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Sandelon tinha acabado de cair em outro planeta. Talvez seja difícil acreditar, já que nem eu e nem você tenhamos passado por isso antes. Mas Sandelon estava, de fato, passando por isso e ainda assim achava difícil acreditar.

Preferiu ficar deitado, imóvel, e prendeu a respiração o quanto pode, em pânico. Não aguentou mais que dez segundos. Para sua sorte, a atmosfera do planeta era agradável e o ar que inalou não o matou instantaneamente, como ele pensou que aconteceria. Olhou com medo ao seu redor e estranhou praticamente tudo: da vegetação que cobria toda a superfície até o céu multicolorido, que se alaranjava no horizonte. Puta merda, estou mesmo em outro planeta.

Não havia nenhuma nave ou tripulação espatifada ao seu redor, porque, é claro, as naves não conseguiam chegar tão longe quanto ele estava agora. Os cientistas descobriram que, para chegar em outros planetas, possivelmente habitados, era preciso escavar túneis. O que era bem mais complicado do que perfurar uma superfície, afinal, estamos falando de espaço-tempo.

Escolheram um indivíduo ordinário de quem ninguém sentiria falta, já que a passagem de volta não estava inclusa no pacote, devido a impossibilidades técnicas. Sabe-se apenas que os cientistas estavam trabalhando nisso agora.

Então, como estávamos vendo, Sandelon tinha acabado de cair em outro planeta. Levantou devagar, atento a cada ruído do ambiente. A única coisa que conseguia ouvir era uma frequência constante e aguda, como uma interferência. Era um som alto e irritante. A única coisa que não deixava aquele planeta ser um tédio completo.

E agora, o que eu faço?

Ele estava sozinho em um ambiente desconhecido sem missão a cumprir ou sequer alguma instrução do que fazer ou de como se virar naquele pedaço de fim de mundo. Aparentemente, os cientistas não se preocuparam com isso. Acharam que já seria muito otimista a previsão de que ele chegaria vivo a algum lugar. O fato é que chegou, e agora encarava desesperado a solidão de um planeta inóspito.

Para Sandelon, os planetas não passavam de bolotas no espaço às que se davam nomes engraçados. A posição deles também determinava se alguém estaria destinado a ser um grande teimoso ou só um fracassado qualquer. Mas querer pisar em um planeta distante só para dizer que pisou era inutilidade demais. Era improvável que ele encontraria algo além de plantas esquisitas e nada. Nada vezes nada.

Alguns diziam que existia a chance de haver vida inteligente em outros planetas. Mas Sandelon sabia que era besteira. Acreditava que só existia uma forma de vida inteligente em todo o Universo e ele era um bom representante dela. As Escrituras não mencionavam nenhuma outra espécie como cabeçudos com tentáculos ou rastejantes desintegradores de células, que eram vistos apenas na ficção e em estórias para colocar medo nos pequenos. Se existissem, as Escrituras certamente falariam deles. Isso encerrava a discussão.

Você deve imaginar o que vem a seguir. Sandelon deu de cara com um habitante daquele planeta, para seu completo pavor e para a ruína de suas crenças. A sua única reação foi ficar parado enquanto a criatura se aproximava, caminhando em meio ao mato alto. Sandelon então percebeu que, na verdade, ele havia morrido na experiência dos cientistas e que nada daquilo era real. Pelo menos foi no que ele preferiu acreditar por um momento.

O habitante era menor que ele, todo preto, tinha a cara achatada e grandes olhos amarelos. Tinha cinco membros, mas um deles não tocava o chão. Ficava suspenso no ar e parecia ter vida própria. Então a criatura parou na frente de Sandelon e começou a se comunicar com ele, em uma língua que ele não compreendia. Era um idioma simples, com poucos fonemas, mas estava longe de ser rudimentar. Encarou Sandelon, esperando uma resposta.

Tudo o que ele conseguiu balbuciar foi: não me coma.

A maior demonstração que Sandelon poderia ter de que aquela espécie era uma forma de vida inteligente foi a misericórdia. Era sinal de que havia entendido a mensagem. Uma criatura irracional o teria destroçado, com aquelas garras e dentes. Em vez disso, continuou a se comunicar. Estava tentando estabelecer um diálogo com Sandelon. Mas antes que ele pudesse pensar no que responder, a criatura saltou para o alto de uma das enormes plantas que havia no local, em uma velocidade e com uma habilidade que desafiavam a lógica rasa de Sandelon.

Não só se tratava de uma forma de vida inteligente, como era, certamente, um organismo superior e mais sofisticado. Sandelon ficou olhando embasbacado para a figura negra, que ainda o estudava com curiosidade lá do alto, e, de repente, achou injusto que houvesse no Universo uma espécie tão privilegiada quanto aquela.

Então é isso. A história de que a nossa existência é o centro de tudo não passa de uma grande mentira. Não estamos sozinhos no Universo.

Sandelon estava tão imerso nesse pensamento que nem se deu conta da ameaça que se aproximava. Tudo o que conseguiu ver foi uma criatura muito maior, bípede, carregando uma arma enorme e falando em uma língua ainda mais estranha. Então foi atingido por um tiro e tudo ficou embaçado.

Agora sim, estava diante da forma dominante daquele planeta.

******

As cigarras cantavam alto, mas Estefânia nem ligava mais. Era normal, ainda mais no fim de uma tarde quente como aquela. O que não era normal foi o clarão que borrou o céu por uma fração de segundos. A garota chupava uma manga quando isso aconteceu, e ficou olhando desconfiada para o horizonte.

- Diacho.

Foi lá ver o que era, não sem antes pegar sua espingarda de chumbo. Atravessou o matagal diante da casa e caminhou fazenda adentro, em direção ao local onde viu a luz. Quando chegou perto, viu que um bicho tentava pegar seu gato, que já tinha subido em um galho do pé de maracujá.

- Arre, espera aí, Celestino, que eu já tiro essa coisa daí!

Atirou sem pestanejar. Sabe-se lá que coisa era aquela. Não ia chegar perto a menos que o bicho não se mexesse mais. Avançou no mato alto até o lugar onde ele estava caído. Era uma criatura bizarra. Tinha metade do seu tamanho, o rosto alongado, o corpo curvado como a lâmina da foice de roçar mato. Coisa feia dos diabos. Definitivamente, não era humano, mas Estefânia não sabia que animal era aquele. E olha que de animal a garota entendia.

Alguns acreditavam que pudesse existir vida inteligente em outros planetas. Mas Estefânia sabia que era besteira. Trepou na árvore, pegou o gato e rumou para casa despreocupada. Por mais estranha que pudesse ser aquela coisa, não podia ser um alienígena. Essas coisas não existem.

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Aug/11

1

Woody Allen estava certo

(recomendado para maiores)

Talvez o brinquedo sexual mais estimulante para uma mulher seja o espelho. Tsc, e lá vai ela atrás de vibradores e creminhos. Ou então, como Clarissa, lá vai ela se olhar e se achar gorda. Eram aquelas dobrinhas marcadas pelo sutiã que incomodavam, por mais que dissessem que ela era do tipo gordelícia. Francamente, isso era elogio? Vestiu a blusa rapidinho e foi trabalhar.

Chegou na redação, onde exercia a pouco atraente função de assistente de marketing. Mas gostava da sua mesa. De longe dava para localizá-la: era aquela com duas anteninhas de pompons rosa em cima do monitor. Imprimia imagens do happythings.tumblr.com e colava nas laterais da sua baia. Chegou sorrindo um bom dia para seus colegas, enquanto cantarolava uma musiquinha qualquer em francês.

Abriu o email enquanto tomava seu café. Capuccino descafeinado, na verdade.

“Fwd: Brinquedinhos de mulheres” As meninas da redação enviavam entre si, pelo menos uma vez por semana, algum e-mail com link de sacanagem. E lá estava Clarissa na tal lista. Ela até abria, dava uma olhada por cima, só para não parecer a chata.

- E aí Silvinha, gostou do e-mail?

- Gostei foi daquele amigão duplo. Imagina, que loucura!

Hahaha, e as meninas riam no corredor do café, e o máximo que Clarissa fazia era mostrar os dentes enquanto enchia seu copo de água. Que conversa desagradável. No mínimo, fora de hora. Clarissa estava com muito trabalho e, bem, com pouco assunto. Não era por falta de gostar da coisa, se é que você entende. Imagina! Até tinha seus eventuais namorados e não podia reclamar de falta de opção. Talvez de sua falta de coragem, ou quem sabe ela não tivesse tesão o suficiente. Ainda.

O problema é que, quando se tem 22 anos, esperam que você tenha uma história sexual um pouco mais extensa do que alguns amassos e um boquete bem meia-boca. Também teve aquela vez que o César baixou sua calcinha de leve, enquanto se beijavam na cama dele. Clarissa levantou na hora, negou, fez charminho, e acabaram que nunca mais se viram depois disso. Virgem, dá para acreditar?

- Não, espera aí. Você nunca fez? Nem uma trepadinha? Tá de brincadeira.

- Ah, Lilian. Ainda não achei o cara certo, sabe?

- Olha, se você fosse tatuar a rola dele, eu até ia entender a sua preocupação. Ia ser mesmo uma tragédia escolher o cara – ou o pinto errado.

