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Post escrito para o Concurso de Blogueiras da Lola
Só descobri mesmo que eu era menina aos 5 anos. Vou te contar que foi uma descoberta espantosa; mas não foi assim, do nada. Eu já suspeitava que eu fosse menina. Eu gostava de rosa, usava cabelo Chanel, e já tinha ouvido falar de uma tal perereca que talvez tivesse tudo a ver com o caso.

A culpa é toda dela.
“Meninos fazem karatê. Meninas fazem balé.” Resumindo, foi assim que descobri. Eu estava no Jardim I, toda besta com a abertura das aulas extra-classe, aquelas atividades que a escola cria para manter a pirralhada ocupada e os pais despreocupados. Claro que eu fiquei doida para fazer karatê. Eu era pequena, mas não era boba. Assistia desenho animado e sabia da grande aplicação prática que a luta teria quando eu tivesse idade para entrar para a Liga da Justiça. Ok, nem tanto. Mas parecia ser divertido e as roupas eram mais legais.
Lembrei minha mãe do início das aulinhas e ela disse algo sobre comprar o vestido. Protestei, dizendo que queria mesmo era fazer karatê, mas ela respondeu de cara: “Ah, não senhora. Nem pensar”. E eu ali, sem entender por que não podia. Sabe criança que insiste? Então. Aí ela explicou: “meninos fazem karatê. Meninas fazem balé.”

Ai que saco. Preferia estar dando porrada em alguns meninos.
Só nesse episódio descobri o que significava ter uma vagina. Não fiquei revoltada. O mundo caiu na hora, mas na semana seguinte, eu já estava toda serelepe no balé com meu collant cor-de-rosa (embora não deva ter feito as aulinhas por mais de um mês). Na verdade, a partir dali, comecei a me acostumar com a condição de portadora de uma vagina. Comecei a me acostumar em não ter muita opção.

Eu na infância
Então era isso: eu soube exatamente o momento em que me descobri menina. Mas não posso dizer o mesmo da descoberta do meu feminismo. Quer dizer, como é que isso aparece? Bem que eu queria dizer que sou feminista desde criancinha, mas isso foi um processo. E teve muito mais a ver com a inocência de achar que eu podia fazer o que eu quisesse, do que com a frustração de não poder fazer.
Apesar de ter sido criada em uma família conservadora e cristã (e por consequência, altamente machista, onde era minha a obrigação da louça suja e das camas desarrumadas, nunca do meu irmão), passei longe de ser a mocinha ideal. Alguma coisa deu errado.
(As Barbies estavam lá, fazendo parte da minha formação, e mesmo assim, alguma coisa deu errado. Talvez porque eu soubesse que eu é que as manipulava – e não o contrário. Nas minhas brincadeiras, onde eu já mostrava algum talento para desenvolver histórias mirabolantes, Barbies e Cavaleiros do Zodíaco faziam parte da mesma história, inclusive com as bonecas desempenhando papel de heroínas. Eu sei, eu sei. Assistia desenho demais.)

Quem disse que RPG não é coisa de menina?
O negócio é que quanto mais eu crescia, mais me sentia à vontade no universo de coisas predominantemente masculinas. Quadrinhos, super-heróis, animes, vídeo-games, heavy metal. Eu sempre era a única jogadora do meu grupo de RPG. Meu sonho era trabalhar na Marvel, e eu já produzia meus próprios quadrinhos.
Dessa vez, ninguém precisava me dizer “meninos fazem quadrinhos, meninas fazem comida”. Eu já sabia. Mas fazer o quê, se eu tinha talento para histórias e nenhuma para culinária?

