores pasteis de variações claras e escuras da versão atual. “Pode parecer uma mudança muito radical, mas optamos por personagens mais modernos”, explicam. “Além disso, a questão de cores tem gerado muita confusão. Queremos criar uma história mais dinâmica, mais integrada, e as cores não podem mais ser um obstáculo entre os personagens. Por isso, desenvolvemos um visual colorido e bem distribuído, de forma que não teremos só um grupinho de pessoas laranja tangerina aqui ou um grupinho de pessoas turquesa ali; estarão todos misturados.”

O reboot também é uma oportunidade de consertar vários furos na história. A Bíblia não será mais escrita por um povo primitivo no meio do deserto. “Com um novo Universo, a Bíblia teria que mudar de qualquer jeito”, afirma um dos responsáveis pela mudança, “então aproveitamos para garantir que os mesmos erros não aconteçam. Criar uma obra divina e guia moral para a humanidade que pudesse ser interpretada de várias formas, a bel-prazer de cada geração que teve contato com ela, foi a pior ideia que alguém já teve.” A nova Bíblia será escrita por Neil Gaiman, que neste remake terá nascido no ano de 1602. Com isso, espera-se que as histórias bíblicas ganhem um novo significado, além de dar a elas uma linguagem menos chata e personagens mais cativantes.

“Queremos descomplicar alguns pontos da história para nos aprofundarmos melhor em coisas mais interessantes”, justificam, “e nada no Universo deu mais problema do que a ideia de Deus”. Nessa versão, Deus é um gato gigante e sua existência pode ser comprovada por meio de evidências concretas. Dessa forma, os ateus deixarão de existir definitivamente. “Além de resolver um problema (os ateus), vamos conseguir mostrar a origem do Universo de forma mais fantástica e, ao mesmo tempo, realista.” Graças a um investimento em efeitos especiais jamais visto antes, foi possível criar uma Física que dê suporte à existência de um deus e à sua influência no mundo dos humanos. “Além disso, quem é que não gosta de gatos, não é?”

adore-me

Os produtores também garantem trazer de volta os dinossauros. “A destruição deles tão cedo foi um erro. Muita coisa na história teria sido drasticamente diferente com a presença de uma segunda raça dominante no planeta. Por exemplo, a Segunda Guerra Mundial. Um dos arcos dessa nova versão vai trazer um Adolf Hitler determinado a livrar o mundo desses reptéis gigantes. O público pode esperar surpresas interessantes vindas daí.” Há especulações que eles tenham se inspirado nos episódios de Família Dinossauro, um clássico de tanto sucesso que nunca precisou de remake.

Algumas coisas, porém, serão mantidas. Plutão continuará não sendo um planeta e mulheres ainda serão usadas como objetos sexuais. Os produtores acreditam que peitos podem continuar trazendo audiência nesta nova versão. “A opressão sexual foi uma coisa que funcionou muito bem”, afirmam.

Agora só resta ao público contar os dias no calendário Maia para o lançamento desse remake. E torcer para que o papel de descobridor do Brasil não fique com Adam Sandler.

“Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.”

Douglas Noel Adams.

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Assovio se responde com assovio

01 de March 2012 por Valek

Era só Júnia colocar os pés na rua para saber que ia se aborrecer. Por que a certeza? Porque ela era mulher, claro. Júnia não conseguia passar por uma simples calçada sem ouvir assovios e gracejos como “ô lá em casa”, “ai se eu te pego”, “nossa que delícia”, e outras tantas frases mais elaboradas e criativas que nunca foram exclusivas de pedreiros.

Mas toda mulher, no fundo, no fundo, gostava – era o que o mundo dizia. Júnia não tinha chegado tão no fundo assim, talvez por isso achasse um saco. Mas não era chato como um ônibus que não parava quando ela dava sinal, porque isso ela conseguia superar. Era chato como um testemunha de jeová batendo na sua casa às oito da manhã de um sábado para falar um monte de asneira que você não queria ouvir. Júnia achava que era tão invasivo quanto.

E Júnia não era nada demais, ela achava. Cabelo comprido, olhos, nariz, boca, dois braços, duas pernas e um par de seios, pequenos, mas ainda assim eram dois. Para sua infelicidade, cantadas não eram uma exclusividade das gostosonas. E nem das garotas que desfilavam de minissaia e decote pelas ruas. Mas essas não podiam nem reclamar – o mundo também dizia – porque afinal, se estavam vestidas daquele jeito, estavam pedindo. Vestidas como vagabundas, é claro que vão atrair cantadas – e até causar estupros por aí. Mas Júnia observou que, aparentemente, usar calça comprida, camiseta e casaco também era se vestir como uma vagabunda. Céus, não tinha saída, ela pensava.

