
Ainda me lembro quem me ensinou que eu não poderia confiar em outras mulheres. Ele me disse, cochichando no ouvido, que mulher é tudo falsa. Que minhas amigas eram invejosas, interesseiras, que a qualquer momento iriam me trair.
Ele me ensinou que outras mulheres deveriam ser vistas sempre como uma ameaça. Que elas iriam roubar meu namorado. Que iriam chamar mais atenção do que eu. Então ele me deu um tapinha de aprovação quando eu chamei aquela garota de vagabunda. “Boa menina”, ele disse.
Ele me ensinou que todas as merdas que eu passava por ser mulher eram culpa dessas mulheres que não se dão valor. Que por culpa delas, as mulheres – inclusive eu, tão boa e comportada – seriam para sempre vistas como objetos sexuais.
Ele sorriu pra mim quando eu me impedi de ter amigas, por achar que não seriam verdadeiras comigo. Ele sorriu pra mim quando eu disse que não gostava de conversa de mulher porque eram todas fúteis. Ele quase gozou de felicidade quando odiei aquela garota sem motivo algum.
Ele, o patriarcado, me ensinou tudo isso, e eu aprendi bem.
Então algo aconteceu. E o patriarcado arrancou os cabelos de desespero quando eu percebi que eu não precisava sentir raiva de outras mulheres. Ele esperneou quando eu parei de tratar outras mulheres como minhas inimigas. Ele gritou de ódio e até babou, porque se eu parasse de brigar com as outras mulheres, ia poder lutar CONTRA ELE.
***
O patriarcado é um velho autoritário que não gosta de mulheres. Quer dizer, até gosta, porque o patriarcado faz questão de ser macho e extremamente hétero. Mas só gosta de mulher em posições que ele consegue dominar facilmente: cuidando da casa, dos filhos, em empregos mal remunerados, em papéis sexualizados e estereotipados na televisão, fora da política.
O patriarcado, como o bom exemplo de velho amargurado que é, só pensa em sabotar as mulheres, deixá-las sempre na pior. Sua existência gira em torno desse único e mesquinho propósito de vida. Fazer mulheres acreditarem que são todas inimigas é uma de suas táticas. Fazer elas se sentirem sempre insatisfeitas com seus corpos é outra. Mas ele tem outros mil e um truques na manga para garantir que mulheres continuem sendo desprezadas.
O patriarcado até se acha poderoso e inabalável, mas se uma mulher começa a questioná-lo, ele só falta mijar nas calças. Ele se treme todo. Por isso, ele precisa de pessoas que o defendam, porque nem isso ele é capaz de fazer sozinho. Se alguma mulher ousa levantar a voz para questioná-lo, logo aparece um de seus defensores para dizer que ela devia estar lavando a louça em vez de estar falando qualquer coisa.
O patriarcado é um velho parasita que grudou no nosso mundo e se alimenta da tragédia das mulheres. Ele se alimenta de canudinho de cada agressão, de cada mulher sofrendo calada, de cada mulher que morre pelas mãos do ex, de cada lei que tenta negar às mulheres autonomia e o direito ao próprio corpo. Ele lambe os beiços. Tente tirar isso dele e você vai ver como o velhote fica furioso. Porque se o patriarcado não puder nos explorar, ele definha. Seca até os ossos.
O patriarcado é um velho que só tem uma coisa maior do que seu ódio às mulheres: medo de acabar. Mas ele vai. Ele já começou a acabar. E acaba um pouquinho mais toda vez que uma mulher percebe que suas “inimigas” não existem. Que é só uma cortina de fumaça.
É aí que o patriarcado começa a se quebrar, pedacinho por pedacinho: quando mandamos um recado para as nossas “inimigas” e não é ódio; mas um “estamos juntas”. Porque só juntas podemos combatê-lo. Só juntas sobreviveremos.