Experimenta dizer que mulher não pode alguma coisa.
E então, um dia resolvi ser publicitária. Trabalharia na área de criação, onde ainda havia muito mais homens do que mulheres. Mais uma vez, ninguém me disse “meninos fazem criação, meninas fazem atendimento”, apesar da grande maioria das mulheres desempenharem esse papel (sórdido) na publicidade.
Posso dizer que uma coisa continuou a mesma, da época do RPG aos tempos atuais: sempre fui vista como uma igual. E acho que aí está a origem do meu feminismo. Não no fato de ser discriminada, mas no fato de ser aceita em um universo que não foi feito para as mulheres, e ainda assim, ser tratada como igual. E por que não seria? Afinal, minha vagina pouco tem a ver com a minha capacidade de fazer as coisas. Fora os orgasmos múltiplos, é claro.
Ainda não acabou
Mesmo não seguindo a cartilha da boa moça, descobri que podia ser aceita – e o melhor: fazendo o que eu realmente gostava. Essa era uma descoberta realmente espantosa. Definiu a minha vida! Mas se isso era tão bom, não entendia por que ainda havia uma sociedade que ensinava que meninos fazem karatê e meninas fazem balé.
Foi quando conheci o blog da Lola e da Marjorie (não necessariamente nessa ordem). Com elas, minha visão de mundo se expandiu. Fiquei mais sensível ao que antes parecia invisível. Comecei a entender que tudo fazia parte de uma construção social, cuja função era manter todos em seus devidos lugares. Percebi que era uma grande besteira acreditar que as coisas eram assim só porque deus quis.
Acredito que as coisas podem ser diferentes. Que homens e mulheres possam ser o que bem entenderem. Que a igualdade que eu experimentei com as pessoas do meu meio possa ser vivida na sociedade como um todo. Aí um dia não vai importar se você tem ou não uma perereca, porque nesse dia (e espero que seja logo) ninguém mais vai ensinar o que é coisa de menino e o que é coisa de menina. Se você também acha isso, parabéns. Você também é um goddamn feminista.
Então era isso: eu tinha esse amigo, que tinha essa queda por mim, a gente se agarrou, e agora eu só conseguia imaginar ele na minha cama, daquele jeito que eu gosto; mas o cara era praticamente casado, e ainda me propôs um ménage com a Ana, a mulher dele. Difícil? É porque você não está no meu lugar.
Depois daquele telefonema, ele ficou sem saber se devia insistir. E eu sem saber se devia aceitar. Eu nunca transei com mulher, quanto mais com uma mulher e um homem ao mesmo tempo. Tudo bem, parecia cômodo fazer isso com a Ana e o Gustavo, que eu conhecia e tal. Mas um casal que nunca fez isso, e que sempre teve um relacionamento 100% fechado, tinha TUDO para dar errado.
Entre eu e o Gustavo continuou aquele climinha. Teve o dia em que ele estava me ajudando a revisar o planejamento de aula, e assim, como não quer nada, colocou a mão firme sobre minha perna, por debaixo da mesa. Ele queria tanto quanto eu, mas estava com medo de pular a cerca.
Aí o negócio é que eu topei. Não dava para saber se ele estava fazendo isso porque queria uma espécie de infidelidade consentida. O que importa é que eu sentia tesão por ele e ponto.
Caprichei na produção e apareci no apartamento dele, do jeito que a gente combinou. O casal me recebeu bem, como sempre. Quando cheguei, já estavam bebendo vinho e me ofereceram uma taça. Sentamos na sala e ficamos conversando, bebendo, e comendo uns belisquetes que eles tinham preparado.
Até então, nada diferente do que costumavam ser minhas visitas ao casal. Só que dessa vez, Gustavo estava bem à vontade. Começou a falar comigo cheio daquelas insinuações que antes só usava quando a mulher não estava por perto. Ao mesmo tempo, passava a mão nas pernas da Ana, fazendo o vestido dela subir ligeiramente, como se eu não estivesse ali. E eu achando tudo aquilo muito divertido.
Cheguei junto, o vinho já tinha deixado minha cabeça bem leve. Sentei perto dos dois e a gente continuou a conversa em um nível mais íntimo. Trocamos alguns toques, meus dedos passearam pelas pernas da Ana, como se eu só quisesse arrumar o vestido que o outro subiu. Gustavo acariciava minha nuca, e foi assim que me puxou para o beijo. Logo tinha mais uma língua ali no meio, e opa. Vou te contar que foi meio estranho. São duas texturas diferentes, dois ritmos diferentes. Uma mais afobada, outra se movendo mais devagar, querendo descobrir, entender, aproveitar. Cada uma brigando por um espacinho na boca do outro. Uma loucura, mas logo você acostuma e curte.
Deixei que eles continuassem a se beijar e fui explorar o Gustavo. Beijava e mordia o pescoço, não precisava nem me preocupar em não deixar vestígios do crime. Ele passava a mão por trás da minha cintura, e não demorou muito para vir encher a mão com os meus seios. Senti que Ana começou a ficar um pouco incomodada com toda aquela empolgação para cima de mim, e antes que o Gustavo se desfizesse do meu decote, peguei a mão dele e impedi que avançasse, dando umas mordidinhas carinhosas.
Trouxe Ana para perto de mim, talvez assim ela ficasse mais à vontade. Olhei bem fundo nos olhos dela e a beijei. A sensação de ser um beijo entre amigas passou rapidinho. Apesar de ser a primeira vez que eu ficava com uma mulher, senti que a gente estava bem entrosada. Quem fez as honras de colocar meus seios pra fora foi ela, tocando com a ponta dos dedos, delicadamente, de um jeito que a afobação do Gustavo não ia permitir. Tirei o vestido dela, e ao vê-la ali só de calcinha, não sabia muito bem por onde começar. Mas pelo jeito que ela reagia aos meus beijos e lambidas, eu parecia estar acertando. Ah, e o Gustavo, que nessa hora já tinha sido deixado totalmente de lado, nem estava achando ruim não.
Ela resolveu não deixá-lo sozinho nas carícias. Eu estava adorando ver, mas o que eu queria mesmo era provar. Fiquei de joelhos, tirei a calça dele e me debrucei. Ana passou os dedos entre meus cabelos, ajeitando-os para trás, porque ela queria ver direitinho eu chupando o namorado dela. O movimento dos dois continuou um tempinho lá em cima, até que ela resolveu descer e me ajudar. Nossas línguas passavam por ele de cima a baixo, e vez ou outra se encontravam. No mesmo estilo do beijo a três, Ana e eu começamos a nos beijar, enquanto ele esfregava a ponta no meio daquela confusão de línguas. Ele já estava ficando louco. Deixei ela continuar o trabalho e fui buscar a língua dele.
Gustavo me queria toda nua. Tirou minha roupa e começou a me masturbar. Não parou nem quando Ana sentou em cima dele e começou a rebolar. Depois ela cedeu a vez e ficou só observando ele me comer.
Ménage tem uma logística meio complicada, afinal de contas, o cara tem só um pau. Por outro lado, não faltam mãos e bocas para o resto. E quando você está lá, no meio de tantas possibilidades, quer experimentar tudo, ver todas as posições e testar todas as combinações; revezar é o menor dos problemas. Era tanto vai e vem, que Gustavo não aguentou mais segurar e gozou. Isso foi na vez da Ana, que logo veio para mim.
Ela estava se revelando, viu. Pudemos ficar nos curtindo, respeitando nosso tempo e descobrindo uma a outra. Gustavo aparecia com suas carícias, mas foi o toque dela que chegou onde interessava. Ana me fez gozar de um jeito que estremeci toda. E não paramos. Em seguida foi a vez dela, e pelo sorriso iluminado que ela me deu junto com o orgasmo, eu soube que poderia fazer isso a vida toda.
Ainda chegamos a descobrir outras formas de fazer a outra gozar, antes do Gustavo ficar pronto de novo e chegar no ápice da festa. A gente estava totalmente embriagada, pegando fogo, e ele nos explorou da forma que bem entendia. Metendo com força mesmo.
Foi quando resolvi fazer uma coisa que nunca achei que faria. Abri as pernas da Ana e comecei a chupar, primeiro com carinho e meio insegura. Depois lembrei do jeito que o Carlos fazia que me deixava louca e resolvi experimentar. Também funcionou com ela. Enquanto isso, o Gustavo veio por trás, aproveitando que eu estava de quatro. Deve ter sido uma cena linda. Ele transando comigo e assistindo eu chupar a mulher dele. O casal conseguia olhar um para o rosto do outro, da posição que estava.
(Como vou explicar? Ah, imagina aí.)
Ele gozou pela segunda vez, agarrado à minha cintura. Ah, e o carinho que a Ana estava fazendo na minha cabeça estava tão gostoso que ainda me demorei um pouquinho mais. Ele despencou do lado da mulher e os dois se abraçaram, satisfeitos. Ele buscou meu corpo e me abraçou também. Mas eu estava me sentindo extremamente desconfortável com isso e logo me levantei, dando um beijo na testa dele. Sabe, aquele momento era dos dois.
(Gostei bastante. Apesar de ter sido uma delícia, foi bem, BEM diferente do que já vi em filmes pornôs. Quando a gente vê, acha que é só aquela putaria mesmo. Mas a história muda quando a gente está fazendo de verdade. São pessoas, e como tudo que envolve pessoas, é complexo. Eu tive foi sorte de ter feito com eles. A coisa fluiu bem, e não sei como seria se tivesse sido com outro casal. Ou se a mulher que fizesse parte do casal fosse eu. É, seria bem diferente. Por isso, saí do apartamento do casal aquela noite com uma estranha, súbita e enorme admiração pela Ana.)
É complicado levar tudo numa boa, como se nada tivesse acontecido, depois de uma transa a três. Os sinais e insinuações do Gustavo continuaram lá, mas com um carinho diferente. Dava a impressão de que ele me incorporaria ao relacionamento se ele pudesse. Ele parou de me dar carona com tanta frequência, disse que a Ana ficava um pouco enciumada. Certa ela. Porque agora ele me desejava como nunca.
Teve o dia em que ela apareceu lá em casa. Eu tinha tirado o dia para colocar em dia as alterações no projeto final, então não estava esperando MESMO nenhuma visita. Estava até usando shorts de pijama. Fiquei surpresa, pedi desculpas pela bagunça. Mas eu estava pensando mesmo é que ia dar merda. “Pronto, veio me dizer para ficar longe do Gustavo, não quer que a gente pense que por causa daquela transa a gente é alguma coisa, etc.” Vai vendo.
Estava na bancada preparando o café enquanto a gente conversava. Ela me falou do trabalho dela, perguntou também como eu estava indo de projeto final. Toda aquela conversa que a gente sabe que era só para dar umas voltas básicas. Servi o café e ela ficou reticente, olhando para a xícara. Deu um gole e resolveu ir direto ao ponto. “Você ainda pensa naquele dia, Elisa?” Tive que ser honesta, né. Porque pensava sim. Então ela me disse que foi a primeira vez que transou com uma mulher. Disse que não sabia se eu pensava o mesmo, ou se tinha conhecido melhores, mas que achou muito bom.
Eu só pude rir. “Linda, essa também foi a minha primeira vez”, admiti. Ela pareceu respirar aliviada e riu também. Trocamos uma ideia sobre o que tinha sido a experiência para cada uma. Lembrar daquilo tudo me deixou morrendo de tesão. Então ela me vem com essa: “Seria bom repetir a dose”. Eu nem disse nada. Só a beijei com muito gosto.
Mais uma vez a teoria da infidelidade deu o ar de sua graça. Só que dessa vez, de uma forma que eu nunca imaginei que pudesse acontecer. Já deitadas no sofá, entre beijos, Ana disse que não passava pela cabeça do Gustavo que ela estava ali.
Tudo bem, ele não ia saber mesmo.
Resolvi desenvolver um conto bem diferente do tipo de coisa que costumo escrever, só para ver no que ia dar. Deu nisso aqui (atenção 18+):
Bukowski de um conto só.
Bem, tinha esse cara que me mostrou uma história que tinha acabado de escrever. Na verdade, nem escritor ele era. Fazia pouco tempo que a gente se conhecia, e por isso mesmo achou melhor mostrar para mim primeiro. Ele era fã de Bukowski. Não, ele era fã mesmo era de sacanagem.
A tal história começava com “vem pra cá”, e eu já sabia que ia dar em putaria. Continuei a ler e achei a escrita de um mau acabamento tremendo. Ah, isso porque na época eu só lia coisas limpinhas. Ainda não conhecia Bukowski e achava que Misto Quente era só um sanduíche.
(É, eu só conheci Bukowski com o Carlos. Fui relutante. Mas para entender um, eu precisava conhecer o outro.)
De volta ao conto. Falava de um cara que resolvia passar o feriado de carnaval com uma menina de outra cidade. Ambos sabiam o que queriam, não havia nenhum joguinho de conquista ou algo do tipo, até porque isso combina mais com historinhas de adolescentes. A história era sobre a transa dos dois, e ao mesmo tempo não tinha nada a ver com a transa dos dois. Isso porque o cara está lá tirando o atraso, mas cheio de coisas na cabeça que a narrativa vai resgatando aos poucos. Típico de homens com casos antigos mal resolvidos.