Clarissa se arrependeu de ter aberto a boca, era a primeira vez que falava dessas coisas com uma colega. Não era exatamente uma colega, Lilian era sua supervisora. Estavam na casa dela, já sem o salto alto, quando ela trouxe duas cervejas geladas e se sentou no sofá à sua frente.

Clarissa já podia antecipar mentalmente todo tipo de conselho que a outra ia oferecer. Nos dias atuais, os sacrifícios de virgem ainda existiam; mas era muito mais um martírio moral do que realmente ser amarrada em um altar e, sabe-se lá, ser apunhalada com uma adaga ritual. Vergonha nem era ser virgem, era ser burra mesmo. Em tempos onde era tão fácil parecer uma safada, em que bastava um avatar mais ousado e postar links de sacanagem (ou mensagens minimamente insinuantes), parecer virgem, independente de já ter feito ou não parte dos festejos da rola grossa, é que era inaceitável. Exceto no altar, em que todas, absolutamente todas, usavam véu e grinalda, como boas donzelas. Clarissa estava tão absorta em seus inúteis pensamentos virginais, que não imaginava que Lilian estava mais interessada em fazer perguntas do que oferecer conselhos de mulher bem transada e experiente.

- Então… você não sabe como é?

- Como é aquilo? Ah, sei sim. Eu te falei, já chupei uma vez, quando…

- Não estou falando disso, Clá. Céus, você tem o pensamento tão fálico!

- Falando assim você me faz sentir uma aberração, credo.

- Deixa de ser boba. Só tira o pau da cabeça, a pergunta não tem nada a ver com pau. O que eu queria saber é se você já gozou.

Foi como se os cinco litros de sangue de Clarissa de repente circulassem no seu rosto. Como saberia dizer se já gozou, se mal fez o básico, que era transar? Pelo menos, ela imaginava o processo como uma escadinha: sexo devia ser como subir degrau a degrau, até chegar lá. E acontece que Clarissa tinha tropeçado no primeiro andar. Preferiu não explicar isso para Lilian, então deu logo a resposta mais curta.

- Hm, não.

- E você nunca teve curiosidade para saber como é?

- Até tenho. Mas acho que vai ser bem mais gostoso quando – ai meu Deus, não me ache uma idiota por isso, ok – achar o cara certo para mim.

- Quem disse que você precisa de um cara pra isso?

Lilian riu de um jeito que Clarissa até pensou, de início, que sua chefe queria comê-la ali mesmo. Então lembrou do que levou àquela conversa: desde o princípio, tudo era sobre os benditos e-mails de putaria das meninas da redação. Lilian devia estar falando dos consolos, bolinhas tailandesas e estimuladores listados no link.

- Ou você nunca ouviu aquela do Woody Allen? Masturbação é sexo com a pessoa que você mais ama.

- É, faz sentido.

Sozinha em casa, ela finalmente teve coragem de olhar o link com mais calma. Eram cacetes, pirocas e perus de todos os tamanhos, cores, formatos e materiais. Tinha um azul ciano lindo que até ficaria bem na sua mesa se não fosse, pra início de conversa, uma rola bem grande. O tal amigão duplo era um pouco assustador, e Clarissa não gostava da ideia de ser metida por uma deformação de plástico. Aliás, ela nem gostava da ideia de perder a virgindade para qualquer coisa de plástico. Que pensamento mais idiota. Clicou na seção de vibradores e estimulantes de clitóris e ficou meio perdida com tantas opções. Achou um pequenininho, de encaixar no dedo, com a seguinte descrição: “Super silencioso, dá para usar no trabalho. Inclui baterias”. Arriscou encomendar esse, claro, sem esquecer do gel estimulante mentolado.

Demorou para chegar, mas depois de tantos anos sem gozar, não era um pequeno atraso dos correios que ia fazer diferença. Primeiro testou sua nova aquisição na pele do seu braço para ver o quanto vibrava. Olhou com estranheza, tentando imaginar se isso poderia ser bom lá embaixo. Ou pelo menos tentando avaliar os riscos de levar um choque com aquilo. Bobeira, não era elétrico. Resolveu que era hora de deixar as especulações de lado, e, depois do banho, deitou em sua cama só de camisola. Encarando o teto, preparou o brinquedinho no dedo e, por debaixo do cobertor, começou as atividades.

Era uma sensação incômoda e relaxante, como se fosse um spa de cócegas. Suas pernas estavam duras: sentir que não tinha o controle daquela área estava deixando Clarissa toda tensa e insegura no manejo daquela britadeira de periquita. Tentou pensar em algo excitante, talvez ajudasse a relaxar. Ah, a vez em que chupou o Rodrigo, um dos seus últimos namorados. Tinha ficado meio sem jeito com tanta carne na sua boca, esbarrando nos dentes e encostando na garganta. Resolveu ficar só na pontinha e não investir tanta saliva, por mais que o namorado forçasse a sua cabeça para ir mais fundo, usando uma técnica que Clarissa imaginou ser usada por torturadores, mas com uma tina de água gelada no lugar do pinto. Acabou que o pescoço dela estava mais duro que o pau dele. Quando se deu conta, o namorado estava tirando um corpo mole e murcho de dentro da sua boca. É, não ia funcionar. Suas lembranças não eram muito excitantes, mas ela podia inventar uma que fosse. Por que não?

Tentou imaginar como seria se tivesse deixado César ir adiante. Ele abaixou a calcinha dela e começou a fazer carinho no meio de suas pernas – carinho que ela simulava com seus próprios movimentos conduzindo o vibrador. Hm, tinha ficado gostoso de um jeito que fez Clarissa derreter e ficar um pouco molhada em baixo do cobertor. “Mas espera, nessa posição ele vai ver a minha barriga”, e ela sentiu que precisava ser convincente para continuar funcionando. Além do mais, aquele detalhe a incomodava profundamente, de forma que ela virou de ladinho para continuar. Foi quando olhou para seus seios, que volumosos, pulavam para fora da camisola, e também se incomodou como eles ficavam caídos e meio tortos naquela posição. Revirou na cama procurando o ângulo menos constrangedor e pensou que também teria sido uma tragédia se ela realmente tivesse deixado César fazer o que ele queria quando abaixou sua calcinha aquele dia. Arrancou o estimulador do dedo e jogou contra a parede. Perda de tempo.

Chegou na redação um pouco menos bem-humorada e um pouco mais descabelada do que o normal. Nessas horas agradecia por trabalhar para uma revista de adolescentes, em vez de uma daquelas para mulheres crescidinhas que trazem na capa “enlouqueça seu homem na cama”. Mas algo no olhar da sua chefe dizia que ela não ia conseguir se livrar do assunto tâo fácil.

- E aí, deu certo?

- Do que você tá falando, Lílian?

Sua supervisora sorriu e olhou para os lados. Levantou de sua mesa, levando sua caneca de café, e sentou-se na cadeira ao lado de Clarissa. Sussurrou e olhou por cima dos óculos de aros vermelhos:

- Tô falando do brinquedinho novo que você me falou.

- Ah, não funcionou muito bem.

- Como assim, menina? Tava até pensando em pedir um pra mim também.

- É, quem sabe pra você dê certo. Mas comigo não funcionou.

- Hm, tem certeza que foi o aparelhinho que não funcionou?

- Não senti nada.

- Clá, o vibrador só vibra. O que tem que funcionar pra você sentir prazer é a sua cabeça.

- O que você está querendo dizer?

- Só tô dizendo para você encanar menos. Sei lá, abrir a cabeça, curtir, relaxar. Esquecer que precisa de homem, ou até de vibrador pra ser feliz. Deixa você mesma se amar um pouco.

Deu uma piscadela e voltou para a sua mesa e seus montes de planilhas. Deixou Clarissa cheia de coisas para pensar durante o dia. E que dia. Estava tão cheia de trabalho que nem teve tempo de abrir o e-mail de sacanagem que a Regina mandou para as meninas. Mas também não estava interessada.

Queria mesmo um bom banho quando chegasse em casa. Feito. Demorou-se na água quente e saiu do banheiro nua, secando os cabelos com a toalha. Parou na frente do espelho, pegou a escova e começou a pentear os cabelos para a esquerda, depois para a direita. De repente trocou olhares consigo mesma e imaginou uma forma de parecer diferente. Com os dedos, jogou os cabelos para trás, deixando seu rosto completamente descoberto. Por nunca ter usado o cabelo assim, ficou surpresa com a diferença que fez para o seu rosto. Brincou com o espelho, fazendo caras e bocas que a faria se achar ridícula em qualquer outra situação. Sorriu com a brincadeira boba e pegou novamente a toalha.

Então olhou para o seu corpo no espelho e afastou a toalha da frente de seus seios. Também eram interessantes, afinal. E sensíveis. Sabia o quanto era prazeroso receber alguns carinhos ali, mas eles não estavam recebendo muita atenção. O que gostava de sentir ali? Passou seus dedos de leve e ficou arrepiada: seus mamilos se eriçaram na hora. Apertava, alisava, brincava e gostava. Molhou seus dedos com saliva e tocou na ponta dos seus seios. Chegava a um novo nível de prazer, sentia suas bochechas esquentando. Continuou a tocar seus seios e virou-se para ver sua bunda, que ficava tão maior empinada naquele ângulo. A visão era ótima. Como ela nunca tinha percebido isso antes?

