AlineValek

A espiã que sabia que era demais

26 de April 2012 por Valek

Amanhã, como todos sabem, é a estreia do filme Avengers, mais uma produção milionária que leva o universo dos quadrinhos da Marvel para os cinemas. Eu não estava tão empolgada, e, para falar a verdade, eu estava com um medinho de assistir o filme. Motivo? A minha personagem favorita de todos os tempos estaria nele, e as superproduções para o cinema costumam decepcionar os fãs mais fervorosos.

O negócio é que eu vi o filme (em uma espécie de pré-pré-estreia) e me surpreendi. O filme envolve, as cenas de luta são incríveis, a construção dos personagens ficou excelente (Mark Ruffalo destruiu como Hulk e sambou na minha cara por eu ter achado que ele não ia conseguir) e não me decepcionei com a participação da Viúva Negra na história, que acabou sendo mais importante do que eu imaginava. É claro que não fiquei 100% satisfeita: os primeiros segundos de Natasha Romanoff na tela me irritaram profundamente (quem assistir vai descobrir o porquê).

Mas o filme foi só um pretexto para eu escrever sobre a personagem que Scarlet Johansson interpretou tão brilhantemente (embora eu tenha demorado a me acostumar com a ideia; achava que Scarlet tinha muito mais a ver com Yelena Belova do que com a Romanoff, e, bem, eu nutro uma certa antipatia pela substituta da Viúva Negra).

Yelena Belova, a nova Viúva Negra

A ruiva Natasha Romanoff (ou Romanova) surgiu nos quadrinhos em 1964 e chuta traseiros desde então. Nasceu em Stalingrado e foi onde quase morreu, ainda bebê: nazistas atearam fogo à sua casa, e sua mãe, para salvá-la, arremessou-a pela janela. Assim parou nas mãos do soldado russo Ivan Petrovitch, que passou a protegê-la e treiná-la. Ela cresceu, desenvolveu suas habilidades e logo foi convocada para a KGB – pouco depois de receber a notícia que seu primeiro marido, o piloto de testes Alexi Shostakov, teria morrido em missão.

Treinada para ser letal, teve sua performance física aperfeiçoada quimicamente pelos russos e foi condicionada psicologicamente para ser essa espiã durona que conhecemos. Perita em artes marciais, atiradora de elite, hacker, estrategista, expert em espionagem, disfarce, infiltração, não há nada em que Romanoff não seja boa. Praticamente uma lenda na academia de espionagem Red Room. Isso até descobrir que era só uma das 27 agentes Viúvas Negras infiltradas durante a Guerra Fria – e a única que sobreviveu.

Demolidor: só um dos vários heróis que caíram na teia - e na cama da espiã.

Sua entrada no Avengers aconteceu só em 1967, e foi a 16ª a integrar o grupo. Mas essa vida heróica não faz muito seu estilo, e, na maior parte do tempo, é uma agente freelancer da S.H.I.E.L.D.

Por que a Viúva Negra é tão foda?

Ela é uma versão femme fatale do Batman. Não tem super poderes e sua maior arma é sua inteligência. Pode não ter a fortuna de Bruce Wayne, mas é uma lutadora tão escrota quanto ele, além do jeitão de poucos amigos, a atuação geralmente solitária e o gosto por roupas pretas.

"Apenas pense em mim como mais um dos caras maus. Porque, basicamente, é o que eu sou."

Mas, diferente do Homem Morcego, ela é coadjuvante na maioria das histórias. A Viúva Negra só ganhou sua própria série de quadrinhos em 1999, com Web of Intrigue. Em 2001, Romanova e a jovem espiã Yelena Belova protagonizaram o arco de histórias Black Widow: Breakdown. Em 2005, foi a vez de Black Widow: The Things They Say About Her (a que estou lendo atualmente).

Cena da melhor história da Viúva Negra

Mas sem dúvidas a melhor série da Viúva Negra foi Itsy-Bitsy Spider, de 1999. Escrita pela roteirista Devin K. Grayson e com o traço incrível do artista J.G. Jones, a história traz uma Natasha Romanoff em fim de carreira, escalada para uma missão no Oriente Médio, onde precisa descobrir sobre uma nova biotoxina que transforma soldados em exterminadores enfurecidos, que matam tudo e todos ao redor até definharem, consumidos pela droga, poucos minutos depois. O negócio é que os militares russos parecem interessados na droga, e enviam a espiã Yelena Belova para interceptá-la. É então que a velha Viúva Negra encontra-se com a nova Viúva Negra, e Natasha Romanoff confronta mais do que uma rival, mas uma crise de identidade. Recomendo altamente.

