AlineValek

Quando a ficção não funciona

02 de October 2012 por Valek

Quantos livros já fizeram você chorar? Eu mesma não saberia responder a essa pergunta. Mas vamos lá, pense. Quantas vezes você já se envolveu tanto com um personagem a ponto de chorar por sua morte ou por um momento de superação?

Bem, você sabe que, pelo menos na maioria das vezes, aquele personagem não existe e as coisas pelas quais ele passou na história não são reais. Ainda assim, você sente aquele aperto no peito quando ele passa por situações difíceis, ou sorri quando o personagem se dá bem, ou é tomado por ansiedade quando ele passa por um momento de tensão, ou ainda derrama algumas lágrimas quando ele morre.

A leitura é uma incrível tecnologia de simulação de realidade. Você incorpora os personagens. Você vive o que ele vive, vê o que ele vê, sente o que ele sente.

Talvez nada nessa vida consiga nos apresentar tão bem a essa experiência quanto a ficção. Ler ficção é, acima de tudo, desenvolver a habilidade criativa de ser outra pessoa. De viver o mundo dessa pessoa. De estar na história dessa pessoa.

Mas tem algo errado aí. A ficção está fazendo seu trabalho, e muito bem, como sempre fez, mas muita gente é incapaz de viver essa experiência. Ou de passar essa experiência dos livros para a vida real.

São pessoas que não percebem que cada pessoa ao seu redor é um ser humano tão único e complexo quanto elas próprias. E que cada um desses seres humanos é protagonista de sua própria história.

São pessoas que não veem problema em determinado tipo de piada, porque se elas não se ofenderam, então não deve ofender mais ninguém. São pessoas que, se conseguiram alguma coisa na vida, acham que todo mundo que se esforçar como elas também vai conseguir. São pessoas umbiguistas. Para elas, pessoas diferentes do seu padrão ou são inconcebíveis ou são inaceitáveis. Ou não existem, ou não deveriam existir.

São pessoas que não se incomodam em serem estúpidas e babacas com os outros em comentários na internet, já que não imaginam que há uma pessoa do outro lado, muito menos tentam se colocar no lugar dela.

E o papel da ficção é justamente esse. A ficção permite que a gente se coloque no lugar do outro. “A literatura nos ensina que existe um Outro e que ele é diferente de nós”. Mas não está funcionando. O que está faltando? Se nem a ficção é capaz de ensinar a essas pessoas o que é empatia, então o que será?

Talvez você concorde comigo: ler é bem mais que juntar letrinhas. E a melhor leitura é aquela que não só ofereceu boas horas de entretenimento, mas aquela que fez de você mais humano.

Todas as imagens desse post foram tiradas do site Underground New York Public Library. Esse projeto é um bom exemplo do que é uma pessoa exercitando a empatia. Vale a visita.

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Zerei mais um livro

25 de September 2012 por Valek

Não me lembro de ter lido um livro tão rápido desde Como a Starbucks Salvou a Minha Vida. Mas a leitura de Jogador Nº1, de Ernest Cline, é tão viciante quanto videogame: depois que você começa a jogar, não tem como parar antes de zerar.

Já disse que ando muito fã de ficção para adolescentes. Jogador Nº1, no entanto, não foi criado para ESTA geração de adolescentes. Quem foi adolescente na década de 80 vai curtir muito mais o livro e as inúmeras referências à cultura pop da época. Os adolescentes de agora vão curtir também: o livro é sobre uma juventude imersa em uma realidade virtual hiperconectada.

Essa realidade virtual é um sistema chamado OASIS, onde se passa a maior parte da história. OASIS é uma espécie de “Second Life”: as pessoas se conectam ao jogo, criam seus avatares, fazem compras e negócios, estudam, se relacionam, ou participam de missões e batalhas, como em “World of Warcraft”. Tudo isso em uma imersão bastante realista.

Aperte Start

A história começa quando o criador desse jogo, o multibilionário e geek James Halliday, morre. Em seu testamento, transmitido para o mundo todo via OASIS, Halliday revela que deixará toda a sua herança para quem encontrar um easter egg que ele escondeu no jogo. Para encontrá-lo e vencer o jogo, o jogador precisa encontrar as três chaves (de cobre, jade e cristal) e passar por três portões.

O detalhe é que Halliday viveu sua adolescência nos anos 80. Ele é um super nerd. Então é claro que as pistas e desafios para encontrar o easter egg são todas relacionados a jogos, filmes, bandas e personagens da sua década favorita.

