
Não é sempre que posso, mas gosto bastante de ler contos e textos enquanto desbravo esse mundão velho sem porteira da blogosfera. Já vi de tudo: desde os mais talentosos (devidamente favoritados em uma pastinha especial no meu GReader) até aqueles que… bem, às vezes nem o layout salva. Percebo que falta maturidade. Saber ortografia e gramática nem sempre é o problema; são pessoas que sabem acentuar e construir frases minimamente inteligíveis. Mas convenhamos: escrever bem exige mais do que dominar o português.
Aí eu vejo uma galera cheia de potencial, mas escrevendo textos rasos, pouco criativos. Dava para ir muito além. Mas texto após texto, os vícios de linguagem se repetem. Só pra citar um exemplo, o uso de pronomes pessoais durante a história inteira. Chega uma hora que você nem sabe mais quem está falando: nenhum personagem tem nome. Parece uma tentativa de disfarçar que a história é sobre o próprio autor, mas não é diário, não. É arte, literatura conceitual, emoção pura. E aí fica claro que algumas pessoas não conseguem ir muito longe: só escrevem sobre o que gira em torno da própria vida. Sim, essa é uma fonte de referência importante, mas não é a única. E como é a mais acessível, a mais segura e aquela com a qual a pessoa mais se identifica, ela não procura outras formas de contar histórias. Fica na zona de conforto.
Essa é a parte onde entra uma das coisas mais importantes que eu aprendi desde que comecei com isso de ser redatora. Em um dos primeiros exercícios do curso de Redação que fiz, o professor (na época era o André Barreiros) passou um exercício onde cada um escrevia em um pedaço de papel o tema sobre o qual mais gostava de falar. Depois ele pedia para trocar esse papelzinho com o colega ao lado, e para espanto geral da sala, pedia para desenvolver um texto sobre o tema do outro. A dinâmica era para incomodar mesmo.
Você fica ali, olhando para o papel, sem saber o que escrever. Você é forçado a isso. Escreve sôfrego, vê que não é tão fácil, e no final acha tudo uma merda. E então percebe que quando precisa escrever sobre algo que não gosta, tem que pesquisar sobre isso. Ler outros textos sobre o assunto, que em outra ocasião, você dificilmente leria. Precisa abandonar preconceitos. Experimentar. Esse exercício é o fórceps da escrita: abre sua mente à força. No fim do processo, sua imaginação também se expandiu.
Redação publicitária é isso. Mas acredito que esse exercício seja importante para quem cria romances, ficção, fantasia, etc. Daí podem surgir personagens novos e enredos surpreendentes – até para quem escreve. É um exercício que ajuda a quebrar bloqueios, e no mínimo, você já tem um texto para publicar em seu blog e não deixá-lo desatualizado por mais de um mês (sorry galera, final de semestre!).

Se você escreve, essa é minha dica: levante essa bunda preguiçosa do conforto dos textos de sempre e vá explorar o desconhecido com a sua escrita. Desafio é o que não vai faltar. Mas se faltar, tem o PSV Site Crônicas, que vai estar cheio deles para você não deixar de praticar. Vai por mim. ;-)
Antigamente, todo mundo queria estar na “crista da onda”, mas hoje a moda é mesmo estar na Wave. Só que o Google, pelo menos por enquanto, está liberando o acesso a esta “inovadora” ferramenta apenas para alguns poucos escolhidos. Já faz algumas semanas que entrei para este “seleto” grupo de usuários iniciais, mas foi só dia desses que recebi do Google alguns convites para distribuir para quem eu quisesse. Antes que as pessoas começassem a me pedir achando que é festa de Cosme e Damião, pensei em algo mais interessante para a distribuição.
Então surgiu o Desafio Redator. Qual era o objetivo da brincadeira: criar títulos para a imagem abaixo. Os mais persuasivos e criativos ganhavam convites para o Google Wave (e alguns do novo Orkut que estava comigo dando sopa).

Não imaginei que tanta gente ia participar e que a brincadeira ia render tantos títulos (entre os interessantes e os que fariam meu diretor de criação se jogar pela janela); a página do desafio recebeu cerca de 590 visitas em apenas 1 dia. Antes mesmo de anunciar os vencedores, já estavam me sugerindo que eu comentasse as ideias, e decidi usar o blog (novinho em folha) pra isso. Fiz abaixo uma seleção de alguns títulos para detonar comentar.Então, vamos nelson que a hora é elson.
