AlineValek

A difícil vida do privilegiado

22 de April 2013 por Valek

privilegio

Privilégio é um assunto espinhoso — especialmente para quem os tem. Ter que ouvir as dificuldades dos que são diariamente oprimidos é incômodo não porque escancara os privilégios que os privilegiados sequer percebem que têm, mas porque é uma puta injustiça não reconhecerem que a vida do privilegiado não é esse mar de rosas, não! A vida do privilegiado é bastante difícil sim, de forma que precisamos falar sobre suas penúrias e sofrimentos, sobre seus dramas, sobre suas dificuldades nesse mundo tão injusto.

A vida do privilegiado é difícil, acima de tudo, porque ele é incapaz de se perceber como tal. Sozinho ele não consegue ver que ele é rodeado de privilégios, de facilidades que os outros não têm, mas que para ele não passam de coisas banais, absolutamente normais. E como ele sofre por causa disso! Ter gente dizendo o quanto ele é privilegiado enquanto ele só está andando tranquilamente de mãos dadas com a pessoa que ama: “nada de mais! eu não sou privilegiado, imagina!”. Ele sofre por nunca entender porque estão reclamando que os filmes e comerciais quase não mostram negros, afinal, ele nem tinha percebido que eles não apareciam!

A vida do privilegiado é difícil porque ele tem imensa dificuldade de se colocar no lugar do outro. Não daquele que tem mais, do ricaço que tem lancha, mansão e conseguiu estudar no  exterior, mas daquele que tem menos. Para o privilegiado, é impossível imaginar alguém que não tenha feito faculdade não por escolha, coisa que ele está acostumado a ter, mas por falta de. É sofrível para o privilegiado tentar entender que aos outros é negada a autonomia ao próprio corpo que ele mesmo tem e sempre teve. E como é difícil viver com o privilégio de sequer conseguir imaginar por que tipo de coisa tem que passar uma pessoa que tem menos que ele.

A vida do privilegiado é difícil porque nem se esforçando muito ele consegue fracassar. Ele se ressente por ninguém falar da imensa pressão que ele sofre por poder fazer o que quiser e ser o que quiser na vida. Não é uma dureza viver em um mundo que funciona para não te deixar na pior nem se você quiser?

A vida do privilegiado é difícil porque ele não pode sequer expôr seus sofrimentos sem ser olhado como alguém mesquinho, que reclama de barriga cheia. Quando o assunto é violência contra negros, contra gays, contra transexuais, contra mulheres, contra pobres, contra índios, o privilegiado sente-se excluído, até revoltado. Ele não consegue aceitar não ser o centro de um assunto e, em sua angústia, entra na discussão para lembrar os oprimidos: “mas e eu? vocês não ligam para o meu sofrimento?”

A vida do privilegiado é difícil porque ninguém leva a sério o seu sofrimento. Seus reclames são transformados em piada e eles não podem nem contar com o politicamente correto (que tanto desprezam) para defendê-los dessas brincadeiras de mau gosto. O privilegiado fica, então, acuado pela insensibilidade daqueles que insistem em apontar seus privilégios e ofendê-los usando essa palavra feia.

Ter gente lutando por coisas que para ele sempre foram tão acessíveis e bobas, isso sim, é querer ter privilégios. Ele, que mora no bairro certo, tem a cor de pele certa, tem o gênero certo e nasceu no corpo certo, é apenas alguém normal que conseguiu superar os obstáculos da vida, sem choramingar para ter privilégios. Mas ninguém reconhece isso.

Uma lágrima desliza sobre o rosto do privilegiado quando alguém fere seus sentimentos ao lembrá-lo de seus privilégios. E então ele enfrenta mais um calvário, que é a terrível sensação de culpa que o corrói por dentro quando ele finalmente percebe que pode ser um privilegiado. Atordoado, ele grita “eu não tenho culpa! Eu não tenho culpa!”, mas, na verdade, está apenas tentando fugir de algo mais doloroso que a culpa, que é a reflexão sobre uma estrutura que sistematicamente beneficia alguns enquanto oprime outros.

O privilegiado sofre porque ele não quer falar sobre isso. Ele não quer ouvir sobre isso. Ele quer poder continuar falando sobre seu sofrimento e dificuldades, sobre ter que pagar mais na balada, sobre ter que pagar impostos enquanto tem vagabundo (sic) recebendo ajuda do governo, sobre não saber como explicar para o filho porque dois homens estão se beijando, sobre o horror de não poder fazer piadas sobre estupro, sobre estar sofrendo censura porque fez um comentário racista que não foi aprovado num blog, sobre a empregada cheia de direitos trabalhistas que não se presta nem a fazer um mingau depois do horário de expediente, sobre ter que se apresentar ao exército enquanto as mulheres ficam na maior vida boa (embora ele, branco, de classe média e com um sargento ou coronel amigo do pai não tenha precisado servir de verdade, ao contrário daquele outro rapaz da periferia, que, mais que querer, precisava servir para conseguir sustento).

É duro ser um privilegiado, eu sei. Por isso o privilegiado precisa de ajuda, especialmente para enfrentar a parte mais difícil: enxergar seus privilégios.

***

“As crianças, por não conhecer nada de diferente, aceitam a realidade como ela é. Para a criança privilegiada, seus privilégios são tão naturais que ela pensa que todo mundo os têm.

Então, um dia, por qualquer motivo (talvez lendo um blog), baixa aquela consciência da enormidade dos seus privilégios. De quanta coisa você tem ou teve que outros nunca tiveram.

