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Sandelon tinha acabado de cair em outro planeta. Talvez seja difícil acreditar, já que nem eu e nem você tenhamos passado por isso antes. Mas Sandelon estava, de fato, passando por isso e ainda assim achava difícil acreditar.
Preferiu ficar deitado, imóvel, e prendeu a respiração o quanto pode, em pânico. Não aguentou mais que dez segundos. Para sua sorte, a atmosfera do planeta era agradável e o ar que inalou não o matou instantaneamente, como ele pensou que aconteceria. Olhou com medo ao seu redor e estranhou praticamente tudo: da vegetação que cobria toda a superfície até o céu multicolorido, que se alaranjava no horizonte. Puta merda, estou mesmo em outro planeta.
Não havia nenhuma nave ou tripulação espatifada ao seu redor, porque, é claro, as naves não conseguiam chegar tão longe quanto ele estava agora. Os cientistas descobriram que, para chegar em outros planetas, possivelmente habitados, era preciso escavar túneis. O que era bem mais complicado do que perfurar uma superfície, afinal, estamos falando de espaço-tempo.
Escolheram um indivíduo ordinário de quem ninguém sentiria falta, já que a passagem de volta não estava inclusa no pacote, devido a impossibilidades técnicas. Sabe-se apenas que os cientistas estavam trabalhando nisso agora.
Então, como estávamos vendo, Sandelon tinha acabado de cair em outro planeta. Levantou devagar, atento a cada ruído do ambiente. A única coisa que conseguia ouvir era uma frequência constante e aguda, como uma interferência. Era um som alto e irritante. A única coisa que não deixava aquele planeta ser um tédio completo.
E agora, o que eu faço?
Ele estava sozinho em um ambiente desconhecido sem missão a cumprir ou sequer alguma instrução do que fazer ou de como se virar naquele pedaço de fim de mundo. Aparentemente, os cientistas não se preocuparam com isso. Acharam que já seria muito otimista a previsão de que ele chegaria vivo a algum lugar. O fato é que chegou, e agora encarava desesperado a solidão de um planeta inóspito.
Para Sandelon, os planetas não passavam de bolotas no espaço às que se davam nomes engraçados. A posição deles também determinava se alguém estaria destinado a ser um grande teimoso ou só um fracassado qualquer. Mas querer pisar em um planeta distante só para dizer que pisou era inutilidade demais. Era improvável que ele encontraria algo além de plantas esquisitas e nada. Nada vezes nada.
Alguns diziam que existia a chance de haver vida inteligente em outros planetas. Mas Sandelon sabia que era besteira. Acreditava que só existia uma forma de vida inteligente em todo o Universo e ele era um bom representante dela. As Escrituras não mencionavam nenhuma outra espécie como cabeçudos com tentáculos ou rastejantes desintegradores de células, que eram vistos apenas na ficção e em estórias para colocar medo nos pequenos. Se existissem, as Escrituras certamente falariam deles. Isso encerrava a discussão.
Você deve imaginar o que vem a seguir. Sandelon deu de cara com um habitante daquele planeta, para seu completo pavor e para a ruína de suas crenças. A sua única reação foi ficar parado enquanto a criatura se aproximava, caminhando em meio ao mato alto. Sandelon então percebeu que, na verdade, ele havia morrido na experiência dos cientistas e que nada daquilo era real. Pelo menos foi no que ele preferiu acreditar por um momento.
O habitante era menor que ele, todo preto, tinha a cara achatada e grandes olhos amarelos. Tinha cinco membros, mas um deles não tocava o chão. Ficava suspenso no ar e parecia ter vida própria. Então a criatura parou na frente de Sandelon e começou a se comunicar com ele, em uma língua que ele não compreendia. Era um idioma simples, com poucos fonemas, mas estava longe de ser rudimentar. Encarou Sandelon, esperando uma resposta.
Tudo o que ele conseguiu balbuciar foi: não me coma.
A maior demonstração que Sandelon poderia ter de que aquela espécie era uma forma de vida inteligente foi a misericórdia. Era sinal de que havia entendido a mensagem. Uma criatura irracional o teria destroçado, com aquelas garras e dentes. Em vez disso, continuou a se comunicar. Estava tentando estabelecer um diálogo com Sandelon. Mas antes que ele pudesse pensar no que responder, a criatura saltou para o alto de uma das enormes plantas que havia no local, em uma velocidade e com uma habilidade que desafiavam a lógica rasa de Sandelon.
Não só se tratava de uma forma de vida inteligente, como era, certamente, um organismo superior e mais sofisticado. Sandelon ficou olhando embasbacado para a figura negra, que ainda o estudava com curiosidade lá do alto, e, de repente, achou injusto que houvesse no Universo uma espécie tão privilegiada quanto aquela.
Então é isso. A história de que a nossa existência é o centro de tudo não passa de uma grande mentira. Não estamos sozinhos no Universo.
