AlineValek

[Seção de Cartas] O mal do século

08 de May 2013 por Valek

monkey

Carta que recebi do leitor Pato Donald:

onde estão as mensagens pessoais no mundo das indiretas?

por que todo mundo manda bilhetinhos, torpedos e sms, mas muito raramente recebemos uma carta, uma folha inteira, um parágrafo que a gente tem vontade de tatuar, um poema que a gente decora e guarda pra sempre, uma canção?

a nossa geração é a que mais escreve, e a que menos toca o outro?

 

Querido leitor,

Seu questionamento me lembrou de um estudo que li recentemente. Pesquisadores da Universidade de Munnford descobriram que há uma relação direta entre o impulso de se comunicar e a qualidade dessa comunicação.

Talvez eles tenham feito o estudo movidos por essa sua angústia. Mas é só um palpite.

A pesquisa foi feita aproveitando uma daquelas cabines de programa de auditório, em que a pessoa é isolada acusticamente e precisa responder, sem ouvir, se trocaria o prêmio de um milhão de reais por uma chupeta usada, sabe? Mas, na pesquisa, essa cabine foi colocada em meio a um debate e apresentava um isolamento acústico ao contrário, em que a pessoa lá dentro podia ouvir tudo que era dito durante o debate, mas ninguém no ambiente conseguia ouvir o que ela dizia, a não ser quando a luz da sirene era acesa. Só nesse momento essa pessoa podia dizer a sua opinião e ser ouvida pelos demais.

Bem, os pesquisadores acreditavam que, exposta a longas horas de opiniões contrárias ou a favor de determinado assunto, a pessoa dentro da cabine teria tempo para ponderar melhor e, quando fosse a sua vez de ser ouvida, ela tivesse uma opinião bem articulada. Que nada. Estavam enganados: assim que a luz acendia, indicando que era sua vez de falar, a pessoa ficava tão excitada de expor sua opinião para toda aquela gente que dizia qualquer bobagem.

Fizeram o teste com cinquenta e três pessoas e um chimpanzé e o resultado foi sempre o mesmo. Na segunda fase do teste, os pesquisadores aumentaram as vezes em que a luz da sirene acendia durante o debate, ou seja, aumentaram as chances daquela cobaia se expressar, mas a qualidade de sua opinião só fazia piorar. Alguns chegavam até a babar e grunhir enquanto expressavam sua posição sobre determinado tema em meio ao calor da discussão. O poder de ser ouvido parece mínimo, mas foi o suficiente para deixar essas pessoas ensandecidas.

A conclusão a que chegaram é que quanto mais oportunidade é dada para dar uma opinião, menos elaborada será essa opinião.

Agora imagine que a internet é um lugar cheio dessas luzinhas de sirene acesas. Tem tanto espaço para falar alguma coisa, que pouco importa o que seja essa coisa a ser dita. Mensagens curtas, superficiais e pouco articuladas acabam sendo a saída para atender a uma demanda ampla e inesgotável por opinião nesse ambiente controlado, onde quem quer que esteja dentro da cabine tem a possibilidade de ser ouvido por um número considerável de pessoas — que pode não ser grande, mas já é maior do que se estivesse escrevendo uma carta que apenas uma pessoa leria.

Esse é o contexto em que surge o mal do século: os comentaristas de portal. Eles procuram desesperadamente por uma sirene acesa em meio à vastidão da internet, onde possam despejar seus comentários e exercer o seu poder de serem ouvidos, por mínimo que seja. Não que eles sempre tenham algo a acrescentar, mas veja como é brilhante a luz da sirene acesa! Eu tenho que falar alguma coisa!

Não que eu ache que a internet acabou com as cartas (ou e-mails, comentários, mensagens, tanto faz) bem escritas, dessas que dão vontade de guardar e fazem pensar por um bom tempo. É improvável que os comentaristas de portais fossem o tipo de pessoa que escrevesse canções ou cartas antes de descobrirem as irresistíveis caixas de comentários. Eu, pelo menos, não faria questão de receber uma carta de um desses (por mais que eu goste de receber cartas).

As pessoas que escrevem coisas que realmente tocam os outros continuam por aí, embora soterradas por uma avalanche de pessoas ensandecidas que escrevem qualquer coisa como se o direito de falar fosse ser arrancada delas a qualquer momento (o que, pensando bem, não é de todo impossível). Essas pessoas talvez não sejam vistas com tanta frequência porque demora e dá trabalho escrever um parágrafo inteiro, uma página ou duas, bem articuladas, que dê vontade de tatuar. Mas eu quero acreditar que existe, querido leitor. Se não, não teria tatuado a sua cartinha. Na coxa direita. Em letra de forma.

 

***


Esse texto faz parte da Seção de Cartas do blog, em que um leitor me manda uma opinião e eu respondo com ficção. Participe também, mandando a sua cartinha que terei o maior prazer de publicar com uma resposta completamente inventada. É de graça e o anonimato será preservado. Escreva sua carta aqui.

Ilustração daqui.
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A reinvenção da Bíblia

17 de April 2013 por Valek

bible

A vida do escritor freelancer é duríssima. Suas contas vencem no mesmo dia de todo mês e o valor nunca faz o favor de diminuir, embora seus trabalhos escasseiem com facilidade. É em situações desesperadoras desse quilate que a criatividade se desenvolve, de forma que o escritor tem uma ideia que, além da óbvia e gritante questão da sobrevivência, pode lhe render uma boa fortuna.

Então peço que o leitor e a leitora desde já perdoem este escritor que prepara com tanto fervor uma ideia, para dizer o mínimo, calhorda. Algumas vezes, a moral pode ser um empecilho para a sobrevivência ou para o lucro em um mundo como esse, como vocês bem poderão ver a seguir.

O escritor desenvolve a sua ideia e até monta tudo bonitinho em PPT, para apresentar a sua proposta a clientes em potencial. Ele faz várias ligações para os seus contatos e consegue o interesse das pessoas para quem imaginou vender sua ideia, marcando uma reunião com todos no mesmo dia, horário e local — o que não é nada fácil, já que são todos figurões, gente da mais alta casta e influência. Mas faz parte do plano: sua ideia só vale os milhões que deseja se ele tratar com tão insignes clientes.