O que me entristece é que não basta a personagem ser tudo isso que a Viúva Negra é e ter um background riquíssimo, ela ainda estará em segundo plano no mundo dos quadrinhos, onde quase sempre é reconhecida como apenas mais uma gostosa.

Avengers: todos fazendo poses heróicas, enquanto a Viúva Negra mostra... a bunda. E se fosse o contrário?

E a vida para as super heroínas não está nada fácil. Quantos filmes, das atuais adaptações dos quadrinhos para o cinema, foram protagonizados por mulheres? Da Marvel, temos a Elektra – que, cá pra nós, não chegou nem aos pés das histórias em quadrinhos. Sem falar que o filme faz parte daquela safra de produções que cagaram todos os super heróis. Da DC, temos a Mulher Gato – outra personagem sensacional completamente desperdiçada. O filme é tão pífio que nem vale a pena comentar. Por outro lado, filmes com heróis (homens, claro) não param de ser lançados – e ganham até sequência (Homem de Ferro, só pra citar um exemplo).

Dos Avengers, todos os integrantes tiveram seu próprio filme, menos um. Adivinha qual? Sim, a Viúva Negra. E olha que eu tinha grande esperança da personagem ter um filme só dela (a própria Scarlet ainda espera isso). Mas quem sabe não role? A Scarlet Johansson fez um trabalho tão bem feito que voltou a alimentar minhas esperanças de ver a Viúva Negra estampando um cartaz de cinema – dessa vez sozinha e, espero, com uma pose menos sexualizada.

 

Leia também:

She Hulk

Mulheres nos quadrinhos - Pt. 1

Mulheres nos quadrinhos - Pt. 2

 

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Minha própria season finale

21 de December 2011 por Valek

Foi difícil, mas terminei. E não falo apenas da faculdade, mas de outra coisa que tumultuou a minha vida: o meu trabalho final. Para quem ainda não sabe, meu projeto de conclusão de curso, em dupla com o Cavi Loos, foi a produção de uma temporada piloto de cinco episódios para um seriado de internet. Isso porque eu sou maluca e encarei o desafio de fazer algo que não domino, correndo todos os riscos possíveis, só para experimentar algo diferente.

Ainda penso que podia ter escolhido a segurança de ter feito algo que eu já faça bem para garantir a qualidade do resultado. Mas aprender a trabalhar uma narrativa audiovisual valia o risco. E olha que não foram poucos: corremos o risco de não conseguir terminar tudo a tempo da entrega, e sequer tínhamos a garantia de uma boa nota (embora, no final das contas, tenhamos tirado a nota máxima).

Da criação do roteiro ao fim das edições, foram uns três meses. Para imaginar a correria, considere ainda que as gravações das cenas dos cinco episódios foram feitas em apenas seis dias (dois finais de semana mais dois dias), sem verba alguma, e que todo o trabalho, que precisaria de uma equipe de, no mínimo, 14 pessoas, foi feito por uma equipe de 4 pessoas. Eu diria que foi um milagre, se eu acreditasse nisso. Mas foi mesmo um puta trabalho e dedicação dos envolvidos, tanto da equipe quanto dos lindos do elenco.

Agradeço a cada um deles não só por terem ajudado o seriado a acontecer, mas principalmente pelo aprendizado. Entre tantas coisas, posso destacar o que aprendi com o Caio Lins, diretor de elenco, em relação à construção de personagens. Foi incrível observar ele orientando os atores, mostrando grande intimidade com os personagens que criei, como se ele mesmo os tivesse criado – aliás, como se eles existissem mesmo. A liberdade do elenco ao construir os personagens com a interpretação me fez perceber que só quando o criador perde o controle de sua criação é que ela ganha vida. Isso com certeza vai me ajudar a escrever histórias com personagens mais vivos e convincentes. E é claro, também aprendi com os inúmeros erros. É, parece clichê, mas é isso mesmo: é com eles que a gente aprende.