Sandelon estava tão imerso nesse pensamento que nem se deu conta da ameaça que se aproximava. Tudo o que conseguiu ver foi uma criatura muito maior, bípede, carregando uma arma enorme e falando em uma língua ainda mais estranha. Então foi atingido por um tiro e tudo ficou embaçado.
Agora sim, estava diante da forma dominante daquele planeta.
******
As cigarras cantavam alto, mas Estefânia nem ligava mais. Era normal, ainda mais no fim de uma tarde quente como aquela. O que não era normal foi o clarão que borrou o céu por uma fração de segundos. A garota chupava uma manga quando isso aconteceu, e ficou olhando desconfiada para o horizonte.
- Diacho.
Foi lá ver o que era, não sem antes pegar sua espingarda de chumbo. Atravessou o matagal diante da casa e caminhou fazenda adentro, em direção ao local onde viu a luz. Quando chegou perto, viu que um bicho tentava pegar seu gato, que já tinha subido em um galho do pé de maracujá.
- Arre, espera aí, Celestino, que eu já tiro essa coisa daí!
Atirou sem pestanejar. Sabe-se lá que coisa era aquela. Não ia chegar perto a menos que o bicho não se mexesse mais. Avançou no mato alto até o lugar onde ele estava caído. Era uma criatura bizarra. Tinha metade do seu tamanho, o rosto alongado, o corpo curvado como a lâmina da foice de roçar mato. Coisa feia dos diabos. Definitivamente, não era humano, mas Estefânia não sabia que animal era aquele. E olha que de animal a garota entendia.
Alguns acreditavam que pudesse existir vida inteligente em outros planetas. Mas Estefânia sabia que era besteira. Trepou na árvore, pegou o gato e rumou para casa despreocupada. Por mais estranha que pudesse ser aquela coisa, não podia ser um alienígena. Essas coisas não existem.
Mais uma historinha que as próximas gerações podiam ouvir desde cedo.

O dia de Lourenço começava cedo. Quase sempre com uma torrada comida no meio do caminho. O café ele deixava para tomar quando chegava no escritório, enquanto lia os e-mails. Uma olhada rápida no portal de esportes. Leitura dinâmica no jornal do dia. Um cara sempre informado.
O telefone tocou, ele sabia que era pepino. Não deu outra. Era o cliente querendo marcar uma reunião no final do dia. Ele disse que sim, tudo certo, mas a apresentação não estava pronta ainda. Ligou na hora pro Pacheco e falou para dar um jeito de agilizar tudo. Urgente.
Ainda nem era hora do almoço e ele já tinha feito quase todo o texto para colocar na apresentação. Enviou os relatórios que o chefe pediu. Foi umas três vezes na mesa da Sílvia cobrar uns documentos pendentes. Pediu um sanduíche no delivery. Ia comer no escritório, adiantar umas coisas.
A tarde passou voando. Lourenço também. No táxi, respondeu pelo celular alguns e-mails que não teve tempo de ler no escritório. Deu uma boa alongada no pescoço. Sentiu uma tensão sobre os ombros. Devia ser por causa da apresentação de logo mais.
Tudo certo, tudo lindo, mas o cliente pediu alguns ajustes antes de aprovar o orçamento. Claro. E ele, que queria vender logo o projeto, trabalhou até às três da manhã. Só se rendeu à cama quando não aguentou mais de dor nas costas.
O dia seguinte continuou estressante. Ligações. E-mails. Gente incompetente. Cobranças. Contrato fechado. Relatórios. Café. A assistente de Lourenço chegou por trás e colocou as mãos em suas costas. “Nossa! Quanta tensão, Lourenço!” Ficou impressionada com a dureza dos nós em seus ombros. Fez uma massagem gentil no chefe estressado. Mas as costas estavam tão duras, que começou a dar soquinhos. É, ela não ia dar conta. Mas indicou um spa com um ótimo massagista.
Depois do expediente, Lourenço passou lá. Tirou a camisa e deitou na cama. Suas costas deram uma baita canseira no massagista. “Vamos precisar de mais uma sessão. A coisa está feia.” Chegou no escritório reclamando com a secretária. Parecia que a dor tinha piorado. Agora mal conseguia mover os ombros.
De qualquer forma, voltou ao tal spa. Quando tirou a camisa, o massagista fez uma cara feia de espanto. Mostrou o espelho a Lourenço. Ele levou um susto. O músculo sobre os ombros estava bastante inchado. Duro como pão de antes de ontem. “É melhor procurar um ortopedista!”
Com o terno, não dava para notar o inchaço nos ombros. Mas passou o expediente todo duro, sentindo-se um cabide. Chegou no consultório e o doutor fez a mesma cara feia de espanto. Apalpou os ombros, examinou as costas, deitou ele de lado na maca, até deu umas batidinhas com um martelinho. Pediu uns exames só para ter certeza, mas a verdade é que não tinha ideia do que podia ser aquilo. Mas adiantou: “Pode ser stress.” Receitou uns analgésicos. Pediu para Lourenço tirar pelo menos três dias de repouso.