O dia chega e o escritor tem, reunidos em uma sala de reuniões, os representantes das igrejas cristãs. Entre eles, o papa, bispos católicos, pastores líderes das maiores igrejas e os bispos evangélicos mais famosos da TV.

– Vou ser bem direto com os senhores, já que sou escritor e não publicitário – começa o escritor – A minha proposta é um grande projeto que pode ser do interesse do cristianismo. O que quero propor é reescrever a Bíblia.

– Cê tá de brincadeira? – um dos bispos diz surpreso, enquanto a sala é tomada por cochichos.

– De jeito nenhum, Sua Santidade. Alteza. Excelência. Eminência. Falo sério e vou explicar porque minha proposta é ousada, mas extremamente necessária ao cristianismo!

Ele avança os slides e para numa tela com os dizeres “Deus é amor”.

– Vocês trabalham todos os dias tentando convencer a humanidade de que Deus é amor, certo? – alguns presentes na sala balançam a cabeça afirmativamente – Mas fica difícil fazer isso quando você tem um livro contando como Deus destruiu cidades, promoveu genocídios, enganou pessoas, criou pragas e outras coisinhas que nem os ditadores mais insanos sonhariam em fazer. Se você espremer o Velho Testamento sai mais sangue do que jornal policial sensacionalista. Vocês podem até dizer que contornaram a situação pregando que o Novo Testamento rompia com essas atrocidades por mostrar uma nova aliança de Deus com o povo, mas, cá entre nós? O Novo Testamento também está cheio de trechos problemáticos. Paulo mesmo falou cada bobagem que só Jesus na causa. Sem falar nas contradições mais loucas, como por exemplo, uma hora a Bíblia diz que as leis do Velho Testamento para sempre serão válidas (inclusive em livros do Novo Testamento) e depois diz que não. Tem horas que diz que tudo bem amaldiçoar alguém, tem horas que diz que não pode. Tem horas que diz que Deus aprova a escravidão, tem horas que diz que não, de jeito nenhum. – o escritor faz uma lista interminável de contradições correr na tela – Isso é o que acontece quando um livro é escrito por centenas de pessoas, em que cada um escreve o que quer. O que não vai acontecer se eu reescrever a Bíblia, é claro.

– Esses errinhos dão uma dor de cabeça, você não imagina – diz um pastor, fazendo outros líderes cristãos concordarem com ele – A maioria dos nossos fieis nem percebe, porque só leem os trechos que a gente manda ler… Mas os ateus, ah, os ateus… Esses adoram encher o saco e nos desmoralizar apontando as contradições da Bíblia.

– Malditos ateus – alguém gritou lá do fundo.

– Você pode resolver esse problema dos ateus? – diz o papa, como que subitamente acordando de uma soneca.

– Claro! – diz o escritor, satisfeito por estarem entrando no jogo dele – Vou escrever uma Bíblia à prova de ateus! Uma Bíblia que mostre apenas um deus amoroso, carismático, que não faça birra de criança, quem sabe até com um bom gosto musical, um corte de cabelo mais atual, mas enfim, um deus que seja misericordioso nas escrituras, não só nas palavras de vocês. E o melhor de tudo é que vocês poderão apresentar essa maravilha reeditada, com uma linguagem que não dá sono se você ler mais de três versículos, sem contradições grotescas e com diálogos inteligentes pela quantia módica de 300 milhões de obamas. Antes que vocês achem que é um valor absurdo, deixem que eu explique que esse foi o faturamento dos livros do Harry Potter, o que é um valor justo quando estamos falando da maior e mais importante obra escrita da humanidade!

– Muito legal e tal, mas a gente não pode simplesmente mudar algo que está aí há séculos – observa um dos bispos – Tudo bem que a Bíblia já foi editada algumas vezes, mas estamos falando de reescrevê-la…

– Não vejo problemas – disse um pastor-celebridade – Se eu consigo vender até DVD de sertanejo gospel, vender uma segunda edição da Bíblia vai ser moleza.

– É uma boa ideia, mas precisamos conversar melhor sobre isso – disse o papa – Marcamos uma reunião para o próximo mês. No mesmo dia, mesma hora e mesmo local. E então daremos a resposta final.

Para quem não tinha nada, isso já é alguma coisa. O escritor aceita e fica combinado que se encontrariam dali a um mês. Vamos acelerar um pouco o tempo e ir direto para o dia da reunião, em que os mesmos representantes das igrejas cristãs encontram-se na mesma sala de um mês atrás. O escritor está ansioso.

– Já temos uma resposta – começa um pastor – Decidimos que iremos contratar os seus serviços para reescrever a Bíblia.

– Mas com alguns ajustes, claro – diz um dos bispos.

– Sem problemas, já imaginei que vocês gostariam de dar uns toques para o Deus da Bíblia ficar ainda mais misericordioso – o escritor diz empolgado, já se armando de papel e caneta para fazer as anotações.

– Na verdade, é justamente esse o ajuste que a gente quer fazer – diz o papa – Sabe essa história de reescrever a Bíblia tirando as partes violentas? Pois é, na verdade a gente quer manter essas partes.

– Manter? – o escritor fica com cada músculo do rosto paralisado de confusão – Se é para ficar do mesmo jeito, por que eu iria reescrevê-la?

– Sabe como é, seu escritor, é que tirar essas partes meio que zoa o nosso esquema – diz um dos pastores – A gente usa a Bíblia justamente como apoio para argumentos mais difíceis da pessoa engolir. Não precisa ter uma Bíblia mostrando um Deus 100% amor, é só a gente falar umas duas ou três vezes no culto que os fieis entendem isso. Mas tem que estar escrito no papel que, se não pagar o dízimo ou praticar o adultério, algo horrível vai acontecer com a pessoa. Se não, com que moral a gente pode falar isso?

– Mas a gente amou a sua ideia, sério – um bispo faz questão de dizer, com um sorriso bem simpático – Queremos que você reescreva corrigindo todas essas pequenas contradições que racham a nossa cara de vergonha e arrume essas historinhas mal explicadas. Deixar a coisa toda mais amarradinha.