(Sabe aqueles contistas que acham que você vai entender a porra da história como se você estivesse lá, e por isso escrevem de forma bem vaga, porque não querem se expor ao tentar falar de algo íntimo? Então. São uns enrustidos. O Carlos não, ele se jogou inteiro ali. Eu fiquei até constrangida.)
Igual ao Bukowski, não dava para saber até onde era confessional e onde ele começava a inventar. Mas era muito real. Real e autêntico, senão seria um tédio. Por exemplo, tem a parte em que a menina chupava o cara, e ele em pensamento considerava as carícias sem muita habilidade, boas o suficiente só para manter duro. Nessa hora ele já estava pensando na outra, claro. O interessante foi ver o efeito disso na cabeça dele e na forma como as coisas acabaram. Mas eu não vou contar, né? Depois trago para você ler.
Acho que você vai gostar, mas eu me arrependo de ter lido.
(Exceto porque se eu não tivesse lido, provavelmente não teria conhecido Bukowski, e aí provavelmente não estaríamos tendo essa conversa agora.)
Mas o negócio é que eu li. E o problema não foi nem saber de um suposto caso dele, narrando em detalhes a trepada que eles deram. O problema mesmo foi ter sido a única história. Única!
O que aconteceu foi o seguinte: ele resolveu parar de escrever quando a namorada dele, que não era bem namorada, mas vamos considerar assim já que eles transavam frequentemente e ele era apaixonado por ela, foi embora pro Chile. Pra Cuba. Sei lá. Foi depois disso que ele resolveu dar um fim prematuro à sua recém-iniciada carreira de escritor decadente.
Tentei motivá-lo dizendo que era uma boa história, afinal, gente escrevendo sacanagem tem aos montes, mas gente que conseguisse envolver o leitor daquele jeito estava em falta. Mas ele não deu muita importância à minha insistência. Tive que me contentar em reler o mesmo conto várias vezes, até perceber que o safado estava escondendo mais.
(Claro que estava. Alguns meses depois ele me comeu, e mais de uma vez. Ele tinha material para, pelo menos, mais um bom conto. E é uma pena, uma pena mesmo, mas por algum motivo que eu desconheço, ou por algum motivo que a garota de Cuba sabe bem, ele resolveu guardar essas histórias. E tinha uma mais ou menos assim: )
Já devia ser quase meio-dia quando acordei no sábado, e me espantei ao pegar o celular para ver as horas. Ainda mais quando vi aquela mensagem. Carlos tinha me mandado às duas da manhã e dizia: “sem martírios”. Franzi a testa incomodada. “Mas que diabos?” E então lembrei que eu não tinha bebido tanto assim para fazer algo do qual eu me arrependesse na festa de ontem. Talvez tivesse falado mais do que devia, mas aí já era outra história.
No dia anterior, eu e alguns amigos da faculdade saímos para o aniversário da Marina, e o Carlos resolveu ir junto. Fazia um tempo que eu não saía com o pessoal; esse negócio de ficar sempre amarrada com namorado exige lá seus sacrifícios. Então aproveitei para dançar bastante e beber um pouco, coisa que geralmente não tinha oportunidade de fazer.
(Nas horas em que eu me sentava, e o Carlos estava lá em todas elas, era só sobre isso que eu falava. É claro que meu namoro estava ok, mas eu nunca cheguei a ficar mais de um mês solteira para conhecer a real angústia de ficar sozinha. E ele achando muito engraçado, apontou pro Henrique, bebendo à beira da piscina, e perguntou se era isso que eu queria: “sozinho há tanto tempo que nem consegue mais chegar em outra pessoa”. Acho que foi daí que ele tirou o “sem martírios” que mandou por sms: era meio que para eu não me sentir mal por essa situação, e ele era muito bom nisso. Confesso.)
Lá pelas tantas da festa, a minha boca estava seca e meus sentidos embaralhados. Levei meu copo para reabastecer e o Carlos veio em minha direção. Perguntou quem eu estava procurando, e respondi como quem fala de um grande amigo: “Vodca!” Ele sorriu, tirou o copo da minha mão e me levou até onde o pessoal dançava: “Não tem mais vodca. Acabou.” Fiquei sinceramente puta e disse para ele não tentar bancar o namorado. Aquele tipo de besteira que a gente só fala porque bêbado tem licença poética. Mas ele nem ligou muito.
Tanto é que mandou o sms, não mandou? Isso significava que eu ainda podia contar com a ajuda que ele me ofereceu para embalar minhas coisas no sábado. O namorado estava trabalhando no final de semana de novo, e eu de mudança na próxima quarta. Bem, eu liguei.
Ficou combinado dele vir à tarde e trazer a caixa de ferramentas. Eu ia precisar de ajuda para desmontar algumas prateleiras e a cama. Nada como um pouco de trabalho braçal em pleno sábado, han. Quando ele chegou, lá pelas cinco, eu já tinha encaixotado alguns livros e estava espantada com a quantidade de poeira que as apostilas são capazes de acumular.
Ele desceu mais alguns quilos de livros da prateleira de cima e se sentou ao meu lado no chão. Incrível como o trabalho conseguiu ficar duas vezes mais lento, mesmo sendo feito por duas pessoas.
(Eu tinha alguns livros do Stephen King, e toda vez que ele pegava um para guardar na caixa, a gente ficava jogando conversa fora sobre ele. Era um dos poucos gostos literários que a gente tinha em comum. Como eu já disse, ele gostava de Bukowski e de umas músicas mais alternativas que não faziam meu tipo.)
Quando as prateleiras ficaram vazias, ele deu a ideia de lancharmos antes de desmontar tudo. Achei uma boa, minhas costas já estavam todas doloridas e nem tinha chegado na parte difícil. Trouxe para a sala refrigerante e uns croissants bem sem-vergonhas de padaria. Já era início de noite quando paramos de enrolar e Carlos começou a desenroscar os parafusos. Enquanto isso, eu dava um jeito de desocupar a armação da cama e abrir espaço suficiente no meu quarto pequeno para ele conseguir desmontar tudo. Joguei o colchão na sala e parei para dar uma olhada no trabalho dele.
(Olha, eu podia estar olhando para qualquer coisa, menos para o trabalho. Não sou nenhuma tarada ou algo do tipo, mas ele ali sentado e concentrado me deu um tesão que me deixou até desconcertada. O cara ali me ajudando e eu excitada com o jeito que ele desfazia as voltinhas do parafuso. Que foi isso, hein?)
Ajudei o Carlos a tirar da parede e guardar as prateleiras em seus lugares devidos. E foi mais ou menos nessa hora que acabou a luz. Assim, de uma vez, como quem leva um soco na cara e de repente fica tudo escuro. E o pior é que tinha acabado na rua inteira. Breu total. “Ah, tá de brincadeira, né”. Nem acreditei que falei isso alto, não era a intenção. Peguei meu celular e tentei ajudar o Carlos a encontrar as chaves do carro. Mas ele disse que não, o que é isso, fazia questão de ficar, ainda tinha a cama para terminar, e a luz voltava rapidinho, eu ia ver só. Eu sentei no colchão que tinha largado ali e ele sentou logo depois.
Conversamos trivialidades, que na verdade serviam para disfarçar um campo invisível de tensão sexual entre nós que já existia desde a festa passada – ou que talvez já existisse desde a primeira vez que me mostrou aquele conto. Enfim, não importa. O que importa é que estava um escuro desgraçado, ele deitado e eu sentada ao lado dele, ele dando alguns sinais, e eu já nem me dando ao trabalho de considerar se devia ou não. Quando me dei conta, já estava debruçada sobre ele.
Estranhei minha língua dentro da boca dele, e ele usava a língua para acomodar a minha, beijando vigorosamente e me puxando para mais perto, como se já não bastasse a ação da gravidade do meu corpo sobre o dele.
(Você sabe que é um caminho sem volta quando o cara te vira na cama e ele deita em cima, deixando você sentir o tamanho do tesão dele quando aproxima aquele volume de você, bem no meio das suas pernas abertas. Pois é, foi quando eu senti que já era.)
Ele me pôs sentada para conseguir me acariciar melhor e continuamos a nos beijar. Em um lampejo, a luz estava de volta. Ele nem abriu os olhos e impediu que eu desgrudasse da boca dele. Tateou a parede ao lado dele até encontrar o interruptor e o desligou. Voltamos para a escuridão total, onde tudo que havia eram mãos explorando territórios ainda desconhecidos, e logo já não havia roupas para impedi-las.
Abri o zíper da calça dele, respirei fundo e comecei a chupar. De olhos fechados, tentava imaginar que não era a primeira vez que fazia com ele, para poder me dedicar com mais paixão e sem aqueles pudorezinhos. Agora que não tem volta, vai fundo, minha filha. Até porque a essa altura, não ia querer que ele achasse que estava bom o suficiente só para manter duro. Não senhor, eu ia dar trabalho caso ele estivesse tentando pensar na outra.
Mas quando foi o turno dele, tirou minha calcinha e fez um oral como há tempos eu não recebia. Aí esqueci da outra, do conto, do namorado. De tudo. Enquanto ele me beijava a buceta, eu acariciava seus cabelos curtos e segurava com força quando ele merecia.
Puxei-o para perto de mim, para dentro de mim. E ele veio deslizando. A gente ficou se curtindo um tempão, experimentou outros ângulos, ele viu o que eu conseguia fazer com as pernas, e eu fui entrando no ritmo dele.
(Nenhum dos dois estava com pressa, e eu podia ficar ali a noite inteira. Mas a ansiedade foi tomando conta de mim, ou algum outro tipo de bloqueio, sei lá. Nada que impedisse de continuar gostoso, mas eu estava quase entrando em combustão de tão louca, e não gozava de jeito nenhum. Sei lá se era medo, culpa, mas acho que a falta de uma intimidade prévia com o Carlos contou um pouco.)
Ele decidiu terminar. Ainda não tinha gozado e ainda estava no ponto de continuar, mas a gente simplesmente estava exausto. Ele deve ter passado pela mesma ansiedade que eu, mas parecia satisfeito. Eu fiquei frustrada de início, mas quando deitei do lado dele entendi que a falta de um orgasmo não estragava uma trepada tão boa.
Levantei ainda nua e fui até a janela, onde observei a rua, já toda iluminada novamente. Ele ficou do colchão, me observando das sombras. Ele brincou que queria ter uma câmera fotográfica naquela hora. Queria captar aquela imagem, disse que a iluminação estava perfeita. E eu já respondi bem direta: “Vai inventar de escrever um conto sobre essa transa também?” Ele respondeu sorrindo que era melhor não. Ah, que desperdício.
Ele mudou de assunto e me chamou para deitar com ele ali e dormir. “Tá louco? Meu namorado vem me buscar amanhã de manhã.” Um tanto desapontado, perguntou: “Não posso dormir aqui então?” Respondi sorrindo que era melhor não. Afinal, nem tudo pode ser fácil para um Bukowski.
Espero por mais. Depois eu te conto.
Ainda no ano passado, escrevi sobre a força das mulheres nos quadrinhos – como autoras e produtoras. Hoje é a vez de voltar a falar de mulher nos quadrinhos – mas de uma que vem de dentro deles: a Mulher Hulk, que completa neste mês de março seus 30 anos de existência. Foi criada no mesmo ano da fundação do National Woman History Project, uma organização educacional que traz como tema em 2010 “Writing Women Back into History”. Guardem bem isso.
Jennifer Walters, uma advogada idealista (com um histórico de defesa dos direitos de minoria, liberdades civis, e de proteção a indivíduos vitimados por corporações pouco éticas) é baleada e quase perde a vida, se não fosse seu primo Bruce Banner (isso mesmo, o Hulk) realizar uma transfusão de sangue improvisada que a salva – e infesta seu organismo com radiação gama. Essa alteração em seu sangue a transforma em uma forma de vida feminina superforte e esverdeada, tal qual seu monstruoso primo, mas com a grande diferença (e vantagem) de manter sua inteligência e autocontrole após a transformação. A tendência é essa até fora dos quadrinhos: quando o poder sobe à cabeça de alguns homens, ficam irracionais e selvagens.
Todo o carisma da personagem se deveu a isso. Não era uma descerebrada movida pelo instinto de destruir tudo o que via pela frente. Vamos combinar que os roteiros da maioria dos quadrinhos da década de 80 não eram lá geniais, mas o humor da Mulher Hulk era cativante. No entanto, o título próprio da Mulher Hulk durou só 20 edições na época. Depois disso, levou a vida como integrante dos Vingadores, Quarteto Fantástico, e até chegou a fazer dupla com o amigão da vizinhança. Passou muito tempo levando uma vida errante, mas depois do sucesso do último filme de Hulk , essa grande personagem (grande mesmo) pode dar a volta por cima e figurar em uma adaptação para o cinema.