@MichaelGalli
1 em cada 5 redatores usam a primeira idéia
Já vou começar com a ideia que mais se destacou. Quando a brincadeira começou, os títulos tendiam primeiro para ideias mais institucionais e de conscientização, que utilizavam a fórmula “1 em cada 5″. Algo bem foto-legenda mesmo. E aí aparece alguém com a mesma ideia, mas usando uma “gracinha” metalinguística voltada para o escopo do próprio desafio: o universo do redator. Foi impossível não deixar escapar uma risadinha. O cara fez um título bem “primeira ideia”, justamente para falar sobre redatores que ficam na primeira ideia, satirizando até mesmo a situação manjadíssima da foto-legenda – do qual ele também faz uso. E por isso consegue despertar uma reação. E é esse o objetivo do redator ao escrever um título: encontrar uma maneira de impactar quem está lendo.
Entretanto, essa frase tem um erro gritante de português, e por isso foi desclassificada. O mesmo erro também foi encontrado em vários outros títulos que seguiram a fórmula “1 em cada 5″:
@caviloos
1 de cada 5 brancos gostam de BlackMusic
O erro está na concordância verbal; afinal, ninguém diz “A cada 5 brancos, 1 gostam de Black Music” ou “A cada 5 redatores, 1 usam a primeira ideia”. O certo seria “1 em cada 5 redatores usa a primeira ideia” (e atenção, “ideia” não leva mais acento). Redator pode até ficar na primeira ideia, mas nunca pode descuidar do português.
@ericssonbarbosa
O aborto apaga vidas.
@rafanoris
Uma em cada 5 crianças que navegam pela internet é alvo de pedófilos.
@ericssonbarbosa
Preserve o meio ambiente, evite as queimas desordenadas.
Aqui, alguns exemplos de como as pessoas acham que escrever para conscientização é simples. Embora a imagem possua inúmeras possibilidades, tiveram que forçar um pouco mais a cabeça para chegar em títulos que vendessem produtos. Isso acontece porque escrever mensagens de conscientização é ficar na zona de conforto. Parece que basta colocar “aborto”, “pedófilos”, ou “preserve o meio ambiente” em um título para despertar alguma reação nas pessoas.
É claro que não dá pra passar batido por esses temas, mas um texto precisa ir um pouco além para conseguir despertar uma reação sincera das pessoas. A gente escuta tanto sobre “preservar o meio ambiente”, que a frase já está esvaziada de sentido. Não significa mais muita coisa. E aí está o desafio do redator: como ir além disso? É preciso ter uma sensibilidade muito aguçada e saber bem sobre o que está falando para mexer com o emocional do público. E tudo o que temos quando apelamos para o fácil são mensagens superficiais, que, quando não estão dizendo da forma errada, não dizem absolutamente nada.
@???????
cotas: uma retratação em forma de preconceito. Diga NÃO as cotas.
Vou manter anônimo o autor dessa pérola, por razões bem óbvias. Lembra o que eu falei aqui em cima? Duvido seriamente que o animal que escreveu esse título sequer saiba o que está falando. Além do texto apelando para o fácil, da estrutura óbvia, da mensagem vazia (que não diz nada além do evidente preconceito do autor), temos uma falta de noção e sensibilidade que por si só já valiam um prêmio. Tudo bem você ser contra as cotas, não desconsiderei seu título por discordar do seu ponto de vista. Você pode até defender a volta da sociedade escravocrata, por que não? Se quiser, pode até vender a ideia do nazismo e do extermínio em massa, que por mim tudo bem. Mas querido, você vai precisar ir muito, muito além disso e escrever algo mais inteligente. Continue estudando. A propósito, já ouviu falar de Goebbels?
@hi_tanpopo
tenha senso de equipe, e compartilhe suas idéias. ou vai queimar seus neurônios sozinho?!
@ericssonbarbosa
Alub: Aqui quem queima neurônios se destaca.
Aqui, temos duas linhas de pensamento bem bacanas. Depois de escrever bastante, o Ericsson consegue desenvolver um título mais vendedor, para um cursinho de pré-vestibular, demonstrando que um redator não pode parar nas (cinquenta, cem) primeiras ideias para chegar a um título melhor. Onde quer que as boas ideias estejam, é preciso muita caminhada para chegar até elas. E o que diferencia os bons (e criativos) publicitários do resto é justamente essa distância percorrida: os fracos ficam no meio do caminho.
No título da Júlia, temos um bom conteúdo, mas pouca forma. Esse é outro aspecto importante: o refinamento do texto. Cortar, trocar, reescrever, arredondar, pensar na melhor estética – sem piedade. Um longo e disforme “tenha senso de equipe, e compartilhe suas ideias. ou vai queimar seus neurônios sozinho” pode ser lapidado e enxuto até atingir uma forma de “Compartilhe ideias. Não queime neurônios sozinho” ou “Quem trabalha em equipe não queima neurônios sozinho”, e ainda pode melhorar.