– Aí aproveita e deixa mais claro algumas coisas – interrompe outro pastor – A gente sente falta de Jesus falando umas poucas e boas contra os gays, sabe? Coloca uns versículos a mais no Velho Testamento contra essa prática nefasta do homossexualismo. Aliás, pode colocar uns capítulos inteiros. Ah, sabe a parte em que Jesus fica furioso quando tem um pessoal lucrando com atividades dentro do templo? Pode cortar. A gente também não gosta daquela parte “dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus” porque Deus não tem que ter limites, não é mesmo? Ainda mais agora com a gente investindo pesado na política, tô lançando mais uns três candidatos na próxima eleição.

– Se puder deixar Jesus menos revolucionário também seria bom – diz um bispo lá no fundo – Não acho bom dar ideia para as pessoas acharem que podem questionar e enfrentar os poderosos. Chega me coço todo de pensar nisso.

– Mas é bom manter a parte do “vinde a mim as criancinhas”, – outro bispo faz questão de ressaltar – quem sabe até dizer que tudo bem fazer algumas carícias, que Deus não vê problema nisso, algo do tipo.

– E é claro, serão duas versões: a protestante e a católica – diz um pastor-celebridade – Me dá nos nervos quando misturam evangélicos e católicos. Parece que não respeitam o nosso direito de nos odiarmos mutuamente e de não querer que nos confundam com eles!

– Em uma coisa concordamos! – diz o papa amigavelmente.

– Pois bem, então vou ter que fazer alguns ajustes no orçamento, já que seriam duas versões… – começa o escritor, até que é interrompido por outro pastor:

– Já íamos chegar nesse ponto! Não acho justo cobrar um valor tão extorsivo de homens de Deus. Como recebemos apenas 10% dos fieis, acreditamos que devemos pagar apenas 10% do valor proposto. Assim fica combinado em 30 milhões para você reescrever duas versões da nova obra mais importante da humanidade. Fechado?

Não é exatamente o que o escritor esperava, mas ainda assim é dinheiro para chuchu. Podia custar uma eternidade no inferno, se isso existisse, mas o que importa? A fatura do cartão de crédito e o aluguel já estavam atrasados. O escritor aperta a mão do pastor, recolhe suas anotações e vai para casa tendo certeza que todos que escreveram a Bíblia, inclusive ele, eram grandes filhos da puta.

Moral da história: quer um livro sobre amor? Vá ler Nicholas Spark.

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Teocracia à brasileira

07 de March 2013 por Valek

Em um futuro não tão distante, os recém-nascidos saem da maternidade com uma certidão de nascimento e uma conta no Facebook, e Holywood já fez todas as adaptações possíveis de livros para o cinema, incluindo o Manual Básico da Informática (um sucesso de bilheteria). Mas, nesse futuro não tão distante, o Brasil é uma teocracia cristã.

Até que não é nada mal viver nesse país. Se você é um cristão, claro. Afinal, você tem a certeza de que as pessoas no controle estão construindo um país santificado, e é sempre bom morar em um país que será poupado da ira devastadora de Deus no juízo final. Com a vantagem de ter belas praias.

A família é coisa sagrada nessa sociedade brasileira. Desde que seja formada por pai, mãe e filhos. Para impedir que outros arranjos familiares não-abençoados sejam feitos, algumas mudancinhas na Constituição impedem o casamento ou qualquer tipo de união entre pessoas do mesmo sexo. O divórcio também é proibido, pois o que Deus uniu ninguém separa. Nem as próprias pessoas envolvidas no relacionamento.

O Ministério da Família é instituído para cuidar dessas questões. Há campanhas e cartilhas ensinando como criar seus filhos e a família pode sofrer uma intervenção se eles começam a jogar RPG ou ouvir heavy metal que não seja gospel. Pastores atuam como psicólogos que dão suporte à família e resolvem querelas entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs. Mais ou menos como um programa Casos de Família, só que em um órgão público. E com leitura de trechos da Bíblia em vez de perguntas da plateia.

Não só há crucifixos nas repartições públicas, como há pias de água benta nas entradas, para que aqueles que passam nos prédios do governo possam se benzer e fazer o sinal da cruz. Antes de começar os trabalhos no Senado ou na Câmara, os parlamentares se unem em oração e são ungidos com óleo santo para que possam governar sob os desígnios divinos.

A Bíblia faz parte do material escolar oferecido pelo governo e nem é preciso dizer que nas aulas de ciências os alunos aprendem criacionismo. Teorias que colocam ideias perigosas na cabeça dos jovens são completamente abolidas. De forma que é melhor ser pego com revista de mulher pelada do que ser encontrado com um livro de Darwin ou até mesmo do Stephen Hawking. Suspensão na hora e mais dez Pais Nossos de penitência.

Marcar presença em missas ou cultos não é obrigatório, mas pagar o dízimo é. Além de todos os impostos para saúde, educação e segurança, o dízimo passa a ser um imposto recolhido de todos os brasileiros para as igrejas. O “Deus seja Louvado” impresso nas cédulas não nos deixa esquecer a quem pertence aquele dinheiro. Deixar de pagar o dízimo é crime tanto quanto sonegar o imposto de renda.

O atendimento na saúde melhorou. Como não há médicos para todos, pastores atendem pacientes que podem ser curados em uma sessão de descarrego. Eles ainda não dispensam o trabalho dos médicos; mas se um doente é curado, se alguém que foi baleado consegue sobreviver, se um câncer consegue ser retirado, atribuem a cura ao poder das orações feitas nas salas de cirurgia. Camisinhas e anti-concepcionais deixam de ser distribuídos pelo governo, para não incentivar a promiscuidade. Em compensação, o exorcismo passa a ser um serviço oferecido pelo sistema público de saúde.

As mulheres não têm que andar todas cobertas, como naqueles países bárbaros. Não, imagina. Aqui, elas só são proibidas de usar blusas muito decotadas, saias curtas ou calças justas. Também não podem cortar o cabelo, porque expor o pescoço e a nuca é coisa de mulher vulgar, e cabelo curto demais é coisa de mulher masculinizada — coisas nada boas aos olhos de Deus. Mas é altamente recomendado que estejam sempre lindas em Cristo, bem ao gosto de seus maridos.