Doidos para colocarem as mãos na fortuna de Halliday, aparecem milhões de “caça-ovos”, jogadores que passam a estudar obstinadamente sobre a cultura pop dos anos 80 e revirar o OASIS em busca de alguma pista.

Cinco anos se passam e ninguém encontra nada. Até que aparece um nome no Placar, indicando que alguém conseguiu chegar à primeira chave: Parzival. O nome do avatar de um rapaz de 18 anos que mora em uma favela às margens de Oklahoma. Wade Watts, narrador do livro.

É um jogo. Com páginas no lugar do joystick.

O mais legal de Jogador Nº1 é que a narrativa é mais parecida com um jogo de videogame do que com um romance. O leitor passa, junto com Wade, por vários desafios, sobe de nível, pega itens raros, participa de batalhas, faz aliados e quebra a cabeça para descobrir o significado dos enigmas deixados por Halliday. Exatamente como em um jogo de aventura.

Depois que Wade (Parzival, dentro do OASIS) consegue a primeira chave, começa uma disputa alucinante. Art3mis, Aech, Daito e Shoto são outros avatares que estão no páreo e ficam no topo do Placar a maioria do tempo.

O problema é que a “caça ao ovo” não é uma inocente brincadeirinha de adolescentes gamers. Há uma fortuna em jogo. A IOI (ai-ou-ai), uma corporação gigantesca e inescrupulosa, está disposta a tudo para vencer esse jogo. Cheia de recursos, trapaças e uma equipe inteira de especialistas, ela coloca avatares de seus funcionários dentro do OASIS (os chamados Seis) para encontrar o ovo e colocar as mãos na herança de Halliday.

Um futuro negro aguarda os usuários do OASIS se a IOI vencer o jogo. De posse do OASIS, a empresa pretende acabar com a liberdade dos usuários de usar o sistema de graça, restringindo assim o acesso de uma parte importante da vida das pessoas. Seria como alguém cobrar pelo uso do sol.

Muito mais que correr para ser o Jogador Nº1, os “caça-ovo” precisam vencer o jogo para impedir que a IOI tome o que lhes é mais precioso: o OASIS.

“Sair de casa é superestimado”

Uma das questões muito abordadas no livro é essa divisão entre “real” e “virtual”. Embora toda a construção da história leve a acreditar que existe essa divisão, pelo fato dos personagens criarem “avatares” com uma aparência bem diferente e não possuírem na vida real a mesma popularidade ou recursos que possuem no jogo, entre outras coisas, eu percebi que não: real e virtual são a mesma coisa.

E não apenas em Jogador Nº1. Podemos não ter um sistema tão sofisticado como o OASIS, mas vivemos imersos em uma realidade virtual. Criamos avatares para transitar por esse mundo, muitas vezes, drasticamente diferentes do que somos na vida real.

Acho que o livro acaba mostrando o quanto essas duas realidades estão conectadas. As ações de Parzival dentro do jogo influenciam o que acontece fora dele – até mesmo colocando em risco o próprio Wade. Da mesma forma, coisas que Wade faz no mundo real são determinantes para mudar o destino do jogo.

O que fazemos na internet também faz parte das nossas vidas. Insistir nessa separação entre real e virtual é negar que o que fazemos na internet nos define e tem o poder de impactar o mundo “offline”. É se apegar a uma visão bastante caduca. É abrir margem para que as pessoas fujam da responsabilidade de assumir as consequências do que fazem na internet. É não reconhecer que o chamado “ativismo de sofá” é sim capaz de mudar uma realidade. Porque se por um lado a internet é usada por pessoas irresponsáveis que disseminam ódio e preconceito, ela pode ser usada para disseminar informação – a arma mais efetiva para mudar a mente das pessoas.

Você, em algum nível, é seu avatar. A diferença é que, assim como quando Wade entra no OASIS e se torna Parzival, você tem poderes inimagináveis quando está conectado. A questão é: você também usa seus conhecimentos para lutar pelo mundo no qual você acredita?

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Fal Azevedo, me identifico

29 de August 2012 por Valek

Aí que estou de bobeira na livraria (sempre vou à livraria para matar o tempo, não para comprar livros) e encontro o Sonhei que a neve fervia. Ouvi muita gente falar desse livro, mas não conhecia ainda trabalho da autora – só mesmo o blog e uma peça adaptada de seu romance Minúsculos assassinatos e alguns copos de leites. Ela até estava na plateia, mas como na época eu ainda não sabia who the fuck is Fal Azevedo, eu não fui lá dar um abraço nela e dizer: “cara, você é demais”. Porque hoje em dia eu faria isso, sem dúvidas.

