AlineValek

Alan Moore e a falta de imaginação do cinema

07 de February 2010 por Valek

Gaiman e Moore

A estreia de Avatar, de James Cameron, e seu consequente sucesso de bilheteria trouxe uma série de críticas por ser um filme “sem história”. Mas como esse é um assunto tão last month, não pretendo entrar muito nesse mérito, embora eu acredite que é preciso saber separar uma história que eu não goste de uma história que non ecziste. E francamente, a história de Avatar está ali. Não é a mais original, uma história que se diga “noooossa que genial, até gozei!!”, mas a história não só existe como está acompanhada da construção de um universo exuberante e completo para que ela acontecesse.

Já disse que não é sobre isso que pretendo falar, né?

Apenas mencionei pois foi justamente isso que me lembrou de uma entrevista do Alan Moore que encontrei na época em que Watchmen estava sendo adaptado para o cinema, e até cheguei a postar em meu antigo blog, o Histórias Esquecidas.

Junto dela, também encontrei uma entrevista originalmente publicada na Inglaterra pela revista Knave, em 1900-e-eu-não-tinha-nascido-ainda, feita pelo Neil Gaiman (sim, o próprio) em sua época de jornalista (ninguém é perfeito), que contava como entrevistado ninguém menos que Alan Moore, criador de Constantinte, Monstro do Pântano, V de Vingança, A Liga Extraordinária, e tantos outros. Dispensando os óbvios comentários sobre o quanto o cara é foda, segue a entrevista em que Moore criticou a adaptação cinematográfica de Watchmen.

Concordam? Discordam? Acham que hoje em dia as pessoas estão mais exigentes em relação às histórias que veem no cinema? Ou que na verdade estão ainda mais preguiçosas, esperando que o filme já lhes dê as histórias prontas? A caixa de comentários é toda de vocês! ;)

Entrevista de Moore para a Wired, em tradução livre:

“(…)Acredito nos testes de Pentagon no final dos anos 80, em que os quadrinhos foram considerados o melhor meio de transmitir informação para alguém de uma forma que irão reter e se lembrar. Eu pessoalmente sinto – e isso é só uma besteira de hippie pseudo-cientista – sinto isso porque a unidade de circulação do que costuma ser chamado o lado esquerdo do nosso cérebro é a palavra. O lado esquerdo do nosso cérebro é relativo à nossa fala e à racionalidade. A unidade de linguagem para o lado direito do nosso cérebro, pelo contrário, seria a imagem, afinal, o lado direito é preverbal.

Talvez seja por causa da combinação de palavras e imagens numa forma de leitura que os quadrinhos têm este poder único. Agora, é claro, filmes são uma combinação de palavras e imagens, mas têm uma estrutura e um modo de trabalho completamente diferente.

Uma das minhas grandes objeções aos filmes, é porque são imersivos demais, e acho que isso nos transforma em pessoas preguiçosas e sem imaginação. A absurda duração que o cinema moderno e suas capacidades de computação gráficas conseguem alcançar para salvar a audiência de incomodar a si mesma de imaginar alguma coisa por si próprias, provavelmente causará um efeito de limitação na imaginação das massas. Você não tem que fazer nada. Com um quadrinho, você tem que fazer um bocado mais. Mesmo tendo figuras lá para você, você terá que preencher todas as lacunas entre os painéis, terá que imaginar as vozes dos personagens. Você terá um bocado de trabalho nisso; não tanto quanto um livro sem ilustrações, mas ainda assim, terá muito trabalho.

Parece que a audiência exige que tudo seja explicado para eles, que tudo seja fácil. E eu não acho que isso seja uma boa cultura. Eu me lembro do King Kong de Willis O’Brien e de outros artistas que tornaram coisas como essa possíveis. Sim, eu sabia como isso era feito. Mas parece tão maravilhoso. Hoje em dia, eu vejo um milhão de Orcs correndo pelas colinas e fico entediado. Não fico nem um pouco impressionado. Porque, francamente, eu poderia pegar qualquer um passando na rua que conseguiria criar os mesmos efeitos se dessem a ele meio milhão de dólares para fazê-lo. Isso remove a arte e a imaginação e coloca o dinheiro no banco do motorista, e eu acho que é uma equação bem lógica – em que há uma relação inversa entre dinheiro e imaginação.

A maioria dos filmes que vejo parecem ter o mesmo nível de desaprovação que esperam no nível da exibição pirotécnica. É tudo “ooh” e “ah”. Essas parecem ser as únicas respostas apropriadas à maioria dos filmes modernos. Acho que estamos entrando em um período de reavaliação cultural. Espero que seja verdade, porque acredito que se não estivermos, estamos em um período de condenação cultural. Temos que repensar essa coisa toda, e acredito que repensar nossa cultura é parte disso. Eu realmente espero que sim.”

