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May/11

23

Preguiça de ler

Redatores são constantemente lembrados, seja por recomendações sérias de seus diretores de criação, ou por zoações amigáveis de seus duplas diretores de arte, que as pessoas têm preguiça de ler. “As pessoas não leem. Diminui esse texto, resume aquele ali, dá uma enxugada no título, etc.” Este post bem que podia ser um mimimi de quem ainda acredita que a gente não escreve texto de apoio à toa, que as pessoas lêem sim; eu até queria, mas não vou escrever sobre isso. Preciso concordar que sim, as pessoas têm preguiça de ler. E não falo isso gratuitamente. Tirei isso de um fato recente, do qual muitos de vocês já devem ter ouvido falar.

O livro de português “Viver e Aprender” (parte da coleção didática criada para o Ensino de Jovens e Adultos) virou notícia e assunto na internet. A mídia alardeou que o MEC teria comprado livros que ensinam os alunos a falarem “errado”. O polêmico trecho diz que a pessoa pode falar “os livro”, desde que saiba que, dependendo da situação, pode sofrer preconceito linguístico. Foi o suficiente para o mundo desabar. Absurdo! A educação vai ser nivelada por baixo! Estão acabando com o português! Imagina se o jeito dessa gente pobre falar “os livro” pode ser legitimado, etc, etc.

Não vou me aprofundar na questão linguística, porque já fiizeram muito melhor o Alex Castro, o Diego Jiquilin no blog da Lola, o Helio Schwartsman na Folha, e este artigo na Terra Magazine. E isso para não citar o vídeo onde os escritores Marcelino Freire e Cristóvão Tezza rebatem com bom humor a babaquice da Globo em atacar o livro sem nem saber do que está falando.

Aí entra a preguiça de ler. Com base em apenas um trecho de uma única página, já vimos todos os tipos de comentários afoitos e indignados pelo twitter e blogs afora (principalmente na mídia). Ninguém teve a preocupação de ler um pouco mais sobre o assunto. De entender do que se trata o livro, em que contexto aquela lição “dos livro” estava sendo dada. Muitos nem sabiam que o livro didático é destinado ao EJA e não a crianças.

Boa parte da culpa é da própria educação que recebemos na escola. Aprendemos com base no “certo” e “errado”. O modelo de ensino no qual a maioria de nós foi alfabetizado não contemplava a crítica, o questionamento. E agora que isso está começando a mudar, queremos que a próxima geração continue aprendendo com métodos já ultrapassados?

A escola também falhou, no caso de muita gente, em ensinar a ler. Até na faculdade vemos pessoas com clara deficiência de leitura e interpretação de texto. E é gente “limpinha”, não esses pobres que falam “os livro”. Quando não estão com preguiça de ler, não conseguem entender o que estão lendo.

Mas o pior é quem sequer se dá ao trabalho de entender um assunto ou procurar saber mais sobre ele, e sai por aí falando besteira. Do jornalismo a gente não pode esperar muito mesmo. Até porque, apesar de indignados com o tal livro que relativiza o uso da norma culta, são eles os que cometem erros grotescos, mesmo sendo profissionais que supostamente deveriam falar português impecavelmente. Triste foi ver gente instruída, bem informada, e até redatores (!!!) proferindo comentários típicos de um bobalhão como Alexandre Garcia.

Que ter domínio da língua culta é essencial para quem trabalha com Redação Publicitária, disso não temos dúvidas. Mas a publicidade não seria a mesma se os redatores escrevessem como um promotor público. Olhem para qualquer bom anúncio e vocês verão uma linguagem coloquial, gostosa de ler. Nem na literatura a norma culta é seguida com rigor. Nem você, caro leitor erudito, fala da mesma forma que escreve.

A língua é das pessoas, não dos dicionários e gramáticas. A linguagem é viva, e não é o uso que as pessoas fazem dela que irá matá-la. Pelo contrário. E sobre essa incrível propriedade da nossa língua, Alex Castro diz:

A língua portuguesa não está na defensiva, não está decadente, não está morrendo, não precisa ser salva, não precisa ser defendida.

O português, presente em todos os continentes, é a sexta língua mais falada do mundo e a terceira do ocidente. Ele não tem o monopólio de palavras – sim, vários idiomas têm palavra para “saudade”. Ele não é mais rico do que nenhum outro idioma. O português não precisa ser mais rico do que ninguém. O português é. E isso basta.

Todos comemora.