Nem estou tão acostumada assim a ler não-ficção, mas a linguagem do livro é uma delícia. Cheguei até a sentir que eu estava, sei lá, invadindo a privacidade dela por estar lendo coisas tão íntimas. Por outro lado, eu me sentia parte do que ela estava narrando. Uma pequena amostra de porque me identifiquei tanto com a Fal:

Minha mãe tem um lance esquisito com telefones tocando: ela atende. Meio da refeição, meio do filme, conversa, aflição pra fazer xixi, nada detém minha mãe ou a impede de, neuroticamente, tirar aquela porra do gancho e mandar um “Oláááá!” (sim, ela atende o telefone assim). Não passa pela cabeça dela deixar aquele treco tocar até derreter. Oh, não, jamais. Ela tem que atender, é mais forte que ela. Eu? Pufffff. Na grande maioria das vezes, nem sei onde o telefone está. E não, nem me dou ao trabalho de olhar quem é no visorzim cagueta. Não quero atender. Quando eu estou ocupada, quando eu não estou ocupada, de noite, de dia, o fixo, o celular, o dos outros, no meio do trânsito, eu não quero atender. Nunca, ninguém. Não quero falar no telefone. Não quero falar. Simples assim.

Outro trechinho genial (nem preciso dizer que me imaginei nessa cena):

Prédio comercial é uma armadilha para pessoas como eu, que já sou tonta na vida normal. Dentro duma multinacional, sou meu próprio Peter Sellers. Saí no andar errado duas vezes. No escritório chique do cliente idem, na frente duma secretária que parecia feita de biscuit, derrubei um cinzeiro, na sala do cara (num carpete desta grossura) derrubei um copo d’água, gaguejei para dizer meu nome, e, quando saí e entrei no táxi, não sabia pronde ia.

– Para onde vamos?

– O senhor espera só um pouquinho preu me lembrar?

Quer dizer, Mundo Real 10, eu 0.

Enfim, a Fal é uma gostosura. Sonhei que a neve fervia é um livro de angústias, mas também de risos. É um livro escrito na base de “drops” (pequenos trechos sobre coisas diversas na vida da narradora, como os trechos acima) e pequenas conversas, que juntas formam uma conversa única, cheia de mineirices como “procê”, “cousa e tale” e “pronde”. Como não amar?

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Hit the road, Jack

15 de May 2012 por Valek

Dá um play e vem comigo.

É um pouco chateada que escrevo este texto. Desde o início do ano parti numa trip literária, louca para colocar em dia minha leitura, ler os livros que nunca tive tempo para ler, conhecer novas histórias, buscar referências. Daí que todo mundo me falava do Kerouac, que eu precisava ler, que eu ia gostar, que era essencial, que On The Road era o tipo de livro que mudou a vida de muita gente e essa coisa toda – tive que considerar o livro para a minha lista, e olha, eu estava ansiosa para ler. Tão ansiosa que, quando não encontrei o On The Road na livraria, considerei levar Os Vagabundos Iluminados. Mas lembrei do que o Marcos sempre diz quando vamos pela primeira vez a alguma hamburgueria: não inventa moda na hora de fazer o pedido, pede o hambúrguer básico que geralmente é a especialidade da casa. Resolvi não arriscar com Kerouac, e como todo mundo só falava de On The Road, tinha que começar por ele.

O negócio é que eu não gostei. Foi um caminho de 461 páginas difícil de percorrer – e é tão difícil para mim admitir isso. Tudo bem, a gente acaba encontrando autores que não gosta, histórias com as quais não se identifica, isso acontece, a vida segue. Mas eu fiquei me perguntando: o que aconteceu entre nós, Jack? O que faltou para as coisas darem certo, para rolar aquela química? Foi algo que eu não entendi, Jack? Talvez seja só que, não me leve a mal, você não faz o meu tipo.

Não estou dizendo que foi uma merda. Foi muito inspirador conhecer o livro que, reza a lenda, foi datilografado furiosamente em vinte dias, em um único rolo de papel. Invejo você, Jack. E foi esse manuscrito em rolo que foi recusado por vários editores antes de finalmente ser publicado, com diversas alterações, em 1957. A versão que eu li, a original, é descrita pela editora como “mais selvagem” e também mais crua. O livro inteiro é um único parágrafo, como uma pista em linha reta, sem curvas, que você precisa seguir com atenção porque se você desviar o olhar por um segundo você se perde ou bate de frente com o caminhão que vem do outro lado.