No segundo dia, voltou ao escritório. Cheio de coisas para fazer. Tomou tanto remédio que tinha analgésico saindo pelos ouvidos. Aos colegas, dizia que estava melhorando. Claro, não tinha tempo para ficar sentindo dor.
E o inchaço não dava sinais de melhorar. Ou amaciar. O pior é que a dor estava se espalhando pelas costas inteiras. Tinha vontade de pedir o seu salário todo em massagens.
Ficar sentado doía. Ficar deitado doía. Fazer alongamento doía. Passar a mão doía. Doía tanto, que se levasse um murro na cara nem ia sentir. Começou a levar uma almofada para o trabalho. Suas costas estavam duras feito parede de concreto. E a lombar começava a ficar tão bizarramente inchada quanto seus ombros.
O doutor entregou as radiografias. Não dava para saber o que era aquele inchaço. Parecia uma formação óssea. Era melhor recolher uma amostra de sangue. Achou preocupante os remédios não fazerem efeito e disse que era um inchaço bem anormal.
Em casa, Lourenço não conseguia parar de pensar. “Ai, meu Deus, será um tumor? Vou morrer?” E aí lembrou do dead line do projeto que renderia um contrato milionário. Aproveitou e enviou um e-mail pelo celular antes de deitar. Dormiu de bruços.
Foi difícil acordar. Sentia-se esmagado. Tentou levantar, mas suas costas ainda doíam. Não conseguia se virar na cama. Escorregou para o lado, tirou o pijama e pegou a toalha. Ao passar pelo espelho, quase caiu para trás. “Que porra é essa?” Olhou para as suas costas, onde agora via um bizarro casco de tartaruga. Esverdeado. Duro. Lisinho. Pesado. Não podia ser outra coisa. Era mesmo uma carapaça, uma carapaça de tartaruga!
Céus, tantos dias para nascer um casco de tartaruga, tinha que ser logo no dia em que tinha uma reunião pela manhã? Estava atrasado. Faltava terminar um relatório. Agora tinha um casco de tartaruga que precisava esconder. Ligou o chuveiro e esfregou bem o rosto. Vai que ele descobria que estava sonhando. Sofrendo alucinações por causa da dor.
Saiu do banho se sentindo bem melhor. Mas o casco continuava ali. Como uma mochila carregada de pedregulhos. Só que Lourenço não ligava mais. Agora ele tinha duas longas nadadeiras e olhos brilhantes em um rosto bem enrugadinho. Foi andando pela casa devagar e feliz. Finalmente ia conseguir tirar as tão sonhadas férias na praia.
Moral da história: Quem nunca para ainda vai ser esmagado pelo peso que carrega.
A gente mora junto há pouco tempo, mas já deu para me acostumar às manias dela. E ela se irritar com as minhas. Por exemplo, quando ela chega do trabalho sempre tem uma bronca. Ou é a minha bebida que ela encontra derramada, ou o cobertor jogado no chão, ou ainda uma mijadinha fora, mas de leve. “Você dormiu o dia inteiro, né, safado?” Eu até tento disfarçar, mas a cara amassada e os olhos inchados não me deixam mentir.
Passo as tardes esparramado no sofá. E para ninguém dizer que a minha vida é só isso, às vezes tiro um ronco na cama também. Meu negócio é dormir, comer, beber. E eventualmente, cagar. No meio tempo, fico na janela olhando o que o povo lá de fora tá fazendo.
Ela só chega à noite, às vezes brava, às vezes morrendo de saudade. Sempre cansada. Quando não está muito tarde, ela vai para a cozinha e prepara a janta. Eu fico na sala, sentindo aquele cheirinho bom. Apareço só quando está pronto e vou até a mesa espiar, para ver se está com uma cara boa.
Ela serve o prato dela, e depois serve o meu. Enche de comida e depois vem reclamar que estou barrigudo. É foda.
Depois ela vai tomar banho. Quando deixa a porta aberta, é um sinal. Fico parado na porta, só olhando. E ouvindo a água bater no corpo dela e depois no chão. Fico ali a noite inteira, se ela quiser. Nem reclamo quando ela demora muito. Ela que tá pagando a conta de luz mesmo.
Eu prefiro banhos rápidos. Não gosto é de cortar as unhas, mas ela reclama quando vê que começam a crescer. Eu não tô nem aí. Faz uns meses que ela comprou um perfume, desses caros. Uso uma vez por mês e olhe lá. Bom mesmo é o meu cheiro natural de macho.