Em uma conversa com o irmão, resolveu desabafar. Ele achou um absurdo, claro.

- Olha, se fosse comigo, se um gay mexesse comigo, ah, eu descia a porrada.

- Entendi.

A outra metade da população da qual Júnia não fazia parte parecia achar fácil se livrar disso, talvez por sua pouca familiaridade com a situação. Reagir não era exatamente uma opção, embora toda vez que Júnia passava por isso elaborava em sua cabeça mil formas de responder à altura as gracinhas que tinha que ouvir.

- Bom dia, princesa! – “Bom dia é o cacete, e tira o olho da minha bunda”

- Biiiiiii bii! – “Vai buzinar para a puta que te pariu!”

- Nossa, você tá uma delícia, hein. – “Vai comer merda”

- Que tesão! – “Por quê? Tá com o dedo no seu cu, babaca?”

- Fiu fiu! – “Que foi? Nunca viu mulher não?”

Mas Júnia nunca reagia por dois motivos. Primeiro, achava perigoso. Ela soube de mulher levando tiro na cara por muito menos. Segundo, porque por mais escrota que fosse a resposta que ela imaginava, nunca achava que era tão grosseira quanto as cantadas que recebia.

Até que teve uma ideia.

Evitava passar por uma calçada quando tinha um grupo de homens parado por perto. Mas daquela vez não mudou de caminho. Continuou andando, certa de sua pequena vingança. Quando passou na frente dos três caras, os sempre donos da situação, não deu outra: começaram a assoviar, dizer as gracinhas de sempre. Júnia passou por eles, perto até demais. E, quando teve certeza que no passo seguinte eles estavam olhando para a sua bunda, peidou alto. Um peido bem barulhento, fedido, um estrago. Que orgulho de peido. Continuou andando e deixou de presente para os três sujeitos o cheiro morno de suas entranhas.

Ouviu os três putos xingando lá atrás e gargalhou satisfeita. A cantada, literalmente, saiu pela culatra.

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Inteligência está em falta no Universo

07 de January 2012 por Valek

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Sandelon tinha acabado de cair em outro planeta. Talvez seja difícil acreditar, já que nem eu e nem você tenhamos passado por isso antes. Mas Sandelon estava, de fato, passando por isso e ainda assim achava difícil acreditar.

Preferiu ficar deitado, imóvel, e prendeu a respiração o quanto pode, em pânico. Não aguentou mais que dez segundos. Para sua sorte, a atmosfera do planeta era agradável e o ar que inalou não o matou instantaneamente, como ele pensou que aconteceria. Olhou com medo ao seu redor e estranhou praticamente tudo: da vegetação que cobria toda a superfície até o céu multicolorido, que se alaranjava no horizonte. Puta merda, estou mesmo em outro planeta.

Não havia nenhuma nave ou tripulação espatifada ao seu redor, porque, é claro, as naves não conseguiam chegar tão longe quanto ele estava agora. Os cientistas descobriram que, para chegar em outros planetas, possivelmente habitados, era preciso escavar túneis. O que era bem mais complicado do que perfurar uma superfície, afinal, estamos falando de espaço-tempo.

Escolheram um indivíduo ordinário de quem ninguém sentiria falta, já que a passagem de volta não estava inclusa no pacote, devido a impossibilidades técnicas. Sabe-se apenas que os cientistas estavam trabalhando nisso agora.

Então, como estávamos vendo, Sandelon tinha acabado de cair em outro planeta. Levantou devagar, atento a cada ruído do ambiente. A única coisa que conseguia ouvir era uma frequência constante e aguda, como uma interferência. Era um som alto e irritante. A única coisa que não deixava aquele planeta ser um tédio completo.

E agora, o que eu faço?

Ele estava sozinho em um ambiente desconhecido sem missão a cumprir ou sequer alguma instrução do que fazer ou de como se virar naquele pedaço de fim de mundo. Aparentemente, os cientistas não se preocuparam com isso. Acharam que já seria muito otimista a previsão de que ele chegaria vivo a algum lugar. O fato é que chegou, e agora encarava desesperado a solidão de um planeta inóspito.

Para Sandelon, os planetas não passavam de bolotas no espaço às que se davam nomes engraçados. A posição deles também determinava se alguém estaria destinado a ser um grande teimoso ou só um fracassado qualquer. Mas querer pisar em um planeta distante só para dizer que pisou era inutilidade demais. Era improvável que ele encontraria algo além de plantas esquisitas e nada. Nada vezes nada.

Alguns diziam que existia a chance de haver vida inteligente em outros planetas. Mas Sandelon sabia que era besteira. Acreditava que só existia uma forma de vida inteligente em todo o Universo e ele era um bom representante dela. As Escrituras não mencionavam nenhuma outra espécie como cabeçudos com tentáculos ou rastejantes desintegradores de células, que eram vistos apenas na ficção e em estórias para colocar medo nos pequenos. Se existissem, as Escrituras certamente falariam deles. Isso encerrava a discussão.