Às vezes nem os mais sangrentos jogos de aventura ou os mais explosivos filmes de ação conseguem satisfazer a sua busca por adrenalina. Se você já não vê mais graça em explodir miolos de zumbis ou resolver os mais perversos enigmas para salvar o mundo ou a própria pele de um vilão demoníaco, tenho uma experiência cheia de desafios para te apresentar.
Neste jogo, sair à noite desacompanhado em uma simples caminhada se torna uma experiência mais assustadora do que clipe de terror do Michael Jackson. O medo de ser assaltado, sequestrado ou levar um tiro fica pequeno perto da ameaça de estupro que ronda cada esquina. E nem precisa ser noite para uma simples caminhada se transformar em uma aventura digna de Indiana Jones: a qualquer hora do dia, andar na rua significa desviar de obstáculos, como cantadas perversas, abordagens invasivas e avaliações cretinas sobre o seu corpo, feitas em alto e bom som para todo mundo ouvir e acabar com o seu dia, detonando a sua barra de energia a cada “quero te chupar todinha”.
Experimente o desafio de sair com vida de um relacionamento abusivo, em um sistema programado para você ser considerado posse de outro personagem. Em vez de ser premiado por tomar a iniciativa e fazer as próprias escolhas, você corre o risco de perder a vida se essa iniciativa for romper com um namorado ou um marido possessivo. Para deixar tudo mais emocionante, nem quando você consegue se livrar desse desafio sua vida está a salvo, pois seu algoz vai estar à solta, só esperando o momento certo de esfaquear você. Nada mais eletrizante do que não saber quando seu marido vai te descer a porrada de novo ou quando seu ex vai te encontrar e atirar em você. Isso, é claro, se você conseguir passar da fase “medo de denunciar o agressor porque a casa é dele e não consigo me sustentar sozinha já que precisei abrir mão de tudo para cuidar dos filhos que tive com ele”.
No final de cada escolha que você fizer, desde o tamanho da roupa que você escolhe para sair, até a profissão ou se vai ter filhos ou não, prepare-se para enfrentar o chefão do julgamento da sociedade. Seus golpes tem o poder de deixar você atordoado e sem saber como prosseguir no jogo, já que você terá a sensação de que, não importa o que faça, estará sempre errado: se você envelhece, é trocado por uma mulher mais nova e fica com a reputação manchada; se você casa com um homem mais velho, fica com a reputação manchada porque só pode ser uma vadia interesseira; se você é feia, vai precisar fazer de tudo para ficar bonita; se é bonita, só pode ser uma mulher superficial, burra e interesseira. Não basta esse quebra-cabeças ser impossível de ser resolvido, ele ainda vai devorar você no final.
Você vai precisar do dobro do esforço para provar que você é habilidoso ou competente em alguma área e que não chegou até ali porque conseguiu algum “cheat” transando com o chefe. Você vai ter que levar uma vida com as mesmas dificuldades e angústias de um personagem normal, mas com o “plus” de tentar lidar com o bombardeio de mensagens e imagens dizendo o quanto o seu corpo é inadequado, como um Tetris de propagandas de “emagreça mais rápido”, “alise o seu cabelo crespo” e “clareie suas axilas” que se acumulam na sua frente até obstruir completamente sua visão. Você vai ter que enfrentar o desafio de uma gravidez, mesmo que isso custe a sua vida, só porque você nasceu e cresceu ouvindo que ser mãe é o propósito da vida de toda mulher, além de ter que ouvir todo tipo de pitaco sobre a sua gestação, como se o seu corpo fosse de domínio público.
E, enquanto você tenta se concentrar em superar todos esses desafios e sobreviver a tantos inimigos, como se já não fosse o suficiente, você ainda terá que ouvir, como trilha sonora ininterrupta, piadinhas sobre como mulheres só deveriam pilotar fogão, sobre como uma mulher feia deveria agradecer por ser estuprada, sobre falta de louça para lavar, ou sobre como uma mulher “vadia” pode ser comparada a uma fechadura que abre com qualquer chave. Tudo isso em looping. Uma centena de milhões de vezes. Até você ter quase certeza que já decorou todo o repertório (então aparece um novo absurdo para acabar com a sua concentração e suas forças). Este é um jogo apenas para quem tem nervos de aço.
A única coisa fácil desse jogo é chegar ao Game Over: seu jogo pode acabar com você morrendo pelas mãos do seu parceiro ou de seu ex; na tentativa de aborto clandestino; porque alguém simplesmente não aceitou que você pudesse ser mulher mesmo tendo nascido do sexo masculino; porque você não sobreviveu ao distúrbio alimentar que desenvolveu por não aceitar o próprio corpo; por você ser da cor errada e estar mais vulnerável à violência, abuso e descaso; tudo isso sem poder contar com vidas extras. É só uma e boa sorte.
Para passar por essas e outras experiências arriscadíssimas, nem é preciso dispor de um console, controles, cd’s ou cartuchos: basta ser mulher. É aí que se descobre porque as coisas são tão absurdamente difíceis, porque não há vidas extras e porque não é possível desligar o console ou trocar o jogo para algo mais recreativo e menos apavorante, como um PacMan. Para você, um privilegiado que pertence ao gênero “certo”, talvez a ideia de passar pelos desafios aqui descritos possa mesmo não passar de um jogo; se não um com interface em 3D, ao menos um jogo de imaginação. Mas, para mais da metade da população mundial, essas dificuldades são reais.
Porque, pelo menos enquanto as coisas continuarem como estão, estaremos condenadas a viver perigosamente, em um mundo que, além de não ser seguro, como o calabouço cheio de armadilhas das fases mais cascudas do Super Mario, não foi feito para a gente ganhar. Nunca.
Porque ser mulher é jogar a vida no hard.
***
Aproveitem e leiam esse texto (em inglês): Straight, White, Male: the lowest difficult setting there is, de John Scalzi.

Poucas expressões na língua portuguesa são tão escrotas quanto o “você tem que se dar ao respeito”. Além de soar mal, não faz muito sentido. Mas, como todas ouvimos isso desde pequenas, sabemos bem o que isso significa: temos que ser mulheres direitas, que não falam palavrão, não gostam de sexo, não mostram partes demais do corpo, não bebem, não se divertem. Uma mulher que se dá ao respeito comporta-se de acordo com regras que ninguém sabe quem inventou, e, por estarem aí há muito tempo, ninguém se incomoda em questionar “por que merdas ainda seguimos isso?”.
As “mulheres que não se dão ao respeito” são tão desprezadas e temidas porque não estão sob controle. Tem coisa que mais tira a sociedade do sério do que uma mulher que não pode ser controlada? Talvez tenha: um animal doméstico que não pode ser controlado.
Um gato é muitas coisas, menos obediente. Você pode tentar ensiná-lo a dormir apenas na caminha que você arrumou para ele, mas, se ele quiser, vai se esparramar na mesa de jantar e tirar uma soneca ali mesmo. Ele vai subir na geladeira, entrar em armários e gavetas sem a sua permissão e não vai esperar pela sua aprovação para eleger a cadeira do seu escritório como o lugar onde ele vai passar a tarde dormindo – e deixar uma espessa camada de pelos.
Assim como as mulheres ditas vulgares, gatos são vaidosos e entregues aos prazeres que consideramos imorais, como a autonomia ao próprio corpo. Não têm vergonha de exibir sua anatomia perfeita, sua confiança ao andar e um olhar que apenas quem é dono de si consegue ostentar. Com a mesma falta de vergonha, deitam-se como esfinges ou derramam-se com a pança à mostra, porque não consideram que suas barriguinhas salientes sejam ofensivas ou até mesmo indesejáveis.
A sensualidade dos gatos constrange os mais moralistas. Seu andar rebolativo, a cauda em riste para indicar que está de bom humor, o miado fino e dissimulado emitido para cativar os mais sensíveis, tudo é tipicamente feminino.
Gatos são vadias. Esfregam-se, massageiam, rebolam, fazem charme e lambem sem pudores. Para alguns, mostram-se reservados e até mesmo ariscos; para outros, doam-se com intensidade, ainda que não permitam que sejam dominados. Não adianta exigir ser amado por um gato ou acreditar que você tem o direito de receber qualquer sentimento de um felino. O amor é dele e ele dá para quem quiser. Assim são as mulheres que não se dão ao respeito: amam quem querem, quando querem, do jeito que querem. Odiá-la por não ser correspondido é ser incapaz de amar alguém que seja livre.

É por essas e outras que gatos e vadias atraem ódio e incompreensão. Não é raro ouvirmos, geralmente vindo de quem não conhece gatos nem nunca conviveu com um, que estes animais são “traiçoeiros”. Mulheres que vivem sua sexualidade livremente, da mesma forma, são consideradas “sem caráter”, como se conduta sexual pudesse determinar se você é uma pessoa boa ou má. E não é que as vadias e os gatos também têm em comum a tendência de serem julgados como “interesseiros”?
Tanta liberdade incomoda. Não é por acaso que mulheres que tenham saído um pouquinho da linha e gatos sejam alvos de tanta violência. Os que não aceitam o comportamento nem de um nem de outro recorrem aos argumentos mais intolerantes possíveis para justificar a violência que empregam como punição por não poder dominá-los: “gatos são animais do demônio”, “com essa roupa curta, é claro que ela estava pedindo”, “gato bom é gato morto”, “não se dá ao valor e ainda quer ser respeitada”.
No final das contas, a aversão a gatos e o uso da expresão “você tem que se dar ao respeito” são boas formas de descobrir quem é que não consegue lidar com a liberdade dos outros. E, pessoalmente, quem eu vou evitar a todo custo.
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Tem um texto bem completo falando sobre a relação dos gatos com o feminino em diversas culturas. Leiam.
Mais textos felinos:
Vadio, mas ela gosta
Zen gatismo
Viver com gatos

