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Mais uma historinha que as próximas gerações podiam ouvir desde cedo.

O dia de Lourenço começava cedo. Quase sempre com uma torrada comida no meio do caminho. O café ele deixava para tomar quando chegava no escritório, enquanto lia os e-mails. Uma olhada rápida no portal de esportes. Leitura dinâmica no jornal do dia. Um cara sempre informado.
O telefone tocou, ele sabia que era pepino. Não deu outra. Era o cliente querendo marcar uma reunião no final do dia. Ele disse que sim, tudo certo, mas a apresentação não estava pronta ainda. Ligou na hora pro Pacheco e falou para dar um jeito de agilizar tudo. Urgente.
Ainda nem era hora do almoço e ele já tinha feito quase todo o texto para colocar na apresentação. Enviou os relatórios que o chefe pediu. Foi umas três vezes na mesa da Sílvia cobrar uns documentos pendentes. Pediu um sanduíche no delivery. Ia comer no escritório, adiantar umas coisas.
A tarde passou voando. Lourenço também. No táxi, respondeu pelo celular alguns e-mails que não teve tempo de ler no escritório. Deu uma boa alongada no pescoço. Sentiu uma tensão sobre os ombros. Devia ser por causa da apresentação de logo mais.
Tudo certo, tudo lindo, mas o cliente pediu alguns ajustes antes de aprovar o orçamento. Claro. E ele, que queria vender logo o projeto, trabalhou até às três da manhã. Só se rendeu à cama quando não aguentou mais de dor nas costas.
O dia seguinte continuou estressante. Ligações. E-mails. Gente incompetente. Cobranças. Contrato fechado. Relatórios. Café. A assistente de Lourenço chegou por trás e colocou as mãos em suas costas. “Nossa! Quanta tensão, Lourenço!” Ficou impressionada com a dureza dos nós em seus ombros. Fez uma massagem gentil no chefe estressado. Mas as costas estavam tão duras, que começou a dar soquinhos. É, ela não ia dar conta. Mas indicou um spa com um ótimo massagista.
Depois do expediente, Lourenço passou lá. Tirou a camisa e deitou na cama. Suas costas deram uma baita canseira no massagista. “Vamos precisar de mais uma sessão. A coisa está feia.” Chegou no escritório reclamando com a secretária. Parecia que a dor tinha piorado. Agora mal conseguia mover os ombros.
De qualquer forma, voltou ao tal spa. Quando tirou a camisa, o massagista fez uma cara feia de espanto. Mostrou o espelho a Lourenço. Ele levou um susto. O músculo sobre os ombros estava bastante inchado. Duro como pão de antes de ontem. “É melhor procurar um ortopedista!”
Com o terno, não dava para notar o inchaço nos ombros. Mas passou o expediente todo duro, sentindo-se um cabide. Chegou no consultório e o doutor fez a mesma cara feia de espanto. Apalpou os ombros, examinou as costas, deitou ele de lado na maca, até deu umas batidinhas com um martelinho. Pediu uns exames só para ter certeza, mas a verdade é que não tinha ideia do que podia ser aquilo. Mas adiantou: “Pode ser stress.” Receitou uns analgésicos. Pediu para Lourenço tirar pelo menos três dias de repouso.
No segundo dia, voltou ao escritório. Cheio de coisas para fazer. Tomou tanto remédio que tinha analgésico saindo pelos ouvidos. Aos colegas, dizia que estava melhorando. Claro, não tinha tempo para ficar sentindo dor.
E o inchaço não dava sinais de melhorar. Ou amaciar. O pior é que a dor estava se espalhando pelas costas inteiras. Tinha vontade de pedir o seu salário todo em massagens.
Ficar sentado doía. Ficar deitado doía. Fazer alongamento doía. Passar a mão doía. Doía tanto, que se levasse um murro na cara nem ia sentir. Começou a levar uma almofada para o trabalho. Suas costas estavam duras feito parede de concreto. E a lombar começava a ficar tão bizarramente inchada quanto seus ombros.
O doutor entregou as radiografias. Não dava para saber o que era aquele inchaço. Parecia uma formação óssea. Era melhor recolher uma amostra de sangue. Achou preocupante os remédios não fazerem efeito e disse que era um inchaço bem anormal.
Em casa, Lourenço não conseguia parar de pensar. “Ai, meu Deus, será um tumor? Vou morrer?” E aí lembrou do dead line do projeto que renderia um contrato milionário. Aproveitou e enviou um e-mail pelo celular antes de deitar. Dormiu de bruços.