Por isso, estou disponibilizando o roteiro para download (é só clicar aqui). Sei que existem uns malucos que leem de tudo e também vão querer ler isso. O que é ótimo, porque comentários e críticas serão muito, muito bem-vindas. Sério, me escrevam. Tenho certeza que posso aprender com vocês também.

Ah, e o mais importante: vocês podem ver os episódios no canal do Não Repara a Bagunça no YouTube. A temporada piloto está sendo publicada durante esta semana: todo dia, um novo episódio, às 17h. Assinem o canal, é mais fácil. Alguma coisa nesse processo todo tinha que ser, né? ;)

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Whatever happened, happened

28 de June 2010 por Valek

Post sobre Lost tá sempre em tempo. Certo, Faraday?

O que posso dizer sobre Lost sem ser, de cara, passional demais? Foram seis anos de uma história que fez jus ao seu nome do início ao fim. Começou com personagens perdidos em uma ilha, que depois ficaram perdidos no tempo, fazendo a série perder audiência, sem antes deixar os fãs perdidos no meio de tanto mistério, terminando com roteiristas mais perdidos que todo mundo até agora – e com o sentimento que a gente perdeu tempo assistindo.

A série dividiu opiniões e foi uma divisora de águas, sendo a percursora de uma mudança na forma de pensar e consumir entretenimento. Ok, até pode não ser um bom exemplo de fechamento de narrativa, que definitivamente não correspondeu a todo o potencial que a série possuía no início, mas sem dúvidas Lost foi um dos cases mais bem sucedidos de transmedia storytelling. Não tiro a razão de quem esbraveja contra a habilidade narrativa dos condutores da história (até porque faço parte do time que nutre um sentimento de revolta desde que começou a última temporada), mas é inquestionável: há algum mérito em fazer com que uma pessoa permaneça ligada a uma série televisiva durante cinco anos consecutivos e VIVA (sim, viva, e não apenas assista) uma história com tanta intensidade durante todo esse tempo.

Elenco de Lost reunido

Não vou chover no molhado e ficar discorrendo longamente sobre cada furo da sexta temporada e sobre o nível juvenil da narrativa, coisa que o Gravataí já fez melhor aqui e aqui. Só quero expor uma análise dos pontos principais, sob a perspectiva da narrativa (além de deixar claro que detestei e que não houve um momento em que não pensei que a autoria do roteiro houvesse sido passada para um grupo de adolescentes com sério déficit de neurônios. Essa de purgatório e igrejinha no final para irem juntos para o céu não colou. Por mim, se os jovens da Caverna do Dragão se cruzassem com os heróis de Lost para todos irem juntos para casa, o final ia ser muito mais convincente).

Apesar de já estar meio capenga na quinta temporada, acho que a história podia ter terminado por ali mesmo, com a explosão da bomba H. Não ia ter respondido metade do que a sexta temporada tentou porcamente fazer, mas ia ser um final digno. E convenhamos, ia fazer mais sentido.

What lies in the shadow of statue? Taí uma pergunta que seria melhor não ter respondido. Jacob? Não, obrigada.

Acredito que o maior erro dos roteiristas foi tentar explicar todos os mistérios que haviam criado para a ilha. A pressão devia estar forte para o lado deles, pois o dinheiro está sempre no banco do motorista e os produtores executivos precisavam chamar de volta os espectadores, com a promessa de que todos teriam as respostas que queriam. Tá certo que era uma expectativa geral, todo mundo assistia o capítulo seguinte na esperança de encontrar uma explicaçãozinha que seja, mas as coisas eram melhores quando NÓS, os espectadores, chegávamos nas respostas. Na sexta temporada, o caminho se inverteu, e foram as respostas que começaram a chegar até nós, de uma forma bem forçada, diga-se de passagem. Saber construir, e acima de tudo, manter perguntas na cabeça do espectador é a principal arte de quem escreve suspense. E é uma linha tênue: perguntas demais confundem e aborrecem o leitor, sem falar que podem acabar em frustração se não forem satisfatoriamente respondidas no desfecho. Eu particularmente, acho muito mais provocante e envolvente uma história que deixa um final em aberto, para que eu participe da história com a minha própria imaginação. E quantas perguntas eles não trocaram por respostas rasas, quando não por sumários pontos finais?