Quando ela começa a apagar as luzes, eu já sei que é a hora de dormir. Chego de mansinho na cama. Faço massagem no pescoço e peço para entrar dentro do cobertor. Gosto de dormir de conchinha, bem abraçado. Quer dizer, até ela se mexer no meio da noite e me empurrar para o lado. Volto, faço carinho nos cabelos, roço o bigode no narizinho dela. Mas ela não acorda por nada. Justo na hora em que eu estou mais aceso. Aí não tenho o que fazer, amigo. O jeito é levantar e ir beber uma água. Ou vou para a sala e brinco sozinho mesmo.
Ela sempre acorda atrasada. E de mau humor. “Sai daqui! Não me enche o saco, tô atrasada!” Fico puxando o fio da chapinha enquanto ela arruma o cabelo, só porque me divirto com ela irritada.
Já na hora de sair, saio correndo antes que ela abra a porta. Então eu mio alto. Ela não pode ir embora sem antes colocar no pires o meu Whiskas sachê.
Baseado em fatos reais
Algumas coleções começam assim: deliberadamente, antes mesmo de conseguir o primeiro item. Quero colecionar selos. Moedas antigas. Anões de jardim. Mangá tal vai ser publicado, vou colecionar. Outras começam depois que o cara já tem um item e, hm, isso é legal, vou conseguir outros e colocar todos juntos na prateleira. Mas a coleção dela não. Ela só começou com isso depois que percebeu que já tinha muitos.
Ela colecionava recifenses. E não era como colecionar objetos, em que dava para colocar tudo em potinhos e exibir na prateleira. Eles faziam coisas, se moviam muito, interagiam entre si e com pessoas diversas, e na maioria das vezes, nem sabiam que estavam sendo colecionados. Então imagina que trabalhão seria para Lia colocar todos eles na sua estante.
Quando ela se deu conta que tinha muitos deles, e que aquelas pessoas amontoadas na listinha do twitter tinham algo em comum, percebeu que eram recifenses colecionáveis. A partir de então, o que Lia fazia era descobrir e observar.
Ela usava um caderninho preto, daqueles moleskines que nem pauta tinha, e escrevia com uma letra meio torta o nome deles, com arrobinha e tudo. Ao lado, colava uma etiquetinha com a foto ou com a imagem que melhor representava cada um. Fazia anotações que ninguém ia entender, mas não ligava: não colecionava isso para os outros mesmo.
Algumas anotações eram cheias de detalhes, outras bem vagas. “Cara de boina, fala pouco” ou “compõe tão bem quanto Chico Buarque” ou “saia rodada, coisas floridas, tons terrosos, igual ao cabelo. Gosta de dar ideias de fim de semana, redatora, mas tem bom gosto para fotografias como ninguém” ou “blogs com os melhores nomes ou qualquer coisa do tipo, apelido curioso, cabelo bem encaracolado (será que ainda usa assim?), escreve escreve escreve, confuso fuso horário, não tá em Recife, mas esse não me engana” ou “gosta de achar vídeos bizarros, e se satisfaz quando passa para os outros mas ninguém tem coragem de ver” e assim por diante, por muitas e muitas páginas.
Esses pequenos detalhes é que davam a Lia prazer de colecionar. Porque o melhor de sua coleção era que crescia em quantidade e em profundidade: ela podia descobrir novos recifenses, ou descobrir coisas novas nos recifenses que já tinha. Isso porque ela conseguia interagir com eles, e a cada conversa tinha algo novo para catalogar (o que não seria possível se ela colecionasse figurinhas de jogadores de futebol ou objetos da Hello Kitty).
Muita gente dizia que nordestino era tudo igual. Alguns até achavam que do sudeste pra cima, era tudo baiano. Mas Lia via o quanto eram diferentes as pessoas do nordeste, com características tão peculiares, tão próprias e notáveis; mas os recifenses, uau. Não era nenhuma tara, mas Lia os achava interessantíssimos. Não tinha um recifense igual ao outro, então ela não corria risco de ter nada repetido em sua coleção.
E Lia já tinha tantos, que chegou a um ponto em que ela não precisava procurar. Os recifenses é que iam até ela, achando que ela também era de lá. Isso facilitou as coisas, e Lia até gostou da ideia de parecer de Recife. Pesquisou blogs, abriu google maps, descobriu bandas, e selecionou alguns vídeos para ver se conseguia ensaiar aquele sotaque inconfundível. Não chegou nem perto de conseguir. Logo ela, brasiliense naturalizada, que mal conseguia balbuciar seu mineirês de origem, tentando arriscar o recifês avançado.
Um dia, Lia esbarrou com um recifense em carne e osso. Foi em um almoço com amigos; ela já tinha ouvido falar dele, mas não imaginava que ele se parecia tanto com o Otto. Ficou emocionada. Tirou sua caderneta da bolsa sob a mesa, e disfarçadamente anotou “redator, veio da Espanha, coca-cola com gelo e sem limão, salada na mesma proporção que o filé”. Com um sorrisinho satisfeito e os olhos brilhando, fechou o moleskine e colocou de volta na bolsa.