Sentou-se na cama, sem tirar os olhos da Clarissa do espelho. Chupou seu dedo e desceu ele pelo corpo até chegar na vagina. Estremeceu. Começou com movimentos suaves, e seu dedo deslizava bem devagar na sua pele molhada. Com a outra mão, continuou a alisar seus seios e a se divertir sentindo-os durinhos e pontudos. Não queria perder nada. Abriu bem as pernas para ver todos os detalhes e sentia cada vez mais tesão com aquela imagem, com aquele toque.

Nem percebeu quando exatamente resolveu deitar na cama, mas já estava rebolando e se esfregando em seus lençóis, ao mesmo tempo em que dedilhava a xana em todas as direções. Respirava alto, seus peitos subiam e desciam no mesmo ritmo dos gemidos. Revirou na cama até ficar com a bunda virada para cima, e levou as duas mãos para baixo, onde começou a fazer um movimento coordenado fora das possibilidades anatômicas de qualquer pau ou língua masculina. Seus dedos não eram só rápidos: sabiam o que queriam. Então Clarissa sentiu algo lá dentro esquentar e, como se fosse um espirro, explodir em algo incontrolável. O que foi isso? Ela desacelerou os dedos, mas queria continuar sentindo. Gozou?

Suas pernas tremiam, mas Clarissa continuou firme. Não enfiou um, mas dois dedos na boceta. Doeu quando entrou, mas ela estava tão louca que foi fundo e meteu sem parar. Com o rosto afundado no travesseiro, ela abafava seus gemidos que ficavam cada vez mais altos, mais fora de controle. Nem suas aulas de natação na adolescência exigiram tanto fôlego; mas eram tão molhadas quanto. Ela encontrou a posição certa, o ritmo certo, o toque certo. Quem mais poderia fazer isso? Foi mais rápido só para saber até onde ela podia ir. Então ela foi. Sim, definitivamente, ela gozou de novo.

Clarissa desmontou na cama como se fosse líquida. Sorria descabelada ainda com a cara no travesseiro. Exausta demais para se vestir, apenas se encolheu na cama, como se abraçasse sua própria nudez e a sua nova descoberta: não só a do orgasmo, mas a de que, por baixo daquela Clarissa insatisfeita com suas medidas, estava uma mulher que era um puta tesão.

Fora isso, nada mudou. Clarissa continuou a ir para o trabalho sorridente, continuou a tomar seu capuccino descafeinado, e as meninas da redação continuaram a enviar e-mails com putaria. O que nem elas sabiam é que a menina do marketing que adorava imprimir imagens do happythings.tumblr.com agora enviava suas próprias fotos, nua, para o gostosas.tumblr.com.

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Mistura a três (pt I)

 

 

 

 

 

 

 

Mistura a três (pt II)

Estranhos Intímos

 

 

 

 

 

 

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Jul/11

3

Hipersonia Crônica

Clique para baixar

 

Acabo de tirar uma história da gaveta. Comecei a escrever Hipersonia Crônica já tem um tempo, mas continuar a guardá-la e reescrevê-la em um processo sem fim não ia acabar em lugar nenhum. Agora espero que acabe na mão de alguns leitores.

Hipersonia Crônica é a história de um gerente de projetos que começa a ter sérios distúrbios do sono que chegam a afetar a sua vida profissional. O problema é que o seu trabalho também começa a afetar seus sonhos, em uma aventura perigosa que revira sua cabeça.

O download é gratuito. Basta você clicar no botão ali de cima e postar um tweet com o link do livro. E pronto: boa leitura! :)

 

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May/11

4

O workaholic e o casco

Mais uma historinha que as próximas gerações podiam ouvir desde cedo.

O dia de Lourenço começava cedo. Quase sempre com uma torrada comida no meio do caminho. O café ele deixava para tomar quando chegava no escritório, enquanto lia os e-mails. Uma olhada rápida no portal de esportes. Leitura dinâmica no jornal do dia. Um cara sempre informado.

O telefone tocou, ele sabia que era pepino. Não deu outra. Era o cliente querendo marcar uma reunião no final do dia. Ele disse que sim, tudo certo, mas a apresentação não estava pronta ainda. Ligou na hora pro Pacheco e falou para dar um jeito de agilizar tudo. Urgente.

Ainda nem era hora do almoço e ele já tinha feito quase todo o texto para colocar na apresentação. Enviou os relatórios que o chefe pediu. Foi umas três vezes na mesa da Sílvia cobrar uns documentos pendentes. Pediu um sanduíche no delivery. Ia comer no escritório, adiantar umas coisas.

A tarde passou voando. Lourenço também. No táxi, respondeu pelo celular alguns e-mails que não teve tempo de ler no escritório. Deu uma boa alongada no pescoço. Sentiu uma tensão sobre os ombros. Devia ser por causa da apresentação de logo mais.

Tudo certo, tudo lindo, mas o cliente pediu alguns ajustes antes de aprovar o orçamento. Claro. E ele, que queria vender logo o projeto, trabalhou até às três da manhã. Só se rendeu à cama quando não aguentou mais de dor nas costas.

O dia seguinte continuou estressante. Ligações. E-mails. Gente incompetente. Cobranças. Contrato fechado. Relatórios. Café. A assistente de Lourenço chegou por trás e colocou as mãos em suas costas. “Nossa! Quanta tensão, Lourenço!” Ficou impressionada com a dureza dos nós em seus ombros. Fez uma massagem gentil no chefe estressado. Mas as costas estavam tão duras, que começou a dar soquinhos. É, ela não ia dar conta. Mas indicou um spa com um ótimo massagista.

Depois do expediente, Lourenço passou lá. Tirou a camisa e deitou na cama. Suas costas deram uma baita canseira no massagista. “Vamos precisar de mais uma sessão. A coisa está feia.” Chegou no escritório reclamando com a secretária. Parecia que a dor tinha piorado. Agora mal conseguia mover os ombros.

De qualquer forma, voltou ao tal spa. Quando tirou a camisa, o massagista fez uma cara feia de espanto. Mostrou o espelho a Lourenço. Ele levou um susto. O músculo sobre os ombros estava bastante inchado. Duro como pão de antes de ontem. “É melhor procurar um ortopedista!”

Com o terno, não dava para notar o inchaço nos ombros. Mas passou o expediente todo duro, sentindo-se um cabide. Chegou no consultório e o doutor fez a mesma cara feia de espanto. Apalpou os ombros, examinou as costas, deitou ele de lado na maca, até deu umas batidinhas com um martelinho. Pediu uns exames só para ter certeza, mas a verdade é que não tinha ideia do que podia ser aquilo. Mas adiantou: “Pode ser stress.” Receitou uns analgésicos. Pediu para Lourenço tirar pelo menos três dias de repouso.

No segundo dia, voltou ao escritório. Cheio de coisas para fazer. Tomou tanto remédio que tinha analgésico saindo pelos ouvidos. Aos colegas, dizia que estava melhorando. Claro, não tinha tempo para ficar sentindo dor.

E o inchaço não dava sinais de melhorar. Ou amaciar. O pior é que a dor estava se espalhando pelas costas inteiras. Tinha vontade de pedir o seu salário todo em massagens.

Ficar sentado doía. Ficar deitado doía. Fazer alongamento doía. Passar a mão doía. Doía tanto, que se levasse um murro na cara nem ia sentir. Começou a levar uma almofada para o trabalho. Suas costas estavam duras feito parede de concreto. E a lombar começava a ficar tão bizarramente inchada quanto seus ombros.

O doutor entregou as radiografias. Não dava para saber o que era aquele inchaço. Parecia uma formação óssea. Era melhor recolher uma amostra de sangue. Achou preocupante os remédios não fazerem efeito e disse que era um inchaço bem anormal.

Em casa, Lourenço não conseguia parar de pensar. “Ai, meu Deus, será um tumor? Vou morrer?” E aí lembrou do dead line do projeto que renderia um contrato milionário. Aproveitou e enviou um e-mail pelo celular antes de deitar. Dormiu de bruços.

Foi difícil acordar. Sentia-se esmagado. Tentou levantar, mas suas costas ainda doíam. Não conseguia se virar na cama. Escorregou para o lado, tirou o pijama e pegou a toalha. Ao passar pelo espelho, quase caiu para trás. “Que porra é essa?” Olhou para as suas costas, onde agora via um bizarro casco de tartaruga. Esverdeado. Duro. Lisinho. Pesado. Não podia ser outra coisa. Era mesmo uma carapaça, uma carapaça de tartaruga!

Céus, tantos dias para nascer um casco de tartaruga, tinha que ser logo no dia em que tinha uma reunião pela manhã? Estava atrasado. Faltava terminar um relatório. Agora tinha um casco de tartaruga que precisava esconder. Ligou o chuveiro e esfregou bem o rosto. Vai que ele descobria que estava sonhando. Sofrendo alucinações por causa da dor.

Saiu do banho se sentindo bem melhor. Mas o casco continuava ali. Como uma mochila carregada de pedregulhos. Só que Lourenço não ligava mais. Agora ele tinha duas longas nadadeiras e olhos brilhantes em um rosto bem enrugadinho. Foi andando pela casa devagar e feliz. Finalmente ia conseguir tirar as tão sonhadas férias na praia.

 

Moral da história: Quem nunca para ainda vai ser esmagado pelo peso que carrega.