Você deve imaginar o que vem a seguir. Sandelon deu de cara com um habitante daquele planeta, para seu completo pavor e para a ruína de suas crenças. A sua única reação foi ficar parado enquanto a criatura se aproximava, caminhando em meio ao mato alto. Sandelon então percebeu que, na verdade, ele havia morrido na experiência dos cientistas e que nada daquilo era real. Pelo menos foi no que ele preferiu acreditar por um momento.

O habitante era menor que ele, todo preto, tinha a cara achatada e grandes olhos amarelos. Tinha cinco membros, mas um deles não tocava o chão. Ficava suspenso no ar e parecia ter vida própria. Então a criatura parou na frente de Sandelon e começou a se comunicar com ele, em uma língua que ele não compreendia. Era um idioma simples, com poucos fonemas, mas estava longe de ser rudimentar. Encarou Sandelon, esperando uma resposta.

Tudo o que ele conseguiu balbuciar foi: não me coma.

A maior demonstração que Sandelon poderia ter de que aquela espécie era uma forma de vida inteligente foi a misericórdia. Era sinal de que havia entendido a mensagem. Uma criatura irracional o teria destroçado, com aquelas garras e dentes. Em vez disso, continuou a se comunicar. Estava tentando estabelecer um diálogo com Sandelon. Mas antes que ele pudesse pensar no que responder, a criatura saltou para o alto de uma das enormes plantas que havia no local, em uma velocidade e com uma habilidade que desafiavam a lógica rasa de Sandelon.

Não só se tratava de uma forma de vida inteligente, como era, certamente, um organismo superior e mais sofisticado. Sandelon ficou olhando embasbacado para a figura negra, que ainda o estudava com curiosidade lá do alto, e, de repente, achou injusto que houvesse no Universo uma espécie tão privilegiada quanto aquela.

Então é isso. A história de que a nossa existência é o centro de tudo não passa de uma grande mentira. Não estamos sozinhos no Universo.

Sandelon estava tão imerso nesse pensamento que nem se deu conta da ameaça que se aproximava. Tudo o que conseguiu ver foi uma criatura muito maior, bípede, carregando uma arma enorme e falando em uma língua ainda mais estranha. Então foi atingido por um tiro e tudo ficou embaçado.

Agora sim, estava diante da forma dominante daquele planeta.

******

As cigarras cantavam alto, mas Estefânia nem ligava mais. Era normal, ainda mais no fim de uma tarde quente como aquela. O que não era normal foi o clarão que borrou o céu por uma fração de segundos. A garota chupava uma manga quando isso aconteceu, e ficou olhando desconfiada para o horizonte.

- Diacho.

Foi lá ver o que era, não sem antes pegar sua espingarda de chumbo. Atravessou o matagal diante da casa e caminhou fazenda adentro, em direção ao local onde viu a luz. Quando chegou perto, viu que um bicho tentava pegar seu gato, que já tinha subido em um galho do pé de maracujá.

- Arre, espera aí, Celestino, que eu já tiro essa coisa daí!

Atirou sem pestanejar. Sabe-se lá que coisa era aquela. Não ia chegar perto a menos que o bicho não se mexesse mais. Avançou no mato alto até o lugar onde ele estava caído. Era uma criatura bizarra. Tinha metade do seu tamanho, o rosto alongado, o corpo curvado como a lâmina da foice de roçar mato. Coisa feia dos diabos. Definitivamente, não era humano, mas Estefânia não sabia que animal era aquele. E olha que de animal a garota entendia.

Alguns acreditavam que pudesse existir vida inteligente em outros planetas. Mas Estefânia sabia que era besteira. Trepou na árvore, pegou o gato e rumou para casa despreocupada. Por mais estranha que pudesse ser aquela coisa, não podia ser um alienígena. Essas coisas não existem.

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Woody Allen estava certo

01 de August 2011 por Valek

(recomendado para maiores)

Talvez o brinquedo sexual mais estimulante para uma mulher seja o espelho. Tsc, e lá vai ela atrás de vibradores e creminhos. Ou então, como Clarissa, lá vai ela se olhar e se achar gorda. Eram aquelas dobrinhas marcadas pelo sutiã que incomodavam, por mais que dissessem que ela era do tipo gordelícia. Francamente, isso era elogio? Vestiu a blusa rapidinho e foi trabalhar.

Chegou na redação, onde exercia a pouco atraente função de assistente de marketing. Mas gostava da sua mesa. De longe dava para localizá-la: era aquela com duas anteninhas de pompons rosa em cima do monitor. Imprimia imagens do happythings.tumblr.com e colava nas laterais da sua baia. Chegou sorrindo um bom dia para seus colegas, enquanto cantarolava uma musiquinha qualquer em francês.