Em um segundo momento, consciente de todos seus privilégios, você pára de reclamar dos privilégios que não possui e, mais importante, pára de lutar por mais privilégios.

Por fim, percebendo que somente isso não basta, mesmo que a custa de alguns sacrifícios pessoais, você começa a repassar alguns desses privilégios para quem nunca teve nenhum.

E assim o mundo começa a mudar.”

Da série de textos sobre Privilégios do Alex Castro. Leiam todos, de um por um. Uma, duas, doze vezes, sempre que você puder, sempre que você sentir aquela vontade incontrolável de dizer que uma minoria está “pedindo direitos demais”, sempre que surgir aquela coceirinha para dizer que os seus problemas sim, são mais graves do que os daquele grupo historicamente oprimido, sempre que você se sentir tentado a desviar o rumo de uma discussão sobre uma sociedade estruturalmente desigual para a culpa que fazem você, coitado, sentir por carregar o peso desses privilégios — até porque, como Alex Castro ainda fez questão de explicar, “ser responsável por solucionar um problema é muito distante de ser culpado por ele.”

***

Você conseguiu contar quantas vezes repeti as palavras “privilégio” e “privilegiado” no texto? Para alguns, vai parecer um descuido grosseiro, “não se repete tantas vezes umas palavra assim, essa autora não sabe escrever, vou lá nos comentários corrigi-la etc”. Por incrível que pareça, isso foi cuidadosamente pensado para ter um efeito. Você sabe dizer por que fiz isso? Sim. Para que o privilégio deixe de ser uma coisa invisível. Quem sabe assim, repetindo a palavra incansavelmente, ela consiga se materializar diante dos seus olhos, ganhar textura, cor, formato, volume e que você consiga perceber os privilégios que te cercam. Que eles são palpáveis, que eles têm peso. Que eles são isso: privilégios.

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A pessoa que não quero ser

04 de April 2013 por Valek

pinterest

Acho muito difícil seguir modelos. ”Quando crescer, quero ser igual (insira pessoa de sua admiração aqui)”. Além de alguns modelos serem simplesmente inalcançáveis, eu não sei dizer que tipo de pessoa eu gostaria de ser. Prefiro seguir por eliminação. Porque sei bem que tipo de pessoa eu NÃO quero ser.

A pessoa que não quero ser se preocupa demais em criticar a vida dos outros e escolhas alheias que nada interferem em sua própria vida.

A pessoa que não quero ser é aquela que faz comentários rudes e constrangedores porque acredita que está sendo “sincera”.

A pessoa que não quero ser é um monolito que acredita que tudo o que sempre foi deve continuar a ser, que não questiona as tradições, que tem pavor de mudanças.

Essa pessoa, a que não quero ser, vai fazer as coisas do jeito mais fácil, vai seguir a cartilha, vai fazer o que é esperado que ela faça.

A pessoa que não quero ser é aquela que não assume responsabilidade pelas coisas que diz ou faz.

Não quero ser a tia resmungona. Não quero ser a pessoa que chuta a poltrona da frente no cinema. Não quero ser a pessoa que coloca o som alto demais sem se importar com os vizinhos. Não quero ser a pessoa que corrige o português dos outros em público. Não quero ser a pessoa que faz montagens toscas para postar no Facebook.

Não quero ser a pessoa que comenta sem ler. Que chama a outra de vadia. Que agride desconhecidos pela internet. Que comenta “como fulana está gorda”. Que faz perguntas indelicadas. Que impede o companheiro de ter vida própria, como outro ser humano independente. Que se define pelas coisas que tem. Que vai limitar alguém por conta de seu gênero. Que se deixa limitar pelo que disseram que é mais adequado ao seu gênero. Que afirma coisas sem saber sobre o que está falando. Que não sabe dizer “não sei”. Que quer ter opinião sobre tudo.

Não ser essa pessoa é o trabalho mais difícil a qual me dedico. É um esforço diário. Então repito para mim mesma, o dia todo “não quero ser essa pessoa, não quero ser essa pessoa”, esperando que, no final das contas, tudo o que me resta ser que não seja essa pessoa me torne uma pessoa um pouco melhor.

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Valores da família

12 de March 2013 por Valek

addams family

Não é lindo quando um político fala que defende os valores da família? Não que defende coisas palpáveis, como água encanada para todos, ou uma reforma no Ensino Médio, ou a construção de uma cidade subterrânea, ou a arrecadacão de impostos sobre a beleza, mas sim os “valores da família”. Essa coisa indiscutivelmente importante, mas que ninguém explica o que é.

Justamente por ninguém nunca dizer o que isso significa, é que podemos fazer um breve exercício de imaginação para preencher com algum sentido os “valores da família”. Que valores são esses, afinal?

Valores da família são as pequenas hipocrisias que mantêm a sociedade unida, apesar de tudo.

Valores da família são os momentos de constrangimento nas festas de fim de ano. É reencontrar a prima e dizer que ela emagreceu só pra parecer educado. É dizer para aquela parente distante que você nunca visita: “nossa, como você está sumida!”

Valores da família são os pais projetando nas crianças o que eles sempre quiseram ser mas não puderam, porque precisavam trabalhar duro e ganhar dinheiro para um dia poder ter filhos. É não querer que o filho assuma que gosta de rapazes por medo do que os vizinhos vão falar. É poder dar beijo de língua nas primas, porque elas não são exatamente família, né?

