
Poucas expressões na língua portuguesa são tão escrotas quanto o “você tem que se dar ao respeito”. Além de soar mal, não faz muito sentido. Mas, como todas ouvimos isso desde pequenas, sabemos bem o que isso significa: temos que ser mulheres direitas, que não falam palavrão, não gostam de sexo, não mostram partes demais do corpo, não bebem, não se divertem. Uma mulher que se dá ao respeito comporta-se de acordo com regras que ninguém sabe quem inventou, e, por estarem aí há muito tempo, ninguém se incomoda em questionar “por que merdas ainda seguimos isso?”.
As “mulheres que não se dão ao respeito” são tão desprezadas e temidas porque não estão sob controle. Tem coisa que mais tira a sociedade do sério do que uma mulher que não pode ser controlada? Talvez tenha: um animal doméstico que não pode ser controlado.
Um gato é muitas coisas, menos obediente. Você pode tentar ensiná-lo a dormir apenas na caminha que você arrumou para ele, mas, se ele quiser, vai se esparramar na mesa de jantar e tirar uma soneca ali mesmo. Ele vai subir na geladeira, entrar em armários e gavetas sem a sua permissão e não vai esperar pela sua aprovação para eleger a cadeira do seu escritório como o lugar onde ele vai passar a tarde dormindo – e deixar uma espessa camada de pelos.
Assim como as mulheres ditas vulgares, gatos são vaidosos e entregues aos prazeres que consideramos imorais, como a autonomia ao próprio corpo. Não têm vergonha de exibir sua anatomia perfeita, sua confiança ao andar e um olhar que apenas quem é dono de si consegue ostentar. Com a mesma falta de vergonha, deitam-se como esfinges ou derramam-se com a pança à mostra, porque não consideram que suas barriguinhas salientes sejam ofensivas ou até mesmo indesejáveis.
A sensualidade dos gatos constrange os mais moralistas. Seu andar rebolativo, a cauda em riste para indicar que está de bom humor, o miado fino e dissimulado emitido para cativar os mais sensíveis, tudo é tipicamente feminino.
Gatos são vadias. Esfregam-se, massageiam, rebolam, fazem charme e lambem sem pudores. Para alguns, mostram-se reservados e até mesmo ariscos; para outros, doam-se com intensidade, ainda que não permitam que sejam dominados. Não adianta exigir ser amado por um gato ou acreditar que você tem o direito de receber qualquer sentimento de um felino. O amor é dele e ele dá para quem quiser. Assim são as mulheres que não se dão ao respeito: amam quem querem, quando querem, do jeito que querem. Odiá-la por não ser correspondido é ser incapaz de amar alguém que seja livre.

É por essas e outras que gatos e vadias atraem ódio e incompreensão. Não é raro ouvirmos, geralmente vindo de quem não conhece gatos nem nunca conviveu com um, que estes animais são “traiçoeiros”. Mulheres que vivem sua sexualidade livremente, da mesma forma, são consideradas “sem caráter”, como se conduta sexual pudesse determinar se você é uma pessoa boa ou má. E não é que as vadias e os gatos também têm em comum a tendência de serem julgados como “interesseiros”?
Tanta liberdade incomoda. Não é por acaso que mulheres que tenham saído um pouquinho da linha e gatos sejam alvos de tanta violência. Os que não aceitam o comportamento nem de um nem de outro recorrem aos argumentos mais intolerantes possíveis para justificar a violência que empregam como punição por não poder dominá-los: “gatos são animais do demônio”, “com essa roupa curta, é claro que ela estava pedindo”, “gato bom é gato morto”, “não se dá ao valor e ainda quer ser respeitada”.
No final das contas, a aversão a gatos e o uso da expresão “você tem que se dar ao respeito” são boas formas de descobrir quem é que não consegue lidar com a liberdade dos outros. E, pessoalmente, quem eu vou evitar a todo custo.
***
Tem um texto bem completo falando sobre a relação dos gatos com o feminino em diversas culturas. Leiam.
Mais textos felinos:
Vadio, mas ela gosta
Zen gatismo
Viver com gatos