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Assumindo…

27 de November 2009 por Valek

[Publicado originalmente em 18 de janeiro de 2009]

Definitivamente não foi uma escolha minha. Se fosse, eu teria escolhido algo que me fizesse sentir bem, algo que eu conseguisse fazer mantendo uma freqüência regular que não me machucasse com tanta exigência. Mas aí, quando me perguntaram o quê eu realmente queria fazer (já que eu reclamava tanto disso), não soube exatamente o que responder.

Na última festa que fui, reuni-me com alguns novos amigos. Foi mais interessante ficar ouvindo as histórias que eles tinham para contar do que arriscar uma participação mais central. Não é meu forte contar histórias sobre mim, e é o que se espera nesse tipo de confraternização. Enquanto eu estava ali ouvindo, e tomando nota mental de qualquer detalhe que pudesse ser interessante usar depois, percebi que estou mais envolvida com isso do que eu realmente gostaria.

Muito prazer, meu nome é Aline. E sou uma escritora.

Talvez eu sempre soubesse disso, mas como geralmente é uma coisa estranha de se dizer, algo estranho de se declarar (ao menos que você já tenha pelo menos um Best Seller publicado), foi algo que tive que assumir (dolorosamente) com o tempo, especialmente com um diálogo que tive há algum tempo.

-Eu não sou muito boa nisso. Não sou boa o suficiente para ganhar dinheiro com isso. Muitas outras pessoas fazem design melhor do que eu. Muitas pessoas fazem desenho profissional de uma forma que eu nunca vou conseguir. Eu ia achar muito legal trabalhar como redatora ou na parte de planejamento, mas ainda é muito cedo para que eu consiga.

-Então… O que você realmente quer fazer?

Aquela era uma pergunta difícil, mesmo para uma pessoa que sempre acreditou ser movida por suas melhores convicções. Mas não era uma pergunta tão simplista que iria me pegar. Não mesmo.

-Quero trabalhar para mim mesma. – Naquela hora até pareci triunfante. Cheguei até a acreditar que era a resposta que eu precisava encontrar para a minha vida decadente e sem estilo fazer algum sentido.

-Ah, mas isso é muito vago. Trabalhar pra você mesma fazendo o quê? Desenhando? Criando para publicidade? Escrevendo? Fazendo projetos? Você tem que saber o que você quer.

Quase perguntei de volta se ele sabia o que queria. Ser versátil às vezes é dureza, e ele também sabe disso. Eu pensei em responder que o queria mesmo era escrever. Poder viver disso. Eu ainda não sei exatamente como é possível viver disso sem precisar ser muito famosa… Mas foi o que pensei na hora, não me recriminem ainda.

-Talvez eu devesse ser só dona de casa.

Essa conversa acabou mais ou menos por aí. Mas as outras conversas continuaram dentro de mim, enquanto na festa eu invejava a forma como as pessoas pareciam tão misteriosas e inteligentes contando histórias daquela forma, fumando como se fosse um ato sexual. Eu apenas prestei atenção, ouvia as histórias, soltava comentários assertivos pouco relevantes, apenas porque fazia parte de ouvir.

Comecei a me sentir incomodada com algo em mim. Como se eu fosse uma farsante. De tudo que eu sabia sobre escritores, era quase certo que fumar fazia parte do processo criativo (ou era algo como uma afirmação pessoal necessária para intimidar as idéias certas). Então… era isso. Eu não conseguia me dizer escritora, pois, além de escrever, eu precisava fumar, beber, ou consumir algum outro tipo de droga qualquer, e ter histórias para contar quando outras pessoas estivessem lá para ouvir. Céus, nem café eu bebo. Além do mais, sempre acreditei que um bom escritor devia ter pelo menos um gato (Neil Gaiman adora falar dos seus, por exemplo), mas de alguma forma, isso ia contra os meus princípios.

E além do mais… o que eu andava escrevendo nos últimos tempos? Alguma coisa? Revirei meus arquivos e vi uma série de pastas com tudo o que restou de coisas antigas, muitas jamais lidas por ninguém além do meu olhar crítico e reprovador, que costuma deletar dois parágrafos enquanto escrevo um. É uma média desanimadora.

Mas eu precisava fazer algo a respeito. Alguém que não fuma, não consegue contar histórias em festas, não consegue se dizer escritora (muito menos outra coisa qualquer), não bebe café, não tem um gato e não consegue acabar suas histórias precisa tomar atitudes drásticas.

A primeira delas foi me apresentar como uma escritora, bem ali, no início do post. Já que não há melhor forma de definir alguém que escreve (seja lá o que for) como escritor. Então não me julguem mal; não tenho nenhum Best Seller publicado.