A Iniciativa Dharma dava um gostinho especial para a série.

O que nossos ilustres escritores lostianos fizeram foi justamente o que todo mundo faz quando já não consegue explicar nada racionalmente: parte para o mítico, o sobrenatural. Lost era a representação perfeita do gênero sci-fi fantasy, equilibrando bem essas duas vertentes até desandar e deixar o sci-fi perdido no meio do caminho, provavelmente em algum dos lapsos temporais decorrentes dos soluços espaço-temporais da ilha. Se essa historinha de céu e purgatório já não colou, imagina então o Jacob, que fez papel de figura divina da ilha, como protetor de uma espécie de fonte sagrada da vida . Perceba que essa consciência de que existia uma força poderosa na ilha já está presente desde o início, e apenas se reforçou na segunda temporada, em que apareceu a Iniciativa Dharma. Tanto nesta fase quanto no final, temos essa fonte de “poder”, alvo de muita cobiça e envolta de mistérios. A diferença é que no início esse mistério dava muito mais pano para manga, e ao mesmo tempo em que nos enchia de perguntas, ia mostrando o significado e o porquê daquilo tudo, através das experiências científicas envolvendo eletromagnetismo, meteorologia, parapsicologia e zoologia (sim, eu sou uma fã da fase Dharma); enquanto no final a “grande explicação” se resumiu em dizer que todo esse poder vinha de uma gruta com uma água mágica e uma rolha que se tirada do lugar destruíria a ilha e libertaria todo o mal. Totalmente desnecessário.

Outro grande ponto que a série tinha conseguido desenvolver, até estragar tudo na sexta temporada, eram os personagens. A relação entre eles, a motivação de cada um e a relevância deles para a história, era tudo muito consistente. Poucas vezes tive contato com personagens tão profundos e bem construídos quanto os sobreviventes do vôo 815, assim como os Outros (afinal, Juliet e Ben figuram entre os melhores personagens da série na minha opinião, juntamente com Desmond e Faraday). Mas para que eles se perdessem (no sentido narrativo) foi um pulo. O casal Jin e Sun teve uma participação inexpressiva, Sawyer não deixou nem pálida sombra do que já foi um dia, Ben abandonou os mind games que o consagraram como vilão dos bons e velhos tempos de Dharma, Richard (ou Ricardus) mostrou ser nada mais que um cagão que nunca teve relevância no grande esquema da ilha, Sayid virou um zumbi (ponto), e nem Widmore cumpriu as expectativas do personagem poderoso e com moral para acabar com toda aquela história que ele parecia ser. Tudo isso para que Jack pudesse aparecer mais, e olha que ele conseguiu ficar ainda mais seboso e cansativo do que já era.

Se vir esses caras na rua, pode bater. O roteirista Carlton Cuse com o roteirista e criador Damon Lindelof

Aí vai a gota d’água: o detalhe é que os roteiristas não sabiam o que estavam fazendo. Rá, e todo mundo achando que eles tinham tudo friamente calculado desde o início. Coisa nenhuma. Olha só essa entrevista que encontrei, com JJ Abrams, um dos roteiristas e criadores da série:

O final da série é aquilo que você pensou que fosse ser desde o início?

JJ: Ah, de jeito nenhum! Há pequenos temas e elementos espalhados, mas a verdade é que quando começamos não sabíamos exatamente o que havia na escotilha. Tínhamos ideias, mas não sabíamos até onde poderíamos explorá-las. A noção sobre o papel dos Outros existia, mas não sabíamos exatamente o que eles significariam. Àquela altura Damon ainda não havia tido a ideia do flash forward. Ver onde chegamos e o que eles criaram é muito gratificante e algo que ninguém poderia prever no início de tudo.

Certamente haviam inúmeras possibilidades de terminar melhor essa história. Mas assim como eles não puderam prever o futuro da série, também não é possível voltar no tempo e tentar consertar a lambança. E para o fim dessa era Lost, que vai deixar muita saudade de uma história bem contada, assim como muita revolta de um final mal contado, só tenho uma coisa a dizer:

See you in another life, brotha.