Foi difícil acordar. Sentia-se esmagado. Tentou levantar, mas suas costas ainda doíam. Não conseguia se virar na cama. Escorregou para o lado, tirou o pijama e pegou a toalha. Ao passar pelo espelho, quase caiu para trás. “Que porra é essa?” Olhou para as suas costas, onde agora via um bizarro casco de tartaruga. Esverdeado. Duro. Lisinho. Pesado. Não podia ser outra coisa. Era mesmo uma carapaça, uma carapaça de tartaruga!
Céus, tantos dias para nascer um casco de tartaruga, tinha que ser logo no dia em que tinha uma reunião pela manhã? Estava atrasado. Faltava terminar um relatório. Agora tinha um casco de tartaruga que precisava esconder. Ligou o chuveiro e esfregou bem o rosto. Vai que ele descobria que estava sonhando. Sofrendo alucinações por causa da dor.
Saiu do banho se sentindo bem melhor. Mas o casco continuava ali. Como uma mochila carregada de pedregulhos. Só que Lourenço não ligava mais. Agora ele tinha duas longas nadadeiras e olhos brilhantes em um rosto bem enrugadinho. Foi andando pela casa devagar e feliz. Finalmente ia conseguir tirar as tão sonhadas férias na praia.
Moral da história: Quem nunca para ainda vai ser esmagado pelo peso que carrega.
Baseado em fatos reais
Algumas coleções começam assim: deliberadamente, antes mesmo de conseguir o primeiro item. Quero colecionar selos. Moedas antigas. Anões de jardim. Mangá tal vai ser publicado, vou colecionar. Outras começam depois que o cara já tem um item e, hm, isso é legal, vou conseguir outros e colocar todos juntos na prateleira. Mas a coleção dela não. Ela só começou com isso depois que percebeu que já tinha muitos.
Ela colecionava recifenses. E não era como colecionar objetos, em que dava para colocar tudo em potinhos e exibir na prateleira. Eles faziam coisas, se moviam muito, interagiam entre si e com pessoas diversas, e na maioria das vezes, nem sabiam que estavam sendo colecionados. Então imagina que trabalhão seria para Lia colocar todos eles na sua estante.
Quando ela se deu conta que tinha muitos deles, e que aquelas pessoas amontoadas na listinha do twitter tinham algo em comum, percebeu que eram recifenses colecionáveis. A partir de então, o que Lia fazia era descobrir e observar.
Ela usava um caderninho preto, daqueles moleskines que nem pauta tinha, e escrevia com uma letra meio torta o nome deles, com arrobinha e tudo. Ao lado, colava uma etiquetinha com a foto ou com a imagem que melhor representava cada um. Fazia anotações que ninguém ia entender, mas não ligava: não colecionava isso para os outros mesmo.
Algumas anotações eram cheias de detalhes, outras bem vagas. “Cara de boina, fala pouco” ou “compõe tão bem quanto Chico Buarque” ou “saia rodada, coisas floridas, tons terrosos, igual ao cabelo. Gosta de dar ideias de fim de semana, redatora, mas tem bom gosto para fotografias como ninguém” ou “blogs com os melhores nomes ou qualquer coisa do tipo, apelido curioso, cabelo bem encaracolado (será que ainda usa assim?), escreve escreve escreve, confuso fuso horário, não tá em Recife, mas esse não me engana” ou “gosta de achar vídeos bizarros, e se satisfaz quando passa para os outros mas ninguém tem coragem de ver” e assim por diante, por muitas e muitas páginas.
Esses pequenos detalhes é que davam a Lia prazer de colecionar. Porque o melhor de sua coleção era que crescia em quantidade e em profundidade: ela podia descobrir novos recifenses, ou descobrir coisas novas nos recifenses que já tinha. Isso porque ela conseguia interagir com eles, e a cada conversa tinha algo novo para catalogar (o que não seria possível se ela colecionasse figurinhas de jogadores de futebol ou objetos da Hello Kitty).
Muita gente dizia que nordestino era tudo igual. Alguns até achavam que do sudeste pra cima, era tudo baiano. Mas Lia via o quanto eram diferentes as pessoas do nordeste, com características tão peculiares, tão próprias e notáveis; mas os recifenses, uau. Não era nenhuma tara, mas Lia os achava interessantíssimos. Não tinha um recifense igual ao outro, então ela não corria risco de ter nada repetido em sua coleção.