Gatos, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não dormem cerca de 16 horas por dia. Gatos tendem a ser mal compreendidos e seu estilo de vida é geralmente confundido com preguiça. O que não é verdade. Gatos são, na verdade, adeptos de uma prática muito antiga conhecida como Zen Gatismo.
O Zen Gatismo não é uma religião, porque gatos são ateus, naturalmente. Também não é uma filosofia, nem um movimento de vanguarda, nem uma terapia para acalmar os nervos e ser mais bem-sucedido na carreira. O Zen Gatismo é um estilo de vida. O Zen Gatismo é a própria essência da gatice do ser, pouco compreendida ou solenemente ignorada pelos humanos em sua infinita ignorância e em sua completa imersão em uma rotina estafante de trabalho.
Quando os gatos parecem dormir, estão na verdade meditando. São capazes de ficar horas parados na mesma posição embolada ou contorcida, esbanjando um contorcionismo que apenas praticantes do Zen Gatismo são capazes de reproduzir — e com a mente absolutamente esvaziada de preocupações sem sentido, como a fatura do cartão de crédito, o trânsito, a declaração do imposto de renda, as pilhas de trabalho acumuladas no escritório, as tretas nas redes sociais ou o que preparar para o almoço amanhã.
Libertos de todas essas inquietações inúteis e passageiras, os gatos conseguem se conectar com a realidade em estado puro: ontem não éramos, hoje somos, amanhã não seremos mais. A vida é curta, e para os gatos isso significa menos de 20 anos. Sim, a vida é curta demais para se ocupar com o que não é importante. Então eles se acocoram em outra posição e continuam a meditar.

No Zen Gatismo, não existe a separação entre o corpo e a mente. Tão importante quanto manter a mente em forma, é trabalhar o corpo com o mesmo afinco. Por isso, ao terminar a sessão de meditação, os gatos lentamente se espreguiçam, alongando o corpo inteiro. Da ponta da cauda à ponta da língua, que se estica para fora da boca ao mesmo tempo em que o gato forma um arco perfeito com seu tronco.
Afiar as garras faz parte do ritual. E os gatos se entregam com total dedicação a cada ritual envolvendo o corpo. A limpeza, uma tarefa muito importante no Zen Gatismo, é um bom exemplo: um gato pode levar 5 horas por dia lambendo os próprios pelos.
O prazer, para os gatos, não é apenas carnal; chega a ser uma experiência espiritual. Um carinho na barriguinha ou uma coçadinha atrás da orelha são capazes de deixá-los em transe. Essa relação tão forte e sensorial com o corpo faz com que os praticantes do Zen Gatismo sejam experts em massagem. Eles sabem exatamente em qual ponto tocar e quanta pressão colocar em suas patas macias para proporcionar extremo relaxamento.
Gatos têm um controle e um conhecimento do próprio corpo que os humanos não teriam nem em seis ou sete vidas. É por isso que humanos não conseguem pular tão alto, escalar com tanta facilidade, enxergar tão bem no escuro, ouvir até uma agulha caindo do outro lado da sala, ser tão flexíveis ou ainda se mover com tanta leveza.Todas essas habilidades felinas foram conseguidas com muito treino, seguindo rigorosamente as práticas do Zen Gatismo.
Certamente, os humanos têm muito a aprender com eles. O Zen Gatismo contém uma lição inspiradora para uma vida mais simples, prazerosa e desapegada de bens materiais. Mas, ainda assim, vai ser difícil alcançar o nirvana experimentado pelos felinos. Os gatos são muito superiores: eles não têm internet.
Monaustê.

Depois de confirmado o reboot da Marvel, que foi na onda do reboot da DC, do jogo Tomb Raider, do filme do Homem-Aranha e da novela Gabriela, o Universo acaba de anunciar seu próprio reboot. Enquanto não param de surgir novas versões de Carrie, a Estranha, todo mundo já não via a hora de criarem uma nova versão deste mundo. E o mais aguardado remake da história da humanidade tem data marcada ainda para este ano. “Depois de tantos milênios de espera, finalmente vão apresentar o Universo remodelado!”, declara um empolgado fã.
Os executivos responsáveis por essa audaciosa produção já revelaram alguns detalhes. A primeira mudança importante será no visual dos protagonistas. Os humanos ganharão tons de pele mais vibrantes, que vão do azul ao verde limão, contrastando com as cores pasteis de variações claras e escuras da versão atual. “Pode parecer uma mudança muito radical, mas optamos por personagens mais modernos”, explicam. “Além disso, a questão de cores tem gerado muita confusão. Queremos criar uma história mais dinâmica, mais integrada, e as cores não podem mais ser um obstáculo entre os personagens. Por isso, desenvolvemos um visual colorido e bem distribuído, de forma que não teremos só um grupinho de pessoas laranja tangerina aqui ou um grupinho de pessoas turquesa ali; estarão todos misturados.”

