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Conto originalmente publicado no site PSV Crônicas, onde participei do Desafio 3: Vazio, ficando com o segundo lugar!
Foi uma experiência muito bacana participar desse desafio, e nem digo pelo prêmio, que não foi meu objetivo quando resolvi escrever; minha satisfação foi, de fato, escrever este conto, e depois, ver a reação super positiva dos leitores. Tenham certeza de que apenas isso já valeu o desafio pra mim. Deixo vocês com o conto, e não deixem de conferir os outros textos que participaram do desafio aqui.

Agosto é quando se consegue os melhores apartamentos nessa cidade. Quer dizer, se o que você está procurando é aluguel. Eu tenho certa experiência nisso, porque sempre morei de aluguel (minto: uma vez fui dono de um terreno durante um bom tempo, mas depois construíram um shopping lá). E é mais ou menos nessa época que a maioria dos contratos acaba, ou que os inquilinos resolvem ir atrás de um lugar melhor. Deve ser porque é inverno, e aí eles percebem que o lugar é uma merda quando faz frio (engraçado como as pessoas, mesmo em cidades grandes, se parecem com aqueles animais que migram no inverno).
Eu tenho meus contatos, acabo descobrindo onde vai abrir alguma vaga. Chego no apê (os antigos moradores ainda estão empacotando as coisas), avalio o espaço, vou direto na janela ver se tem uma boa vista – e uma boa tranca. Sempre vejo as trancas. Se estão funcionando direito, se são seguras. Não é nenhum transtorno obsessivo compulsivo, é precaução. Uma vez fui morar em uma casa no subúrbio. Era um muquifo, mas muito espaçosa. Daquelas que até sua respiração faz um eco enorme. Mas o portão não era muito seguro e as trancas das janelas muito fáceis de arrombar. Um bando de viciados achou que era um ótimo lugar para se esconder durante a noite, sem se intimidar com o fato que eu estava morando ali. Lógico, saí de lá no dia seguinte.
Ok, deu para entender que eu só me mudo se o lugar tem uma tranca que se garante, certo? Quando escolho o apartamento, já estou morando lá no dia seguinte que o pessoal antigo desocupa o espaço. Sempre carrego pouca coisa. Com essa minha vida errante, vi que era um desperdício ter muitos móveis, muitas roupas, muitos livros. Afinal, nunca sei se no próximo lugar que vou morar vai ter espaço para tanta coisa. E espaço pra mim é importante. Por isso, quanto menos coisa tiver, melhor. Aumenta a sensação de espaço.
Eu gosto de sossego. Não sou aquele vizinho problemático, que faz barulho, faz fofoca, faz sujeira. Eu fico quieto no meu canto, mas não vem bater na minha porta não. Eu finjo que nem estou. É assim que construo a minha política da boa vizinhança: cada um no seu quadrado.
Eu só tenho um pequeno probleminha, que são as contas. Chega uma hora que eu não consigo deixar em dia, e elas começam a acumular na caixa de correio. Claro que o pessoal da imobiliária fica puto, mas sempre arrumo um jeito de ficar mais um pouquinho. Quando não dá mais, eles arrumam outro inquilino e eu me mando para outro canto. Não dá pra ter muito apego, sabe?
Mas com o apartamento da 112 a história foi diferente. Eu realmente gostava daquele lugar. E eu já estava morando lá há quase um ano. Vizinhança tranquila, bairro mais afastado do centro, trancas seguras, sala bem espaçosa, uma boa acústica – daquelas que deixam o eco bem bonito. Quando eu me mudei para lá, era até semi-mobiliada. Perfeito, né não? Só que meu contrato estava chegando ao fim e parecia que já tinha gente interessada no lugar. Mas bati o pé: não ia sair de lá nem fudendo. Passou um mês nisso e aí a imobiliária resolveu me fazer uma visitinha.
Quando olhei pelo olho mágico reconheci na hora aquele engomadinho do outro lado. Silvino era o corretor encarregado de alguns apartamentos naquela área. Pobre coitado, porque era difícil pra burro conseguir inquilino para qualquer apartamento naquela área.
Convidei ele para entrar, pedi para não reparar na bagunça. Ele fez uma cara meio incomodada, porque eu não estava usando nada. Mesmo assim me encarou e foi direto ao ponto: “senhor, você já deve saber que vim falar sobre sua permanência no imóvel. Ainda essa semana ele terá que ser desocupad- Quer dizer, terá que ser ocupado.”
Eu até que ia oferecer algo para ele beber, mas a geladeira estava vazia. “Seguinte. O lance é que eu não vou sair daqui, a não ser que você me dê um bom motivo para ser despejado.”
“Um bom motivo é que enquanto o senhor ocupa o lugar, a gente não ganha nada. Precisamos receber aluguel.”
“Ah, mas isso de pagar aluguel não estava no meu contrato.”
“Contrato? Olha, o problema é que as coisas ficaram meio informais. Você não tem um contrato assinado” (acho que ele sempre quis ser advogado, pelo jeito que riu e ajeitou a gravata)
“Como não? Pode olhar aí nos seus papéis. Vê o que diz na ficha sobre o imóvel. Olha direitinho.”