Abriu o email enquanto tomava seu café. Capuccino descafeinado, na verdade.

“Fwd: Brinquedinhos de mulheres” As meninas da redação enviavam entre si, pelo menos uma vez por semana, algum e-mail com link de sacanagem. E lá estava Clarissa na tal lista. Ela até abria, dava uma olhada por cima, só para não parecer a chata.

- E aí Silvinha, gostou do e-mail?

- Gostei foi daquele amigão duplo. Imagina, que loucura!

Hahaha, e as meninas riam no corredor do café, e o máximo que Clarissa fazia era mostrar os dentes enquanto enchia seu copo de água. Que conversa desagradável. No mínimo, fora de hora. Clarissa estava com muito trabalho e, bem, com pouco assunto. Não era por falta de gostar da coisa, se é que você entende. Imagina! Até tinha seus eventuais namorados e não podia reclamar de falta de opção. Talvez de sua falta de coragem, ou quem sabe ela não tivesse tesão o suficiente. Ainda.

O problema é que, quando se tem 22 anos, esperam que você tenha uma história sexual um pouco mais extensa do que alguns amassos e um boquete bem meia-boca. Também teve aquela vez que o César baixou sua calcinha de leve, enquanto se beijavam na cama dele. Clarissa levantou na hora, negou, fez charminho, e acabaram que nunca mais se viram depois disso. Virgem, dá para acreditar?

- Não, espera aí. Você nunca fez? Nem uma trepadinha? Tá de brincadeira.

- Ah, Lilian. Ainda não achei o cara certo, sabe?

- Olha, se você fosse tatuar a rola dele, eu até ia entender a sua preocupação. Ia ser mesmo uma tragédia escolher o cara – ou o pinto errado.

Clarissa se arrependeu de ter aberto a boca, era a primeira vez que falava dessas coisas com uma colega. Não era exatamente uma colega, Lilian era sua supervisora. Estavam na casa dela, já sem o salto alto, quando ela trouxe duas cervejas geladas e se sentou no sofá à sua frente.

Clarissa já podia antecipar mentalmente todo tipo de conselho que a outra ia oferecer. Nos dias atuais, os sacrifícios de virgem ainda existiam; mas era muito mais um martírio moral do que realmente ser amarrada em um altar e, sabe-se lá, ser apunhalada com uma adaga ritual. Vergonha nem era ser virgem, era ser burra mesmo. Em tempos onde era tão fácil parecer uma safada, em que bastava um avatar mais ousado e postar links de sacanagem (ou mensagens minimamente insinuantes), parecer virgem, independente de já ter feito ou não parte dos festejos da rola grossa, é que era inaceitável. Exceto no altar, em que todas, absolutamente todas, usavam véu e grinalda, como boas donzelas. Clarissa estava tão absorta em seus inúteis pensamentos virginais, que não imaginava que Lilian estava mais interessada em fazer perguntas do que oferecer conselhos de mulher bem transada e experiente.

- Então… você não sabe como é?

- Como é aquilo? Ah, sei sim. Eu te falei, já chupei uma vez, quando…

- Não estou falando disso, Clá. Céus, você tem o pensamento tão fálico!

- Falando assim você me faz sentir uma aberração, credo.

- Deixa de ser boba. Só tira o pau da cabeça, a pergunta não tem nada a ver com pau. O que eu queria saber é se você já gozou.

Foi como se os cinco litros de sangue de Clarissa de repente circulassem no seu rosto. Como saberia dizer se já gozou, se mal fez o básico, que era transar? Pelo menos, ela imaginava o processo como uma escadinha: sexo devia ser como subir degrau a degrau, até chegar lá. E acontece que Clarissa tinha tropeçado no primeiro andar. Preferiu não explicar isso para Lilian, então deu logo a resposta mais curta.

- Hm, não.

- E você nunca teve curiosidade para saber como é?

- Até tenho. Mas acho que vai ser bem mais gostoso quando – ai meu Deus, não me ache uma idiota por isso, ok – achar o cara certo para mim.

- Quem disse que você precisa de um cara pra isso?

Lilian riu de um jeito que Clarissa até pensou, de início, que sua chefe queria comê-la ali mesmo. Então lembrou do que levou àquela conversa: desde o princípio, tudo era sobre os benditos e-mails de putaria das meninas da redação. Lilian devia estar falando dos consolos, bolinhas tailandesas e estimuladores listados no link.

- Ou você nunca ouviu aquela do Woody Allen? Masturbação é sexo com a pessoa que você mais ama.

- É, faz sentido.