O reboot também é uma oportunidade de consertar vários furos na história. A Bíblia não será mais escrita por um povo primitivo no meio do deserto. “Com um novo Universo, a Bíblia teria que mudar de qualquer jeito”, afirma um dos responsáveis pela mudança, “então aproveitamos para garantir que os mesmos erros não aconteçam. Criar uma obra divina e guia moral para a humanidade que pudesse ser interpretada de várias formas, a bel-prazer de cada geração que teve contato com ela, foi a pior ideia que alguém já teve.” A nova Bíblia será escrita por Neil Gaiman, que neste remake terá nascido no ano de 1602. Com isso, espera-se que as histórias bíblicas ganhem um novo significado, além de dar a elas uma linguagem menos chata e personagens mais cativantes.
“Queremos descomplicar alguns pontos da história para nos aprofundarmos melhor em coisas mais interessantes”, justificam, “e nada no Universo deu mais problema do que a ideia de Deus”. Nessa versão, Deus é um gato gigante e sua existência pode ser comprovada por meio de evidências concretas. Dessa forma, os ateus deixarão de existir definitivamente. “Além de resolver um problema (os ateus), vamos conseguir mostrar a origem do Universo de forma mais fantástica e, ao mesmo tempo, realista.” Graças a um investimento em efeitos especiais jamais visto antes, foi possível criar uma Física que dê suporte à existência de um deus e à sua influência no mundo dos humanos. “Além disso, quem é que não gosta de gatos, não é?”

adore-me
Os produtores também garantem trazer de volta os dinossauros. “A destruição deles tão cedo foi um erro. Muita coisa na história teria sido drasticamente diferente com a presença de uma segunda raça dominante no planeta. Por exemplo, a Segunda Guerra Mundial. Um dos arcos dessa nova versão vai trazer um Adolf Hitler determinado a livrar o mundo desses reptéis gigantes. O público pode esperar surpresas interessantes vindas daí.” Há especulações que eles tenham se inspirado nos episódios de Família Dinossauro, um clássico de tanto sucesso que nunca precisou de remake.
Algumas coisas, porém, serão mantidas. Plutão continuará não sendo um planeta e mulheres ainda serão usadas como objetos sexuais. Os produtores acreditam que peitos podem continuar trazendo audiência nesta nova versão. “A opressão sexual foi uma coisa que funcionou muito bem”, afirmam.
Agora só resta ao público contar os dias no calendário Maia para o lançamento desse remake. E torcer para que o papel de descobridor do Brasil não fique com Adam Sandler.

“Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.”
Douglas Noel Adams.
Categoria: Contos Ficção
Tags:
- Contos
- deus
- ficção
- gatos
- humanos

Aurélio: Meaw can do it
Tenho preconceito com quem tem gatos. Posso não conhecer bem a pessoa, não saber o que ela faz da vida, ou até mesmo sua opinião sobre os mais importantes tópicos políticos e ideológicos; mas se, antes de tudo isso, descubro que ela tem gatos, pressuponho que ela só pode ser uma boa pessoa.
Gatos moldam o cárater.
É preciso ter muita paciência ou desapego para viver com um gato. Você compra uma caminha acolchoada e põe em um cantinho, mas ele vai escolher dormir em cima da geladeira. Você vai estar trabalhando quando ele decide que o teclado do computador é o lugar mais confortável para uma soneca. Mas experimenta arrumar a casa: ele resolve que não quer mais dormir e prefere correr em cima do lixo que você acabou de varrer.
Não que eles sejam insensíveis, nós é que estamos acostumados demais com coisas que podemos controlar. É claro que eles entendem quando dizemos “saia já daí” ou “não faça isso”, o negócio é que eles preferem ignorar.
Minha capacidade de gostar quase automaticamente de alguém que vive com gatos também tem a ver com solidariedade. Não sou a única que sofre com pelos espalhados pela casa. Esses bichos trocam de pelo como quem troca de roupa – coisa que até faz algum sentido.
Além disso, quando você mora com um gato, não há mais lugar seguro para guardar coisas que você quer longe do alcance dele. Se colocar em prateleiras altas, ele alcança. Se guardar dentro de gavetas, ele abre. Se colocar em caixas de papelão, é pedir para que ele mexa. Felizmente, eles não se interessam por muita coisa, exceto por dormir, caixas de papelão e erva de gato.