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Alan Moore e a falta de imaginação do cinema

07 de February 2010 por Valek

Gaiman e Moore

A estreia de Avatar, de James Cameron, e seu consequente sucesso de bilheteria trouxe uma série de críticas por ser um filme “sem história”. Mas como esse é um assunto tão last month, não pretendo entrar muito nesse mérito, embora eu acredite que é preciso saber separar uma história que eu não goste de uma história que non ecziste. E francamente, a história de Avatar está ali. Não é a mais original, uma história que se diga “noooossa que genial, até gozei!!”, mas a história não só existe como está acompanhada da construção de um universo exuberante e completo para que ela acontecesse.

Já disse que não é sobre isso que pretendo falar, né?

Apenas mencionei pois foi justamente isso que me lembrou de uma entrevista do Alan Moore que encontrei na época em que Watchmen estava sendo adaptado para o cinema, e até cheguei a postar em meu antigo blog, o Histórias Esquecidas.

Junto dela, também encontrei uma entrevista originalmente publicada na Inglaterra pela revista Knave, em 1900-e-eu-não-tinha-nascido-ainda, feita pelo Neil Gaiman (sim, o próprio) em sua época de jornalista (ninguém é perfeito), que contava como entrevistado ninguém menos que Alan Moore, criador de Constantinte, Monstro do Pântano, V de Vingança, A Liga Extraordinária, e tantos outros. Dispensando os óbvios comentários sobre o quanto o cara é foda, segue a entrevista em que Moore criticou a adaptação cinematográfica de Watchmen.

Concordam? Discordam? Acham que hoje em dia as pessoas estão mais exigentes em relação às histórias que veem no cinema? Ou que na verdade estão ainda mais preguiçosas, esperando que o filme já lhes dê as histórias prontas? A caixa de comentários é toda de vocês! ;)

Entrevista de Moore para a Wired, em tradução livre:

“(…)Acredito nos testes de Pentagon no final dos anos 80, em que os quadrinhos foram considerados o melhor meio de transmitir informação para alguém de uma forma que irão reter e se lembrar. Eu pessoalmente sinto – e isso é só uma besteira de hippie pseudo-cientista – sinto isso porque a unidade de circulação do que costuma ser chamado o lado esquerdo do nosso cérebro é a palavra. O lado esquerdo do nosso cérebro é relativo à nossa fala e à racionalidade. A unidade de linguagem para o lado direito do nosso cérebro, pelo contrário, seria a imagem, afinal, o lado direito é preverbal.

Talvez seja por causa da combinação de palavras e imagens numa forma de leitura que os quadrinhos têm este poder único. Agora, é claro, filmes são uma combinação de palavras e imagens, mas têm uma estrutura e um modo de trabalho completamente diferente.

Uma das minhas grandes objeções aos filmes, é porque são imersivos demais, e acho que isso nos transforma em pessoas preguiçosas e sem imaginação. A absurda duração que o cinema moderno e suas capacidades de computação gráficas conseguem alcançar para salvar a audiência de incomodar a si mesma de imaginar alguma coisa por si próprias, provavelmente causará um efeito de limitação na imaginação das massas. Você não tem que fazer nada. Com um quadrinho, você tem que fazer um bocado mais. Mesmo tendo figuras lá para você, você terá que preencher todas as lacunas entre os painéis, terá que imaginar as vozes dos personagens. Você terá um bocado de trabalho nisso; não tanto quanto um livro sem ilustrações, mas ainda assim, terá muito trabalho.

Parece que a audiência exige que tudo seja explicado para eles, que tudo seja fácil. E eu não acho que isso seja uma boa cultura. Eu me lembro do King Kong de Willis O’Brien e de outros artistas que tornaram coisas como essa possíveis. Sim, eu sabia como isso era feito. Mas parece tão maravilhoso. Hoje em dia, eu vejo um milhão de Orcs correndo pelas colinas e fico entediado. Não fico nem um pouco impressionado. Porque, francamente, eu poderia pegar qualquer um passando na rua que conseguiria criar os mesmos efeitos se dessem a ele meio milhão de dólares para fazê-lo. Isso remove a arte e a imaginação e coloca o dinheiro no banco do motorista, e eu acho que é uma equação bem lógica – em que há uma relação inversa entre dinheiro e imaginação.