Oh! E agora, quem poderá nos defender?
Mas não é porque ela é grande, verde e ESMAGA que a vida seria mais fácil. Ainda que seja uma mulher de personalidade, inteligente, espirituosa, advogada competente e heroína poderosa, o atributo que é levado em consideração pelos outros em primeiro lugar acaba sendo seus seios, e o resto de seu corpão que preenche as roupas minúsculas e provocativas das quais os desenhistas gostam de abusar. É como uma fã da heroína disse aqui: a objetificação da personagem através de capas hiper-sexualizadas fez com que a She-Hulk fosse vista bem mais como uma personagem que o público gostaria de levar para a cama, do que como uma personagem que o público admirasse pela personalidade. E não é o que acontece sempre? Agora imagine se o mesmo critério valesse para os homens: o Superman, com aquela cara de paisagem e jeitão sem-graça, seria um fracasso absoluto. E você também, leitor homem, que apesar de não usar cueca por cima da calça está bem longe de ser um sex symbol, teria dificuldades em ser bem-sucedido ou até mesmo manter seu emprego se seus atributos físicos valessem mais do que seu potencial e competência.
Mas nem com os superpoderes da She-Hulk metade dos problemas das mulheres estariam resolvidos. Talvez aqueles engraçadinhos, que acreditam que o ponto alto do dia de uma mulher é quando eles resolvem nos abordar no meio da rua, pensassem duas vezes antes de invadir nosso espaço com comentários abusivos sobre nosso corpo, se não quisessem ter o crânio esmagado ali mesmo (eu pelo menos, esmagaria sem dó). Agora, se mesmo com todas as conquistas da mulher em relação a seu espaço no mercado de trabalho, ainda existe uma grande desigualdade de salários e postos ocupados (ou acha que é pura coincidência que a profissão mais mal-remunerada, a de empregada doméstica, seja ocupada quase totalmente por mulheres?), não seria com os poderes da She-Hulk que seria possível reverter essa situação. Ela mesma sabe a dificuldade que é galgar degraus em uma carreira quando se usa salto alto.