Valores da família são a macarronada e o frango assado de todo almoço de domingo com os pais. É a desculpa que todo mundo dá para não lavar a louça depois. É dividir o quarto com o irmão e ele pegar suas coisas sem pedir. É a mãe ver que a família está desmoronando quando encontra maconha na gaveta da filha. Ou uma camisinha. Ou um DVD do Rafinha Bastos.

Valores da família são os casamentos que não acabam por preguiça. Ou medo. Ou porque “o que iam dizer, meu deus?”. É poder criticar as escolhas daquela sua sobrinha artista, que não fez concurso público. É esperar que os seus filhos tenham a mesma religião que você.

Valores da família são as bonecas caríssimas que você dá para sua neta, mesmo que ela tenha pedido o boneco do Batman. É ser adolescente e gritar dramaticamente “eu nunca pedi pra nascer!” se a mãe ameaça dar bronca. É ir transar na casa do namorado ou da namorada porque os pais dele ou dela se importam menos com isso. Ou preferem nem imaginar o que vocês estão fazendo.

Os valores da família incluem todos os pitacos que você pode dar na vida dos seus parentes. Ou os comentários invasivos que você pode fazer sobre a família dos outros. Exatamente como fazem alguns políticos, ao acreditar que aqueles que não têm uma família com pai e mãe casados na igreja, filhos heterossexuais e casa própria sejam menos família, com menos valores.

Para os defensores dos “valores da família”, a família é um monólito. Um conceito estático e imutável que deve estar sempre acima de tudo e de todos. Como se as famílias deles valessem mais que as outras. Como se as famílias que eles consideram “certas” não estivessem cheias dessas pequenas controvérsias e momentos de constrangimento. Como se existisse família “certa”.

Nesse caso, não são os valores da família que precisam de defesa; mas nós é que precisamos nos defender de seus defensores.

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Teocracia à brasileira

07 de March 2013 por Valek

Em um futuro não tão distante, os recém-nascidos saem da maternidade com uma certidão de nascimento e uma conta no Facebook, e Holywood já fez todas as adaptações possíveis de livros para o cinema, incluindo o Manual Básico da Informática (um sucesso de bilheteria). Mas, nesse futuro não tão distante, o Brasil é uma teocracia cristã.

Até que não é nada mal viver nesse país. Se você é um cristão, claro. Afinal, você tem a certeza de que as pessoas no controle estão construindo um país santificado, e é sempre bom morar em um país que será poupado da ira devastadora de Deus no juízo final. Com a vantagem de ter belas praias.

A família é coisa sagrada nessa sociedade brasileira. Desde que seja formada por pai, mãe e filhos. Para impedir que outros arranjos familiares não-abençoados sejam feitos, algumas mudancinhas na Constituição impedem o casamento ou qualquer tipo de união entre pessoas do mesmo sexo. O divórcio também é proibido, pois o que Deus uniu ninguém separa. Nem as próprias pessoas envolvidas no relacionamento.

O Ministério da Família é instituído para cuidar dessas questões. Há campanhas e cartilhas ensinando como criar seus filhos e a família pode sofrer uma intervenção se eles começam a jogar RPG ou ouvir heavy metal que não seja gospel. Pastores atuam como psicólogos que dão suporte à família e resolvem querelas entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs. Mais ou menos como um programa Casos de Família, só que em um órgão público. E com leitura de trechos da Bíblia em vez de perguntas da plateia.

Não só há crucifixos nas repartições públicas, como há pias de água benta nas entradas, para que aqueles que passam nos prédios do governo possam se benzer e fazer o sinal da cruz. Antes de começar os trabalhos no Senado ou na Câmara, os parlamentares se unem em oração e são ungidos com óleo santo para que possam governar sob os desígnios divinos.

A Bíblia faz parte do material escolar oferecido pelo governo e nem é preciso dizer que nas aulas de ciências os alunos aprendem criacionismo. Teorias que colocam ideias perigosas na cabeça dos jovens são completamente abolidas. De forma que é melhor ser pego com revista de mulher pelada do que ser encontrado com um livro de Darwin ou até mesmo do Stephen Hawking. Suspensão na hora e mais dez Pais Nossos de penitência.

Marcar presença em missas ou cultos não é obrigatório, mas pagar o dízimo é. Além de todos os impostos para saúde, educação e segurança, o dízimo passa a ser um imposto recolhido de todos os brasileiros para as igrejas. O “Deus seja Louvado” impresso nas cédulas não nos deixa esquecer a quem pertence aquele dinheiro. Deixar de pagar o dízimo é crime tanto quanto sonegar o imposto de renda.

O atendimento na saúde melhorou. Como não há médicos para todos, pastores atendem pacientes que podem ser curados em uma sessão de descarrego. Eles ainda não dispensam o trabalho dos médicos; mas se um doente é curado, se alguém que foi baleado consegue sobreviver, se um câncer consegue ser retirado, atribuem a cura ao poder das orações feitas nas salas de cirurgia. Camisinhas e anti-concepcionais deixam de ser distribuídos pelo governo, para não incentivar a promiscuidade. Em compensação, o exorcismo passa a ser um serviço oferecido pelo sistema público de saúde.

As mulheres não têm que andar todas cobertas, como naqueles países bárbaros. Não, imagina. Aqui, elas só são proibidas de usar blusas muito decotadas, saias curtas ou calças justas. Também não podem cortar o cabelo, porque expor o pescoço e a nuca é coisa de mulher vulgar, e cabelo curto demais é coisa de mulher masculinizada — coisas nada boas aos olhos de Deus. Mas é altamente recomendado que estejam sempre lindas em Cristo, bem ao gosto de seus maridos.