E Lia já tinha tantos, que chegou a um ponto em que ela não precisava procurar. Os recifenses é que iam até ela, achando que ela também era de lá. Isso facilitou as coisas, e Lia até gostou da ideia de parecer de Recife. Pesquisou blogs, abriu google maps, descobriu bandas, e selecionou alguns vídeos para ver se conseguia ensaiar aquele sotaque inconfundível. Não chegou nem perto de conseguir. Logo ela, brasiliense naturalizada, que mal conseguia balbuciar seu mineirês de origem, tentando arriscar o recifês avançado.
Um dia, Lia esbarrou com um recifense em carne e osso. Foi em um almoço com amigos; ela já tinha ouvido falar dele, mas não imaginava que ele se parecia tanto com o Otto. Ficou emocionada. Tirou sua caderneta da bolsa sob a mesa, e disfarçadamente anotou “redator, veio da Espanha, coca-cola com gelo e sem limão, salada na mesma proporção que o filé”. Com um sorrisinho satisfeito e os olhos brilhando, fechou o moleskine e colocou de volta na bolsa.
***
Depois de um tempo, Lia finalmente foi ao Recife. E seu interesse em conhecer a cidade não era exatamente pelas praias. Ela só teve um pequeno probleminha no aeroporto: desconfiaram da bagagem dela depois de descobrir uma mala cheia de caderninhos pretos.
Se não fôssemos carnívoros por natureza, ainda estaríamos pendurados em árvores e você não estaria lendo este post. O ser humano começou a caçar por necessidade; e se não fosse pelo consumo da carne e pela necessidade de caçar (e de inventar ferramentas para que isso fosse possível), nossa constituição física e engenhosidade não seriam tão diferentes dos primatas que só comiam frutinhas.
Sim, sou uma carnívora convicta. Já escrevi muito sobre isso aqui (e recomendo que LEIAM antes de encher a caixa de comentários com mimimi), e acho que não há nada de errado em matar animais para nos alimentarmos deles. Afinal, a vida não é um desenho animado – onde os predadores são sempre os vilões. Mas para quem ainda sustenta argumentos baseados nesse ponto de vista maniqueísta e infantil, só digo uma coisa: pare um pouco de assistir Coyote e Papa-Léguas e vá assistir Discovery Channel.
Tenho uma teoria sobre o porquê de vegetarianos serem um distúrbio na cadeia alimentar. Deixo vocês com a reflexão.
Animais que comem vegetais têm um predador carnívoro que os come. Sendo assim, se um humano vegetariano não come nenhum animal abaixo dele, quem é que come o vegetariano?
Este meu humilde bloguinho é equipado com uma ferramenta bem bacana que uso desde o Histórias Esquecidas: o Google Analytics. Ele oferece relatórios bem completos e elucidativos sobre a visitação do site/blog. Número de visitas, quais as páginas mais lidas, quanto tempo as pessoas gastam lendo cada página, e como encontraram o blog. No meu caso, a maioria das visitas vêm através do Twitter e das pessoas que passam pelo meu formspring. Além disso, há um grande número de visitas Direct Traffic, de pessoas que já vem direto ao meu blog por já o acompanharem sempre (o que me deixa muito feliz). Mas há um número cada vez mais expressivo de pessoas que encontram o meu blog através de mecanismos de busca (o que também é ótimo, já que o blog vai subindo no ranking desses mecanismos).

O melhor de tudo, porém, é poder ver o que a pessoa estava digitando no Google quando achou meu blog no meio do caminho. Em alguns casos, acho que a pessoa tropeçou nele. São as buscas mais insanas e improváveis que – contrariando toda a lógica – vieram parar aqui!
Eu me divertia horrores quando a Lola resolvia dedicar um post a essas estranhas buscas do Google, e então resolvi compartilhar algumas pérolas – as mais bizarras – com vocês. Abaixo, em itálico, tudo sic.
“assistir o filme em que uma mulher tem um amigo imaginario que é um menino” – Não consigo lembrar de nenhum filme com essa sinopse, mas pelo menos esse disbravador(a) do Google encontrou o post em que falo do filme em que um menino tem monstros como amigos imaginários. Que é muito mais legal. Mais um cliente satisfeito.
“caractere para orkut raio” – O que raios essa pessoa estava esperando encontrar? Seja o que for, passou bem longe. Aliás, o que teve de gente atrás de coisas para orkut e caiu aqui de paraquedas não está no gibi.