And justice for us
E por isso o mês de março é tão importante, não só para a She Hulk, mas para todas as mulheres. Não para ganhar flores e mensagens dizendo o quantos somos fortes, especiais, que o mundo não seria nada sem a nossa beleza, e toda essa baboseira sem sentido. O dia 8 de março não é uma data de comemoração. É uma data de protesto. Uma data que hoje resgata o centenário da luta das mulheres trabalhadoras por uma sociedade com condições mais iguais.
Em 1910, Lena Lewis, uma das principais representantes do movimento feminista norte-americano, declarou que não era uma época para celebrar nada, mas um dia para antecipar as lutas que viriam, “quando poderemos eventualmente e para sempre erradicar o último vestígio do egotismo masculino e seu desejo de dominar as mulheres”.
Hoje é o dia em que lembramos o mundo de escrever as mulheres de volta em sua história. E que, se algum poder for concedido a nós, mulheres, que não seja o da invisibilidade. Mas, como a She Hulk, o da força.
No capítulo anterior, propus um exercício de memória que consistia em tentar lembrar, em 1 minuto, do máximo de nomes de artistas de quadrinhos que fosse possível. Através dessa brincadeira foi possível constatar algo que é fato no mercado editorial de quadrinhos: o pouco espaço que as mulheres têm, em relação aos homens, como criadoras e produtoras.
Mas existem mais mulheres nesse negócio do que a gente imagina (tanto que tive que dividir o post em dois). Aqui, continuo apresentando algumas das artistas que vão figurar no projeto da Marvel previsto para março, a GIRL COMICS, e ainda falo das brasileiras dentro do universo dos quadrinhos.

