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Sep/10

29

Uma história bem felina

Selo da campanha

Não é muito difícil perceber que sou fascinada por gatos. Uma tatuagem bem grande nas costas já entrega o jogo. Então é lógico que fiquei super entusiasmada quando descobri que hoje, dia 29 de setembro, seria o Cat Lovers Day. Um dia criado para que amantes de gatos pudessem manifestar sua admiração pelos felinos, através do Twitter e de seus blogs.

Meu avatar do dia

Além de participar desse evento trocando meu avatar no Twitter, resolvi aproveitar o dia especial para colocar algo igualmente especial aqui no blog. Quero compartilhar com vocês um trechinho de um projeto que comecei a escrever já faz um tempo, o livro Gatomancia, e como boa parte dos meus projetos, acabou engavetado (shame on me).

O Cat Lovers Day foi uma ótima oportunidade de tirar a poeira deste projeto. Admito que fiquei empolgada de novo e pretendo retomá-lo. E é claro que essa é uma ótima oportunidade de ver o que vocês acham desta prévia. Assim posso continuar a história de forma mais madura, eu espero. ;D

Não deixem de acompanhar o evento hoje através da tag #catloversday, do tumblr cheio de fofurinhas, e seguindo o perfil @catloversday. Boa leitura!

Gatomancia: Prévia

A casa das plantas na Rua 15 era como a cena de uma pintura. E quem passava podia ver, todos os dias, a mesma cena se repetir com uma precisão quase infalível. Desde que Dona Rute passou a morar na casa que, por incrível que pareça, existia atrás daquele jardim emaranhado, ela seguia um roteiro bem previsível. Da casa para o mercado, do mercado para casa. Um trajeto em linha reta cumprido religiosamente.

Dona Rute tinha todo o jeito de ser uma daquelas senhoras de idade que iam à igreja. Mas ela nunca foi vista na igreja. Era vista colocando água nos vasos de planta, podando as roseiras, examinando os pés de romã. Essa era sua rotina, e fazia tudo com uma lentidão minuciosa. Movimentos de mãos e olhos que pareciam ser em câmera lenta. Uma lentidão que também fazia parte da pintura.

Nina cochilava embaixo da roseira. Ela já estava acostumada com os sons que compunham aquela cena tão particular. Ela já podia ouvir os chinelos de Dona Rute se arrastarem até a porta, em um ritmo e frequência que apenas a gata podia medir com precisão, usando o rabo como um metrônomo impulsivo. Nina já sabia, sem precisar abrir os olhos: a velha estava trazendo comida. Ela abriria a lata, despejaria o conteúdo pastoso na vasilha de plástico. Depois, o som do garfo raspando o fundo metálico da lata de ração. Esse era o refrão que, para os gatos de Dona Rute, soava como um mantra sagrado. Uma música que se repetia todos os dias, infalível. Tudo muito lento, como uma balada tocada ao piano. Dona Rute já tocou piano um dia. Mas agora a única música que Nina conhecia era essa: a lenta balada dos chinelos se arrastando pela casa.

Levine estava deitado de barriga para cima, esfregando as costas no tapete áspero da sala. A velha entrou na casa e se debruçou sobre a janela. O gato esboçou uma reação atenciosa, girando seu corpo e deitando-se sobre as patas.

-Ah, você viu isso Levine? Elas estão cheias de vida. – e tocou, com a ponta de seus dedos enrugados, as folhas de uma sálvia. – É a primavera.

Levine sabia o que isso significava. Incomodado, mexeu as orelhas quando ouviu a palavra. O gato branco pulou para o batente da janela, de onde já podia ver a vasilha cheia de ração. Passou pelos braços de Dona Rute, onde recebeu um afago vigoroso, como se faz com cabelo de criança. Levine lambeu as costas de sua pata dianteira, dando o assunto por encerrado. Mas Dona Rute insistiu.

-É meu querido. Na primavera, a vida acontece. Por isso fica tudo assim, tão bonito.

O gato saltou para fora de casa. Nina tirou o focinho da vasilha, e olhou em sua direção. O companheiro estava preocupado, de uma forma que evitou ficar nos últimos dias. E então pareceu impossível ignorar o assunto.

-Eles estão todos voltando. A primavera não será nada tranquila. Ah, não. Não será.

***

A vida estava ficando cada vez mais difícil nos cantos sujos daquela cidade grande, mesmo para um vadio como Fuga. E ser um gato de rua era basicamente isso: viver fugindo, sem saber exatamente do quê.

O gato negro correu pela faixa estreita do muro e pulou dele para um container logo abaixo. Estava faminto, mas não eram restos que procurava. Caminhou vagarosamente até a borda do container, de onde surgiu, em um pulo, uma cabeça medonha como um demônio desfigurado. O gato, de pelagem irregular e cores indefiníveis, saltou para a tampa onde Fuga já estava sentado. Era magro e não tinha um olho.

- Irmão Ranço sempre foi os olhos da cidade. Agora tem olho a menos? – Fuga procurou não parecer impressionado.

- Ah, bípedes. Eles muito selvagens. Fuga saber. - Ranço encarou o gato negro para mostrar que sabia bem a sua história. – O que irmão Fuga procurar aqui?

- Ranço já deve ter visto a cidade cheia de ratos. E quando ratos aparecem assim, é porque gatos somem. Não vi mais Bigode ou Uivante. Ou nenhum outro. O que está acontecendo?

Ranço rosnou alto, em tom de zombaria, e mexeu o rabo incomodado.

- Todos ir para aquele lugar de onde Fuga fugiu. Igual um ratinho. Ah sim, Fuga lembrar onde é! Lá, onde muitos morrer. E eles vai morrer também. Todos que voltar lá vai morrer.

- Voltar? Por que voltar? Só se…

- Se os boatos for verdade! – interrompeu o gato caolho, bruscamente – E tudo verdade. Vai começar o tempo da nossa raça de novo. Alguns dizer que depois desse tempo, a gente não revirar mais lixo. Assim, que nem Ranço. Então todos ir embora, porque achar que nova linhagem ter que começar lá. Todos malucos. Mas Ranço não. Ranço ficar.

- Então falta pouc… Espera. – Fuga ficou de prontidão. Moveu suas orelhas para trás e para a frente. Ouviu passos e o entulho no chão pareceu se mover.

Um bípede se aproximava diante do container, lentamente. Fuga se preparou para pular para o outro lado. Alertou Ranço, mas antes de saltar, foi surpreendido por outro humano que veio rapidamente por trás.

O rapaz que usava moletom trazia um pedaço de pau. Usou para golpear os gatos com força, e pegou os dois de uma vez. Fuga caiu atordoado e Ranço voou contra a parede antes de cair no chão. O outro homem agarrou o gato caolho com suas próprias mãos, apertando com força o pescoço magro de Ranço.

- Essas pestes. Metendo esse focinho sujo no nosso lixo bom. – disse o mendigo, jogando o gato esganado para longe do container, que ficava nos fundos de um restaurante.

Então o bastão zuniu no ar mais uma vez. Mas Fuga se esquivou, pulando por cima e alcançando o muro.

- Tinha que ter matado logo, agora ele vai voltar! Que mão mole do caralho!

O mendigo de moletom ficou frustrado, vendo a silhueta felina correr pelo muro e sumir nos recortes dos postes e prédios. Àquela hora da madrugada, era fácil ser supersticioso.

- Era um gato preto, porra.

***

Já não havia muitos lugares seguros para os gatos de rua. Fuga então resolveu voltar para a pequena cidade mais conhecida pelos gatos como Cidade da Carnificina.

(continua?)

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