Os egípcios é que sabiam das coisas.
É perfeitamente compreensível uma religião ou até uma civilização que adore os gatos. Olhe só para eles. Foram feitos para serem adorados – porque para o trabalho duro é que eles não servem.
Já quem diz que gatos são traiçoeiros é porque não sabe absolutamente nada sobre gatos. Sai da minha casa, você não merece falar nem comigo nem com meus anjinhos. Gatos são excelentes companheiros e ótimos massagistas, devo acrescentar. Gostam de um chamego e de lamber você até esfolar sua pele (é sério). São capazes de aturar as suas manias irritantes tanto quanto você é capaz de suportar as deles.
Pessoas que têm gatos também são aquelas que podem conversar com você durante horas sobre isso e não vão ligar de ouvir cada nova estripulia que seu gato aprontou em casa (e muito provavelmente são elas que vão comentar esse post, contando alguma história engraçada que também vou adorar ouvir).

vai um beijo de língua super suave?
Pessoas com gatos são aquelas com as quais eu gostaria de me relacionar. Elas sabem que tão inútil quanto controlar um gato é tentar controlar uma pessoa. Sabem, por convívio com esses bichos tão complicados, que pessoas, assim como gatos, precisam de espaço. Além do mais, são essas pessoas que, geralmente, tiram as melhores fotos no Instagram.

VEM GENTE
A gente mora junto há pouco tempo, mas já deu para me acostumar às manias dela. E ela se irritar com as minhas. Por exemplo, quando ela chega do trabalho sempre tem uma bronca. Ou é a minha bebida que ela encontra derramada, ou o cobertor jogado no chão, ou ainda uma mijadinha fora, mas de leve. “Você dormiu o dia inteiro, né, safado?” Eu até tento disfarçar, mas a cara amassada e os olhos inchados não me deixam mentir.
Passo as tardes esparramado no sofá. E para ninguém dizer que a minha vida é só isso, às vezes tiro um ronco na cama também. Meu negócio é dormir, comer, beber. E eventualmente, cagar. No meio tempo, fico na janela olhando o que o povo lá de fora tá fazendo.
Ela só chega à noite, às vezes brava, às vezes morrendo de saudade. Sempre cansada. Quando não está muito tarde, ela vai para a cozinha e prepara a janta. Eu fico na sala, sentindo aquele cheirinho bom. Apareço só quando está pronto e vou até a mesa espiar, para ver se está com uma cara boa.
Ela serve o prato dela, e depois serve o meu. Enche de comida e depois vem reclamar que estou barrigudo. É foda.
Depois ela vai tomar banho. Quando deixa a porta aberta, é um sinal. Fico parado na porta, só olhando. E ouvindo a água bater no corpo dela e depois no chão. Fico ali a noite inteira, se ela quiser. Nem reclamo quando ela demora muito. Ela que tá pagando a conta de luz mesmo.
Eu prefiro banhos rápidos. Não gosto é de cortar as unhas, mas ela reclama quando vê que começam a crescer. Eu não tô nem aí. Faz uns meses que ela comprou um perfume, desses caros. Uso uma vez por mês e olhe lá. Bom mesmo é o meu cheiro natural de macho.
Quando ela começa a apagar as luzes, eu já sei que é a hora de dormir. Chego de mansinho na cama. Faço massagem no pescoço e peço para entrar dentro do cobertor. Gosto de dormir de conchinha, bem abraçado. Quer dizer, até ela se mexer no meio da noite e me empurrar para o lado. Volto, faço carinho nos cabelos, roço o bigode no narizinho dela. Mas ela não acorda por nada. Justo na hora em que eu estou mais aceso. Aí não tenho o que fazer, amigo. O jeito é levantar e ir beber uma água. Ou vou para a sala e brinco sozinho mesmo.
Ela sempre acorda atrasada. E de mau humor. “Sai daqui! Não me enche o saco, tô atrasada!” Fico puxando o fio da chapinha enquanto ela arruma o cabelo, só porque me divirto com ela irritada.
Já na hora de sair, saio correndo antes que ela abra a porta. Então eu mio alto. Ela não pode ir embora sem antes colocar no pires o meu Whiskas sachê.