***
Depois de um tempo, Lia finalmente foi ao Recife. E seu interesse em conhecer a cidade não era exatamente pelas praias. Ela só teve um pequeno probleminha no aeroporto: desconfiaram da bagagem dela depois de descobrir uma mala cheia de caderninhos pretos.

Post escrito para o Concurso de Blogueiras da Lola
Só descobri mesmo que eu era menina aos 5 anos. Vou te contar que foi uma descoberta espantosa; mas não foi assim, do nada. Eu já suspeitava que eu fosse menina. Eu gostava de rosa, usava cabelo Chanel, e já tinha ouvido falar de uma tal perereca que talvez tivesse tudo a ver com o caso.

A culpa é toda dela.
“Meninos fazem karatê. Meninas fazem balé.” Resumindo, foi assim que descobri. Eu estava no Jardim I, toda besta com a abertura das aulas extra-classe, aquelas atividades que a escola cria para manter a pirralhada ocupada e os pais despreocupados. Claro que eu fiquei doida para fazer karatê. Eu era pequena, mas não era boba. Assistia desenho animado e sabia da grande aplicação prática que a luta teria quando eu tivesse idade para entrar para a Liga da Justiça. Ok, nem tanto. Mas parecia ser divertido e as roupas eram mais legais.
Lembrei minha mãe do início das aulinhas e ela disse algo sobre comprar o vestido. Protestei, dizendo que queria mesmo era fazer karatê, mas ela respondeu de cara: “Ah, não senhora. Nem pensar”. E eu ali, sem entender por que não podia. Sabe criança que insiste? Então. Aí ela explicou: “meninos fazem karatê. Meninas fazem balé.”

Ai que saco. Preferia estar dando porrada em alguns meninos.
Só nesse episódio descobri o que significava ter uma vagina. Não fiquei revoltada. O mundo caiu na hora, mas na semana seguinte, eu já estava toda serelepe no balé com meu collant cor-de-rosa (embora não deva ter feito as aulinhas por mais de um mês). Na verdade, a partir dali, comecei a me acostumar com a condição de portadora de uma vagina. Comecei a me acostumar em não ter muita opção.

Eu na infância
Então era isso: eu soube exatamente o momento em que me descobri menina. Mas não posso dizer o mesmo da descoberta do meu feminismo. Quer dizer, como é que isso aparece? Bem que eu queria dizer que sou feminista desde criancinha, mas isso foi um processo. E teve muito mais a ver com a inocência de achar que eu podia fazer o que eu quisesse, do que com a frustração de não poder fazer.
Apesar de ter sido criada em uma família conservadora e cristã (e por consequência, altamente machista, onde era minha a obrigação da louça suja e das camas desarrumadas, nunca do meu irmão), passei longe de ser a mocinha ideal. Alguma coisa deu errado.
(As Barbies estavam lá, fazendo parte da minha formação, e mesmo assim, alguma coisa deu errado. Talvez porque eu soubesse que eu é que as manipulava – e não o contrário. Nas minhas brincadeiras, onde eu já mostrava algum talento para desenvolver histórias mirabolantes, Barbies e Cavaleiros do Zodíaco faziam parte da mesma história, inclusive com as bonecas desempenhando papel de heroínas. Eu sei, eu sei. Assistia desenho demais.)

Quem disse que RPG não é coisa de menina?
O negócio é que quanto mais eu crescia, mais me sentia à vontade no universo de coisas predominantemente masculinas. Quadrinhos, super-heróis, animes, vídeo-games, heavy metal. Eu sempre era a única jogadora do meu grupo de RPG. Meu sonho era trabalhar na Marvel, e eu já produzia meus próprios quadrinhos.
Dessa vez, ninguém precisava me dizer “meninos fazem quadrinhos, meninas fazem comida”. Eu já sabia. Mas fazer o quê, se eu tinha talento para histórias e nenhuma para culinária?

Experimenta dizer que mulher não pode alguma coisa.
E então, um dia resolvi ser publicitária. Trabalharia na área de criação, onde ainda havia muito mais homens do que mulheres. Mais uma vez, ninguém me disse “meninos fazem criação, meninas fazem atendimento”, apesar da grande maioria das mulheres desempenharem esse papel (sórdido) na publicidade.
Posso dizer que uma coisa continuou a mesma, da época do RPG aos tempos atuais: sempre fui vista como uma igual. E acho que aí está a origem do meu feminismo. Não no fato de ser discriminada, mas no fato de ser aceita em um universo que não foi feito para as mulheres, e ainda assim, ser tratada como igual. E por que não seria? Afinal, minha vagina pouco tem a ver com a minha capacidade de fazer as coisas. Fora os orgasmos múltiplos, é claro.
Ainda não acabou
Mesmo não seguindo a cartilha da boa moça, descobri que podia ser aceita – e o melhor: fazendo o que eu realmente gostava. Essa era uma descoberta realmente espantosa. Definiu a minha vida! Mas se isso era tão bom, não entendia por que ainda havia uma sociedade que ensinava que meninos fazem karatê e meninas fazem balé.