Hoje fui estuprada. Subiram em cima de mim, invadiram meu corpo e eu não pude fazer nada. Você não vai querer saber dos detalhes. Eu não quero lembrar dos detalhes. Ele parecia estar gostando e foi até o fim. Não precisou apontar uma arma para a minha cabeça. Eu já estava apavorada. Não precisou me esfolar ou esmurrar. A violência me atingiu por dentro.
A calcinha, em frangalhos no chão, só não ficou mais arrasada do que eu. Depois que ele terminou e foi embora, fiquei alguns minutos com a cara no chão, tentando me lembrar do rosto do agressor. Eu não sei o seu nome, não sei o que faz da vida. Mas eu sei quem me estuprou.
Quem me estuprou foi a pessoa que disse que quando uma mulher diz “não”, na verdade, está querendo dizer “sim”. Não porque esse sujeito, só por dizer isso, seja um estuprador em potencial. Não. Mas porque é esse tipo de pessoa que valida e reforça a ação do cara que abusou do meu corpo.
Então, quem me estuprou também foi o cara que assoviou para mim na rua. Aquele, que mesmo não me conhecendo, achava que tinha o direito de invadir o meu espaço. Quem me estuprou foi quem achou que, se eu estava sozinha na rua, na balada ou em qualquer outro lugar do planeta, é porque eu estava à disposição.
Quem me estuprou foram aqueles que passaram a acreditar que toda mulher, no fundo no fundo, alimenta a fantasia de ser estuprada. Foram aqueles que aprenderam com os filmes pornô que o sexo dá mais tesão quando é degradante pra mulher. Quando ela está claramente sofrendo e sendo humilhada. Quando é feito à força.
Quem me estuprou foi o cara que disse que alguns estupradores merecem um abraço. Foi o comediante que fez graça com mulheres sendo assediadas no transporte público. Foi todo mundo que riu dessa piada. Foi todo mundo que defendeu o direito de fazer piadas sobre esse momento de puro horror.
Quem me estuprou foram as propagandas que disseram que é ok uma mulher ser agarrada e ter a roupa arrancada sem o consentimento dela. Quem me estuprou foram as propagandas que repetidas vezes insinuaram que mulher é mercadoria. Que pode ser consumida e abusada. Que existe somente para satisfazer o apetite sexual do público-alvo.
Quem me estuprou foi o padre que disse que, se isso aconteceu, foi porque eu consenti. Foi também o padre que disse que um estuprador até pode ser perdoado, mas uma mulher que aborta não. Quem me estuprou foi a igreja, que durante séculos se empenhou a me reduzir, a me submeter, a me calar.
Quem me estuprou foram aquelas pessoas que, mesmo depois do ocorrido, insistem que a culpada sou eu. Que eu pedi para isso acontecer. Que eu estava querendo. Que minha roupa era curta demais. Que eu bebi demais. Que eu sou uma vadia.
Ainda sou capaz de sentir o cheiro nauseante do meu agressor. Está por toda parte. E então eu percebo que, mesmo se esse cara não existisse, mesmo se ele nunca tivesse cruzado o meu caminho, eu não estaria a salvo de ter sido destroçada e de ter tido a vagina arrebentada. Porque não foi só aquele cara que me estuprou. Foi uma cultura inteira.
Esse texto é fictício. Eu não fui estuprada hoje. Mas certamente outras mulheres foram.

Pré-FAQ dos comentários
Meu sentido aranha me diz que irão aparecer comentários do tipo “Absurdo! Você está querendo dizer que todos os homens são estupradores!” Se você pensou em comentar algo do tipo, pense outra vez. O texto não diz isso. Eu não acredito nisso. Talvez o seu esforço em vir argumentar a favor da sua inocência e/ou de outros homens, além de desnecessária, seja apenas a forma que você encontrou de não encarar a questão principal. Que a cultura do estupro existe e está firme e forte. E que você pode até estar contribuindo para alimentá-la, de alguma forma. Espero que não. Mas pense um pouquinho.
Agora, se você vier comentar “onde anda o bom humor? não se pode mais fazer piadas nesse mundo”, por favor, só PARE. Se você acha engraçado piada sobre estupro, eu tenho nojo de você. Pode sair daqui.
Ainda podem aparecer comentários do tipo “mas homens também são vítimas de estupro!” Sim, você está certo. Só que as maiores vítimas de estupro são crianças, gays e trans*. A menos que você viva em zonas de guerra, se você é um homem cis e hétero, você provavelmente nunca vai saber o que é a ameaça diária de estupro. Pode comemorar. É sério.
Se você quiser entender mais sobre a cultura do estupro, tenho alguns textos para indicar. Boa leitura.
Estupro: o que é, como não fazer
Cultura do Estupro? Não, imagine!
Parem de culpar a vítima!
A disseminação da cultura do estupro
Categoria: Contos Ficção
Tags:
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Alguns acham que fãs de futebol são chatos. Outros insistem que chatos são os evangélicos. Outros discordam, acham que chatos são os gays. É particularmente difícil determinar a chatice que define um grupo de pessoas, mas parece haver um consenso sobre as feministas: elas é que são chatas.
É claro que existe um universo de chatice explorado diariamente, mas a chatice das feministas é de uma proporção tão gigantesca que a chatice de pessoas desagradáveis como as que assoviam para você na rua acabam passando em branco.
Tem gente que diz que mulher não pode sair de roupa curta. Tem que se valorizar. Mas sair sem maquiagem não pode, tem que ser feminina. Outros dizem que tem que alisar o cabelo, porque cabelo crespo ou indomável não pode ser bonito. São pessoas que vão olhar para alguém que não se encaixa no padrão e dizer “ih, você precisa se cuidar”. Mas as feministas é que são chatas.
Tem gente que conseguiu determinar o que é uma “mulher de verdade”, em uma listinha cheia de detalhes complicados, como: não pode ser magra demais, mas também não pode ser gostosona, porque isso é vulgar; não pode gostar de beber, nem querer se divertir; tem que ser pra casar, para cuidar do marido quando ele precisar. Se não se encaixar na listinha com outros quinhentos e oitenta e três itens, só pode ser puta. Essas pessoas também dizem que mulher não pode falar palavrão e nem gostar de sexo como os homens. Mas as feministas é que são chatas.