 


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Mar/11

11

Vadio, mas ela gosta

A gente mora junto há pouco tempo, mas já deu para me acostumar às manias dela. E ela se irritar com as minhas. Por exemplo, quando ela chega do trabalho sempre tem uma bronca. Ou é a minha bebida que ela encontra derramada, ou o cobertor jogado no chão, ou ainda uma mijadinha fora, mas de leve. “Você dormiu o dia inteiro, né, safado?” Eu até tento disfarçar, mas a cara amassada e os olhos inchados não me deixam mentir.

Passo as tardes esparramado no sofá. E para ninguém dizer que a minha vida é só isso, às vezes tiro um ronco na cama também. Meu negócio é dormir, comer, beber. E eventualmente, cagar. No meio tempo, fico na janela olhando o que o povo lá de fora tá fazendo.

Ela só chega à noite, às vezes brava, às vezes morrendo de saudade. Sempre cansada. Quando não está muito tarde, ela vai para a cozinha e prepara a janta. Eu fico na sala, sentindo aquele cheirinho bom. Apareço só quando está pronto e vou até a mesa espiar, para ver se está com uma cara boa.

Ela serve o prato dela, e depois serve o meu. Enche de comida e depois vem reclamar que estou barrigudo. É foda.

Depois ela vai tomar banho. Quando deixa a porta aberta, é um sinal. Fico parado na porta, só olhando. E ouvindo a água bater no corpo dela e depois no chão. Fico ali a noite inteira, se ela quiser. Nem reclamo quando ela demora muito. Ela que tá pagando a conta de luz mesmo.

Eu prefiro banhos rápidos. Não gosto é de cortar as unhas, mas ela reclama quando vê que começam a crescer. Eu não tô nem aí. Faz uns meses que ela comprou um perfume, desses caros. Uso uma vez por mês e olhe lá. Bom mesmo é o meu cheiro natural de macho.

Quando ela começa a apagar as luzes, eu já sei que é a hora de dormir. Chego de mansinho na cama. Faço massagem no pescoço e peço para entrar dentro do cobertor. Gosto de dormir de conchinha, bem abraçado. Quer dizer, até ela se mexer no meio da noite e me empurrar para o lado. Volto, faço carinho nos cabelos, roço o bigode no narizinho dela. Mas ela não acorda por nada. Justo na hora em que eu estou mais aceso. Aí não tenho o que fazer, amigo. O jeito é levantar e ir beber uma água. Ou vou para a sala e brinco sozinho mesmo.

Ela sempre acorda atrasada. E de mau humor. “Sai daqui! Não me enche o saco, tô atrasada!” Fico puxando o fio da chapinha enquanto ela arruma o cabelo, só porque me divirto com ela irritada.

Já na hora de sair, saio correndo antes que ela abra a porta. Então eu mio alto. Ela não pode ir embora sem antes colocar no pires o meu Whiskas sachê.

 

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Baseado em fatos reais

Algumas coleções começam assim: deliberadamente, antes mesmo de conseguir o primeiro item. Quero colecionar selos. Moedas antigas. Anões de jardim. Mangá tal vai ser publicado, vou colecionar. Outras começam depois que o cara já tem um item e, hm, isso é legal, vou conseguir outros e colocar todos juntos na prateleira. Mas a coleção dela não. Ela só começou com isso depois que percebeu que já tinha muitos.

Ela colecionava recifenses. E não era como colecionar objetos, em que dava para colocar tudo em potinhos e exibir na prateleira. Eles faziam coisas, se moviam muito, interagiam entre si e com pessoas diversas, e na maioria das vezes, nem sabiam que estavam sendo colecionados. Então imagina que trabalhão seria para Lia colocar todos eles na sua estante.

Quando ela se deu conta que tinha muitos deles, e que aquelas pessoas amontoadas na listinha do twitter tinham algo em comum, percebeu que eram recifenses colecionáveis. A partir de então, o que Lia fazia era descobrir e observar.

Ela usava um caderninho preto, daqueles moleskines que nem pauta tinha, e escrevia com uma letra meio torta o nome deles, com arrobinha e tudo. Ao lado, colava uma etiquetinha com a foto ou com a imagem que melhor representava cada um. Fazia anotações que ninguém ia entender, mas não ligava: não colecionava isso para os outros mesmo.

Algumas anotações eram cheias de detalhes, outras bem vagas. “Cara de boina, fala pouco” ou “compõe tão bem quanto Chico Buarque” ou “saia rodada, coisas floridas, tons terrosos, igual ao cabelo. Gosta de dar ideias de fim de semana, redatora, mas tem bom gosto para fotografias como ninguém” ou “blogs com os melhores nomes ou qualquer coisa do tipo, apelido curioso, cabelo bem encaracolado (será que ainda usa assim?), escreve escreve escreve, confuso fuso horário, não tá em Recife, mas esse não me engana” ou “gosta de achar vídeos bizarros, e se satisfaz quando passa para os outros mas ninguém tem coragem de ver” e assim por diante, por muitas e muitas páginas.

Esses pequenos detalhes é que davam a Lia prazer de colecionar. Porque o melhor de sua coleção era que crescia em quantidade e em profundidade: ela podia descobrir novos recifenses, ou descobrir coisas novas nos recifenses que já tinha. Isso porque ela conseguia interagir com eles, e a cada conversa tinha algo novo para catalogar (o que não seria possível se ela colecionasse figurinhas de jogadores de futebol ou objetos da Hello Kitty).

Muita gente dizia que nordestino era tudo igual. Alguns até achavam que do sudeste pra cima, era tudo baiano. Mas Lia via o quanto eram diferentes as pessoas do nordeste, com características tão peculiares, tão próprias e notáveis; mas os recifenses, uau. Não era nenhuma tara, mas Lia os achava interessantíssimos. Não tinha um recifense igual ao outro, então ela não corria risco de ter nada repetido em sua coleção.

E Lia já tinha tantos, que chegou a um ponto em que ela não precisava procurar. Os recifenses é que iam até ela, achando que ela também era de lá. Isso facilitou as coisas, e Lia até gostou da ideia de parecer de Recife. Pesquisou blogs, abriu google maps, descobriu bandas, e selecionou alguns vídeos para ver se conseguia ensaiar aquele sotaque inconfundível. Não chegou nem perto de conseguir. Logo ela, brasiliense naturalizada, que mal conseguia balbuciar seu mineirês de origem, tentando arriscar o recifês avançado.

Um dia, Lia esbarrou com um recifense em carne e osso. Foi em um almoço com amigos; ela já tinha ouvido falar dele, mas não imaginava que ele se parecia tanto com o Otto. Ficou emocionada. Tirou sua caderneta da bolsa sob a mesa, e disfarçadamente anotou “redator, veio da Espanha, coca-cola com gelo e sem limão, salada na mesma proporção que o filé”. Com um sorrisinho satisfeito e os olhos brilhando, fechou o moleskine e colocou de volta na bolsa.

***

Depois de um tempo, Lia finalmente foi ao Recife. E seu interesse em conhecer a cidade não era exatamente pelas praias. Ela só teve um pequeno probleminha no aeroporto: desconfiaram da bagagem dela depois de descobrir uma mala cheia de caderninhos pretos.

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Oct/10

19

Estranhos íntimos

Atenção: 18+ NSFW

Todo mundo vive alguma sacanagem que não conta para ninguém. Pelo menos uma. Aquilo que aconteceu e você só revela pra você mesmo, quando vai se masturbar. Se você é um adulto minimamente normal, você pode até não sair por aí contando sua vida sexual, mas todos esperam que você faça sexo; e sim, posições exóticas estão dentro do pacote. Mas tem pelo menos uma safadeza sua que ninguém imagina que você tenha feito. E se soubessem, você certamente seria olhado torto.

Por isso, Mari mantinha seu segredinho bem guardado. Em primeiro lugar, porque era casada. Em segundo, porque morria de tesão quando se lembrava, e sabia que, dentre todas as coisas da sua vida que compartilhava com o marido, pelo menos uma era só dela. Era o que dava a ela a sensação de ser um indivíduo, não apenas metade de um casal.

E olha que o casamento de Marilúcia não era nenhuma ditadura, e estava bem longe de ser um relacionamento fracassado. Era um casal jovem, juntos há apenas sete anos. Mari se casou na igreja, como reza a cartilha da boa esposa. Depois de algum tempo, mesmo amando seu casamento, passou a achar que a palavra esposa era sinônima de “mulher traída que faz um sexo muito mais ou menos”.

Mari tinha uma carreira estável e feliz como servidora pública. Não porque achava a coroação de uma existência trabalhar no administrativo, mas era um trabalho mais tranquilo, que não consumia muito de sua vida. Saía do escritório às seis e pronto: podia viver. Já o marido era jornalista. Frequentemente ficava até tarde na redação, e mesmo sem querer, Paulo estava trabalhando até nas horas de folga. Sempre lendo jornais, assistindo TV, navegando em blogs e portais de notícia. Afinal, a vida de um jornalista é estar bem informado.

Paulo não deixava de comparecer com a esposa, claro. Mari não tinha do que reclamar. Ela ficava impressionada daquele homem dar conta de tanta coisa ao mesmo tempo. Trabalhar o dia inteiro não tirava a disposição de Paulo na cama. Nem no sofá, ou na cozinha, ou no chuveiro. Ok, ele não era nenhuma máquina insaciável, tinha seus limites. Mas o importante é que quando fazia, deixava Mari satisfeita.