Foi quando conheci o blog da Lola e da Marjorie (não necessariamente nessa ordem). Com elas, minha visão de mundo se expandiu. Fiquei mais sensível ao que antes parecia invisível. Comecei a entender que tudo fazia parte de uma construção social, cuja função era manter todos em seus devidos lugares. Percebi que era uma grande besteira acreditar que as coisas eram assim só porque deus quis.
Acredito que as coisas podem ser diferentes. Que homens e mulheres possam ser o que bem entenderem. Que a igualdade que eu experimentei com as pessoas do meu meio possa ser vivida na sociedade como um todo. Aí um dia não vai importar se você tem ou não uma perereca, porque nesse dia (e espero que seja logo) ninguém mais vai ensinar o que é coisa de menino e o que é coisa de menina. Se você também acha isso, parabéns. Você também é um goddamn feminista.
Quando transaram, Julia gozou, apaixonada. Quando se viram no dia seguinte, foi como se nada tivesse acontecido. Julia sofria de amnésia.

Você pode até estranhar, mas tem uma teoria que diz que os relacionamentos, monogâmicos do jeito que a gente conhece hoje, só duram tanto tempo por causa da infidelidade. Pensa bem: em uma cidade grande como a nossa, nos tempos atuais em que é tão fácil conhecer pessoas novas, e em um relacionamento com duas pessoas minimamente normais, a chance de pelo menos um ter traído ou vir a trair o outro deve ser algo em torno de 80%. Ou seja, um relacionamento 100% fechado funciona muito bem, obrigada, mas vai ter alguém levando um chifre.
Quem me convenceu disso foi o Carlos. Acho que já te falei dele. Uma delícia de moreno. Na hora em que ele me contou a tal teoria, eu estava só de calcinha deitada do lado dele, enquanto nem passava pela cabeça do meu namorado que eu tinha acabado de transar com outro cara. Bem, aí eu tive que concordar que aquilo fazia todo sentido.
E continuou fazendo, mesmo depois de alguns meses sem namorado. Eu passei um bom tempo querendo experimentar a vida de solteira de novo, e quando finalmente pude, lembrei que nem era tão empolgante. Fora alguns encontros com o Carlos, fiquei meses sem homem. E quer saber, nem dei importância. Tinha começado como monitora do departamento de audiovisual e estava trabalhando insanamente no meu projeto final. Meu relacionamento era com a orientadora, e olhe lá.
(Ah, o Carlos? Não é nada sério. Seguinte: nós somos amigos, temos intimidade, quando eu tô afim eu ligo, ele também me procura quando bate a vontade, a gente transa, passa a noite juntos, mas às vezes saímos só para ter uma boa conversa mesmo. Além do mais, sempre compensa ter por perto um cara que sabe fazer uma boa massagem. Fica a dica.)
O lance de ter uma rotina assim tão corrida é que você acaba se apegando com mais força no que está por perto. Por exemplo, os almoços com o pessoal do estúdio nunca foram tão importantes, agora que eu ficava por lá só meio período. Na outra metade do tempo, o meu apego foi com os colegas de monitoria. Alguns eu já conhecia, tipo o Gustavo, que estudou comigo no início do curso, mas que só agora a gente tinha a oportunidade de conviver de verdade.
A gente estava morando na mesma quadra há poucos meses, e eu lembro que ele e a Ana foram os primeiros a me visitar no apartamento novo. Desde que eu os conheci eles namoram, mas já fazia um ano que eles moravam juntos. É um casal que gosta sempre de ter os amigos por perto. Vez ou outra chamam o pessoal para jantar lá, e às vezes fazem até umas festinhas com muita comida, bebida e karaokê.
(Mas onde eu quero mesmo chegar é na teoria da infidelidade. Antes era importante você saber desses dois para entender o resto da história. Você também precisa saber que apesar de ser um casal muito caloroso e atencioso com todo mundo, é um casal como qualquer outro, em um relacionamento monogâmico, 100% fechado, e tal. Quanto mais eu convivia com os dois, mais eu queria que o Carlos os conhecesse, para ele ver que a teoria tinha lá seus furos. Mas não foi bem isso que aconteceu.)
Então, o Gustavo. Não sei exatamente como foi que começou a existir entre a gente aquele campo invisível de tensão sexual. Vamos combinar que a gente não estava no ambiente mais propício para surgir aquele tipo de atração; afinal, tínhamos que ficar de um lado para o outro dos laboratórios para dar suporte às atividades. Mas quando a gente se cruzava, vinham aqueles olhares. No começo, não entendia muito bem. E aí comecei a perceber outros sinais de interesse mais incisivos, como alguns elogios, insinuações, o toque dele buscando minha mão, meu braço, ou meu rosto.