A criminalização do aborto é tratada com mais rigor. Mulheres que tentam ou realizam um aborto, não importa o motivo, são presas e depois levadas para serem apedrejadas em praça pública. Às vezes acontece de morrerem nesse processo, mas a defesa da vida deve estar em primeiro lugar, certo? Esse também é o castigo para mulheres adúlteras. Ou que fazem sexo antes do casamento. A submissão da mulher presente na Bíblia passa a ser parte da Constituição e um dos valores mais caros à teocracia do Brasil.

O culto a outros deuses passa a ser ilegal. Terreiros de candomblé são destruídos ou lacrados pela polícia. Já os ateus são presos e afastados da sociedade, para o próprio bem dela. E ainda têm que aguentar a visita diária de um testemunha de Jeová na cadeia tentando lhes converter.

Em vez da Voz do Brasil, as emissoras de rádio passam a transmitir a Ave-Maria. O que é um problema: os evangélicos, apesar de terem sua parte do domínio da mídia, não gostam nada disso. As disputas de poder deixam de ser entre partidos e passam a ser entre as correntes cristãs. Conflitos civis entre evangélicos, católicos e outras denominações eclodem nas ruas. No governo, quem tem a maior bancada garante seus interesses. Sob a proteção de Deus, o Brasil funciona em plena democracia: o que significa que ganha o religioso que gritar mais alto.

***

Não custa avisar: esse texto não passa de um delírio. Pura ficção. Afinal, uma teocracia à brasileira está bem longe de acontecer, né?

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Season finale da humanidade

05 de March 2013 por Valek

220 dias após o fim do mundo.

Em algum escritório com ar-condicionado no centro da cidade, um funcionário que não precisava usar gravata folgou um nó imaginário em torno do seu pescoço, na tentativa de diminuir a sensação de sufocamento, e pensou: “não vejo a hora de chegar sexta-feira”.

O negócio é que isso não fazia mais a mínima diferença. O mundo tinha acabado e o tão aguardado apocalipse foi rápido como um peido. Não foi um megaevento cheio de efeitos especiais, terror, ranger de dentes e meteoros salpicando as ruas, como a maioria esperava que fosse ser. E foi tão rápido e casual que a maioria nem percebeu.

Por algum motivo desconhecido por todos, o fim do mundo acabou caindo meses antes do previsto, fazendo com que todos continuassem esperando pelo apocalipse quando na verdade ele já tinha acontecido há tempos.

Este pequeno detalhe foi capaz de proporcionar um problema de dimensões trágicas que só não abalou o mundo porque, a esta altura, ele já tinha acabado.

Peço que me perdoe pelo inevitável spoiler, mas na história a seguir todos estão mortos. Algo que não será muito difícil de imaginar, já que você também está.

***

231 dias após o fim do mundo.

Solano acordou atrasado e se arrumou às pressas para ir ao trabalho. No caminho, furou um sinal vermelho. Chegou ao escritório de olhar baixo, pois não se lembrava se havia tirado as remelas da cara antes de sair, o que denunciaria o motivo de seu atraso. Ao ligar o computador, comentou que o trânsito estava uma loucura, que estava cada vez mais difícil ser pontual em uma cidade como aquela.

O chefe, que parecia estar esperando o funcionário há horas, mas que na verdade havia chegado há apenas dez minutos, apareceu diante de sua mesa passando mil tarefas que precisavam ser entregues em apenas duas horas. Na frente de todos, lembrou que o horário do expediente naquela empresa começava às oito. Solano pediu desculpas, de cabeça baixa.

Sua vontade mesmo era de mandar aquele desgraçado à merda. Que importava chegar uma ou duas horas atrasado, se precisava sair depois do horário quase todos os dias para dar conta da demanda monstruosa que lhe era incumbida? Isso sem receber hora extra e ganhando um salário de dar vergonha.

Então pensou no aluguel para pagar, no financiamento do carro, na mensalidade da pós, nas compras do mês. Não podia pedir demissão assim. Voltou sua atenção ao computador, desejando apenas que a sexta-feira chegasse logo.

***

237 dias após o fim do mundo.

Em um culto cheio de pessoas ardorosamente fiéis, um pastor falava sobre a misericórdia divina. Lançando perdigotos no púlpito, enfatizou que Jesus vai voltar, que o tempo está próximo. “Amém, amém, glória, aleluia”, respondiam os fiéis. “A hora de aceitar Jesus é agora! Só ele pode nos salvar da danação eterna, amém?”

Sueni agarrou sua Bíblia com fervor ao responder “amém”. Ela estava preparada para o retorno de seu salvador. Nesse dia, o mundo acabaria e quem não tivesse aceitado Jesus seria lançado ao sofrimento eterno, para pagar por seus pecados. Ela não. Ela seria arrebatada por seu deus misericordioso e viveria a eternidade, após o fim do mundo, na glória do senhor.

Mas seu espírito só viveria em paz se ela conseguisse converter o irmão e impedir que ele ardesse na fogueira de Satanás. Ele precisava se arrepender de sua vida tortuosa logo, antes que o mundo acabasse.

***

299 dias após o fim do mundo.

Seis da manhã e uma fila já se formava em frente a uma loja de celulares. Consumidores ansiosos para adquirir o novo telePhone se espremiam de frio e mordiam os lábios esperando a abertura da loja. “Quero ser um dos primeiros a ter o aparelho”, declaravam com entusiasmo aos repórteres. Ninguém sabia explicar por quê.

Em outro canto, um casal de namorados anunciava aos pais que a garota estava grávida. Como todos falavam dos preparativos para a chegada do bebê e ninguém mencionou casamento, a avó da garota, na outra ponta da mesa, apenas resmungou: “ninguém mais se preocupa com as tradições hoje em dia.”

Mais tarde, um jornalista de um grande portal publicava a seguinte notícia: “flagrada na praia, atriz Celina Monrone exibe dobrinhas e estrias”.

***

583 dias após o fim do mundo.

Um festival atraiu milhares de pessoas para uma cidade do interior. A festa, regada a música sertaneja e muita bebida alcóolica, chamou a atenção do país pelas orgias e loucuras que aconteceram lá.