~chatiado~
Tem gente que diz que, se uma mulher não quer transar com um cara que foi legal com ela, ela é uma vaca por deixá-lo na friendzone. Mas tem gente que também diz que se a mulher transa com quem quer, quando quer, ela é uma vadia. Há quem diga que o sexo desvaloriza a mulher, então ela precisa se “guardar”. Essas pessoas devem achar que buceta se desgasta com o uso. Mas as feministas é que são chatas.
Tem gente que diz que homem não serve pra cozinhar. Que é um completo retardado que não é capaz de fazer sozinho a mais simples das tarefas domésticas sem fazer algo errado ou sem chamar a mulher para ajudar, afinal, ela é que foi feita pra isso. Essas pessoas também dizem que homem é uma criatura rasa e descontrolada que vai querer enfiar o peru em qualquer mulher que vê pela frente. Tem gente que diz que homem com sensibilidade não pode, porque é “gay”. E ainda tem gente que diz que é o homem quem tem que pagar a conta. Mas as feministas é que são chatas.
Tem gente que adora quando as mulheres tiram fotos de lingerie e publicam na internet, desde que não sejam gordas, velhas, feias, ou que usem lingerie bege. Tirar a roupa para protestar também não pode. Porque há quem diga que as mulheres até podem lutar por seus direitos, mas não podem “lutar demais”. Essas pessoas é que definem quem pode ficar nua, aonde, por qual motivo e para quem elas devem se mostrar. Mas as feministas é que são chatas.
Querem cagar regra sobre o que a mulher pode ou não fazer com seu próprio corpo. Mas as feministas é que são chatas.
Feministas são chatas porque falam de assuntos que ninguém quer ouvir (porque, quem sabe, se não falassem tanto de estupro, ele magicamente deixaria de existir). Feministas (e estamos falando de homens e mulheres) são as malas sem alça que desconstroem as mensagens da mídia e questionam tudo. Tudo porque acreditam na ideia radical que mulheres são seres humanos.
É, as feministas são chatas. E eu, que escrevi isso, devo ser também.

Foto: Marcos Felipe
A Marcha das Vadias de 2012 foi uma delícia. Não só pelas pessoas (homens, mulheres e crianças) que ocuparam as ruas para lutar por um mundo sem violência contra a mulher, mas, principalmente, pelas reações rancorosas e machistas que surgiram por aí.
Essas reações só confirmam a necessidade da Marcha das Vadias.
Parece que as pessoas se incomodam mais com o nome do movimento do que com o fato de mais de 15 mil mulheres serem estupradas por ano no país ou com o fato de o Brasil ocupar o 7º lugar no ranking mundial em homicídio de mulheres. A Marcha das Vadias é indecente? Indecente é o machismo, que mata.
As pessoas já têm uma má vontade enorme para entender o que é o feminismo, por mais que a informação correta seja tão fácil de encontrar quanto vídeos de gatinhos. Não ia ser diferente com a causa da Marcha das Vadias. O tempo que as pessoas gastam comentando bobagens é o mesmo que ela levaria para se informar um pouquinho.

Foto: Marcos Felipe
Então vamos juntar o Tico e o Teco: somos chamadas de vadias por termos uma vida sexual. Por expressarmos nossa sexualidade. Por nos vestir como queremos e por nos comportar como bem entendemos. Somos chamadas de vadias por não aceitarem que o corpo é nosso, e não deles – muito menos do Estado ou da igreja. Somos chamadas de vadias porque queremos ser livres. Existe um infindável leque de coisas pelas quais somos taxadas de vadias. Em resumo, somos chamadas de vadias pelo simples fato de sermos mulheres. Dizem que somos vadias? Então vamos assumir que sim, somos vadias. Só para dizer de volta que isso não é justificativa para nos agredirem, nos violentarem, nos desrespeitarem.

Foto: Marcos Felipe
“Mas eu respeito… quem se dá ao respeito”.
A pessoa posa de respeitadora das mulheres, quando, na verdade, o que ela quer dizer com isso está tão impregnado de machismo que até escorre. E o que ela quer dizer, afinal? Que precisamos ser o que (e como) eles querem para ver se somos dignas de algum respeito.
Quando alguém diz isso, está querendo dizer que existe só um tipo de mulher que merece respeito, e que para isso — vejam só — ela ainda depende de seu magnânimo julgamento! Pensa bem: é o mesmo raciocínio de quem diz que se uma mulher foi estuprada, foi porque provocou; que se uma mulher apanhou do marido foi porque mereceu. Que a culpa é da mulher, que “não se deu ao respeito”.
Se alguém emite um juízo de valor sobre determinada pessoa que a exclua do grupo considerado “aceitável”, está despojando ela de sua humanidade. E desumanizando-a, pode então justificar sua violência contra ela. Precisa desenhar para ficar ainda mais claro?

Eu estava lá! Foto: Carol Savioli
É por isso que nós vadias marchamos. Para pisotear as ideias erradas de toda essa gente equivocada. Para mostrar que somos negras, somos gays, somos mães, somos putas, somos trabalhadoras, somos livres — e todas nós merecemos respeito.
A Marcha das Vadias foi linda. Mulheres e homens de todas as cores, tamanhos, idades e orientações sexuais se uniram para dizer que querem viver em um mundo sem violência contra a mulher, sexismo, racismo e homofobia. Nossa voz despertou o desespero de quem não aceita um mundo de igualdade (e não duvido que muitos haters vão aparecer por aqui também). Gente que vai fazer de tudo para tirar a legitimidade do nosso discurso, mas não vão nos abalar. Perto do pensamento pequeno de quem critica, a nossa luta fica ainda maior.

Foto: Marcos Felipe
Serviço de utilidade pública
Vamos combinar o seguinte: só vale criticar algo que você conhece minimamente bem. Então, para ajudar quem não entende o que é feminismo e o que a Marcha das Vadias tem a ver com isso (ou para quem gosta de ler sobre o assunto), vou indicar ótimos textos. Leitura obrigatória.
Manifesto: por que marchamos? – Marcha das Vadias DF
Marcha das Vadias for dummies – Letícia F., do Cem + 1.
Marcha das Vadias: coletividade e mobilização – Srta. Bia, em Blogueiras Feministas
As vadias e as feministas: uma discussão datada – Glaucia Fracarro, em Blogueiras Feministas
O que é feminismo? – Bidê Brasil
Porque sou um homem feminista – relato de Byron Hurt, em Escreva Lola Escreva
Who needs feminism? - pôsters legais no Facebook para você compartilhar (em inglês)

Amanhã, como todos sabem, é a estreia do filme Avengers, mais uma produção milionária que leva o universo dos quadrinhos da Marvel para os cinemas. Eu não estava tão empolgada, e, para falar a verdade, eu estava com um medinho de assistir o filme. Motivo? A minha personagem favorita de todos os tempos estaria nele, e as superproduções para o cinema costumam decepcionar os fãs mais fervorosos.
O negócio é que eu vi o filme (em uma espécie de pré-pré-estreia) e me surpreendi. O filme envolve, as cenas de luta são incríveis, a construção dos personagens ficou excelente (Mark Ruffalo destruiu como Hulk e sambou na minha cara por eu ter achado que ele não ia conseguir) e não me decepcionei com a participação da Viúva Negra na história, que acabou sendo mais importante do que eu imaginava. É claro que não fiquei 100% satisfeita: os primeiros segundos de Natasha Romanoff na tela me irritaram profundamente (quem assistir vai descobrir o porquê).
Mas o filme foi só um pretexto para eu escrever sobre a personagem que Scarlet Johansson interpretou tão brilhantemente (embora eu tenha demorado a me acostumar com a ideia; achava que Scarlet tinha muito mais a ver com Yelena Belova do que com a Romanoff, e, bem, eu nutro uma certa antipatia pela substituta da Viúva Negra).