Só que ultimamente Paulo estava mais aceso. Era época de eleições e ele estava trabalhando igual a um condenado. Voltava exaurido, muitas vezes puto e querendo mandar o jornal à merda. Como as pessoas têm formas diferentes de reagir a situações extremas de stress, ao invés de chegar em casa deprê e dormir igual a uma pedra, Paulo passou a dormir menos. Bem menos.

Uma noite dessas, depois de ser bem comida e bem chupada, Mari acordou e viu o marido no computador. Meio sonolenta, virou-se para o relógio de cabeceira e viu que já eram três e meia da manhã.

“Amor, está tarde. Vem pra cama, vem.” Ele foi até a cama e deu um beijo carinhoso na testa da mulher. “Já vou, amor. Estou só terminando uma coisinha”. Ele foi até a cozinha, buscar água. Mari ficou preocupada, mas voltou a dormir. “Esse homem agora só quer saber de trabalhar”.

A cena se repetiu durante algumas noites. Paulo já apresentava grandes olheiras no rosto. Mas por outro lado, parecia mais empolgado.

Até que um dia, ele chegou com alguns papeis e mostrou para Mari. Ela não entendeu o sorriso do marido. “Anda, leia leia! Ainda não tá revisado, mas queria sua opinião.”

Ela começou a leitura e logo percebeu que não era mais um de seus textos jornalísticos. Era um conto, muito bem contado por sinal. Mas Mari arregalou os olhos quando percebeu que era um conto erótico. Bem safado, apesar de um pouco cômico. Era a história de um professor que tinha uma estranha tara: só conseguia transar com desconhecidas. Se ele conhecia a mulher, sabia onde morava, o que fazia, ou convivia com ela no trabalho, seja uma aluna ou uma colega, ele simplesmente brochava.

“Uma editora que faz parte do mesmo grupo do jornal está lançando uma revista masculina. E eles estão procurando um colunista para escrever contos eróticos. Acho que vou enviar essa história e ver se eles topam.” Paulo estava passando por um período desgastante no trabalho e tinha escrito esse conto como válvula de escape. Estava funcionando. Afinal, Paulo chegava em casa e conseguia esquecer dos pepinos do jornal.

Mari ficou feliz por ele e deu a maior força. A trepada daquela noite foi inspirada. E foi aí que o talento literário de Paulo mostrou-se forte: o conto erótico veio à cabeça de Mari enquanto ela chupava o marido, e devagarinho ela deixou aquele pensamento tomar conta dela. Começou a imaginar que aquele pau na sua boca era de um estranho. De um cara qualquer que ela nunca tinha visto antes. Então chupou com gosto, mexendo a língua de um jeito diferente. O tesão só aumentava quando percebia que ele estava indo à loucura. Esqueceu do tempo e ficou ali, dedicada. E foi tanta sua dedicação, que Paulo gozou ali mesmo, na sua boca.

Como toda boa fantasia, essa não foi esquecida tão facilmente. Ainda mais um mês depois, quando Mari viu, orgulhosa, o conto do jornalista Paulo Cavalcanti publicado na revista masculina Pecado. Guardou um exemplar em sua gaveta no escritório, e ficava excitada toda vez que pensava em transar com um completo desconhecido, como fazia o personagem da história.

Não demorou muito até Marilúcia encontrar a oportunidade perfeita para uma trepada casual. Foi almoçar em um restaurante que frequentava sempre, e naquele dia o lugar estava bem cheio. Estava sozinha quando um homem que, não tendo encontrado uma mesa vaga, aproximou-se e perguntou se podia se sentar ali. Mari assentiu que sim com a cabeça e voltou a comer. Ela achava a situação particularmente desconfortável; por isso, evitava almoçar na praça de alimentação do shopping ao lado.

Olhou para seu parceiro de mesa e começou a pensar diferente. Era um cara bem ajeitado e aparentava ser mais velho que ela. O cabelo jogado para trás já mostrava alguns fios brancos, e Mari avaliou que ele tivesse por volta dos trinta e seis, trinta e sete anos. Não mais que quarenta. Em seu crachá, ela descobriu o nome do cara: Eduardo. Nenhuma aliança nos dedos.

Mari então pegou sua bolsa, tirou sua aliança disfarçadamente e jogou lá dentro. Deu um gole no suco e tomou coragem para puxar assunto. Algo bem idiota. Teve sorte, o cara era muito simpático. Conversaram sobre o trabalho de cada um, o trânsito, o stress. Eduardo falou que nas horas vagas pedalava. “Você devia experimentar. Também ia te fazer bem!” E Mari só conseguia pensar: “hm, o que quero experimentar é outra coisa.”

Roçou seu pé na perna dele, bem de leve, por debaixo da mesa. Fez como quem não tinha a intenção, e depois jogou um charme levando as mãos ao cabelo. A conversa seguiu descontraída. Os dois foram juntos pagar a conta, e no final ela pegou o comprovante e anotou seu número no verso. “Aqui, Eduardo. Caso você queira dividir uma mesa comigo depois do expediente.”

Ela voltou ao escritório se sentindo uma piranha. “Ai meu Deus, o Paulo não pode nem imaginar uma coisa dessas!” Na hora, ligou para o marido só para saber como ele estava. Conversaram rapidamente e com carinho. Desligou e jurou a si mesma que não iria mais longe do que isso. Então deu cinco e meia. Eduardo ligou e ela mudou de ideia.

Não a leve a mal. Afinal, você também já fez alguma sacanagem que ninguém pode saber. Os dois foram para um barzinho, tomaram um chope, conversaram, mas ficaram pouco tempo. Mari deu sinais de que estava afim e Eduardo gostava da ideia de sair com uma mulher tão liberal.

Foram para o apartamento dele, mas já começaram a se agarrar no elevador. Assim que entrou, Mari levantou a blusa e fez Eduardo sentar no sofá. Ela veio por cima e colocou os seios na cara dele, para que ele beijasse, chupasse, lambesse. Mari virou-se, tirou a calça e abaixou a calcinha. Arrebitou a bunda e começou a rebolar, deixando a calça de Eduardo molhada.

Ela deslizou por entre as pernas dele e abriu o zíper como quem desembrulha um presente. Não deixava de ser uma surpresa: era o pau de um cara desconhecido, tinha a cor, textura, tamanho, tudo diferente. Inclusive o gosto. Ela começou provocando com a língua na pontinha. Depois lambeu tudo, até ficar todo molhado e deixar Eduardo louco de tesão. Chupou com vigor, como se nunca fosse ficar satisfeita.

Mari parou de repente e subiu no sofá. Ficou em pé, de pernas abertas e deu a buceta para Eduardo chupar. Ele usou a língua enquanto enfiava o dedo. Ela ainda estava curtindo quando ele resolveu colocá-la de quatro. Mari exibia sua bunda enquanto ele colocava a camisinha. Então ele meteu sem cerimônias.

Ele ainda estava de calça, e a fivela do seu cinto aberto batia de leve na bunda de Mari, acompanhando o ritmo nervoso de seu vai-e-vem. Ela aproveitou a posição para alcançar seu clitóris e se masturbar enquanto Eduardo se divertia. Logo ela gozou. Mari sentiu seu corpo inteiro esquentar.

Ao vê-la gemer como uma louca, Eduardo acelerou. Agarrava as nádegas dela com a força das unhas. Então urrou e diminuiu o ritmo de uma vez. Ele tinha gozado. Saiu de dentro da vagina e sentou no sofá, desabando. Mari gostava mesmo era de ver o sêmen. Gostava quando Paulo ejaculava em cima dela e via o gozo todo escorrendo. Mas como Eduardo ia saber disso, não é mesmo? Além do mais, Mari pensou, seria constrangedor para dois estranhos que ela fosse assim tão íntima da porra dele na primeira vez.

Foi rápido, mas Mari preferiu assim. Deu tempo de chegar em casa, tomar banho e ainda começar a preparar a janta antes do marido chegar. Acima de qualquer suspeita, como reza a cartilha da boa esposa.
Ela não sofreu com o drama da ligação no dia seguinte. Pior seria se Eduardo tivesse ligado, mas ela cuidou disso. Antes de sair do apartamento, disse ter adorado e tal, mas que não podia fazer isso de novo porque era casada. E assunto encerrado.

Bem, pelo menos até Paulo chegar, duas semanas depois, falando sobre sexo com estranhos. O do seu conto, claro. Ele mostrou à mulher vários e-mails de leitores que a redação da revista recebeu. Enquanto ele lia cada comentário, a mulher ia se contagiando com sua empolgação.

“É incrível como a gente consegue entrar no personagem, parece que estamos vivendo a história. Paulo Cavalcanti sabe como provocar as mais diversas sensações, do tesão ao riso. O cara é foda, com o perdão do trocadilho”, lia Paulo. “Ah, tem também o e-mail dessa leitora que ficou sem graça de tão excitada. E eu ri demais com esse, olha aqui!”

“Ah, amor. Eu concordo com tudo. Você escreve muito bem, merece todo esse sucesso”, respondeu Marilúcia, cheia de orgulho, beijando o marido.

“O editor da revista me quer como colunista fixo. Vou escrever putaria todo mês… e não vai ser sobre eleições! Já comecei a escrever a continuação da história, mas agora… preciso responder alguns e-mails”, disse Paulo eufórico.
Mari sorriu e foi para a cozinha. Apesar da repercussão do conto inspirador do marido, ela não voltou a fazer sexo com estranhos. Mas sempre se masturbava pensando no cinto de Eduardo batendo de leve em sua bunda, enquanto era comida de quatro. Essa era a sacanagem só dela.