@AlexCastroLLL
Dar uma e brochar é normal. Tome viagra e dê a segunda, a terceira, a quarta…
A ilustre participação do Alex Castro apócrifo também é um bom exemplo de um texto que precisa de refinamento para chegar a uma forma mais persuasiva. Uma forma de resolver seria “Mantenha o fogo depois da primeira” ou “Continue aceso na segunda, terceira, quarta…”. Assim é possível manter o humor, acrescentar a persuasão, deixar o nome do produto (Viagra) só na assinatura, e fugir de termos como “dar uma” e “brochar”, que de tão explícitos e óbvios tiram o tesão da interpretação.
Por isso redatores fogem de títulos “foto-legenda”. É brochante.
@thiago_ir
Pior que ficar de cabeça quente e se queimar, é ter que reconhecer que estava errado e se curvar aos outros.
@Ramostm
Aqueles dias te deixam desconcertada e de cabeça quente? Novo íntimos absorve 4x mais que os absorventes comuns. Íntimos
@LandNick
Desculpem amigos, mas perdi a cabeça por aquela mulher!
Aqui, alguns exemplos de títulos redundantes com a imagem. O que mais observei nessa brincadeira foi a necessidade das pessoas ficarem explicando a imagem. Título não é feito para explicar a imagem. Não podemos esquecer que a imagem também fala; logo, imagem e texto devem ter vozes próprias. O engraçadinho @3df (que até fez uns textos bem bacanas) deu um bom exemplo de como tirar o tesão do leitor com um título foto-legenda: “Cinco palitos de fósforos, sendo o da direita queimado”.
Mais uma coisa importante: isso de usar pergunta em título é coisa de Polishop. “Aqueles dias te deixam desconcertada e de cabeça quente?” Céus… Que os deuses da propaganda não permitam que alguém escreva isso em um anúncio de verdade, e o atinjam com um raio antes disso. Como já diria minha professora de Redação, Raquel Cantarelli, quando você usa uma pergunta em um título, se a resposta para ele for “não”, você já perdeu um público que não vai nem terminar de ler o anúncio. Com um ajuste simples, já ficaria bem melhor: “Para dias que te deixam de cabeça quente” e na assinatura: “Intimus. Absorve 4x mais que os outros absorventes”.
Lembrando que a assinatura é tão importante quanto o título. Até a marca do produto é um importante elemento para o sentido da mensagem.
@eduardodosreis
Quanto mais você deseja se parecer com os outros, mais você se queima. Tenha estilo, use fulanimdetal.
@mbselmy
Como Publicitário, ele é um ótimo Bombeiro. Assina: PA (Publicitários Anônimos)
@MichaelGalli
Quem age por impulso no mercado de hoje não dura muito tempo. (Marketing Galli’s S/A – Consultoria)
No título do Eduardo, temos uma mensagem que nos diz que a gente se queima quando tenta parecer com os outros (ideia boa, mas lembra da dica de refinamento de texto?). No final, diz que ter estilo mesmo só usando a…? E aí hesita em assinar usando uma marca de verdade. Se tivesse assinado como, sei lá, Levi’s, ele conseguiria fechar a mensagem com um sentido mais completo. Quando estiver criando um anúncio, nunca subestime a capacidade da marca em falar por si só. Basta folhear alguns anuários para perceber isso.
O título assinado pelos Publicitários Anônimos traz uma mensagem de humor relacionado ao dia-a-dia do publicitário, que às vezes tem que trabalhar “apagando incêndios” para os clientes da agência. É possível até ter uma dupla interpretação da imagem a partir do texto: o fósforo seria o job apagado pelo publicitário apagador de incêndio, ou seria o próprio publicitário, esgotado, cansado dessa penosa tarefa? Daí a importância da assinatura para fechar o sentido do título, que nesse caso também precisa de um refinamento.
O Michael parece saber mais do que ninguém da importância da assinatura; afinal, usou para autopromoção. Além do inteligente oportunismo, conseguiu um título consistente, que consegue ir além e trazer um novo sentido para a imagem, falando bem o que se propõe a dizer. Não é o tipo de título que apela para o emocional ou para o humor explícito, mas é o tipo de texto que desperta um estalo do lado esquerdo do cérebro: o hemisfério da razão.
@Mayara_Regia
2009 está no fim. A quem você dará poder nos próximos quatro anos? Eleições 2010.
E para finalizar os comentários, um dos melhores títulos, na minha opinião. Conseguiu surpreender por abordar um tema dentro da linha de conscientização que exige um pouco mais do que somente apelar para o fácil, além de abordá-lo em um momento bastante oportuno, às vésperas de ano de eleição.
Fiquei bastante satisfeita com a experiência, e parece que muita gente também gostou de exercitar a criatividade. Já estão me perguntando quando será o próximo Desafio Redator. Embora eu ainda tenha um bocado de convites para o Google Wave, acho que vou ter que pensar em outra premiação; mas tão logo espero poder contar novamente com o entusiasmo de todos vocês para mais uma rodada de muitas ideias, títulos e comentários. Porque um bom redator não fica na primeira ideia – e nem no primeiro desafio.