O livro, dividido em cinco partes, conta a história de Jack atravessando o país (o dele, claro) e vivendo ao deus dará. Só nessa brincadeira, ele foi da costa leste a costa oeste, e de volta para a costa leste umas três vezes – e, depois, da costa leste ao México. Apesar da exaustiva descrição dos percursos das viagens (fiquei tão cansada como se estivesse, de fato, viajando com eles em um carro velho), há momentos interessantes e personagens que valem a pena. Jack mandou muito bem nos trechos em que narrava shows de jazz – tinha ritmo, energia, e a música é algo muito difícil de transmitir só com a escrita. Coisa que ele conseguiu. Mas quem segura a história mesmo é Neal Cassady (ou Dean Moriarty, dependendo da versão que você leia). O cara é um porra louca, imprevisível, parece um cão abobalhado: tudo o excita e sua energia parece não acabar “sim, sim, simmm!”. Pegar no volante o deixa tão feliz quanto um cão agarrar um belo osso. Neal foi o que pulsou e brilhou em meio a uma história que, pelo menos ao meu ver, foi sobre o mapa dos Estados Unidos da América.

cena do filme

On The Road tem sim seus pontos positivos – não nego. Mas não consegui me encantar por ele. Talvez seja por uma questão de contexto (e eu estaria fora dele). A liberdade e o desapego podem ser um tema muito mais interessante para quem está justamente do outro lado da coisa, buscando esse escape em um livro porque é o que não tem na vida real. Ou, por outro lado, um livro sobre pegar a estrada pode gerar grande identificação com quem gosta de fazer isso e o faz com frequência. É claro que existem vários fatores para alguém gostar ou desgostar, mas o que quero dizer é que um livro não é “gostável” por si só. O mérito de um bom livro é metade do escritor – e a outra metade, do leitor. Você pode até ter uma visão diferente da minha e gostar, quem sabe. Estou com o livro aqui à disposição.

Jack, não foi dessa vez. Fica para a próxima, ok? Agora você me dá licença: vou ali voltar para o Bukowski – o único vagabundo do qual consigo gostar.

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Acredite neste livro

17 de April 2012 por Valek

Sempre falo da importância de ser crítico e de não acreditar em qualquer bobagem que se vê por aí, mas como leitora faço questão de ser crédula. Gosto de acreditar nas histórias bem contadas e já cheguei a dizer que alguém não pode ser um escritor se não consegue convencer seus leitores.

Quando me deparei com a história do Livro Infinito, escrita por Alex Luna, acreditei de tal forma que quase não acreditei que aquele texto seria o prólogo de uma coletânea de contos chamada Mentirinhas (à época). Tive o privilegiado acesso aos textos antes de serem publicados como Inverdades (com um subtítulo que considero perfeito: “pequenas manifestações divinas em folhas de chá, marcas de sangue e manchas de batom”).

De cara, você vai se deparar com algo curioso: todos os contos têm nomes de personagens mitológicos, deuses esquecidos, santos ou personagens bíblicos. Isso tem tudo a ver com o prólogo, em que somos apresentados a manuscritos que supostamente contêm a fórmula das histórias universais da humanidade.

A maior descoberta literária de todos os tempos aconteceu há mais de sete séculos, num mosteiro da velha Castilha. Depois de duas décadas copiando e traduzindo textos em latim, árabe e grego, o frei Giorgio Romano encontrou o esboço da Teoria do Todo Literário num manuscrito árabe. No texto, atribuído a um pensador da corte do grande sultão Harum al-Rachid, é levantada a hipótese de que todas as histórias são repetições de padrões, assim como as palavras são apenas repetições de letras. Para o autor do manuscrito, cuja identidade não foi identificada pelo monge, novos autores podem tentar recriar as histórias com novas roupagens, mas nunca conseguirão criar um texto original.

 

Judas

É sabido que as histórias se repetem, e não é de hoje, como mostram as infindáveis adaptações e remakes vistas no cinema: até a história de Jesus tem incríveis semelhanças com outros mitos ainda mais antigos. Em Inverdades, essas semelhanças são muito bem-vindas, mas nem sempre tão óbvias. Os títulos de cada história dão uma pista, mas às vezes é preciso pesquisar para entender qual é a relação dos personagens do livro com seus respectivos mitos.

Isso faz de Inverdades um livro cheio de easter eggs para serem desvendados. E essa experiência (altamente recomendável), de buscar o significado dos mitos em cada conto, faz com que as histórias não se encerrem ali. Não foram poucas as vezes em que recorri ao Google para pesquisar mais sobre os mitos e sempre me surpreendi: tanto por ter descoberto uma história que ainda não conhecia, quanto por ter encontrado uma engenhosa associação com as histórias escritas por Alex Luna. Você nunca ia imaginar, por exemplo, que a história bíblica de Jonas e a baleia pudesse ganhar contornos eróticos em um conto perturbador sobre bondage, dominação e sadomasoquismo.