Começando com Jill Thompson, uma velha conhecida da minha prateleira. Escritora e ilustradora, a grande maioria de seus trabalhos tem alguma relação com o mestre Neil Gaiman, ora ilustrando as histórias escritas por ele, ora ilustrando e escrevendo histórias dentro do universo por ele criado.
Ela tem uma lista gigantesca e invejável de trabalhos: participou de algumas edições de “Sandman”, trabalhou na série “Livros da Magia”, “Orquídea Negra”, “Dead Boys Detectives”, “Vidas Breves” até em “Monstro do Pântano”, sem falar, é claro, do clássico e incrível “Morte – A Festa”. Fez vários trabalhos para a Darkhorse, Marvel, e tem sua própria série publicada pela Sirius Entertainment: “Scary Godmother”, adaptada para uma animação que Jill editou, dirigiu, produziu, assinou direção de arte, pintura de background, etc, etc. Ufa!

"Garotas podem ser o que quiserem! Até personificações antropomórficas de aspectos do Universo!"
Valerie D’orazio trabalhou como editora de várias séries da DC, como “Aquaman”, “Catwoman”, “Arkhan Asylum”, “Liga da Justiça”, “Crise de Identidade”, e vários outros. Mas é em seu trabalho para a Marvel, “Cloak and Dagger” (a dupla Manto e Adaga) que atuou como escritora; além de ter seu próprio livro, chamado “Memórias de uma Super-Heroína Ocasional”. Destaca-se principalmente por ser presidente da associação Friends of Lulu, que trabalha para promover as garotas na indústria de quadrinhos, como produtoras e leitoras. Não deixem de conhecer, elas até organizam Prêmios Anuais!