Yelena Belova, a nova Viúva Negra
A ruiva Natasha Romanoff (ou Romanova) surgiu nos quadrinhos em 1964 e chuta traseiros desde então. Nasceu em Stalingrado e foi onde quase morreu, ainda bebê: nazistas atearam fogo à sua casa, e sua mãe, para salvá-la, arremessou-a pela janela. Assim parou nas mãos do soldado russo Ivan Petrovitch, que passou a protegê-la e treiná-la. Ela cresceu, desenvolveu suas habilidades e logo foi convocada para a KGB – pouco depois de receber a notícia que seu primeiro marido, o piloto de testes Alexi Shostakov, teria morrido em missão.

Treinada para ser letal, teve sua performance física aperfeiçoada quimicamente pelos russos e foi condicionada psicologicamente para ser essa espiã durona que conhecemos. Perita em artes marciais, atiradora de elite, hacker, estrategista, expert em espionagem, disfarce, infiltração, não há nada em que Romanoff não seja boa. Praticamente uma lenda na academia de espionagem Red Room. Isso até descobrir que era só uma das 27 agentes Viúvas Negras infiltradas durante a Guerra Fria – e a única que sobreviveu.

Demolidor: só um dos vários heróis que caíram na teia - e na cama da espiã.
Sua entrada no Avengers aconteceu só em 1967, e foi a 16ª a integrar o grupo. Mas essa vida heróica não faz muito seu estilo, e, na maior parte do tempo, é uma agente freelancer da S.H.I.E.L.D.
Por que a Viúva Negra é tão foda?
Ela é uma versão femme fatale do Batman. Não tem super poderes e sua maior arma é sua inteligência. Pode não ter a fortuna de Bruce Wayne, mas é uma lutadora tão escrota quanto ele, além do jeitão de poucos amigos, a atuação geralmente solitária e o gosto por roupas pretas.

"Apenas pense em mim como mais um dos caras maus. Porque, basicamente, é o que eu sou."
Mas, diferente do Homem Morcego, ela é coadjuvante na maioria das histórias. A Viúva Negra só ganhou sua própria série de quadrinhos em 1999, com Web of Intrigue. Em 2001, Romanova e a jovem espiã Yelena Belova protagonizaram o arco de histórias Black Widow: Breakdown. Em 2005, foi a vez de Black Widow: The Things They Say About Her (a que estou lendo atualmente).

Cena da melhor história da Viúva Negra
Mas sem dúvidas a melhor série da Viúva Negra foi Itsy-Bitsy Spider, de 1999. Escrita pela roteirista Devin K. Grayson e com o traço incrível do artista J.G. Jones, a história traz uma Natasha Romanoff em fim de carreira, escalada para uma missão no Oriente Médio, onde precisa descobrir sobre uma nova biotoxina que transforma soldados em exterminadores enfurecidos, que matam tudo e todos ao redor até definharem, consumidos pela droga, poucos minutos depois. O negócio é que os militares russos parecem interessados na droga, e enviam a espiã Yelena Belova para interceptá-la. É então que a velha Viúva Negra encontra-se com a nova Viúva Negra, e Natasha Romanoff confronta mais do que uma rival, mas uma crise de identidade. Recomendo altamente.
O que me entristece é que não basta a personagem ser tudo isso que a Viúva Negra é e ter um background riquíssimo, ela ainda estará em segundo plano no mundo dos quadrinhos, onde quase sempre é reconhecida como apenas mais uma gostosa.

Avengers: todos fazendo poses heróicas, enquanto a Viúva Negra mostra... a bunda. E se fosse o contrário?
E a vida para as super heroínas não está nada fácil. Quantos filmes, das atuais adaptações dos quadrinhos para o cinema, foram protagonizados por mulheres? Da Marvel, temos a Elektra – que, cá pra nós, não chegou nem aos pés das histórias em quadrinhos. Sem falar que o filme faz parte daquela safra de produções que cagaram todos os super heróis. Da DC, temos a Mulher Gato – outra personagem sensacional completamente desperdiçada. O filme é tão pífio que nem vale a pena comentar. Por outro lado, filmes com heróis (homens, claro) não param de ser lançados – e ganham até sequência (Homem de Ferro, só pra citar um exemplo).
Dos Avengers, todos os integrantes tiveram seu próprio filme, menos um. Adivinha qual? Sim, a Viúva Negra. E olha que eu tinha grande esperança da personagem ter um filme só dela (a própria Scarlet ainda espera isso). Mas quem sabe não role? A Scarlet Johansson fez um trabalho tão bem feito que voltou a alimentar minhas esperanças de ver a Viúva Negra estampando um cartaz de cinema – dessa vez sozinha e, espero, com uma pose menos sexualizada.
Leia também:

She Hulk

Mulheres nos quadrinhos - Pt. 1

Mulheres nos quadrinhos - Pt. 2

Parabéns pelo seu dia, mulher. Parabéns a você que é feminina, delicada e nos encanta com sua beleza. Parabéns a você que não é feminista, masculinizada ou vulgar. Parabéns a você que não fala palavrão, porque sabe que isso não é de bom tom para uma mulher. A você que não deixa de fazer a unha, passar batom e fazer escova, mesmo que trabalhe em serviços masculinos em que isso seja totalmente dispensável, porque você sabe, a gente precisa ter certeza que você ainda é mulher.
Parabéns a você, mulher perfeita. Sem estrias, sem gorduras, sem pelos, sem poros. A você que não é gorda e por isso cabe em roupas maravilhosas. A você que também não é magra demais, para podermos admirar suas curvas. Parabéns a você que faz de tudo para se encaixar nesse meio termo imaginário. Colocar peito, tirar barriga, levantar o nariz, depilar a laser, esticar o cabelo, clarear os dentes, malhar glúteos. Parabéns a você que, se for gorda, está tentando emagrecer; porque todos sabem que gordas são mal amadas e não se cuidam. A você que, se for velha, está tentando o tempo todo parecer mais jovem, porque mulher tem data de validade.
Parabéns, mulher para casar. Você, que se dá ao respeito, é uma mulher de família, mulher prendada que sonha em cuidar do marido e dos filhos que ele te der. Parabéns a você que não é uma biscate, que não toma a iniciativa, que não sai na rua usando decote, minissaia e shortinho. A você que não fica com três caras em um mês, que não transa no primeiro encontro, que sabe que não pode ter tanta liberdade sexual quanto um homem. Parabéns também a você, mulher para transar. Que é um fetiche, é desejada, é usada e é jogada fora. Parabéns a você que não é puta, pois vale ainda menos e está abaixo do que podemos considerar como um ser humano.
Parabéns mulher, mesmo se você não for hétero. A você que, mesmo gostando de outras mulheres, continua feminina e sexy, porque assim pode continuar sendo objeto do nosso desejo. Parabéns mulher, por nunca ser levada a sério quando está nervosa ou chateada, porque todos sabemos que é apenas TPM. Parabéns a você, que é má motorista, adora sapatos e sempre estoura o limite do cartão de crédito só porque é mulher. A você que é vendida como cerveja. Parabéns a você, mulher clichê que tanto amamos.
Feliz Dia da Mulher a você, que não tem autonomia sobre seu corpo. A você que sabe que se for estuprada foi porque provocou, a você que se for assassinada pelo parceiro foi porque mereceu. Parabéns a você, que não vai tentar um aborto simplesmente porque não queremos que você faça isso, e não porque a decisão de continuar uma gestação no seu útero seja uma escolha sua. Porque não é.
Parabéns pelo seu dia, mulher. Uma homenagem de quem é a razão de existir do Dia da Mulher e o faz tão necessário até hoje.
Sinceramente,
Machismo.
Categoria: Ficção
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Era só Júnia colocar os pés na rua para saber que ia se aborrecer. Por que a certeza? Porque ela era mulher, claro. Júnia não conseguia passar por uma simples calçada sem ouvir assovios e gracejos como “ô lá em casa”, “ai se eu te pego”, “nossa que delícia”, e outras tantas frases mais elaboradas e criativas que nunca foram exclusivas de pedreiros.
Mas toda mulher, no fundo, no fundo, gostava – era o que o mundo dizia. Júnia não tinha chegado tão no fundo assim, talvez por isso achasse um saco. Mas não era chato como um ônibus que não parava quando ela dava sinal, porque isso ela conseguia superar. Era chato como um testemunha de jeová batendo na sua casa às oito da manhã de um sábado para falar um monte de asneira que você não queria ouvir. Júnia achava que era tão invasivo quanto.
E Júnia não era nada demais, ela achava. Cabelo comprido, olhos, nariz, boca, dois braços, duas pernas e um par de seios, pequenos, mas ainda assim eram dois. Para sua infelicidade, cantadas não eram uma exclusividade das gostosonas. E nem das garotas que desfilavam de minissaia e decote pelas ruas. Mas essas não podiam nem reclamar – o mundo também dizia – porque afinal, se estavam vestidas daquele jeito, estavam pedindo. Vestidas como vagabundas, é claro que vão atrair cantadas – e até causar estupros por aí. Mas Júnia observou que, aparentemente, usar calça comprida, camiseta e casaco também era se vestir como uma vagabunda. Céus, não tinha saída, ela pensava.
Em uma conversa com o irmão, resolveu desabafar. Ele achou um absurdo, claro.
- Olha, se fosse comigo, se um gay mexesse comigo, ah, eu descia a porrada.
- Entendi.
A outra metade da população da qual Júnia não fazia parte parecia achar fácil se livrar disso, talvez por sua pouca familiaridade com a situação. Reagir não era exatamente uma opção, embora toda vez que Júnia passava por isso elaborava em sua cabeça mil formas de responder à altura as gracinhas que tinha que ouvir.
- Bom dia, princesa! – “Bom dia é o cacete, e tira o olho da minha bunda”
- Biiiiiii bii! – “Vai buzinar para a puta que te pariu!”
- Nossa, você tá uma delícia, hein. – “Vai comer merda”
- Que tesão! – “Por quê? Tá com o dedo no seu cu, babaca?”
- Fiu fiu! – “Que foi? Nunca viu mulher não?”
Mas Júnia nunca reagia por dois motivos. Primeiro, achava perigoso. Ela soube de mulher levando tiro na cara por muito menos. Segundo, porque por mais escrota que fosse a resposta que ela imaginava, nunca achava que era tão grosseira quanto as cantadas que recebia.
Até que teve uma ideia.
Evitava passar por uma calçada quando tinha um grupo de homens parado por perto. Mas daquela vez não mudou de caminho. Continuou andando, certa de sua pequena vingança. Quando passou na frente dos três caras, os sempre donos da situação, não deu outra: começaram a assoviar, dizer as gracinhas de sempre. Júnia passou por eles, perto até demais. E, quando teve certeza que no passo seguinte eles estavam olhando para a sua bunda, peidou alto. Um peido bem barulhento, fedido, um estrago. Que orgulho de peido. Continuou andando e deixou de presente para os três sujeitos o cheiro morno de suas entranhas.
Ouviu os três putos xingando lá atrás e gargalhou satisfeita. A cantada, literalmente, saiu pela culatra.