Não se engane: não é história para crianças

É até difícil eleger uma inverdade favorita, mas gostei particularmente de São Jerônimo Penitente, a história de um velho ateu e moralista que morre e tem seus segredos mais pervertidos descobertos pelo seu neto. É aquela história gostosa de ler, especialmente pelo peculiar tom de humor que ela carrega, aquele típico de velhos ranzinzas que não veem graça em nada.

O velho, estirado no caixão, dormia o sono dos que já vão tarde. Pelo menos, era o consenso familiar. (…) Nunca estava bem-humorado e dizia sempre que o segredo de uma vida longa era querer que ela não durasse muito, porque se dizia pelos cantos, principalmente pela parte da família materna de Robson, que já era hora de o velho esticar as canelas. Claro está, odiar o sogro é um esporte nacional. Mais que isso, quase um imperativo categórico obedecido até pelos alienígenas, se acaso tivessem o infortúnio do casamento na sua civilização, teoricamente avançada.

Aliás, outro mérito do livro é ser um desfile de personagens com voz própria, que marcam cada conto com uma linguagem única. Você viaja com rebeldes pelo ambiente agreste do sertão em Judas, passa pelas desventuras da imigrante Núbia nas ruas de Lisboa em Chih Nu, e chega até Roma, falando italiano com o cientista Daniele, em Galatéia. Personagens com tanta profundidade que têm até textura.

Nem Colombina ficou de fora

Tão admirável quanto a habilidade narrativa de Alex Luna é o seu empenho, cara e coragem de publicar seu livro de forma independente. Se você é dos que escrevem, fica a inspiração: fazer literatura não depende de nada, a não ser de você mesmo. Se você também é dos que leem, fica a dica: Inverdades é uma ótima leitura.

 

Como comprar

Basta clicar aqui e comprar o livro na Amazon, em edição para Kindle.

“Ah, mas eu não tenho Kindle, mimimi”

Você sabia que dá pra baixar o Kindle pro seu pc ou mac? Eu também não sabia. Pois é, dá para fazer o download gratuito aqui. Depois, é só aproveitar a leitura. :)

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Só a leitura salva

05 de November 2011 por Valek
Enquanto o seriado que estou produzindo não fica pronto, queria compartilhar com vocês outro trabalho que produzi na faculdade, com meus amigos do Pele de Cordeiro. É uma proposta de manifesto em favor da leitura, e como tem tudo a ver com o que falo por aqui, achei interessante postar.

Lá vai.

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Orígenes Lessa, redator

17 de March 2011 por Valek

Sem dúvidas essa foi a descoberta que mais me impressionou nesses últimos dias. Na verdade, sempre fico impressionada quando vejo que tal escritor ou tal poeta também já escreveu para a propaganda, como é o caso por exemplo, de Olavo Bilac e até do autor de Como a Starbucks Salvou a Minha Vida.

Foi no livro de outro redator, Roberto Menna Barreto, que encontrei o nome de Orígenes Lessa. À primeira vista, é um nome esquisito. Mas para mim, é muito familiar. A sensação foi de cruzar na rua com um velho conhecido. E o que ele estava fazendo ali, afinal? No início da carreira de Barreto na publicidade, Lessa era ninguém menos que o redator mais foda da JWT, lá pelo final dos anos 50.

 

Nunca vi sequer uma peça publicitária dele. Mas a sua escrita eu conheço desde bem antes de saber que existia a profissão de redator. Ele já figurava nos meus livros escolares e foi o autor de dois dos livros que marcaram a minha infância: Memórias de um Cabo de Vassoura e Confissões de um Vira-Lata. Geniais. Claro que a bibliografia dele é bem mais extensa, incluindo contos, romances, ensaios e até reportagens.

Daí que o cara volta, comigo já adulta, e mostra que ainda tem algo importante para me ensinar. Dessa vez, não na matéria de Português; mas em Propaganda.

No início do livro “Criatividade em Propaganda”, Roberto conta como foi começar na carreira de redator em uma grande agência. Fala dos bloqueios, dos erros, dos jobs que viravam pesadelos. Não conseguia produzir. Até que um dia, Lessa chegou puto na agência. Tinha acabado de ler um excelente conto do jovem redator, publicado no suplemento literário do Jornal do Brasil. Não conseguia entender como alguém capaz de escrever algo daquele tipo não conseguia escrever nada que prestasse durante o expediente. Roberto ficou desesperado. Explicou que tentava seguir as regras, mas eram tantas!