O jornalista de um grande portal publicou uma matéria com o título “festa de música sertaneja vira grande suruba — veja as dobrinhas e estrias das mulheres que ficaram completamente nuas por lá”, que foi compartilhada por milhares de pessoas na internet.

A vovó viu o caso pela televisão enquanto tricotava e ficou impressionada com a inconsequência daqueles jovens. “A geração de hoje não se importa com o dia de amanhã!”

Sueni, aterrorizada ao saber da notícia, orou em línguas pedindo misericórdia. No juízo final, que aconteceria em um futuro conhecido apenas por seu deus, todos eles seriam castigados e punidos. Inclusive e principalmente aquela jovem que tirou toda a roupa e dançou nua em cima de um carro. A jovem e seus peitões lindos e macios seriam punidos, sim, seriam.

Aneta, a dona dos peitos, sinceramente não ligava. Continuou dançando.

Ninguém sabia, mas os poucos que perceberam que todos estavam mortos e que o mundo tinha acabado há muito tempo estavam nessa festa.

***

700 dias após o fim do mundo.

Solano já não se sentia bem há algumas semanas. Trabalhando demais, não teve tempo de ir ao médico. Resolveu ir quando estava cuspindo e vomitando sangue a cada vinte minutos, o que começava a afetar a sua produtividade.

O médico fez os exames e uma cara preocupante. Anunciou que a doença de Solano estava em estágio avançado, que ele precisaria ser internado para fazer o tratamento.

Na cama do hospital, Solano teve tempo para pensar. Qual era o objetivo de trabalhar tanto para consumir e pagar contas, se de repente deixaríamos de existir? Por que tanto apego à existência se sequer sabemos o que fazer com nossas vidas?

E então Solano revirou na cama, tentando ver o lado positivo da situação. Afinal, poderia ter sido pior, ele pensou. “O mundo poderia ter acabado antes de eu ter sido promovido, na semana passada.”

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Cansado de ser chamado de reacionário?

14 de October 2012 por Valek

Sente saudades de um tempo que já se foi? Não sabe explicar para o seu filho por que o coleguinha tem dois pais ou duas mães, e não uma família como deve ser? Lamenta que pobres e negros possam entrar nas universidades, concorrendo a vagas que sempre foram suas? Cansado de ser chamado de reacionário por uma gente maluca que quer mudar coisas que para você estão ótimas? Pare de se chatear. Seus problemas acabaram!

Volte a viver em um tempo em que todos sabiam o seu lugar: o da mulher, na cozinha; o do negro, na senzala; o do gay, no armário; e o do pobre, bem longe de você! Agora isso é possível, com a nova Retro-Machine.

Desenvolvida pela Status Quo S.A. especialmente para você, a Retro-Machine permite que você viaje no tempo e volte para a época em que todos os privilégios eram seus e não era  preciso se preocupar com manifestantes querendo mudanças, já que seriam todos recebidos na porrada.

Usar a Retro-Machine é muito fácil: entre na elegante cabine projetada para todos os tamanhos e ajuste a data desejada no painel. Quer viver em uma sociedade onde mulheres que não seguiam a moral e os bons costumes eram queimadas em enormes fogueiras? Fácil! Gire o indicador do tempo para trás, até o painel mostrar o ano de 1450. Não quer se preocupar em dividir seu lugar na sociedade com negros? Ajuste o indicador de tempo para mostrar o ano de 1540.

A viagem é confortável e dura apenas alguns minutos. Você também pode acionar a função Ab-Shaper da cadeira para definir o seu abdômen e perder algumas calorias sem fazer esforço enquanto viaja. Não é incrível? O melhor é que, depois de usar, basta dobrar a Retro-Machine e guardar debaixo da cama. É super compacta!

Pare de perder tempo tentando converter gays e volte para um tempo em que eles não tinham coragem de se assumir. Adquira já a sua Retro-Machine e livre-se do incoveniente de lutar contra as mudanças da sociedade!

Viaje para a época em que a igreja tinha a última palavra, ou para o tempo em que mulheres não tinham voz. Viva em um mundo sem cotas para isso ou para aquilo, onde quem fazia as regras eram coronéis e fazendeiros! Ou ainda explore os ajustes pré-definidos como “Bons Tempos da Ditadura”, “A Terra Não É Redonda”, “Só Homens Ricos Sabiam Ler” e o incrível “Catequize e Escravize um Índio”. Você vai adorar o século XV! Aproveite e fique por lá. Para sempre.

Ligue agora e peça a sua Retro-Machine. Os dez primeiros que ligarem receberão inteiramente grátis uma palmatória de 60 cm para usar em crianças indisciplinadas e o Guia do Reacionário Atemporal, com mais de 2 mil receitas para manter o status quo da sua época preferida. Frete grátis para todo o Brasil.

Retro-Machine. Porque algumas pessoas não pertencem a este tempo.

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Zerei mais um livro

25 de September 2012 por Valek

Não me lembro de ter lido um livro tão rápido desde Como a Starbucks Salvou a Minha Vida. Mas a leitura de Jogador Nº1, de Ernest Cline, é tão viciante quanto videogame: depois que você começa a jogar, não tem como parar antes de zerar.

Já disse que ando muito fã de ficção para adolescentes. Jogador Nº1, no entanto, não foi criado para ESTA geração de adolescentes. Quem foi adolescente na década de 80 vai curtir muito mais o livro e as inúmeras referências à cultura pop da época. Os adolescentes de agora vão curtir também: o livro é sobre uma juventude imersa em uma realidade virtual hiperconectada.

Essa realidade virtual é um sistema chamado OASIS, onde se passa a maior parte da história. OASIS é uma espécie de “Second Life”: as pessoas se conectam ao jogo, criam seus avatares, fazem compras e negócios, estudam, se relacionam, ou participam de missões e batalhas, como em “World of Warcraft”. Tudo isso em uma imersão bastante realista.

Aperte Start

A história começa quando o criador desse jogo, o multibilionário e geek James Halliday, morre. Em seu testamento, transmitido para o mundo todo via OASIS, Halliday revela que deixará toda a sua herança para quem encontrar um easter egg que ele escondeu no jogo. Para encontrá-lo e vencer o jogo, o jogador precisa encontrar as três chaves (de cobre, jade e cristal) e passar por três portões.