Acredite, nada mais excitante que ter um amigo gostoso, inteligente, e que te dá mole. Fiquei na minha, mas queria saber até onde ia esse chove não molha. O problema é que ficou um tempão nessa indefinição.
A gente era praticamente vizinho e com frequência ele me deixava na porta do meu prédio. Mas aquele dia ele parecia determinado a alguma coisa, ou vai ver era impressão minha. A gente estava no carro, batendo papo sobre o trabalho, como sempre. Ele começou com uma conversinha que, para quem está de fora não tem nada de mais, mas eu sabia que ali tinha coisa. Vez ou outra me tocava, fazendo parecer que não havia nenhuma intenção nisso. Ai que saco, já estava vendo que isso não ia levar a lugar nenhum.
Aproveitei quando ele tocou meu rosto, e toquei na mão dele de volta. Ele se surpreendeu, achou que eu o segurei porque não queria que me tocasse. Mas se surpreendeu ainda mais quando levei a mão dele para perto da minha boca, e com a língua bem macia, e bem lentamente, lambi seu dedo indicador. Ele esperou passar a onda de arrepio que faria sua voz tremer, e então disse firmemente: “Vem cá. Coloca essa língua dentro da minha boca.” Ele queria lamber arsênico. Ele sabia que era veneno, mas sabe como é: precisava dar uma provadinha.
E então, quando eu fui com tudo e o beijei, a teoria da infidelidade se comprovou mais uma vez. O tesão dele parecia buscar mais do que só a minha língua e o meu corpo junto do dele. Então eu disse para irmos para outro lugar. Pedi para ele subir. Ele parou e disse que até queria, mas não devia. Dei uma risadinha, mas era porque eu estava aborrecida mesmo. Crise de consciência numa hora dessas?
“Eu até queria, Elisa. Mas porra. Você é mulher da hora errada.” Tive quase certeza que ele tirou isso de uma música do Aerosmith. Nem lembro o nome, mas é aquela que fala “love is the right dress on the wrong girl”, coisa assim.
Sabendo que ele estava pensando na Ana, fui bem franca e disse: “Desculpa aí, mas não acho que tem isso de mulher da hora errada. Cara, um relacionamento não precisa ser estritamente contratual. Onde tá escrito que só vale com uma pessoa? Tô te dizendo isso porque sei como funciona. Aliás, sei que fidelidade NÃO funciona. Você é um tesão, mas é uma pena que não possa. Quando se resolver com isso, me procura.” Dei um beijo rápido e subi.
Eu não achei que isso ia mexer tanto com a cabeça dele. Umas duas semanas depois, eu estava em casa quando ele me ligou me chamando pra dar um pulo lá. Eu estranhei, porque depois que a gente ficou, ele esfriou comigo, ficou distante. E agora me chamando pra ir na casa dele? Vai entender.
Ele deu voltas até chegar onde queria. Então me perguntou: “Olha, eu ainda não tirei aquele dia da cabeça. No carro. Eu precisava mesmo saber… Saber se você ainda está afim.” Olha gato, é só dizer “pega eu”. Claro que eu não respondi assim, mas ele entendeu o recado. Aí ele vem e me diz que a Ana ia estar lá. Pronto, joguei a toalha, porque não estava entendendo mais nada.
Foi então que ele veio com a bomba: “Tem um tempo que a gente anda conversando, querendo experimentar coisas novas. Convenci ela de um ménage com outra mulher, e aí pensei em você. Ela topou na hora. Claro que ela não sabe o que aconteceu entre a gente. Mas nem vai precisar. Então, se você quiser…”
Eu comecei a rir. Quer dizer, imagina o que ele não deve ter feito para convencê-la. Na hora, fiquei curiosa mesmo para saber o que ele disse pra Ana. Deve ter dito que eu era a pessoa ideal pelo fato de ser amiga, de confiança. Aham. Ter me agarrado no carro não teve absolutamente nenhuma influência nisso.
Mas taí uma coisa que a teoria do Carlos não previa. Vai ver porque ele nunca se meteu em um triângulo onde os outros dois vértices se encontravam – do jeito que o Gustavo estava propondo. E eu, que nunca fui fã de geometria, comecei a gostar dessa história.
(continua)
Essa é a história de Bete e Luiz: ele esbarrou de leve no cotovelo dela quando atravessaram a rua. Nunca mais se viram.
Chega um certo período no semestre em que fica difícil manter a regularidade na postagem. Mas o que eu mais queria era voltar a escrever por aqui, isso me ajudaria bastante a escrever no trabalho; ando passando por muitos bloqueios ultimamente. Esses dias encontrei um texto antigo do qual nem lembrava mais ter escrito. Resolvi compartilhar aqui no blog, mesmo sendo tão autobiográfico. Já fica o aviso que é um texto pessoal e um pouco extenso. Continue a ler por sua conta e risco.