Sozinha em casa, ela finalmente teve coragem de olhar o link com mais calma. Eram cacetes, pirocas e perus de todos os tamanhos, cores, formatos e materiais. Tinha um azul ciano lindo que até ficaria bem na sua mesa se não fosse, pra início de conversa, uma rola bem grande. O tal amigão duplo era um pouco assustador, e Clarissa não gostava da ideia de ser metida por uma deformação de plástico. Aliás, ela nem gostava da ideia de perder a virgindade para qualquer coisa de plástico. Que pensamento mais idiota. Clicou na seção de vibradores e estimulantes de clitóris e ficou meio perdida com tantas opções. Achou um pequenininho, de encaixar no dedo, com a seguinte descrição: “Super silencioso, dá para usar no trabalho. Inclui baterias”. Arriscou encomendar esse, claro, sem esquecer do gel estimulante mentolado.

Demorou para chegar, mas depois de tantos anos sem gozar, não era um pequeno atraso dos correios que ia fazer diferença. Primeiro testou sua nova aquisição na pele do seu braço para ver o quanto vibrava. Olhou com estranheza, tentando imaginar se isso poderia ser bom lá embaixo. Ou pelo menos tentando avaliar os riscos de levar um choque com aquilo. Bobeira, não era elétrico. Resolveu que era hora de deixar as especulações de lado, e, depois do banho, deitou em sua cama só de camisola. Encarando o teto, preparou o brinquedinho no dedo e, por debaixo do cobertor, começou as atividades.

Era uma sensação incômoda e relaxante, como se fosse um spa de cócegas. Suas pernas estavam duras: sentir que não tinha o controle daquela área estava deixando Clarissa toda tensa e insegura no manejo daquela britadeira de periquita. Tentou pensar em algo excitante, talvez ajudasse a relaxar. Ah, a vez em que chupou o Rodrigo, um dos seus últimos namorados. Tinha ficado meio sem jeito com tanta carne na sua boca, esbarrando nos dentes e encostando na garganta. Resolveu ficar só na pontinha e não investir tanta saliva, por mais que o namorado forçasse a sua cabeça para ir mais fundo, usando uma técnica que Clarissa imaginou ser usada por torturadores, mas com uma tina de água gelada no lugar do pinto. Acabou que o pescoço dela estava mais duro que o pau dele. Quando se deu conta, o namorado estava tirando um corpo mole e murcho de dentro da sua boca. É, não ia funcionar. Suas lembranças não eram muito excitantes, mas ela podia inventar uma que fosse. Por que não?

Tentou imaginar como seria se tivesse deixado César ir adiante. Ele abaixou a calcinha dela e começou a fazer carinho no meio de suas pernas – carinho que ela simulava com seus próprios movimentos conduzindo o vibrador. Hm, tinha ficado gostoso de um jeito que fez Clarissa derreter e ficar um pouco molhada em baixo do cobertor. “Mas espera, nessa posição ele vai ver a minha barriga”, e ela sentiu que precisava ser convincente para continuar funcionando. Além do mais, aquele detalhe a incomodava profundamente, de forma que ela virou de ladinho para continuar. Foi quando olhou para seus seios, que volumosos, pulavam para fora da camisola, e também se incomodou como eles ficavam caídos e meio tortos naquela posição. Revirou na cama procurando o ângulo menos constrangedor e pensou que também teria sido uma tragédia se ela realmente tivesse deixado César fazer o que ele queria quando abaixou sua calcinha aquele dia. Arrancou o estimulador do dedo e jogou contra a parede. Perda de tempo.

Chegou na redação um pouco menos bem-humorada e um pouco mais descabelada do que o normal. Nessas horas agradecia por trabalhar para uma revista de adolescentes, em vez de uma daquelas para mulheres crescidinhas que trazem na capa “enlouqueça seu homem na cama”. Mas algo no olhar da sua chefe dizia que ela não ia conseguir se livrar do assunto tâo fácil.

- E aí, deu certo?

- Do que você tá falando, Lílian?

Sua supervisora sorriu e olhou para os lados. Levantou de sua mesa, levando sua caneca de café, e sentou-se na cadeira ao lado de Clarissa. Sussurrou e olhou por cima dos óculos de aros vermelhos:

- Tô falando do brinquedinho novo que você me falou.

- Ah, não funcionou muito bem.

- Como assim, menina? Tava até pensando em pedir um pra mim também.

- É, quem sabe pra você dê certo. Mas comigo não funcionou.

- Hm, tem certeza que foi o aparelhinho que não funcionou?

- Não senti nada.

- Clá, o vibrador só vibra. O que tem que funcionar pra você sentir prazer é a sua cabeça.

- O que você está querendo dizer?

- Só tô dizendo para você encanar menos. Sei lá, abrir a cabeça, curtir, relaxar. Esquecer que precisa de homem, ou até de vibrador pra ser feliz. Deixa você mesma se amar um pouco.