A criminalização do aborto é tratada com mais rigor. Mulheres que tentam ou realizam um aborto, não importa o motivo, são presas e depois levadas para serem apedrejadas em praça pública. Às vezes acontece de morrerem nesse processo, mas a defesa da vida deve estar em primeiro lugar, certo? Esse também é o castigo para mulheres adúlteras. Ou que fazem sexo antes do casamento. A submissão da mulher presente na Bíblia passa a ser parte da Constituição e um dos valores mais caros à teocracia do Brasil.

O culto a outros deuses passa a ser ilegal. Terreiros de candomblé são destruídos ou lacrados pela polícia. Já os ateus são presos e afastados da sociedade, para o próprio bem dela. E ainda têm que aguentar a visita diária de um testemunha de Jeová na cadeia tentando lhes converter.

Em vez da Voz do Brasil, as emissoras de rádio passam a transmitir a Ave-Maria. O que é um problema: os evangélicos, apesar de terem sua parte do domínio da mídia, não gostam nada disso. As disputas de poder deixam de ser entre partidos e passam a ser entre as correntes cristãs. Conflitos civis entre evangélicos, católicos e outras denominações eclodem nas ruas. No governo, quem tem a maior bancada garante seus interesses. Sob a proteção de Deus, o Brasil funciona em plena democracia: o que significa que ganha o religioso que gritar mais alto.

***

Não custa avisar: esse texto não passa de um delírio. Pura ficção. Afinal, uma teocracia à brasileira está bem longe de acontecer, né?

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Season finale da humanidade

05 de March 2013 por Valek

220 dias após o fim do mundo.

Em algum escritório com ar-condicionado no centro da cidade, um funcionário que não precisava usar gravata folgou um nó imaginário em torno do seu pescoço, na tentativa de diminuir a sensação de sufocamento, e pensou: “não vejo a hora de chegar sexta-feira”.

O negócio é que isso não fazia mais a mínima diferença. O mundo tinha acabado e o tão aguardado apocalipse foi rápido como um peido. Não foi um megaevento cheio de efeitos especiais, terror, ranger de dentes e meteoros salpicando as ruas, como a maioria esperava que fosse ser. E foi tão rápido e casual que a maioria nem percebeu.

Por algum motivo desconhecido por todos, o fim do mundo acabou caindo meses antes do previsto, fazendo com que todos continuassem esperando pelo apocalipse quando na verdade ele já tinha acontecido há tempos.

Este pequeno detalhe foi capaz de proporcionar um problema de dimensões trágicas que só não abalou o mundo porque, a esta altura, ele já tinha acabado.

Peço que me perdoe pelo inevitável spoiler, mas na história a seguir todos estão mortos. Algo que não será muito difícil de imaginar, já que você também está.

***

231 dias após o fim do mundo.

Solano acordou atrasado e se arrumou às pressas para ir ao trabalho. No caminho, furou um sinal vermelho. Chegou ao escritório de olhar baixo, pois não se lembrava se havia tirado as remelas da cara antes de sair, o que denunciaria o motivo de seu atraso. Ao ligar o computador, comentou que o trânsito estava uma loucura, que estava cada vez mais difícil ser pontual em uma cidade como aquela.

O chefe, que parecia estar esperando o funcionário há horas, mas que na verdade havia chegado há apenas dez minutos, apareceu diante de sua mesa passando mil tarefas que precisavam ser entregues em apenas duas horas. Na frente de todos, lembrou que o horário do expediente naquela empresa começava às oito. Solano pediu desculpas, de cabeça baixa.

Sua vontade mesmo era de mandar aquele desgraçado à merda. Que importava chegar uma ou duas horas atrasado, se precisava sair depois do horário quase todos os dias para dar conta da demanda monstruosa que lhe era incumbida? Isso sem receber hora extra e ganhando um salário de dar vergonha.

Então pensou no aluguel para pagar, no financiamento do carro, na mensalidade da pós, nas compras do mês. Não podia pedir demissão assim. Voltou sua atenção ao computador, desejando apenas que a sexta-feira chegasse logo.

***

237 dias após o fim do mundo.

Em um culto cheio de pessoas ardorosamente fiéis, um pastor falava sobre a misericórdia divina. Lançando perdigotos no púlpito, enfatizou que Jesus vai voltar, que o tempo está próximo. “Amém, amém, glória, aleluia”, respondiam os fiéis. “A hora de aceitar Jesus é agora! Só ele pode nos salvar da danação eterna, amém?”

Sueni agarrou sua Bíblia com fervor ao responder “amém”. Ela estava preparada para o retorno de seu salvador. Nesse dia, o mundo acabaria e quem não tivesse aceitado Jesus seria lançado ao sofrimento eterno, para pagar por seus pecados. Ela não. Ela seria arrebatada por seu deus misericordioso e viveria a eternidade, após o fim do mundo, na glória do senhor.

Mas seu espírito só viveria em paz se ela conseguisse converter o irmão e impedir que ele ardesse na fogueira de Satanás. Ele precisava se arrepender de sua vida tortuosa logo, antes que o mundo acabasse.

***

299 dias após o fim do mundo.

Seis da manhã e uma fila já se formava em frente a uma loja de celulares. Consumidores ansiosos para adquirir o novo telePhone se espremiam de frio e mordiam os lábios esperando a abertura da loja. “Quero ser um dos primeiros a ter o aparelho”, declaravam com entusiasmo aos repórteres. Ninguém sabia explicar por quê.