O detalhe é que Halliday viveu sua adolescência nos anos 80. Ele é um super nerd. Então é claro que as pistas e desafios para encontrar o easter egg são todas relacionados a jogos, filmes, bandas e personagens da sua década favorita.

Doidos para colocarem as mãos na fortuna de Halliday, aparecem milhões de “caça-ovos”, jogadores que passam a estudar obstinadamente sobre a cultura pop dos anos 80 e revirar o OASIS em busca de alguma pista.

Cinco anos se passam e ninguém encontra nada. Até que aparece um nome no Placar, indicando que alguém conseguiu chegar à primeira chave: Parzival. O nome do avatar de um rapaz de 18 anos que mora em uma favela às margens de Oklahoma. Wade Watts, narrador do livro.

É um jogo. Com páginas no lugar do joystick.

O mais legal de Jogador Nº1 é que a narrativa é mais parecida com um jogo de videogame do que com um romance. O leitor passa, junto com Wade, por vários desafios, sobe de nível, pega itens raros, participa de batalhas, faz aliados e quebra a cabeça para descobrir o significado dos enigmas deixados por Halliday. Exatamente como em um jogo de aventura.

Depois que Wade (Parzival, dentro do OASIS) consegue a primeira chave, começa uma disputa alucinante. Art3mis, Aech, Daito e Shoto são outros avatares que estão no páreo e ficam no topo do Placar a maioria do tempo.

O problema é que a “caça ao ovo” não é uma inocente brincadeirinha de adolescentes gamers. Há uma fortuna em jogo. A IOI (ai-ou-ai), uma corporação gigantesca e inescrupulosa, está disposta a tudo para vencer esse jogo. Cheia de recursos, trapaças e uma equipe inteira de especialistas, ela coloca avatares de seus funcionários dentro do OASIS (os chamados Seis) para encontrar o ovo e colocar as mãos na herança de Halliday.

Um futuro negro aguarda os usuários do OASIS se a IOI vencer o jogo. De posse do OASIS, a empresa pretende acabar com a liberdade dos usuários de usar o sistema de graça, restringindo assim o acesso de uma parte importante da vida das pessoas. Seria como alguém cobrar pelo uso do sol.

Muito mais que correr para ser o Jogador Nº1, os “caça-ovo” precisam vencer o jogo para impedir que a IOI tome o que lhes é mais precioso: o OASIS.

“Sair de casa é superestimado”

Uma das questões muito abordadas no livro é essa divisão entre “real” e “virtual”. Embora toda a construção da história leve a acreditar que existe essa divisão, pelo fato dos personagens criarem “avatares” com uma aparência bem diferente e não possuírem na vida real a mesma popularidade ou recursos que possuem no jogo, entre outras coisas, eu percebi que não: real e virtual são a mesma coisa.

E não apenas em Jogador Nº1. Podemos não ter um sistema tão sofisticado como o OASIS, mas vivemos imersos em uma realidade virtual. Criamos avatares para transitar por esse mundo, muitas vezes, drasticamente diferentes do que somos na vida real.

Acho que o livro acaba mostrando o quanto essas duas realidades estão conectadas. As ações de Parzival dentro do jogo influenciam o que acontece fora dele – até mesmo colocando em risco o próprio Wade. Da mesma forma, coisas que Wade faz no mundo real são determinantes para mudar o destino do jogo.

O que fazemos na internet também faz parte das nossas vidas. Insistir nessa separação entre real e virtual é negar que o que fazemos na internet nos define e tem o poder de impactar o mundo “offline”. É se apegar a uma visão bastante caduca. É abrir margem para que as pessoas fujam da responsabilidade de assumir as consequências do que fazem na internet. É não reconhecer que o chamado “ativismo de sofá” é sim capaz de mudar uma realidade. Porque se por um lado a internet é usada por pessoas irresponsáveis que disseminam ódio e preconceito, ela pode ser usada para disseminar informação – a arma mais efetiva para mudar a mente das pessoas.

Você, em algum nível, é seu avatar. A diferença é que, assim como quando Wade entra no OASIS e se torna Parzival, você tem poderes inimagináveis quando está conectado. A questão é: você também usa seus conhecimentos para lutar pelo mundo no qual você acredita?

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Quem me estuprou

10 de September 2012 por Valek

Hoje fui estuprada. Subiram em cima de mim, invadiram meu corpo e eu não pude fazer nada. Você não vai querer saber dos detalhes. Eu não quero lembrar dos detalhes. Ele parecia estar gostando e foi até o fim. Não precisou apontar uma arma para a minha cabeça. Eu já estava apavorada. Não precisou me esfolar ou esmurrar. A violência me atingiu por dentro.

A calcinha, em frangalhos no chão, só não ficou mais arrasada do que eu. Depois que ele terminou e foi embora, fiquei alguns minutos com a cara no chão, tentando me lembrar do rosto do agressor. Eu não sei o seu nome, não sei o que faz da vida. Mas eu sei quem me estuprou.

Quem me estuprou foi a pessoa que disse que quando uma mulher diz “não”, na verdade, está querendo dizer “sim”. Não porque esse sujeito, só por dizer isso, seja um estuprador em potencial. Não. Mas porque é esse tipo de pessoa que valida e reforça a ação do cara que abusou do meu corpo.

Então, quem me estuprou também foi o cara que assoviou para mim na rua. Aquele, que mesmo não me conhecendo, achava que tinha o direito de invadir o meu espaço. Quem me estuprou foi quem achou que, se eu estava sozinha na rua, na balada ou em qualquer outro lugar do planeta, é porque eu estava à disposição.

Quem me estuprou foram aqueles que passaram a acreditar que toda mulher, no fundo no fundo, alimenta a fantasia de ser estuprada. Foram aqueles que aprenderam com os filmes pornô que o sexo dá mais tesão quando é degradante pra mulher. Quando ela está claramente sofrendo e sendo humilhada. Quando é feito à força.

Quem me estuprou foi o cara que disse que alguns estupradores merecem um abraço. Foi o comediante que fez graça com mulheres sendo assediadas no transporte público. Foi todo mundo que riu dessa piada. Foi todo mundo que defendeu o direito de fazer piadas sobre esse momento de puro horror.