A maioria dos filmes que vejo parecem ter o mesmo nível de desaprovação que esperam no nível da exibição pirotécnica. É tudo “ooh” e “ah”. Essas parecem ser as únicas respostas apropriadas à maioria dos filmes modernos. Acho que estamos entrando em um período de reavaliação cultural. Espero que seja verdade, porque acredito que se não estivermos, estamos em um período de condenação cultural. Temos que repensar essa coisa toda, e acredito que repensar nossa cultura é parte disso. Eu realmente espero que sim.”

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Sou só um menino vestido de lobo

30 de January 2010 por Valek

Ilustra do @gui_jotapê

Assim que Onde Vivem os Monstros (no original, Where the Wild Things Are) entrou em cartaz no cinema, resolvi me adiantar e dar uma lida no livro em uma dessas vezes em que tive que matar o tempo no shopping até a hora do almoço. Fui até a seção infanto-juvenil (definitivamente minha favorita) e peguei o livro de Maurice Sendak, em uma edição mais nova do original escrito em 1963. Ilustrações, de fato, encantadoras. Já quem achou que Avatar de James Cameron não tem história, ia ficar um bocado decepcionado. A história do livro de Sendak é no máximo um pretexto para as ilustrações. Conta as aventuras de Max, um menino desobediente que é mandado de castigo para o quarto por fazer bagunça. Começa a imaginar um mundo cheio de monstros onde ele possa reinar e agir como um, mas volta ao seu quarto a tempo de encontrar seu jantar quentinho. Um livro que você lê em dois minutos. Ok, em cinco, se der atenção a cada desenho. Mas não se pode exigir uma história muito elaborada de um livro feito para crianças em fase de alfabetização – e nisso, cumpre muito bem seu papel. É um livro que daria ao meu filho, sem dúvidas.

capa do livro

Então fiquei ansiosa para ver que tipo de limonada Spike Jonze faria deste limão. As imagens da prévia já haviam mostrado que o visual do filme seria tão fascinante quanto o do livro: monstros corpulentos, peludos, de feições monstruosamente simpáticas. Mas só quando estava devidamente acomodada na poltrona do cinema, é que percebi que a beleza da ambientação do filme ia muito além. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a trilha sonora. Geralmente, não presto muita atenção a este detalhe, não sou uma pessoa muito ligada ao sentido da audição. Mas  as músicas saltavam do filme, cantadas por vozes infantis tão sinceras, tão reais, dando ainda mais motivos para eu me envolver na história. E que história.

Max, interpretado por Max Records, é um caçula cheio de energia e imaginação ignorado por sua irmã mais velha, e que acaba tendo que se virar brincando sozinho. A cena dele brincando na neve e dando ordens à cerca me lembrou bastante o Calvin, outro garoto solitário e hiperativo que tem como único amigo imaginário um urso de pelúcia. A história sugere (entre outras inúmeras coisas que deixa apenas na sugestão) que o pai dele já está morto. A mãe de Max é uma mulher visivelmente cansada, que se desdobra no trabalho e passa por dificuldades em mantê-lo. Mas ainda assim é o único refúgio de Max – e ele, o dela. É para quem ele conta suas histórias, faz suas dancinhas engraçadas, é para quem guarda um lugar no seu refúgio contra a lava imaginária.

E então, quando sente essa sua zona de segurança ameaçada ao ver sua mãe se envolvendo com um homem, se rebela. É uma cena memorável a que veste sua fantasia de lobo, sobe em cima da mesa e grita “Feed me, woman!”. A mãe tenta controlá-lo (se já tivesse assistido Super Nanny saberia como lidar com isso), mas o garoto grita, esperneia e lhe morde com força. Quando percebe o que fez, fica desesperado e sai correndo pela rua, chorando, uivando e gritando. A mãe nunca consegue alcançá-lo. É dada uma enorme carga dramática a um momento do livro que se resumia ao castigo.

É de barco que ele chega aonde vivem os monstros. O mais curioso é que as criaturas têm nomes comuns (pelo menos para americanos), e não falam nenhum tipo de idioma estranho. Exceto pela aparência, falam e se comportam como nós – ou melhor, como nossas crianças. Isso fica bem claro quando Max, para se salvar de ser devorado por eles, os intimida dizendo que tem poderes e conta histórias de como explodiu a cabeça de vikings malvados. É engraçado como os monstros acreditam ingenuamente em cada palavra do garoto e até o nomeiam como seu Rei. É a beleza da mesma ingenuidade que levam as crianças a acreditarem com veemência nas histórias de fantasia que contamos a elas.