Selo da campanha
Não é muito difícil perceber que sou fascinada por gatos. Uma tatuagem bem grande nas costas já entrega o jogo. Então é lógico que fiquei super entusiasmada quando descobri que hoje, dia 29 de setembro, seria o Cat Lovers Day. Um dia criado para que amantes de gatos pudessem manifestar sua admiração pelos felinos, através do Twitter e de seus blogs.

Meu avatar do dia
Além de participar desse evento trocando meu avatar no Twitter, resolvi aproveitar o dia especial para colocar algo igualmente especial aqui no blog. Quero compartilhar com vocês um trechinho de um projeto que comecei a escrever já faz um tempo, o livro Gatomancia, e como boa parte dos meus projetos, acabou engavetado (shame on me).
O Cat Lovers Day foi uma ótima oportunidade de tirar a poeira deste projeto. Admito que fiquei empolgada de novo e pretendo retomá-lo. E é claro que essa é uma ótima oportunidade de ver o que vocês acham desta prévia. Assim posso continuar a história de forma mais madura, eu espero. ;D
Não deixem de acompanhar o evento hoje através da tag #catloversday, do tumblr cheio de fofurinhas, e seguindo o perfil @catloversday. Boa leitura!
Gatomancia: Prévia
A casa das plantas na Rua 15 era como a cena de uma pintura. E quem passava podia ver, todos os dias, a mesma cena se repetir com uma precisão quase infalível. Desde que Dona Rute passou a morar na casa que, por incrível que pareça, existia atrás daquele jardim emaranhado, ela seguia um roteiro bem previsível. Da casa para o mercado, do mercado para casa. Um trajeto em linha reta cumprido religiosamente.
Dona Rute tinha todo o jeito de ser uma daquelas senhoras de idade que iam à igreja. Mas ela nunca foi vista na igreja. Era vista colocando água nos vasos de planta, podando as roseiras, examinando os pés de romã. Essa era sua rotina, e fazia tudo com uma lentidão minuciosa. Movimentos de mãos e olhos que pareciam ser em câmera lenta. Uma lentidão que também fazia parte da pintura.
Nina cochilava embaixo da roseira. Ela já estava acostumada com os sons que compunham aquela cena tão particular. Ela já podia ouvir os chinelos de Dona Rute se arrastarem até a porta, em um ritmo e frequência que apenas a gata podia medir com precisão, usando o rabo como um metrônomo impulsivo. Nina já sabia, sem precisar abrir os olhos: a velha estava trazendo comida. Ela abriria a lata, despejaria o conteúdo pastoso na vasilha de plástico. Depois, o som do garfo raspando o fundo metálico da lata de ração. Esse era o refrão que, para os gatos de Dona Rute, soava como um mantra sagrado. Uma música que se repetia todos os dias, infalível. Tudo muito lento, como uma balada tocada ao piano. Dona Rute já tocou piano um dia. Mas agora a única música que Nina conhecia era essa: a lenta balada dos chinelos se arrastando pela casa.
Levine estava deitado de barriga para cima, esfregando as costas no tapete áspero da sala. A velha entrou na casa e se debruçou sobre a janela. O gato esboçou uma reação atenciosa, girando seu corpo e deitando-se sobre as patas.
-Ah, você viu isso Levine? Elas estão cheias de vida. – e tocou, com a ponta de seus dedos enrugados, as folhas de uma sálvia. – É a primavera.
Levine sabia o que isso significava. Incomodado, mexeu as orelhas quando ouviu a palavra. O gato branco pulou para o batente da janela, de onde já podia ver a vasilha cheia de ração. Passou pelos braços de Dona Rute, onde recebeu um afago vigoroso, como se faz com cabelo de criança. Levine lambeu as costas de sua pata dianteira, dando o assunto por encerrado. Mas Dona Rute insistiu.