Então Orígenes Lessa responde com o que considero uma grande verdade. Reproduzo abaixo:

Roberto, propaganda… é uma merda! O melhor anúncio não vale um bom conto ou um bom poema. A não ser para o imbecil que anuncia e para o imbecil que compra! Propaganda serve sabe para quê? Para se ganhar dinheiro mais fácil. Para se ter tempo! Tempo de escrever, de ler, tempo de produzir coisa séria!

Sabe o que é propaganda, rapaz? Olhe para este lápis. Você tem de fazer um anúncio sobre este lápis. Você fixa este lápis e rebusca na cabeça o que você pode dizer – não importa o que, nem como – capaz de levar o cara que vai ler a comprar este lápis. Você tem de convencer o sujeito, só isso!

E pensando bem, ver as coisas simples assim ajuda bem mais na criação do que acreditar que fazemos anúncios ou as pessoas morrem. Não foi por acaso que Lessa se tornou o redator mais importante da JWT. Ou um dos imortais da Academia Brasileira de Letras.

 

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Como a Starbucks salvou minha vida

29 de December 2010 por Valek

Imagine que isso seja um briefing: criar uma campanha para a Starbucks, com tudo o que a empresa acredita, que fale sobre os produtos, mas que envolva e emocione o público. Pensou em um filme de 30 segundos, ou em um anúncio inteligente com uma baita fotona? Um redator fez bem melhor do que isso. E nem era job.

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Ainda não sei dizer porque esse título me chamou tanto a atenção, se caberia muito bem em um livro de auto-ajuda. Só sei que ele estava lá, em alguma seção aleatória da livraria, e eu o peguei. Eu nem queria comprar um livro. Mas se a história fosse tão cativante quanto o resumo da quarta capa, então quem sabe valesse a pena?

É basicamente isso: o livro conta a história de um ex-diretor de criação da JWT de Nova York, que se vê na rua da amargura quando é demitido aos 53 anos. Velho, falido, divorciado, com um tumor no cérebro e nenhum plano de saúde, Michael Gates Gill recomeça do zero quando aceita o emprego de servir café em uma loja da Starbucks.

Confesso que a primeira sensação ao pegar o livro foi schadenfreude: era a história real de um publicitário poderoso que perdia tudo na vida. Mas não teve como não me identificar com o personagem, ainda mais depois de descobrir que Mike era redator.

A narrativa é uma delícia. Pude acompanhar Mike e sentir sua dificuldade em se adaptar ao novo emprego e ao novo estilo de vida (tendo que pegar trem e metrô durante uma hora e meia de viagem, todo dia, para chegar à Starbucks da 93 com a Broadway), ao mesmo tempo em que conhecia um pouco de seu passado em flashbacks na medida certa.

Mas não é esse o ponto que me levou a escrever este post.

Mike conseguiu nesse livro o que talvez nenhuma de suas campanhas premiadas tenha conseguido em sua carreira publicitária: ele mostra um lado da Starbucks que poucos conhecem, e envolve o público com o universo da marca, de uma forma que a publicidade tradicional não conseguiria.

Fiquei apaixonada pelo ambiente de trabalho que ele descreve, pela relação da loja com seus consumidores, pela relação dos funcionários com a loja, e pela variedade de cafés que ele apresenta durante a narrativa. Se eu não conseguir um emprego lá, quero pelo menos sentar e tomar um Tall Latte. É, histórias têm esse poder.

Atingir o público dessa forma, conseguir essa ligação com sua marca, e até quem sabe, fazê-lo chorar (como eu chorei várias vezes), não é, afinal, o objetivo da publicidade?

Não estou dizendo com isso que o livro seja uma propaganda deliberada para a Starbucks. Ele não é. A questão é perceber que, para ser mais efetiva, a publicidade precisa parecer cada vez menos com… publicidade.

Pessoas: é o que importa quando você trabalha com comunicação... ou servindo café

Mike ao lado de Crystal, a gerente de Starbucks que lhe deu um emprego

Quem faz parte de uma geração old school da propaganda (como Mike) ainda vai demorar para entender que hoje vale mais se aproximar das pessoas para levar experiências legais ligadas à marca do que uma superprodução de 30 segundos na Globo.

Se você é publicitário, vale a pena ler “Como a Starbucks salvou minha vida” sob essa perspectiva, e refletir sobre este aspecto da nossa profissão. Mesmo se não for, a leitura é deliciosa. É como um bom copo de café: você precisa experimentar.