O filme não dá respostas prontas. De certa forma, é você quem cria sua história. Há muito espaço para você imaginar, e isso é o mais gostoso do filme. Ele no máximo sugere, e vai se desenvolvendo sobre o relacionamento de Max com seus novos amigos (ou súditos), baseado em diálogos incríveis e intensos justamente por serem singelos, com a simplicidade que a infância tem.

"There's one in all of us"

Mas é importante observar que cada personagem tem características muito marcantes e que nos revelam as muitas facetas de Max: Carol é o rebelde e impulsivo, o que levou o garoto a se identificar com o monstrão logo de cara. Judith é ranzinza, mal-humorada e meio agressiva, o que me levou a me identificar com ela logo de cara. Ira é o criativo, gosta de fazer buracos nas árvores como forma de expressão artística. Tem o Alexander, muito carente, sempre ignorado pelos outros. O Douglas é um grande companheiro; se você pudesse levar só uma coisa a uma ilha deserta, com certeza seria ele. Há também o touro, ele sequer chega a ser apresentado ao garoto;  é observador e tem um quê de melancólico. E há a KW. Ela desperta um sentimento diferente em Carol, o que nos leva a acreditar que eles já tiveram uma forte relação que agora se encontra em crise.

Como eu já disse, Max chega ao mundo dos monstros na metade dessa história: Carol está revoltado porque as coisas mudaram, e parece que isso só aconteceu depois que KW foi embora (por um motivo que ainda não cheguei a entender muito bem, mas tem a ver com corujas). Carol explica a Max: “Antes todos costumavam ficar juntos. Sabe, é como se você estivesse perdendo seus dentes um a um. Eles vão ficando bem separados, e quando você percebe, já não tem mais nenhum”. Isso me fez pensar na KW como algo de materno, e na relação entre ela e Carol como um equivalente à relação de Max e sua mãe. A zona de segurança. O refúgio.

E crescer se trata de deixar esse refúgio. Max está passando por uma fase de crescimento, e o que acontece no mundo dos monstros tem muito a ver com isso. “As coisas eram mais simples quando brincávamos de guerra de lama”, diz Ira. E ele tem toda a razão. Não era bem mais simples quando você não tinha que se preocupar com seu extrato bancário, com o fato de estar no cheque especial e não conseguir sair dele? As coisas não eram mais simples quando você podia se vestir de lobo e fingir ter poderes? Ou quando você não tinha que lidar com grandes responsabilidades como faculdade, trabalho, ou cuidar de uma família?

A crise que Max passa quando deixa sua casa surge do conflito de crescer e ter que deixar seu refúgio.  No mundo dos monstros, seu reinado é baseado em bagunça, inventar brincadeiras novas, construir uma grande fortaleza onde só acontece o que querem que aconteça. Um reinado para viver como criança com toda intensidade; mas não era o suficiente. Ser rei representa uma grande responsabilidade. O rei é responsável pelo sentimento dos seus amigos monstros, por cuidar deles, fazer com que sejam felizes. Quando percebe que não é capaz de tamanha responsabilidade, Max entende que não é um rei, e que nem tem grandes poderes. Que é só um menino normal vestindo roupa de lobo.

Um amigo disse que o filme é uma análise do comportamento infantil, e que seria mais fácil entender vendo dessa forma. Já eu digo que esse é um filme sobre imaginação (a do garoto e a nossa também), e que as coisas ficam ainda mais interessantes tendo isso em mente.

É um filme muito bonito, envolvente, e pode parecer esquisito se você estiver esperando uma história infantil convencional (ou qualquer tipo de história convencional). Não basta descrever, buscar as minhas interpretações e mostrá-las para dizer o quanto o filme é interessante. Recomendo que assistam e busquem suas próprias interpretações (se vierem aqui dividi-las comigo ficarei ainda mais feliz). Só há uma forma para descobrir afinal, onde vivem os monstros: ir você mesmo encontrar os seus.

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