Deu uma piscadela e voltou para a sua mesa e seus montes de planilhas. Deixou Clarissa cheia de coisas para pensar durante o dia. E que dia. Estava tão cheia de trabalho que nem teve tempo de abrir o e-mail de sacanagem que a Regina mandou para as meninas. Mas também não estava interessada.

Queria mesmo um bom banho quando chegasse em casa. Feito. Demorou-se na água quente e saiu do banheiro nua, secando os cabelos com a toalha. Parou na frente do espelho, pegou a escova e começou a pentear os cabelos para a esquerda, depois para a direita. De repente trocou olhares consigo mesma e imaginou uma forma de parecer diferente. Com os dedos, jogou os cabelos para trás, deixando seu rosto completamente descoberto. Por nunca ter usado o cabelo assim, ficou surpresa com a diferença que fez para o seu rosto. Brincou com o espelho, fazendo caras e bocas que a faria se achar ridícula em qualquer outra situação. Sorriu com a brincadeira boba e pegou novamente a toalha.

Então olhou para o seu corpo no espelho e afastou a toalha da frente de seus seios. Também eram interessantes, afinal. E sensíveis. Sabia o quanto era prazeroso receber alguns carinhos ali, mas eles não estavam recebendo muita atenção. O que gostava de sentir ali? Passou seus dedos de leve e ficou arrepiada: seus mamilos se eriçaram na hora. Apertava, alisava, brincava e gostava. Molhou seus dedos com saliva e tocou na ponta dos seus seios. Chegava a um novo nível de prazer, sentia suas bochechas esquentando. Continuou a tocar seus seios e virou-se para ver sua bunda, que ficava tão maior empinada naquele ângulo. A visão era ótima. Como ela nunca tinha percebido isso antes?

Sentou-se na cama, sem tirar os olhos da Clarissa do espelho. Chupou seu dedo e desceu ele pelo corpo até chegar na vagina. Estremeceu. Começou com movimentos suaves, e seu dedo deslizava bem devagar na sua pele molhada. Com a outra mão, continuou a alisar seus seios e a se divertir sentindo-os durinhos e pontudos. Não queria perder nada. Abriu bem as pernas para ver todos os detalhes e sentia cada vez mais tesão com aquela imagem, com aquele toque.

Nem percebeu quando exatamente resolveu deitar na cama, mas já estava rebolando e se esfregando em seus lençóis, ao mesmo tempo em que dedilhava a xana em todas as direções. Respirava alto, seus peitos subiam e desciam no mesmo ritmo dos gemidos. Revirou na cama até ficar com a bunda virada para cima, e levou as duas mãos para baixo, onde começou a fazer um movimento coordenado fora das possibilidades anatômicas de qualquer pau ou língua masculina. Seus dedos não eram só rápidos: sabiam o que queriam. Então Clarissa sentiu algo lá dentro esquentar e, como se fosse um espirro, explodir em algo incontrolável. O que foi isso? Ela desacelerou os dedos, mas queria continuar sentindo. Gozou?

Suas pernas tremiam, mas Clarissa continuou firme. Não enfiou um, mas dois dedos na boceta. Doeu quando entrou, mas ela estava tão louca que foi fundo e meteu sem parar. Com o rosto afundado no travesseiro, ela abafava seus gemidos que ficavam cada vez mais altos, mais fora de controle. Nem suas aulas de natação na adolescência exigiram tanto fôlego; mas eram tão molhadas quanto. Ela encontrou a posição certa, o ritmo certo, o toque certo. Quem mais poderia fazer isso? Foi mais rápido só para saber até onde ela podia ir. Então ela foi. Sim, definitivamente, ela gozou de novo.

Clarissa desmontou na cama como se fosse líquida. Sorria descabelada ainda com a cara no travesseiro. Exausta demais para se vestir, apenas se encolheu na cama, como se abraçasse sua própria nudez e a sua nova descoberta: não só a do orgasmo, mas a de que, por baixo daquela Clarissa insatisfeita com suas medidas, estava uma mulher que era um puta tesão.

Fora isso, nada mudou. Clarissa continuou a ir para o trabalho sorridente, continuou a tomar seu capuccino descafeinado, e as meninas da redação continuaram a enviar e-mails com putaria. O que nem elas sabiam é que a menina do marketing que adorava imprimir imagens do happythings.tumblr.com agora enviava suas próprias fotos, nua, para o gostosas.tumblr.com.