E Paulo continuou com a sacanagem só dele: ser escritor de contos eróticos. Porque escrever era solitário como uma punheta; até que alguém, sabe-se lá quem, lesse suas histórias. Aí seria quase como fazer sexo com estranhos. Afinal, nessa coisa toda, o escritor acaba tendo uma relação íntima com alguém completamente desconhecido: o leitor. A diferença é que rola muito mais intimidade do que uma simples gozada na cara.

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Aug/10

5

Inquilino

Conto originalmente publicado no site PSV Crônicas, onde participei do Desafio 3: Vazio, ficando com o segundo lugar! :) Foi uma experiência muito bacana participar desse desafio, e nem digo pelo prêmio, que não foi meu objetivo quando resolvi escrever; minha satisfação foi, de fato, escrever este conto, e depois, ver a reação super positiva dos leitores. Tenham certeza de que apenas isso já valeu o desafio pra mim. Deixo vocês com o conto, e não deixem de conferir os outros textos que participaram do desafio aqui.

Agosto é quando se consegue os melhores apartamentos nessa cidade. Quer dizer, se o que você está procurando é aluguel. Eu tenho certa experiência nisso, porque sempre morei de aluguel (minto: uma vez fui dono de um terreno durante um bom tempo, mas depois construíram um shopping lá). E é mais ou menos nessa época que a maioria dos contratos acaba, ou que os inquilinos resolvem ir atrás de um lugar melhor. Deve ser porque é inverno, e aí eles percebem que o lugar é uma merda quando faz frio (engraçado como as pessoas, mesmo em cidades grandes, se parecem com aqueles animais que migram no inverno).

Eu tenho meus contatos, acabo descobrindo onde vai abrir alguma vaga. Chego no apê (os antigos moradores ainda estão empacotando as coisas), avalio o espaço, vou direto na janela ver se tem uma boa vista – e uma boa tranca. Sempre vejo as trancas. Se estão funcionando direito, se são seguras. Não é nenhum transtorno obsessivo compulsivo, é precaução. Uma vez fui morar em uma casa no subúrbio. Era um muquifo, mas muito espaçosa. Daquelas que até sua respiração faz um eco enorme. Mas o portão não era muito seguro e as trancas das janelas muito fáceis de arrombar. Um bando de viciados achou que era um ótimo lugar para se esconder durante a noite, sem se intimidar com o fato que eu estava morando ali. Lógico, saí de lá no dia seguinte.

Ok, deu para entender que eu só me mudo se o lugar tem uma tranca que se garante, certo? Quando escolho o apartamento, já estou morando lá no dia seguinte que o pessoal antigo desocupa o espaço. Sempre carrego pouca coisa. Com essa minha vida errante, vi que era um desperdício ter muitos móveis, muitas roupas, muitos livros. Afinal, nunca sei se no próximo lugar que vou morar vai ter espaço para tanta coisa. E espaço pra mim é importante. Por isso, quanto menos coisa tiver, melhor. Aumenta a sensação de espaço.

Eu gosto de sossego. Não sou aquele vizinho problemático, que faz barulho, faz fofoca, faz sujeira. Eu fico quieto no meu canto, mas não vem bater na minha porta não. Eu finjo que nem estou. É assim que construo a minha política da boa vizinhança: cada um no seu quadrado.

Eu só tenho um pequeno probleminha, que são as contas. Chega uma hora que eu não consigo deixar em dia, e elas começam a acumular na caixa de correio. Claro que o pessoal da imobiliária fica puto, mas sempre arrumo um jeito de ficar mais um pouquinho. Quando não dá mais, eles arrumam outro inquilino e eu me mando para outro canto. Não dá pra ter muito apego, sabe?

Mas com o apartamento da 112 a história foi diferente. Eu realmente gostava daquele lugar. E eu já estava morando lá há quase um ano. Vizinhança tranquila, bairro mais afastado do centro, trancas seguras, sala bem espaçosa, uma boa acústica – daquelas que deixam o eco bem bonito. Quando eu me mudei para lá, era até semi-mobiliada. Perfeito, né não? Só que meu contrato estava chegando ao fim e parecia que já tinha gente interessada no lugar. Mas bati o pé: não ia sair de lá nem fudendo. Passou um mês nisso e aí a imobiliária resolveu me fazer uma visitinha.

Quando olhei pelo olho mágico reconheci na hora aquele engomadinho do outro lado. Silvino era o corretor encarregado de alguns apartamentos naquela área. Pobre coitado, porque era difícil pra burro conseguir inquilino para qualquer apartamento naquela área.

Convidei ele para entrar, pedi para não reparar na bagunça. Ele fez uma cara meio incomodada, porque eu não estava usando nada. Mesmo assim me encarou e foi direto ao ponto: “senhor, você já deve saber que vim falar sobre sua permanência no imóvel. Ainda essa semana ele terá que ser desocupad- Quer dizer, terá que ser ocupado.”

Eu até que ia oferecer algo para ele beber, mas a geladeira estava vazia. “Seguinte. O lance é que eu não vou sair daqui, a não ser que você me dê um bom motivo para ser despejado.”

“Um bom motivo é que enquanto o senhor ocupa o lugar, a gente não ganha nada. Precisamos receber aluguel.”

“Ah, mas isso de pagar aluguel não estava no meu contrato.”

“Contrato? Olha, o problema é que as coisas ficaram meio informais. Você não tem um contrato assinado” (acho que ele sempre quis ser advogado, pelo jeito que riu e ajeitou a gravata)

“Como não? Pode olhar aí nos seus papéis. Vê o que diz na ficha sobre o imóvel. Olha direitinho.”

Ele abriu a pastinha velha e puxou alguns papéis. Encontrou a ficha, leu com cuidado (mexendo os olhos pra lá e pra cá) e sua boca repuxou quando respondeu, meio desgostoso: “vazio.”

“Viu só. Eu assinei.”

“Mas… Ora, veja bem. Você sabe o que significa isso. As coisas funcionam assim: alguém vem morar aqui e você desaparece. Já tenho pessoas interessadas, então o imóvel não vai mais poder ficar vazio.”

“Deixa eu te dizer como as coisas funcionam. Eu sou um inquilino como qualquer outro, e não simplesmente a ausência de alguma coisa. Eu tô aqui, não tô? Não dá pra se desfazer do vazio. Você enche algo e o vazio vai para outro lugar. É assim que as coisas funcionam, cara. E no momento não tô afim de ir pra lugar nenhum.”

“Hm, ir para outro lugar…”

Silvino teve uma ideia aquela hora, pensou bastante e me fez uma proposta indecente. Um apartamento com o dobro do tamanho, a duas quadras dali, trancas seguras, sossego total. Ele ia arrumar um jeito de eu poder ficar lá por quanto tempo eu quisesse, sem problemas quanto ao aluguel. Eu só ia precisar dividir o apartamento por alguns meses com a atual moradora.

Eu nunca tinha morado com ninguém antes, então fiquei curioso para ver como isso poderia acontecer. Ok, fechei o negócio e me mudei no dia seguinte. Realmente, o apartamento era uma belezura. Mobília retrô, do jeito que eu gosto. Além do mais, vi que ia me dar bem com a moradora. D. Mitres era uma senhora, já surda, que morava no apê às custas dos netos ricaços (que aliás, nunca iam visitá-la). Uma ótima companhia.

Morreu pouco tempo depois e fiquei com o lugar só pra mim. O único problema foi ter que morar com o cadáver da velha por quase um mês. Eu podia ter esperado agosto para encontrar um lugar melhor, mas preferi me garantir e ficar por ali mesmo. O apartamento compensava. Além do mais, sabe como é: hoje em dia especulação imobiliária não está para brincadeira. Nem para um vazio como eu.

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Você pode até estranhar, mas tem uma teoria que diz que os relacionamentos, monogâmicos do jeito que a gente conhece hoje, só duram tanto tempo por causa da infidelidade. Pensa bem: em uma cidade grande como a nossa, nos tempos atuais em que é tão fácil conhecer pessoas novas, e em um relacionamento com duas pessoas minimamente normais, a chance de pelo menos um ter traído ou vir a trair o outro deve ser algo em torno de 80%. Ou seja, um relacionamento 100% fechado funciona muito bem, obrigada, mas vai ter alguém levando um chifre.

Quem me convenceu disso foi o Carlos. Acho que já te falei dele. Uma delícia de moreno. Na hora em que ele me contou a tal teoria, eu estava só de calcinha deitada do lado dele, enquanto nem passava pela cabeça do meu namorado que eu tinha acabado de transar com outro cara. Bem, aí eu tive que concordar que aquilo fazia todo sentido.

E continuou fazendo, mesmo depois de alguns meses sem namorado. Eu passei um bom tempo querendo experimentar a vida de solteira de novo, e quando finalmente pude, lembrei que nem era tão empolgante. Fora alguns encontros com o Carlos, fiquei meses sem homem. E quer saber, nem dei importância. Tinha começado como monitora do departamento de audiovisual e estava trabalhando insanamente no meu projeto final. Meu relacionamento era com a orientadora, e olhe lá.

(Ah, o Carlos? Não é nada sério. Seguinte: nós somos amigos, temos intimidade, quando eu tô afim eu ligo, ele também me procura quando bate a vontade, a gente transa, passa a noite juntos, mas às vezes saímos só para ter uma boa conversa mesmo. Além do mais, sempre compensa ter por perto um cara que sabe fazer uma boa massagem. Fica a dica.)