-É meu querido. Na primavera, a vida acontece. Por isso fica tudo assim, tão bonito.
O gato saltou para fora de casa. Nina tirou o focinho da vasilha, e olhou em sua direção. O companheiro estava preocupado, de uma forma que evitou ficar nos últimos dias. E então pareceu impossível ignorar o assunto.
-Eles estão todos voltando. A primavera não será nada tranquila. Ah, não. Não será.
***
A vida estava ficando cada vez mais difícil nos cantos sujos daquela cidade grande, mesmo para um vadio como Fuga. E ser um gato de rua era basicamente isso: viver fugindo, sem saber exatamente do quê.
O gato negro correu pela faixa estreita do muro e pulou dele para um container logo abaixo. Estava faminto, mas não eram restos que procurava. Caminhou vagarosamente até a borda do container, de onde surgiu, em um pulo, uma cabeça medonha como um demônio desfigurado. O gato, de pelagem irregular e cores indefiníveis, saltou para a tampa onde Fuga já estava sentado. Era magro e não tinha um olho.
- Irmão Ranço sempre foi os olhos da cidade. Agora tem olho a menos? – Fuga procurou não parecer impressionado.
- Ah, bípedes. Eles muito selvagens. Fuga saber. - Ranço encarou o gato negro para mostrar que sabia bem a sua história. – O que irmão Fuga procurar aqui?
- Ranço já deve ter visto a cidade cheia de ratos. E quando ratos aparecem assim, é porque gatos somem. Não vi mais Bigode ou Uivante. Ou nenhum outro. O que está acontecendo?
Ranço rosnou alto, em tom de zombaria, e mexeu o rabo incomodado.
- Todos ir para aquele lugar de onde Fuga fugiu. Igual um ratinho. Ah sim, Fuga lembrar onde é! Lá, onde muitos morrer. E eles vai morrer também. Todos que voltar lá vai morrer.
- Voltar? Por que voltar? Só se…
- Se os boatos for verdade! – interrompeu o gato caolho, bruscamente – E tudo verdade. Vai começar o tempo da nossa raça de novo. Alguns dizer que depois desse tempo, a gente não revirar mais lixo. Assim, que nem Ranço. Então todos ir embora, porque achar que nova linhagem ter que começar lá. Todos malucos. Mas Ranço não. Ranço ficar.
- Então falta pouc… Espera. – Fuga ficou de prontidão. Moveu suas orelhas para trás e para a frente. Ouviu passos e o entulho no chão pareceu se mover.
Um bípede se aproximava diante do container, lentamente. Fuga se preparou para pular para o outro lado. Alertou Ranço, mas antes de saltar, foi surpreendido por outro humano que veio rapidamente por trás.
O rapaz que usava moletom trazia um pedaço de pau. Usou para golpear os gatos com força, e pegou os dois de uma vez. Fuga caiu atordoado e Ranço voou contra a parede antes de cair no chão. O outro homem agarrou o gato caolho com suas próprias mãos, apertando com força o pescoço magro de Ranço.
- Essas pestes. Metendo esse focinho sujo no nosso lixo bom. – disse o mendigo, jogando o gato esganado para longe do container, que ficava nos fundos de um restaurante.
Então o bastão zuniu no ar mais uma vez. Mas Fuga se esquivou, pulando por cima e alcançando o muro.
- Tinha que ter matado logo, agora ele vai voltar! Que mão mole do caralho!
O mendigo de moletom ficou frustrado, vendo a silhueta felina correr pelo muro e sumir nos recortes dos postes e prédios. Àquela hora da madrugada, era fácil ser supersticioso.
- Era um gato preto, porra.
***
Já não havia muitos lugares seguros para os gatos de rua. Fuga então resolveu voltar para a pequena cidade mais conhecida pelos gatos como Cidade da Carnificina.
(continua?)
Categoria: Ficção
Tags:
- gatomancia
- gatos
- literatura