Quem me estuprou foram as propagandas que disseram que é ok uma mulher ser agarrada e ter a roupa arrancada sem o consentimento dela. Quem me estuprou foram as propagandas que repetidas vezes insinuaram que mulher é mercadoria. Que pode ser consumida e abusada. Que existe somente para satisfazer o apetite sexual do público-alvo.

Quem me estuprou foi o padre que disse que, se isso aconteceu, foi porque eu consenti. Foi também o padre que disse que um estuprador até pode ser perdoado, mas uma mulher que aborta não. Quem me estuprou foi a igreja, que durante séculos se empenhou a me reduzir, a me submeter, a me calar.

Quem me estuprou foram aquelas pessoas que, mesmo depois do ocorrido, insistem que a culpada sou eu. Que eu pedi para isso acontecer. Que eu estava querendo. Que minha roupa era curta demais. Que eu bebi demais. Que eu sou uma vadia.

Ainda sou capaz de sentir o cheiro nauseante do meu agressor. Está por toda parte. E então eu percebo que, mesmo se esse cara não existisse, mesmo se ele nunca tivesse cruzado o meu caminho, eu não estaria a salvo de ter sido destroçada e de ter tido a vagina arrebentada. Porque não foi só aquele cara que me estuprou. Foi uma cultura inteira.

Esse texto é fictício. Eu não fui estuprada hoje. Mas certamente outras mulheres foram.

Pré-FAQ dos comentários

Meu sentido aranha me diz que irão aparecer comentários do tipo “Absurdo! Você está querendo dizer que todos os homens são estupradores!” Se você pensou em comentar algo do tipo, pense outra vez. O texto não diz isso. Eu não acredito nisso. Talvez o seu esforço em vir argumentar a favor da sua inocência e/ou de outros homens, além de desnecessária, seja apenas a forma que você encontrou de não encarar a questão principal. Que a cultura do estupro existe e está firme e forte. E que você pode até estar contribuindo para alimentá-la, de alguma forma. Espero que não. Mas pense um pouquinho.

Agora, se você vier comentar “onde anda o bom humor? não se pode mais fazer piadas nesse mundo”, por favor, só PARE. Se você acha engraçado piada sobre estupro, eu tenho nojo de você. Pode sair daqui.

Ainda podem aparecer comentários do tipo “mas homens também são vítimas de estupro!” Sim, você está certo. Só que as maiores vítimas de estupro são crianças, gays e trans*. A menos que você viva em zonas de guerra, se você é um homem cis e hétero, você provavelmente nunca vai saber o que é a ameaça diária de estupro. Pode comemorar. É sério.

Se você quiser entender mais sobre a cultura do estupro, tenho alguns textos para indicar. Boa leitura.

Estupro: o que é, como não fazer
Cultura do Estupro? Não, imagine!
Parem de culpar a vítima!
A disseminação da cultura do estupro

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E se você fosse invisível?

26 de August 2012 por Valek

O primeiro debate polêmico no qual me envolvi foi sobre qual superpoder seria o melhor. Entre se teletransportar e ser intangível, pareceu óbvio para mim que a intangibilidade seria um poder mais interessante. Poder atravessar paredes e, ao mesmo tempo, nada atravessar você. Uma bala de revólver ou de canhão passaria pelo seu corpo como se, na verdade, você não estivesse ali. Sensacional.

Bem, há quem discorde.

Mas não tenho dúvidas de qual seria o pior superpoder de todos. A invisibilidade. Aliás, ser invisível é uma boa definição do que é não ter poder nenhum.

“Ah, mas se eu fosse invisível, eu poderia fazer o que eu quisesse”. Tipo invadir o vestiário feminino? Ok. Tem gente que até se diverte com a ideia de espiar os outros ou de não ser notada quando lhe convém, como se a “vantagem” de poder ver seios de desavisadas ou de mexer nas coisas do seu chefe, por si só, tornasse esse poder o máximo.

Amigo, deixe que eu conte algo sobre a invisibilidade que talvez você não saiba.

Ser invisível é mais que ser um fantasminha que sai por aí para aprontar todas. Ser invisível é, literalmente, não ser visto. É ninguém notar você. Você consegue entender a dimensão da coisa? É mais ou menos como não existir, com a diferença que você existe.

Se você é invisível, você não pode se ver representado em lugar nenhum. As novelas não terão personagens como você, os jornais não mostrarão notícias sobre você, a sociedade não irá considerar você o padrão de nada. Se você é invisível, você não pode ser o padrão de beleza. Porque as pessoas bonitas que a TV mostra só são consideradas bonitas porque não são como você. Porque se fossem, também seriam invisíveis.

Pode até parecer óbvio, mas se você é invisível, você não tem visibilidade nenhuma. Nem na rua, nem na mídia, nem na sua própria língua. As palavras usadas para definir você desaparecem. Elas até existem, mas outras são usadas no lugar. Isso garante que você não seja visto nem em livros de História, nem em documentos importantes, nem em notícias, nem no mais safado dos discursos políticos.

O fato mais perverso sobre a invisibilidade é que, assim como ninguém nota a sua presença, ninguém dá conta da sua ausência. Se você é invisível, ninguém vai notar que você não ocupa um cargo de poder. Ninguém vai perceber que você não é presidente. Ninguém vai reparar que você não está na TV. Ninguém vai notar que você não está na universidade. Ninguém vai perceber que você não é e nunca vai ser um professor universitário. Ou a pessoa mais rica do mundo.

Se você é invisível, você não tem direitos constitucionais garantidos. Ainda que a Consituição diga que todos têm direitos iguais (e você estaria incluso nesse “todos”), é impossível alguém aplicar tais direitos em seu favor, já que ninguém enxerga você.

Se você é invisível, você também não tem voz. É claro que você não fica mudo; a invisibilidade só impede as outras pessoas de verem você. Mas, se você é invisível, as pessoas não irão escutá-lo. Você pode falar, pode gritar, pode espernear. Elas vão olhar confusas para os lados e se recusar a acreditar no que você estiver dizendo. “Devo estar louca, estou ouvindo vozes”. E vão voltar a dirigir seus carros, navegar na internet ou a resolver os problemas de suas vidas, sem ver que você estava ali, bem na frente delas.