O lance de ter uma rotina assim tão corrida é que você acaba se apegando com mais força no que está por perto. Por exemplo, os almoços com o pessoal do estúdio nunca foram tão importantes, agora que eu ficava por lá só meio período. Na outra metade do tempo, o meu apego foi com os colegas de monitoria. Alguns eu já conhecia, tipo o Gustavo, que estudou comigo no início do curso, mas que só agora a gente tinha a oportunidade de conviver de verdade.

A gente estava morando na mesma quadra há poucos meses, e eu lembro que ele e a Ana foram os primeiros a me visitar no apartamento novo. Desde que eu os conheci eles namoram, mas já fazia um ano que eles moravam juntos. É um casal que gosta sempre de ter os amigos por perto. Vez ou outra chamam o pessoal para jantar lá, e às vezes fazem até umas festinhas com muita comida, bebida e karaokê.

(Mas onde eu quero mesmo chegar é na teoria da infidelidade. Antes era importante você saber desses dois para entender o resto da história. Você também precisa saber que apesar de ser um casal muito caloroso e atencioso com todo mundo, é um casal como qualquer outro, em um relacionamento monogâmico, 100% fechado, e tal. Quanto mais eu convivia com os dois, mais eu queria que o Carlos os conhecesse, para ele ver que a teoria tinha lá seus furos. Mas não foi bem isso que aconteceu.)

Então, o Gustavo. Não sei exatamente como foi que começou a existir entre a gente aquele campo invisível de tensão sexual. Vamos combinar que a gente não estava no ambiente mais propício para surgir aquele tipo de atração; afinal, tínhamos que ficar de um lado para o outro dos laboratórios para dar suporte às atividades. Mas quando a gente se cruzava, vinham aqueles olhares. No começo, não entendia muito bem. E aí comecei a perceber outros sinais de interesse mais incisivos, como alguns elogios, insinuações, o toque dele buscando minha mão, meu braço, ou meu rosto.

Acredite, nada mais excitante que ter um amigo gostoso, inteligente, e que te dá mole. Fiquei na minha, mas queria saber até onde ia esse chove não molha. O problema é que ficou um tempão nessa indefinição.

A gente era praticamente vizinho e com frequência ele me deixava na porta do meu prédio. Mas aquele dia ele parecia determinado a alguma coisa, ou vai ver era impressão minha. A gente estava no carro, batendo papo sobre o trabalho, como sempre. Ele começou com uma conversinha que, para quem está de fora não tem nada de mais, mas eu sabia que ali tinha coisa. Vez ou outra me tocava, fazendo parecer que não havia nenhuma intenção nisso. Ai que saco, já estava vendo que isso não ia levar a lugar nenhum.

Aproveitei quando ele tocou meu rosto, e toquei na mão dele de volta. Ele se surpreendeu, achou que eu o segurei porque não queria que me tocasse. Mas se surpreendeu ainda mais quando levei a mão dele para perto da minha boca, e com a língua bem macia, e bem lentamente, lambi seu dedo indicador. Ele esperou passar a onda de arrepio que faria sua voz tremer, e então disse firmemente: “Vem cá. Coloca essa língua dentro da minha boca.” Ele queria lamber arsênico. Ele sabia que era veneno, mas sabe como é: precisava dar uma provadinha.

E então, quando eu fui com tudo e o beijei, a teoria da infidelidade se comprovou mais uma vez. O tesão dele parecia buscar mais do que só a minha língua e o meu corpo junto do dele. Então eu disse para irmos para outro lugar. Pedi para ele subir. Ele parou e disse que até queria, mas não devia. Dei uma risadinha, mas era porque eu estava aborrecida mesmo. Crise de consciência numa hora dessas?

“Eu até queria, Elisa. Mas porra. Você é mulher da hora errada.” Tive quase certeza que ele tirou isso de uma música do Aerosmith. Nem lembro o nome, mas é aquela que fala “love is the right dress on the wrong girl”, coisa assim.

Sabendo que ele estava pensando na Ana, fui bem franca e disse: “Desculpa aí, mas não acho que tem isso de mulher da hora errada. Cara, um relacionamento não precisa ser estritamente contratual. Onde tá escrito que só vale com uma pessoa? Tô te dizendo isso porque sei como funciona. Aliás, sei que fidelidade NÃO funciona. Você é um tesão, mas é uma pena que não possa. Quando se resolver com isso, me procura.” Dei um beijo rápido e subi.

Eu não achei que isso ia mexer tanto com a cabeça dele. Umas duas semanas depois, eu estava em casa quando ele me ligou me chamando pra dar um pulo lá. Eu estranhei, porque depois que a gente ficou, ele esfriou comigo, ficou distante. E agora me chamando pra ir na casa dele? Vai entender.

Ele deu voltas até chegar onde queria. Então me perguntou: “Olha, eu ainda não tirei aquele dia da cabeça. No carro. Eu precisava mesmo saber… Saber se você ainda está afim.” Olha gato, é só dizer “pega eu”. Claro que eu não respondi assim, mas ele entendeu o recado. Aí ele vem e me diz que a Ana ia estar lá. Pronto, joguei a toalha, porque não estava entendendo mais nada.

Foi então que ele veio com a bomba: “Tem um tempo que a gente anda conversando, querendo experimentar coisas novas. Convenci ela de um ménage com outra mulher, e aí pensei em você. Ela topou na hora. Claro que ela não sabe o que aconteceu entre a gente. Mas nem vai precisar. Então, se você quiser…”

Eu comecei a rir. Quer dizer, imagina o que ele não deve ter feito para convencê-la. Na hora, fiquei curiosa mesmo para saber o que ele disse pra Ana. Deve ter dito que eu era a pessoa ideal pelo fato de ser amiga, de confiança. Aham. Ter me agarrado no carro não teve absolutamente nenhuma influência nisso.

Mas taí uma coisa que a teoria do Carlos não previa. Vai ver porque ele nunca se meteu em um triângulo onde os outros dois vértices se encontravam – do jeito que o Gustavo estava propondo. E eu, que nunca fui fã de geometria, comecei a gostar dessa história.

(continua)

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Apr/10

12

Bukowski de um conto só

Resolvi desenvolver um conto bem diferente do tipo de coisa que costumo escrever, só para ver no que ia dar. Deu nisso aqui (atenção 18+):


Bukowski de um conto só.

Bem, tinha esse cara que me mostrou uma história que tinha acabado de escrever. Na verdade, nem escritor ele era. Fazia pouco tempo que a gente se conhecia, e por isso mesmo achou melhor mostrar para mim primeiro. Ele era fã de Bukowski. Não, ele era fã mesmo era de sacanagem.

A tal história começava com “vem pra cá”, e eu já sabia que ia dar em putaria. Continuei a ler e achei a escrita de um mau acabamento tremendo. Ah, isso porque na época eu só lia coisas limpinhas. Ainda não conhecia Bukowski e achava que Misto Quente era só um sanduíche.

(É, eu só conheci Bukowski com o Carlos. Fui relutante. Mas para entender um, eu precisava conhecer o outro.)

De volta ao conto. Falava de um cara que resolvia passar o feriado de carnaval com uma menina de outra cidade. Ambos sabiam o que queriam, não havia nenhum joguinho de conquista ou algo do tipo, até porque isso combina mais com historinhas de adolescentes. A história era sobre a transa dos dois, e ao mesmo tempo não tinha nada a ver com a transa dos dois. Isso porque o cara está lá tirando o atraso, mas cheio de coisas na cabeça que a narrativa vai resgatando aos poucos. Típico de homens com casos antigos mal resolvidos.

(Sabe aqueles contistas que acham que você vai entender a porra da história como se você estivesse lá, e por isso escrevem de forma bem vaga, porque não querem se expor ao tentar falar de algo íntimo? Então. São uns enrustidos. O Carlos não, ele se jogou inteiro ali. Eu fiquei até constrangida.)

Igual ao Bukowski, não dava para saber até onde era confessional e onde ele começava a inventar. Mas era muito real. Real e autêntico, senão seria um tédio. Por exemplo, tem a parte em que a menina chupava o cara, e ele em pensamento considerava as carícias sem muita habilidade, boas o suficiente só para manter duro. Nessa hora ele já estava pensando na outra, claro. O interessante foi ver o efeito disso na cabeça dele e na forma como as coisas acabaram. Mas eu não vou contar, né? Depois trago para você ler.

Acho que você vai gostar, mas eu me arrependo de ter lido.

(Exceto porque se eu não tivesse lido, provavelmente não teria conhecido Bukowski, e aí provavelmente não estaríamos tendo essa conversa agora.)

Mas o negócio é que eu li. E o problema não foi nem saber de um suposto caso dele, narrando em detalhes a trepada que eles deram. O problema mesmo foi ter sido a única história. Única!

O que aconteceu foi o seguinte: ele resolveu parar de escrever quando a namorada dele, que não era bem namorada, mas vamos considerar assim já que eles transavam frequentemente e ele era apaixonado por ela, foi embora pro Chile. Pra Cuba. Sei lá. Foi depois disso que ele resolveu dar um fim prematuro à sua recém-iniciada carreira de escritor decadente.