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Zona de Conforto

14 de December 2010 por Valek

Não é sempre que posso, mas gosto bastante de ler contos e textos enquanto desbravo esse mundão velho sem porteira da blogosfera. Já vi de tudo: desde os mais talentosos (devidamente favoritados em uma pastinha especial no meu GReader) até aqueles que… bem, às vezes nem o layout salva. Percebo que falta maturidade. Saber ortografia e gramática nem sempre é o problema; são pessoas que sabem acentuar e construir frases minimamente inteligíveis. Mas convenhamos: escrever bem exige mais do que dominar o português.

Aí eu vejo uma galera cheia de potencial, mas escrevendo textos rasos, pouco criativos. Dava para ir muito além. Mas texto após texto, os vícios de linguagem se repetem. Só pra citar um exemplo, o uso de pronomes pessoais durante a história inteira. Chega uma hora que você nem sabe mais quem está falando: nenhum personagem tem nome. Parece uma tentativa de disfarçar que a história é sobre o próprio autor, mas não é diário, não. É arte, literatura conceitual, emoção pura. E aí fica claro que algumas pessoas não conseguem ir muito longe: só escrevem sobre o que gira em torno da própria vida. Sim, essa é uma fonte de referência importante, mas não é a única. E como é a mais acessível, a mais segura e aquela com a qual a pessoa mais se identifica, ela não procura outras formas de contar histórias. Fica na zona de conforto.

Essa é a parte onde entra uma das coisas mais importantes que eu aprendi desde que comecei com isso de ser redatora. Em um dos primeiros exercícios do curso de Redação que fiz, o professor (na época era o André Barreiros) passou um exercício onde cada um escrevia em um pedaço de papel o tema sobre o qual mais gostava de falar. Depois ele pedia para trocar esse papelzinho com o colega ao lado, e para espanto geral da sala, pedia para desenvolver um texto sobre o tema do outro. A dinâmica era para incomodar mesmo.

Você fica ali, olhando para o papel, sem saber o que escrever. Você é forçado a isso. Escreve sôfrego, vê que não é tão fácil, e no final acha tudo uma merda. E então percebe que quando precisa escrever sobre algo que não gosta, tem que pesquisar sobre isso. Ler outros textos sobre o assunto, que em outra ocasião, você dificilmente leria. Precisa abandonar preconceitos. Experimentar. Esse exercício é o fórceps da escrita: abre sua mente à força. No fim do processo, sua imaginação também se expandiu.

Redação publicitária é isso. Mas acredito que esse exercício seja importante para quem cria romances, ficção, fantasia, etc. Daí podem surgir personagens novos e enredos surpreendentes – até para quem escreve. É um exercício que ajuda a quebrar bloqueios, e no mínimo, você já tem um texto para publicar em seu blog e não deixá-lo desatualizado por mais de um mês (sorry galera, final de semestre!).

Se você escreve, essa é minha dica: levante essa bunda preguiçosa do conforto dos textos de sempre e vá explorar o desconhecido com a sua escrita. Desafio é o que não vai faltar. Mas se faltar, tem o PSV Site Crônicas, que vai estar cheio deles para você não deixar de praticar. Vai por mim. ;-)

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E no início, deus criou o era uma vez

24 de October 2010 por Valek

Alguns defendem que evoluímos do macaco; outros acreditam que os homens surgiram do barro e as mulheres de uma costela. E tem até quem acredita que viemos parar neste mundo após cair de um cometa. Em geral, os humanos discordam sobre sua própria origem. Mas temos que concordar em uma coisa: contar histórias é algo que os humanos fazem muito bem desde o começo.

Quer um exemplo? O livro bíblico Gênesis. Apesar de escrito por uma galera tão antiga quanto andar sobre as duas patas, ainda hoje arrebata milhões de leitores (com o perdão do trocadilho cristão). É de dar inveja a qualquer bruxinho mirim.

E quando vi na livraria a adaptação para quadrinhos desse famoso livro, fiquei louca para ler. Segurei meu ímpeto consumista e tive a sorte de descobrir que meu amigo Doug já tinha o livro. Peguei emprestado e devorei em uma noite e uma manhã.

Robert Crumb fez um trabalho genial ao adaptar LITERALMENTE as passagens bíblicas para os quadrinhos. Não “enfeitou” a história com simbologias, metáforas ou interpretações. Tá tudo lá, ipsis literis.

Eis Robert Crumb

“Todas as outras versões em quadrinhos da Bíblia que vi contêm passagens com narrativas e diálogos completamente inventados, numa tentativa de ‘modernizar’ e deixar mais ‘dinâmicas’ as velhas escrituras”, conta ele no prefácio. Como procurou manter-se fiel à versão original, traduzida por Robert Alter, a linguagem é cansativa. Tem trechos repetitivos, alguns deles truncados com um monte de nomes próprios difíceis, e a narrativa é seca, rápida e crua. Mas suas fabulosas ilustrações conseguem deixar a leitura deliciosa.