Não importa quantas vezes eu já tenha visto aquelas fotos. É sempre como ver algo que já faz parte de um outro mundo, não apenas outra época. Aquela Aline de dois anos brincando na areia era uma eterna curiosa quanto à natureza dos adultos. Eram criaturas confusas que ela não conseguia entender, embora se preocupasse bastante com o que eles poderiam pensar dela. Essa Aline de hoje já não tem tanto interesse assim. Vê o quanto todos eles (inclusive ela) não são lá grandes coisas.
Aquela Aline, de olhos puxadinhos quando sorria, cabelo curtinho, anelado e revolto, não cresceu. Ela não se transformou em outra pessoa. Ela não se transformou na Aline que ganhou um irmão bebê e começou uma coleção invejável de Barbies. Essa daí simplesmente surgiu. E após essa, uma Aline que brincava de Lego, de Power Rangers com os amigos do prédio, assistia desenho animado, e que a mãe cortava a franja bem reta e curta, no alto da testa. E após essa, uma Aline que ganhou uma irmã caçula, se mudou para a Ocidental e não tinhamais nada a ver com todas as outras. Ela não era adorável nem tinha todos aqueles amiguinhos. Era uma pré-adolescente de rosto estranho, corpo desajeitado, de conceitos pouco definidos, reprimida, pouco habilidosa, mas tentava se encontrar. E de onde surgiu a Aline que abusava da maquiagem, arrumou namorado, andava de preto, cheia de colares e anéis, curtia lá seu rock meio punk, meio hard rock, meio grunge, meio sei lá o quê? Por todos os deuses, de onde essa doida surgiu? Onde ela estava na história até agora?
E então essa criatura cheia de rebeldia, com uma visão nada resignada de mundo, deixou outras Alines entrarem na história. Uma Aline de cabelão preto e muito comprido. Uma Aline que de tanto ficar em casa, ganhou um tom amarelo e pálido na sua pele antes tão morena. Uma Aline que não suportava ouvir Nirvana, embora uma Aline que tivesse vindo antes adorasse. Teve até uma Aline que estudava pra concursos públicos e tentava passar na UnB pra Artes Plásticas. Outra que não se esforçava muito para arrumar um bom emprego, e fazia uns freelas de graça só pra ganhar experiência. Uma Aline que teve alguns namorados por longos períodos de tempo, e que por conta disso aprendeu muito, mas tornou-se desagradável e irremediável em muitos aspectos. Uma Aline que viu, através do irmão que começou a experimentar a fase da rebeldia, que esse negócio de ir contra a família não levava a lugar nenhum.
E veio outra, que foi contratada por uma empresa de TI e logo virou assistente do gerente de projetos, passando a coordenar e receber tarefas importantes. Esta passou na faculdade, e diferente de uma Aline que quase fez Artes Plásticas, e de outra que queria fazer História, e de outra (coitada) que tentou Desenho Industrial, essa foi bem-sucedida e tinha tudo a ver com Publicidade. Essa Aline, que conheceu o Marcos no primeiro semestre e se tornou a melhor amiga dele, também não é a mesma que um dia deu a louca e resolveu beijá-lo, na casa dele. Essa é a Aline sortuda que conseguiu um bom namorado. A outra, a “apenas amiga”, esquivou do beijo que ele tentou roubar um dia, e ficou sozinha.
A Aline que assumiu a partir daí, apareceu meio que sem ninguém perceber. Era meio desesperada, meio histérica, envolvida demais com tudo que fazia. Ela tinha boas idéias, era engajada, cheia de projetos, mas com pouquíssimo tempo para se dedicar aos amigos. Sim, um dia até houve uma Aline que escrevia cartas, participava de fóruns, e veja só, até tinha melhores amigas. Mas a seguinte perdeu o contato com muitas pessoas, porque não concordava com o egoísmo com o qual eles a tratavam. Também não se sentia confortável quando percebia que eles estavam, na verdade, se dirigindo a uma Aline que ficou pra trás na história há um tempão, que não gostava mais das mesmas coisas que eles, nem via mais graça nas piadas que eles acham o máximo. Não dá para exigir que uma Aline fique por tempo indeterminado, a história precisa continuar.
Quais Alines virão daqui em diante? Virá uma que se dedica a escrever, ou uma que é uma chefe megera, ou ainda uma que é uma mãe divertida e cheia de coisas pra ensinar? Quais Alines virão?
Passei pelas fotos como quem agradece a cada uma daquelas escritoras (pequenas ou grandes) pela parcela de contribuição que trouxeram à história, seja pelos altos, seja pelos baixos. E olho para aquela pequenininha, que nem dez meses tinha, no colo da mãe magrela que lhe dava mamadeira, e penso em lhe dizer: “Você ficou com a melhor parte da história. Seria tão ruim se você tivesse que largar tudo isso e vir aqui viver os meus problemas; mas venha me visitar de vez em quando, para que eu não me esqueça que é da sua história que eu estou cuidando agora.”