Jurei para mim mesma no início do ano (seres humanos de recesso não podem ser considerados aptos para ponderar o que devem ou não fazer em promessas de ano novo) que iria ser menos criteriosa e escrever qualquer história de merda que me viesse à cabeça (eu já comecei uma, e não me lembrava que eu conseguia digitar tão rápido até escrevê-la numa noite qualquer).

Daí o blog, que nesta questão é praticamente uma regra de três (a solução para todos os problemas), surge como o escape de todas essas idéias, para que o fim delas não se resuma a ficarem esquecidas e intocadas em uma pasta no meu computador. Com isso, abro mão do meu olhar crítico e reprovador para adotar o olhar crítico e reprovador de terceiros, que não é necessariamente melhor, mas pelo menos não apaga dois parágrafos a cada um que eu escrevo.

Depois dessa experiência, não sei se poderei dizer que sou escritora com tanta ênfase. Não sei se poderei dizer que amo fazer isso. Definitivamente, não foi uma escolha minha (acostumem-se, adoro repetir frases durante os textos), e não é algo que eu considere prazeroso. Escrever é um ato de angústia, é trabalhoso moldar a imaginação esteticamente para que possa ser transmitida aos outros, é um saco se sentar na frente do computador com um monte de idéias na cabeça que você não vai conseguir definir. E é ainda pior quando você não fuma para pelo menos manter alguma pose de criativo; acredite.

Mas se quiserem me convidar para festas, sim, eu vou com todo prazer.

N.A [1]: Essa na foto não sou eu. Créditos da foto aqui.

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Inaugurando

27 de November 2009 por Valek

Mais um semestre chegando ao fim. Significa que muita coisa aconteceu desde maio, mais ou menos no final do semestre passado, quando resolvi me mudar do blog que achei que já estava na hora de evoluir e virar algo maior, tamanho o carinho que tomei pelo projeto.

Vejamos: de lá pra cá, virei usuária compulsiva do twitter; entrei no quarto semestre da faculdade crente que ia ser ótimo, quando na verdade eu estaria prestes a enfrentar o período acadêmico mais tenebroso da minha vida; comecei a estagiar de redatora em uma agência de publicidade, coisa que eu achei que não estaria disposta a enfrentar tão cedo (e apesar das dificuldades, tenho sobrevivido); tive várias ideias e comecei vários projetos, que assim como meu portfólio, não conseguiram avançar muita coisa; fiz uma campanha que ganhou o primeiro lugar na Funyl (e até pensei em virar Atendimento depois da apresentação que fiz); já decidi qual será o meu projeto de conclusão de curso e já comecei a pesquisar; decidi definitivamente que vou seguir carreira acadêmica e já estou fazendo planos para um mestrado em Teorias da Comunicação; entrei no cheque especial pela primeira vez e nunca mais saí; fiquei mais ranzinza e escrota; comecei a usar óculos (já tava passando da hora) e, vejam só, cheguei até a frequentar academia por um tempo.

Muita coisa aconteceu, hein. Menos o tal do blog para o qual eu queria tanto me mudar. Até que, em um belo fim de semana sem muita coisa para fazer, o Marcos, que entre outras coisas é diretor de arte, webdesigner e meu namorado, resolveu fazer esse esse blog nascer de cesariana mesmo, custe o que custasse. Só tenho a agradecê-lo por tanto entusiasmo, paciência (tentar fazer algo comigo ao lado opinando não é fácil), e pelas horas quebrando a cabeça com o wordpress para conseguir montar um blog cheio de recursos legais, do jeitinho que eu queria.

Agora com tudo pronto, voltar a escrever “de verdade” vai ser um baita desafio (já que escrever eu escrevo todos os dias, afinal eu trabalho com isso). Não espero que eu vá conseguir, de início, manter um ritmo bacana de postagem, mas com as férias da faculdade chegando, vou ter um bom período para começar a desenvolver esse ritmo e não parar mais (diferente do que aconteceu com a academia, eu espero). Afinal, como uma amiga sabiamente me disse, tenho que continuar alimentando a fonte da criatividade escrevendo com liberdade, se preciso sempre criar sob demanda.

Aos estimados leitores que colecionei em meu blog anterior e aos novos leitores e visitantes, sintam-se em casa e não reparem a bagunça. Espero que o amontoado de ideias, opiniões e posts que vocês encontrarem por aqui consigam despertar aquela coceirinha em seus respectivos cérebros, e sejam bem mais do que “Histórias Esquecidas”. ;)

***

PS: Nos próximos dias, vou publicar os melhores posts do blog antigo, no melhor estilo “retrospectiva 2009″ que todo mundo adora quando chega o final de ano.

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