Em outro canto, um casal de namorados anunciava aos pais que a garota estava grávida. Como todos falavam dos preparativos para a chegada do bebê e ninguém mencionou casamento, a avó da garota, na outra ponta da mesa, apenas resmungou: “ninguém mais se preocupa com as tradições hoje em dia.”

Mais tarde, um jornalista de um grande portal publicava a seguinte notícia: “flagrada na praia, atriz Celina Monrone exibe dobrinhas e estrias”.

***

583 dias após o fim do mundo.

Um festival atraiu milhares de pessoas para uma cidade do interior. A festa, regada a música sertaneja e muita bebida alcóolica, chamou a atenção do país pelas orgias e loucuras que aconteceram lá.

O jornalista de um grande portal publicou uma matéria com o título “festa de música sertaneja vira grande suruba — veja as dobrinhas e estrias das mulheres que ficaram completamente nuas por lá”, que foi compartilhada por milhares de pessoas na internet.

A vovó viu o caso pela televisão enquanto tricotava e ficou impressionada com a inconsequência daqueles jovens. “A geração de hoje não se importa com o dia de amanhã!”

Sueni, aterrorizada ao saber da notícia, orou em línguas pedindo misericórdia. No juízo final, que aconteceria em um futuro conhecido apenas por seu deus, todos eles seriam castigados e punidos. Inclusive e principalmente aquela jovem que tirou toda a roupa e dançou nua em cima de um carro. A jovem e seus peitões lindos e macios seriam punidos, sim, seriam.

Aneta, a dona dos peitos, sinceramente não ligava. Continuou dançando.

Ninguém sabia, mas os poucos que perceberam que todos estavam mortos e que o mundo tinha acabado há muito tempo estavam nessa festa.

***

700 dias após o fim do mundo.

Solano já não se sentia bem há algumas semanas. Trabalhando demais, não teve tempo de ir ao médico. Resolveu ir quando estava cuspindo e vomitando sangue a cada vinte minutos, o que começava a afetar a sua produtividade.

O médico fez os exames e uma cara preocupante. Anunciou que a doença de Solano estava em estágio avançado, que ele precisaria ser internado para fazer o tratamento.

Na cama do hospital, Solano teve tempo para pensar. Qual era o objetivo de trabalhar tanto para consumir e pagar contas, se de repente deixaríamos de existir? Por que tanto apego à existência se sequer sabemos o que fazer com nossas vidas?

E então Solano revirou na cama, tentando ver o lado positivo da situação. Afinal, poderia ter sido pior, ele pensou. “O mundo poderia ter acabado antes de eu ter sido promovido, na semana passada.”

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O que as palavras dizem sobre nós

28 de February 2013 por Valek

“Não pode xingar o coleguinha porque é feio”. Eu, se tivesse filha ou filho, ensinaria de outra forma. Quando você xinga alguém, está dizendo mais sobre você do que sobre aquela pessoa. Basicamente, os xingamentos que você usa só servem para revelar o quão babaca você é.

Não se trata de, ao chamar alguém de “viado”, estar dizendo que o “viado” é você. Isso lembra aquelas discussões de crianças em que uma chama a outra de “bobo”, e a outra, por não ter argumentos melhores, responde que “bobo é você”. Não é nada disso. Xingar alguém de “viado” ou “seu gay” significa apenas que você não amadureceu o suficiente e considera que uma orientação sexual seja ofensiva. Ofensivo mesmo é nos dias de hoje “gay” ainda ser usado como xingamento.

Da mesma forma, chamar uma mulher de “vadia”, “piranha”, “puta”, “vagabunda” (é impressionante como não falta repertório para nos agredir) não diz nada sobre quem é essa mulher. Diz apenas que você é alguém que acredita que a conduta sexual de uma mulher define seu caráter. Que fazer sexo desvaloriza uma mulher, e, portanto, a torna merecedora de agressão. O curioso é que esse xingamento surge mesmo em situações que não têm nada a ver com sexo, como uma briga de trânsito ou uma rivalidade no ambiente de trabalho. Isso ainda diz mais: diz que para você importa mais a vida sexual dela do que qualquer coisa que ela tenha feito. Diz que você é alguém que agride outra pessoa por especular sobre o que ela faz com a buceta dela. Meio ridículo, não acha?

Ainda há os que tentam ofender uma pessoa chamando-a de gordo ou gorda (entre outras variações mais pejorativas). O negócio é que às vezes a pessoa é mesmo e sabe disso. Oras, ela tem espelho em casa. O problema está em quem usa isso como ofensa: na cabeça desse tipo de gente, ser gordo é algo ruim, negativo, motivo de vergonha. Quem aponta como falha de caráter e motivo de ofensa uma característica física como qualquer outra é que deveria ter vergonha. Porque ao dizer isso, você está se revelando uma pessoa pequena que se incomoda com o corpo dos outros. E todo mundo está vendo.

Aliás, só o fato de xingar alguém já diz muito sobre você. Se você faz isso, está dizendo que não consegue atacar o argumento e por isso ataca o argumentador. É alguém que, na impossibilidade de conciliar, deixar pra lá ou argumentar, agride.

As palavras revelam quem você é, e isso não vale apenas para xingamentos.