Aí vai outra ilustradora que trabalha bastante: Colleen Coover, artista com uma lista imensa de trabalhos já realizados para a Marvel, entre eles, inúmeras edições da série “X-men: First Class”. Vale a pena dar uma olhada na galeria dela, seu estilo é inconfundível; além do mais, ela é famosa por suas histórias lésbicas de apelo erótico (cuidado com o link).
Outras artistas que vão estar no GIRLS COMICS: Molly Crabapple , Ming Doyle e Carla Speed McNeil.
Se tem um lugar em que as mulheres não precisam se preocupar com um espaço reduzido de atuação em comparação com os homens, é o Japão. Por mais que a terra do sol nascente já tenha sido (e ainda seja, em alguns aspectos) muito machista e conservador, as artistas de lá não são tolhidas como no ocidente, onde desde cedo a gente aprende que super heróis e quadrinhos são “coisas de menino”. Isso acontece porque o mercado editorial do Japão é bem diferente, devido a uma cultura de leitura muito bem difundida. Logo, existe mangá com linguagem específica para todo tipo de público: crianças, adolescentes, adultos, sejam eles do sexo masculino ou feminino.

A grande maioria das consagradas artistas do Japão atua dentro da modalidade Shoujo (mangá para meninas), com um estilo de desenho mais delicado e com histórias que acabam focando no romance entre personagens e em conflitos emocionais (sem deixar de lado elementos como fantasia, aventura, drama e comédia). Essa é a marca registrada das meninas do estúdio Clamp, por exemplo, com sucessos como “Sakura Card Captors”, “Tsubasa Chronicles”, e “xxxHolic”.
É claro que isso não é uma regra, e a gente consegue encontrar histórias de estilo bem diferente assinadas por mulheres. Como é o caso de Shiori Teshirogi, autora da série “Lost Canvas”, de Cavaleiros do Zodíaco.
Ainda podemos encontrar mulheres altamente bem-sucedidas neste ramo, como Rumiko Takahashi, autora de “Inu-Yasha” e “Ranma ½”: seus mangás são sucesso de vendas, e é a terceira mulher mais rica de todo o Japão. É praticamente a J.K. Rowling oriental.
Vindo para o Brasil, a gente encara o outro lado do mundo e o outro extremo da situação: o próprio mercado de quadrinhos tem pouco espaço no “mainstream”, que é dominado por publicações estrangeiras. Para trabalhar com quadrinhos no Brasil, seja homem ou mulher, é preciso muita coragem para enfrentar um cenário cheio de adversidades, onde é preciso ralar em dobro para alcançar reconhecimento.
Apesar disso, temos importantes nomes para a produção nacional, como Maurício de Sousa, Henfil, Angeli, Laerte, Rafael Grampá, Fábio Moon, Gabriel Bá, Marcelo Cassaro, etc, etc. Mas por aqui, as diferenças se acentuam.
Na lista de indicados ao prêmio HQ Mix de 2009, entre os inúmeros nomes, apenas três eram de mulheres: Adriana Brunstein, indicada a melhor roteirista, Pryscila Vieira e Cibele Santos, indicadas a melhor tira nacional, com “Amely” e “Mulher de 30”, respectivamente. Será que está faltando um toque feminino em nossa produção nacional?

Calma lá, ainda temos outras boas representantes brasileiras nos quadrinhos: Erica Awano e Petra Leão, por exemplo. As duas já trabalharam juntas no que considero a melhor série brasileira de quadrinhos, a história de fantasia medieval “Holy Avenger”; a primeira como desenhista, e a segunda como roteirista de três edições especiais.

Depois de participar deste e de outros bem-sucedidos trabalhos no Brasil, Erica Awano se tornou um talento do tipo exportação, trabalhando para editoras gringas em projetos mega relevantes como a adaptação de quadrinhos do universo de Warcraft, e a série “The Complete Alice in Wonderland”, adaptação com roteiro de Leah Moore (filha do mestre Alan Moore).

Petra Leão, além de roteiros para nacionais como “Holy Avenger”, “Capitão Ninja”, “Dado Selvagem” e “Mercenários”, publicou no mercado americano sua série “Victory”, tornando-se a primeira mulher brasileira a publicar quadrinhos nos Estados Unidos. Atualmente é roteirista da “Turma da Mônica Jovem”, um inovador lançamento da editora de Maurício de Sousa.
Neste post tentei reunir algumas representantes femininas do universo dos quadrinhos, e inevitavelmente, deixei alguns nomes de fora (como de importantes artistas que o Doug lembrou nos comentários do post anterior).
Para finalizar, gostaria de chamar a atenção a um aspecto importante, que é possível observar especialmente em relação ao pouco espaço e reconhecimento dado às nossas artistas, no contexto brasileiro: este é um reflexo do espaço que não é dado à mulher, de uma forma geral, em uma sociedade expressamente machista.
As mulheres acabam sendo reféns de dois lados de uma mesma situação. Elas têm menos reconhecimento e menos espaço para produzirem seus trabalhos em uma área dominada por homens; e em razão dessa dominação masculina, são reféns de estereótipos femininos criados por eles para atender o ideal de um público também composto, em sua maioria, por homens. Afinal, faz parte do apelo ao público desta mídia utilizar personagens femininas que habitam o imaginário masculino, com atributos físicos e vestimentas que, na vida real, são rejeitados pela sociedade. Que dureza ser mulher, han.
Ainda bem que temos heroínas que já conquistaram seu espaço e vêm mostrando que, para produzir quadrinhos, não faz diferença ser homem ou mulher – desde que se tenha talento – e que as mulheres possuem muitos poderes, mas felizmente, a invisibilidade está deixando de ser um deles.
PS: Encontrei um artigo bem completo sobre o assunto. Quem quiser ler mais sobre, clica aqui. ;D
Se você é um dos aficcionados por quadrinhos que, assim como eu, cresceu em meio a um universo que vai além apenas do ato da leitura, então você está apto para um pequeno exercício mental que quero propor: marque 1 minuto em seu relógio, e dentro deste tempo tente lembrar-se do máximo possível de nomes de artistas que trabalharam em personagens e histórias geniais no mundo dos quadrinhos. Pronto? Pode começar.
Agora que o tempo acabou, responda: de quantos nomes conseguiu se lembrar? 10 nomes é uma boa média. Entre eles, aposto que a maioria – ou todos – que você conseguiu se lembrar é de homens. Mas e quanto às mulheres? Seria preciso uma forcinha extra para chegar a algum nome.
Sem dúvidas, a mulher é um elemento dos quadrinhos que não pode faltar para seu principal público consumidor: os homens. Mas, como você já deve ter imaginado pelo exercício de memória acima, não é exatamente dessas mulheres nos quadrinhos que este post trata (até porque seria possível citar mais de 20 boas personagens femininas em menos de 1 minuto). O título se refere, na verdade, às heroínas que estão por trás da criação das histórias em quadrinhos: as roteiristas, ilustradoras, produtoras, e por que não, as leitoras.