Não é muito difícil saber do que se trata a história. Afinal, o protagonista é o personagem mais adorado do planeta. E não estou falando do Calvin, que em matéria de sabedoria e carisma ganha de lavada do todo-poderoso.

"É difícil ser religioso quando certas pessoas nunca são incineradas por relâmpagos." Calvin

Quanto a Deus, foi interessante reparar em como se desenvolveu e se relacionou com os demais personagens ao longo do livro. Nos primeiros capítulos, está no centro da narrativa e tudo se faz de acordo com a sua vontade. Quer dizer, os humanos parecem sempre inclinados a contrariá-lo. Talvez isso explique seu mau-humor: não existe um quadro sequer em que Deus esteja sorrindo.

Mais ou menos depois do incidente com a Torre de Babel é que ele passa a aparecer menos; de vez em quando se dá ao trabalho de falar com seus escolhidos através de sonhos ou delírios. Isso mostra que quanto mais pessoas e clãs vão surgindo no mundo, mais as pessoas ficam voltadas para as complexas relações umas com as outras. Todos ocupados demais com suas próprias questões, mas sem deixar de usar deus como justificativa pra tudo. Igualzinho hoje.

(Ah! Esse episódio da Torre de Babel me deixou impressionada e revela um aspecto importante do cara: estavam lá os humanos construindo um baita monumento para fortalecer seu espírito de união. Uma coisa linda. E Deus faz o quê? Pirraça. Ele pensa: “Eita ferro. Um povo que fala uma só língua pode fazer o que quiser! Nem pensar que eu vou deixar.” E aí vocês já imaginam o que acontece.)

A mesa do criador

Felizmente, o livro é um desfile de personagens mais interessantes do que esse. Mas não fiquei surpresa ao perceber que a narrativa acompanhava apenas os patriarcas, embora as personagens mulheres fossem mais fortes e decididas, donas do seu próprio nariz e capazes de gerar viradas impressionantes na história (a exemplo de Rebeca e Raquel).

Dentre os patriarcas, o que mais me impressionou foi Jacó (depois chamado Israel). Trabalhou como um condenado 20 anos a serviço de Labão, pai de Raquel. Foi enganado e explorado pelo sogro, que não queria deixar que ele voltasse para sua terra com suas duas esposas. Jacó pede para que pelo menos tenha suas próprias provisões. Então faz um acordo com Labão: ele trabalha mais alguns anos cuidando do rebanho, e todas as ovelhas negras e cabras malhadas ficam como seu pagamento. Labão aceitou, lógico. Era muito mais comum nascerem cordeiros brancos e cabras negras. Aí Jacó utiliza a genética a seu favor: separa os animais mais saudáveis para cruzar perto do bebedouro onde cravou estacas com listras. Dessa forma, nasciam crias com manchas. E então começa a fazer os animais listrados e fortes cruzarem entre si, criando um rebanho especial. Ok, fora a parte das estacas, é pura ciência.

Além disso, a história está cheia de putaria explícita, estupros, sanguinolência, saques, pelo menos dois genocídios promovidos por Deus, desavenças mortais entre irmãos, duas filhas que engravidam do pai, e até um pai que quase mata o próprio filho em sacrifício ao seu deus. Não falta emoção, pode ter certeza.

Enfim…

Sodoma antes do genocídio

Espero não ter ofendido ninguém, afinal, essa é minha análise do ponto de vista literário. Como aspirante a escritora e amante da leitura, reconheço no livro Gênesis uma história riquíssima. Foi ali que os hebreus depositaram as histórias sobre a origem do seu povo, e a meu ver, usaram o recurso da fantasia por dois motivos: a) não tinham conhecimento para explicar, de forma racional e científica, os acontecimentos e fenômenos ao seu redor, ou como e porque as coisas e pessoas eram do jeito que eram; e b) esses elementos sobrenaturais deixaram a história mais legal, oras. Ou se Edward não fosse um vampiro (ok, há controvérsias), você acha que existiria uma legião de adolescentes enlouquecidas pela saga?

Você mede um sucesso literário pela quantidade de leitores entusiastas que a obra gera. E nesse quesito, a Bíblia não tem nem comparação. Impressionante como os caras conseguiram fazer uma história resistir milhares de anos, chegando para milhões de pessoas. E mais: conseguir, nos dias de hoje, um cara tão foda como Robert Crumb para ilustrá-la.

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