No dicionário, a palavra “vulgar” significa algo comum, banal, ordinário. Mas quem usa “vulgar” para se referir (olha que surpresa) ao comportamento de mulheres deu um significado totalmente novo à palavra: “vulgar” tornou-se a mulher que chama atenção, que veste roupas curtas, que dança funk, que beija muito, que não se comporta como uma dama, que “não se dá valor”. Muita gente usa essa palavra para designar qualquer coisa que tenha algum teor sexual: uma música pode ser vulgar, uma roupa, um livro, um programa de TV, uma pose. Se fosse só isso, tudo bem. O problema é que usam essa palavra para dizer que algo com algum teor sexual é, necessariamente, algo negativo. Não sei vocês, mas eu acredito que negativo mesmo é achar que sexo (e a liberdade sexual dos outros) seja algo tão condenável.

Um caso intrigante é quem usa o termo “politicamente correto”, geralmente acompanhado de uma escarrada metafórica no chão, para se referir a quem os chateia com questões como racismo, homofobia, machismo e que tais. Ser politicamente correto, aparentemente, significa ser chato, algo incomparavelmente mais “grave” do que distribuir agressões racistas, homofóbicas, machistas ou preconceituosas de modo geral sob o pretexto de estar apenas exercendo seu direito de liberdade de expressão. Não é preciso muito esforço para descobrir que quem usa essa expressão de forma pejorativa (ao mesmo tempo em que glorifica o termo “politicamente incorreto”) está gritando aos quatro cantos que não sabe o que significa liberdade de expressão e tampouco sabe como funcionam as coisas no mundo adulto: você é livre para dizer o que quiser, mas precisa aceitar as consequências do que diz.

É fácil entender uma pessoa se ela usa a palavra “mulherzinha” para ofender um homem; ou se ela xinga um negro de “macaco”; ou se começa uma expressão com “não sou preconceituoso, mas”; ou ainda se usa a palavra “vadia” de forma empoderadora; ou se fala “orientação sexual” ao invés de “opção sexual”; ou se fala em “patriarcado”; ou ainda se fala “a Babilônia vai cair”; ou até se escreve “deus” sempre em letra minúscula. As mesmas palavras que usamos para definir coisas e dar significado ao mundo à nossa volta também nos definem e nos revelam. A questão é: o que queremos que as palavras digam de nós?

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Cansado de ser chamado de reacionário?

14 de October 2012 por Valek

Sente saudades de um tempo que já se foi? Não sabe explicar para o seu filho por que o coleguinha tem dois pais ou duas mães, e não uma família como deve ser? Lamenta que pobres e negros possam entrar nas universidades, concorrendo a vagas que sempre foram suas? Cansado de ser chamado de reacionário por uma gente maluca que quer mudar coisas que para você estão ótimas? Pare de se chatear. Seus problemas acabaram!

Volte a viver em um tempo em que todos sabiam o seu lugar: o da mulher, na cozinha; o do negro, na senzala; o do gay, no armário; e o do pobre, bem longe de você! Agora isso é possível, com a nova Retro-Machine.

Desenvolvida pela Status Quo S.A. especialmente para você, a Retro-Machine permite que você viaje no tempo e volte para a época em que todos os privilégios eram seus e não era  preciso se preocupar com manifestantes querendo mudanças, já que seriam todos recebidos na porrada.

Usar a Retro-Machine é muito fácil: entre na elegante cabine projetada para todos os tamanhos e ajuste a data desejada no painel. Quer viver em uma sociedade onde mulheres que não seguiam a moral e os bons costumes eram queimadas em enormes fogueiras? Fácil! Gire o indicador do tempo para trás, até o painel mostrar o ano de 1450. Não quer se preocupar em dividir seu lugar na sociedade com negros? Ajuste o indicador de tempo para mostrar o ano de 1540.

A viagem é confortável e dura apenas alguns minutos. Você também pode acionar a função Ab-Shaper da cadeira para definir o seu abdômen e perder algumas calorias sem fazer esforço enquanto viaja. Não é incrível? O melhor é que, depois de usar, basta dobrar a Retro-Machine e guardar debaixo da cama. É super compacta!

Pare de perder tempo tentando converter gays e volte para um tempo em que eles não tinham coragem de se assumir. Adquira já a sua Retro-Machine e livre-se do incoveniente de lutar contra as mudanças da sociedade!

Viaje para a época em que a igreja tinha a última palavra, ou para o tempo em que mulheres não tinham voz. Viva em um mundo sem cotas para isso ou para aquilo, onde quem fazia as regras eram coronéis e fazendeiros! Ou ainda explore os ajustes pré-definidos como “Bons Tempos da Ditadura”, “A Terra Não É Redonda”, “Só Homens Ricos Sabiam Ler” e o incrível “Catequize e Escravize um Índio”. Você vai adorar o século XV! Aproveite e fique por lá. Para sempre.

Ligue agora e peça a sua Retro-Machine. Os dez primeiros que ligarem receberão inteiramente grátis uma palmatória de 60 cm para usar em crianças indisciplinadas e o Guia do Reacionário Atemporal, com mais de 2 mil receitas para manter o status quo da sua época preferida. Frete grátis para todo o Brasil.

Retro-Machine. Porque algumas pessoas não pertencem a este tempo.

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Quando a ficção não funciona

02 de October 2012 por Valek

Quantos livros já fizeram você chorar? Eu mesma não saberia responder a essa pergunta. Mas vamos lá, pense. Quantas vezes você já se envolveu tanto com um personagem a ponto de chorar por sua morte ou por um momento de superação?

Bem, você sabe que, pelo menos na maioria das vezes, aquele personagem não existe e as coisas pelas quais ele passou na história não são reais. Ainda assim, você sente aquele aperto no peito quando ele passa por situações difíceis, ou sorri quando o personagem se dá bem, ou é tomado por ansiedade quando ele passa por um momento de tensão, ou ainda derrama algumas lágrimas quando ele morre.