Há algum tempo, a Marvel anunciou para 2010 uma novidade que vai atingir diretamente cada uma dessas integrantes do mercado editorial de quadrinhos, e em consequência, o próprio universo das mulheres. A editora irá lançar a GIRL COMICS, uma minissérie feita exclusivamente por mulheres. E isso significa mulheres desenhando, escrevendo, letreirizando, arte-finalizando, produzindo, editando, TUDO. Não é sensacional? A primeira edição está sendo planejada para março, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, e aos 30 anos de fundação do National Women’s History Project e da primeira aparição da Mulher Hulk.
Jeanine Schaefer, a editora da minissérie, falou um pouco sobre esse projeto inovador (minha tosca tradução):
Eu definitivamente penso que mulheres e garotas vão buscar [a minissérie], mas não porque fizemos uma combinação do que poderia fazer mulheres gostarem de quadrinhos. Estou esperando que seja encorajador ver tantas mulheres que estão ganhando a vida em quadrinhos, e a ideia é reforçar que quadrinhos possam ser (e já são) tanto para elas quanto são para os homens.
Para um mercado em que a mulher já alcança alguma expressividade como consumidora (mesmo que o público dominante ainda seja o masculino, assim como os homens também estão no domínio do meio de criação e produção), este projeto da Marvel representa um grande passo para a democratização da produção cultural.
Abaixo, vocês conhecem algumas das autoras e artistas que vão trabalhar no projeto GIRL COMICS – assim, da próxima vez que você fizer o exercício de memória, irá ter alguns nomes femininos para citar! ;D

► Quem leu quadrinhos entre os anos 80 e 90 certamente já leu algo de Ann Nocenti. Foi a sucessora de Frank Miller no roteiro de “Demolidor”. Entre diversos trabalhos para a DC e ainda alguns para a Marvel, foi roteirista de “Someplace Strange“, com a participação de John Bolton, um dos meus ilustradores preferidos.

► Kathryn Immonen já participou de roteiros em “Ultimate X-Men” e “Ultimate Spiderman”, mas seus principais projetos para a Marvel foram “Runaways” (traduzido para o Brasil como “Fugitivos”), em parceria com a ilustradora Sarah Pichelli; e uma série com uma personagem originalmente criada em 1944, “Patsy Walker: Hellcat”, com arte da capa produzida por seu marido, Stuart Immonen, outro grande destaque da editora.
► Marjorie Liu era advogada recém-formada quando percebeu que não gostava da coisa e queria mesmo era ser escritora. Seus principais trabalhos para a Marvel são: “Dark Wolverine”, que conta a história do filho de Logan; e “NYX: No Way Like Home”, uma bem sucedida série de jovens mutantes desgarrados.

► Aí vai um nome que você não pode esquecer se for fã de quadrinhos: Trina Robbins. Essa é figuraça importante na história dos quadrinhos americanos e na participação das mulheres nesse mercado. Tem vários trabalhos notáveis como roteirista, escreve há mais de 30 anos e é responsável pela criação da roupa de Vampirella, além de ter feito a arte a lápis das histórias da Mulher Maravilha nos anos 80. Trabalhou em um jornal feminista underground lá pelos anos 60. Foi ela que lançou os primeiros quadrinhos só para mulheres, chamado “Ain’t me, Babe Comix”. Tem uma extensa bibliografia de não-ficção voltada para o tema da mulher nos quadrinhos – seria bom encontrar alguma dessas obras no Brasil.

► Além de atuar como roteirista, Amanda Conner também é ilustradora e já teve inúmeros trabalhos publicados pela Marvel, DC e outras editoras. É dela o traço da série “Birds of Prey”, da DC (no Brasil, “Aves de Rapina”), “Power Girl”, além de ser responsável pela arte de “SuperGirl” e “Superman: Lois Lane”, além de vários outros trabalhos. E para inveja de muito marmanjo, Vampirella já passou por suas talentosas mãos muitas vezes.
► Outra grande roteirista, Devin Grayson, fez diversos trabalhos para a DC, como: “Novos Titãs”, “Asa Noturna”, “Superman”, “Os Titãs”, algumas edições de “Batman Chronicles”, “Batman Legends of Dark Knight” e outras muitas histórias envolvendo o homem-morcego.

Fez também alguns trabalhos para a Marvel, entre eles “Black Widow” e “Black Widow: Break Down” (Grayson tem os créditos de ter escrito uma das melhores histórias da Marvel que já li, com a ruivíssima e mortal Viúva Negra, definitivamente minha heroína favorita). Tem tantos trabalhos publicados que nem dá pra listar tudo aqui. É abertamente bissexual e o trabalho dela é muito apreciado pela mídia gay.
No próximo post, listo as outras mulheres que são figuras de peso no cenário americano de quadrinhos, e também uma comparação com outros mercados editoriais desse segmento, como o japonês e o brasileiro. E é claro: vou falar da mulher como consumidora de quadrinhos.
Continua…