(recomendado para maiores)
Talvez o brinquedo sexual mais estimulante para uma mulher seja o espelho. Tsc, e lá vai ela atrás de vibradores e creminhos. Ou então, como Clarissa, lá vai ela se olhar e se achar gorda. Eram aquelas dobrinhas marcadas pelo sutiã que incomodavam, por mais que dissessem que ela era do tipo gordelícia. Francamente, isso era elogio? Vestiu a blusa rapidinho e foi trabalhar.
Chegou na redação, onde exercia a pouco atraente função de assistente de marketing. Mas gostava da sua mesa. De longe dava para localizá-la: era aquela com duas anteninhas de pompons rosa em cima do monitor. Imprimia imagens do happythings.tumblr.com e colava nas laterais da sua baia. Chegou sorrindo um bom dia para seus colegas, enquanto cantarolava uma musiquinha qualquer em francês.
Abriu o email enquanto tomava seu café. Capuccino descafeinado, na verdade.
“Fwd: Brinquedinhos de mulheres” As meninas da redação enviavam entre si, pelo menos uma vez por semana, algum e-mail com link de sacanagem. E lá estava Clarissa na tal lista. Ela até abria, dava uma olhada por cima, só para não parecer a chata.
- E aí Silvinha, gostou do e-mail?
- Gostei foi daquele amigão duplo. Imagina, que loucura!
Hahaha, e as meninas riam no corredor do café, e o máximo que Clarissa fazia era mostrar os dentes enquanto enchia seu copo de água. Que conversa desagradável. No mínimo, fora de hora. Clarissa estava com muito trabalho e, bem, com pouco assunto. Não era por falta de gostar da coisa, se é que você entende. Imagina! Até tinha seus eventuais namorados e não podia reclamar de falta de opção. Talvez de sua falta de coragem, ou quem sabe ela não tivesse tesão o suficiente. Ainda.
O problema é que, quando se tem 22 anos, esperam que você tenha uma história sexual um pouco mais extensa do que alguns amassos e um boquete bem meia-boca. Também teve aquela vez que o César baixou sua calcinha de leve, enquanto se beijavam na cama dele. Clarissa levantou na hora, negou, fez charminho, e acabaram que nunca mais se viram depois disso. Virgem, dá para acreditar?
- Não, espera aí. Você nunca fez? Nem uma trepadinha? Tá de brincadeira.
- Ah, Lilian. Ainda não achei o cara certo, sabe?
- Olha, se você fosse tatuar a rola dele, eu até ia entender a sua preocupação. Ia ser mesmo uma tragédia escolher o cara – ou o pinto errado.
Clarissa se arrependeu de ter aberto a boca, era a primeira vez que falava dessas coisas com uma colega. Não era exatamente uma colega, Lilian era sua supervisora. Estavam na casa dela, já sem o salto alto, quando ela trouxe duas cervejas geladas e se sentou no sofá à sua frente.
Clarissa já podia antecipar mentalmente todo tipo de conselho que a outra ia oferecer. Nos dias atuais, os sacrifícios de virgem ainda existiam; mas era muito mais um martírio moral do que realmente ser amarrada em um altar e, sabe-se lá, ser apunhalada com uma adaga ritual. Vergonha nem era ser virgem, era ser burra mesmo. Em tempos onde era tão fácil parecer uma safada, em que bastava um avatar mais ousado e postar links de sacanagem (ou mensagens minimamente insinuantes), parecer virgem, independente de já ter feito ou não parte dos festejos da rola grossa, é que era inaceitável. Exceto no altar, em que todas, absolutamente todas, usavam véu e grinalda, como boas donzelas. Clarissa estava tão absorta em seus inúteis pensamentos virginais, que não imaginava que Lilian estava mais interessada em fazer perguntas do que oferecer conselhos de mulher bem transada e experiente.
- Então… você não sabe como é?
- Como é aquilo? Ah, sei sim. Eu te falei, já chupei uma vez, quando…
- Não estou falando disso, Clá. Céus, você tem o pensamento tão fálico!
- Falando assim você me faz sentir uma aberração, credo.
- Deixa de ser boba. Só tira o pau da cabeça, a pergunta não tem nada a ver com pau. O que eu queria saber é se você já gozou.
Foi como se os cinco litros de sangue de Clarissa de repente circulassem no seu rosto. Como saberia dizer se já gozou, se mal fez o básico, que era transar? Pelo menos, ela imaginava o processo como uma escadinha: sexo devia ser como subir degrau a degrau, até chegar lá. E acontece que Clarissa tinha tropeçado no primeiro andar. Preferiu não explicar isso para Lilian, então deu logo a resposta mais curta.
- Hm, não.
- E você nunca teve curiosidade para saber como é?
- Até tenho. Mas acho que vai ser bem mais gostoso quando – ai meu Deus, não me ache uma idiota por isso, ok – achar o cara certo para mim.
- Quem disse que você precisa de um cara pra isso?
Lilian riu de um jeito que Clarissa até pensou, de início, que sua chefe queria comê-la ali mesmo. Então lembrou do que levou àquela conversa: desde o princípio, tudo era sobre os benditos e-mails de putaria das meninas da redação. Lilian devia estar falando dos consolos, bolinhas tailandesas e estimuladores listados no link.
- Ou você nunca ouviu aquela do Woody Allen? Masturbação é sexo com a pessoa que você mais ama.
- É, faz sentido.
Sozinha em casa, ela finalmente teve coragem de olhar o link com mais calma. Eram cacetes, pirocas e perus de todos os tamanhos, cores, formatos e materiais. Tinha um azul ciano lindo que até ficaria bem na sua mesa se não fosse, pra início de conversa, uma rola bem grande. O tal amigão duplo era um pouco assustador, e Clarissa não gostava da ideia de ser metida por uma deformação de plástico. Aliás, ela nem gostava da ideia de perder a virgindade para qualquer coisa de plástico. Que pensamento mais idiota. Clicou na seção de vibradores e estimulantes de clitóris e ficou meio perdida com tantas opções. Achou um pequenininho, de encaixar no dedo, com a seguinte descrição: “Super silencioso, dá para usar no trabalho. Inclui baterias”. Arriscou encomendar esse, claro, sem esquecer do gel estimulante mentolado.
Demorou para chegar, mas depois de tantos anos sem gozar, não era um pequeno atraso dos correios que ia fazer diferença. Primeiro testou sua nova aquisição na pele do seu braço para ver o quanto vibrava. Olhou com estranheza, tentando imaginar se isso poderia ser bom lá embaixo. Ou pelo menos tentando avaliar os riscos de levar um choque com aquilo. Bobeira, não era elétrico. Resolveu que era hora de deixar as especulações de lado, e, depois do banho, deitou em sua cama só de camisola. Encarando o teto, preparou o brinquedinho no dedo e, por debaixo do cobertor, começou as atividades.
Era uma sensação incômoda e relaxante, como se fosse um spa de cócegas. Suas pernas estavam duras: sentir que não tinha o controle daquela área estava deixando Clarissa toda tensa e insegura no manejo daquela britadeira de periquita. Tentou pensar em algo excitante, talvez ajudasse a relaxar. Ah, a vez em que chupou o Rodrigo, um dos seus últimos namorados. Tinha ficado meio sem jeito com tanta carne na sua boca, esbarrando nos dentes e encostando na garganta. Resolveu ficar só na pontinha e não investir tanta saliva, por mais que o namorado forçasse a sua cabeça para ir mais fundo, usando uma técnica que Clarissa imaginou ser usada por torturadores, mas com uma tina de água gelada no lugar do pinto. Acabou que o pescoço dela estava mais duro que o pau dele. Quando se deu conta, o namorado estava tirando um corpo mole e murcho de dentro da sua boca. É, não ia funcionar. Suas lembranças não eram muito excitantes, mas ela podia inventar uma que fosse. Por que não?