Outros contos eróticos:

Bukowski de um conto só

Mistura a três (pt I)

 

 

 

 

 

 

 

Mistura a três (pt II)

Estranhos Intímos

 

 

 

 

 

 

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Hipersonia Crônica

03 de July 2011 por Valek

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Acabo de tirar uma história da gaveta. Comecei a escrever Hipersonia Crônica já tem um tempo, mas continuar a guardá-la e reescrevê-la em um processo sem fim não ia acabar em lugar nenhum. Agora espero que acabe na mão de alguns leitores.

Hipersonia Crônica é a história de um gerente de projetos que começa a ter sérios distúrbios do sono que chegam a afetar a sua vida profissional. O problema é que o seu trabalho também começa a afetar seus sonhos, em uma aventura perigosa que revira sua cabeça.

O download é gratuito. Basta você clicar no botão ali de cima e postar um tweet com o link do livro. E pronto: boa leitura! :)

 

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O workaholic e o casco

04 de May 2011 por Valek

Mais uma historinha que as próximas gerações podiam ouvir desde cedo.

O dia de Lourenço começava cedo. Quase sempre com uma torrada comida no meio do caminho. O café ele deixava para tomar quando chegava no escritório, enquanto lia os e-mails. Uma olhada rápida no portal de esportes. Leitura dinâmica no jornal do dia. Um cara sempre informado.

O telefone tocou, ele sabia que era pepino. Não deu outra. Era o cliente querendo marcar uma reunião no final do dia. Ele disse que sim, tudo certo, mas a apresentação não estava pronta ainda. Ligou na hora pro Pacheco e falou para dar um jeito de agilizar tudo. Urgente.

Ainda nem era hora do almoço e ele já tinha feito quase todo o texto para colocar na apresentação. Enviou os relatórios que o chefe pediu. Foi umas três vezes na mesa da Sílvia cobrar uns documentos pendentes. Pediu um sanduíche no delivery. Ia comer no escritório, adiantar umas coisas.

A tarde passou voando. Lourenço também. No táxi, respondeu pelo celular alguns e-mails que não teve tempo de ler no escritório. Deu uma boa alongada no pescoço. Sentiu uma tensão sobre os ombros. Devia ser por causa da apresentação de logo mais.

Tudo certo, tudo lindo, mas o cliente pediu alguns ajustes antes de aprovar o orçamento. Claro. E ele, que queria vender logo o projeto, trabalhou até às três da manhã. Só se rendeu à cama quando não aguentou mais de dor nas costas.

O dia seguinte continuou estressante. Ligações. E-mails. Gente incompetente. Cobranças. Contrato fechado. Relatórios. Café. A assistente de Lourenço chegou por trás e colocou as mãos em suas costas. “Nossa! Quanta tensão, Lourenço!” Ficou impressionada com a dureza dos nós em seus ombros. Fez uma massagem gentil no chefe estressado. Mas as costas estavam tão duras, que começou a dar soquinhos. É, ela não ia dar conta. Mas indicou um spa com um ótimo massagista.

Depois do expediente, Lourenço passou lá. Tirou a camisa e deitou na cama. Suas costas deram uma baita canseira no massagista. “Vamos precisar de mais uma sessão. A coisa está feia.” Chegou no escritório reclamando com a secretária. Parecia que a dor tinha piorado. Agora mal conseguia mover os ombros.

De qualquer forma, voltou ao tal spa. Quando tirou a camisa, o massagista fez uma cara feia de espanto. Mostrou o espelho a Lourenço. Ele levou um susto. O músculo sobre os ombros estava bastante inchado. Duro como pão de antes de ontem. “É melhor procurar um ortopedista!”

Com o terno, não dava para notar o inchaço nos ombros. Mas passou o expediente todo duro, sentindo-se um cabide. Chegou no consultório e o doutor fez a mesma cara feia de espanto. Apalpou os ombros, examinou as costas, deitou ele de lado na maca, até deu umas batidinhas com um martelinho. Pediu uns exames só para ter certeza, mas a verdade é que não tinha ideia do que podia ser aquilo. Mas adiantou: “Pode ser stress.” Receitou uns analgésicos. Pediu para Lourenço tirar pelo menos três dias de repouso.

No segundo dia, voltou ao escritório. Cheio de coisas para fazer. Tomou tanto remédio que tinha analgésico saindo pelos ouvidos. Aos colegas, dizia que estava melhorando. Claro, não tinha tempo para ficar sentindo dor.

E o inchaço não dava sinais de melhorar. Ou amaciar. O pior é que a dor estava se espalhando pelas costas inteiras. Tinha vontade de pedir o seu salário todo em massagens.

Ficar sentado doía. Ficar deitado doía. Fazer alongamento doía. Passar a mão doía. Doía tanto, que se levasse um murro na cara nem ia sentir. Começou a levar uma almofada para o trabalho. Suas costas estavam duras feito parede de concreto. E a lombar começava a ficar tão bizarramente inchada quanto seus ombros.