A leitura é uma incrível tecnologia de simulação de realidade. Você incorpora os personagens. Você vive o que ele vive, vê o que ele vê, sente o que ele sente.

Talvez nada nessa vida consiga nos apresentar tão bem a essa experiência quanto a ficção. Ler ficção é, acima de tudo, desenvolver a habilidade criativa de ser outra pessoa. De viver o mundo dessa pessoa. De estar na história dessa pessoa.

Mas tem algo errado aí. A ficção está fazendo seu trabalho, e muito bem, como sempre fez, mas muita gente é incapaz de viver essa experiência. Ou de passar essa experiência dos livros para a vida real.

São pessoas que não percebem que cada pessoa ao seu redor é um ser humano tão único e complexo quanto elas próprias. E que cada um desses seres humanos é protagonista de sua própria história.

São pessoas que não veem problema em determinado tipo de piada, porque se elas não se ofenderam, então não deve ofender mais ninguém. São pessoas que, se conseguiram alguma coisa na vida, acham que todo mundo que se esforçar como elas também vai conseguir. São pessoas umbiguistas. Para elas, pessoas diferentes do seu padrão ou são inconcebíveis ou são inaceitáveis. Ou não existem, ou não deveriam existir.

São pessoas que não se incomodam em serem estúpidas e babacas com os outros em comentários na internet, já que não imaginam que há uma pessoa do outro lado, muito menos tentam se colocar no lugar dela.

E o papel da ficção é justamente esse. A ficção permite que a gente se coloque no lugar do outro. “A literatura nos ensina que existe um Outro e que ele é diferente de nós”. Mas não está funcionando. O que está faltando? Se nem a ficção é capaz de ensinar a essas pessoas o que é empatia, então o que será?

Talvez você concorde comigo: ler é bem mais que juntar letrinhas. E a melhor leitura é aquela que não só ofereceu boas horas de entretenimento, mas aquela que fez de você mais humano.

Todas as imagens desse post foram tiradas do site Underground New York Public Library. Esse projeto é um bom exemplo do que é uma pessoa exercitando a empatia. Vale a visita.

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Quem me estuprou

10 de September 2012 por Valek

Hoje fui estuprada. Subiram em cima de mim, invadiram meu corpo e eu não pude fazer nada. Você não vai querer saber dos detalhes. Eu não quero lembrar dos detalhes. Ele parecia estar gostando e foi até o fim. Não precisou apontar uma arma para a minha cabeça. Eu já estava apavorada. Não precisou me esfolar ou esmurrar. A violência me atingiu por dentro.

A calcinha, em frangalhos no chão, só não ficou mais arrasada do que eu. Depois que ele terminou e foi embora, fiquei alguns minutos com a cara no chão, tentando me lembrar do rosto do agressor. Eu não sei o seu nome, não sei o que faz da vida. Mas eu sei quem me estuprou.

Quem me estuprou foi a pessoa que disse que quando uma mulher diz “não”, na verdade, está querendo dizer “sim”. Não porque esse sujeito, só por dizer isso, seja um estuprador em potencial. Não. Mas porque é esse tipo de pessoa que valida e reforça a ação do cara que abusou do meu corpo.

Então, quem me estuprou também foi o cara que assoviou para mim na rua. Aquele, que mesmo não me conhecendo, achava que tinha o direito de invadir o meu espaço. Quem me estuprou foi quem achou que, se eu estava sozinha na rua, na balada ou em qualquer outro lugar do planeta, é porque eu estava à disposição.

Quem me estuprou foram aqueles que passaram a acreditar que toda mulher, no fundo no fundo, alimenta a fantasia de ser estuprada. Foram aqueles que aprenderam com os filmes pornô que o sexo dá mais tesão quando é degradante pra mulher. Quando ela está claramente sofrendo e sendo humilhada. Quando é feito à força.

Quem me estuprou foi o cara que disse que alguns estupradores merecem um abraço. Foi o comediante que fez graça com mulheres sendo assediadas no transporte público. Foi todo mundo que riu dessa piada. Foi todo mundo que defendeu o direito de fazer piadas sobre esse momento de puro horror.

Quem me estuprou foram as propagandas que disseram que é ok uma mulher ser agarrada e ter a roupa arrancada sem o consentimento dela. Quem me estuprou foram as propagandas que repetidas vezes insinuaram que mulher é mercadoria. Que pode ser consumida e abusada. Que existe somente para satisfazer o apetite sexual do público-alvo.

Quem me estuprou foi o padre que disse que, se isso aconteceu, foi porque eu consenti. Foi também o padre que disse que um estuprador até pode ser perdoado, mas uma mulher que aborta não. Quem me estuprou foi a igreja, que durante séculos se empenhou a me reduzir, a me submeter, a me calar.

Quem me estuprou foram aquelas pessoas que, mesmo depois do ocorrido, insistem que a culpada sou eu. Que eu pedi para isso acontecer. Que eu estava querendo. Que minha roupa era curta demais. Que eu bebi demais. Que eu sou uma vadia.

Ainda sou capaz de sentir o cheiro nauseante do meu agressor. Está por toda parte. E então eu percebo que, mesmo se esse cara não existisse, mesmo se ele nunca tivesse cruzado o meu caminho, eu não estaria a salvo de ter sido destroçada e de ter tido a vagina arrebentada. Porque não foi só aquele cara que me estuprou. Foi uma cultura inteira.