Se você é invisível, as pessoas podem pisar no seu pé, meter uma cotovelada na sua boca, atropelar você e não vão se sentir mal com isso. Nem vão precisar pedir desculpas. Elas não veem você, puxa.

Ser invisível é uma merda. O pior é que não há nenhum impedimento para as outras pessoas verem você. Só que elas preferem não ver você. Elas vão fazer de tudo para que você não seja visto. Porque a invisibilidade não é o poder de quem é invisível. É o poder de quem não é.

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A realidade não tem graça

17 de August 2012 por Valek

Eu não sou mutante. Eu não faço parte de nenhuma liga de super-heróis. Também não saio por aí combatendo o crime sozinha. Eu não ganhei na loteria. Eu não troco correspondências com nenhum habitante do planeta Kepler 22-B. Para falar a verdade, eu nunca conheci nenhum alienígena.

Eu não tenho uma cauda. Eu não sou Jesus Cristo reencarnado. Ou Buda. Ou Saramago. Não tenho nenhum amigo que tenha nascido há mais de cinco mil anos. Também não conheço ninguém que tenha conseguido a imortalidade e depois enlouquecido por não conseguir morrer. Eu não sou uma espécie pré-histórica recentemente descoberta nos esgotos de uma grande cidade. Também não conheço ninguém que tenha feito uma descoberta do tipo.

Eu não acordei transformada em uma barata. Eu nunca viajei no tempo. Nem para a época em que essa terra era dos índios e dos espíritos da floresta, nem para daqui a seiscentos mil anos, quando provavelmente haverá algo que valha a pena ser visto.

Eu não moro em uma casa assombrada por demônios vingativos que derrubam panelas e vestem as minhas roupas para aparecer de madrugada nos corredores. Eu não vejo dinossauros pela minha janela enquanto trabalho. O governo não está trabalhando em uma vacina para conter a epidemia que faz as pessoas perderem os sentidos gradualmente, começando com o olfato e indo até a visão.

Por isso, eu fico esperando encontrar alguém que me conte coisas assim. Mas eu leio os blogs e ninguém fala sobre pessoas que não existem. Todos parecem interessados demais na realidade, em diálogos que aconteceram, em pessoas que conheceram, em notícias que os jornais deram.

Um cara muito famoso uma vez disse que a ficção existe para que a realidade não nos destrua. Algo mais ou menos assim. Não que a realidade não nos sirva; ela apenas não tem graça. Quer dizer, até tem. Porque podemos viver em um mundo que não tem lobisomens ou super-heróis, mas o sentido de viver nesse mundo é justamente poder inventar tudo isso.

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Zen Gatismo

18 de July 2012 por Valek

Gatos, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não dormem cerca de 16 horas por dia. Gatos tendem a ser mal compreendidos e seu estilo de vida é geralmente confundido com preguiça. O que não é verdade. Gatos são, na verdade, adeptos de uma prática muito antiga conhecida como Zen Gatismo.

O Zen Gatismo não é uma religião, porque gatos são ateus, naturalmente. Também não é uma filosofia, nem um movimento de vanguarda, nem uma terapia para acalmar os nervos e ser mais bem-sucedido na carreira. O Zen Gatismo é um estilo de vida. O Zen Gatismo é a própria essência da gatice do ser, pouco compreendida ou solenemente ignorada pelos humanos em sua infinita ignorância e em sua completa imersão em uma rotina estafante de trabalho.

Quando os gatos parecem dormir, estão na verdade meditando. São capazes de ficar horas parados na mesma posição embolada ou contorcida, esbanjando um contorcionismo que apenas praticantes do Zen Gatismo são capazes de reproduzir — e com a mente absolutamente esvaziada de preocupações sem sentido, como a fatura do cartão de crédito, o trânsito, a declaração do imposto de renda, as pilhas de trabalho acumuladas no escritório, as tretas nas redes sociais ou o que preparar para o almoço amanhã.

Libertos de todas essas inquietações inúteis e passageiras, os gatos conseguem se conectar com a realidade em estado puro: ontem não éramos, hoje somos, amanhã não seremos mais. A vida é curta, e para os gatos isso significa menos de 20 anos. Sim, a vida é curta demais para se ocupar com o que não é importante. Então eles se acocoram em outra posição e continuam a meditar.

No Zen Gatismo, não existe a separação entre o corpo e a mente. Tão importante quanto manter a mente em forma, é trabalhar o corpo com o mesmo afinco. Por isso, ao terminar a sessão de meditação, os gatos lentamente se espreguiçam, alongando o corpo inteiro. Da ponta da cauda à ponta da língua, que se estica para fora da boca ao mesmo tempo em que o gato forma um arco perfeito com seu tronco.

Afiar as garras faz parte do ritual. E os gatos se entregam com total dedicação a cada ritual envolvendo o corpo. A limpeza, uma tarefa muito importante no Zen Gatismo, é um bom exemplo: um gato pode levar 5 horas por dia lambendo os próprios pelos.

O prazer, para os gatos, não é apenas carnal; chega a ser uma experiência espiritual. Um carinho na barriguinha ou uma coçadinha atrás da orelha são capazes de deixá-los em transe. Essa relação tão forte e sensorial com o corpo faz com que os praticantes do Zen Gatismo sejam experts em massagem. Eles sabem exatamente em qual ponto tocar e quanta pressão colocar em suas patas macias para proporcionar extremo relaxamento.

Gatos têm um controle e um conhecimento do próprio corpo que os humanos não teriam nem em seis ou sete vidas. É por isso que humanos não conseguem pular tão alto, escalar com tanta facilidade, enxergar tão bem no escuro, ouvir até uma agulha caindo do outro lado da sala, ser tão flexíveis ou ainda se mover com tanta leveza.Todas essas habilidades felinas foram conseguidas com muito treino, seguindo rigorosamente as práticas do Zen Gatismo.

Certamente, os humanos têm muito a aprender com eles. O Zen Gatismo contém uma lição inspiradora para uma vida mais simples, prazerosa e desapegada de bens materiais. Mas, ainda assim, vai ser difícil alcançar o nirvana experimentado pelos felinos. Os gatos são muito superiores: eles não têm internet.

Monaustê.

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