Tentei motivá-lo dizendo que era uma boa história, afinal, gente escrevendo sacanagem tem aos montes, mas gente que conseguisse envolver o leitor daquele jeito estava em falta. Mas ele não deu muita importância à minha insistência. Tive que me contentar em reler o mesmo conto várias vezes, até perceber que o safado estava escondendo mais.

(Claro que estava. Alguns meses depois ele me comeu, e mais de uma vez. Ele tinha material para, pelo menos, mais um bom conto. E é uma pena, uma pena mesmo, mas por algum motivo que eu desconheço, ou por algum motivo que a garota de Cuba sabe bem, ele resolveu guardar essas histórias. E tinha uma mais ou menos assim: )

Já devia ser quase meio-dia quando acordei no sábado, e me espantei ao pegar o celular para ver as horas. Ainda mais quando vi aquela mensagem. Carlos tinha me mandado às duas da manhã e dizia: “sem martírios”. Franzi a testa incomodada. “Mas que diabos?” E então lembrei que eu não tinha bebido tanto assim para fazer algo do qual eu me arrependesse na festa de ontem. Talvez tivesse falado mais do que devia, mas aí já era outra história.

No dia anterior, eu e alguns amigos da faculdade saímos para o aniversário da Marina, e o Carlos resolveu ir junto. Fazia um tempo que eu não saía com o pessoal; esse negócio de ficar sempre amarrada com namorado exige lá seus sacrifícios. Então aproveitei para dançar bastante e beber um pouco, coisa que geralmente não tinha oportunidade de fazer.

(Nas horas em que eu me sentava, e o Carlos estava lá em todas elas, era só sobre isso que eu falava. É claro que meu namoro estava ok, mas eu nunca cheguei a ficar mais de um mês solteira para conhecer a real angústia de ficar sozinha. E ele achando muito engraçado, apontou pro Henrique, bebendo à beira da piscina, e perguntou se era isso que eu queria: “sozinho há tanto tempo que nem consegue mais chegar em outra pessoa”. Acho que foi daí que ele tirou o “sem martírios” que mandou por sms: era meio que para eu não me sentir mal por essa situação, e ele era muito bom nisso. Confesso.)

Lá pelas tantas da festa, a minha boca estava seca e meus sentidos embaralhados. Levei meu copo para reabastecer e o Carlos veio em minha direção. Perguntou quem eu estava procurando, e respondi como quem fala de um grande amigo: “Vodca!” Ele sorriu, tirou o copo da minha mão e me levou até onde o pessoal dançava: “Não tem mais vodca. Acabou.” Fiquei sinceramente puta e disse para ele não tentar bancar o namorado. Aquele tipo de besteira que a gente só fala porque bêbado tem licença poética. Mas ele nem ligou muito.

Tanto é que mandou o sms, não mandou? Isso significava que eu ainda podia contar com a ajuda que ele me ofereceu para embalar minhas coisas no sábado. O namorado estava trabalhando no final de semana de novo, e eu de mudança na próxima quarta. Bem, eu liguei.

Ficou combinado dele vir à tarde e trazer a caixa de ferramentas. Eu ia precisar de ajuda para desmontar algumas prateleiras e a cama. Nada como um pouco de trabalho braçal em pleno sábado, han. Quando ele chegou, lá pelas cinco, eu já tinha encaixotado alguns livros e estava espantada com a quantidade de poeira que as apostilas são capazes de acumular.

Ele desceu mais alguns quilos de livros da prateleira de cima e se sentou ao meu lado no chão. Incrível como o trabalho conseguiu ficar duas vezes mais lento, mesmo sendo feito por duas pessoas.

(Eu tinha alguns livros do Stephen King, e toda vez que ele pegava um para guardar na caixa, a gente ficava jogando conversa fora sobre ele. Era um dos poucos gostos literários que a gente tinha em comum. Como eu já disse, ele gostava de Bukowski e de umas músicas mais alternativas que não faziam meu tipo.)

Quando as prateleiras ficaram vazias, ele deu a ideia de lancharmos antes de desmontar tudo. Achei uma boa, minhas costas já estavam todas doloridas e nem tinha chegado na parte difícil. Trouxe para a sala refrigerante e uns croissants bem sem-vergonhas de padaria. Já era início de noite quando paramos de enrolar e Carlos começou a desenroscar os parafusos. Enquanto isso, eu dava um jeito de desocupar a armação da cama e abrir espaço suficiente no meu quarto pequeno para ele conseguir desmontar tudo. Joguei o colchão na sala e parei para dar uma olhada no trabalho dele.

(Olha, eu podia estar olhando para qualquer coisa, menos para o trabalho. Não sou nenhuma tarada ou algo do tipo, mas ele ali sentado e concentrado me deu um tesão que me deixou até desconcertada. O cara ali me ajudando e eu excitada com o jeito que ele desfazia as voltinhas do parafuso. Que foi isso, hein?)

Ajudei o Carlos a tirar da parede e guardar as prateleiras em seus lugares devidos. E foi mais ou menos nessa hora que acabou a luz. Assim, de uma vez, como quem leva um soco na cara e de repente fica tudo escuro. E o pior é que tinha acabado na rua inteira. Breu total. “Ah, tá de brincadeira, né”. Nem acreditei que falei isso alto, não era a intenção. Peguei meu celular e tentei ajudar o Carlos a encontrar as chaves do carro. Mas ele disse que não, o que é isso, fazia questão de ficar, ainda tinha a cama para terminar, e a luz voltava rapidinho, eu ia ver só. Eu sentei no colchão que tinha largado ali e ele sentou logo depois.

Conversamos trivialidades, que na verdade serviam para disfarçar um campo invisível de tensão sexual entre nós que já existia desde a festa passada – ou que talvez já existisse desde a primeira vez que me mostrou aquele conto. Enfim, não importa. O que importa é que estava um escuro desgraçado, ele deitado e eu sentada ao lado dele, ele dando alguns sinais, e eu já nem me dando ao trabalho de considerar se devia ou não. Quando me dei conta, já estava debruçada sobre ele.

Estranhei minha língua dentro da boca dele, e ele usava a língua para acomodar a minha, beijando vigorosamente e me puxando para mais perto, como se já não bastasse a ação da gravidade do meu corpo sobre o dele.

(Você sabe que é um caminho sem volta quando o cara te vira na cama e ele deita em cima, deixando você sentir o tamanho do tesão dele quando aproxima aquele volume de você, bem no meio das suas pernas abertas. Pois é, foi quando eu senti que já era.)

Ele me pôs sentada para conseguir me acariciar melhor e continuamos a nos beijar. Em um lampejo, a luz estava de volta. Ele nem abriu os olhos e impediu que eu desgrudasse da boca dele. Tateou a parede ao lado dele até encontrar o interruptor e o desligou. Voltamos para a escuridão total, onde tudo que havia eram mãos explorando territórios ainda desconhecidos, e logo já não havia roupas para impedi-las.

Abri o zíper da calça dele, respirei fundo e comecei a chupar. De olhos fechados, tentava imaginar que não era a primeira vez que fazia com ele, para poder me dedicar com mais paixão e sem aqueles pudorezinhos. Agora que não tem volta, vai fundo, minha filha. Até porque a essa altura, não ia querer que ele achasse que estava bom o suficiente só para manter duro. Não senhor, eu ia dar trabalho caso ele estivesse tentando pensar na outra.

Mas quando foi o turno dele, tirou minha calcinha e fez um oral como há tempos eu não recebia. Aí esqueci da outra, do conto, do namorado. De tudo. Enquanto ele me beijava a buceta, eu acariciava seus cabelos curtos e segurava com força quando ele merecia.

Puxei-o para perto de mim, para dentro de mim. E ele veio deslizando. A gente ficou se curtindo um tempão, experimentou outros ângulos, ele viu o que eu conseguia fazer com as pernas, e eu fui entrando no ritmo dele.

(Nenhum dos dois estava com pressa, e eu podia ficar ali a noite inteira. Mas a ansiedade foi tomando conta de mim, ou algum outro tipo de bloqueio, sei lá. Nada que impedisse de continuar gostoso, mas eu estava quase entrando em combustão de tão louca, e não gozava de jeito nenhum. Sei lá se era medo, culpa, mas acho que a falta de uma intimidade prévia com o Carlos contou um pouco.)

Ele decidiu terminar. Ainda não tinha gozado e ainda estava no ponto de continuar, mas a gente simplesmente estava exausto. Ele deve ter passado pela mesma ansiedade que eu, mas parecia satisfeito. Eu fiquei frustrada de início, mas quando deitei do lado dele entendi que a falta de um orgasmo não estragava uma trepada tão boa.

Levantei ainda nua e fui até a janela, onde observei a rua, já toda iluminada novamente. Ele ficou do colchão, me observando das sombras. Ele brincou que queria ter uma câmera fotográfica naquela hora. Queria captar aquela imagem, disse que a iluminação estava perfeita. E eu já respondi bem direta: “Vai inventar de escrever um conto sobre essa transa também?” Ele respondeu sorrindo que era melhor não. Ah, que desperdício.

Ele mudou de assunto e me chamou para deitar com ele ali e dormir. “Tá louco? Meu namorado vem me buscar amanhã de manhã.” Um tanto desapontado, perguntou: “Não posso dormir aqui então?” Respondi sorrindo que era melhor não. Afinal, nem tudo pode ser fácil para um Bukowski.

Espero por mais. Depois eu te conto.


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