Tentou imaginar como seria se tivesse deixado César ir adiante. Ele abaixou a calcinha dela e começou a fazer carinho no meio de suas pernas – carinho que ela simulava com seus próprios movimentos conduzindo o vibrador. Hm, tinha ficado gostoso de um jeito que fez Clarissa derreter e ficar um pouco molhada em baixo do cobertor. “Mas espera, nessa posição ele vai ver a minha barriga”, e ela sentiu que precisava ser convincente para continuar funcionando. Além do mais, aquele detalhe a incomodava profundamente, de forma que ela virou de ladinho para continuar. Foi quando olhou para seus seios, que volumosos, pulavam para fora da camisola, e também se incomodou como eles ficavam caídos e meio tortos naquela posição. Revirou na cama procurando o ângulo menos constrangedor e pensou que também teria sido uma tragédia se ela realmente tivesse deixado César fazer o que ele queria quando abaixou sua calcinha aquele dia. Arrancou o estimulador do dedo e jogou contra a parede. Perda de tempo.
Chegou na redação um pouco menos bem-humorada e um pouco mais descabelada do que o normal. Nessas horas agradecia por trabalhar para uma revista de adolescentes, em vez de uma daquelas para mulheres crescidinhas que trazem na capa “enlouqueça seu homem na cama”. Mas algo no olhar da sua chefe dizia que ela não ia conseguir se livrar do assunto tâo fácil.
- E aí, deu certo?
- Do que você tá falando, Lílian?
Sua supervisora sorriu e olhou para os lados. Levantou de sua mesa, levando sua caneca de café, e sentou-se na cadeira ao lado de Clarissa. Sussurrou e olhou por cima dos óculos de aros vermelhos:
- Tô falando do brinquedinho novo que você me falou.
- Ah, não funcionou muito bem.
- Como assim, menina? Tava até pensando em pedir um pra mim também.
- É, quem sabe pra você dê certo. Mas comigo não funcionou.
- Hm, tem certeza que foi o aparelhinho que não funcionou?
- Não senti nada.
- Clá, o vibrador só vibra. O que tem que funcionar pra você sentir prazer é a sua cabeça.
- O que você está querendo dizer?
- Só tô dizendo para você encanar menos. Sei lá, abrir a cabeça, curtir, relaxar. Esquecer que precisa de homem, ou até de vibrador pra ser feliz. Deixa você mesma se amar um pouco.
Deu uma piscadela e voltou para a sua mesa e seus montes de planilhas. Deixou Clarissa cheia de coisas para pensar durante o dia. E que dia. Estava tão cheia de trabalho que nem teve tempo de abrir o e-mail de sacanagem que a Regina mandou para as meninas. Mas também não estava interessada.
Queria mesmo um bom banho quando chegasse em casa. Feito. Demorou-se na água quente e saiu do banheiro nua, secando os cabelos com a toalha. Parou na frente do espelho, pegou a escova e começou a pentear os cabelos para a esquerda, depois para a direita. De repente trocou olhares consigo mesma e imaginou uma forma de parecer diferente. Com os dedos, jogou os cabelos para trás, deixando seu rosto completamente descoberto. Por nunca ter usado o cabelo assim, ficou surpresa com a diferença que fez para o seu rosto. Brincou com o espelho, fazendo caras e bocas que a faria se achar ridícula em qualquer outra situação. Sorriu com a brincadeira boba e pegou novamente a toalha.
Então olhou para o seu corpo no espelho e afastou a toalha da frente de seus seios. Também eram interessantes, afinal. E sensíveis. Sabia o quanto era prazeroso receber alguns carinhos ali, mas eles não estavam recebendo muita atenção. O que gostava de sentir ali? Passou seus dedos de leve e ficou arrepiada: seus mamilos se eriçaram na hora. Apertava, alisava, brincava e gostava. Molhou seus dedos com saliva e tocou na ponta dos seus seios. Chegava a um novo nível de prazer, sentia suas bochechas esquentando. Continuou a tocar seus seios e virou-se para ver sua bunda, que ficava tão maior empinada naquele ângulo. A visão era ótima. Como ela nunca tinha percebido isso antes?
Sentou-se na cama, sem tirar os olhos da Clarissa do espelho. Chupou seu dedo e desceu ele pelo corpo até chegar na vagina. Estremeceu. Começou com movimentos suaves, e seu dedo deslizava bem devagar na sua pele molhada. Com a outra mão, continuou a alisar seus seios e a se divertir sentindo-os durinhos e pontudos. Não queria perder nada. Abriu bem as pernas para ver todos os detalhes e sentia cada vez mais tesão com aquela imagem, com aquele toque.
Nem percebeu quando exatamente resolveu deitar na cama, mas já estava rebolando e se esfregando em seus lençóis, ao mesmo tempo em que dedilhava a xana em todas as direções. Respirava alto, seus peitos subiam e desciam no mesmo ritmo dos gemidos. Revirou na cama até ficar com a bunda virada para cima, e levou as duas mãos para baixo, onde começou a fazer um movimento coordenado fora das possibilidades anatômicas de qualquer pau ou língua masculina. Seus dedos não eram só rápidos: sabiam o que queriam. Então Clarissa sentiu algo lá dentro esquentar e, como se fosse um espirro, explodir em algo incontrolável. O que foi isso? Ela desacelerou os dedos, mas queria continuar sentindo. Gozou?
Suas pernas tremiam, mas Clarissa continuou firme. Não enfiou um, mas dois dedos na boceta. Doeu quando entrou, mas ela estava tão louca que foi fundo e meteu sem parar. Com o rosto afundado no travesseiro, ela abafava seus gemidos que ficavam cada vez mais altos, mais fora de controle. Nem suas aulas de natação na adolescência exigiram tanto fôlego; mas eram tão molhadas quanto. Ela encontrou a posição certa, o ritmo certo, o toque certo. Quem mais poderia fazer isso? Foi mais rápido só para saber até onde ela podia ir. Então ela foi. Sim, definitivamente, ela gozou de novo.
Clarissa desmontou na cama como se fosse líquida. Sorria descabelada ainda com a cara no travesseiro. Exausta demais para se vestir, apenas se encolheu na cama, como se abraçasse sua própria nudez e a sua nova descoberta: não só a do orgasmo, mas a de que, por baixo daquela Clarissa insatisfeita com suas medidas, estava uma mulher que era um puta tesão.
Fora isso, nada mudou. Clarissa continuou a ir para o trabalho sorridente, continuou a tomar seu capuccino descafeinado, e as meninas da redação continuaram a enviar e-mails com putaria. O que nem elas sabiam é que a menina do marketing que adorava imprimir imagens do happythings.tumblr.com agora enviava suas próprias fotos, nua, para o gostosas.tumblr.com.
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Bukowski de um conto só

Mistura a três (pt I)

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Estranhos Intímos
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