Ele abriu a pastinha velha e puxou alguns papéis. Encontrou a ficha, leu com cuidado (mexendo os olhos pra lá e pra cá) e sua boca repuxou quando respondeu, meio desgostoso: “vazio.”
“Viu só. Eu assinei.”
“Mas… Ora, veja bem. Você sabe o que significa isso. As coisas funcionam assim: alguém vem morar aqui e você desaparece. Já tenho pessoas interessadas, então o imóvel não vai mais poder ficar vazio.”
“Deixa eu te dizer como as coisas funcionam. Eu sou um inquilino como qualquer outro, e não simplesmente a ausência de alguma coisa. Eu tô aqui, não tô? Não dá pra se desfazer do vazio. Você enche algo e o vazio vai para outro lugar. É assim que as coisas funcionam, cara. E no momento não tô afim de ir pra lugar nenhum.”
“Hm, ir para outro lugar…”
Silvino teve uma ideia aquela hora, pensou bastante e me fez uma proposta indecente. Um apartamento com o dobro do tamanho, a duas quadras dali, trancas seguras, sossego total. Ele ia arrumar um jeito de eu poder ficar lá por quanto tempo eu quisesse, sem problemas quanto ao aluguel. Eu só ia precisar dividir o apartamento por alguns meses com a atual moradora.
Eu nunca tinha morado com ninguém antes, então fiquei curioso para ver como isso poderia acontecer. Ok, fechei o negócio e me mudei no dia seguinte. Realmente, o apartamento era uma belezura. Mobília retrô, do jeito que eu gosto. Além do mais, vi que ia me dar bem com a moradora. D. Mitres era uma senhora, já surda, que morava no apê às custas dos netos ricaços (que aliás, nunca iam visitá-la). Uma ótima companhia.
Morreu pouco tempo depois e fiquei com o lugar só pra mim. O único problema foi ter que morar com o cadáver da velha por quase um mês. Eu podia ter esperado agosto para encontrar um lugar melhor, mas preferi me garantir e ficar por ali mesmo. O apartamento compensava. Além do mais, sabe como é: hoje em dia especulação imobiliária não está para brincadeira. Nem para um vazio como eu.

Mais um semestre chegando ao fim. Significa que muita coisa aconteceu desde maio, mais ou menos no final do semestre passado, quando resolvi me mudar do blog que achei que já estava na hora de evoluir e virar algo maior, tamanho o carinho que tomei pelo projeto.
Vejamos: de lá pra cá, virei usuária compulsiva do twitter; entrei no quarto semestre da faculdade crente que ia ser ótimo, quando na verdade eu estaria prestes a enfrentar o período acadêmico mais tenebroso da minha vida; comecei a estagiar de redatora em uma agência de publicidade, coisa que eu achei que não estaria disposta a enfrentar tão cedo (e apesar das dificuldades, tenho sobrevivido); tive várias ideias e comecei vários projetos, que assim como meu portfólio, não conseguiram avançar muita coisa; fiz uma campanha que ganhou o primeiro lugar na Funyl (e até pensei em virar Atendimento depois da apresentação que fiz); já decidi qual será o meu projeto de conclusão de curso e já comecei a pesquisar; decidi definitivamente que vou seguir carreira acadêmica e já estou fazendo planos para um mestrado em Teorias da Comunicação; entrei no cheque especial pela primeira vez e nunca mais saí; fiquei mais ranzinza e escrota; comecei a usar óculos (já tava passando da hora) e, vejam só, cheguei até a frequentar academia por um tempo.
Muita coisa aconteceu, hein. Menos o tal do blog para o qual eu queria tanto me mudar. Até que, em um belo fim de semana sem muita coisa para fazer, o Marcos, que entre outras coisas é diretor de arte, webdesigner e meu namorado, resolveu fazer esse esse blog nascer de cesariana mesmo, custe o que custasse. Só tenho a agradecê-lo por tanto entusiasmo, paciência (tentar fazer algo comigo ao lado opinando não é fácil), e pelas horas quebrando a cabeça com o wordpress para conseguir montar um blog cheio de recursos legais, do jeitinho que eu queria.
Agora com tudo pronto, voltar a escrever “de verdade” vai ser um baita desafio (já que escrever eu escrevo todos os dias, afinal eu trabalho com isso). Não espero que eu vá conseguir, de início, manter um ritmo bacana de postagem, mas com as férias da faculdade chegando, vou ter um bom período para começar a desenvolver esse ritmo e não parar mais (diferente do que aconteceu com a academia, eu espero). Afinal, como uma amiga sabiamente me disse, tenho que continuar alimentando a fonte da criatividade escrevendo com liberdade, se preciso sempre criar sob demanda.
Aos estimados leitores que colecionei em meu blog anterior e aos novos leitores e visitantes, sintam-se em casa e não reparem a bagunça. Espero que o amontoado de ideias, opiniões e posts que vocês encontrarem por aqui consigam despertar aquela coceirinha em seus respectivos cérebros, e sejam bem mais do que “Histórias Esquecidas”.
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PS: Nos próximos dias, vou publicar os melhores posts do blog antigo, no melhor estilo “retrospectiva 2009″ que todo mundo adora quando chega o final de ano.