“como posso começar a destribuir a minha criação publicitária para o país” – Genial. Simplesmente genial. Você pode começar assim: primeiro, pare de perguntar coisas para o Google como se fosse um atendente de guichê. Depois procure saber – e o mais importante, entender – o que é uma agência de publicidade. Já ouviu falar? Boa sorte.
“e-mail falso no dia do seu anivesario” – Juro que não entendi. Mas acho que é mais provável receber um e-mail de parabéns verdadeiro no dia do seu aniversário de mentirinha, do que receber um e-mail de mentirinha no dia do seu aniversário verdadeiro. Sério, eu já testei isso.
“como se vestir de lobo” – A pergunta é: pra quê você vai se vestir de lobo?
“ilustracao de criancas que tenha haver com a musica velha infancia” – Um belo exemplo de como muita gente definitivamente não sabe fazer uma simples busca no Google. Ou elas fazem perguntas como se o Google fosse o tiozinho do balcão de informações, ou jogam termos absolutamente sem noção porque não devem fazer a mínima ideia do que estão procurando. Isso é ainda pior do que não saber fritar um ovo. É praticamente uma nova modalidade de analfabetismo funcional. Mas buscar uma informação na internet pode ser um processo penoso para quem não fala nem seu próprio idioma. Por isso o Google trouxe essa busca pra cá. Para me fazer sofrer com tanto erro de português. Só pode.
“mulheres negra gtalk” - Esse sujeito acha que Google é tipo o quê? Bate-papo do UOL? “Oi, estou procurando mulheres negras, altas, saradas, com gtalk e webcam. Alguém quer tc?” Não é assim que funciona, querido. O máximo que encontrou aqui foi uma usuária de gtalk meio encardidinha.
“o nome aline escrito para colocar no perfil do orkut” - Nossa, sério mesmo que isso foi tão difícil a ponto de levar essa criatura a recorrer ao Google? Aí vai: Aline. Pronto, mais um cliente satisfeito.
“o que eu faço quando os caracteres não conferem” - Depois de uma dessas, não sei nem mais o que dizer. Sério, como faz? Peço ajuda aos universitários.

ESQUILO!
“o que significa esquilo no filme up” – Se você não viu UP, está pedindo ao Google o spoiler de um dos moment… ESQUILO!… mais geniais do filme.
“o que significa inativo no orkut” - Simples. Significa sem atividade. No orkut e onde mais usar a língua portuguesa.
“obrigado por ter lembrado do meu aniversario-mensagem para orkut” - De nada, mas eu não lembrei. Eu não lembro o aniversário de ninguém. Mas o que me deixa impressionada é a total falta de capacidade dos usuários do orkut em redigir um simples “obrigado”. Se quiser algo diferente, experimente “valeu”. Funciona também.
“odeio a vida academica” – Acontece. Especialmente quando alguns professores entram na sua vida acadêmica dispostos a fazer com que você passe a odiá-la. Abraços, Rita. Mas esse semestre você está com dois fortes concorrentes.

Alô você que faz buscas no Google sobre o Orkut: GET A LIFE!
“palavras para orkut coloridas e prontas no conte algo para seus amigos” - Coloridas e prontas. Tipo uma sopa instantânea Maggi. Ê lasqueira. Mais um exemplar da espécime “aprendi usar o orkut antes de aprender a pensar e a escrever”.
“qual a importancia da redação publicitaria” - Essa na verdade foi uma busca legal. Essa pessoa passou um bom tempo lendo meu blog, e espero que tenha saído sabendo o quão importante é a redação publicitária (além de saber que importância e publicitária levam acento justamente pelo mesmo motivo ortográfico)
“porque meu aniversário não foi lembrado no orkut???” - Eu não sei, e duvido que o Google saiba. Apenas tente se conformar com o fato de que você é um mala.
“redação publicitária a distancia” - Esse seria alguém à procura de algo estilo Telecurso 2000, ou alguém que quer total distância da profissão?
“regras com ilustrações da super nani” - Olha, acho que a Super Nanny não desenha.
“scraps de aniversario bem doido” - Hahahaha! Morri! Próxima!
“vcs pode me emforma onde encontro a traduçao do x-men mt para pc” - Quem sabe quando eu (ou o Google) entender o que é “mt para pc” você possa ser “emformado”. Alguém?
Sentiram o drama? Apesar disso, espero que o Google continue mandando essas buscas para cá. Assim o meu blog sobe, ganha novos visitantes, e de quebra eu me divirto.