Esse texto é fictício. Eu não fui estuprada hoje. Mas certamente outras mulheres foram.

Pré-FAQ dos comentários

Meu sentido aranha me diz que irão aparecer comentários do tipo “Absurdo! Você está querendo dizer que todos os homens são estupradores!” Se você pensou em comentar algo do tipo, pense outra vez. O texto não diz isso. Eu não acredito nisso. Talvez o seu esforço em vir argumentar a favor da sua inocência e/ou de outros homens, além de desnecessária, seja apenas a forma que você encontrou de não encarar a questão principal. Que a cultura do estupro existe e está firme e forte. E que você pode até estar contribuindo para alimentá-la, de alguma forma. Espero que não. Mas pense um pouquinho.

Agora, se você vier comentar “onde anda o bom humor? não se pode mais fazer piadas nesse mundo”, por favor, só PARE. Se você acha engraçado piada sobre estupro, eu tenho nojo de você. Pode sair daqui.

Ainda podem aparecer comentários do tipo “mas homens também são vítimas de estupro!” Sim, você está certo. Só que as maiores vítimas de estupro são crianças, gays e trans*. A menos que você viva em zonas de guerra, se você é um homem cis e hétero, você provavelmente nunca vai saber o que é a ameaça diária de estupro. Pode comemorar. É sério.

Se você quiser entender mais sobre a cultura do estupro, tenho alguns textos para indicar. Boa leitura.

Estupro: o que é, como não fazer
Cultura do Estupro? Não, imagine!
Parem de culpar a vítima!
A disseminação da cultura do estupro

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E se você fosse invisível?

26 de August 2012 por Valek

O primeiro debate polêmico no qual me envolvi foi sobre qual superpoder seria o melhor. Entre se teletransportar e ser intangível, pareceu óbvio para mim que a intangibilidade seria um poder mais interessante. Poder atravessar paredes e, ao mesmo tempo, nada atravessar você. Uma bala de revólver ou de canhão passaria pelo seu corpo como se, na verdade, você não estivesse ali. Sensacional.

Bem, há quem discorde.

Mas não tenho dúvidas de qual seria o pior superpoder de todos. A invisibilidade. Aliás, ser invisível é uma boa definição do que é não ter poder nenhum.

“Ah, mas se eu fosse invisível, eu poderia fazer o que eu quisesse”. Tipo invadir o vestiário feminino? Ok. Tem gente que até se diverte com a ideia de espiar os outros ou de não ser notada quando lhe convém, como se a “vantagem” de poder ver seios de desavisadas ou de mexer nas coisas do seu chefe, por si só, tornasse esse poder o máximo.

Amigo, deixe que eu conte algo sobre a invisibilidade que talvez você não saiba.

Ser invisível é mais que ser um fantasminha que sai por aí para aprontar todas. Ser invisível é, literalmente, não ser visto. É ninguém notar você. Você consegue entender a dimensão da coisa? É mais ou menos como não existir, com a diferença que você existe.

Se você é invisível, você não pode se ver representado em lugar nenhum. As novelas não terão personagens como você, os jornais não mostrarão notícias sobre você, a sociedade não irá considerar você o padrão de nada. Se você é invisível, você não pode ser o padrão de beleza. Porque as pessoas bonitas que a TV mostra só são consideradas bonitas porque não são como você. Porque se fossem, também seriam invisíveis.

Pode até parecer óbvio, mas se você é invisível, você não tem visibilidade nenhuma. Nem na rua, nem na mídia, nem na sua própria língua. As palavras usadas para definir você desaparecem. Elas até existem, mas outras são usadas no lugar. Isso garante que você não seja visto nem em livros de História, nem em documentos importantes, nem em notícias, nem no mais safado dos discursos políticos.

O fato mais perverso sobre a invisibilidade é que, assim como ninguém nota a sua presença, ninguém dá conta da sua ausência. Se você é invisível, ninguém vai notar que você não ocupa um cargo de poder. Ninguém vai perceber que você não é presidente. Ninguém vai reparar que você não está na TV. Ninguém vai notar que você não está na universidade. Ninguém vai perceber que você não é e nunca vai ser um professor universitário. Ou a pessoa mais rica do mundo.

Se você é invisível, você não tem direitos constitucionais garantidos. Ainda que a Consituição diga que todos têm direitos iguais (e você estaria incluso nesse “todos”), é impossível alguém aplicar tais direitos em seu favor, já que ninguém enxerga você.

Se você é invisível, você também não tem voz. É claro que você não fica mudo; a invisibilidade só impede as outras pessoas de verem você. Mas, se você é invisível, as pessoas não irão escutá-lo. Você pode falar, pode gritar, pode espernear. Elas vão olhar confusas para os lados e se recusar a acreditar no que você estiver dizendo. “Devo estar louca, estou ouvindo vozes”. E vão voltar a dirigir seus carros, navegar na internet ou a resolver os problemas de suas vidas, sem ver que você estava ali, bem na frente delas.

Se você é invisível, as pessoas podem pisar no seu pé, meter uma cotovelada na sua boca, atropelar você e não vão se sentir mal com isso. Nem vão precisar pedir desculpas. Elas não veem você, puxa.

Ser invisível é uma merda. O pior é que não há nenhum impedimento para as outras pessoas verem você. Só que elas preferem não ver você. Elas vão fazer de tudo para que você não seja visto. Porque a invisibilidade não é o poder de quem é invisível. É o poder de quem não é.

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