O doutor entregou as radiografias. Não dava para saber o que era aquele inchaço. Parecia uma formação óssea. Era melhor recolher uma amostra de sangue. Achou preocupante os remédios não fazerem efeito e disse que era um inchaço bem anormal.

Em casa, Lourenço não conseguia parar de pensar. “Ai, meu Deus, será um tumor? Vou morrer?” E aí lembrou do dead line do projeto que renderia um contrato milionário. Aproveitou e enviou um e-mail pelo celular antes de deitar. Dormiu de bruços.

Foi difícil acordar. Sentia-se esmagado. Tentou levantar, mas suas costas ainda doíam. Não conseguia se virar na cama. Escorregou para o lado, tirou o pijama e pegou a toalha. Ao passar pelo espelho, quase caiu para trás. “Que porra é essa?” Olhou para as suas costas, onde agora via um bizarro casco de tartaruga. Esverdeado. Duro. Lisinho. Pesado. Não podia ser outra coisa. Era mesmo uma carapaça, uma carapaça de tartaruga!

Céus, tantos dias para nascer um casco de tartaruga, tinha que ser logo no dia em que tinha uma reunião pela manhã? Estava atrasado. Faltava terminar um relatório. Agora tinha um casco de tartaruga que precisava esconder. Ligou o chuveiro e esfregou bem o rosto. Vai que ele descobria que estava sonhando. Sofrendo alucinações por causa da dor.

Saiu do banho se sentindo bem melhor. Mas o casco continuava ali. Como uma mochila carregada de pedregulhos. Só que Lourenço não ligava mais. Agora ele tinha duas longas nadadeiras e olhos brilhantes em um rosto bem enrugadinho. Foi andando pela casa devagar e feliz. Finalmente ia conseguir tirar as tão sonhadas férias na praia.

 

Moral da história: Quem nunca para ainda vai ser esmagado pelo peso que carrega.

 


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Vadio, mas ela gosta

11 de March 2011 por Valek

A gente mora junto há pouco tempo, mas já deu para me acostumar às manias dela. E ela se irritar com as minhas. Por exemplo, quando ela chega do trabalho sempre tem uma bronca. Ou é a minha bebida que ela encontra derramada, ou o cobertor jogado no chão, ou ainda uma mijadinha fora, mas de leve. “Você dormiu o dia inteiro, né, safado?” Eu até tento disfarçar, mas a cara amassada e os olhos inchados não me deixam mentir.

Passo as tardes esparramado no sofá. E para ninguém dizer que a minha vida é só isso, às vezes tiro um ronco na cama também. Meu negócio é dormir, comer, beber. E eventualmente, cagar. No meio tempo, fico na janela olhando o que o povo lá de fora tá fazendo.

Ela só chega à noite, às vezes brava, às vezes morrendo de saudade. Sempre cansada. Quando não está muito tarde, ela vai para a cozinha e prepara a janta. Eu fico na sala, sentindo aquele cheirinho bom. Apareço só quando está pronto e vou até a mesa espiar, para ver se está com uma cara boa.

Ela serve o prato dela, e depois serve o meu. Enche de comida e depois vem reclamar que estou barrigudo. É foda.

Depois ela vai tomar banho. Quando deixa a porta aberta, é um sinal. Fico parado na porta, só olhando. E ouvindo a água bater no corpo dela e depois no chão. Fico ali a noite inteira, se ela quiser. Nem reclamo quando ela demora muito. Ela que tá pagando a conta de luz mesmo.

Eu prefiro banhos rápidos. Não gosto é de cortar as unhas, mas ela reclama quando vê que começam a crescer. Eu não tô nem aí. Faz uns meses que ela comprou um perfume, desses caros. Uso uma vez por mês e olhe lá. Bom mesmo é o meu cheiro natural de macho.

Quando ela começa a apagar as luzes, eu já sei que é a hora de dormir. Chego de mansinho na cama. Faço massagem no pescoço e peço para entrar dentro do cobertor. Gosto de dormir de conchinha, bem abraçado. Quer dizer, até ela se mexer no meio da noite e me empurrar para o lado. Volto, faço carinho nos cabelos, roço o bigode no narizinho dela. Mas ela não acorda por nada. Justo na hora em que eu estou mais aceso. Aí não tenho o que fazer, amigo. O jeito é levantar e ir beber uma água. Ou vou para a sala e brinco sozinho mesmo.

Ela sempre acorda atrasada. E de mau humor. “Sai daqui! Não me enche o saco, tô atrasada!” Fico puxando o fio da chapinha enquanto ela arruma o cabelo, só porque me divirto com ela irritada.

Já na hora de sair, saio correndo antes que ela abra a porta. Então eu mio alto. Ela não pode ir embora sem antes colocar no pires o meu Whiskas sachê.

 

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