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Apr/11

19

Vale a pena ver direito

Com a chegada da TV na minha casa esses dias, e com o livro que estou lendo agora, “A Televisão na Era Digital”, de Newton Cannito, tenho pensado bastante sobre novelas. Não sou fã de novelas. Não gosto da forma com que são escritas. Gosto menos ainda da forma com que são interpretadas. Além disso, elas têm servido algumas vezes como ferramenta para alimentar preconceitos e a ignorância do público. Mas sejamos justos: não se pode menosprezar o que é, para muitas pessoas, o único contato com a arte de contar histórias.

Das últimas vezes em que sentei na frente da televisão e sintonizei em alguma novela, prestei atenção em alguns detalhes. Tanto na narrativa, quanto na linguagem visual. Acho que você também já deve ter percebido.

Diferente da maioria dos seriados com os quais me acostumei nesses últimos anos, as novelas têm apenas alguns planos básicos. Planos gerais de cenários, que são mostrados, normalmente, de apenas uma perspectiva (você nunca vai ver o outro lado da sala), planos médios para enfatizar a ação dos personagens, e planos em close na hora dos diálogos (um rosto de cada vez, sempre deixando de costas o personagem com quem se fala).

Outra característica marcante são as cenas rápidas (os cortes logo dão lugar a outras cenas, com outros personagens), e sempre baseadas no diálogo ou em expressividade extrema. Pode reparar. Os personagens estão sempre conversando sobre sentimentos, sobre a relação que existe entre as pessoas na trama, sobre o vilão que matou não sei quem e eles precisam desmascarar (eles se ocupam mais disso do que a própria polícia). Ninguém resolve nada por telefone ou por e-mail: as intrigas só acontecem presencialmente, as pessoas só se falam quando se visitam ou se encontram por acaso.

Todas as emoções são vividas ao extremo. Quando choram, fazem escândalo. Quando se apaixonam, morrem de amores. Quando gesticulam, quase fazem mímica.

É muito drama, gente

 

Qualquer semelhança com o teatro não é mera coincidência. Os diálogos que conduzem a história são um bom exemplo da influência da linguagem teatral, que também está presente no jogo de câmeras: os planos usados simulam a perspectiva do espectador em relação ao palco.

O mais interessante mesmo é a construção dos personagens. Novela vai, novela vem, e alguns personagens parecem os mesmos de histórias passadas. Dejá vu? Podemos dizer que é preguiça do autor, que prefere apostar em formulinhas, ou que não sabe criar personagens mais complexos. Mas isso já é algo feito desde o século XV, quando surgiu na Itália o gênero Commedia Dell’Arte, que digamos, é o bisavô das novelas como conhecemos hoje.

Você só precisa assistir a um episódio de uma novela para ver nos personagens as “máscaras” que eram usadas na Commedia Dell’Arte. Os enamorados (claro), o arlequim, a colombina, o velho avaro, o covarde que se faz de valente, etc. Estão todos lá. E todas as histórias surgem mais ou menos do mesmo tipo básico de personagens. Só muda os atores. Quer dizer, o papel do comelão que fica com todas na novela é sempre do Zé Mayer.

Os enamorados da vez

 

Além disso, a novela usa e abusa da verbalização (aqueles diálogos óbvios e repetitivos) porque ela tem muito em comum com o rádio. O público que assiste novela geralmente faz outras coisas ao mesmo tempo: arrumar a casa, cozinhar, passar roupa. Eu costumava desenhar enquanto “assistia” a uma das últimas novelas que lembro ter acompanhado: O Cravo e a Rosa, uma adaptação de Walcyr Carrasco para a obra de Shakespeare “A Megera Domada”. Quando você não está olhando o tempo todo para a tela, as falas ajudam bastante a entender o que está acontecendo.

Em seu livro, Newton Cannito dá algumas pistas para entender porque as novelas brasileiras são do jeito que são:

A criação dos breaks de intervalo e o hábito do público de mudar de canal com o controle remoto recuperam a necessidade de constantes atrações no conteúdo e de personagens e histórias simples, que possam ser imediatamente reconhecidas, num modelo mais próximo ao seriado e às histórias populares.

Por isso, acho importante ver as novelas com um novo olhar. Imagina o malabarismo que é escrever novelas tendo em mente todas as limitações da mídia. Ao mesmo tempo, os autores podem acompanhar a reação do público enquanto escrevem, e assim mudar os rumos da história em uma experiência interativa, mais ou menos como jogar RPG.

Depois de ver tudo isso, você pode até continuar detestando novela, mas precisa admitir que de pobre essa cultura não tem nada. É claro que existem novelas boas e ruins. Mas não podemos achar que as novelas precisam ser iguais a seriados ou filmes para serem boas no que foram criadas para fazer: contar histórias.

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